domingo, 22 de setembro de 2019

O INSTINTO FASCISTA

Neste ano, a eclosão do fascismo na Itália completou 100 anos. O manifesto programático do movimento publicado no Il Popolo d’Italia em junho de 1919 contém alguns objetivos louváveis, como estabelecer o sufrágio universal (e a elegibilidade das mulheres), a jornada de oito horas de trabalho e o salário mínimo. Já desde o início, no entanto, ficaria bem clara a natureza monstruosa do movimento que inspirou experiências semelhantes em outros lugares. O historiador Ian Kershaw argumenta, em seu livro De Volta ao Inferno, que esse projeto político foi estabelecido primeiro na Itália e não em outros países europeus por uma combinação de vários fatores, dos quais os principais foram a extraordinária fraqueza do Estado liberal, a ameaça crível de uma revolução vermelha no estilo russo e a enorme frustração com as consequências da guerra.
O engendro que surgiu foi uma nebulosa política com alguns denominadores comuns e muitos aspectos vaporosos, sem uma base intelectual bem definida. Em O Fascismo Eterno (1995), Umberto Eco enfatizou essa indefinição que beira a enganação intelectual e que, paradoxalmente, é a chave que estabeleceu o fascismo como um paradigma (juntamente com sua natureza pioneira). O nazismo foi um; fascismos, houve muitos. Eco destacou precisamente como, sob uma fenomenologia cambiante, os denominadores comuns do protofascismo sobreviveram às suas cristalizações mais brutais —como os regimes estabelecidos na Itália, Alemanha e Espanha— e continuam flutuando nos instintos profundos das sociedades.
As características que definem o espírito fascista não chegam a constituir um sistema de pensamento, mas são múltiplas. Entre as evidenciadas por Eco: o culto à tradição e a rejeição da modernidade; a rejeição frontal (até a aniquilação) da crítica e do desacordo, que são tratados como traição; o medo da diferença; a agitação de classes médias frustradas; o populismo (como um levante de classes populares contra elites); o machismo.
(...)

Andrea Rizzi, El País,22/09/2019, 22:23 hs

LOUI JOVER


FAZER A DIFERENÇA 

A diferença é um conceito filosófico discutido em profundidade em duas grandes obras do pensador Gilles Deleuze. Trata-se de Diferença e Repetição (1968) e Lógica do Sentido (1969). Tal densidade conceitual pode (e deve) ser usada por não-filósofos para o exercício de uma atitude ética essencialmente prática. Quer dizer: o mundo não é uma substância mas torna-se problemático (oco) por sua própria natureza e não por uma instância que lhe seria superior (a razão, por exemplo). Assim, tudo é imanência, tudo está na terra. O corpo da terra se faz na arte dos encontros pessoais e impessoais. Aí reside a diferença como linha curva, incerta, perigosa e delicadamente potente. Não exige nem possui explicações. Para experimentá-la basta seguir o fluxo do devir (o conteúdo do desejo) em suas infinitas possibilidades de conexão com outros devires. É com a criança-em-nós e com o tempo não-cronológico que a diferença estabelece seu traço  irreversível. Mas não é fácil. Sem que se perceba, as instituições sociais administram o medo no interior de nós mesmos, naturalizando o horror, racionalizando a existência.

A.M.

Uma prece pelos rebeldes de coração enjaulados.

Tennessee Williams

DE VISITA

Na medida em que o caps herda o modelo hospitalocêntrico, mesmo que anuncie o inverso, o fenótipo institucional tem uma aparência antimanicomial, ou busca isso, até para justificar o seu funcionamento. A psiquiatria oficial costuma adentrar ao serviço como uma espécie de cisto benigno para, entre outras coisas, afrouxar as tensões em torno da suposta periculosidade e estranheza da loucura. Mas não estamos nessa. Vamos no rumo de uma psiquiatria materialista onde os fluxos de saberes e práticas impulsionam linhas de desejo numa operação de desmontagem da clínica hegemônica. Tudo em prol de uma semiótica do encontro. Não há modelo, pois. Este é o regime de signos da loucura e leva a considerá-la como produção de sentidos múltiplos, ou mais precisamente, de multiplicidades clínicas. Algo que precede o transtorno mental e com ele se mistura e se expressa. A psiquiatria hegemônica (atualmente versão neurobiológica) se reduz a um equipamento técnico, no caso, o psicofármaco, indicado em situações pontuais, como na chamada crise ou surto. No entanto, enfiar o desejo na produção e a produção no desejo (Deleuze-Guattari) é a operação de conectar a clínica psicopatológica  aos fluxos coletivos que chegam de fora, mas estão dentro d´alma, que são a alma como consistência prática: corpo sem órgãos, corpo dos afetos (multiplicidades desejantes, devires inauditos, singularizações móveis e intensas, fluxos nômades, linhas de potência, territórios de non sense e conexões ao infinito) a ser experimentado. Constatamos que em visitas ao locus (domicílio) do paciente é possível enxergar o socius em seu arranjos trágicos e engrenagens construtivo-destrutivas. Um pouco de ar para a clínica. Mas quem suporta tal dissolução de sentido?

A.M.

mosqueteiros

um não me atraía
outro me trairia
e o outro
eu cheguei tarde

(ainda bem havia o quarto)


Líria Porto

UM DIA MUITO ESPECIAL direção de Ettore Scola, 1977

A ARTE DO ENCONTRO

(...)
Todo encontro é marcado por contingências.  O coletivo “antecede” o socius  na produção de  subjetividades . Tudo  se mistura. Se  existe  algo  que escapa aos códigos  estáveis da  razão é o modelo do delírio (um anti-modelo na verdade) que  nos guia  e  impulsiona. Assim,  temos:  o coletivo=o delírio ( código  psiquiátrico  =  a psicose) numa série abstrata tornada concreta na  clínica ou em qualquer situação onde uma zona (existencial) de fronteira se mostre como realidade bruta. Essa é a questão dos campos vivenciais passíveis de contato. Eles são  heterogêneos por sua própria natureza. O contato imediato é com a aventura do Acaso,do Indeterminado e do Desconhecido. Desse modo, o encontro de um terapeuta com o seu  paciente  pode começar no “interior” de si mesmo, em meio  a múltiplos “eus”.  Subjetivo e objetivo se tocam e se trocam...Entramos e estaremos a entrar numa terra de ninguém, inumana, cósmica, via sem retorno, mundo  de Lovecraft. Para fazer uma clínica da  diferença, é preciso a não-clínica  que  com ela  produza territórios subjetivos concretos.Usando a equação  clínica=patológico, o técnico verá o paciente como coisa, ainda que uma coisa valiosa.  Ao contrário, o encontro busca o lado ativo do infinito, o processo, enfim, das  relações  sociais  e  coletivas. 
(...)

A.M.


SOBRE DELEUZE

Gilles sempre  foi complexado em face de seu irmão Georges. Os pais devotavam um verdadeiro culto ao filho mais velho, e Gilles não os perdoava pela admiração exclusiva por Georges. Ele era o segundo, o medíocre, enquanto George era um herói.

 François Dosse, Gilles Deleuze & Félis Guattari – Biografia Cruzada, p. 82

sábado, 21 de setembro de 2019

ANNA RAZUMOVSKAYA


frustração

sonhava com metro e oitenta
e noventa quilos

casou-se com um curto
e grosso


líria porto
PSIQUIATRIA E LOUCURA

Chamamos caos de loucura. Ou vice-versa.Os sintomas constituem transtornos (ou síndromes) sobre um fundo existencial  que  é o caos.  Este é  um operador  a-significante,  ou  melhor, nada significa. Remete ao puro contato com a vivência  expressa no momento do exame. Desse modo, o exame físico, paradigma da medicina, é inadequado e  grosseiro para estabelecer um vínculo terapêutico com  o paciente e  até  mesmo estabelecer um diagnóstico. A loucura extrapola   os limites do pensar médico. Por isso, ela incomoda. Foge ao controle.
(...)

A.M. in Trair a psiquiatria

SÉRGIO SAMPAIO - Que loucura