segunda-feira, 6 de abril de 2020

As convicções são inimigos mais poderosos que as mentiras. É impossível expandir o pensar quando a mente está ancorada em opiniões intocáveis. Siga o exemplo dos estrategistas clássicos, militares inclusive.

Nietzsche
    

domingo, 5 de abril de 2020

APERTURE - Edward Clug (NDT 1 | Soir Historique)

A ARTE DO ENCONTRO

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Todo encontro é marcado por contingências.  O coletivo “antecede” o socius  na produção de  subjetividades . Tudo  se mistura. Se  existe  algo  que escapa aos códigos  estáveis da  razão é o modelo do delírio (um anti-modelo na verdade) que  nos guia  e  impulsiona. Assim,  temos:  o coletivo=o delírio ( código  psiquiátrico  =  a psicose) numa série abstrata tornada concreta na  clínica ou em qualquer situação onde uma zona (existencial) de fronteira se mostre como realidade bruta. Essa é a questão dos campos vivenciais passíveis de contato. Eles são  heterogêneos por sua própria natureza. O contato imediato é com a aventura do Acaso,do Indeterminado e do Desconhecido. Desse modo, o encontro de um terapeuta com o seu  paciente  pode começar no “interior” de si mesmo, em meio  a múltiplos “eus”.  Subjetivo e objetivo se tocam e se trocam...Entramos e estaremos a entrar numa terra de ninguém, inumana, cósmica, via sem retorno, mundo  de Lovecraft. Para fazer uma clínica da  diferença, é preciso a não-clínica  que  com ela  produza territórios subjetivos concretos.Usando a equação  clínica=patológico, o técnico verá o paciente como coisa, ainda que uma coisa valiosa.  Ao contrário, o encontro busca o lado ativo do infinito, o processo, enfim, das  relações  sociais  e  coletivas. 
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A.M. in Trair a psiquiatria
E AS CRIANÇAS?

Uma das crenças a respeito do novo coronavírus é a de que, enquanto os idosos formam um grupo de alto risco, as crianças estão protegidas. Mas essa narrativa traz perigos: embora sejam poucos, existem casos preocupantes de crianças e jovens com a saúde seriamente afetada pela infecção.

Assim como os adultos, crianças expostas ao vírus podem apresentar os sintomas da covid-19. A boa notícia é que a maioria dos casos parece não ter gravidade.
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Por BBC,05/04/2020, atualizado há 52 min.

sábado, 4 de abril de 2020

ALEXIS SLUSAR


COVID E SAÚDE MENTAL - II


O vírus destrói não só o organismo humano, mas tudo o que está em volta: a produção da vida. O que está em volta é a produção social (econômica e semiótica) como o que antecede e determina a vida individual. A pandemia expôs cruamente e cruelmente o nervo da infelicidade subjetiva da modernidade triunfante: o voltar-se para um "mundo interior" quando não há "mundo interior". Há só uma maquinação de ilusões. Tudo está exposto, tudo sempre esteve exposto,e hoje, baseado na arrogância do humanismo cientificista (a ciência quer sempre o bem da humanidade) o discurso planetário do bem estar egóico cai de joelhos frente a um ser (vírus é vida? perguntam os doutos) tão pequenino. O estrago sobre a saúde mental contempla a todos, sejam os pacientes, sejam os que lidam com o paciente. No fim das contas, pacientes e não-pacientes já estão de fato atolados num território de dissolução de sentido. E sem respostas de cura.

A.M. 
Nasci para administrar o à-toa, o em vão, o inútil. Pertenço de fazer imagens. Opero por semelhanças.
Retiro semelhanças de pessoas com árvores, de pessoas com rãs, de pessoas com pedras, etc.
Retiro semelhanças de árvores comigo.
Não tenho habilidade pra clarezas. Preciso de obter sabedoria vegetal.(Sabedoria vegetal é receber com naturalidade uma rã no talo.)
E quando esteja apropriado para pedra, terei também sabedoria mineral.

Manoel de Barros

PAULO GHIRALDELLI

A DISSOLUÇÃO DO SENTIDO

Alain Touraine (Hermanville-sur-Mer, 1925) é um dos últimos sobreviventes de uma geração brilhante que marcou as ciências sociais e o pensamento ocidental desde meados do século XX até o início do XXI. Como sociólogo, seu campo de estudos abrangeu desde as fábricas que no pós-guerra elevaram o país à sociedade pós-industrial até os movimentos sociais e a crise da modernidade. Com suas intervenções no debate público —na França, mas também em outros países europeus, como a Espanha, e na América Latina—, Touraine se tornou uma referência do que em seu país chamam de segunda esquerda —de caráter social-democrata e claramente antitotalitária. O sociólogo conversou com o Ideias por telefone de sua quarentena em Paris.


PERGUNTA. Estamos em guerra, dizem Donald Trump, Emmanuel Macron e Pedro Sánchez. É correto?

RESPOSTA. Tecnicamente, quem enfrenta a guerra é um exército. Que invade o território do país B. São necessários pelo menos dois agentes e ocorre entre humanos. Aqui, em vez disso, o que vemos é o humano contra o não humano. Não critico o uso da palavra guerra, mas seria uma guerra sem combatentes. Não há estrategista: o vírus não é um chefe de Governo. E, do lado humano, acho que vivemos em um mundo sem atores.

P. Sem atores?

R. Nunca tinha visto um presidente dos Estados Unidos tão estranho como Donald Trump, tão pouco presidencial, um personagem tão fora das normas e fora de seu papel. E não é por acaso: os Estados Unidos abandonaram o papel de líder mundial. Hoje não já há nada. E na Europa, se você olhar para os países mais poderosos, ninguém responde. Não há ninguém no topo.
(...)

Marc Bassets, El País, 31/03/2020, 16:20 hs

sexta-feira, 3 de abril de 2020

MARISA MONTE - Para Ver As Meninas

PERGUNTAR  NÃO  OFENDE 

Pergunta - Qual o objeto da psiquiatria?

Resposta - O objeto da psiquiatria é a mente.

P- E o que é a mente?

R- A mente é um construto teórico envolvendo múltiplos saberes. Por esse motivo não há um consenso sobre "o que é a mente". Importa compreender que ela não é uma "coisa", não sendo possível visualizá-la, medi-la, etc. Ninguém nunca "viu" a mente de alguém. Para fins de pesquisa e intervenção prática (clínica), ela é um conjunto de processos subjetivos diretamente lincados com o ambiente social. Dito de outro modo, não existe a mente e depois o "social" e sim a dimensão social como constitutiva da mente. Se se pode falar de "essência", a mente é essencialmente composta de mil tipos de relações (sociais, familiares, humanas, institucionais, cósmicas, etc), todas incidindo no que se chama subjetividade. A subjetividade, portanto, vem de fora, vem do mundo.

P- E como a psiquiatria pesquisa e intervém sobre a mente?

R- Infelizmente, a psiquiatria oficial, biológica, acadêmica, manicomial, não pesquisa a mente. Não produz conhecimento. Quanto à intervenção prática, ela o faz sobre o cérebro e o comportamento social.  O primeiro, ela acredita fazer funcionar melhor. O segundo, ela acredita controlar.

P- Não entendi. Então, o objeto "dessa" psiquiatria não é a mente?

R- Não, não é.



A.M.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

MAIS E MAIS

Quero cruzadas e martírio. O mundo é demasiado pequeno para mim. O mundo é pequeno demais. Estou cansada de tocar guitarra, fazer malha, passear, parir crianças. Os homens são pequenos e as paixões são curtas. Irritam- me as escadas, as portas, as paredes, irrita-me o dia a dia que interfere na continuidade do êxtase. Existe pois o martírio - tensão, febre, da continuidade da vida - firmamento em perpétuo movimento e brilho total. Nunca se viram estrelas empalidecer ou cair. Nunca adormecem.
(...)

Anaïs Nin

Sonetilho de verão

Traído pelas palavras. 
O mundo não tem conserto. 
Meu coração se agonia. 
Minha alma se escalavra. 
Meu corpo não liga não. 
A ideia resiste ao verso, 
o verso recusa a rima, 
a rima afronta a razão 
e a razão desatina. 
Desejo manda lembranças. 


O poema não deu certo. 
A vida não deu em nada. 
Não há deus. Não há esperança. 
Amanhã deve dar praia.


Paulo Henriques Brito