sábado, 19 de maio de 2018

JAIR: O SIMPLISMO CONTRA A VIOLÊNCIA

Não será fácil para o ex-paraquedista Jair Bolsonaro ganhar a eleição presidencial, por causa das suas posturas extremistas, mas corre-se o perigo de que ele contagie outros líderes políticos no que é seu ponto forte: a luta contra a violência e a tentativa de libertar o país do medo que hoje o sacode, simplificado por ele com o slogan fácil de que todos têm o direito “de voltarem vivos para casa”. Neste momento, outros candidatos, por medo de contradizê-lo ou de lhe exigir que explique como conseguiria o milagre de acabar com a violência, começam também a tentar aparecer como cruzados contra “os bandidos”. Como se isso fosse fácil diante da degradação que governo após governo, de todas as cores, a segurança pública sofreu neste país.
Nenhum candidato, por medo a ver Bolsonaro crescer, terá a coragem de afirmar na campanha que a violência não se vence com mais violência, e sim mudando pela raiz as estruturas sociais e os pecados de cumplicidade dos políticos com o banditismo. Não é verdade que bandido bom é bandido morto, ou que o policial tem carta branca para tudo, desde que seja para acabar com os delinquentes. Assim, pelo contrário, se agudiza e se exacerba a violência.
(...)

Juan Arias, El País,18/05/2018, 20:24 hs

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Lágrima Negra

Aperto fortemente a pena ingrata
entre os dedos nervosos e trementes,
e os versos jorram, claros e estridentes,
n'uma cascata, n'uma catarata!

Escrevo, e canto cânticos ardentes,
enquanto dos meus olhos se desata
uma fiada de lágrimas de prata
como um colar de pérolas pendentes...

Eu canto o sofrimento, a ânsia incontida
de amor, que é a maior ânsia desta vida,
- a vida a que a humanidade se condena!

E todo o meu sofrer, todo, se pinta
n'este pingo de dor-- pingo de tinta,
lágrima negra que me cai da pena.


Dante Milano
OH PT

O TRF-4 rejeitou nesta quinta-feira o último recurso que separva José Dirceu da cadeia. Trata-se de um embargo de declaração do embargo infringente, eufemismo para embromação. Com o retorno iminente de Dirceu para o xadrez, o PT chega a um ponto situado muito além do fundo do poço. Lula e os nomes que ele próprio considerava como opções presidenciais —Dirceu e Antonio Palocci— foram dissolvidos pela Lava Jato. Fica demonstrado que um raio pode cair várias vezes sobre o mesmo partido.

Houve um momento em que o PT poderia ter saído do caminho da ruína, tomando a trilha da ética. Em 2005, quando foi deslocado do Ministério da Educação para a presidência de um PT em chamas, Tarso Genro pronunciou a palavra mágica. Contra o desgaste do mensalão, ele sugeriu a “refundação” do partido. Continuando nessa linha, o petismo chegaria à autocrítica. Mas Tarso foi desligado da tomada pelo grupo “Construindo um Novo Brasil”, antigo Campo Majoritário —uma corrente personificada na figura de José Dirceu.

O tempo passou. Lula reelegeu-se em 2006. Em 2010, sem condições de prestigiar Dirceu e Palocci —feridos respectivamente pelo mensalão e pelo caso da violação do sigilo bancário do caseiro Francenildo—, a divindade petista fabricou o “poste” Dilma Rousseff. Nessa época, Lula cavalgava uma popularidade acima dos 80%.

O relógio correu mais um pouco. Em maio de 2014, ao discursar na convenção em que o PT aclamou Dilma como candidata à reeleição, Lula parecia adivinhar o que estava por vir. Comparou o PT original, fundado por ele em fevereiro de 1980, com o partido que ocupava a Presidência da República havia 12 anos:

“Nós criamos um partido político foi para ser diferente de tudo o que existia”, declarou. “Esse partido não nasceu para fazer tudo o que os outros fazem. Esse partido nasceu para provar que é possível fazer política de forma mais digna, fazer política com ‘P’ maiúsculo.” A Lava Jato dava seus primeiros passos. Sem suspeitar que a operação iluminaria seu próprio calcanhar de vidro, Lula foi ao ponto:

“Nós precisamos recuperar o orgulho que foi a razão da existência desse partido em momentos muito difíceis, porque a gente às vezes não tinha panfleto para divulgar uma campanha. Hoje, parece que o dinheiro resolve tudo. Os candidatos a deputado não têm mais cabo eleitoral gratuito. É tudo uma máquina de fazer dinheiro, que está fazendo o partido ser um partido convencional.”

Hoje, sabe-se que, enquanto Lula discursava, o dinheiro sujo que a Odebrecht roubara da Petrobras entrava na caixa registradora do comitê Dilma Rousseff-Michel Temer. Não é intriga de inimigo. Quem contou foi o casal do marketing petista —João Santana e Monica Moura.

Sabe-se também que o próprio Lula já havia se tornado “uma máquina de fazer dinheiro.” Afora os milhões amealhados sob o pretexto de remunerar palestras, já havia o provimento dos confortos do tríplex e do sítio. De novo, não é intriga da oposição. Além das delações de empreiteiras companheiras (Odebrecht e OAS) e das provas reunidas pela força-tarefa de Curitiba, há a palavra de Palocci.

Preso e moído pelas investigações, Palocci tentou apresentar Lula a si mesmo numa carta que enviou ao PT, desfiliando-se da legenda: “Até quando vamos fingir acreditar na autoproclamação do ‘homem mais honesto do país’ enquanto os presentes, os sítios, os apartamentos e até o prédio do Instituto Lula são atribuídos a dona Marisa?”, indagou.

A Lava Jato encarcerou a fina flor do poder petista. No momento, o PT é presidido por uma boneca de ventríloquo: Gleisi Hoffmann, ré da Lava Jato, prestes a ser julgada no Supremo. Sua única missão é convencer a plateia de que Lula, preso e inelegível, retornará ao Planalto. Embora tenha ultrapassado o fundo do poço, o PT escolheu viver no mundo da Lua. E a pergunta de Palocci continua ecoando: “Até quando?”


Do Blog do Josias de Souza, 17/05/2018, 15:58 hs



ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA

Uma megaoperação realizada nesta quinta-feira e coordenada pelo Governo federal prendeu 251 pessoas suspeitas de pedofilia e divulgação de pornografia infantil em todo o país. Desde a manhã são cumpridos 579 mandados de busca e apreensão contra centenas de pessoas suspeitas de armazenarem e divulgarem imagens e vídeos de crianças e adolescentes sendo abusados sexualmente. Segundo o Ministério da Segurança Pública, essa é a maior operação contra a pedofilia desenvolvida em um único dia no mundo.
Os presos, segundo o delegado Alessandro Barreto, coordenador do laboratório de inteligência cibernética do ministério, eram “pessoas acima de qualquer suspeita”. Foram detidos em flagrante estudantes, aposentados, autônomos, advogados, educadores e profissionais da área de saúde.
(...)

Afonso Benites, El País, Brasília, 17/05/2018, 16:17 hs

LUIS CHIOZZA - Palestra

quarta-feira, 16 de maio de 2018

A festa

Procuramos um lugar
à parte.
Como se estivéssemos
em uma festa
e buscássemos um lugar
afastado
onde pudéssemos
secretamente
nos beijar.
Procuramos um lugar
a salvo
das palavras.

Mas esse
lugar
não há.



Ana Martins Marques

JULIA - direção de Fred Zinnermann, 1977


terça-feira, 15 de maio de 2018

MAU AGOURO - TEMER E A COPA

Sob Michel Temer, já não se pode nem torcer em paz. Tite mal havia anunciado os nomes dos 23 convocados e o presidente correu às redes sociais. “Já temos a seleção para a Copa do Mundo na Rússia”, escreveu, antes de fazer sua encomenda: “Agora, Tite e equipe, com todo respeito aos nossos anfitriões e amigos russos e com humildade, por favor tragam o Caneco para casa.” Hummm…

Misturar bola com faixa presidencial não é boa coisa. Quando o portador da faixa é o presidente mais impopular do Brasil pós-redemocratização, aí mesmo é que a mistura se transforma num sinal de mau agouro.

Com seus gestos teatrais e suas mesóclises, Temer não se parece com um fanático por futebol. Ao contrário, passa a impressão de ser como a grã-fina de Nelson Rodrigues —uma personagem que se interessava tão pouco pela arte dos gramados que, se entrasse num estádio, indagaria: “Quem é a bola?”

Se o amor de Temer pelo futebol é duvidoso, seu comentário deixou boiando no ar uma certeza: vencida a Copa, o inquilino do Planalto se enrolará na bandeira e fará embaixadas com os campeões, no salão nobre do Planalto, para fabricar uma identificação entre a conquista do “Caneco” e o ocaso do seu governo.

Considerando-se que sete em cada dez brasileiros gostariam de mostrar um cartão vermelho para o presidente, corre-se o risco de parte da torcida imaginar que os cruzamentos de William colocarão Temer na cara do gol, não Neymar. Era só o que faltava: uma torcida com sentimento de culpa. A última que tentou tirar proveito político do escrete foi Dilma Rousseff. Ouviu vaias e xingamentos na abertura de uma Copa que terminou no traumático Alemanha 7 X 1 Brasil.


Do Blog do Josias de Souza, 13/05/2018, 01: 40 hs

domingo, 13 de maio de 2018

QUAL DEMOCRACIA?

Os sintomas da crise na democracia representativa multiplicam-se com a velocidade de um clique. Não dizem respeito somente ao Brasil, mas são reflexo de mudanças tecnológicas e sociais de características globais.
A política sendo dominada por partidos a serviço deles mesmos e não dos cidadãos, eleições controladas por dinheiro, a supremacia da imagem projetada nos meios de comunicação em detrimento de propostas construídas na arena pública e a corrupção sistêmica de governos, empresas e instituições seculares são preocupações em todos os continentes.
(...)

Dos editores, Época, 10/05/2018, 18:50 hs
Poeta é um ente que lambe as palavras e depois se alucina.

Manoel de Barros

ISSO É ANTIGO


NEURÔNIOS AFLITOS

A relação psiquiatra-paciente está marcada pela história do poder psiquiátrico consolidado no século XX. Nos dias que correm são muitas as suas formas. Existe, por exemplo, a psiquiatria oficial com expressão mercadológica (publicitária, midiática) obtida por meio de associações da categoria (há muitos sites à respeito) e existe a psiquiatria biológica em sua versão humanista, ou seja, a psiquiatria universitária operando pesquisas duplo-cego sob o manto  apaziguador da ciência "neutra". São formações institucionais niveladas a uma crença comum: o paciente é um organismo individual (físico-químico) avariado. Resta ao psiquiatra prescrever remédios à mão cheia. E "consertá-lo". Isso garante ao profissional do "cérebro-mente" uma estabilidade profissional, material, acadêmica, um status, território de poder para uma respeitabilidade científica. Assim, antes da terapêutica adotada, invariavelmente psicofarmacológica, o culto à ciência lhe confere o fármaco-verdade ou a verdade do fármaco. Por isso o ato de medicar se reveste de nuances quase sempre desconhecidas e é aceito, em geral, como benefício inquestionável.

A.M.


Obs.: texto revisado e republicado.
Sentir aceso dentro da cabeça

Sentir aceso dentro da cabeça 
Um pensamento quase que divino,
Como raio de luz frágil e fino
Que num cárcere escuro resplandeça.

Seguir-lhe o rastro branco em noite espessa,
Ter de uma inútil glória o vão destino,
Ser de si mesmo vítima e assassino,
Tentar o máximo, ainda que enlouqueça.

Provar palavras de sabor impuro
Que a boca morde e cospe porque é suja
A água que bebe e o pão que come é duro,

E deixar sobre a página da vida
Um verso — essa terrível garatuja
Que parece um bilhete de suicida.


Dante Milano