sábado, 18 de janeiro de 2020

Universo  da   diferença

                                                                                            
Nada é  estável.  Mesmo  a natureza,  com  seu cortejo teológico (produto humano)  anexado à crença numa “maternidade”, é  mutante e fluida.  Mãe-natureza, você  nos  socorre?  Nada.Não  há garantias, salvação ou igualdade de  direitos. Quem estabelece os direitos? A natureza é em essência cruel e indeterminada, ainda que bela. Esqueça a moral. O argumento da prática é o empírico invisível e fugidio. Defensores do estado (e do mercado) se pegam em discursos intermináveis e abstratos. Eles querem mais é  controlar a natureza. Ao contrário,  o universo   da diferença não tem controle, não tem  cronos, não tem consciência.Tudo é artifício. O caos se avizinha num tom musical. Aproveite.A questão é a da vida. Encontrar quem o socius    codificou como o excluído, mesmo que, pela via da ciência, seja o incluído. As palavras iludem  e  fazem de um problema, a solução. Inverta a  frase: faça  da solução um problema. Nada a  compreender,  mas a aceitar, a conectar, a captar, a sentir. Quem  delira espaços, culturas,  povos,  cidades, políticas e a abertura do  cosmos?  Quem habita zonas produtivas e povoadas do inconsciente?  Como chegar às angústias do seu  mundo? A psiquiatria tipifica um megafracasso. A psicanálise,  arrogante,  brocha. Estamos a buscar espíritos sensíveis sem o  bom senso do cristianismo secular.  Traçar linhas da existência onde o capitalismo vacila.  Investir um risco infinito: afinal,  quem é você?  Não uma identidade, estou  certo. A hora do  sonho cedeu  lugar à exigência  de uma  tarefa clara. Foi ao banco? Pagou suas contas?  O  coração da gente é o de uma rua da metrópole. Hoje, o alimento dos deuses do capital fez de órfãs entranhas edipianas:  escravizaram-nas. Resistir, sim, resistir na medida em que nasça o inumano em nós. Estar  em carne, mesmo em espírito. Viver de paradoxos. Não estar à margem, mas ser a margem.Pertencer ao universo que deixa o tempo entoar canções sem dono. A psiquiatria não quer isso.  Ela odeia a diferença. Não combina. Tem ares de um saber espúrio.Tampouco a sociedade estabelecida. Ela se alimenta  de narcisos. Há boas intenções, sabemos. Sempre há. Afinal, o humanismo marcou nossos gens. Mas um riso sem motivo tornou-se o motivo do riso. A hora do acontecimento se aproxima. 

A.M.

Batucada boa - Grupo Percepção

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

RÁPIDO E RASTEIRO

Vai ter uma festa
que eu vou dançar
até o sapato pedir pra parar.

aí eu paro
tiro o sapato
e danço o resto da vida.


Chacal

PAVEL MITKOV


NAZISMO: VIVAS À MORTE

Ele é um dos nazistas menos apreciados pelos admiradores do regime, e com o perdão do sarcasmo, que era uma de suas figuras retóricas favoritas. Joseph Goebbels, um dos mais notórios líderes do III Reich, foi descrito como o Mefistófeles do partido, demagogo vil e dissoluto e, menos finamente, de coxo satânico e anão raivoso. Victor Klemperer o define em seus diários como "o mais venenoso e mentiroso de todos os nazistas". Goebbels (Rheydt, 1897-Berlim, 1945, que cometeu suicídio e teve o corpo chamuscado —não conseguiram queimar de todo o seu corpo— no Führerbunker) provavelmente foi o propagandista mais famoso da história. Tinha pouco mais de um metro e meio e sofria desde criança de atrofia e paralisia crônica do pé direito, o que causava comentários irônicos sobre sus perorações a respeito da superioridade da raça ariana, na qual generosamente se incluía. Seus defeitos físicos (e não falemos morais) não o impediram de desfrutar de inúmeras aventuras sexuais, que registrava prontamente em seu diário, e ganhar a merecida fama de lascivo. Porta-voz de Hitler, antissemita radical impiedoso, gauleiter de Berlim, ministro de Propaganda do regime mais atroz da história da humanidade, Goebbels, o Savonarola pardo, era um pregador fanático da violência nazista e sua trilha fumegante pode ser seguida desde as brigas de rua até a declaração de guerra total.
(...)

Jacinto Antón, El País, Barcelona, 7/01/2020, 13:49 hs
Roberto Alvim cita ministro nazista em pronunciamento e gera revolta

Até a trilha sonora usada no discurso fez com que os internautas comparassem com a divulgação de uma propaganda nazista
Roberto Alvim, Secretário Especial da Cultura, causou revolta entre os internautas na madrugada desta sexta-feira, 17, após a divulgação de um pronunciamento no Twitter. Em sua fala, o político do governo Bolsonaro copiou trechos de discurso de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Adolf Hitler(...)

Catraca Livre,17/01/2020, 08:17 hs

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

NDT Season trailer 2019-2020

Disse Jesus: Felizes os pobres, porque deles é o Reino dos céus.
Que pobres são estes que são felizes por serem merecedores do Reino do Céus? Certamente não está se referindo a pessoas que não têm patrimônio algum. Tenho observado que o simples fato de ser pobre não significa ser santo. Em termos espirituais tanto pobres como ricos podem ser bons ou maus. A mesquinhez pode ser encontrada em todo segmento social. Nos ricos, por baixo do verniz que dá brilho, encontramos a rústica madeira da mesquinhez, enquanto nos pobres essa madeira já pode ser encontrada desprovida de verniz. Ambos são maus. Acredito que Jesus quando se refere a pobre esteja a se referir a uma pessoa desapegada dos bens materiais. E essa pessoa tanto pode ser pobre como rica. Os pobres no meu entender são aquelas pessoas que lutam pelo ser e não pelo ter.

Carlos Machado

Dark music - Memories by Nave Artificial

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

TRAIR É CRIAR

Usando Elias Canneti do livro “Massa e Poder" (1960), é possível identificar a “doença” do poder: a paranóia. Há sempre, de fato, na medida e no miolo das correlações de forças, uma circulação de desconfiança a priori, um incentivo ao medo, um convite à fobia, uma expectativa angustiante, uma melancolia disfarçada, um pânico frente à desordem, enfim, a grande suspeita contida numa peça sem autoria e, daí, sem sujeito. Quem é o poder? A paranóia não é individual, e sim coletiva, mesmo que surja em alguém isolado. Há regimes significantes eternizados como suplícios dos dominados. Veja o caso dos Estados e das Igrejas. Esta parece ser a regra que a história timbrou, ou finge que. Pode ser o rei, o presidente, o papa, o príncipe, o chefe de estado, o prefeito, o governador, figuras de autoridade, os poderosos... O que importa é que eles se inserem em modos de subjetivação como verdades dadas e contabilizadas, a depender dos rumos da política. Qualquer um pode ser qualquer um, todos são todos, desde que o poder funcione como maquinaria produtora de um gosto por viver e que se nutra de linhas institucionais endurecidas. Desconfia-se de tudo e de todos e vice-versa; instala-se o clima necessário a dizer e sentir “eu posso tudo”. “Aguirre, a Cólera dos Deuses”, o filme de W.Herzog (1972), ilustra bem o liame poder-paranóia como delírio do infinito: a sequência final é emblemática. Assim, é possível, no caso da psiquiatria, detectar todo um sistema de paranóia embutido na CID-10 como lógica persecutória. Isso funciona no território movediço dos afetos de uma clínica verticalizada. A psiquiatria tem poder porque é fraca. Como diz Nietzsche, "é preciso defender os fortes dos fracos".O poder produz, alimenta-se de mil produções subjetivas, delira sem delirar, delira naturalmente. A contrapartida à vivência persecutória seria, pois, a traição à ordem instituída da razão, à ordem instituída do transtorno mental, à ordem instituída do estado, à ordem instituída de todas as ordens. Trata-se de um modo e de um estilo de experimentar a passagem do tempo que não volta: a irreversibilidade em ato.

A.M.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

O príncipe e a megera


Um príncipe

com casa, carro, filho & pensão

relógio de pulso

perfume importado



quarentão

bem-arranjado

até grisalho



fosse eu

e tudo isso

seria

defeito



Ana Elisa Ribeiro
SERÁ?

Um avião ucraniano caiu nas primeiras horas desta quarta-feira, perto do Aeroporto Internacional Imam Khomeini, a 30 quilômetros ao sul de Teerã, matando 176 pessoas (entre passageiros e tripulação). Segundo agências, a aeronave, um Boeing 737 que voava pela companhia aérea Ukraine International Airlines (UIA), entrou em colapso logo após decolar da capital do Irã devido a problemas técnicos, em uma noite marcada pelo bombardeio do governo iraniano a duas bases no Iraque onde há presença de tropas norte-americanas.
As circunstâncias do incidente são desconhecidas.
(...)

María R. Sahuquillo, El País, Teerã, 08/01/2019, 12:21 hs

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

EMIL NOLDE


O TEMPO NA PSICOTERAPIA

Na prática da psicoterapia aprendemos que o tempo é o tecido da vida. Este dado aparece muito claro no processo de mudança existencial que toda terapia, em maior ou menor grau, promove. Os modos de subjetivação (estilos de viver) tornam-se concretos na medida em que a experiência de si e do mundo se mistura ao tempo-desejo sem forma, numa palavra, aos devires incontroláveis. O corpo que não aguenta mais. Isso implica na abertura de linhas desejantes criadoras de sentido. Portanto, o tempo, assim como H. Bergson o definiu, "é criação ou não é nada". Uma psicoterapia, a que acolhe signos múltiplos oriundos da ciência, da filosofia e da arte, se instala em territórios refratários aos dilemas da consciência. Assim, para muito além da psicanálise, a qual explora ad nauseam um inconsciente representativo, edipiano e familiarista, o método da diferença capta afetos impossíveis de sonhar, mas passíveis de metamorfoses rumo a um outro viver. Isso impõe riscos. Contudo, há regras de prudência (cf. G. Deleuze) elaboradas no interior de uma ética da alegria e de uma estética do novo. Desfaz-se o tempo como alta do tratamento (conceito médico) para uma implicação profunda e inadiável do paciente com a sua própria alma, ou seja, consigo mesmo.


A.M.