domingo, 12 de julho de 2026

SOPHIA PINHEIRO


 

 SEXUS de Henry Miller -  fragmento de resenha


“Sexus”(1949) faz parte da trilogia “Crucificação Encarnada” – ao lado de “Plexus”(1953) e “Nexus”(1960) – que consagrou Miller como um dos grandes do século XX, depois de seu começo conturbado com o censurado“Trópico de Câncer”. O livro narra os últimos anos de Miller nos Estados Unidos, antes de largar tudo e ir vagabundear na Europa – onde se revelou como escritor.(Período brilhantemente mostrado no filme “Henry & June”). O autor explica que está se aproximando de seu trigésimo terceiro aniversário – a idade de Cristo crucificado – e uma nova vida se estende para ele. Mas este é o único motivo pelo qual a trilogia deve se chamar “Crucificação”? O leitor atento pode observar: que são os discursos verborrágicos de Henry sobre a vida, o sexo, o trabalho e a sociedade que não sermões, muitas vezes em parábolas? Assim como Cristo, nosso autor/personagem prega um novo mundo, um paraíso – desta vez na Terra – que pode ser atingido através de sua doutrina. Ele converte amigos e mulheres com sua fala inflamada, realiza milagres através de orgasmos e multiplica comida e dinheiro – que consegue pedindo aos camaradas. E qual é sua punição? A crucificação simbolizada pelo casamento, o trabalho, as contas pra pagar e a rotina humana. Muito dessa filosofia não é novidade, algo foi tomado de Nietzsche(assim com de Céline vêm as descrições cruas e de Dostoiéviski os diálogos realistas.) Mas ao contrário de Nietzsche, Miller trepa.

(...)

Fred Di Giacomo

sábado, 11 de julho de 2026

 

ESTÔMAGO


entre as especialidades médicas,

uma das mais elegantes na pesquisa e na clínica

é a gastroenterologia.

seu raciocínio complexo

usa conhecimentos vastos e moleculares.

são mil contatos imediatos

para além da medicina dos objetos sólidos

e inertes.

ela pulsa o alimento da terra.

chanfraduras dispostas em toda parte 

migram para o trato digestivo.

boquiabertas, 

atingem entranhas

da alma torturada. 


especialidade que coloca

o paciente de frente

com o desejo infantil

mesmo que não saiba.


uma pena que a gastroenterologia

haja sido extinta.


no seu lugar a endoscopia

administra pólipos e dólares.


A.M.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

o desejo

não se esquece

não se esquece


cavernas sombrias

da angústia e do medo 

se esquece


o desejo não

não envelhece

ou alivia


ao contrário

cria

mundos



A.M.





quarta-feira, 8 de julho de 2026

O PROCESSO DE PRODUZIR MAIS VALIA


O produto, de propriedade do capitalista, é um valor-de-uso, fios, calçados etc. Mas, embora calçados sejam úteis à marcha da sociedade e nosso capitalista seja um decidido progressista, não fabrica sapatos por paixão aos sapatos. Na produção de mercadorias, nosso capitalista não é movido por puro amor aos valores-de-uso. Produz valores-de-uso apenas por serem e enquanto forem substrato material, detentores de valor-de-troca. Tem dois objetivos. Primeiro, quer produzir um valor-de-uso, que tenha um valor-de-troca, um artigo destinado à venda, uma mercadoria. E segundo, quer produzir uma mercadoria de valor mais elevado que o valor conjunto das mercadorias necessárias para produzi-la, isto é, a soma dos valores dos meios de produção e força de trabalho, pelos quais antecipou seu bom dinheiro no mercado. Além de um valor-de-uso quer produzir mercadoria, além de valor-de-uso, valor, e não só valor, mas também valor excedente (mais valia).

(...)

K. Marx

terça-feira, 7 de julho de 2026

 

TECNOLOGIA DA IMAGEM: CLÍNICA E POLÍTICA 


A partir da "tecnologia da imagem" e seus atravessamentos corporais é possível ir à análise da demanda em saúde mental. Na atualidade o corpo (não o corpo-organismo, mas o corpo-desejo) é atingido em cheio por imagens-clichês, imagens-de-imagens que tornam o contato do eu  consigo mesmo uma experiência plugada aos fluxos semióticos. Eles vêm de fora, mas parecem vir "de dentro". É que a forma das instituições sociais (cf Guattari e outros) está interiorizada, subjetivizada num inconsciente que não mais passa por categorias edipianas (tal como a psicanálise o vê) mas por categorias planetárias, portanto, capitalísticas. A tecnologia da imagem torna-se pois um território de sentido de uma verdade subjetiva. Esta é veiculada por equipamentos de poder. Daí o homem moderno encarnar uma espécie de sonambulismo coletivo que a todos arrasta. A incrível aceleração da velocidade do tempo aniquila o Sentido. Efeitos práticos: na clínica, a psicose. Na política, o fascismo.



A.M.

domingo, 5 de julho de 2026


Coração de frango


e o coração,

quanto pesa?

perguntou ela,

moça magrela

de expostas costelas,

ao homem bigodudo

detrás do balcão.


depende,

de boi ou de frango?


intrigada

não entendeu,

pois era do dela

que tratava.


sabia que pouco valia,

era carne fraca

sangue de anemia

que batia mais por inércia,

do que serventia.


na verdade,

queria fazer uma barganha,

trocar seu coração

por, quem sabe,

um naco de picanha.


o homem não estranhou a proposta

da moça de costelas expostas.

era a terceira vez

que vinham lhe oferecer

aquele estranho produto

já conhecidamente sem uso.


mas por pena ou caridade

lhe ofereceu em troca

duas asas de frango.

o que era muito,

comparado ao seu tamanho.


faminta,

aceitou sem demora.

lambuzou-se com as asas alheias,

visto que ela,

bicho terreno,

não conhecia tais atrevimentos.


até hoje não se sabe:

se foi a gordura espessa

ou a carne fibrosa

(tão desconhecidas a seu corpo de menina)

que lhe causaram alucinação.


fato é que

munida da carcaça das duas asas,

uma em cada mão,

acreditou-se ave,

ave maria,

e do parapeito da janela,

estufou o peito externo.

de um só golpe

sentiu o corpo leve.


o voo foi breve.

o baque, surdo.

a carne mole,

moída na calçada,

parecia que indagava:


e meu corpo,

quanto vale?


Luiza Romão

quinta-feira, 2 de julho de 2026

A  MEDICALIZAÇÃO  SEM  FIM


Fenômeno típico da sociedade industrial capitalística "avançada", a medicalização corresponde a expressão da medicina no campo social.

Tal afirmação soa rasa e superficial se se limitar à medicina como ramo da ciência atrelado aos ideais iluministas ( a razão científica) e humanistas ( o homem como medida  das coisas).

Ao contrário, a medicalização da vida social é uma instituição. E como toda instituição,  só funciona em conexão com outras instituições como o Estado, a Ciência, a Mídia, a Política, a Economia, etc.

Desse modo ela desenvolve a função de ocultar  (ou maquiar) a divisão de classes. Isso é constitutivo do Capitalismo Mundial Integrado (F. Guattari, 1981) e alavanca seus valores e códigos às custas de uma subjetividade-do-capital atualizada via internet.

Mas não se trata aqui de uma afirmação idealista calcada no pensamento de Marx, e sim de uma percepção do real em si mesmo, o que existe.

O que existe são imagens de imagens de imagens circulando enlouquecidas rumo a um lucro capitalístico infinito. Então, para que serve o real se ele foi "anexado" à loucura como o fim último da produção? A loucura não tem fim, só meios.

Não existe mais o "social", a socialidade. O capital abarcou tudo, engoliu tudo. 

De volta à medicalização da vida social que é a "vida do capital": ela é esse "infinito"  expresso na luta entre os vírus e as vacinas, entre as bactérias e os antibióticos, entre a doença e a saúde, entre a morte e a vida... tudo pela expansão metastática do lucro.


A.M.


 

quarta-feira, 1 de julho de 2026

virtual


ela só existe on line

porque eu respiro

on line


guelras de peixe

esse ar encantado

de garoto travesso


realizou a imagem dela

dentro de mim



A.M.