quarta-feira, 18 de julho de 2018

PSIQUIATRIA BIOLÓGICA


ADMIRÁVEL MUNDO NOVO

Há sinais alarmantes de que o mundo está se tornando cada vez mais volátil e turbulento. O ano de 2016 teve mais conflitos violentos que qualquer período das últimas três décadas – a maioria na África Subsaariana, no Norte da África, no Oriente Médio e no Centro e Sul da Ásia. De acordo com o relatório recém-lançadoStates of Fragility, o crescimento do terrorismo e o aprofundamento da volatilidade geopolítica contribuíram para o aumento desta fragilidade. Ao menos 560 mil pessoas sofreram mortes violentas em função de guerras e ações terroristas, e 68,5 milhões foram obrigadas a se refugiar em outros países ou a se deslocar internamente.
Embora insuficiente, a violência organizada é uma condição necessária da fragilidade. Marcados por um crescente autoritarismo, baixo crescimento, deterioração das instituições e, em muitos casos, por prolongados conflitos de baixa intensidade, Estados e cidades frágeis precisam lidar com a propagação de riscos que são cada vez menos capazes de administrar, absorver e mitigar. Dos 27 países constantemente considerados como cronicamente frágeis pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), 19 não estão em guerra.
(...)

Robert Muggah, Época, 17/07/2018, 13:16 hs


terça-feira, 17 de julho de 2018

Você pode saber o valor de toda e qualquer mercadoria. Mas se você não sabe o valor da sua alma, é tudo bobagem.

Rumi

J. MURILO


O CAMALEÃO ESPERTO (*)

Desdenhado por Lula, Ciro Gomes deixou de lado o PT. Passou a flertar com o que restou da chamada esquerda. Não houve amor à primeira vista. E o candidato piscou para o centrão. Impôs condições. Eventuais alianças com legendas como PP, PR e DEM só seriam cogitadas depois de um acerto com PCdoB e PSB, “porque a hegemonia moral e intelectual do rumo estará afirmada.” Às vésperas da convenção que o confirmará como presidenável do PDT, Ciro exibe uma solidão hegemônica. Trata inimigo como irmão. E troca a retórica da moralidade por alguns segundos adicionais de propaganda eleitoral no rádio e na TV.

No último sábado, Ciro reuniu-se com os caciques do centrão —os mesmos que depuseram Dilma Rousseff e evitaram a queda de Michel Temer, chamado por Ciro de “escroque” e “golpista”. Reiterou no encontro a disposição de suavizar suas propostas econômicas antiliberais. Nas últimas 48 horas, Ciro cortejou a cúpula do PCdoB. Primeiro, visitou o único governador da legenda: Flávio Dino, do Maranhão. Nesta terça-fera, deixou-se fotografar ao lado da presidente do partido, Luciana Santos; do antecessor dela, Renato Rabelo; e de Renildo Calheiros, irmão de Renan Calheiros e membro do comitê central do PCdoB.

Em mensagem postada no Twitter, Ciro anotou: ''Informei aos companheiros do PCdoB todos os últimos passos que tenho dado em direção a construir as bases de um novo projeto nacional de desenvolvimento… Quer dizer: o programa de Ciro pode ser algo tão difuso que se ajusta a qualquer ideologia —da direita pró-Temer à esquerda órfã de Lula. Caso o candidato consiga compor algum tipo de coligação, o eleitor estará autorizado a suspeitar que o acordo será baseado em qualquer coisa, menos em “hegemonia moral e intelectual.”


Do Blog do Josias de Souza, 17/07/2018, 16:19 hs

(*) Título criado pelo blog "O cérebro MENTE"
SEM FUTURO

Uma coisa é uma pesquisa fria revelar que 63% dos jovens brasileiros desejam buscar uma vida melhor fora do país, e outra é ficar cara a cara, como me aconteceu outro dia, com um desses jovens, em carne e osso, um técnico de eletrônica que te olhando com uns olhos visivelmente tristes, confidencia: “Estou pensando em ir embora. Eu estou procurando de Portugal até a Austrália por um lugar onde eu possa desenvolver minha profissão. Aqui, no Brasil, não tenho futuro.” E acrescentou: “Quero viver em um país sério.” Senti pena e raiva ao mesmo tempo.
O Brasil vive, de fato, um grande vazio de liderança política. Deixou de ser não só o país do futuro, como se bradou um dia, mas até mesmo do presente, onde os jovens sentem que muitos dos que os governam pensam mais em como manter seus privilégios e perpetuar-se no poder do que ouvir o que esta sociedade pede e o que rejeita. Talvez fosse isso o que o jovem entendia por um país que não é sério.
(...)

Juan Arias, El País,  17/07/2018, 16:26 hs

MICHEL PETRUCCIANI - Round midnight

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Alguns gostam de poesia

Alguns —
quer dizer que nem todos.
Nem sequer a maior parte mas sim uma minoria.
Não contando as escolas onde se tem que,
e quanto a poetas,
dessas pessoas, em mil, haverá duas.

Gostam —
mas gosta-se também de sopa de espaguete,
dos galanteios e da cor azul,
do velho cachecol,
brindar à nossa gente,
fazer festas ao cão.

De poesia —
mas que é isso a poesia?
Muitas e vacilantes respostas
já foram dadas à questão.
Por mim não sei e insisto que não sei
e esta insistência é corrimão que me salva.


Wislawa Szymborska

RESSACA PÓS COPA


AUTOVERDADE E POLÍTICA

(...)
Embora o conteúdo do que Bolsonaro diz obviamente influencia no apoio do seu eleitorado, me parece que ele é mais beneficiado pelo fenômeno que aqui estou chamando de autoverdade. O ato de dizer “tudo” e o como diz o que diz parece ser mais importante do que o conteúdo. A estética é decodificada como ética. Ou mesmo colocada no mesmo lugar. E este não é um dado qualquer.
Por isso também é possível se desconectar do conteúdo real de suas falas, como fazem tantos de seus eleitores. E por isso é tão difícil que a sua desconstrução, por meio do conteúdo, tenha efeito sobre os seus eleitores. Quando a imprensa mostra que Bolsonaro se revelou um deputado medíocre, que ganhou seu salário e benefícios fazendo quase nada no Congresso, quando mostra que ele nada tem de novo, mas sim é um político tão tradicional como outros ou até mais tradicional do que muitos, quando mostra que falta consistência no seu discurso, assim como projeto que justifique seu pleito à presidência, há pouco ou nenhum efeito sobre os seus eleitores. Porque o conteúdo pouco importa. As agências de checagem são um bom instrumento para combater as notícias e as declarações falsas de candidatos, mas têm pouca eficácia para combater a autoverdade.
(...)

Eliane Brum, El País, 16/07/2018, 15:34 hs
Não entendo o porque das pessoas pensarem sempre no pior e não no mais provável que é pior ainda.

George Carlin
   

domingo, 15 de julho de 2018

ALEXIS ZAITSEV


Por um acaso

Poderia ter acontecido.
Teve que acontecer.
Aconteceu antes. Depois. Mais perto. Mais longe.
Aconteceu, mas não com você.
Você foi salvo pois foi o primeiro.
Você foi salvo pois foi o último.
Porque estava sozinho. Com outros. Na direita. Na esquerda.
Porque chovia. Por causa da sombra.
Por causa do sol.
Você teve sorte, havia uma floresta.
Você teve sorte, não havia árvores.
Você teve sorte, um trilho, um gancho, uma trave, um freio,
um batente, uma curva, um milímetro, um instante.
Você teve sorte, o camelo passou pelo olho da agulha.
Em consequência, porque, no entanto, porém.
O que teria acontecido se uma mão, um pé,
a um passo, por um fio
de uma coincidência.
Então você está aí? A salvo, por enquanto, das tormentas em curso?
Um só buraco na rede e você escapou?
Fiquei mudo de surpresa.
Escuta,
como seu coração dispara em mim.


Wislawa Szymborska

RIO DE LAMA

Clínica dos afetos - I

Contemplando-se a história da psiquiatria, está ausente o estudo dos afetos. Isto se deve, pelo menos, a que 1- os afetos são expressões subjetivas que estão à margem das codificações científicas; incompreensíveis e opacos. 2- eles implicam, antes de tudo, no funcionamento de relações, o que atinge em  cheio a relação de poder do médico com o paciente, tema constrangedor para o psiquiatra. Estas são linhas de pesquisa que operam a subjetividade e o poder.  Observe o declínio hoje da psicopatologia (onde estariam os modos de subjetivação?) e o lugar científico de uma psiquiatria supostamente asséptica, longe do mundo "sujo" do poder: a neuromania. Ao avesso, uma clínica dos afetos trabalha com os afetos enquanto real único e múltiplo, realidade social, realidade do mundo, vida. Não como uma transcendência (alturas ou profundidades imaginárias) mas como territórios existenciais inseridos num universo planetário cada vez mais esvaziado de sentido (tempos internéticos/capitalísticos).

A.M.