quarta-feira, 17 de julho de 2019

A DISFUNÇÃO


Se diz que há na cabeça dos poetas um parafuso de a menos.
Sendo que mais justo seria o de ter um parafuso trocado do que a menos.
A troca de parafusos provoca nos poetas uma certa disfunção lírica.

Nomearei abaixo 7 sintomas nos poetas dessa disfunção lírica.

1 - Aceitação da inércia para dar movimento às palavras.

2 - Vocação para explorar os mistérios irracionais.

3 - Percepção das contigüidades anômalas entre verbos e substantivos.

4 - Gostar de fazer casamentos incestuosos entre palavras.

5 - Amor por seres desimportantes tanto como pelas coisas desimportantes.

6 - Mania de dar formato de canto às asperezas de uma pedra.

7 - Mania de comparecer aos próprios desencontros.


Essas disfunções líricas acabam por dar mais importância
aos passarinhos do que aos senadores.


Manoel de Barros

terça-feira, 16 de julho de 2019

A NECROPOLÍTICA COMO REGIME DE GOVERNO

Brasil e Colômbia disputam a miserável primeira posição de país mais arriscado para ser um defensor de direitos humanos no mundo. Se a questão for terra ou meio ambiente, Colômbia é o país mais violento; se forem os direitos das mulheres ou população LGBT, Brasil lidera o ranking de homicídios. A fronteira entre as questões de direitos humanos é uma tentativa de classificar onde estão os temas de maior risco em cada país, porém histórias concretas de ativistas ameaçados ou mortos mostram como a fronteira é nebulosa. Yirley Velasco é campesina, sobrevivente do Massacre El Salado, na Colômbia, foi vítima de violência sexual em 2000. Sofre ameaças de morte pelo trabalho político em defesa dos direitos das mulheres em Montes de María, onde María del Pilar Hurtado foi morta na frente dos filhos. Talíria Petrone é deputada federal, amiga de Marielle Franco, vereadora assassinada por milícias no Rio de Janeiro. É voz ativa pelos direitos humanos na política nacional brasileira e vem sofrendo ameaças de morte.
(...)

Debora Diniz e Gisele Carino, El País, 16/07/2019, 20:28 hs

CORPOS ARDENTES Lawrence Kasdan / 1981 - Cena

(VEREIS QUE O POEMA CRESCE INDEPENDENTE)

Vereis que o poema cresce independente
e tirânico. Ó irmãos, banhistas, brisas,
algas e peixes lívidos sem dentes,
veleiros mortos, coisas imprecisas,

coisas neutras de aspecto suficiente
a evocar afogados, Lúcias, Isas,
Celidônias... Parai sombras e gentes!
Que este poema é poema sem balizas.

Mas que venham de vós perplexidades
entre as noites e os dias, entre as vagas
e as pedras, entre o sonho e a verdade, entre...

Qualquer poema é talvez essas metades:
essas indecisões das coisas vagas
que isso tudo lhe nutre sangue e ventre.


Jorge de Lima

segunda-feira, 15 de julho de 2019

BANKSY


REAL IRREAL

O que é o real? A psicanálise (lacaniana) diz que o real é impossível pois vivemos num mundo essencialmente simbólico. Conforme essa doutrina, o real é lançado para os rumos da psicose, ou seja, rompido com a formação social no qual se inscreve. Quem tem acesso ao real é louco, é o louco em seu desvario. Uma insanidade. Ao contrário, pensamos ao modo deleuziano. O real não está dado, ele é produzido, sempre produzido. Resta saber por quem. Há toda uma questão ético-política de fundo... Os artistas, os videntes, os poetas, os revolucionários (não os esquerdistas), entre outros, sabem disso porque experimentam o mundo na própria carne, na própria pele, melhor dizendo, no corpo sensível, desejante, nutrido de mil sensações. Assim, se a psicose é o real, as "mil sensações" se tornam mil sintomas clínicos do transtorno que a psiquiatria biológica chama de "mental". A tecnologia moderna inundou o cotidiano com tal profusão de imagens que a psicose (e os seus mil sintomas) ocupou o lugar da esquizofrenia reeditando-a como "A" psicose, mesmo que não pareça. Depressões, neuroses, histerias, borderlines, retardos, paranóias, demências, drogadiçoes, fobias, pânicos, angústias, e tantos outros signos atuais do aniquilamento da subjetividade, se misturam numa espécie de sopa coletiva psicopatológica. No fim, tudo conduz à psicose (ou à loucura).Mas, se nem mesmo o psicótico sabe mais o que é o real, nos achamos em plena dissolução do sentido. Da clínica em saúde mental.

A.M.
Talvez os poetas estejam certos. Talvez o amor seja a única resposta.

Woody Allen

domingo, 14 de julho de 2019

Wojciech Kilar - Love Remembered

OFICINA DE POESIA

Trabalhe em dois livros, simultaneamente.
Dedique a maior parte do seu tempo ao livro 1.
É nele que você colocará os melhores poemas.
No livro 2, escreva o que vier à cabeça,
sem muitas preocupações temáticas ou estilísticas.
Ele vai funcionar como um caderno de exercícios
e provavelmente nunca será lido.
Enquanto isso, continue trabalhando com afinco
nos poemas do livro 1.
Ao final do processo,
jogue fora os poemas do livro 1
e publique o livro 2.


Bruno Brum

A MEDICALIZAÇÃO

O conceito de medicalização da sociedade é tributário do capitalismo industrial avançado. Possui um alcance planetário, na medida em que a tecnologia médica, sustentada pela ideia de progresso, avança como oferta de produtos a serem consumidos em meio ao estilo de vida contemporâneo. Tal estilo tem como base a produção subjetiva correlata à produção econômica. Ou seja, cada vez mais inexistem divisões entre os vários setores da vida social, fazendo desta uma mera extensão dos processos do capital (sempre mais lucro, mais domínio, mais controle e exploração...), no caso médico uma semiologia do organismo doente adaptada às necessidades de controle propedêutico pelos equipamentos de saúde. Daí as soluções de problemas sociais se afiguram através o uso da terapêutica médica precedida pelo diagnóstico cada vez mais estabelecido por imagens (exemplo da USG). A medicalização não é, pois, um fenômeno médico, pelo menos na sua origem, mas um produto do funcionamento científico das relações capitalísticas, totalizadas na figura subjetiva do consumidor-padrão. A medicina segue e “obedece” ao processo histórico-social porque ela mesma é uma forma social no sentido de uma instituição poderosa que emplaca um discurso humanitário às custas da produção-consumo de pacientes. Medicalizar é, pois, um ato político antes de ser técnico.

AM.

PAVEL MITKOV


A verdadeira dialética

aí os caçadores chegaram
mataram o lobo e abriram a barriga
e encontraram a vovozinha
toda mastigadinha
quanto a chapeuzinho vermelho
eles comeram



Sebastião Uchoa Leite
CONTRA A MARÉ

Quando a FIFA anunciou que o Brasil abrigaria a Copa do Mundo de 2014, iniciou-se uma corrida entre municípios e estados para apresentar candidaturas à sede do maior torneio de futebol do planeta. Sem grande tradição no esporte, Maceió e São Luís chegaram a cogitar a hipótese, mas, diante do exorbitante custo para cumprir requisitos de reforma e construção dos estádios, acabaram desistindo de sediar o evento. Agora, cinco anos depois da Copa, enquanto algumas cidades ainda não entregaram obras de mobilidade urbana prometidas ou congelam recursos na educação após investimentos milionários em arenas, as capitais de Alagoas e Maranhão driblam a crise econômica abrindo novas bibliotecas.
Em 2008, o então governador do Maranhão, Jackson Lago (PDT), avaliou a ideia de São Luís sediar a Copa. Porém, se assustou com as exigências do “padrão-FIFA”, que elevariam os gastos na reforma do estádio Castelão para uma cifra na casa das centenas de milhões de reais. A capital maranhense nem sequer pleiteou vaga entre as cidades-sede. Já no governo de Roseana Sarney (MDB) [2009-2014], as obras de restauração do Castelão foram concluídas a um custo de 28 milhões de reais. Apesar do lobby favorável de Fernando Sarney, dirigente da CBF e irmão da governadora, a cidade entendeu que não seria viável se habilitar para receber o Mundial.
(...)

Breiller Pires, El País, São Paulo, 14/07/2019, 9:55 hs

sábado, 13 de julho de 2019

Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos.

Nelson Rodrigues