domingo, 18 de fevereiro de 2018

NORMAL

Policiais da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) Salgueiro, foram atacados a tiros, na manhã deste domingo, ao realizarem patrulamento na comunidade, na Tijuca, Zona Norte do Rio. Segundo o comando da UPP, a guarnição passava pela Rua Junquilho quando foi atacada, por volta das 9h. Houve confronto no local e os criminosos fugiram.

Ainda de acordo com o comando da UPP, não há registro de presos ou feridos na ação e o policiamento foi intensificado na região. Nas redes sociais, moradores relataram intenso barulho de disparos na região.
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Extra, 18/02/2018,11:00 hs

A QUEM SERVE O CAPS? - II

A psicose e a neurose grave são indicações para o Caps. Mas, do que se trata? Comecemos pelo múltiplo. Não há a psicose nem a neurose. Isso evita o naufrágio médico em transcendências clínicas. É que tais transtornos não são mais que entidades pregadas no solo tecnicista da psiquiatria biológica. Ao contrário, rumo à diferença há mil, cem mil psicoses e neuroses a cada instante, em toda a parte. Entretanto, o Caps costuma receber as psicoses e as neuroses biologizadas e  encaixotadas num tom de gravidade. Eis o doente! Tal demanda tem o sobrepeso dos corpos no ar da miséria psíquica. É o sofrimento naturalizado, o mundo em fiapos semióticos, a dor invisível: esta é a matéria bruta para o trabalho. Importante: psicoses e neuroses são variações clínicas do mesmo tom subjetivo das relações sociais. As psicoses expressam uma radicalidade existencial. O delírio é o sintoma que lhe preenche como errância e incapacidade de fazer a si mesmo. Por extensão, a angústia, sintoma sem forma, sem foto, sem imagem, sem exame de laboratório, expressa o ir não indo, o ser não sendo, a náusea sartriana revisitada. No acolhimento avalie delírio e angústia como estilhaçamentos do sentido. Em ambos os casos, a natureza dos signos é a mesma, ou seja, o real-social non sense vindo oculto na construção delirante e/ou angustiante.  O paciente está só, mesmo não estandoAlguém acode, quem acolhe?


A.M.
BELO HORIZONTE

Um dia vou aprender a partir
vou partir
como quem fica

Um dia vou aprender a ficar
vou ficar
como quem parte



Ana Martins Marques

NILS FRAHM - Le Poisson Rouge

Me canso fácil dos preciosos intelectos que precisam cuspir diamantes toda vez que abrem as suas bocas. Eu me canso de ficar batalhando por cada espaço de ar para o espirito. É por isso que me afasto das pessoas por tanto tempo, e agora que estou encontrando as pessoas, descubro que preciso voltar para a minha caverna.

Charles Bukowski
RUMO AO BRASIL

Diante da escalada da crise na Venezuela que leva cada vez mais venezuelanos a cruzarem as fronteiras rumo ao Brasil em busca de uma vida melhor, o Governo de Michel Temer assinou um decreto reconhecendo a "situação de vulnerabilidade" em Roraima. O Estado é a principal porta de entrada dos imigrantes que fogem da crise de abastecimento de alimentos, do colapso dos serviços públicos e de uma inflação de 700% no país vizinho. O presidente ainda editou uma medida provisória (MP) que acena com ações de assistência emergências para imigrantes venezuelanos no Estado em diversas áreas, como proteção social, saúde, educação, alimentação e segurança pública. Elas serão coordenadas por um comitê federal composto por representantes de distintos ministérios e conduzidas em parcerias entre União, Roraima e municípios.
A prefeitura de Boa Vista estima que cerca de 40.000 venezuelanos já tenham entrado na cidade, o que representa mais de 10% dos cerca de 330.000 habitantes da capital. O número de imigrantes equivale aproximadamente a população de uma cidade como Boituva, em São Paulo. Guardadas as devidas proporções, Roraima vive sua crise particular de refugidos. Os abrigos estão lotados e milhares de imigrantes vivem em situação de rua. A maioria chega pelo pequeno município de Pacaraima, com 16.000 habitantes e depois segue para Boa Vista. Apesar de o fluxo de venezuelanos ter aumentado desde o fim de 2016, uma nova leva chegou após a Colômbia colocar mais travas para a entrada de refugiados no país.
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Heloísa Mendonça, El País, São Paulo, 18/02/2018, 05:10 hs

LEONORA CARRINGTON


sábado, 17 de fevereiro de 2018

O amor é uma dialética cerrada de aproximação-repúdio, de ternura e imposição. Senão cai-se na rotina, na mornez das relações e, portanto, na mediocridade. Detesto a mediocridade! Não há nada pior no homem que a falta de imaginação. É o mesmo no casal, é o mesmo na política. A vida é criação constante, morte e recriação. A rotina é exactamente o contrário da vida, é a hibernação. 
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Pepetela


Reportagem sobre o documentário "UMA AVENIDA CHAMADA BRASIL" de Otávio Bezerra, 1988

Os pés e as mãos conhecem o desejo da alma.
Fechemos pois a boca e conversemos através da alma.
Só a alma conhece o destino de tudo, passo a passo.
Vem, se te interessas, posso mostrar-te.

Rumi
A SOLUÇÃO QUE NÃO SOLUCIONA


Desde a redemocratização, crises de insegurança pública se repetem no estado do Rio de Janeiro. Houve a crise de 1994, com a taxa de homicídios recorde. Em 2000, houve o recorde de sequestros. Em 2007, houve o recorde de mortes em confrontos com a polícia.

Em anos recentes, a experiência de policiamento em proximidade – simbolizada nas UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) – trouxe um alívio parcial para as mazelas do estado. A taxa de homicídios chegou a 25 por grupo de 100 mil habitantes, a menor da história. A comunidade Santa Marta, erguida nas encostas do Morro Dona Marta e sede da primeira UPP, ficou por sete anos sem homicídios e tiroteios. A elite do asfalto passou a frequentar festas nos morros.

A paz temporária foi rompida com a falência financeira e administrativa do estado. Depois dos Jogos Olímpicos de 2016, os recursos federais secaram. A taxa de letalidade violenta veio aumentando seguidamente, o roubo de carga explodiu e os incessantes tiroteios nas comunidades voltaram a fazer parte do cotidiano.

A quadrilha política incrustada no estado foi desmontada, mas os bilhões de recursos desviados se mostraram chagas numa estrutura já doente. A crise econômica, somada ao naufrágio das lideranças políticas no mar da corrupção, foi elemento importante na eclosão da atual onda de violência.

A resposta mais frequente e pedida para as crises de insegurança tem sido chamar as Forças Armadas. O argumento mais comum é apontar como ilógica a não mobilização de um contingente militar de quase 300 mil homens  – sendo 190 mil só do Exército –, já que o país não tem um inimigo externo a enfrentar. Usando esses militares no combate ao tráfico e na ação ostensiva de patrulhamento, haveria melhora na sensação de segurança, alegam os defensores da mudança constitucional do papel das tropas.

As forças armadas não são treinadas para prender. São treinadas para matar
Diversos especialistas, no entanto, concluíram que ações tópicas dos militares podem reduzir crimes em um primeiro momento, mas, em longo prazo, a atividade criminosa adapta-se e permanece.

Por dois anos as Forças Armadas patrulharam pontos com presença forte de facções criminosas em comunidades do Rio. Elas estavam lá antes da chegada das Forças, continuaram intocadas apesar da presença delas e restabeleceram seus domínios quando os militares deixaram essas comunidades.

Os exemplos mais conhecidos de participação das Forças Armadas na segurança pública são os do México e da Colômbia, países responsáveis pela distribuição e produção de grande parte da droga que circula no continente. Não podem ser tomados como um modelo, pois enfrentam hoje disputas internas de poder que os ameaçam com a classificação de narco-Estados, de tal monta é o enfronhamento das organizações criminosas em suas instituições políticas, administrativas e econômicas.

Um experiente general coloca o ponto principal nas operações das Forças Armadas: as tropas são treinadas para aniquilar inimigos, não para conter, vigiar e prender.

A intervenção federal na segurança pública é uma resposta a um quadro agudo de incompetência e desmazelo. A opção militar, no entanto, tem tudo para mostrar-se inútil, arriscada ou com efeitos danosos a longo prazo.


Época, 17/02/2018, 21:53 hs
FARSA DUAL

Se o procedimento das questões e respostas não convém, é por razões bem simples. O tom das questões pode variar: há um tom esperto pérfido, ou, ao contrário, um tom servil, ou então de igual para igual. Ouvimos todos os dias na televisão. Mas é sempre como em um poema de Luca (não cito com exatidão): Fuzileiros e fuzilados... cara à cara... de costas... cara a costas... de costas e de frente... Qualquer que seja o tom, o procedimento questões-respostas é feito para alimentar dualismos. Por exemplo, em uma entrevista literária, há, antes de tudo, o dualismo entrevistador-entrevistado e depois, para-além, o dualismo homem escritor, vida-obra no próprio entrevistado, e ainda o dualismo obra intenção ou significação da obra. E quando se trata de um colóquio ou de uma mesa-redonda, é a mesma coisa. Os dualismos não se referem mais a unidades, e sim a escolhas sucessivas: você é um branco ou um negro, um homem ou uma mulher, um rico ou um pobre etc.? Você fica com a metade direita ou com a metade esquerda? Há sempre uma máquina binária que preside a distribuição dos papéis e que faz com que todas as respostas devam passar por questões pré-formadas, já que as questões são calculadas sobre as supostas respostas prováveis segundo as significações dominantes. Assim se constitui uma tal trama que tudo o que não passa pela trama não pode, materialmente, ser ouvido. Por exemplo, em um programa sobre as prisões, ficará estabelecido as escolhas jurista-diretor de prisão, juiz-advogado, assistente social-caso interessante, sendo a opinião do prisioneiro médio que povoa as prisões rejeitada fora da trama ou do assunto. É nesse sentido que sempre se "dá mal" com a televisão, perde-se de antemão. Até mesmo quando se acredita falar por si, fala-se sempre no lugar de um outro qualquer que não poderá falar. Somos inevitavelmente enganados, possuídos ou, antes, despossuídos. 
(...)

Gilles Deleuze e Claire Parnet in Diálogos
quando faltou luz
ficou aquele breu e eu
com as mãos tremendo
morta de medo
de tudo se iluminar
de repente


Alice Sant ´Anna

GERALDO AZEVEDO & ELBA RAMALHO - Bicho de Sete cabeças