sexta-feira, 6 de março de 2015

O FUTEBOL, SEMPRE

O futebol é trágico. Trágico porque alegre, imprevisível, inexplicável, não se dobra ao modelo quantitativo da "relação causa-efeito", pois o seu "acontecer" está além e aquém dos comentários burocráticos de apresentadores pífios, caçadores de audiências imbecilizantes, funciona no imprevisível futuro (quem vencerá?), contém uma estética que precede toda racionalidade orgulhosa de si, trabalha com 90 e tantos minutos irreversíveis, joga e brinca com a sorte, idolatra o acaso, investe no puro talento, usa de regras imprecisas e por isso geradoras de polêmicas sobre o sexo dos anjos, contempla e considera, claro, a competência técnica, flerta e se embriaga de arte, é arte, pura arte, completamente enlouquecedor para torcedores amantes apaixonados pela bola na trave, pelo verde-gramado, pelo contra-ataque mortífero, pela defesa milagrosa do goleiro, ou o "frango" inesperado do mesmo goleiro, desdenha dos teóricos de carteirinha do jornalismo meia-boca, sobrevive aos desmandos e corrupções dos poderes vigentes, ironiza os arrogantes da "superioridade técnica"... (ah, aquele 7x1 germanês!) ,afeta corações e mentes, encanta desencantados, ergue do chão depressivos da razão, surpreende nos minutos de descontos até os mais desconsolados, angustiados ou esperançosos torcedores, enfim, por isso e muito mais, o futebol é uma autêntica heresia coletiva, devaneio pagão, dilúvio de emoções escorrendo pelo corpo da torcida aflitamente alegre, um aparente caos envolvente e enxuto, circulação gigante de multidões loucas, alegria sem causa, alegria com causa, catarse sem igual, orgasmo público ou apenas um gol sem preço no mercado (não existe gol feio, todo gol é belo), ou goleadas bem vindas, milhares delas, mesmo que não aconteçam, ainda que sonhadas, (sempre se espera e se quer um gol, dezenas deles...), o futebol é o esporte para além dos pés, para além do esporte, uma metafísica encarnada na magia do drible, da finta desconcertante, do gol de cabeça...um amor de criança.

A.M. postagem de 25.06.2011, revista e ampliada

ZABRISKIE POINT, de Michelangelo Antonioni, 1970 (cena final)


DEUS LHE PAGUE

Renan Calheiros protocolou no STF sua primeira petição no caso do petrolão. Na peça, ele se diz vítima de “inverdades”, sustenta que o procurador-geral Rodrigo Janot “atropelou a legislação” e tenta dissuadir o ministro Teori Zavascki da ideia de abrir inquérito para apurar as suspeitas do seu envolvimento na roubalheira da Petrobras. Renan não contratou advogado. Quem assina sua defesa é o advogado-geral do Senado, Alberto Cascais.

Repetindo: delatado na Operação Lava Jato por suposto recebimento de petropropinas, Renan espetou sua defesa no bolso do contribuinte. Sim, isso mesmo. Você está financiando a tentativa do presidente do Senado de se livrar de uma investigação destinada a apurar o envolvimento dele na violação dos cofres da Petrobras, cujo acionista majoritário é a União, que também é financiada por você.

Calma, não se desespere. É verdade que Renan acomodou apadrinhados na Petrobras. Entre eles o ex-senador Sérgio Machado, que fincou raízes na Transpetro por 12 anos. Mas todo mundo sabe que Renan fez as indicações movido pelo idealismo, impulsionado pela vontade de servir a sociedade, embalado por uma irrefreável entrega altruísta ao bem público.

Imagine se Renan não fosse esse patriota inquestionável. O brasileiro em dia com o fisco correria o risco de ser convertido num tolo de mostruário: o sujeito pagaria os impostos, seria assaltado e ele mesmo pagaria a defesa do salteador. É um alívio saber que Renan não é o Calheiros que o procurador-geral Rodrigo Janot imagina.

Blog do Josias de Souza, 06/03/2015, 14:48 hs

ZDISLAW BEKSINSKI


CARTA DE JANOT

Ministério Público – compromisso e fidelidade

Colegas,

Abro uma necessária pausa em meio às tribulações próprias do cargo de Procurador-Geral para dirigir a todos os membros do Ministério Público brasileiro uma palavra de confiança.

Sou grato por ter, no inverno da minha longa carreira pública, a ocasião de servir ao meu País e, especialmente, à sociedade brasileira, na qualidade de Procurador-Geral da República. Quis o destino, também, que eu estivesse à frente do Ministério Público Federal no momento de um dos seus maiores desafios institucionais.

A chamada “Operação Lava Jato'' chega a um momento crucial. Encaminhei, na noite de ontem, pedidos de investigação e promoções de arquivamento em relação a diversas autoridades que possuem prerrogativa de foro.

Com o inestimável auxílio de Colegas do Grupo de Trabalho baseado em Brasília, da Força-Tarefa sediada em Curitiba e da assessoria do meu Gabinete, examinei cuidadosamente todas as particularidades que envolvem este caso e estabeleci um critério técnico e objetivo para adotar as medidas necessárias à cabal apuração dos fatos.

Diante das inúmeras e naturais variáveis decorrentes de uma investigação de tamanha complexidade, fiz uma opção clara e firme pela técnica jurídica. Afastei, desde logo, qualquer outro caminho, ainda que parecesse fácil ou sedutor, de modo que busquei incessantemente pautar minha conduta com o norte inafastável das missões constitucionais do Ministério Público brasileiro.

Estou certo que, uma vez levantado o sigilo do caso pelo Ministro Teori Zavascki, o trabalho até este momento realizado será esquadrinhado e submetido aos mais duros testes de coerência.

E assim ocorrerá porque é um valor central da Democracia e do Princípio Republicano a submissão de qualquer autoridade pública ao crivo dos cidadãos brasileiros. Entendo, desde sempre, que essa lição deve ser acatada, com ainda maior naturalidade, por todos os Membros da nossa Instituição.

Não espero a unanimidade nem a terei. Desejo e confio, sim, nesse momento singular do País e, particularmente, do Ministério Público brasileiro, que cada um dos meus Colegas tenha a certeza de que realizei meu trabalho em direção aos fatos investigados, independentemente dos envolvidos, dos seus matizes partidários ou dos cargos públicos que ocupam ou ocuparam.

Busco inspiração, com essas minhas breves palavras, na Unidade do Ministério Público brasileiro, sabedor que os esforços de todos os integrantes da nossa Instituição igualam-se na disposição de servir.

Não guardo o dom de prever o futuro, mas possuo experiência bastante para compreender como a parte disfuncional do sistema político comporta-se ao enfrentar uma atuação vigorosa do Ministério Público no combate à corrupção.

Não acredito que esses dias de turbulência política fomentarão investidas que busquem diminuir o Ministério Público brasileiro, desnaturar o seu trabalho ou desqualificar os seus Membros. Mas devemos estar unidos e fortes.

Ao longo de sua extraordinária história, o Ministério Público brasileiro deu mostras de sua têmpera e de sua capacidade de superar qualquer obstáculo que venha a se interpor no caminho reto a ser seguido. Guardo-me, assim, na paz de quem cumpre um dever e na certeza de que temos instituições sólidas e democráticas. Integramos uma delas.

Estejamos unidos. Sigamos o nosso caminho. Sejamos fiéis ao nosso País.''

Paciência e confiança!

Forte abraço,

Rodrigo Janot

A LISTA DE JANOT


Um besouro se agita no sangue do poente.
Estou irresponsável de meu rumo.
Me parece que a hora está mais cega.
Um fim de mar colore os horizontes.
Cheiroso som de asas vem do sul.
Eis varado de abril um martim-pescador!
(Sou pessoa aprovada para nadas?)
Quero apalpar meu ego até gozar em mim.
Ó açucenas arregaçadas.
Estou só e socó.

Manoel de Barros

quinta-feira, 5 de março de 2015

ENFIM

Quem diria? De dois grandes namorados, de duas paixões sem freios, nada mais havia ali.(...) Havia apenas dois corações murchos, devastados pela vida e saciados dela.Não sei em igual dose,mas, enfim, saciados.

Machado de Assis

JEFF BECK - THE GUITAR GODS


quarta-feira, 4 de março de 2015

AS FORÇAS NÃO TEM FORMA: SÃO PODERES

O pensamento vem de fora: tal frase condensa algumas posições epistemológicas e políticas sobre  1- a relação do cérebro com a mente e com o mundo; o cérebro está no mundo (cosmos) e não o contrário. 2- a distinção conceitual entre cérebro e mente, já que o cérebro, em que pese a sua importância anátomo-fisiológica, é um processador dos fluxos de fora, apenas (e é muita coisa)"dá linha" como diz Bergson. 3- o pensamento não é uma espécie de "secreção" do cérebro. Se assim fosse, de nada valeria o enunciado de que quando o cérebro "chegou" (bem entendido, um órgão) o universo já estava aí. Anti-humanismo. De um golpe, se você retira o universo, não sobra nada. Não há cérebro, pelo menos o cérebro que a medicina entronizou e nele investe como mercadoria de primeira. 4-as crenças, os juízos, os valores, os signos, os códigos sociais, os territórios de sentido, os afetos, tudo vem de fora porque tudo é força e da reunião das forças, surgem os poderes. 5- portanto, deste enunciado ("o pensamento vem de fora") desembocamos no "nosso" enfrentamento irrecusável com o poder; daí os modos de subjetivação serem modos de resistir ao poder, confrontar-se com ele talvez com a criação de algo singular. Devires! 6- De todo modo, a problemática em saúde mental, tanto para os usuários quando para os não-usuários atravessa o combate (explícito ou velado) com o poder. A clínica exemplifica isso, a clínica "exige isso".

A.M.
OS 3 PODERES SÃO UM SÓ: O DELES (N. Behr)

Não é que o Planalto não veja a solução. O que Dilma e seus operadores não enxergam é o problema. Aturdida com a decisão de Renan Calheiros de devolver ao Poder Executivo a medida provisória que eleva a tributação da folha de pagamento, Dilma Rousseff pediu ao ministro Aloizio Mercadante (Casa Civil) que telefonasse para o vice-presidente Michel Temer atrás de informações que decifrassem o presidente do Senado. Antes, Mercadante ligara para o próprio Renan, que não o atendeu.

Temer não foi de grande valia. Primeiro porque Renan não compartilhara com a direção do PMDB a decisão de alvejar Dilma depois de ter esnobado um convite dela para jantar no Alvorada. Segundo porque o vice-presidente da República já não parece confortável no papel de algodão entre os “cristais” do governo e do seu PMDB.

Consolidou-se no Planalto a conclusão segundo a qual Renan decidiu flertar com a oposição por considerar que o governo não moveu uma unha para livrá-lo das complicações da Operação Lava Jato. A leitura dos correligionários do PMDB é outra: ao sentir o cheiro de queimado, Renan decidiu protagonizar dois gestos.

Num, o morubixaba do PMDB alagoano acena para o pedaço da Opinião Pública que já não suporta Dilma e o PT. Noutro, ele faz média com os partidos de oposição no Senado. Tenta evitar a formação de uma maioria que, em futuro próximo, possa ameaçar-lhe o mandato.

Quanto a Dilma, que já não socorre nem a si mesma, Renan já não enxerga nela o proveito de outrora. Hoje, já não é possível extrair impunemente dividendos de “espaços'' como a Transpetro, uma jazida onde Renan manteve por 12 anos o afilhado Sérgio Machado.
(...)
Blog do Jozias de Souza, 04/03/2015, 05:20 hs

terça-feira, 3 de março de 2015

ROSTO DA VERDADE

Um homem é mais homem pelas coisas que silencia do que pelas coisas que diz. Vou silenciar muitas. Sabendo que não há causas vitoriosas, gosto das causas perdidas: elas exigem uma alma inteira, tanto na derrota quanto nas vitórias passageiras. Criar é viver duas vezes... Todos tentam imitar, repetir e recriar sua própria realidade. Sempre acabamos adquirindo o rosto das nossas verdades.
(...)
Albert Camus

segunda-feira, 2 de março de 2015

TENTAÇÕES

Somos castigados por nossas renúncias. Cada impulso que tentamos aniquilar germina em nossa mente e nos envenena. Pecando, o corpo se liberta do seu pecado, porque a ação é um meio de purificação. Nada resta então a não ser a lembrança de um prazer ou a volúpia de um remorso. O único meio de livrar-se de uma tentação é ceder a ela. Se lhe resistirmos, as nossas almas ficarão doentes, desejando coisas que se proibiram a si mesmas, e, além disso, sentirão desejo por aquilo que umas leis monstruosas fizeram monstruoso e ilegal.
(...)
Oscar Wilde

Nicolas Behr