sábado, 6 de fevereiro de 2016

Veterinário pode ser punido por fazer o bem - e de graça

Nenhuma entidade e nem mesmo o Estado podem se apossar do voluntariado sob risco de tentar transformá-lo numa espécie de gueto ou reserva de mercado. Corre o risco de produzir esse efeito o Conselho Regional de Medicina Veterinária de São Paulo proibiu o médico Ricardo Fehr Camargo (ameaçando-lhe com severas punições) de continuar com mutirões de atendimento, todos os sábados, a cães e gatos de pessoas que não têm dinheiro para pagar um especialista. Camargo atendia de graça na cidade paulista de São Carlos, das 9h às 20h. Segundo o Conselho, somente por meio de ONGs ou entidades do gênero o serviço pode ser considerado de utilidade pública. Um: o Conselho não é dono da definição do que é ou não é público. Dois: numa República, somente ao público compete dizer o que lhe é de utilidade, o mais é burocracia.

Antonio Carlos Prado e Elaine Ortiz,  Isto É, 04/02/2016, 14:58 hs
MISTÉRIO DOS SIGNOS II

(...) A primeira lei do amor é subjetiva: subjetivamente o ciúme é mais profundo do que o amor; ele contém a verdade do amor. O ciúme vai mais longe na apreensão e na interpretação dos signos. Ele é a destinação do amor, sua finalidade. De fato, é inevitável que os signos de um ser amado, desde que os "expliquemos", revelem-se mentirosos: dirigidos a nós, aplicados a nós, eles exprimem, entretanto, mundos que nos excluem e que o amado não quer, não pode nos revelar. Não em virtude de má vontade particular do amado, mas em razão de uma contradição mais profunda, que provém da natureza do amor e da situação geral do ser amado. Os signos amorosos não são como os signos mundanos: não são signos vazios, que substituem o pensamento e a ação; são signos mentiroros que não podem dirigir-se a nós senão escondendo o que exprimem, isto é, a origem dos mundos desconhecidos, das ações e dos pensamentos desconhecidos que lhes dão sentido. Eles não suscitam uma exaltação nervosa superficial, mas o sofrimento de um aprofundamento. As mentiras do amado são os hieróglifos do amor. O intérprete dos signos amorosos é necessariamente um intérprete de mentiras. O seu destino está contido no lema "Amar sem ser amado". 
(...)
G. Deleuze in Proust e os signos

ROBERTO MATTA


DOENÇA DOS CLICHÊS

A ruptura dos esquemas, ou a fuga para fora dos clichês, não conduz, certamente, a um estado de resignação ou de revolta meramente interior: resistir se distingue de reagir. Resistir é o próprio de uma vontade derivada do acontecimento, se alimenta do intolerável. O acontecimento é o próprio "potencial revolucionário" que se esgota quando rebatido sobre as imagens já feitas (clichês da miséria e da reivindicação).
(...)
F. Zourabichvili in Deleuze e o possível
(...)
Não tenho bens de acontecimentos.
O que não sei fazer desconto nas palavras.
Entesouro frases. Por exemplo:
- Imagens são palavras que nos faltaram.
- Poesia é a ocupação da palavra pela Imagem.
- Poesia é a ocupação da Imagem pelo Ser.
Ai frases de pensar!
Pensar é uma pedreira. Estou sendo.
Me acho em petição de lata (frase encontrada no lixo)
Concluindo: há pessoas que se compõem de atos, ruídos, retratos.
Outras de palavras.
Poetas e tontos se compõem com palavras.
(...)
Manoel de Barros
DO MESMO SACO

A mafia da merenda promoveu em São Paulo “uma verdadeira farra com o dinheiro público”, sustentam os delegados que investigam o descalabro. Acomodado no epicentro da folia, o tucanato se arrasta pela avenida sem um samba-enredo. Os tucanos suspeitos entoam as negaças usuais. E os dirigentes do PSDB se fingem de mortos. O silêncio potencializa o ruído segundo o qual o partido do governador Geraldo Alckmin exige honestidade sem praticá-la.

O PSDB acusa o PT de proteger corruptos. A exemplo do que fizera com o mensalão tucano de Minas e com o cartel paulista dos trens, o PT usa o roubo da merenda para afirmar que o protetor de corruptos é o PSDB. As últimas pesquisas sinalizaram que o eleitorado começa a dar razão às duas partes. O prestígio de Lula despenca. Mas nenhum tucano se tornou um presidenciável imbatível.

Noutros tempos, havia na política homens de bem e homens que se dão bem. Hoje, um olhar sobre a carceragem de Curitiba revela que há na praça uma terceira categoria: os homens que são flagrados com os bens. Ainda não há condenados em São Paulo. Mas as evidências exigem uma reação do tucanato. Nem que seja uma cara de nojo.

Se o assalto à Petrobras espanta pelo volume, o roubo da merenda assusta pela desfaçatez da corrupção miúda. Tirar alimento da boca das crianças é a prova que faltava: a honestidade tem cura.

Do Blog Josias de Souza, 04:02, 20:33 hs

ERIK SATIE - Gnossienne 1 - Alessio Nanni, piano


sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

HOJE, AINDA

Já não compramos laranjas, compramos vitalidade, já não compramos um automóvel, compramos prestígio. (...) Com um dentifrício, por exemplo, adquirimos, não um mero antisséptico ou um produto de higiene, mas sim a libertação do medo de sermos sexualmente repulsivos. Com a vodka ou o whisky não adquirimos um veneno protoplásmico que, em pequenas doses, pode afetar o sistema nervoso de maneira psicologicamente valiosa; estamos adquirindo amizade e boa camaradagem... (...) Com o best-seller do mês adquirimos cultura, a inveja dos vizinhos menos ilustrados e a admiração dos que são intelectuais.
(...)
Aldous Huxley
Não tive filhos, não colaborei para a propagação da miséria humana.

Machado de Assis

GRANDES ESCRITOS


CIÊNCIA E FÉ

A Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) disse nesta sexta-feira (5), véspera do Carnaval, que detectou a presença de zika vírus ativo, ou seja, com potencial de infecção, na saliva e urina. A transmissão, no entanto, ainda não foi confirmada.

A evidência, baseada na análise de amostras de dois pacientes com sintomas compatíveis com a doença, é inédita e pode ou não ser relevante –a forma de transmissão da zika até hoje comprovada é pela picada do mosquito Aedes aegypti. No entanto, o estudo sugere a necessidade de investigar mais outras vias de transmissão, disse a entidade, vinculada ao Ministério da Saúde e referência no assunto.

"Ainda não sabemos se ele faz o mesmo percurso até o conjunto do organismo. Teremos que fazer outras pesquisas para chegar a essa conclusão", disse o presidente da Fiocruz, Paulo Gadelha.
(...)
Henrique Coelho,do G1 no Rio, 05/02/14:33 hs
ela tem os olhos azuis
mais verdes que vi
a poesia arrebenta
em suas praias de carne

A.M.

COMO NASCEM AS LEIS?


ANTIDEPRESSIVOS À MÃO CHEIA

Os antidepressivos são medicamentos úteis no tratamento das depressões graves (o paciente geralmente melhora), como também nas depressões ditas moderadas. Contudo, o problema não está aí. Ou melhor, há questões clínicas essenciais: 1-o conceito de depressão, ou: o paciente está de fato deprimido?; 2-caso esteja, qual a causa (etiologia) de tal estado?; 3- como consequência, o efeito dos antidepressivos está condicionado a esses ítens; 4- assim, por melhor que seja o antidepressivo (os de "ponta", caríssimos, por sinal), sua eficácia é limitada ao funcionamento neuroquímico, portanto, ao cérebro, órgão anatômico-fisiológico; lembro de uma paciente que desenvolveu um sorriso "fluoxetínico", alusão a fluoxetína, chamada a droga da felicidade quando, há anos, do seu lançamento no mercado. Os psicofármacos antidepressivos, bons remédios, podem se tornar "maus" se prescritos inadequadamente (segundo um diagnóstico errado), excessivamente ( segundo uma visão positivista da neuroquímica - a neuromania), se associados a outros psicofármacos (interações medicamentosas) o que turva uma avaliação precisa da sua eficácia, bem como submetem o paciente a efeitos adversos desconhecidos. Em suma, percebe-se hoje uma fetichização dos antidepressivos devido a vários fatores. Uns, talvez os mais importantes, estão ligados aos interesses de lucratividade das grandes empresas farmacêuticas internacionais. Outros, frutos do horror e do vazio existenciais perpetrados pelas relaçoes capitalísticas mundializadas, se articulam como produção de uma demanda irreversível e irresistível; mais e mais remédios para a dor de existir e a sua correlata erosão de sentido.

A.M.

ODILON REDON