segunda-feira, 30 de maio de 2016

PESSOANA 

Quando não sei o que sinto
sei que o que sinto é o que sou.
Só o que não meço não minto.

Mas tão logo identifico
o não-lugar onde estou
decido que ali não fico,

pois onde me delimito
já não sou mais o que sou
mas tão-somente me imito.

De ponto a ponto rabisco
o mapa de onde não vou,
ligando de risco em risco

meus equívocos favoritos,
até que tudo que sou
é um acúmulo de escritos,

penetrável labirinto
em cujo centro não estou
mas apenas me pressinto

mero signo, simples mito.


Paulo Henriques Brito
PÂNDEGAS SISUDAS

Se Michel Temer não acordar, vai chegar uma hora em que a paciência dos brasileiros, dos quais 58% já não o queriam na Presidência, se esgotará. Quando parece que está tudo normalizado —o Romero Jucá afastado da Esplanada, o Ministério da Cultura recriado, nenhuma acusação nova feita contra o Eduardo Cunha na última meia hora, o Lula quieto, a seleção do Dunga derrotando o time do Panamá por 2 a 0, o impeachment da Dilma caminhando no Senado, as pessoas começando a se conformar com a peruca ridícula do Antonio Fagundes na novela—, surge mais uma gravação do Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro.
(...)
– Atualização feita às 20h15 desta segunda-feira (30): no início da noite, sentindo o chão fugir-lhe dos pés, o ministro Fabiano Silveira enviou carta de demissão ao Palácio do Planalto. Envolto numa rebelião dos servidores da pasta que deveria comandar, o preposto de Renan Calheiros foi demitido pelos fatos, não pelo presidente.


Do Blog do Josias de Souza,30/05/2016, 04:30 hs

ZDISLAW BEKSINSKI


Não consigo dormir.
Tenho uma mulher atravessada entre minhas pálpebras.
Se pudesse, diria a ela que fosse embora;
mas tenho uma mulher atravessada na garganta.

Eduardo Galeano
A MEDICINA CURA?

A aliança da Medicina com o capital é mais íntima do que se supõe. Seria grosseiro e simplista dizer apenas que a Medicina lucra, faz dinheiro e/ou que o poder médico compõe o tecido social. Claro que isso é verdade, na medida em que a superfície miraculada do capital transforma tudo em mercadoria. No entanto, a questão é de outra natureza. Ela implica na produção de necessidades humanas codificadas em crenças e afetos. Quais? Dir-se-ia: " eu acredito na Medicina como a principal resposta ( obtida ou a obter mediante pesquisas ) a qualquer doença. Aí está implícito o próprio conceito de doença: axiomas médicos o sustentam. Trata-se de uma crença. Quanto aos afetos, eles estão inseridos na "essência"dos modos de subjetivação dominantes como fé: "eu tenho fé na Medicina e reverencio seus métodos por terem respaldo científico": produção de verdade. Daí, alguém ser "crente" e ser "fiel" não é só ser religioso pois isso está fora da religião. São afetos encravados no corpo-organismo e reforçados por muitos outros como o medo à dor, ao sofrimento, à morte, etc, os quais sustentam a engrenagem do consumo (de remédios químicos, por exemplo) acoplado à produção, ou vice-versa.

A.M.

Obs.: versão revisada e ampliada.

GRANDES ESCRITOS


domingo, 29 de maio de 2016

Texto para uma separação

Olhe aqui, olhos de azeviche
Vamos acertar as contas
porque é no dia de hoje
que cê vai embora daqui...
Mas antes, por obséquio:
Quer me devolver o equilíbrio?
Quer me dizer por que cê sumiu?
Quer me devolver o sono meu doril?
Quer se tocar e botar meu marcapasso pra consertar?
Quer me deixar na minha?
Quer tirar a mão de dentro da minha calcinha?
Olhe aqui, olhos de azeviche:
Quer parar de torcer pro meu fim
dentro do meu próprio estádio?
Quer parar de saxdoer no meu próprio rádio?
Vem cá, não vai sair assim...
Antes, quer ter a delicadeza de colar meu espelho?
Assim: agora fica de joelhos
e comece a cuspir todos os meus beijos.
Isso. Agora recolhe!
Engole a farta coreografia destas línguas
Varre com a língua esses anseios
Não haverá mais filho
pulsações e instintos animais.
Hoje eu me suicido ingerindo
sete caixas de anticoncepcionais.
Trata-se de um despejo
Dedetize essa chateação que a gente chamou de desejo.
Pronto: última revista
Leve também essa bobagem
que você chamou
de amor à primeira vista.
Olhos de azeviche, vem cá:
Apague esse gosto de pescoço da minha boca!
E leve esses presentes que você me deu:
essa cara de pau, essa textura de verniz.
Tire também esse sentimento de penetração
esse modo com que você me quis
esses ensaios de idas e voltas
essa esfregação
esse bob wilson erotizado
que a gente chamou de tesão.
Pronto. Olhos de azeviche, pode partir!
Estou calma. Quero ficar sozinha
eu co'a minha alma. Agora pode ir.
Gente! Cadê minha alma que estava aqui?


Elisa Lucinda

GATO BARBIERI - Lost Tango In Paris


BRASIL BRASILEIRO

Daria para fazer quase 30 000 casas pelo programa Minha Casa, Minha Vida. Somente entre 2013 e 2014, pelo menos 2,6 bilhões de reais do total da verba reservada ao Bolsa Família foram parar no bolso de quem não precisava. A informação é resultado do maior pente-fino já realizado desde o início do programa do governo federal, em 2003. Feito pelo Ministério Público Federal a partir do cruzamento de dados do antigo Ministério do Desenvolvimento Social com informações de órgãos como Receita Federal, Tribunais de Contas e Tribunal Superior Eleitoral, o exame detectou mais de 1 milhão de casos de fraude em todos os estados brasileiros. O Bolsa Família, um valor mensal a partir de 77 reais por pessoa, é destinado exclusivamente a brasileiros que vivem abaixo da linha da pobreza. A varredura mostrou, no entanto, que entre os que receberam indevidamente o auxílio no período estão funcionários públicos, mortos e até doadores de campanha (veja o quadro na pág. ao lado).
Só de funcionários públicos foram 585 000 os beneficiários ilegais. Em todos os casos, os contemplados ganhavam ao menos um salário mínimo (piso da categoria) e, segundo apurou o estudo, pertenciam a famílias com renda per capita acima de 154 reais - situação que os impediria de receber o benefício. O fato de esses funcionários serem majoritariamente servidores municipais reforça a tese do Ministério Público de que esse tipo de fraude não dispõe de um comando centralizado. "Nasce daquele microcosmo do município em que o cadastrador conhece quem está sendo habilitado e não tem interesse em realizar uma fiscalização correta sobre suas condições de pobreza", afirma a procuradora Renata Ribeiro Baptista, que coordenou a pesquisa.
Os doadores de campanha ocupam lugar de destaque no ranking das categorias de fraudadores identificadas no estudo. O Ministério Público encontrou 90 000 beneficiários do programa que, em 2014, doaram a políticos ou partidos valores iguais ou superiores aos recebidos do programa naquele ano e casos de grupos de dez ou mais beneficiários que transferiram verbas para um mesmo candidato.
O levantamento achou ainda beneficiários sem CPF ou com mais de um CPF, além de 318 000 beneficiários que eram donos de empresas. Abrir uma empresa não significa necessariamente que alguém seja um sujeito de posses (o processo para constituir uma firma pode custar pouco mais de 200 reais), mas o Ministério Público acredita que poucos dos contemplados nessa situação conseguirão provar que vivem abaixo da linha da pobreza.
(...)
Pieter Zalis, Veja.com, 26/05;2016, 21:35 hs

sábado, 28 de maio de 2016

POÉTICA DOS ENCONTROS

Uma linguagem poética alumia os corpos que antes se arrastavam como organismos em ordem unida. Deste modo desarruma os enunciados da razão esperta em prol dos afetos que circulam sem fim. Não é o poeta o único que expressa a "sua" poesia, mas sim as multiplicidades: elas formigam e pulsam em horas desérticas e transitórias, habitam a chamada "pessoa humana"e se nutrem de micro-signos no círcuito enlouquecido do viver por viver. Todas as palavras são embaralhadas e extraídas ao acaso dos encontros. E tudo recomeça sob a égide da criação do tempo em meio às velocidades mais estonteantes dos dias tecnológicos que correm. Uma poética da diferença afirma a superioridade dos corpos lisos e inocentes sobre organismos endurecidos pelas agências do poder invisível. Só assim, o ato de pensar, encharcado de afeto e mistério, nasce a cada segundo. Como um raio.

A.M.

A GAROTA DINAMARQUESA - direção de Tom Hooper, 2016


Não: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!

...

Se têm a verdade, guardem-a!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?


Fernando Pessoa

AUGUST MACKE


sexta-feira, 27 de maio de 2016

O NÃO LUGAR

DIPLOMATIQUE: Perante o excesso contemporâneo de informações, e à velocidade sempre acelerada do desenrolar dos acontecimentos se desdobrando mundialmente nas imagens de nossas telas, não estamos testemunhando uma verdadeira desconstrução da cultura geral?

VIRILIO -Você utilizou na sua pergunta a palavra “desconstrução”. Eu creio que Derrida tinha razão para o fim do século XX. O início do século XX é a destruição pura e simplesmente através da ruína das cidades, através da ruína dos corpos. É a destruição; não se pode dizer que Auschiwtz ou Hiroshima sejam “desconstruções”… São puras destruições. Ora, eu creio – e eu o digo e o escrevo – que o século XXI será a desorientação, quer dizer, a perda de todas as referências – se a humanidade continuar desse jeito, e ela não continuará. Portanto, eu não creio de maneira alguma no fim do mundo. Mas o que eu quero dizer é a desorientação: não sabemos mais onde estamos nem no espaço nem no tempo. E aí, o geômetra que eu sou, o arquiteto que eu sou, sabe o que é a orientação. A arquitetura é primeira; ela é composição; ela é habitat comum entre os seres e as coisas. Pois ser é “ser-no-mundo”, e é o que eu digo: o problema não é de ser, mas de ser-no-mundo, em outras palavras, de ser-no-corpo-territorial. Isso não tem nada a ver com nacionalismo. Simplesmente não se pode ser sem “ser-no-mundo”. Em nossa época, todavia, o essencial se passa no vazio. Se você olhar hoje em dia, o poder não é mais geopolítico, religado ao solo, ele é aeropolítico: as ondas, os aviões e os foguetes traçam o porvir. A história se transferiu da terra ao céu, com toda a dimensão mística de adoração do cosmos, do grande vazio sideral, das ondas que se propagam etc. que isso supõe. As sociedades históricas eram sociedades geopolíticas, ou seja, inscritas nos lugares. O acontecimento, conforme com que eu digo, o acontecimento “tem lugar”; logo existe uma natureza do lugar que tange ao acontecimento. E essa relação com o “ter lugar” foi ocultada. É uma noção tão banal… Significa, portanto, que eu não posso ser sem ter lugar. Não é um problema de identidade – não, situado, orientado, in situ, hic et nunc, aqui e agora.
(...)
Paul Virilio,trecho de entrevista a" L.M.Diplomatique - Brasil", 03/06/2011