sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

ESQUIZOPRÁTICAS

Vinicius Lemos Reis: O que o(s) corpo (s) dos louco(s) (em uma concepção ampla de loucura e quadros nosológicos dispostos para a saúde mental, e não somente, os indivíduos classificados como psicóticos) enunciam? E dizem sobre si? 

Antonio Moura: Os corpos loucos dizem não dizendo (conforme a razão), pois expressam singularizações existenciais inclassificáveis. Fiquei sabendo com Foucault que a loucura foi transformada e cadastrada como Doença no século XIX. Daí talvez se possa inferir que hoje a psiquiatria precisa mais do doente que o contrário. O que os corpos enunciam são os gritos do desejo agenciado nas circunstâncias da vida social. Neste sentido, a prática clínica em saúde mental só terá acesso a esses corpos na medida em que encarne em si mesmo a experiência do sem-sentido. Questão prática: sob tais condições, o Encontro com o paciente passa a ser o encontro do técnico consigo mesmo, com o corpo das intensidades que vêm de fora, que chegam do Fora, entendendo esse fora como o Coletivo em seus fluxos desejantes, indeterminados e sempre atuais. Ora pois, o desejo está no mundo, o desejo é o Mundo, mesmo que se acredite em outro mundo ou que se professe transcendências astutas e melancólicas.Tais assertivas podem parecer abstratas, mas creio que ainda não são suficientemente abstratas, pelo menos para fazer uma psiquiatria cujo modelo de intervenção prático seja a esquizofrenia, não como entidade clínica (que aliás, não existe) mas como processo desejante irreversíível, ou seja, um devir.

Extraído de entrevista em "O corpo" - Jornal de Popularização Científica, Ed. nº 50 - Labedisco, Uesb, Vitória da Conquista, novembro/2015.

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