sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

DESEJO NÃO É NECESSIDADE
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Não é o desejo que se apoia nas necessidades; ao contrário, são as necessidades que derivam do desejo: elas são contraproduzidas no real que o desejo produz. A falta é um contraefeito do desejo, depositada, arrumada, vacuolizada no real natural e social. O desejo está sempre próximo das condições de existência objetiva, une-se a elas, segue-as, não lhes sobrevive, desloca-se com elas, razão pela qual ele é, tão facilmente, desejo de morrer, ao passo que a necessidade dá a medida do distanciamento de um sujeito que perdeu o desejo ao perder a síntese passiva dessas condições. A necessidade como prática do vazio tem unicamente este sentido: ir procurar, capturar, parasitar as sínteses passivas ali onde elas se encontram. Não adianta dizer: não somos ervas, perdemos há muito tempo a síntese clorofílica, é preciso comer... O desejo torna-se então esse medo abjeto da falta. Mas não são precisamente os pobres ou os espoliados que dizem isso. Estes, ao contrário, sabem que estão próximos da erva, e que o desejo só tem “necessidade” de poucas coisas, não dessas coisas que lhes são deixadas, mas das próprias coisas que lhes são incessantemente tiradas, e que não constituem uma falta no coração do sujeito, mas sobretudo a objetividade do homem, o ser objetivo do homem para quem desejar é produzir, produzir na realidade.
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G. Deleuze e F.Guattari in O anti-édipo

DE VOLTA AO FLAMENGO...


HISTÓRICO

bêbado e rouco
em carro aberto
meu coração desfila aos berros
desde outros carnavais


Eudoro Augusto
QUANDO DELIRAR INCOMODA

Na avaliação clínico-psicopatológica, é possível que o delírio não seja notado. O paciente conversa "normalmente", articula bem a sintaxe, tem um discurso congruente, organizado, mas no entanto, delira sem se fazer notar. Isto ocorre, grosso modo, nos casos de psicoses graves sem desorganização mental, daí sem perda da capacidade de autonomia social ou de gerir os atos da vida civil. Ora, conforme o senso comum das sociedades, o delírio tende a ser notado quando incomoda. Quer dizer: quando o sujeito se torna agressivo em demasia, violento, improdutivo, inadequado aos códigos sociais, incapaz de resolver até mesmo pequenos problemas, aí lhe chega a pecha de inválido. E outros epítetos de cunho moral. Este dado reforça a tese de que "todos podem delirar" desde que não desarrumem os fluxos afetivos dos códigos sociais. Desde que, enfim, não tragam a desordem. Então, fiquem no seu canto. É de notar, contudo , que muitas instituições poderosas (o Estado, entre outras) deliram sim e fazem delirar, delirar, mas no âmbito restrito de um funcionamento subjetivo ótimo. Por exemplo, a calamidade da guerra que atravessa a história humana, é aceita como fato natural. Não há delírio nos motivos que a legitimam. E o que dizer da Religião, do Direito, da Escola? É que na avaliação psicopatológica o delírio muitas vezes está encapsulado pelas crenças que compõem os modos subjetivos de viver, mesmo que tal vida expresse a destruição in concert como hoje no Brasil. Deste modo, o exame psiquiátrico do paciente-indivíduo, é, ao mesmo tempo, um exame da sociedade em que ele se insere. O delírio é social antes de ser individual.

A.M.

BRASIL DEPRIMIDO


O Brasil tem a maior taxa de pessoas com depressão na América Latina e uma média que supera os índices mundiais. Dados publicados nesta quinta-feira, 23, pela Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que 322 milhões de pessoas pelo mundo sofrem de depressão, 18% a mais do que há dez anos. O número representa 4,4% da população do planeta.

No caso do Brasil, a OMS estima que 5,8% da população nacional seja afetada pela depressão. A taxa média supera a de Cuba, com 5,5%, a do Paraguai, com 5,2%, além de Chile e Uruguai, com 5%.

No caso global, as mulheres são as principais afetadas, com 5,1% delas com depressão. Entre os homens, a taxa é de 3,6%. Em números absolutos, metade dos 322 milhões de vítimas da doença vivem na Ásia.

De acordo com a OMS, a depressão é a doença que mais contribui com a incapacidade no mundo, em cerca de 7,5%. Ela é também a principal causa de mortes por suicídio, com cerca de 800 mil casos por ano.
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Estadão Conteúdo, 23/02/2017, 09:30 hs

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

CURSOS E DISCURSOS
(...)
Eu seria incapaz de listar todos os cursos universitários absolutamente ridículos existentes no Brasil. Por exemplo: um amigo fazia a faculdade de quiropraxia numa instituição paulista. Para quem não sabe, a quiropraxia é um tipo de massagem/manipulação do corpo, com ajustes nas articulações. Como paciente, já fui estalado várias vezes. O quiroprático estalava minhas vértebras e braços. Há manuscritos chineses de 2700 a.C. que se referem à manipulação articular. Tive um quiroprático velhinho, de origem nipônica, excelente. Nunca fez faculdade. Para que transformar em curso universitário? Óbvio, para depois regulamentar. Criar uma reserva de mercado. Expulsar dela todos os velhinhos orientais e botar na roda jovens universitários. Seria no máximo um curso de extensão para quem fez educação física. Mas daqui a pouco vão exigir diploma. Quem lucra? As universidades.

Está na hora de fazer o contrário. De tirar a exigência de formação universitária para tantos cursos que poderiam ser técnicos. A formação profissional custaria menos, as pessoas entrariam no mercado de trabalho mais depressa. Mas não, só inventam novos cursos. E criam-se nichos e nichos. Estou com medo. Minha avó fazia um maravilhoso pudim com queijo parmesão. Qualquer dia desses dou a receita nas redes sociais. Serei processado por não ter faculdade de gastronomia?

Walcir Carrasco, Época, 21/02/2017, 16:57 hs


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

AO TEMPO

Tempo, vais para trás ou para diante?
O passado carrega a minha vida
Para trás e eu de mim fiquei distante,

Ou existir é uma contínua ida
E eu me persigo nunca me alcançando?
A hora da despedida é a da partida

A um tempo aproximando e distanciando...
Sem saber de onde vens e aonde irás,
Andando andando andando andando andando

Tempo, vais para diante ou para trás?


Dante Milano

NÃO HÁ VAGAS


terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Sou um pobre nato e, repito, um pobre vocacional. Ainda hoje o luxo, a ostentação, a jóia, me confundem e me ofendem.

Nelson Rodrigues

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

O  QUE  É  PENSAR
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No sentido de resistir à poderosa imagem de um progresso arborescente, onde a Ciência é colocada como tronco, eu gostaria de referir-me a outra ideia de Gilles Deleuze: a necessidade de "pensar pelo meio". Isso significa pensar sem ter como referência um fundamento ou objetivo ideal, e também não separar as coisas do meio que elas necessitam para existir. Em termos de meios científicos e suas demandas, está claro que nem tudo opera de acordo com os mesmos, ou seja, nem tudo vai aceitar o papel associado a criação científica, o papel de pôr à prova a forma em que ele é representado.
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Isabelle Stengers, Revista e-flux, julho/2012

A TERRA É PLANA?


GEOFILOSOFIA

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O professor Challenger, aquele que fez a Terra berrar como uma máquina dolorífera, nas condições descritas por Conan Doyle, depois de misturar vários manuais de geologia e biologia, segundo seu humor simiesco, fez conferência. Explicou que a Terra — a Desterritorializada, a Glaciária, a Molécula gigante — era um corpo sem órgãos. Esse corpo sem órgãos era atravessado por matérias instáveis não-formadas, fluxos em todos os sentidos, intensidades livres ou singularidades nômades, partículas loucas ou transitórias.
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G. Deleuze e F. Guattari in Mil platôs, vol 1

AUGUST MACKE


domingo, 19 de fevereiro de 2017

NON SENSE POLÍTICO

Em entrevista à AFP, Dilma Rousseff tranquilizou seus críticos: “Eu não serei candidata a presidente da República.” Deixou entreabertas outras portas: “Eu não afasto a possibilidade de eu me candidatar para esse tipo de cargo: senadora, deputada, esses cargos.”

Ai, ai, ai… Por que Senado ou Câmara? Não faz sentido! Se Lula diz que sua supergerente sofreu um golpe, se o PT sustenta que Dilma na Presidência seria a condição para o Brasil ser feliz, por que aprisionar a felicidade no Legislativo? O petismo não tem o direito de sacrificar o interesse maior da nação.

Qualquer coisa diferente da candidatura presidencial de Dilma soaria como uma admissão de que algo deu errado. E Dilma, como se sabe, deu certo. Só não foi mais longe porque os golpistas não deixaram. Dêem mais quatro anos para essa mulher e ela mostrará o que é sucesso. Dêem mais oito anos e aí sim todos verão o que é prosperidade. Lula não pode privar o Brasil de votar de novo na perfeição.

O PT já não dispõe de João Santana, engolfado pela lama da Lava Jato. Mas a plataforma de Dilma dispensa marqueteiros. Está pronta. Basta que a candidata trombeteie o seu legado de leniência com a corrupção, ruína fiscal e desemprego. Com tantos dedos nos olhos, o eleitor ficará cego. E pode apertar a tecla de Dilma na urna eletrônica.

Blog do Josias de Souza, 19/02/2015, 03:25 hs