sexta-feira, 31 de outubro de 2014

ODILON REDON


ENCONTROS

Quando se trabalha, a solidão é, inevitavelmente absoluta. Não se pode fazer escola, nem fazer parte de uma escola. Só há trabalho clandestino. Só que é uma solidão extremamente povoada. Não povoada de sonhos,fantasias ou projetos, mas de encontros. Um encontro é talvez a mesma coisa que um devir ou núpcias.É do fundo dessa solidão que se pode fazer qualquer encontro. Encontram-se pessoas (e ás vezes sem as conhecer nem jamais tê-las visto), mas também movimentos, idéias, acontecimentos, entidades.
(...)
Gilles Deleuze e Claire Parnet in Diálogos
CORPO

A Igreja diz: o corpo é uma culpa. A Ciência diz: o corpo é uma máquina. A Publicidade diz: o corpo é um negócio. E o corpo diz: eu sou uma festa.

Eduardo Galeano

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

SEM CHÃO

Como um terremoto que confunde a nossa confiança no próprio solo que estamos pisando, pode ser profundamente perturbador desafiar as nossas crenças habituais, fazer estremecer as doutrinas em que aprendemos a confiar.

Carl Sagan in O mundo assombrado pelos demônios

DAS OBRAS PRIMAS


FAZ ESCURO MAS EU CANTO

Faz escuro mas eu canto, 
porque a manhã vai chegar. 
Vem ver comigo, companheiro, 
a cor do mundo mudar. 
Vale a pena não dormir para esperar 
a cor do mundo mudar. 
Já é madrugada, 
vem o sol, quero alegria, 
que é para esquecer o que eu sofria. 
Quem sofre fica acordado 
defendendo o coração. 
Vamos juntos, multidão, 
trabalhar pela alegria, 
amanhã é um novo dia. 

Thiago de Mello
POR TODA PARTE

É um fenômeno muito comum. Sempre que encontro alguém que parece pensar muito bem de si mesmo, ou que se gaba muito, sempre fico certo de que há algum sentimento de inferioridade em algum canto.

Agatha Christie in Tragédia em três atos

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

SOCIEDADE DE CONTROLE X SOCIEDADE DISCIPLINAR

Em tempos de constante vigilância, por meio de aparelhos eletrônicos e tecnologias que nos permitem ficar "on line" o tempo todo, a discussão acerca do controle social é importante. A discussão sobre a melhor forme de educar e normatizar a vida de crianças, adolescentes e jovens não surgiu com a "lei das palmadas", entretanto a discussão dessa lei é uma ocasião interessante para questionar quais são os novos meios disciplinadores do comportamento humano, sobretudo dos mais jovens.

Durante os séculos XIX e XX, o capitalismo priorizou uma sociedade disciplinar, centrada na casa, na escola, na igreja, na fábrica, na prisão. Para Michel Foucault, tratava-se de uma sociedade disciplinar hierarquizada, conduzida pela constante vigilância e pelo controle do tempo e do comportamento por um "superior": o pai, o professor, o patrão.

O século XXI inaugurou uma outra forma de controle, aparentemente mais leve e substancialmente mais eficaz: o controle internalizado no medo da exclusão, da segregação, da condenação pelo olhar dos outros. Gilles Deleuze atribui à sociedade escópica (na qual todos veem e são vistos) um dos principais propulsores desse estado de coisas. Não se trata mais da presença física de uma autoridade disciplinar nem dos limites de um espaço que requer determinado comportamento (como a fábrica, a escola, a igreja). As cobranças penetram na alma do indivíduo que se sente coagido a se comportar de determinada forma para não ser condenado.

Thaís Cavalcanti, do blog "Insustentável"

VANESSA DA MATA - Baú


ZEN.CONSULTA 

Psiquiatra- Bom dia! pois não, o que lhe traz aqui?
Paciente- Dr., há 5 anos sofro de delírio de perseguição; e só tenho piorado. Hoje, me sinto acuado e invalidado como gente. Suspeito de tudo.

Psiquiatra -  Fale mais sobre isso; quem você acha que lhe persegue?
Paciente-Os psiquiatras.

Psiquiatra - Os psiquiatras?? Como assim? Você tem certeza? De que modo lhe perseguem?
Paciente- Com certeza, dr., eles me ferem na alma com dezenas de diagnósticos morais e me ferem no corpo com dezenas de remédios químicos inúteis e tóxicos. Sou um homem sequelado, estigmatizado. Me ajude, dr.

Psiquiatra- Ah, entendi sem entender. Então, meu caro, o seu caso não é para mim. Procure a Polícia e depois  a Justiça.E boa sorte.
Paciente- Obrigado, dr.

Psiquiatra- Não há de que.
Paciente -Só uma coisa a mais dr - mas o sr. também não é psiquiatra?

Psiquiatra - Sim, claro, sou psiquiatra, mas também sou louco como você. Acredito no seu delírio.
Paciente- Ah, agora entendi.
UMA DIDÁTICA DA INVENÇÃO

I
Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:
a) Que o esplendor da manhã não se abre com
faca
b) 0 modo como as violetas preparam o dia
para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas
vermelhas têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência
num fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega 
mais ternura que um rio que flui entre 2
lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.
Etc.
etc.
etc.
Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.

IV 
No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava
escrito:
Poesia é quando a tarde está competente para
Dálias.
É quando
Ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa
É quando um trevo assume a noite
E um sapo engole as auroras 

IX 
Para entrar em estado de árvore é preciso
partir de um torpor animal de lagarto às
3 horas da tarde, no mês de agosto.
Em 2 anos a inércia e o mato vão crescer
em nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até
o mato sair na voz.

Hoje eu desenho o cheiro das árvores.

(...)
Manoel de Barros

HUMANO, DEMASIADO HUMANO

Suzane Richthofen se casa dentro da cadeia. Com uma sequestradora 

Casal vive em cela especial desde setembro. Antes, parceira de Suzane mantinha relacionamento com Elize Matsunaga

Suzane Von Richtofen se casou. A nova parceira da detenta, que está há 12 anos encarcerada na penitenciária de Tremembé, no interior paulista, é Sandra Regina Gomes, condenada a 27 anos de prisão pelo sequestro de uma empresária em São Paulo. As informações foram divulgadas pelo jornal Folha de S.Paulo nesta terça-feira. 

A história de amor entre Suzane e Sandra tem nuances dignos de trama de novela. Antes do enlace entre as duas, Sandra vivia maritalmente com Elize Matsunaga, presa pela morte e esquartejamento do marido Marcos Kitano Matsunaga, em junho de 2012.

O casal se conheceu na fábrica de roupas que funciona dentro do presídio e onde Suzane ocupa um cargo de chefia. Ao perceber o interesse de Suzane por Sandra, o relacionamento com Elize acabou. O triângulo amoroso acabou por romper a amizade entre as presas. 

Desde setembro deste ano Suzane e Sandra passaram a dormir em uma cela especial destina a presas casadas. Lá, dividem o espaço com mais oito casais. Antes Suzane ocupava uma ala especial, destinada a presas evangélicas, desde 2002, quando foi presa pelo assassinato dos pais Manfred e Marísia von Richthofen, mortos a pauladas a mando de Suzane. 

Para poder dormir com seu novo amor, a ex-estudante teve de assinar um documento de reconhecimento de relacionamento afetivo, exigido para todas as presas que resolvem viver juntas.
(...)
Fonte:Veja, 28/10/2014

JEREMY MANN


PENSAR, PENSAR

...Mas como ser feliz num mundo que rebenta de miséria? Em cada cartaz de cada esquina o que se estampa é a morte;ou, pior, a tirania; a brutalidade; a tortura; a derrocada da civilização; o fim da liberdade. Nós aqui, pensou, apenas nos abrigamos debaixo de uma folha, uma folha que será destruída. E Eleanor pretende que o mundo melhorou, só porque duas pessoas, dentre todos os milhões, são "felizes". Tinha os olhos postados no chão fixamente. Estava vazio agora, salvo por um fiapo de musselina rasgado de alguma saia. Por que observo assim as menores coisas?- pensou. Mudou de posição. Por que tenho de pensar? Quuisera não pensar. Quisera ter cortinas na mente, como as dos vagões- leitos de estrada de ferro, cortinas que baixam interceptam a luz; as cortinas azuis que a gente puxa nas viagens noturnas. Quisera ter o falcão da mente encapuzado, deixar de pensar, pois pensar é um tormento, e apenas vogar, vogar à deriva e sonhar...

Virginia Woolf

terça-feira, 28 de outubro de 2014

IMPASSE

Criou-se uma situação realmente trágica: — ou o sujeito se submete ao idiota ou o idiota o extermina.

Nelson Rodrigues