sábado, 27 de maio de 2017

RUMO AO FUTURO


Não sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo.
Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros)...
Sinto crenças que não tenho.
Enlevam-me ânsias que repudio.
A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me ponta
traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha,
nem ela julga que eu tenho.
Sinto-me múltiplo.
Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos
que torcem para reflexões falsas
uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.
Como o panteísta se sente árvore (?) e até a flor,
eu sinto-me vários seres.
Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente,
como se o meu ser participasse de todos os homens,
incompletamente de cada (?),
por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço.

Fernando Pessoa

sexta-feira, 26 de maio de 2017

PAVEL MITKOV


QUAL BARBÁRIE ?

Nove homens e uma mulher, trabalhadores rurais sem terra, foram mortos nesta quarta-feira durante uma ação policial numa fazenda do município de Pau d’Arco, no Pará, a 860 quilômetros ao sul da capital Belém. Policiais militares e civis foram até o local para cumprir 16 mandados judiciais, entre eles de prisão preventiva, temporária e buscas e apreensões, numa ação que investiga a morte, no dia 30 de abril, de um segurança da fazenda, que é alvo de disputa agrária. Segundo a Secretaria de Segurança Pública do Pará, os agentes foram recebidos a tiros e reagiram. No local foram recolhidas onze armas, entre elas um fuzil, mas não houve policiais feridos.
Os corpos das dez vítimas foram levados pela própria polícia ao necrotério da região, em Redenção, segundo informou a Folha.
A fazenda Santa Lúcia, cenário do massacre, era motivo de disputa entre seu proprietário e trabalhadores sem terra. Desde maio de 2015, havia 150 famílias acampadas no local, conforme informações da Comissão Pastoral da Terra (CPT).
(...)

Maria Martin, Rio de Janeiro, El País,26/05/2017, 16:47 hs

CHARLIE PARKER - Koko


na madrugada de 26/05/1977 chegava à Terra

DANIEL, O MAGO
Mesmo sem compreender, quero continuar aqui onde está constantemente amanhecendo.

Caio Fernando Abreu

OS TRUMPS VISITAM O PAPA


quinta-feira, 25 de maio de 2017

CASO PSIQUIÁTRICO

Depois de virar caso de polícia, a política brasileira entrou em sua fase psiquiátrica. Brasília tornou-se uma espécie de centro terapêutico para o tratamento das neuroses do sistema político.

Sindicatos e simpatizantes do PT marcharam pela queda de Temer e pela rejeição das reformas. Como o presidente está no chão e as reformas viraram pó, os manifestantes enlouquecem e quebram o próprio patrimônio.

A Câmara pediu ao Planalto reforço da Força Nacional. Temer acionou as Forças Armadas. Está previsto na Constituição. Aconteceu 29 vezes nos últimos sete anos. Mas no caso específico, foi como colocar o Anderson Silva para brigar com um recém-nascido.

O plenário da Câmara entrou em parafuso. Maníacos se desentenderam com depressivos. Todos de pé, na frente da mesa, num ambiente de boteco, que só pode acabar em palavrões e cutucões na barriga, nunca em legislação séria.

O sistema político pirou. Há dois caminhos. Uma parte pede internação no sistema prisional. E você pode dar alta para os demais em 2018.

Do Blog do Josias de Souza, 25/05/2017, 04:15 hs
FAKE

O ministro do Desenvolvimento Social e Agrário, Osmar Terra, publicou nesta quarta-feira, diversas imagens dos ataques aos ministérios, em Brasília, em seu Twitter e criticou a ação dos grupos que depredaram os prédios. No entanto, uma das imagens publicadas pelo ministro, em que é possível ver um prédio em chamas, não é da Esplanada dos Ministérios.

A foto divulgada pelo ministro é facilmente encontrada na internet. Ela se refere, na verdade, a um incêndio ocorrido em 2005, no prédio no INSS. O incêndio destruiu parte de um prédio da Previdência Social em Brasília, no Setor de Autarquias Sul, a poucos metros da Esplanada dos Ministérios.
(...)

Gabriela Viana, O Globo, 24/05/2017, 18:17 hs

TODAS AS LOUCURAS SÃO INOCENTES


segunda-feira, 22 de maio de 2017

TEMAS EM PSICOPATOLOGIA CLÍNICA - 4

Em saúde mental, para haver encontros que criem e não reproduzam universos estáveis, é preciso haver intercessores. Estes podem ser qualquer coisa, e são o que nos força a pensar. No caso da clínica, o que  força a pensar é  o  delírio não medicalizado que tem na esquizofrenia a sua expressão acabada. Assim, para um bom encontro com o paciente, a loucura-em-nós torna-se um exercício de sensibilidade: uma  ética. Busca aumentar a potência de viver. Por outro lado, ela não existe fora das linhas de força que compreendem relações de poder. Tais relações compõem a trama das instituições que manipulam e/ou esmagam a produção desejante.Toda ética é uma política,ou mais precisamente, uma micropolítica imanente às práticas de vida. Isso não costuma se mostrar ao olhar psiquiatrizado ou psicologizado. É que o olho psi é um olho homogeneizado e homogeneizador: um olho "gordo". Ele persegue a diferença em toda a parte. Olho paranóide, dispara olhares em tudo que se mexer.

A.M.

GRANDES ESCRITOS