MUNDO ENFERMO
Como foi dito há alguns dias neste blog, “tristeza não é o mesmo que depressão”, termos clínicos que acompanham não só a psiquiatria (por que demonizá-la?) mas a santa psicanálise e mil outras técnicas psicoterápicas interessadas em ajudar o próximo e melhorar as pessoas. É certo que a tristeza é algo desagradável, mas mesmo tal adjetivação é discutível. É que os afetos são ambíguos pela própria natureza de afeto. Alguém triste pode chafurdar na sua tristeza e até usá-la como ganho psíquico em relação ao outro e aos outros. Mais: a experiência clínica mostra que os afetos são melhor captados e capturados como múltiplos, multiplicidades irredutíveis a uma definição banal: "o que você está sentindo?". Talvez a resposta seria um "não sei". Daí a necessidade essencial da escuta não-médica, sensível, intuitiva, inumana, rica em detalhes sutis, finos, delicados. A psicanálise até que tenta, mas acaba atolada no lodaçal edipiano: odeio minha mãe, adoro papai ou o contrário. Ora, o ato da escuta de alguém (a clínica) está acoplado ao ato do Encontro com a loucura encarnada no dito louco, mesmo que este não seja um. Desse modo, escutar é escutar o que é estranho, bizarro, fora da ordem, das formas humanas e ao mesmo tempo no interior das experiências subjetivas de auto e hetero destruição humanas. Isso dá trabalho, cara, exige um tempo, um “perder-tempo” como “se perde tempo” ao brincar com uma criança, Se voltarmos ao início do texto, reafirmamos que “tristeza não é depressão”, mas pode estar se tornando se o mundo se tornar. Ou seja, será que isso já não está acontecendo?
A.M.
P.S. - texto revisto e modificado
P.S. - texto revisto e modificado
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