Este blog busca problematizar a Realidade mediante a expressão de linhas múltiplas e signos dispersos.
sábado, 27 de junho de 2026
sexta-feira, 26 de junho de 2026
quinta-feira, 25 de junho de 2026
VELOCIDADE E PODER
DIPLOMATIQUE: O que preocupa o senhor são os limites do tempo humano?
VIRILIO: Sim, é preciso trabalhar sobre a natureza do poder da velocidade atualmente, porque a velocidade da luz é um absoluto e é o limite do tempo humano. Nós estamos no “tempo-máquina”; o tempo humano é sacrificado como os escravos eram sacrificados no culto solar de antigamente. Eu o digo, nós estamos num novo Iluminismo em que a velocidade da luz é um culto. É um poder absoluto que se esconde atrás do progresso, e é por isso que eu afirmo que a velocidade é a propaganda do progresso. Eu não tenho nada contra o progresso. Quando eu digo que é preciso “ir mais devagar”, alguns zombam de mim. Pensam que eu condeno a revolução dos transportes, dos trens, dos carros, dos aviões, que eu sou contra os computadores e contra a Internet. Não é nesse nível que as coisas estão em jogo...
(...)
Trecho da entrevista de Paul Virilio concedida ao Le Monde Diplomatique Brasil em 15/06/2011
terça-feira, 23 de junho de 2026
O filme "O dia D" do Spielberg não é para os críticos de arte, nem para os influencers digitais, nem para os consumidores, nem para os eruditos, nem para o público, nem para os técnicos da comunicação, nem para os inteligentes, nem para os ufólogos, nem para os espiritualistas, não é para ninguém.
Impassível, ele flutua sobre a Terra num círculo de fogo.
A.M.
segunda-feira, 22 de junho de 2026
sábado, 20 de junho de 2026
A nossa sociedade ocidental contemporânea, apesar do seu progresso material, intelectual e político, dirige-se cada vez menos para a saúde mental, e tende a sabotar a segurança interior, a felicidade, a razão e a capacidade de amor no ser humano; tende a transformá-lo num autômato que paga o seu fracasso com as doenças mentais cada vez mais frequentes e desespero oculto sob um delírio pelo trabalho e pelo chamado prazer.
Aldous Huxley
quinta-feira, 18 de junho de 2026
terça-feira, 16 de junho de 2026
A DIFÍCIL TAREFA
O organismo físico-químico, visível, palpável e mensurável, é o objeto da medicina, onde ela de fato intervêm, e, caso obtenha êxito terapêutico (principalmente por isso), retira mais-valia de poder. No entanto, junto a esse organismo e fora da relação linear causa-efeito, funciona o corpo das intensidades livres. Não é visível, não é palpável, não é mensurável, nem segue os mapas fisiopatológicos vistos em exames por imagem. Distinto da consciência que sempre obedece ordens, ele não obedece, é rebelde e alterna com o organismo fluxos atuais e/ou antigos de afetos nômades. Tampouco é o corpo que a psicanálise entronizou como "a outra cena". São fluxos que impulsionam a vida, que são a vida : potências sem forma. Em face desse real estado de coisas, tal corpo traz grandes dificuldades à pesquisa. Como acessar algo que não se vê, não se toca nem se mede? É que na semiologia clínica há um "corpo que não aguenta mais" e que se expressa em sintomas álgicos (por exemplo, cefaléias crônicas - simbolismo do órgão?) , mas também como multiplicidade de sintomas que chamamos de angústia. Aqui não se trata de usar a psicanálise como doutrina ou método de trabalho, mas de "roubar" deste saber a hipótese de um inconsciente para além da representação de papai-mamãe. Um inconsciente "órfão, ateu e anarquista", inconsciente-corpo. Difícil a tarefa de mapeá-lo.
A.M
segunda-feira, 15 de junho de 2026
quarta-feira, 10 de junho de 2026
QUE DEUS?
Numa visão a partir de Espinosa crer no Deus da teologia cristã é reproduzir a relação dirigente-comandado, governante-governado, rei-súdito, patrão-empregado, senhor-escravo, etc; assim, o pensamento se mantém prisioneiro de uma relação entre seres humanos, ou, dito de um modo cristão, numa relação entre pessoas. Deus seria uma pessoa. No entanto, basta considerar a existência do Infinito tempo-espaço para jogar por terra essa bobagem humanísta. Não há dimensão existencial, espiritual, que se compare em grandeza a finitude humana com o cosmos. Daí a atitude mais honesta e inteligente (apesar das diferenças) é a do agnóstico, do materialista, do ateu e do trágico. Pena que a tal "bobagem humanísta" controle tanta gente e produza subjetividades atoladas no medo e na servidão.
A.M.
domingo, 7 de junho de 2026
sexta-feira, 5 de junho de 2026
O ESCÁRNIO
O que mostra nossa decadência, nossa degenerescência, é a maneira pela qual experimentamos a necessidade de situar a angústia, a solidão, a culpabilidade, o drama da comunicação, todo o trágico da interioridade. Mesmo Max Brod, todavia, conta como os ouvintes eram tomados pelo riso quando Kafka lia O Processo. E também Beckett é difícil ler sem rir, sem passar de um momento de alegria a um outro momento de alegria. O riso, e não o significante. O riso-esquizo ou a alegria revolucionária é o que sobressai dos grandes livros, em vez de angústias de nosso pequeno narcisismo ou terrores de nossa culpabilidade. Pode-se chamar isso de “cômico do além-do-humano”, ou então “palhaço de Deus”, há sempre uma alegria indescritível que jorra dos grandes livros, mesmo quando eles falam de coisas feias, desesperadoras ou terríveis. Todo grande livro opera já a transmutação e faz a saúde de amanhã. Não se pode deixar de rir quando se embaralham os códigos. Se você colocar o pensamento em relação com o fora, nascem os momentos de riso dionisíaco, é o pensamento ao ar livre.
(...)
Gilles Deleuze
ARTE DE AMAR
Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.
Manuel Bandeira
quinta-feira, 4 de junho de 2026
SEM IGUAL
(...) O humor negro de Marx, a fonte do Capital, é sua fascinação por uma tal máquina: como isso pôde montar-se, sobre que fundo de descodificação e de desterritorialização, como isso funciona, cada vez mais descodificada, cada vez mais desterritorializada, como isso funciona tão solidamente através da axiomática, através da conjugação de fluxos, como isso produz a terrível classe única dos homens cinzentos que mantêm a máquina, como isso não corre o risco de morrer sozinho, mas, antes, o que faz e nos leva a morrer, suscitando até o fim investimentos de desejo que nem sequer passam por uma ideologia enganadora e subjetiva e que nos fazem gritar até o fim Viva o capital na sua realidade, na sua dissimulação objetiva! Nunca houve, a não ser na ideologia, capitalismo humano, liberal, paternal etc. O capital define-se por uma crueldade sem igual quando comparada com o sistema primitivo da crueldade, define-se por um terror sem igual quando comparado com regime despótico do terror. Os aumentos de salário, a melhoria do nível de vida são realidades, mas realidades que decorrem de tal ou qual axioma suplementar que o capitalismo é sempre capaz de acrescentar à sua axiomática em função de uma ampliação dos seus limites (façamos o New Deal, defendamos e reconheçamos sindicatos mais fortes, promovamos a participação, a classe única, venhamos a dar um passo em direção à Rússia que faz o mesmo em nossa direção etc.). Mas, na realidade ampliada que condiciona essas ilhotas, a exploração não pára de endurecer, a falta é arranjada da maneira mais hábil, as soluções finais do tipo “problema judeu” são preparadas muito minuciosamente, o Terceiro Mundo é organizado como parte integrante do capitalismo.
(...)
G. Deleuze e F. Guattari in O anti-édipo
O DESEJO NÃO É O PRAZER
Falando de desejo, não pensamos no prazer nem em suas festas. Certamente o prazer é agradável, certamente tendemos a ele com todas as nossas forças. Mas na forma mais amável ou mais indispensável, ele vem, antes, interromper o processo do desejo como constituição de um campo de imanência. Nada mais significativo do que a ideia de um prazer-descarga; obtido o prazer, se terá, ao menos, um pouco de tranquilidade antes que o desejo renasça: há muito ódio, ou medo em relação ao desejo, no culto do prazer. O prazer é assinalação do afeto, a afeição de uma pessoa ou de um sujeito, é o único meio para uma pessoa "se encontrar" no processo do desejo que vai além dela (...)
G. Deleuze e Claire Parnet in Diálogos
quarta-feira, 3 de junho de 2026
segunda-feira, 1 de junho de 2026
sexta-feira, 29 de maio de 2026
quarta-feira, 27 de maio de 2026
sábado, 23 de maio de 2026
A MEDICALIZAÇÃO SEM FIM
Fenômeno típico da sociedade industrial capitalística "avançada", a medicalização corresponde a expressão da medicina no campo social.
Tal afirmação soa rasa e superficial se se limitar à medicina como ramo da ciência atrelado aos ideais iluministas ( a razão científica) e humanistas ( o homem como medida das coisas).
Ao contrário, a medicalização da vida social é uma instituição. E como toda instituição, só funciona em conexão com outras instituições, no caso, o Estado, a Ciência, a Mídia, a Política, a Economia, etc.
Desse modo ela desenvolve a função de ocultar (ou maquiar) a divisão de classes. Isso é constitutivo do Capitalismo Mundial integrado (F. Guattari, 1981) e alavanca seus valores e códigos às custas de uma subjetividade-do-capital atualizada via internet.
Mas não se trata aqui de uma afirmação idealista calcada no pensamento de Marx, e sim de uma percepção do real em si mesmo, o que existe.
O que existe são imagens de imagens de imagens circulando enlouquecidas rumo a um lucro capitalístico infinito. Então, para que serve o real se ele foi "anexado" à loucura como o fim último da produção?
Não existe mais o "social", a socialidade. O capital abarcou tudo, engoliu tudo.
Assim, de volta à medicalização da vida social que é a "vida do capital": ela é esse "infinito" expresso na luta entre os virus e as vacinas, entre as bactérias e os antibióticos, entre a doença e a saúde, entre a morte e a vida... tudo pela expansão metastática do lucro.
A.M.
quinta-feira, 21 de maio de 2026
terça-feira, 19 de maio de 2026
sábado, 16 de maio de 2026
sexta-feira, 15 de maio de 2026
sábado, 9 de maio de 2026
sexta-feira, 8 de maio de 2026
Fundamentos políticos da inter-disciplinaridade
(...)
A transdisciplinaridade, como movimento interno de transformação das ciências, aberta para o social, o estético e o ético, não nascerá espontaneamente. A vida científica internacional fica, freqüentemente, presa a rituais formais, numa interdisciplinaridade de fachada. Seu aprofundamento implica numa permanente “pesquisa sobre a pesquisa”, uma experimentação de novas vias de constituição de agrupamentos coletivos de enunciação. Não apenas equipes pluridisciplinares devem funcionar, se necessário por períodos às vezes longos, ou de acordo com ritmos temporais apropriados, como a questão de sua implantação, de seus campos de investigação, da integração de sua atividade com o meio ambiente humano será freqüentemente discutida. Por exemplo, no domínio da cooperação com os países em via de desenvolvimento, os especialistas freqüentemente caíram de pára-quedas em terrenos sociais que não estavam preparados para recebê-los e que eles não estavam preparados para encontrar. Sob este aspecto, a análise dos fracassos seria bastante enriquecedora. O saber agrônomo, médico, ecológico, da arquitetura, deve ser, de alguma forma, reinventado a cada situação concreta. Daí, como corolário, a importância de se prepararem monografias traçando o percurso inicial de uma experiência, suas fases positivas e negativas, as bifurcações que caracterizam a formação do que chamei de agenciamentos coletivos de enunciação.
Não existe uma pedagogia geral com relação à constituição de uma transdisciplinaridade viva. Deve-se levar em conta a iniciativa, o gosto pelo risco, a fuga de esquemas pré-estabelecidos, a maturidade da personalidade (mesmo tratando-se de pessoas muito jovens). Ainda uma vez, teremos mais a ganhar ao nos referirmos neste depoimento ao processo de criação estética do que às visões padronizadas, planificadas, burocratizadas que reinam freqüentemente nos centros de pesquisas científicas, nos laboratórios e nas universidades.
Félix Guattari /1992
quinta-feira, 7 de maio de 2026
UM GRANDE AMOR
Um grande amor é físico. Mesmo espiritual, ele é físico.Vem da alma, vem de almas errantes em terras inexploradas. Insinua-se à beira do tempo, à beira do corpo, sorvendo líquidos, calores e aproveitando o fino dom da vida. O de viver. Um grande amor é trágico, não por ser triste, mas por ser radical no corte da carne exangue. Bebe a seca e seca a boca. De nada adianta ouvir músicas dolentes, nostalgias, cantares eternos, discursos poéticos, se ele não é vivido na linha do tempo, no fio da passagem. Que passa. E não volta. Mesmo. Um grande amor é costurado em pequenas coisas. Seus efeitos adentram o lugar mais seguro da Terra e o não lugar da loucura mais longínqua. E bela. Não sei se alguém saberia vivê-lo, exceto num coração aos pulos e ao ritmo das canções dianisíacas. Talvez assim a madrugada seja promessa do dia. Para sempre.
A.M.
COMO FAZER UMA CLÍNICA DA DIFERENÇA?
Há o conceito de hiato organo-clínico ( Henri Hey, psiquiatra francês, 1900/1977 ). Isso significa que para uma avaliação diagnóstica em psiquiatria (ou na clínica médica) há dois eixos de análise: 1- História familiar, pessoal, escolaridade, nível sócio-econômico, sexualidade, vida amorosa, profissional, social, etc. - vetores psico-existenciais. 2-Estrutura anátomo-fisio-patológica, sistema imunológico, antecedente genético, história médica, etc - vetores físico-químicos. Os dois ítens preenchem o campo etiológico ( causas e mecanismos) das patologias. No primeiro caso está o "hiato", espécie de vazio, "espaço" de produção subjetiva. No segundo estão as determinações "objetivas", marcadas por um saber biomédico estabelecido como verdade. No plano 3 surge a clínica (psiquiátrica ou geral) como expressão dos sintomas e queixas do paciente. Importante é situar o paciente como processo de subjetivação sempre em curso (no tempo) e inserido em circunstâncias atuais concretas ( vetores causais). Tal base conceitual altera por completo o olhar da psiquiatria neuro-biológica em prol de uma concepção do paciente como singularidade. Ou diferença.
A.M.
segunda-feira, 4 de maio de 2026
domingo, 3 de maio de 2026
CLÍNICA E TECNOLOGIA DA IMAGEM - III
Numa acepção deleuziana, o acontecimento pode ser definido como um encontro de corpos, humanos e/ou inumanos, no qual e do qual emerge o Sentido. Assim, o sentido nunca é dado, nunca é "um estar lá", mas sim produzido no próprio ato do Encontro. É possível notar que a realidade virtual substituiu a realidade do Encontro (daí, a dos corpos) pela realidade da imagem, profusão de imagens sobre imagens, realidade descarnada, mas Realidade subjetivamente assimilada como Verdade. Dissemos que a tecnologia da imagem não é um mal em si, mas um signo de poder acelerado a uma velocidade não captada pela Consciência. A velocidade é quem (sujeito) captura a consciência. Um encontro de corpos fica, então, descartado em prol da verdade da imagem, inclusive a imagem de si. Segue-se o empreendimento desejante de um profundo estilhaçamento do eu, beirando a psicose ou nela se instalando. Tempos esquizofrênicos, como previu Guattari. Ora, para uma psiquiatria atravessada por tais fluxos, há duas opções ético-políticas: 1- Encolher-se sob o discurso epistemológico das neurociências, detentor de uma verdade reificada, reificante e erguer o manto acadêmico como anti-autocrítica. 2-Abrir-se, estender-se sobre o campo social em suas formações discursivas caóticas e inventar clínicas à altura do horror dos tempos que correm. Fazer o acontecimento.
A.M.
A FRAUDE CÓSMICA
No cristianismo nem a moral, nem a religião têm qualquer ponto de contado com a realidade. São oferecidas causas puramente imaginárias (‘Deus’, ‘alma’, ‘eu’, ‘espírito’, ‘livre arbítrio’ – ou mesmo o ‘não-livre’) e efeitos puramente imaginários (‘pecado’, ‘salvação’, ‘graça’, ‘punição’, ‘remissão dos pecados’). Um intercurso entre seres imaginários (‘Deus’, ‘espíritos’, ‘almas’); uma história natural imaginária (antropocêntrica; uma negação total do conceito de causas naturais); uma psicologia imaginária (mal-entendidos sobre si, interpretações equivocadas de sentimentos gerais agradáveis ou desagradáveis, por exemplo, os estados do 'nervus sympathicus' com a ajuda da linguagem simbólica da idiossincrasia moral-religiosa – ‘arrependimento’, ‘peso na consciência’, ‘tentação do demônio’, ‘a presença de Deus’); uma teleologia imaginária (o ‘reino de Deus’, ‘o juízo final’, a ‘vida eterna’).
Friedrich Nietzsche
sábado, 2 de maio de 2026
sexta-feira, 1 de maio de 2026
quarta-feira, 29 de abril de 2026
sábado, 25 de abril de 2026
QUEM PRECISA DE QUEM?
A psiquiatria e as psicoterapias necessitam mais do seu paciente do que o contrário. Tal enunciado, no mínimo estranho e desconcertante, tem sua "razão de ser" no funcionamento do círculo do capital. Conforme Marx demonstrou, o capital, (operador semiótico hegemônico), é ávido pela manutenção ad infinitum do circuito produção-consumo-produção. Isso constitui o universo delirante da realidade contemporânea. Ele atravessa as linhas da subjetividade, mesmo as ditas "normais", produzindo a convicção de que nada existe ou existirá para além dos axiomas (princípios ossificados) da civilização moderna. No caso da psicopatologia clínica, assistimos a dois fenômenos correlatos. Num, o seu próprio desaparecimento, caso da "necro-psiquiatria" filha bastarda das neurociências. No outro, o endurecimento (reificação) conceitual da psicopatologia, caso da psicanálise ortodoxa e das psicoterapias aliançadas a ela (ou não), mas expostas na vitrine do mercado da clínica. Em ambos os casos o paciente surge como consumidor (passivo) de remédios químicos ou de teorias da subjetividade. Mil peças prontas para abastecer o Mercado.
A.M.
quinta-feira, 23 de abril de 2026
A ENERGIA E A ERA INDUSTRIAL
O Fogo transforma as coisas, permite aos corpos entrarem em reação química, se dissolveram, se dilatarem, se fundirem ou se evaporarem e, evidentemente, permite ao combustível queimar com grandes desprendimentos de calor e de chamas. De tudo isso, que todos sabem e sabiam, o século XIX vai selecionar isto: a combustão liberta calor, e o calor pode provocar uma variação de volume, quer dizer, pode produzir um efeito mecânico. O fogo é capaz de fazer girar máquinas de um gênero novo, as máquinas térmicas que, nessa época, fazem surgir a sociedade industrial.
(...)
I. Prigogine e I. Stengers in A nova aliança
domingo, 19 de abril de 2026
sábado, 18 de abril de 2026
O QUE É UMA PSIQUIATRIA MENOR? - parte 2
É uma psiquiatria do desejo. Não o desejo como falta, carência, incompletude, mas o desejo como produção, produção de produção. É que o desejo quer sempre mais, novas conexões, outros desejos. Desejar o desejo, produzir desejo é o que lhe resta fazer.
Mas desejar não é fácil. Um trabalho imperceptível, talvez invisível, fabrica linhas da diferença em meio ao rumor dos tempos sombrios.
Mil disfarces são necessários à sua prática. A camuflagem torna-se uma função guerreira.
Uma psiquiatria menor vive nas e das intensidades poéticas da loucura, não da loucura-doença mas da loucura como experiência de abertura aos signos que vêm de fora.
Eles são os da Terra e dos corpos supliciados.
A ética só existe (a ser criada) como ato clínico na psicopatologia. Não há, pois, um código de ética pronto e juramentado como o da medicina. A referência é o paciente: uma vida.
Um paciente são multidões. Não há o indivíduo.
Uma psiquiatria menor só funciona no desejo, com o desejo e pelo desejo. Assim como a ética, o desejo não preexiste. Construi-lo dá trabalho.
A.M.
O abandono do lugar me abraçou de com força.
E atingiu meu olhar para toda a vida.
Tudo que conheci depois veio carregado de abandono.
Não havia no lugar nenhum caminho de fugir.
A gente se inventava de caminhos com as novas palavras.
A gente era como um pedaço de formiga no chão.
Por isso o nosso gosto era só de desver o mundo.
Manoel de Barros
quinta-feira, 16 de abril de 2026
terça-feira, 14 de abril de 2026
RELIGIÃO?
Minha opinião acerca da religião é a mesma que a de Lucrécio. Considero-a como uma doença nascida do medo e como uma fonte de indizível sofrimento para a raça humana. Não posso, porém, negar que ela trouxe certas contribuições à civilização. Ajudou, nos primeiros tempos, a fixar o calendário, e levou os sacerdotes egípcios a registrar os eclipses com tal cuidado que, com o tempo, foram capazes de predizê-los. Estou pronto a reconhecer esses dois serviços, mas não tenho conhecimento de quaisquer outros.
Bertrand Russel in Trouxe a religião contribuições úteis à civilização?
domingo, 12 de abril de 2026
quinta-feira, 9 de abril de 2026
COMBATE
quarta-feira, 8 de abril de 2026
QUAL TRANSTORNO MENTAL?
Não é bom psiquiatrizar a política. Sob tais condições e em face do poder médico (expresso pela linguagem técnica) o universo da política se torna opaco e distorcido em sua significação.
É uma má leitura.
No entanto, em situações extremas da geopolítica (como de agora) talvez seja útil a visão da psicopatologia clínica.
Ora, em escala planetária e via internet, a figura do Neo-Calígula com sua máquina bélica de puro horror, sugere três hipóteses diagnósticas:
A confirmar:
1- Transtorno específico da personalidade (paranoico)
CID - 10 : F.60. 0
2- Transtorno delirante persistente
CID 10 : F.22.8
3- Demência não especificada
CID 10 : F.03
A.M.
segunda-feira, 6 de abril de 2026
domingo, 5 de abril de 2026
SER DE ESQUERDA ( em 10 linhas)
1- Considera a realidade em primeiro lugar como percepção do cosmos e do mundo. Tal percepção decresce até o eu, ou ao si mesmo. Daí, adotar um anti-subjetivismo radical.
2-Estabelece uma visão coletiva e econômica: para viver, há que se cuidar da saúde, habitação, educação, emprego, segurança, justiça, salário... diversão... para todos.
3- Percebe as minorias sociais, não como valor quantitativo, mas como linhas do desejo esmagado, explorado, violentado, oprimido: os negros, as crianças, as mulheres, os indígenas, os gays, os travestis, e tantos outros...
4- Sabe que somos todos múltiplos, singularidades existenciais. E que o indivíduo é produto do poder e não o contrário. Assim, promove um humor escrachado e livre.
5-Combate o modelo da subjetividade européia que colonizou o planeta: homem, hetero, branco, macho. Essa prática leva ao ser de esquerda um combate institucional. E cotidiano.
6- Encara a geopolítica: esta se baseia numa política do Estado. Por isso resistir à brutalidade do Estado e ao cinismo do Mercado é um ato de liberdade.
7- Contempla a natureza como produção incessante e inumana de sentido e não como paisagem romântica e bela, ainda que a beleza lhe constitua.
8 -Recusa a política partidária ( mesmo na democracia) quando se expressa como referência (enganosa) de igualdade social e fraternidade universal.
9 -Não acredita em poderes que ultrapassem a dimensão do humano ou os limites da Terra como a nossa morada e o nosso corpo.
10- Desconfia da linguagem erudita, acadêmica, estatal, técnica. Ela é portadora de estratégias de domínio inconfesso. Ao contrário, exalta a arte como resistência ao poder, à infâmia e à morte.
A.M.
terça-feira, 31 de março de 2026
domingo, 29 de março de 2026
QUE PROGRESSO?
A base da crença no progresso foi sólida entre as classes populares no início do século XX: o “nossas crianças terão uma vida melhor” justificava trabalho e sacrifício. Hoje em dia, quase ninguém acredita realmente que isso acontecerá. A crença no progresso é apenas uma maneira, diante da situação atual, de confiar nos experts, nos cientistas, nas novas tecnologias… a impotência face ao curso das coisas nos força a pensar que somente eles poderão nos preservar dos perigos que se acumulam no horizonte…
(...)
Isabelle Stengers, trecho de entrevista, Revista Jef Klak, 20/04/2015
sábado, 28 de março de 2026
sexta-feira, 27 de março de 2026
quarta-feira, 25 de março de 2026
ALÉM-DO-HOMEM
Este livro pertence aos homens mais raros. Talvez nenhum deles sequer esteja vivo. É possível que se encontrem entre aqueles que compreendem o meu “Zaratustra”: como eu poderia misturar-me àqueles aos quais se presta ouvidos atualmente? — Somente os dias vindouros me pertencem. Alguns homens nascem póstumos.
As condições sob as quais sou compreendido, sob as quais sou necessariamente compreendido — conheço-as muito bem. Para suportar minha seriedade, minha paixão, é necessário possuir uma integridade intelectual levada aos limites extremos. Estar acostumado a viver no cimo das montanhas — e ver a imundície política e o nacionalismo abaixo de si. Ter se tornado indiferente; nunca perguntar se a verdade será útil ou prejudicial... Possuir uma inclinação — nascida da força — para questões que ninguém possui coragem de enfrentar; ousadia para o proibido; predestinação para o labirinto. Uma experiência de sete solidões. Ouvidos novos para música nova. Olhos novos para o mais distante. Uma consciência nova para verdades que até agora permaneceram mudas. E um desejo de economia em grande estilo — acumular sua força, seu entusiasmo... Auto-reverência, amor-próprio, absoluta liberdade para consigo...
Muito bem! Apenas esses são meus leitores, meus verdadeiros leitores, meus leitores predestinados: que importância tem o resto? — O resto é somente a humanidade. — É preciso tornar-se superior à humanidade em poder, em grandeza de alma — em desprezo...
(...)
Nietzsche
terça-feira, 24 de março de 2026
IMPÉRIO
"Império é a primeira grande cartografia do terceiro milênio”
– Peter Pal Pelbart, Vida Capital, p. 81
Antonio Negri e Michael Hardt apresentam o conceito de Império. Como entender as relações de poder, dominação, capitalistas em nosso tempo? Como fazer uma análise do mundo pós-moderno e pós 11 de setembro? Para responder a estas perguntas Negri e Hardt nos dão apenas uma palavra: Império. Um poder transcendente, sem centro, uma força globalmente opressora, sem líderes, acima de qualquer instituição e estado nação. O Império funciona capilarmente, horizontalmente. Todos são seus servos.
Diferentemente do Imperialismo, mais simples, localizável, o império é um não-lugar, é o poder difuso. Não se trata mais apenas da concentração de outro, de moeda, de riquezas materiais. A concentração, a desigualdade, também acontecem subjetivamente. O Império explora mentes, subjetividades, criatividades, conhecimentos, relações, penetra a própria vida das pessoas, molda os desejos, articula afetividades. O fluxo de capital não é apenas dos países de terceiro mundo para os de primeiro e não se trata mais apenas de fluxo de capital, o Império realiza fluxos ininterruptos dos mais simples aos mais complicados. O poder imperial não tem lado de fora.
O Império está se materializando diante de nossos olhos”
– Hardt e Negri, Império, p. 11
Nesta nova constituição, os estados nação são subordinados ao império, ele engloba, axiomatiza, fagocita lentamente o mundo inteiro, expandindo suas barreiras até não haver mais lado de fora. A soberania dos estados nação está em crise. O mundo não é mais governado pelos países e nem por uma estrutura centralizada de poder. Presidentes se curvam ao FMI, ao G8 à OMC, o poder atravessa fronteiras. As bandeiras nacionais têm hoje e cada vez mais um poder simbólico. Não há fronteiras, globalização é sinônimo de regulação global. É um mundo controlável, manejável, tudo pode ser articulado para melhor seduzir e criar a servidão. Todo o território é administrado. Não só um mundo é criado, mas as próprias pessoas que habitam este mundo.
O Império só pode ser concebido como uma república universal, uma rede de poderes e contrapoderes estruturada numa arquitetura ilimitada e inclusiva”
– Negri e Hardt, Império, p. 185
O Império não reprime, produz; não pune, controla. Entramos na sociedade biopolítica de Foucault e de controle que Deleuze tão bem definiu. Tudo sobreposto, produção e reprodução integral da vida: tornar todos escravos e opressores. Produção de subjetividades em série. O poder interpreta a vida por nós. Teoria da conspiração? Não, as formações de subjetividade acontecem antes mesmo de nascer. Não há mais linha a ser cruzada, a sociedade de controle age antes mesmo que você possa visualizar uma linha que separa a liberdade da servidão.
– Feast of Kings, 1913, Pavel Filinov
O conceito proposto por Negri e Hardt procura dar conta de explicar uma máquina universal de integração, um apetite infinito e engole tudo à sua frente. O domínio Imperial envolve, perigosamente, aproveitar estas diferenças, não exclui-las. No nível jurídico, teoricamente, não há diferença; no nível cultural, as diferenças são aceitas e hierarquizadas. Trata-se de um triplo imperativo: diferenciar, incorporar e administrar.
Diferenciar, causar a diferença, permitir que a diferença se manifeste (até porque ela inevitavelmente se manifesta), a diferença sempre escapa às redes de controle, vigilância e disciplina, o Império sabe disso; tendo em vista que é impossível controlar tudo e todos, o Império age incorporando as diferenças (é, por exemplo, a camiseta do Che Guevara que você comprou no Shopping); desta forma o Império pode administrar aquilo que lhe escapa e que eventualmente o destruiria. Deleuze e Guattari chamam de reterritorialização e axiomatização.
O império é o parasita que constantemente se alimenta da criatividade e da vitalidade da Multidão. A criatividade do Império é a reterritorialização da criatividade que emergem de milhões de linhas de fuga. Há um constante desejo de desterritorialização das multidões. Quem vive sob o Império quer fugir, todo desejo quer tornar-se nômade, e o capital precisa constantemente conter as linhas que escapam da forma fechada.
A soberania imperial depende não só do consentimento como da produtividade social dos governados. Os circuitos de produtores sociais constituem o sangue que corre nas veias do Império, e se eles viessem a recusar a relação de poder, esquivando-se dela, ele simplesmente desmoronaria sem vida” – Hardt e Negri, Multidão, p. 419
O Império é um vampiro, é ele que transforma o “alternativo” em “mainstream”, o hippie em hipster. Em cima e embaixo, por todos os lados, ele vampiriza a produção da Multidão. O Império vive como um parasita que suga o sangue da Multidão, ou pelo menos sua capacidade de produção e consumo. Como armas de luta, os autores propõe o êxodo, deixar de obedecer. A verdadeira força produtiva do mundo não vem do Império, por isso o poder se dá sobre a vida.
O poder político soberano nunca pode realmente chegar à pura produção de morte, pois não se pode permitir eliminar a vida de seus súditos” – Hardt e Negri, Multidão, p. 4
Mas as saídas estão dentro das brechas que se abrem em toda forma de controle e disciplina. Encontrar os momentos de indisciplina nos intervalos do controle. Fazer da luta uma flor que cresce no asfalto. Se a forma Imperial que Negri e Hardt definiram se alimenta constantemente da produção da Multidão, esta, por sua vez, é potencialmente autônoma, ou seja não precisa dos mecanismos imperiais para existir.
O Império pretende ser senhor do mundo e caso isso não seja possível, ameaça destrui-lo, nós queremos o mundo porque somente nós o criamos. O objetivo não é tomar o Império, porque a própria estrutura do Império está afundando, não queremos tomar o timão do barco, queremos abandoná-lo o mais rápido possível e pensar em alternativas que sejam não substitutivas, mas melhores. É preciso atravessar o Império para sair do outro lado. Melhor que resistir à globalização é acelerar o processo.
A ordem imperial se apresenta como eterna, necessária e permanente. O Império se utiliza dos estados-nação como um canal de dominação. E desta reprodução ad aeternum brotam todas as teorias que enfatizam como as coisas são e devem ser: a inércia da vida presa no Império é fonte de suas próprias teorias conservadores: “as coisas são assim” traz implícito um “as coisas devem ser assim”. As figuras de subjetividade em crise nascem desta dominação: o representado, o mediatizado, o securizado; o endividado.
Mas sabemos que o império, enquanto faz da multidão seu próprio instrumento, ele está constantemente ruindo. A corrupção do Império é a fonte de onde jorra a água de uma nova democracia. A própria pós-modernidade, sabemos, é definida pela crise constante, onde é constantemente necessário o estado de exceção. Mas guerra do opressor nunca é igual à guerra do oprimido. Da lama do Império vemos a flor de lótus da multidão que se eleva em direção ao Sol.
Rafael Trindade, do site Razão Inadequada, acessado em 03/01/2026



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