quinta-feira, 21 de setembro de 2017

PARTIR

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Partir, se evadir, é traçar uma linha. O objeto mais elevado da literatura, segundo Lawrence: "Partir, partir, se evadir... atravessar o horizonte, penetrar em outra vida...É assim que Melville se encontra no meio do oceano Pacífico, ele passou, realmente, a linha do horizonte." A linha de fuga é uma desterritorialização. Os franceses não sabem bem o que é isso. É claro que eles fogem como todo mundo, mas eles pensam que fugir é sair do mundo, místico ou arte, ou então alguma coisa covarde, porque se escapa dos engajamentos e das responsabilidades. Fugir não é renunciar às ações, nada mais ativo que uma fuga. É o contrário do imaginário. É também fazer fugir, não necessariamente os outros, mas fazer alguma coisa fugir, fazer um sistema vazar∗ como se fura um cano. George Jackson escreve de sua prisão: "É possível que eu fuja, mas ao longo de minha fuga, procuro uma arma." E Lawrence ainda: "Digo que as velhas armas apodrecem, façam novas armas e atirem no alvo." Fugir é traçar uma linha, linhas, toda uma cartografia. Só se descobre mundos através de uma longa fuga quebrada.
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G. Deleuze e C. Parnet  in Diálogos 

GERÂNiOS ETERNOS


Não fui, na infância, como os outros
e nunca vi como os outros viam.
Minhas paixões eu não podia
tirar das fontes igual à deles;
e era outro o canto, que acordava
o coração de alegria.
Tudo o que amei, amei sozinho.

Edgar Allan Poe
AINDA DÁ PRA DESCER MAIS

O polêmico general Antônio Hamilton Mourão voltou ao centro das atenções no final da semana passada ao defender um golpe militar no Brasil por conta da crise política enfrentada pelas instituições. Diante do possível cometimento de um crime militar, ao, em tese, incitar seus subordinados a transgredirem a ordem constitucional, nem o Ministério da Defesa, nem o Exército abriram até a noite desta segunda-feira qualquer investigação formal para apurar a conduta do militar. Em nota, o ministro da Defesa, Raul Jungmann, informou que convocou o comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, “para esclarecer os fatos relativos a pronunciamento de oficial general da Força e quanto às medidas cabíveis a serem tomadas”.
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Afonso Bentes, El País, Brasília,19/09/2017, 14:59 hs

JOÃO BOSCO - Terreiro De Jesus


abri a porta
saí voando

não era sonho
estava amando


Nildão
QUESTÕES PSICOPATOLÓGICAS

Num Caps, a psicopatologia expressa formas estranhas às taxonomias oficiais, o que faz da clínica um emaranhado de signos a-significantes. Ou seja, à pergunta “O que isso significa?” sucede um vazio de hipóteses diagnósticas preenchido pelo juízo moral das avaliações biomédicas. O lugar do psiquiatra biológico e, portanto, remedeiro, é mantido à disposição, mesmo que não haja quem o preencha. Não importa. Quase todos os técnicos o preenchem, já que uma psicopatologia meia boca (a do cérebro) tem que “existir” para justificar e autorizar a ação dos dispositivos de controle sobre o paciente. Assim, uma clínica da diferença encontra dificuldades práticas importantes, na medida em que "precisa" ser uma peça constitutiva da psiquiatria clínica no seu sentido territorial, singular (não homogeneizante). Em outros termos, há um contexto que é o da clínica que a psiquiatria instituiu há muito tempo. Esse é um dado. Nele, os movimentos da diferença (devires) só brotam, só conseguem emergir na medida em que a psicopatologia funcione com elementos de fora da relação dual (técnico-paciente). Como foi dito, são os fluxos coletivos,as multiplicidades, o real em si mesmo, que fazem uma psicopatologia e não o contrário. Resumindo, a psicopatologia de um Caps é urdida fora do Caps. A necessidade de implicação da Atenção Básica é um truísmo. Do contrário, o Caps não será mais que a reprodução soft da forma-hospício.


A.M.
Criança é esse ser infeliz que os pais põem para dormir quando ainda está cheio de animação e arrancam da cama quando ainda está estremunhado de sono.

Millôr Fernandes

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

CORÉIA DO NORTE NEGA TER LANÇADO TEMER NOS ESTADOS UNIDOS !


O  DESCOBRIMENTO  DE  CABRAL

O ex-governador do Rio, Sérgio Cabral, foi condenado nesta quarta-feira (20) por crimes investigados pela Operação Calicute, um dos desdobramentos da Lava Jato. Cabral foi condenado a 45 anos e 2 meses de reclusão, além de multa, por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e pertencimento a organização criminosa.
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Arthur Guimarães, RJTV, Globo.com, 20/09/2017, 19:49 hs
Terminar sozinho
no túmulo de um quarto
sem cigarro
nem bebida –
careca como uma lâmpada,
barrigudo,
grisalho,
e feliz por ter
um quarto.

… de manhã
eles estão lá fora
ganhando dinheiro:
juízes, carpinteiros,
encanadores, médicos,
jornaleiros, guardas,
barbeiros, lavadores de carros,
dentistas, floristas,
garçonetes, cozinheiras,
motoristas de taxis…

e você se vira
para o lado esquerdo
pra pegar o sol
nas costas
e não
direto nos olhos.


Charles Bukowski

PAULA MORELENBAUM, JOO KRAUS e RALF SCHMID - Samba Em Prelúdio


CURA GAY ?

Uma polêmica decisão judicial causou nesta segunda-feira uma onda de indignação — e de memes — nas redes sociais. No último dia 15, o juiz Waldemar Cláudio de Carvalho, da 14ª Vara do Distrito Federal, concedeu uma liminar que, na prática, torna legalmente possível que psicólogos ofereçam pseudoterapias de reversão sexual, popularmente chamadas de cura gay.

Não foram poucos os que, em protesto, acusaram o magistrado de ser homofóbico e de ter dito que a homossexualidade é doença. Na verdade, Carvalho não chega a defender explicitamente a cura gay e nem derruba uma resolução do Conselho Federal de Psicologia (CFP) que, desde março de 1999, proíbe sua prática. Ele inclusive deixa claro em seu texto que, ao analisar o caso, adotou como premissa o posicionamento da Organização Mundial da Saúde de que "a homossexualidade constitui uma variação natural da sexualidade humana, não podendo ser, portanto, considerada como condição patológica". (Leia aqui a decisão)

Entretanto, o juiz contraditoriamente determina que o órgão altere a interpretação de suas normas de forma a não impedir os profissionais "de promoverem estudos ou atendimento profissional, de forma reservada, pertinente à (re)orientação sexual, garantindo-lhes, assim, a plena liberdade científica acerca da matéria, sem qualquer censura ou necessidade de licença prévia.
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Felipe Betim, El País, São Paulo, 20/09/2017, 12:01 hs
Quando já não havia outra tinta no mundo o poeta usou do seu próprio sangue.
Não dispondo de papel, ele escreveu no próprio corpo.
Assim, nasceu a voz, o rio em si mesmo ancorado.
Como o sangue: sem voz nem nascente.
(...)

Mia Couto