domingo, 17 de novembro de 2019

PHILIP GLASS : The Poet Acts

ANUNCIAÇÃO
Não se pode invocar. Acontece. Como o suor ou intranquilidade. Já me aconteceu ao sair para correr. Ao flutuar na água sob um sol escaldante nas ilhas do mar de Andamão. Ao perceber, às três da tarde, que ainda faltava tanto. Ao abrir minha caixa de costura e ver a fita métrica, as linhas, os alfinetes, esse cuidado caseiro, incrível, minúsculo. Ou tirando os trevos dos vasos de barro do terraço. Sim. Principalmente tirando os trevos aos vasos do terraço. Já me aconteceu muitas vezes. Algumas eu lembro. Uma noite da minha infância, quando estava na casa da minha avó e meu pai chegou para me buscar de surpresa com duas entradas para o cinema. Uma tarde de verão, enquanto cortava a grama e vi uma rosa de cor laranja que parecia um gomo de fogo. Um entardecer de domingo de inverno: tinha muito frio e estava voltando para casa depois de ter ficado no campo, de ter perdido os óculos de sol sem me importar com isso, estava suja e cansada e sentia o belo peso da vida aqui. Aconteceu durante muitos dias nos anos noventa, enquanto pintava uma sacada escutando o rádio e olhando de relance filmes ruins em uma TV antiga que funcionava mal. É uma espécie de licantropia branca. Uma anunciação, uma santidade que não pode ser contida. Não é um alívio nem uma trégua. É um momento estático. Como se o mundo ficasse quieto e exalasse geometria. Não é euforia. É uma atração sem exaltações, uma imersão batista. Um transe. Uma levitação na qual entendo tudo. Faz muito tempo que não me acontece. Mas isso não me importa. O que me importa é saber quantas vezes mais vai me acontecer antes que tudo acabe. Quatro, cinco? Sinto como se estivesse dizendo adeus a tudo.
Leila Guerrieiro, El País,12/11/2019, 20:00 hs

sábado, 16 de novembro de 2019

SOBRE OS AFETOS

Questão técnica : em psiquiatria clínica uma teoria da afetividade é essencial para estabelecer a relação com o paciente. Trata-se de uma análise dos afetos (bons e maus, construtivos e destrutivos) ; isso move a relação de cuidado. Questão ética: ao analisar seus próprios afetos, o psiquiatra se implica no trabalho com o outro como sendo um trabalho consigo mesmo. Questão política: entre as forças que compõem a relação vertical médico-paciente, é possível fazer um combate contra o poder que é a própria luta (invisível) pela saúde. Questão estética: na medida em que o psiquiatra é afetado pelo outro, torna-se um criador de formas de sensibilidade clínica até então atrofiadas pela medicina. Uma arte.

A.M. 
Só acredito nas pessoas que ainda se ruborizam.
Nelson Rodrigues

O Grupo Baader Meinhof, direção de Uri Edel, 2008

MONGE
Um monge
sentado
em uma
pedra
no topo
de uma
montanha
esperando
o sucesso
chegar.
* * *

Bruno Brum

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

CLAUDE MONET


TRAIR É CRIAR

Usando Elias Canneti do livro “Massa e Poder" (1960), é possível identificar a “doença” do poder: a paranóia. Há sempre, de fato, na medida e no miolo das correlações de forças, uma circulação de desconfiança a priori, um incentivo ao medo, um convite à fobia, uma expectativa angustiante, uma melancolia disfarçada, um pânico frente à desordem, enfim, a grande suspeita contida numa peça sem autoria e, daí, sem sujeito. Quem é o poder? A paranóia não é individual, e sim coletiva, mesmo que surja em alguém isolado. Há regimes significantes eternizados como suplícios dos dominados. Veja o caso dos Estados e das Igrejas. Esta parece ser a regra que a história timbrou, ou finge que. Pode ser o rei, o presidente, o papa, o príncipe, o chefe de estado, o prefeito, o governador, figuras de autoridade, os poderosos... O que importa é que eles se inserem em modos de subjetivação como verdades dadas e contabilizadas, a depender dos rumos da política. Qualquer um pode ser qualquer um, todos são todos, desde que o poder funcione como maquinaria produtora de um gosto por viver e que se nutra de linhas institucionais endurecidas. Desconfia-se de tudo e de todos e vice-versa; instala-se o clima necessário a dizer e sentir “eu posso tudo”. “Aguirre, a Cólera dos Deuses”, o filme de W.Herzog (1972), ilustra bem o liame poder-paranóia como delírio do infinito: a sequência final é emblemática. Assim, é possível, no caso da psiquiatria, detectar todo um sistema de paranóia embutido na CID-10 como lógica persecutória. Isso funciona no território movediço dos afetos de uma clínica verticalizada. A psiquiatria tem poder porque é fraca. Como diz Nietzsche, "é preciso defender os fortes dos fracos".O poder produz, alimenta-se de mil produções subjetivas, delira sem delirar, delira naturalmente. A contrapartida à vivência persecutória seria, pois, a traição à ordem instituída da razão, à ordem instituída do transtorno mental, à ordem instituída do estado, à ordem instituída de todas as ordens. Trata-se de um modo e de um estilo de experimentar a passagem do tempo que não volta: a irreversibilidade em ato.

A.M.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

das cicatrizes seculares

um dia pequeno partiste eu fiquei
restou-se-me a culpa estrago sem jeito
saí pelas ruas de olhos sem ver
prendessem-me matassem-me
arrancassem-me os seios

(chorei como a chuva do mês de dezembro)

virei enxurrada poça d’água represa
secou-se-me o leite a vida ruiu
um raio partiu minha alma o espelho
morri reencarnei e ainda padeço
são mil estilhaços com teus olhos dentro


Líria Porto

domingo, 10 de novembro de 2019

Minicurso "Esquizoanálise e extremismos políticos" - Parte 2

A EXTREMA POBREZA

A extrema pobreza subiu no Brasil e já soma 13,5 milhões de pessoas sobrevivendo com até 145 reais mensais. O número de miseráveis vem crescendo desde 2015, invertendo a curva descendente da miséria dos anos anteriores. De 2014 para cá 4,5 milhões de pessoas caíram para a extrema pobreza, passando a viver em condições miseráveis. O contingente é recorde em sete anos da série histórica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A alta do desemprego, os programas sociais mais enxutos e a falta de reajuste de subvenções como o Bolsa Família aumentam o fosso do mais pobres. O indicador de pobreza do Bolsa Família, por exemplo, é de 89 reais, abaixo do parâmetro de 145 reais utilizado pelo Banco Mundial.

A miséria atinge principalmente estados do Norte e Nordeste do Brasil, em especial a população preta e parda, sem instrução ou com formação fundamental incompleta. Mesmo os filhos dessas famílias que queiram superar a condição de estudos dos pais acabam paralisados pela limitação econômica familiar. A falta de renda acaba empurrando os estudantes desse estrato para a evasão escolar. Entre ir à escola ou trabalhar para evitar que a família passe fome, a segunda opção é a mais óbvia. Segundo o IBGE, 11,8% dos jovens mais pobres abandonaram a escola sem concluir o ensino médio no ano passado. Trata-se de um índice oito vezes maior que o dos jovens ricos.

O crescimento da extrema pobreza coincide com o início da recessão que começou em 2014 no Brasil e terminou em 2016. Embora tenha continuado a subir, a velocidade é bem menor. De 2017 para 2018 foram 200.000 pessoas a mais que assumiram o status de miseráveis. Um ano antes, porém, de 2016 para 2017, a alta havia sido de 1.339 milhão. Nesse período, o Brasil ajudou a inflar os dados de extrema pobreza em todo o continente, como mostrou um estudo da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL, um órgão da ONU). 
(...)

Carla Jimenez, El País, São Paulo,09/11/2019, 06:35 hs

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Os marginais sempre nos causaram medo, e um pouco de horror. Eles não são o bastante clandestinos.
(...)

G. Deleuze e C.Parnet  in Diálogos

SABERES ÓRFÃOS


A psicopatologia, descolada da psiquiatria, passa a ter vida própria. Uma psicopatologia órfã. Dizê-la e fazê-la requer sobretudo criar condições para o pensamento. Que é uma prática. Não fazer refletir, mas fazer pensar a saúde mental ao mesmo tempo com e sem as categorias psiquiátricas. Deixar-se levar num paradoxo enunciativo vindo do mundo das psicoses. A clínica da diferença começa com as psicoses e, daí, com a quebra das significações dominantes. O que fazer dos enunciados psiquiátricos encharcados da moral e que, ao mesmo tempo, prestam serviços ao paciente em situações-limite? diria o bom senso das instituições. Ora, já que a psicopatologia tornou-se órfã, ela se constitui como um saber menor, uma minoridade. Ou seja, um saber  sem modelo identitário, não regido pelos significantes psiquiátricos. E por isso útil ao paciente.
(...)
A. M. - do livro Linhas da diferença em psicopatologia