quarta-feira, 22 de março de 2017

A psiquiatria biológica: uma bolha especulativa? 

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Para Jacques Hochmann, a especificidade do psiquiatra reside no fato de que ele deve confrontar, no cotidiano, três paradoxos. Primeiro, ainda que formado em medicina somática – e esta formação é necessária –, a neurobiologia atual quase não o guia em sua empreitada. Em segundo lugar, ainda que para a medicina somática a fronteira entre o doente e o saudável seja nítida, no paciente psiquiátrico, mesmo o mais louco, há sempre uma parte sã, uma consciência ao menos parcial de sua loucura. Enfim, em terceiro lugar, nas suas decisões terapêuticas, o psiquiatra deve preservar não somente os interesses do paciente, mas também os do seu ambiente e da sociedade. Esta especificidade da psiquiatria justifica sua separação da neurologia e não deveria ser recolocada em questão enquanto o primeiro paradoxo não seja resolvido. Ora, nada anuncia maiores progressos em psiquiatria biológica para os próximos decênios.Defendo, portanto, uma pesquisa em neurociências cuja criatividade não esteja amarrada por objetivos terapêuticos a curto prazo; uma prática psiquiátrica nutrida pela pesquisa clínica e uma desmedicalização do sofrimento psíquico. Parece-me que, mais que os Estados Unidos, os países europeus souberam preservar as competências necessárias a esses dois últimos objetivos. É uma via como esta que deveríamos explorar.  (grifos nossos)

François Gonon, in Revue Espirit, 2011
CUIDADO!  INTERNET

Os criadores de notícias falsas que circulam no submundo da internet nutrem o abominável costume de usar mortes como motes para suas lorotas. Foi assim quando a ex-primeira-dama Marisa Letícia Lula da Silva morreu, por exemplo, e assim tem sido nos últimos dias, após a morte do advogado Adriano de Rezende Naves, de 42 anos.

Naves morreu na sexta-feira passada, depois de cair do 19º andar do prédio da Câmara no Congresso Nacional, em Brasília. O trágico caso – que, ao que tudo indica, foi suicídio, de acordo com a Polícia Civil – motivou a manchete “Advogado se suicida no Congresso Nacional em protesto contra Temer”, propagada por sites como o Saúde Vida e Família, notório pela falta de credibilidade, e o Blasting News.

Depois de ponderar cinicamente que “preferimos não mencionar o nome em respeito a um pedido da família”, o texto inventa sem pudores:

“A polícia não disse se o advogado teria mesmo pulado ou se foi assassinado. No entanto, segundo relatos de testemunhas, que fizeram vídeos nas redes sociais, o homem teria feito um protesto contra o atual presidente da república, Michel Temer, do PMDB, além da reforma da previdência”.
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João Pedroso de Campos, Veja.com, 21/03/2017, 20:35 hs

terça-feira, 21 de março de 2017

AUGUST MACKE


ONDE VIVE A DIFERENÇA

A diferença não é um objeto sólido, visível, palpável, identificável em alguém ou em algo à nossa frente.Ela não se presta à relações estabelecidas pelo senso comum, ou mais, ou pior ainda, pelo bom senso das razões intelectuais, mesmo as mais elevadas. Nada mais baixo que ela ao nível da terra, nada mais sutil ela, quase imperceptível. Olhar de lince: a diferença. Ela se dá e se doa apenas a sensibilidades em estado selvagem, a animalidades circulando nos corpos da rua, na luz das veias inundadas por desejos sem órgãos, sem sistemas, sem métodos, sem deuses, sem respostas. A diferença é o bicho. Vive na espreita e da espreita. Surge quando menos se espera e não compactua com percepções grosseiras das formas do mundo adulto e acabado. Por isso e muito mais assusta os idólatras e os escravos das ordens mortuárias quando bem o dia está raiando num cheiro de acácias. A diferença, ela própria, não tem uma identidade, uma definição, nunca ninguém a fotografou. Não é uma imagem, ao contrário, ela é quem faz e tece imagens. Não tem rosto pois é ela quem o fabrica. Ele se torna, então, alegria aos montes vivendo no equilíbrio precário das linhas da arte. Inventa algo, alguma coisa pequena, ínfima, pura criação no e do tempo, ou o próprio tempo em "estado puro", a diferença, uma criança.

A.M. 
Outono

Ó amplos espaços, longe  das cidades febris!
Ó vastos mares brilhantes! Florestas de pinheiros! Montanhas selvagens!
Praias rochosas! Pântanos agrestes e encostas sem rebanhos!
Enormes nuvens pálidas! Espaços azuis imaculados!
Espaço" Dêm-me espaço! Dêm-me ar e solidão!
Liberdade e abundância nas vossas belas regiões.

Ó Deus das montanhas, estrelas e espaços infinitos!
Ó Deus da liberdade e das canções alegres!
Quando o teu rosto fôr contemplado por toda a gente,
Haverá espaço suficiente nos mercados apinhados.
Envolve-me, e o tumulto acabará.
O teu universo será o meu refúgio de porta fechada.

George MacDonald
O HORROR NOSSO DE CADA DIA

Cerca de 20 milhões de pessoas enfrentam uma "epidemia" de fome que atinge o Iêmen, o Sudão, a Nigéria e a Somália.
Essa situação foi classificada pela Organização das Nações Unidas (ONU) como a “pior crise humana desde 1945”.
A organização estima que seja necessário investir US$ 4,4 bilhões (R$ 13,9 bilhões) em ajuda humanitária e outros esforços até julho para evitar um desastre.
Muitas das vítimas dessa tragédia são crianças: mais de 1 milhão correm o risco de morrer.
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BBC Brasil, 21/03/2017

ORQUÍDEAS ETERNAS


OS CASTOS

A busca de razões para a queda da natalidade no Japão tornou-se uma obsessão nacional. E os mais novos suspeitos da lista, segundo um estudo oficial, são os homens e mulheres que amadurecem sem nunca ter provado o sexo. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas sobre População e Seguridade Social, organismo que examina tendências de vida para projetar políticas sociais, mais de 40% dos japoneses e japonesas entre 18 e 34 anos são virgens.
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Gonzalo Robledo, El País, 20/03/2017
um grito apenas não basta

um grito apenas não basta
para abolir todo o silêncio que cultivamos


Eudoro Augusto

segunda-feira, 20 de março de 2017

A PÍLULA

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P. Vivemos em uma sociedade na qual precisamos pensar que os remédios podem resolver tudo?

R. Foi o que nos incentivaram a acreditar. Nos anos cinquenta, foram produzidos avanços médicos incríveis, como os antibióticos. Nos anos sessenta, a sociedade norte-americana começou a achar que havia uma fórmula mágica para curar muitos problemas. Na década de oitenta, foi promovida a ideia de que se uma pessoa estava deprimida, não era pelo contexto de sua vida, mas sim porque ela tinha um distúrbio mental – era uma questão química e havia um remédio que a faria se sentir melhor. O que se promoveu nos Estados Unidos, na realidade, foi uma nova forma de viver, que foi exportada para o resto do mundo. A nova filosofia era: você precisa ser feliz o tempo todo e, se não for, temos uma pílula. Mas o que sabemos é que crescer é difícil, surge todo tipo de emoções e é preciso aprender a organizar o comportamento.

P. Buscamos o conforto e o mundo vai se parecendo com aquele descrito por Aldous Huxley em Admirável Mundo Novo...

R. Desde agora. Perdemos a noção de que o sofrimento faz parte da vida, de que às vezes é muito difícil controlar a própria mente. As emoções que sentimos hoje podem ser muito diferentes daquelas da semana ou do ano seguintes. E nos fizeram ficar alertas o tempo todo em relação a nossas emoções.
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Joseba Elola, El País, entrevista com o jornalista Robert Whitaker, 06/01/2016

DEAD CAN DANCE - The Carnival Is Over


Não entendo o porque das pessoas pensarem sempre no pior, e não no mais provável, que é pior ainda.

George Carlin
DESEJAR, VERBO INTRANSITIVO

A origem da palavra desejo é muito bonita. O verbo desidero vem da palavra sidero, que significa “relativo aos astros”, ou também “conjunto de estrelas” (ex: espaço sideral). Sendo assim, de-sidero significa “ignorar as estrelas”, ou também, “deixar de ver as estrelas”, em seu sentido astrológico. Se as estrelas na antiguidade eram o elo de ligação entre os homens e os deuses então desejar significa ficar à deriva, à mercê, nas rodas da fortuna, deixar de guiar-se pelas mensagens divinas.

Apesar da bela origem, suas repercussões em nosso mundo são as mais nocivas. Desejo como falta, doença, incômodo, defeito, carência, vazio que busca preenchimento. Esta concepção atravessou os séculos: Platão, estoicos, cristãos, Hegel, Schopenhauer, Freud, Sartre. O mal-entendido do desejo, ou pelo menos, a má definição do conceito de desejo, pode ser considerada uma das mais cruéis heranças que o platonismo e o cristianismo nos legaram!

Por isso a importância de redefinir este conceito. O desejo como falta é uma mistificação nociva. Espinosa afirma que para nos tornarmos humanos temos que afirmar nossa natureza desejante. Mas como? Isso com certeza não significa ser inconsequente, os ignorantes tem uma visão errada do que significa desejar e dar vazão ao desejo, eles pensam que significa apenas não ter medidas. Mas este desejo vira busca interminável e desesperadora: o homem da imaginação, do primeiro gênero do conhecimento, investe no exterior: o desejo vira objeto. Ele perde o que há de mais íntimo em si para errar por entre ideais e utopias.

Este homem da imaginação se vê incompleto porque cria seus próprios senhores através de generalizações, a quem depois serve em busca de glórias e riquezas. Esta forma de desejar não é nada mais que a expressão da impotência do homem. Este desejo de ideais vira desejo de futuro, um futuro que nunca chega. E assim, abre-se um buraco no meio do homem chamado incompletude.
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Rafael Trindade, do blog Razão Inadequada, 01/12/2013

GRANDES ESCRITOS