sexta-feira, 24 de novembro de 2017

O  TERROR  ETERNO

Terroristas atacaram, nesta sexta-feira, dia consagrado à oração no Islã, uma mesquita lotada de fiéis em Bir al Abed, a oeste da cidade de El Arish, epicentro do ramo egípcio do Estado Islâmico no norte do Sinai. A imprensa do Cairo informa que pelo menos 235 pessoas morreram e outras 120 ficaram feridas no atentado contra o templo muçulmano de Al Rawda, segundo fontes do setor de segurança e do Ministério da Saúde do Egito. Trata-se de uma das ações terroristas mais sangrentas já registradas no país.
Testemunhas do ataque citadas pela edição digital do jornal Al Ahram afirmam que os terroristas explodiram uma bomba na mesquita, da vertente moderada sufi, enquanto vários homens armados abriram fogo indiscriminadamente contra os fiéis que fugiam após a explosão. Em meio a uma grande mobilização de forças de segurança, as equipes de emergência levaram os sobreviventes em ambulâncias a hospitais da região.
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Juan Carlos Sanz, El País,Cairo,24/11/2017, 16:02 hs
O PENÚLTIMO POEMA

Também sei fazer conjecturas. 
Há em cada coisa aquilo que ela é que a anima. 
Na planta está por fora e é uma ninfa pequena. 
No animal é um ser interior longínquo. 
No homem é a alma que vive com ele e é já ele. 
Nos deuses tem o mesmo tamanho 
E o mesmo espaço que o corpo 
E é a mesma coisa que o corpo. 
Por isso se diz que os deuses nunca morrem. 
Por isso os deuses não têm corpo e alma 
Mas só corpo e são perfeitos. 
O corpo é que lhes é alma 
E têm a consciência na própria carne divina. 

Alberto Caieiro

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quinta-feira, 23 de novembro de 2017

AFETOS NA PRODUÇÃO

Em saúde mental, é possível inserir os afetos na produção e a produção nos afetos. A ideia, de inspiração deleuze-guattariana, configura o que chamamos de clínica da diferença em psiquiatria. Na prática, que no fim das contas é o que interessa e o que vale, pelo menos para o paciente, a clínica da diferença segue mil linhas ( a se inventar) passíveis de se resumir em cinco: 1- O Encontro precede o Exame conforme a pergunta: que afetos do técnico em saúde mental movem a ação de atender (escutar) alguém? 2- A Vivência do paciente precede o Sintoma que ele traz. Significa pesquisar crenças e afetos como territórios do sentido (acreditar e sentir). 3- Os modos de ser, viver, perceber, pensar, sentir (subjetivações, singularidades) no lugar do diagnóstico canônico: traçar uma linha de fuga ao modelo biomédico. 4- O diagnóstico sindrômico (processos semióticos em sistemas abertos) no lugar da pecha maligna: transtorno mental endurecido como essência e destino. O reino da CID- 10. 5- A autonomia social, existencial, promovida, estimulada em lugar da dependência abjeta aos psicofármacos, aos manicômios explícitos e aos manicômios implícitos disfarçados de caps e/ou ambulatórios.

A.M.

PAULO DINIZ E MAXIXE MACHINE - Um chopp pra distrair


Nunca me senti só. Durante um tempo fiquei numa casa, deprimido, com vontade de me suicidar, mas nunca pensei que uma pessoa podia entrar na casa e me curar. Nem várias pessoas. A solidão não é coisa que me incomoda porque sempre tive esse terrível desejo de estar só. Sinto solidão quando estou numa festa ou num estádio cheio de gente. Cito uma frase de Ibsen: "Os homens mais fortes são os mais solitários". Viu como pensa a maioria: "Pessoal, é noite de sexta, o que vamos fazer? Ficar aqui sentados?". Eu respondo sim porque não tem nada lá fora. É estupidez. Gente estúpida misturada com gente estúpida. Que se estupidifiquem eles, entre eles. Nunca tive a ansiedade de cair na noite. Me escondia nos bares porque não queria me ocultar em fábricas. Nunca me senti só. Gosto de estar comigo mesmo. Sou a melhor forma de entretenimento que posso encontrar.
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Charles Bukowski

EMIL NOLDE


BANHO DE SOL

RIO — Não vai faltar assunto: exatamente às 8h desta quinta-feira, quando as grades das nove celas forem abertas para o banho de sol, o mais poderoso grupo que controlou a política fluminense por duas últimas décadas estará no apertado corredor da Cadeia Pública José Frederico Marques, em Benfica.
Até as 18h, quando os presos são recolhidos de volta às celas, a conversa vai ser longa. Estarão lado a lado os ex-governadores Sérgio Cabral e Anthony Garotinho inimigos políticos declarados; o presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), Jorge Picciani; e os deputados Edson Albertassi e Paulo Melo. Também está preso em Benfica o ex-secretário de Saúde Sérgio Cortes, figura muito lembrada nos últimos anos por Garotinho nas suas denúncias em redes sociais.
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Antonio Werneck, Globo.com, 23/11/2017, 06:21 hs



quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Apartheid brasileiro

Frequento alguns bons restaurantes, principalmente na região dos Jardins, em São Paulo.  Não me lembro de ter visto, em todos estes anos, sequer um negro como cliente. Como garçom sim, muitos. Talvez se vasculhar minha memória encontre um ou dois. Mas o fato se repete todas as noites. As mesas são ocupadas por brancos. Senti o mesmo quando fui à Africa do Sul, há alguns anos. Passei por comunidades negras, onde as casas eram contêineres de lata. No sol escaldante. Hospedei-me em um hotel seis estrelas, um dos melhores do mundo. No café da manhã, nenhum negro entre os hóspedes. Os garçons, negros. O Apartheid acabou? Sei. Aqui, sempre fomos hipócritas. Em minha novela O outro lado do paraíso, a personagem Nádia (Eliane Giardini) expulsa a empregada Raquel (Erika Januza) por namorar seu filho. Não admite que ele se case com uma negra. Quando escrevi as cenas, houve quem dissesse que eram fortes demais. Que até o movimento negro rejeitaria. Insisti. Foram ao ar exatamente dois dias depois do escândalo que aniquilou o apresentador William Waack. Exatamente por dizer, sem notar que era gravado, palavras semelhantes às de Nádia. Foi uma coincidência, as cenas foram gravadas meses antes. Mas a ficção espelha a sociedade. Sinceramente. Jamais esperaria que alguém como o apresentador, de tanta respeitabilidade, expressasse o preconceito tão fortemente. A Rede Globo foi ágil. Simplesmente o retirou do telejornal.
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Walcyr Carrasco, Época, 21/11/2017, 11:00 hs
Entre os gritos de dor física e os cantos do sofrimento metafísico, como traçar seu estreito caminho estoico, que consiste em ser digno do que acontece, em extrair alguma coisa alegre e apaixonante no que acontece, um clarão, um encontro, um acontecimento, uma velocidade, um devir?"
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Gilles Deleuze
Solução melhor é não enlouquecer mais do que já enlouquecemos, não tanto por virtude, mas por cálculo. Controlar essa loucura razoável: se formos razoavelmente loucos não precisaremos desses sanatórios porque é sabido que os saudáveis não entendem muito de loucura. O jeito é se virar em casa mesmo, sem testemunhas estranhas. Sem despesas.
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Lygia Fagundes Telles

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - Amar (Paulo José)


HISTERIA, HOJE

A histeria, patologia que "deu origem" à psicanálise no final do século XIX, se expressa hoje, mais que nunca, numa espécie de cipoal da clínica psicopatológica. Suas formas de expressão mudaram. Não se pode,pois, dizer que ainda exista uma entidade chamada histeria, ao modo de Freud. O que, então, existe? Uma profusão de linhas-sintomas disseminadas pelo corpo, constituindo-o: são as clássicas "somatizações conversivas" e/ou as "dissociações da consciência". Na prática, os quadros psiquiátricos ditos graves (psicoses de variados matizes, transtornos do humor - mania ou depressão, transtornos da personalidade, etc) costumam substituir a hipótese diagnóstica de uma histeria, e preencher o vazio nosológico.  Suscitam o emprego de mais e mais remédios químicos, mais e mais controle social, mais e mais preconceito moral, até que os pacientes deixem de incomodar a ordem da razão e as instituições que lhe são correlatas, bem como sejam “aliviados” dos sintomas incapacitantes para a vida autônoma. Fora da especialidade psiquiátrica, a histeria se expressa em fibromialgias, enxaquecas, algias múltiplas, parestesias, vastas extensões de pele, músculos e ossos em organismos codificados por universos virtuais. A autoflagelação pode, então, ser vista como a busca de certezas “de que estou vivo”. Na esteira de tais sintomas, não é de admirar que a ideação suicida “evolua” ao ato suicida. A experiência de sete anos de Caps nos mostra isso. Em suma, enquanto forma de ações-no-mundo ( organismo) e fluxo de imagens (consciência), a histeria pode “simular” rigorosamente qualquer transtorno mental, desconcertando a avaliação psiquiátrica, ainda mais em tempos de declínio da pesquisa psicopatológica. A psiquiatria acadêmica, (neurobiológica e canônica) costuma substituir sua monumental ignorância dos processos subjetivos de singularização existencial por condutas de imbecilização dos pacientes.


A.M.


P.S. - Texto republicado
MORTE E RESSURREIÇÃO

No Rio de Janeiro, como em Brasília, quando alguém fala em corrupção numa roda de conversa é impossível mudar de assunto. Pode-se mudar, no máximo, de corrupto. O que diferencia uma cidade da outra é que, no Rio, ficou mais fácil de circunscrever o debate. Com a chegada de Garotinho e Rosinha à cadeia, onde já estão Cabral e Picciani, o poder político que desgoverna o Rio por mais de duas décadas foi passado na tranca. Não se sabe por quanto tempo. Vivo, Vinicius de Moraes talvez dissesse: “Que seja eterno enquanto dure.”

A reunião da Facção Molequinha com o Primeiro Comando do PMDB no xadrez revela que, na política fluminense, a honestidade tornou-se uma grande solidão. Mas é preciso ver o lado bom das coisas, mesmo que seja preciso procurar um pouco. A morte da ética no Rio de Janeiro pode ser um grande despertar. Está entendido que os maus se fingiam de bons. Agora, basta que o eleitor se convença de que a coisa só vai melhorar quando os bons tiverem suficiente maldade para impor sua bondade por meio do voto.

A política do Rio de Janeiro morreu e, suprema desgraça, não foi para o céu. Entretanto, dependendo da reação dos eleitores, a morte pode representar um enorme despertar.


Do Blog do Josias de Souza, 22/11/2017, 16:37 hs

MARC CARY - Focus Trio - Round Midnight