MISTÉRIO DOS SIGNOS III
(...) O que nos força a pensar é o signo. O signo é o objeto de
um encontro; mas é precisamente a contingência do encontro que garante a
necessidade daquilo que ele faz pensar. O ato de pensar não decorre de uma
simples possibilidade natural; é, ao contrário, a única criação verdadeira. A
criação é a gênese do ato de pensar no próprio pensamento. Ora, essa gênese
implica alguma coisa que violenta o pensamento, que O tira de
seu natural estupor, de suas possibilidades apenas abstratas. Pensar é sempre
interpretar, isto é, explicar, desenvolver, decifrar, traduzir um signo. Traduzir,
decifrar, desenvolver são a forma da criação pura. Nem existem significações
explícitas nem idéias claras, só existem sentidos implicados nos signos; e se O pensamento
tem o poder de explicar o signo, de desenvolvê-lo em uma Idéia, é porque a
Idéia já estava presente no signo, em estado envolvido e enrolado, no estado
obscuro daquilo que força a pensar. Só procuramos a verdade no tempo, coagidos
e forçados. Quem procura a verdade é o ciumento que descobre um signo
mentiroso no rosto da criatura amada; é o homem sensível quando encontra a
violência de uma impressão; é o leitor, o ouvinte, quando a obra de arte emite
signos, o que o forçará talvez a criar, como o apelo do gênio a outros gênios.
As comunicações de uma amizade tagarela nada são em comparação com as
interpretações silenciosas de um amante. A filosofia, com todo o seu método e a
sua boa vontade, nada significa diante das pressões secretas da obra de arte. A
criação, como gênese do ato de pensar, sempre surgirá dos signos. A obra de
arte não só nasce dos signos como os faz nascer; o criador é como o ciumento,
divino intérprete que vigia os signos pelos quais a verdade se trai.
(...)
Gilles Deleuze in Proust e os signos
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