segunda-feira, 27 de junho de 2016

Nunca soube por que tanta gente teme o futuro.
Nunca vi o futuro matar ninguém,
Nunca vi o futuro roubar ninguém,
Nunca vi nada que tivesse acontecido no futuro.
Terrível é o passado ou, pior, o presente!

Millôr Fernandes
O pessimista afirma que já atingimos o fundo do poço, o otimista acha que dá pra cair mais.

Woody Allen

POLICIAIS PARAM NO RIO


Lugar sem comportamento é o coração.
Ando em vias de ser compartilhado.
Ajeito as nuvens no olho.
A luz das horas me desproporciona.
Sou qualquer coisa judiada de ventos.
Meu fanal é um poente com andorinhas.
Desenvolvo meu ser até encostar na pedra.
Repousa uma garoa sobre a noite.
Aceito no meu fado o escurecer.
No fim da treva uma coruja entrava.

Manoel de Barros

HOWARD SHORE - Trilha sonora de "Depois de Horas" de Martin Scorsese, 1985


UM DEUS NÃO CRISTÃO

Numa visão  espinosiana,  crer no Deus cristão é reproduzir a relação dirigente-comandado,   governante-governado, rei-súdito, patrão-empregado, senhor-escravo, pai-filho etc;  assim,   o pensamento moderno se mantém prisioneiro de uma relação entre seres humanos, interumana, ou,  dito de um modo cristão, numa relação entre pessoas.  Deus seria uma pessoa, teria uma forma, a forma-homem. No entanto, basta considerar a existência do Infinito (tempo-espaço) para ser possível jogar por terra essa bobagem humanística, versão antropocêntrica da realidade. Não há dimensão orgânica, psíquica, existencial, espiritual, que compare em grandeza a finitude humana com o cosmos. Até porque não é uma questão de grandeza, mas de opacidade da experiência humana aos limites definidos da percepção da realidade, à cognição da realidade, esta uma produção do homem, versão utilitarista dos tempos do capital. Tudo é manipulável. Daí, nessa matéria as atitudes mais sensíveis seriam a do agnóstico, do materialista, do  ateu e  do trágico. O agnóstico admite a impossibilidade do acesso à realidade chamada divina. O materialista concebe o real como matéria (não a matéria grosseira, visível, mas a matéria como energéticas, fluxos, pulsações). O ateu se põe como o sem-Deus, admitindo o desemparo radical ante o cosmos. Por último, o trágico: este se encontra na posição dos afetos que infundem incessantemente (como na criança) linhas múltiplas do viver. A questão de Deus passa a ser "secundária". Portanto, a pergunta sobre a Sua existência ou não revela-se sem sentido, um pseudo-problema. Voltando à concepção cristã de Deus, trata-se, pois, de uma assertiva pouco inteligente mas que produz subjetividades atoladas no medo e na servidão voluntária aos poderes estabelecidos. Por que?

A.M.

GRANDES ESCRITOS


domingo, 26 de junho de 2016

Quem me garante que Jesus Cristo não estaria hoje na estatística da mortalidade infantil?
Escrevemos, escrevemos, escrevemos. Clamamos no deserto. O clube do poder tem as portas lacradas e calafetadas.

Otto Lara Resende
30.000 POR ANO

"Temos um padrão de tiroteios em massa neste país que não tem paralelo em qualquer outro lugar do mundo", disse Barack Obama após o ataque San Bernardino, em dezembro de 2015. Os 49 mortos do massacre de Orlando, acontecido no último dia 12, engrossam agora a estatística que infelizmente corrobora as palavras do presidente americano.
De acordo com o Arquivo de Violência Armada (Gun Violence Archive), uma entidade civil de Washington, “mass shooting” (“tiroteio em massa” ou “fuzilamento em massa”) é qualquer incidente em que quatro ou mais pessoas são feridas ou mortas por armas de fogo. Por essa definição, houve no território americano 136 incidentes nos primeiros 164 dias do ano (com 212 mortos e 558 feridos); entre 1º de janeiro e 12 de junho — data da tragédia em Orlando. Para o FBI (a polícia federal americana), a definição de “mass shooting” é um tiroteio que resultou em quatro ou mais mortes. Usando essa contagem, o número de incidentes cai para apenas três, com 73 mortes.
Independente da metodologia adotada, o fato é que os EUA têm anualmente mais de 30.000 mortes por armas de fogo; números que colocam o país na liderança do ranking de violência entre as nações desenvolvidas. As mortes anuais por arma de fogo, incluindo todas as origens (suicídio, assassinatos simples e “mass shooting”) nos EUA superam os óbitos por doenças cardiovasculares e perdem apenas para os falecimentos decorrentes de acidentes de trânsito. Parte dessa tragédia é atribuída por especialistas à facilidade em comprar armas no território americano; o país é líder mundial em número de armas per capita, com mais de 88 para cada 100 habitantes. Nos Estados Unidos, uma em cada três famílias possui uma ou mais armas de fogo em casa, e em 2015 chegou-se ao recorde de 23,1 milhões de armas vendidas, mais do que o dobro de 10 anos atrás.
(...)
Diego Braga Norte, Veja.com, 24/06/2016,16:57 hs

TIRANIA DA RAZÃO


Nada, Esta Espuma

Por afrontamento do desejo 
insisto na maldade de escrever 
mas não sei se a deusa sobe à superfície 
ou apenas me castiga com seus uivos. 
Da amurada deste barco  
quero tanto os seios da sereia.


Ana Cristina César
CORRUPTOCRACIA

Não se fala noutra coisa. A corrupção generalizou-se de tal forma no Brasil que ficou impossível mudar de assunto. Pode-se, no máximo, mudar de corrupto. Pela primeira vez desde a chegada das caravelas, a gatunagem é combatida em toda sua latitude. E a plateia, que morria de passividade, passou a viver uma epidemia de cólera, desnorteando as autoridades.

Uma característica curiosa da corrupção era observada nos partidos políticos. O corrupto estava sempre nas outras legendas. Agora, ele está em toda parte. Outro traço marcante era que, guiando-se por algum autocritério, todos os políticos eram probos. Hoje, são honestos apenas até a próxima delação. O suor do dedo respinga em todos —de vermelhos a bicudos. Não se salvam nem os mortos.

Não há mais alternância no poder. O que existe é uma mera mudança de cúmplices. Confirmou-se a velha suspeita de que o sistema político brasileiro não é constituído por três poderes, mas quatro: o Legislativo, o Executivo, o Judiciário e o Dinheiro, que paira sobre os outros.

Todo aquele idealismo, aquele ímpeto de servir à sociedade, aquela ânsia de entregar-se ao bem público, toda aquela conversa estava impulsionada pela grana. Para entender o Brasil, era indispensável um certo distanciamento. Que começava com a abertura de contas secretas (se preferir, pode me chamar de trusts) na Suíça.

Dois fenômenos empurram a política para os novos tempos: a disposição dos países estrangeiros de colaborar no combate à roubalheira e a percepção de que corrupção passou a dar cadeia no Brasil. Para reduzir as penas, os corruptos levam os lábios ao trombone, oferendo matéria-prima para o avanço das investigações. Hoje, quem ama o feio leva muito susto.

Ouve-se ao fundo um zunzunzum a favor da fixação de um prazo para as investigações. “Os principais agentes da Lava Jato terão a sensibilidade para saber o momento de aprofundar ao extremo e caminhar para uma definição final. Isso tem que ser sinalizado”, disse o ministro Eliseu Padilha (Casa Civil) dias atrás. Hã, hã… O país não pode ficar dez anos nessa situação”, ecoou Michel Temer. Hummm!

Já está entendido que desse mato não sai coelho. Sai apenas jacaré, Renan, cobra, Sarney, hiena, Jucá, gambá, Cunha, porco-espinho, Zé Dirceu, gorila, Vaccari e um etcétera pluripartidário. Pela primeira vez, a oligarquia é investigada, encarcerada e presa. Verificadas as circunstâncias, é possível ser otimista a, vá lá, médio prazo, e ver o lado bom das coisas, mesmo que seja preciso procurar um pouco.

Num instante em que a força-tarefa de Curitiba começa a abrir filiais em São Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco, fica claro que a saída para o combate à roubalheira é a federalização do modelo Lava Jato de investigação, uma engrenagem que tritura o crime com quatro pontas: Polícia Federal, Receita Federal, Ministério Público e Judiciário.

Se as últimas investigações demonstram alguma coisa é que o sistema político brasileiro apodreceu. A corrupção tornou-se um atributo congênito do político, como as escamas do peixe. A cosa nostra só voltará a ser coisa nossa quando os larápios se convencerem de que a festa acabou.

Como disse Temer, “o país não pode ficar dez anos nessa situação”. Contra um assalto intermitente, exige-se uma vigilância permanente. A política brasileira talvez volte ao normal se for condenada à Lava Jato perpétua.

Do blog do Josias de Souza, 26/06/2016, 04:53 hs

RENATA EGREJA


BIODIVERSIDADE

Ha maneiras mais fáceis de se expor ao ridículo,
que não requerem prática, oficina, suor.
Maneiras mais simpáticas de pagar mico
e dizer olha eu aqui, sou único, me amena por favor.

Porém ha quem se preste a esse papel esdrúxulo,
como ha quem não se vexe de ler e decifrar
essas palavras bestas estrebuchando inúteis,
cágados com as quatro patas viradas pro ar.

Então essa fala esquisita, aparentemente anárquica,
de repente é mais que isso, é urna voz, talvez,
do outro lado da linha formigando de estática,
dizendo algo mais que testando, testando, um dois três,

câmbio? Quem sabe esses cascos invertidos,
incapazes de reassumir a posição natural,
não são na verdade uma outra forma de vida,
tipo um ramo alternativo do reino animal?


Paulo Henriques Britto

JOÃO DONATO & ZECA PAGODINHO - Sambou Sambou