sexta-feira, 30 de outubro de 2020

NOMES TROCADOS

O trabalho com o conceito é duro porque implica em práticas concretas, inadiáveis. “Ela tentou se matar”. Assim, quando se fala em “preconceito” a ideia é assinalar um erro de avaliação ante um objeto visado. Mas a questão é mais profunda. “Conceito” remete ao real, não a um real dado, estabelecido, mas a um real a se criar, a se produzir, a se inventar. Pensar é criar conceitos, alguém já disse. Vamos ao ponto. A psiquiatria, não só como especialidade médica (todos sabem) mas como forma social (ninguém fala) ocupa, óbvio, um lugar na Saúde Mental. Isso faz por embaralhar (como se embaralha cartas) o real significado das práticas clínicas em serviços de saúde mental. Ou seja, o cuidado ao paciente e a ação do técnico em saúde mental se tornam reféns da cloaca epistemológica da medicina. Tudo em nome dos ideais humanitários que nutrem regimes de mando e comando, ainda que democráticos.  O fato é que quando se fala sobre um serviço ambulatorial de saúde mental, talvez se fale do ambulatório (maquiado de tratamento) da antiga jovem psiquiatria dos muros.  Por outro lado, quando se fala de um centro de atenção psicossocial, estou convencido de que aí funciona (em tempos covídicos) a verdadeira prática dos técnicos em saúde mental. Ela se traduz na criação (às vezes inglória) de uma ética do cuidado ao paciente, sim, sim, um ambulatório de saúde mental. Por enquanto...


A.M.

BEM-VINDO À CHECHÊNIA

Há um desconforto que acompanha o espectador durante todo o documentário "Welcome to Chechnya" (Bem-Vindo à Chechênia), exibido no Brasil pela primeira vez dentro da programação online da 44ª Mostra de Cinema de São Paulo, e que estreia em 18 de novembro nas plataformas on demand.

Primeiro pelo óbvio: o filme revela em detalhes a terrível cruzada contra gays e lésbicas na Chechênia, pequena república de maioria muçulmana, no sudoeste da Rússia. Ali, homossexuais são alvos das autoridades e de suas próprias famílias, encorajadas a matar os entes com comportamentos considerados "desviantes".

"Quero que pensem em ter filhos travestis", provoca Linn da Quebrada

As imagens interceptadas de grupos radicais, que registram os ataques como troféus, são bastante gráficas e chocam. Em pleno século 21, um país prende, tortura e mata pessoas por simplesmente serem homossexuais. É como se Gilead, o regime autoritário da obra distópica "O Conto da Aia", de Margaret Atwood, existisse ali do outro lado do mundo.

(...)

Tiago Dias, do TAB,29/10/2020, 04:00 hs

domingo, 25 de outubro de 2020

 3x4

um parafuso a menos

explica o sorriso frouxo


Zack Magiezi

LER  VIRILIO

Todas as tecnologias atuais reduzem a expansão a nada. Elas produzem distâncias
cada vez menores – uma fábrica de contração. Ora, um território sem temporalidade
não é um território, mas apenas a ilusão de um território. É urgente que fiquemos
alertas para as repercussões políticas de tal tratamento do espaço-tempo, pois elas
são“aterradoras.” O campo da liberdade se contrai com a velocidade. E a liberdade
precisa de um campo. Quando não houver mais campo, nossas vidas serão como um
“terminal,” máquinas com portas que se abrem e fecham. Um labirinto para animais
de laboratório.
(...)

Paul Virilio, 1984

MINJAE LEE

 


sábado, 24 de outubro de 2020

10 ANOS DE CAPS: RELATOS DO TEMPO -18

30 de junho de 2014

A questão da identidade do “ser-psiquiatra”  infernizava a alma das coisas e a minha própria. Não fazia muito tempo, pessoas importantes (elas se achavam) iam e vinham num círculo de repetição institucional voltado a manutenção de um partido (único) no poder. A estatura ética da psiquiatria manicomial, acadêmica, neurobiológica era repugnante. Eu: ofício de agente duplo se afirmou como estilo técnico. Delirar e deleitar na intimidade das sinapses ajudou o psiquiatra a se manter vivo. As reuniões da equipe técnica (desde sempre na quarta) promoviam o trabalho de fabricação da aparência de um Caps humanístico como todo Caps. Isso fazia parte do funcionamento da forma—Estado. Do fundo da psicopatologia esgotada pelos psicofármacos à mão cheia, erguia-se a clínica dos crônicos, onde e de onde se avistava a foto coagulada dos antigos manicômios. Corria 2014: o país se preparava em direção ao giro do caos enquanto a loucura gerava formas psicóticas e neuróticas afins ao regime das sombras. Tudo em nome da democracia.A política dava sinais de deterioração da subjetividade em prol de um retardo mental do estado. Um coração psiquiátrico tornara-se mente. O que eu quero dizer mesmo é que o país avançava em não avançar. Onde se trabalhava, os transtornos eram cada vez maiores. Tempos obscuros em que a saudade espirraria fluxos de melancolia política tidos como novidade.


A.M. 


quarta-feira, 21 de outubro de 2020

 Poesia exploratória a você


Quem alisa meus cabelos?

Quem me tira o paletó?

Quem, à noite, antes do sono,

acarinha meu corpo cansado?

Quem cuida da minha roupa?

Quem me vê sempre nos sonhos?

Quem pensa que sou o rei desta pobre criação?

Quem nunca se aborrece de ouvir minha voz?

Quem paga meu cinema, seja de dia ou de noite?

Quem calça meus sapatos e acha meus pés tão lindos?

Eu mesmo.


Millôr Fernandes

sábado, 17 de outubro de 2020

Causa mortis:

Traumatismo craniano.

Fruto de mergulhos profundos

Em pessoas rasas.


Zack Magiezi

10 ANOS DE CAPS: RELATOS DO TEMPO - 17

19 de março de 2014

Aventuras raras em tempos de mesmice. As visitas domiciliares eram uma linha de pesquisa ao ar livre e ação prática. "Um pouco de ar senão eu sufoco". Coisa nova na minha historia profissional, pelo menos como dispositivo-do-caps. Elas traziam a questão do “fora do Caps mas dentro do Caps” e de como a psiquiatria, na sua bio-neuro-versão-atual estava distante da realidade, e portanto do paciente. Um psiquiatra sem o eu como centro de si, já disse, era a identidade profissional que rachava nas superfícies do mundo. Haveria que citar muitos nomes de colegas que, em meio a circulação urbana (e às vezes rural) na busca de endereços “fantasmas”, exerciam a aliança técnica e pessoal num trabalho difícil, surpreendente, e por isso instigante. Não posso deixar de citar o companheiro Marx, Rose, Mislaine, Letícia, Vinícius, entre outros, além dos mil motoristas, rotativos a cada semestre e a cada ano. O certo é que as visitas tinham o gosto do acaso, do desconhecido e do indeterminado na clínica da saúde mental. O locus visitado nem sempre correspondia ao locus imaginado. E nos virávamos na arte das experimentações. Anos depois, precisamente após 2017, o dispositivo “visitas domiciliares” incorporou-se à técnica do cuidado como arte e ética de um Caps comprometido com a Vida. Mas isso é assunto para outros textos.


A.M.


ANNA RAZUMOVSKAYA


 

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Mundo Pequeno I


O mundo meu é pequeno, Senhor.

Tem um rio e um pouco de árvores.

Nossa casa foi feita de costas para o rio.

Formigas recortam roseiras da avó.

Nos fundos do quintal há um menino e suas latas maravilhosas.

Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas com aves.

Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco,

os besouros pensam que estão no incêndio.

Quando o rio está começando um peixe,

Ele me coisa.

Ele me rã.

Ele me árvore.

De tarde um velho tocará sua flauta para inverter

os ocasos.


Manoel de Barros

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

A  SAÍDA  É  LOGO  ALI

A experiência capsiana é (ou deveria ser) movida por dois conceitos.  São eles: o “cuidado ao paciente” e o “técnico em saúde mental”. A criação destes conceitos emerge no interior  da prática com o paciente. É aí onde o “psicossocial” interpela o “biomédico” como parte de uma luta diária em prol de regimes ético-estéticos inauditos. Isso pode parecer estranho e demasiado abstrato. Lamento que não o seja ainda mais abstrato: é que o puro afeto não tem forma. A abstração ordinária (perda das formas instituídas) está inscrita em cada gesto como o que inova e faz dos modelos fixos peças recicláveis em arranjos clínicos disformes. O Caps é a clínica-linha como signo de vida da crueza do real-social. O cuidado ao paciente funciona em alianças institucionais e fluxos atrevidos rasgando convenções arcaicas. Isso margeia a periferia dos espíritos que resistem à infâmia e a vergonha. O técnico em saúde mental é o que ultrapassou as divisões entre disciplinas e entre os saberes e se transferiu para a técnica, aí onde já não há mais fronteiras. O contato com a loucura (este não é um conceito médico) é regido pela percepção do caos da psicopatologia num mundo fora e dentro de nós, técnicos do equilibrismo. Sim, não é para qualquer um. Diante disso, o planejamento sombrio de um serviço ambulatorial em saúde mental dispara na contra-corrente das práticas clínicas de autonomia subjetiva. Tal serviço parece mais um cisto parasitário do corpo coletivo, tudo em nome da verdade médica. Como calar?


A.M.