quinta-feira, 17 de abril de 2014

IRVING PENN


SUBJETIVIDADE ÉTICO-ESTÉTICA

(...)  Podemos abarcar todo o sistema  nosológico psiquiátrico para demonstrar que o paciente está de antemão submetido à forma psiquiátrica, produzindo-o antes de tudo como massa passiva à espera  de  ordens. Tal situação é a de um anti-devir. Por isso,a "ciência psiquiátrica" na verdade é um sistema classificatório de condutas e pode  ser  visto como uma proteção erguida contra o caos. Neste sentido, o trabalho da reforma psiquiátrica, incluindo-se o libelo anti-manicomial, só poderá  efetivar-se como Mudança na medida em que for diretamente subjetivo; trabalho de produção  da Clínica, mais precisamente de Clínicas não alternativas e sim diferentes que usem da psiquiatria materiais esparsos, pedaços de uma clínica-outra. Tudo isso e mais as ações institucionais das políticas públicas compõem máquinas de fabricar o Sentido.
(...)
A.M.
A Terra, a  Molécula gigante

FALA, GABRIEL...

A idade não é a realidade salva no mundo físico.
A essência de um ser humano resiste ao passar do tempo.
As nossas vidas são eternas, o que significa que os nossos espíritos continuam a ser tão jovens e vigorosos como quando éramos jovens. Pensa no amor como um estado de graça...não é um meio para nada, mas sim o alfa e o ómega.
Um fim em si mesmo.

Gabriel García Marquez
Gabriel García Márquez morre aos 87 anos

O escritor colombiano Gabriel García Márquez morreu nesta quinta-feira, aos 87 anos, na Cidade do México. Ainda não há informações sobre a causa da morte, mas o autor de "Cem anos de solidão", que há anos enfrentava um câncer, chegou a ser internado neste mês por conta de uma infecção.



A verdade e a mentira são construções que decorrem da vida no rebanho e da linguagem que lhe corresponde. O homem do rebanho chama de verdade aquilo que o conserva no rebanho e chama de mentira aquilo que o ameaça ou exclui do rebanho. (...)Portanto, em primeiro lugar, a verdade é a verdade do rebanho.

Friedrich Nietzsche
ECOS D'ALMA

Oh! madrugada de ilusões, santíssima,
Sombra perdida lá do meu Passado,
Vinde entornar a clâmide puríssima
Da luz que fulge no ideal sagrado!

Longe das tristes noites tumulares
Quem me dera viver entre quimeras,
Por entre o resplendor das Primaveras
Oh! madrugada azul dos meus sonhares.

Mas quando vibrar a última balada
Da tarde e se calar a passarada
Na bruma sepulcral que o céu embaça

Quem me dera morrer então risonho
Fitando a nebulosa do meu sonho
E a Via-Látea da Ilusão que passa!

Augusto dos Anjos

CÉU e HERBIE HANCOCK - Tempo de Amor


HOMENS DE POUCA FÉ

Itabuna – A FICC (Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania), informa à população, que em virtude da greve da Polícia Militar e a mudança de horário de encerramento de circulação dos ônibus coletivos, o espetáculo “A Paixão de Cristo”, que seria apresentado nesta sexta-feira (18/04), foi adiado; a data ainda será divulgada. A FICC pede desculpas à todos e deseja uma páscoa de paz.
(...)
do site Itabunaurgente.com
As boas intenções têm sido a ruína do mundo. As únicas pessoas que realizaram qualquer coisa foram as que não tiveram intenção alguma.

Oscar Wilde

CÃO QUE LADRA NÃO MORDE


NA SÍRIA

Oposição acusa governo sírio de novos ataques com armas químicas

Ativistas de oposição acusaram forças aliadas ao presidente sírio Bashar al-Assad de realizar um novo ataque com gás venenoso em Harasta, subúrbio de Damasco, nesta quarta-feira. Um vídeo, disponibilizado no YouTube, mostra quatro homens recebendo oxigênio, e um deles tem o rosto coberto por vômito e sofre espasmos durante o atendimento.
O governo sírio e a oposição têm trocado acusações de uso de gás venenoso nos confrontos, e o ataque desta quarta-feira é o quarto denunciado pela oposição neste mês. A narração do vídeo afirma que armas químicas já haviam sido usadas em Harasta na última sexta-feira. 
(...)
Globo
naufrágio na Coréia do Sul

quarta-feira, 16 de abril de 2014

O velho marciano morto, nunca pensara nisso, ele não parecia que um dia iria morrer. Isso alterava fundamentalmente a sua vida? Ou não lhe traria sequer a mais ligeira modificação no modo de ser e encarar as coisas - sempre fora, era assim, sempre seria, ele vivendo, a morte do pai já em sua vida incorporada. Mais uma época ali se encerrava? Acaso não vivia sempre encerrando épocas e inaugurando outras? De onde vinha? para onde ia? Que sentido tinham as coisas? Nenhum, nenhum , se dizia, sentindo finalmente seus olhos se encheram de lágrimas.

Fernando Sabino
O homem que pretende ser sempre coerente no seu pensamento e nas suas decisões morais ou é uma múmia ambulante ou, se não conseguiu sufocar toda a sua vitalidade, um mono maníaco fanático.

Aldous Huxley

GIRODET TRIOSON



EM TEU CRESPO JARDIM,
ANÊMONAS CASTANHAS

Em teu crespo jardim, anêmonas castanhas
detêm a mão ansiosa: Devagar.
Cada pétala ou sépala seja lentamente
acariciada, céu; e a vista pouse,
beijo abstrato, antes do beijo ritual,
na flora pubescente, amor; e tudo é sagrado.

Carlos Drummond de Andrade
Ato contra a Copa do Mundo em São Paulo termina em confronto

Cerca de mil pessoas voltaram às ruas de São Paulo na noite desta terça-feira para protestar contra a realização da Copa do Mundo. A manifestação que começou pacífica terminou com confronto entre mascarados e policiais. Segundo a Polícia Militar, 54 pessoas foram detidas na estação do metrô Butantã, na Zona Oeste da capital paulista. Ainda de acordo com a PM, eles foram levadas para o 14º Distrito Policial.
O clima de tensão começou só no final da caminhada, que seguiu da Avenida Paulista em direção ao Largo da Batata. Manifestantes jogaram duas bombas de fabricação caseira em direção à Polícia Militar, que não reagiu. Por volta das 21h30, quando o ato chegava ao fim, um grupo quebrou orelhões e atacou duas agências bancárias no entorno da estação Butantã. A Tropa de Choque da Polícia Militar cercou a área e os vândalos foram detidos dentro da estação.
(...)
Leonardo Guandeline, O Globo

terça-feira, 15 de abril de 2014

O QUE É TRAIR?

Chegar ao não-lugar do disfarce incessante. Ainda mais que a coisa toda vem do século XIX. É uma fraude cuidadosamente preparada em pequenos frascos-ampolas. Todos acreditam. Um dia, ele entra no consultório e senta-se na cadeira do paciente. Trata-se da desordem infiltrada no tecido da ordem mental asséptica. Mas não há "mental".O psiquiatra torna-se um paciente que resiste ao funcionamento vertical da Entrevista. Pergunta se há consciência. Não há. Descobre que o cérebro é uma instituição instituída por neurônios aflitos. Ensaia solilóquios bizarros. A essa altura, rompem-se identidades. Escutar um delírio passa a ser olhar as vozes, percutir o infinito e ouvir o tempo que não passa... e já passou. Trair é inventar.

A.M.

NANA VASCONCELOS en Montreux


— É pecado sonhar?
— Não, Capitu. Nunca foi.
— Então por que essa divindade nos dá golpes tão fortes de realidade e parte nossos sonhos?
— Divindade não destrói sonhos, Capitu. Somos nós que ficamos esperando, ao invés de fazer acontecer.

Machado de Assis
As pessoas que falam muito, mentem sempre, porque acabam esgotando seu estoque de verdades.

Millôr Fernandes

O CONSUMO



segunda-feira, 14 de abril de 2014

Quão louco e estranho e divertido parecia tal plano, na hora que eu pensava nele! - seguir os passos da sombra, ver onde é que ela vivia, se é que vivia mesmo, e conversar com ela como se fosse uma pessoal igual ao resto de nós.

Virginia Woolf

O CÉREBRO NÃO É A MENTE


Rio: MP encontra mais de 40 corpos de bebês no Hospital Pedro Ernesto

O Ministério Público descobriu mais de 40 corpos de recém-nascidos no necrotério do Hospital Universitário Pedro Ernesto, administrado pelo governo estadual. Conforme reportagem exibida neste domingo no “Fantástico”, da TV Globo, alguns deles estão na unidade desde 2009, e pelo menos 15 ainda não foram identificados.
De acordo com a promotora Ana Cristina Huth Macedo, da Vara da Infância e Juventude, os corpos foram encontrados amontoados no hospital, que é uma unidade referência em partos de alto risco:
(...)
O Globo
Quem paga o pato é você

O maior líder da oposição atualmente, que cobra mais medidas concretas da presidente Dilma Rousseff, que mais reclama do estado preocupante da economia brasileira, que ganha mais manchetes, que mais mexe com o mercado quando abre o verbo, e que mais tem condições de ganhar a eleição, todo mundo sabe, é Lula, o criador da criatura.
Lula sempre soube que não entende nada de economia. Mas entende de povo. Sabe que os brasileiros estão pessimistas e irritados com a inflação sentida no mercado e na feira. O tal “teto da meta” já foi estourado há muito tempo no dia a dia, e isso é fatal para uma líder sem carisma. As greves começarão a pipocar, para o povo recuperar o poder aquisitivo. Lula não gosta nadinha do que vê. Você pode chamá-lo do que quiser, menos de bobo.
Em sua entrevista a blogueiros, com repercussão na imprensa que ele ataca, Lula foi direto na jugular da companheira. “Poderíamos estar melhor, e a Dilma terá de dizer isso na campanha claramente: como a gente vai melhorar a economia brasileira.” Lula fala como se não fosse em nada responsável por tudo o que está aí. E a grande maioria dos eleitores acredita nele.
(....)
Ruth de Aquino, Época

domingo, 13 de abril de 2014

Que fiz de mim? Encontrei-me
Quando estava já perdido,
Impaciente deixei-me
Como a um louco que teime
No que lhe foi desmentido

Fernando Pessoa

ANTOINE BLANCHARD


PÁRIAS DA MENTE

Existe uma população oculta de psicóticos "apáticos" (que psicoses? seriam realmente psicóticos? quais os diagnósticos? etc) improdutivos, apragmáticos,que vivem em suas casas, com suas famílias (ou não...), em cotidianos quase parados, organismos travados, figuras modernas de zumbis farmacologizados ou semi-farmacologizados...Não saem à rua, não realizam tarefas domésticas,não trabalham, não se divertem, falam pouquíssimo, atendem às solicitações mínimas, expressam rostidades debilitadas (existencialmente), enfim, mortos-vivos se arrastando no tempo à espera da morte Constatei esse dado após haver realizado, durante vários meses, visitas domiciliares (como psiquiatra da secretaria de saúde da prefeitura e técnico do Caps)  na cidade de Vitória da Conquista.O que fazer? Uma idéia simples (ou não tão simples) seria a criação de uma equipe técnica itinerante em saúde mental. Ela trabalharia esses pacientes no sentido de 1-melhorar a sua qualidade de vida, mesmo que eles não saíssem de casa; 2-obter um mínimo de capacidade de autonomia social, como por exemplo, ir à padaria comprar um pão, andar só, resolver pequenos problemas do cotidiano, etc; 3-reintegrá-los, dentro de critérios clínicos estabelecidos, à participação terapêutica no Caps ou outros serviços.; 4-reavaliar, clínicamente, a "verdadeira"psicopatologia que se esconde sob os escombros de existências malogradas, derrotadas, naturalizadas pelo fator social marginalizante; dito de outro modo: ele está de fato doente? uma análise seria possível fora do modelo biomédico? 5-não construir uma espécie de cadastro dos irrecuperáveis, mas restaurar, inventar (ou tentar) uma atitude singular da chamada equipe em saúde mental para com vidas subjetivas destruídas, humilhadas; 6-por fim, trabalhar no sentido de separar o que é da psiquiatria (fatores etiológicos, quadro clínico, etc)  do que não é, mesmo que pareça que seja: quadros nosológicos produzidos pela miséria sócio-familiar e pela cultura capitalística que penetram sorrateiramente os poros da subjetividade. São tópicos, entre outros, a serem pensados e elaborados  no quadro de um projeto da rede pública em saúde mental.

A.M.
Queremos livros que nos afetem como um desastre. Um livro deve ser como um machado diante de um mar congelado em nós.

Franz Kafka
Império dos Sentidos, dir. de Nagisa Oshima, 1976

A SAÚDE DA CORRUPÇÃO

As coisas andam esquisitas. Ou sempre estiveram, não sei. Dia agradável de trabalho na Serra da Canastra, revisitei a nascente do São Francisco e vi uma loba-guará se movendo com liberdade em seu território. De noite sonhei com o PT. Logo com o PT.

Sentei-me na cama para entender como os pesadelos do Planalto invadiam meus sonhos na montanha. Lembrei-me de que no início da noite vira a história de André Vargas e do doleiro Alberto Youssef na TV, os farmacêuticos do ar que vendiam remédios dos outros ao Ministério da Saúde. Pensei: esse Vargas é vice, no ano que vem seria presidente da Câmara dos Deputados. Como foi possível a escalada de um quadro tão medíocre? A resposta é a obediência, o atributo mais valorizado pelos dirigentes, antítese de inquietação e criatividade, sempre punidas com o isolamento.

Vargas fazia tudo o que o partido queria: pedia controle da imprensa e fazia até o que o partido aprova, mas não ousa fazer, como o gesto de erguer o punho na visita do ministro Joaquim Barbosa, do STF, ao Congresso. Em nossa era, esse deputado rechonchudo, que poderia passar por um burguês tropical, simboliza o resultado catastrófico da política autoritária de obediência, imposta de cima.

Num falso laboratório, com o nome fantasia de Labogen (gen é para dar um ar moderno), Vargas e Youssef tramavam ganhar dinheiro vendendo remédios ao ministério. O deputado, que ocupava o mais alto cargo do PT na Câmara, trabalhava para desviar dinheiro da saúde! É um tipo de corrupção que merece tratamento especial, pois suga recursos e equipamentos destinados a salvar as pessoas. A corrupção na saúde ajuda a matá-las.

A catástrofe dessa política autoritária se revela também na escolha de Dilma Rousseff para suceder a Lula. Sob o argumento de que os quadros políticos poderiam abrir uma luta fratricida, escolheu-se uma técnica com capacidade de entender claramente que Lula e o PT fariam sua eleição. A suposição de que o debate entre candidatos de um mesmo partido seria ameaçador para o governo é uma tese autoritária. Nos EUA, vários candidatos de um mesmo partido disputam as primárias. E daí?

Lula sabia que um quadro político nascido do choque de ideias seria um sucessor com potencial maior que Dilma para ganhar luz própria. E a visão autoritária de Lula – sair plantando postes nas eleições, em vez de aceitar que novas pessoas iluminassem o caminho – contribuiu para a ruína do próprio PT.

Tive um pesadelo com o PT porque jamais poderia imaginar que chegasse a isso. Os petistas, aliás, carnavalizaram uma tradição de esquerda. Figuras como André Vargas erguem os punhos com a maior facilidade, como se estivessem partindo para a Guerra Civil Espanhola na Disneylândia. E os erguem nos lugares e circunstâncias mais inadequados, como num momento institucional. Um vice-presidente não pode comportar-se na Mesa como um militante partidário. O correto é que tivesse sido destituído do cargo depois daquele punho erguido. Mas o PT e seus aliados não deixariam o processo correr. Ele são fortes, organizados, bloqueiam tudo. Será que essa força toda dará conta do que vem por aí?

Estamos em ano eleitoral e Dilma, nesse cai-cai. É compreensível que as esperanças se voltem para Lula como salvador de um projeto em ruínas. Mas como salvar o que ele mesmo arruinou? O esgotamento do projeto do PT é também o de Lula, em que pese sua força eleitoral. Ele terá de conduzir o barco num ano de tempestades.

Para começar, essa da Petrobrás, Pasadena e outras saidinhas. O vínculo entre Youssef, Vargas e a Petrobrás também está sendo investigado pela Polícia Federal. Mas a relação do doleiro com o governo não deveria passar em branco. Num dos documentos surgidos na imprensa, fala-se que Youssef estava numa delegação oficial brasileira discutindo negócios em Cuba. Por que um doleiro numa delegação oficial? Por que Cuba?

Muitas novidades estão aparecendo. Mas essa do André Vargas, homem influente no partido, um farmacêutico do ar que neste momento deve estar erguendo os punhos no espelho, ensaiando para ser preso, interrompeu meu sono em São Roque de Minas com uma clara mensagem: o PT é um pesadelo.

Tenho amigos que ainda votam no PT porque acham ser preciso impedir a vitória da direita. Não vejo assim o espectro eleitoral. Há candidatos do centro e da esquerda. Que importância tem a demarcação rígida de terrenos, se estamos diante de fatos morais inaceitáveis, como a corrupção na Saúde, o abalo profundo na Petrobrás, a devastação da nossa vida política?

Cai, cai, balão, não vou te segurar. Estivemos juntos quando os petistas eram barbudos e tinham uma bolsa de couro a tiracolo. Mudou o estilo. Agora têm bochechas e um doleiro a tiracolo. Naquela época já pressentia que não ia dar certo. Mas não imaginava essa terra arrasada, um descaminho tão triste.

É um consolo estar nas nascentes do São Francisco, ver as águas descendo para a Cachoeira Casca Danta: o lindo movimento das águas rolando para sentir a mudança permanente. Sei que essa é uma ideia antiga, de muitos séculos. Mas para mim sempre foi verdadeira. É o que importa.

Uma das grandes ilusões da ditadura militar foi interromper a democracia supondo que adiante as pessoas votariam com maturidade. A virtude do processo democrático é precisamente estimular as pessoas a que aprendam por si próprias e evoluam.

As águas de 2014 apenas começaram a rolar. Tanto se falava na Copa do Mundo como o grande teste e surge a crise da Petrobrás. Poucos se deram conta de que, com os sete mortos nas obras dos estádios brasileiros, batemos um recorde de acidentes em todas as Copas. De certa forma, são vítimas da megalomania, do ufanismo, de todas essas bobagens de gente enrolada na Bandeira Nacional comprando refinarias no Texas, deixando uma fortuna nas mãos de um barão belga que nem acreditou direito naquela generosidade. Ergam os punhos cerrados para o barão e ele responderá com uma merecida banana. Gestualmente, é um bom fim de história.

Fernando Gabeira, O Estado de S. Paulo, 11/04/2014
Não poderia durar. Era muita felicidade.

Thomas Hardy

MARINA LIMA - Acho Que Dá


GRANDE SÓ O MENOR

As pessoas pensam sempre em um futuro majoritário ( quando eu for grande, quando tiver poder...). Quando o problema é o de um devir-minoritário: não fingir: não fazer como ou imitar a criança, o louco, a mulher, o animal, o gago ou o estrangeiro, mas tornar-se tudo isso, para inventar novas forças ou novas armas.

G. Deleuze e C. Parnet  in Diálogos

sábado, 12 de abril de 2014

nuvens brancas
passam
em brancas nuvens

Paulo Leminski
Hoje, na Favela da Telerj, no Engenho Novo, Zona Norte do Rio

A constância é contrária à natureza, contrária à vida. As únicas pessoas completamente constantes são os mortos.

Aldous Huxley

GRUPO CORPO - O Corpo


Não existe pensador católico. Não existe pensador marxista. Existe pensador. Preso a nada.

Millôr Fernandes
TODOS DELIRAM

(...) Delirar é um processo cujo combustível é o desejo-produção.  Ele explode os esquemas físico-químicos (que remédio prescrever? ), familiaristas ( quem é o culpado? ), dilemas da consciência ( ser ou não ser? ) ou as vicissitudes do eu ( quem sou?). Assim, o pensamento como cognição é muito pobre para expressar a subjetividade dita patológica. No entanto, a psiquiatria atual se serve dele numa Axiomática conectada ao modo de produção capitalista. É uma aliança embutida na fraseologia do tecno-especialismo. A ciência como teologia pacificada. Desaparecem as possibilidades de pensar diferente porque o pensamento está dado como cognição redundante do real. A psiquiatria não mais se pergunta o que é o real, de que realidade se trata. Gigantesco narcisismo, ela é o próprio real, a realidade atual tida como a melhor possível.
(...)
A.M.

CARLOS SANTANA - Maria Maria


TRISTEZA DO INFINITO

Anda em mim, soturnamente, 
uma tristeza ociosa, 
sem objetivo, latente, 
vaga, indecisa, medrosa. 
Como ave torva e sem rumo, 
ondula, vagueia, oscila 
e sobe em nuvens de fumo 
e na minh'alma se asila. 

Uma tristeza que eu, mudo, 
fico nela meditando 
e meditando, por tudo 
e em toda a parte sonhando. 

Tristeza de não sei donde, 
de não sei quando nem como... 
flor mortal, que dentro esconde 
sementes de um mago pomo. 

Dessas tristezas incertas, 
esparsas, indefinidas... 
como almas vagas, desertas 
no rumo eterno das vidas. 

Tristeza sem causa forte, 
diversa de outras tristezas, 
nem da vida nem da morte 
gerada nas correntezas... 

Tristeza de outros espaços, 
de outros céus, de outras esferas, 
de outros límpidos abraços, 
de outras castas primaveras. 

Dessas tristezas que vagam 
com volúpias tão sombrias 
que as nossas almas alagam 
de estranhas melancolias. 

Dessas tristezas sem fundo, 
sem origens prolongadas, 
sem saudades deste mundo, 
sem noites, sem alvoradas. 

Que principiam no sonho 
e acabam na Realidade, 
através do mar tristonho 
desta absurda Imensidade. 

Certa tristeza indizível, 
abstrata, como se fosse 
a grande alma do Sensível 
magoada, mística, doce. 

Ah! tristeza imponderável, 
abismo, mistério, aflito, 
torturante, formidável... 
ah! tristeza do Infinito!

Cruz e Souza

VLADIMIR VOLEGOV


QUERERES

Não sinto nada mais ou menos, ou eu gosto ou não gosto. Não sei sentir em doses homeopáticas. Preciso e gosto de intensidade, mesmo que ela seja ilusória e se não for assim, prefiro que não seja.
Não me apetece viver histórias medíocres, paixões não correspondidas e pessoas água com açúcar. Não sei brincar e ser café com leite. Só quero na minha vida gente que transpire adrenalina de alguma forma, que tenha coragem suficiente pra me dizer o que sente antes, durante e depois ou que invente boas estórias caso não possa vivê-las. Porque eu acho sempre muitas coisas - porque tenho uma mente fértil e delirante - e porque posso achar errado - e ter que me desculpar - e detesto pedir desculpas embora o faça sem dificuldade se me provarem que eu estraguei tudo achando o que não devia.
Quero grandes histórias e estórias; quero o amor e o ódio; quero o mais, o demais ou o nada. Não me importa o que é de verdade ou o que é mentira, mas tem que me convencer, extrair o máximo do meu prazer e me fazer crêr que é para sempre quando eu digo convicto que "nada é para sempre.

Gabriel García Marquez

O DOLEIRO DOS OPRIMIDOS

O deputado André Vargas não fez nada de mais. Apenas cumpriu o primeiro mandamento para ascender no PT: siga o dinheiro. Ou, mais precisamente, siga e consiga o dinheiro. Sua intimidade com o doleiro Alberto Youssef, preso no centro de um esquema que teria movimentado 10 bilhões de reais, não deixa dúvidas: Vargas chegou lá. Quem não entendeu como o obscuro deputado curitibano saltou de secretário de comunicação do partido para vice-presidente da Câmara dos Deputados não entende nada de PT.

O despachante de André Vargas era o homem que operava o duto entre os cofres públicos e os políticos amigos do rei (rainha). Se alguém achar que isso se parece com a quadrilha do mensalão, esqueça. O ministro Luís Roberto Barroso já explicou que a quadrilha não existiu, e o STF assinou embaixo.

A parceria fértil entre o doleiro de Vargas e o ex-diretor de abastecimento da Petrobras, também preso, tem impressionante semelhança com a tabelinha entre Marcos Valério e o então diretor de abastecimento do PT no Banco do Brasil, Henrique Pizzolato — hoje embaixador da república mensaleira na Itália. Mas isso não é quadrilha, é estilo.

E pensar que antigamente o PT mandava Waldomiro Diniz pegar dinheiro com Carlinhos Cachoeira. Que coisa cafona. Mas isso foi uma década atrás, quando o partido ainda não tinha estudado direito a planta do Estado brasileiro.

Hoje está claro que a mensagem de André Vargas a Joaquim Barbosa, levantando o punho cerrado (símbolo da resistência mensaleira), era um aviso — como o de Raul Seixas sobre as moscas: se você mata uma, vem outra em seu lugar.

Os brasileiros, esses invejosos, já estão implicando com o Land Rover dado pelo doleiro ao diretor da Petrobras. Bobagem. Como ensinou Silvinho Pereira, o mais injustiçado e esquecido dos petistas, quem trabalha bem no setor petrolífero ganha Land Rover de graça. O Brasil está pensando pequeno.

Diante da dimensão dos negócios no seio do governo popular, as propinas na Petrobras são o troco do cafezinho — aquelas moedas que você joga na mão do pedinte pela janela do seu Land Rover. Se o garoto ainda fizer uma graça com bolinhas de tênis, você pode até dar a ele uma refinaria superfaturada. Esse bilhão não fará a menor diferença no balanço.

Algumas das maiores empresas brasileiras estão sendo destroçadas, ao vivo, para fabricar bondade tarifária e esconder inflação. Esse é o jogo multibilionário que o Brasil aceita chupando o dedo, louco para virar Argentina. São esses dividendos populistas que garantem um ambiente de negócios seguro para os doleiros oficiais, mensaleiros reencarnados e demais sócios do país de todos (eles).

Até o FMI já espalhou por aí que o governo brasileiro passou a maquiar suas contas, para gastar escondido com a indústria do populismo. E vem aí mais uma transfusão bilionária do Tesouro para o BNDES, que vai injetando nas estatais vampirizadas e envernizando a orgia fiscal.

É um complexo e fabuloso trabalho de pilhagem, com alcance de gerações — que naturalmente passou despercebido aos revolucionários da Primavera Burra. Nem a CPI da Petrobras mobilizou os engarrafadores de trânsito. Eles devem estar achando que pode ser um golpe neoliberal para tomar o que é nosso.

Com todo o seu profissionalismo, André Vargas sabe que não dá para contar a vida toda com a pasmaceira da opinião pública. Por isso, além de ter os amigos certos, ele também trabalhou com afinco no projeto petista que vale por mil doleiros espertos: o controle da informação.

O PT sonha com a desinibição da companheira Kirchner na coação da mídia e no adestramento das estatísticas. André Vargas também serve para isso: assim como se presta a fazer molecagem com Joaquim Barbosa, prega sem constrangimento o “controle social da mídia”. E o ensaio vai indo muito bem, do controle social do Tesouro ao controle social do Ipea.

O tradicional e respeitado Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada ganhou de presente do governo popular uma estrelinha vermelha. Passou a ser dirigido por acadêmicos-militantes, uma espécie de transgênero com vocabulário técnico e alma ideológica.

Estrelas da coreografia estatística como Marcio Pochmann — que saiu de lá para ser candidato do PT a prefeito de Campinas —, capazes de fazer os números dançarem conforme a música, trouxeram o charme chavista que faltava ao Ipea. Quem acompanhou essa metamorfose revolucionária não acreditou um segundo na famosa pesquisa que transformou o Brasil num país de estupradores.

O mais alarmante, porém, não foi a pesquisa em si, pois já se sabe que, com o PT, a inépcia e a desonestidade intelectual são quase indistinguíveis. O impressionante foi o Brasil comprar de olhos fechados mais uma bandeira fabricada pelo império do oprimido. Dá até para ouvir o comentário de André Vargas: kkkkkk.
(....)
Guilherme Fiuza, O Globo

ADRIANA CALCANHOTO - Do Fundo Do Meu Coração


Do livro " A traição dos elegantes"

Tarde fria, e então eu me sinto um daqueles velhos poetas de antigamente que sentiam frio na alma quando a tarde estava fria, e então eu sinto uma saudade muito grande, uma saudade de noivo, e penso em ti devagar, bem devagar, com um bem-querer tão certo e limpo, tão fundo e bom que parece que estou te embalando dentro de mim.
Ah, que vontade de escrever bobagens bem meigas, bobagens para todo mundo me achar ridículo e talvez alguém pensar que na verdade estou aproveitando uma crônica muito antiga num dia sem assunto, uma crônica de rapaz; e, entretanto, eu hoje não me sinto rapaz, apenas um menino, com o amor teimoso de um menino, o amor burro e comprido de um menino lírico. Olho-me no espelho e percebo que estou envelhecendo rápida e definitivamente; com esses cabelos brancos parece que não vou morrer, apenas minha imagem vai-se apagando, vou ficando menos nítido, estou parecendo um desses clichês sempre feitos com fotografias antigas que os jornais publicam de um desaparecido que a família procura em vão.
Sim, eu sou um desaparecido cuja esmaecida, inútil foto se publica num canto de uma página interior de jornal, eu sou o irreconhecível, irrecuperável desaparecido que não aparecerá mais nunca, mas só tu sabes que em alguma distante esquina de uma não lembrada cidade estará de pé um homem perplexo, pensando em ti, pensando teimosamente, docemente em ti, meu amor.

Rubem Braga
Quem tem medo de Virgínia Woolf?, direção de Mike Nicols, 1966

Devemos a Graham Bell o fato de estarmos em qualquer lugar do mundo e alguém poder nos chatear por telefone.

Otto Lara Resende

ENTREVISTA COM A REPÓRTER MONICA IOZZI


Nada, Esta Espuma

Por afrontamento do desejo
insisto na maldade de escrever
mas não sei se a deusa sobe à superfície
ou apenas me castiga com seus uivos.
Da amurada deste barco
quero tanto os seios da sereia.

Ana Cristina César

...estou procurando, estou procurando. Estou tentando me entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda.

Clarice Lispector

SILVIA MACHETE - Volta Por Cima


POÉTICA DO IR

A experiência poética dissolve o chão da linguagem. Restrita às eruditas teses acadêmicas, é, em geral objeto de deleite narcísico e linha de poder. No entanto, tornada poética do cotidiano, produz um abalo sísmico que traz um universo áspero, sem pouso para transcendências.O mundo é esse., o mundo é isso.A poesia como natureza do real avança sobre sensibilidades tímidas e formais, daí fazendo o seu trabalho de rescaldo da miséria humana. Com um grito de alegria.

A.M.
Los olvidados, L Buñuel, 1950

FALTA DE SI

O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo.

Machado de Assis
policiais entram em confronto com manifestantes no Rio, 11/04/2014

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Exército não pedirá desculpas, diz general da reserva

Recebi, há pouco, o que segue abaixo:
“Eis minha opinião em virtude do conselho que Fernando Henrique Cardoso e Franklin Martins deram recentemente às Forças Armadas, no sentido de que estas devem pedir desculpas ao país pelos erros cometidos durante o regime militar.
Com o devido respeito ao ilustre ex-presidente, discordo. Com base em cinquenta anos de vivência na Instituição, creio que esse pedido de desculpas, por parte do Exército, não virá. E, se vier, aquele que o fizer será considerado leviano, e será, inexoravelmente, marcado como um traidor, à semelhança de Calabar.”

General-de- Exército (Reserva) RÔMULO BINI PEREIRA, ex-Chefe do Estado- Maior da DEFESA.
O futebol é o ópio do povo e o narcotráfico da mídia.

Millôr Fernandes

TOM HARREL - Solo


Vou-me Embora pra Passárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcaloide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

Manoel Bandeira

ALL THAT JAZZ


DEVIR-MULHER

(...) Devir é rizoma, é contágio. Devir não se opõe a uma forma, não quer atingir a forma definitiva, nunca se conclui numa forma; nunca atinge, nunca concretiza a forma para qual tende. Se digo mulher, homem, animal, falo de formas; refiro-me a alianças efetivas com as políticas de identidade e gênero para a constituição dessas formas. Mas se  digo devir-mulher, devir-animal, são tendências de um ser que flui, constituindo com os outros alianças afetivas, as rizomáticas, que fazem sempre escapar das políticas de identidade. Esse escapar pode ser entendido como as lascas da mascara-realidade dita em Rolnik e Guattari (1989). 
Os devires: devir-animal, devir-mulher, devir-invisível, devir-molécula etc., são linhas de 
fuga que desfazem as essências e as significações em proveito de uma matéria mais intensiva onde se movimentam os afetos.
(...)
Inês Bueno e Sonia Regina da Luz, 2010

E.J. PAPROCKI


DESTINO

É como se todos nós, no fundo sentíssemos que nascemos apenas para obedecer a um chamado, e obedecer docilmente, a obedecer a qualquer um que nos convoque para vitória, mesmo que na verdade, nos convide para morte.
A conclusão humilhante é que, todos, homens e carneiros, sentimos que nascemos para fazer parte de um rebanho.

Rachel de Queiroz
devir-onda