sexta-feira, 4 de abril de 2025

Pomo


Da vida só tem substância

a casca e o caroço.

No meio só tem amido,

embromações do carbono.


Porém todo o gosto reside

nessa carne intermediária,

sem valor alimentício,

sem realidade, sem nada.


É nela que os dentes encontram

o que os mantém afiados;

com ela é que a língua elabora

a doce palavra.



Paulo Henriques Britto

quinta-feira, 3 de abril de 2025

My Love Is You - MARC CARY

O OBJETO DA PSIQUIATRIA

O objeto da psiquiatria é a mente e não o cérebro. Este é o objeto da neurologia e das neurociências. E o que é a mente? A mente é um conjunto ilimitado de fluxos de signos, fluxos semióticos e fluxos materiais que se expressam como processo de subjetivação. É o que o humanismo cristão chama de pessoa humana (ou indivíduo). Mas não falamos da pessoa. Tudo muda. A subjetivação é sempre múltipla e composta por singularizações existenciais: a diferença. Um objeto complexo é a " mente", já que para pesquisá-lo há que usar recursos de múltiplos saberes: biologia, fisiologia, medicina, poesia, história, sociologia, linguística, política, arte, toda uma multiplicidade. Ela extravasa o conhecimento estabelecido como verdade em instituições sociais.

A.M.


quinta-feira, 27 de março de 2025

MINHA ALEGRIA


minha alegria permanece eternidade soterrada 

e só sobe para a superfície 

através dos tubos alquímicos 

e não da causalidade natural. 

ela é filha bastarda do desvio e da desgraça, 

minha alegria: 

um diamante gerado pela combustão, 

como rescaldo final de incêndio.


Waly Salomão

segunda-feira, 24 de março de 2025

QUEM É DE ESQUERDA?

Num tempo em que a esquerda é demonizada e reduzida a clichês midiáticos, convém partir da vivência de alguém "ser de esquerda". Aqui, no coração do desejo, a ética (como força de viver) torna possível escapar do dualismo direita/esquerda que humilha o pensamento. A partir de G. Deleuze, ser de esquerda implicaria em 1-perceber o mundo começando pelo cosmos, depois a Terra, o continente, o país, a cidade, o bairro, a rua, a casa: um endereço postal; 2- conectar-se com as minorias e não com as maiorias; estas pressupõem um modelo a ser seguido, obedecido;  as outras não tem modelo, e sim processo; algo se move; 3- nunca dizer que se é de esquerda; fugir de uma identidade e entrar num devir-imperceptível.


A.M

La idea de placer es una idea completamente asquerosa -hay que ver los textos de Freud al nivel deseo-placer, donde nos dice que el deseo es ante todo una tensión desagradable. Hay uno o dos textos donde Freud dice que, despues de todo, hay tensiones agradables, pero no va muy lejos. A grosso modo, el deseo es vivido como una tensión completamente desagradable que, necesita... palabra horrible, horrorosa, para salir completamente, pues ese asunto es malo... es necesaria una descarga. Y esa descarga es el placer. La gente tendrá paz, y después, el deseo renace, y habría una nueva descarga. Los tipos de concepciones que, en términos eruditos, llamamos hedonistas, a saber la búsqueda del placer, y los tipos de concepciones místicas que maldicen el deseo, en virtud de que es, fundamentalmente, carencia, yo quisiera que ustedes sientan hasta donde, de todas maneras, ellos consideran el deseo como la única cosa que nos despierta, y que nos despierta de la manera más desagradable, es decir, sea poniéndonos en relación con una carencia fundamental que puede ser entonces apaciguada con una especie de actividad de descarga, y después tendríamos la paz, y después recomenzará... Cuando se introduce la noción de goce -vean como estoy intentando hacer un círculo, muy confuso, un círculo piadoso, un círculo religioso de la teoría del deseo-, vemos hasta que punto el psicoanálisis está impregnado de ella, hasta que punto la piedad psicoanalítica es inmensa. Ese círculo, uno de sus segmentos es el deseo-carencia, otro segmento es el placer-descarga, y, una vez más, eso está completamente ligado. Y me digo de golpe: ¿qué es lo que no va con Reich? Hay dos grandes errores en Reich: el primer error es el dualismo, entonces cambia de lado, es el dualismo entre dos economías, entre la economía política y la economía libidinal. Si se habla del dualismo entre dos economías, se podría siempre prometer hacer el empalme, el empalme nunca se hará. Y este error del dualismo repercute a otro nivel: el deseo está también pensado como falta y entonces el placer es pensado todavía como unidad de medida. Y Reich le ha dado a la palabra placer una palabra más fuerte y más violenta, lo llama orgasmo, y precisamente toda su concepción del orgasmo, que intentará volver contra Freud, consiste en plantear hasta el límite que el deseo como tal está ligado completamente a la carencia, que si no se llega a obtener la descarga que lo apacigua, va a producirse lo que Reich llama los estasis. El deseo está fundamentalmente relacionado con el orgasmo, y para que se relacione el deseo con el placer o con el orgasmo, es necesario que se lo relacione con la carencia. Es exactamente la misma cosa. Una de las proposiciones es la inversa de la otra.

(...)

G. Deleuze, aula em 26/03/1973, Vincennes

ELLEN ALTFEST


 

TEMPO, ARTE, PENSAMENTO

Um dos traços marcantes da filosofia de Gilles Deleuze é a sua constante intercessão com as mais diversas formas de produção artística. Por meio de cineastas, pintores e literatos, o filósofo francês buscou assinalar determinado modo de pensar, certo devir-artístico do pensamento, em que este último se constituiria ao longo de um movimento ou percurso do pensador/artista. Entretanto, este percurso ou movimento encontra-se, invariavelmente, relacionado a um tempo ou linhas de tempo constituídas por forças e signos que violentam o pensamento, sendo impossível ao sujeito, em um primeiro momento, tomar ciência destas diversas forças que o compõem. Deleuze nos mostra então, por meio de seus estudos, como a arte em sua relação privilegiada com o tempo, permite ao artista/pensador/sujeito reconstituir sua trajetória, isto é, atingir os diversos mundos e pontos-de-vista que o constituem, mostrando assim que a obra de arte, em última instância, revela um processo ou processos de subjetivação que, ao menos inicialmente, são imperceptíveis àqueles que os vivenciam.


Maurício Mangueira/ Eduardo Maurício in "Arte, subjetividade e tempo em Gilles Deleuze" do site "Artefilosofia", acessado em 24/03/2025

terça-feira, 18 de março de 2025

DESPERDÍCIO


prima dirce vê a vida

pela fresta


ela adora futebol

e vai à missa


seu pecado foi cheirar

lança-perfume


prima dirce borda borda

mas não pinta


Líria Porto

segunda-feira, 3 de março de 2025

O RESSENTIMENTO E SUAS MÁSCARAS

O homem do ressentimento traveste sua impotência em bondade, a baixeza temerosa em humildade, a submissão aos que odeia em obediência, a covardia em paciência, o não poder vingar-se em não querer vingar-se e até perdoar, sua própria miséria em aprendizagem para a beatitude, o desejo de represália em triunfo da justiça divina sobre os ímpios. O reino de Deus aparece como produto do ódio e da vingança dos fracos. Incapaz de enfrentar o que o cerca, o homem do ressentimento inventa, para seu consolo, o outro mundo. Assim também procede o "filisteu da cultura", que só pode afirmar-se através da negação do que considera seu oposto: a própria cultura. Ou então, o homem da ciência, que a si mesmo opõe um outro: o pesquisador, que pretende comportar-se de maneira impessoal, desinteressada e neutra diante do mundo, para chegar a abordá-lo com objetividade. E ainda o filósofo que, na elaboração de suas ideias, acredita poder desvinculá-las da própria vida, não se reconhecendo como advogado de seus preconceitos. 

(...)

("Para além de Bem e Mal", parágrafo 2)


F. Nietzsche