sexta-feira, 28 de julho de 2017

PROCURADORES


Devemos participar também de todo o sofrimento que nos cerque. O que cada um de nós possui não é um corpo, mas um processo de crescimento que nos leva a experimentar todo tipo de dor. Assim como uma criança evolui através de todos os estágios da vida, até à velhice e à morte (cada um desses estágios aparentemente inatingível a partir do outro, seja por medo ou frustrado desejo), também evoluímos nós (não menos profundamente ligados à humanidade do que a nós mesmos) através de todo o sofrimento deste mundo. Não há lugar para justiça ao longo desse processo, da mesma maneira que não há para o medo da dor ou a atribuição de qualquer mérito a ela.
(...)

Franz Kafka

quinta-feira, 27 de julho de 2017

O JOGO

A diferença não é redutível às categorias da representação. Assim objetivada, a sua crucificação é fatal. Comumente, acontece;  isso é o normal natural, naturalizado.  Ou seja, não há como acessá-la ( e principalmente vivê-la) conforme as ferramentas do senso comum, do bom senso, do eu, da identidade, da individualidade, e para dizer numa palavra, da consciência. A diferença não é a consciência, ela não tem consciência. Trabalhar com ela, buscá-la, amá-la, mormente numa experiência psicoterápica ou em qualquer área da vida, é (ou deveria ser)  a prática do devir. O que é isso? Ora, o devir é o processo do desejo, o conteúdo do desejo. Daí não ter uma forma, não ser visível, não se fazer notar, exceto se estivermos num registro de sensibilidade para os afetos que circulam loucos. No entanto, quem suporta tantas intensidades urdidas pelo jogo dos acasos? 


A.M.

TOMAS DITARANTO


a noite - enorme
tudo dorme
menos teu nome


Paulo Leminski
QUEM  QUER  LER?

Na biblioteca municipal de Itápolis, um modesto município no Estado de São Paulo, estavam desaparecendo livros. Tantos, e com tanta velocidade, que a direção resolveu instalar câmeras para encontrar os responsáveis pela sangria. Na sexta-feira, 17 de julho, a polícia municipal descobriu que na realidade era um só, um adolescente que vinha pegar dois livros emprestados enquanto levava outros quatro escondidos na mochila. Na delegacia, o jovem, Flávio Fernando de Oliveira, de 18 anos, confessou que tinha em sua casa os demais exemplares furtados. Mas quando os agentes foram confiscá-los na residência, uma moradia modesta nos arredores de Itápolis, encontraram muito mais. Havia montanhas de livros no quarto daquele garoto. Centenas de títulos, de dezenas de gêneros e temas, provenientes das cinco bibliotecas da cidade. No total, 384 exemplares furtados, organizados e cuidados com esmero, um acervo acumulado à base de incontáveis delitos, mas também um monumento à paixão pela leitura de um adolescente solitário que preferia as páginas à rua. Quando teve de responder o que fazia com semelhante coleção, que não tinha devolvido nem tampouco vendido, Flávio respondeu: “Eu lia todos, sobre tudo”.
(...)

Tom C. Avendaño, El País, São Paulo, 27/07/2017, 11:02 hs
(...) poesia pra mim é a loucura das palavras, é o delírio verbal, a ressonância das letras e o ilogismo.Sempre achei que atrás da voz dos poetas moram crianças, bêbados, psicóticos. Sem eles a linguagem seria mesmal. (...) Prefiro escrever o desanormal.

Manoel de Barros

CELSO FONSECA - Ela Só Pensa Em Beijar


TORCER A VIDA

O torcedor de futebol é, antes de tudo, aquele que torce a realidade. Está tomado. Assim, não lhe coloque razões, argumentos lógicos, cautelas na previsão dos fatos, análises intelectuais, discursos assépticos. Nada disso. O torcedor de futebol é, antes de tudo, um apaixonado, louco de amor, por amor e com o amor às cores do seu time. No entanto, o seu objeto não é o time, mas o torcer pelo time. Ele ama o amar. De nada adianta lhe impingir juizos morais ou políticos. Esquece. Simplesmente aceite-o. Ele também é você, claro, travestido em outros assuntos, outros objetos. É você, mesmo e principalmente se não o admite. O torcedor de futebol é um "personagem conceitual". Ele expressa o solo primário da condição humana: afetos para todos, por todos os lados, por todos os poros... experiências de perdição.

A.M.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

FLIP 2017

Começa nesta quarta-feira, 26 de julho, a Festa Internacional Literária de Paraty (Flip), principal evento internacional dedicado à literatura no Brasil. Sob a curadoria da historiadora e jornalista cultural Joselia Aguiar, a Flip 2017 vai até o próximo domingo, dia 30, e homenageia o escritor brasileiro Lima Barreto (Rio de Janeiro, 1881-1922), autor do romance O triste fim de Policarpo Quaresma, entre outros. A 15ª edição da Flip é marcada pela presença maior de mulheres e negros, após as críticas à falta de diversidade das edições anteriores. Além da programação oficial, o festival literário de Paraty conta com eventos paralelos e a Flipinha, destinada à literatura infantil.

El País, São Paulo, 26/07/2017, 15:03 hs
Não consigo dormir.
Tenho uma mulher atravessada entre minhas pálpebras.
Se pudesse, diria a ela que fosse embora;
mas tenho uma mulher atravessada na garganta.

Eduardo Galeano

CARLOS SANTANA & LAURYN HILL and CEE-LO and Horns - Do You Like The Way


INOCÊNCIA E CULPA

A prova de nossa inocência
flutua pelo ar.
Por aí
aqui ou ali
em algum lugar.
Em algum jardim sem grama
alguma cerca de arame
algum buraco
alguma circunstância.
Nossa culpa é apenas mais um corpo
jogado no barranco do acaso
sob uma lua cor de sangue.


Eudoro Augusto
(…) 
Não concordo com o hábito de ser pessimista para não sofrer depois. O pessimista sofre duas vezes, antecipando e cumprindo. O otimista, no máximo, sofre uma única vez. E nem sempre se aprende com o sofrimento. Já vi gente que sofre barbaridade e não muda nada. Sofre e termina mais egoísta, mais cético, mais isolado, mais frio. Pode-se aprender com alegria, não? A alegria ensina, ainda mais depois das dificuldades.

Fabrício Carpinejar

CARYBÉ