sexta-feira, 29 de maio de 2026

 

Os dois lados da medalha
E porque você me ama,
você pensa que não me odeia?
Ah, desde que você me ama
até ao arrebatamento
segue-se que você me odeia arrebatadamente.

Porque quando você me ouve
ir estrada abaixo fora da casa
você tem que chegar à janela para me ver,
acha que é pura adoração?

Porque, quando me assento no quarto,
aqui, na minha própria casa,
e você quer expandir-se com este meu amigo,
amigo como ele é,
mesmo assim você não pode ir além da sua consciência de mim,
você se detém por eu estar no mesmo mundo com você,
pensa que isto é êxtase somente?
harmonia total?

Nenhuma dúvida, se eu estivesse morto, você deveria
alcança-me na morte,
mas não iria o seu ódio demente muito além do seu amor?
o seu ódio apaixonado, inacabado?

Visto que você está apaixonada por mim,
como eu por você,
não fica essa paixão no seu caminho como o asno de Balaão?
e não sou eu o asno de Balaão
boca de ouro, ocasionalmente?
Acima de tudo, não detesta você meu zurro?

Desde que você está confinado à minha órbita
não detesta o confinamento?
Não é até mesmo a beleza e paz de uma órbita
uma prisão intolerável para você,
como é para todo mundo?

Mas nós aprendemos a nos submeter
cada um de nós à órbita eterna e equilibrada
na qual circundamos nosso destino
em estranha conjunção.

O que é o caos, meu amor?
Não é liberdade.
Uma desordem de estrelas cadentes resultando em nada.

D.H. Lawrence

sábado, 23 de maio de 2026

A  MEDICALIZAÇÃO  SEM  FIM


Fenômeno típico da sociedade industrial capitalística "avançada", a medicalização corresponde a expressão da medicina no campo social.

Tal afirmação soa rasa e superficial se se limitar à medicina como ramo da ciência atrelado aos ideais iluministas ( a razão científica) e humanistas ( o homem como medida  das coisas).

Ao contrário, a medicalização da vida social é uma instituição. E como toda instituição,  só funciona em conexão com outras instituições, no caso, o Estado, a Ciência, a Mídia, a Política, a Economia, etc.

Desse modo ela desenvolve a função de ocultar  (ou maquiar) a divisão de classes. Isso é constitutivo do Capitalismo Mundial integrado (F. Guattari, 1981) e alavanca seus valores e códigos às custas de uma subjetividade-do-capital atualizada via internet.

Mas não se trata aqui de uma afirmação idealista calcada no pensamento de Marx, e sim de uma percepção do real em si mesmo, o que existe.

O que existe são imagens de imagens de imagens circulando enlouquecidas rumo a um lucro capitalístico infinito. Então, para que serve o real se ele foi "anexado" à loucura como o fim último da produção?

Não existe mais o "social", a socialidade. O capital abarcou tudo, engoliu tudo. 

Assim, de volta à medicalização da vida social que é a "vida do capital": ela é esse "infinito"  expresso na luta entre os virus e as vacinas, entre as bactérias e os antibióticos, entre a doença e a saúde, entre a morte e a vida... tudo pela expansão metastática do lucro.


A.M.


terça-feira, 19 de maio de 2026

CENÁRIO


Tudo é só, a montanha é só, o mar é só,

A lua ainda é mais só.

Se encontrares alguém

Ele está só também.


Que fazes a estas horas nesta rua?

Que solidão é a tua

Que te faz procurar

O cenário maior,

O de uma solidão maior que a tua?


Dante Milano

ROSAS FOREVER


 

NADA PESSOAL 

De fato,o paciente não é uma "pessoa". Ninguém é. Trata-se de um conceito produzido pelo cristianismo (pessoa humana) e que o capital adornou com tecnologias sedutoras. Longa história... de uma Forma estável, de onde, por exemplo, surgem elementos subjetivos prontos para o adestramento social. Ora, uma "clínica da diferença" maquina a dissolução de tal pessoa, substituindo-a por multiplicidades pulsantes. O que seria isso? Tarefa difícil, pois a medicalização, entronizada como verdade da Saúde, exibe garras mansas. Mesmo psicoterapias reproduzem a medicina dos sintomas. Qualquer linha teórica...(qualquer mesmo!), umas mais cínicas, outras menos... no entanto, como traçar linhas impessoais?

 
A.M.

sábado, 16 de maio de 2026

 

O cimo da paixão

Do alto da Pedra do Claranã
se vê um amor da natureza
em cor de primavera.

Oferta dos deuses
para um coração
solitário
e distante,

isso basta
para viver.


A.M.

sábado, 9 de maio de 2026

há centenas de milhares de anos

objetos aéreos não identificados

nunca foram identificados


em 2026 

arquivos com fotos e vídeos 

antigos e atuais

mostraram que eles continuam

não identificados



A.M.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

 

Fundamentos políticos da inter-disciplinaridade

(...)

A transdisciplinaridade, como movimento interno de transformação das ciências, aberta para o social, o estético e o ético, não nascerá espontaneamente. A vida científica internacional fica, freqüentemente, presa a rituais formais, numa interdisciplinaridade de fachada. Seu aprofundamento implica numa permanente “pesquisa sobre a pesquisa”, uma experimentação de novas vias de constituição de agrupamentos coletivos de enunciação. Não apenas equipes pluridisciplinares devem funcionar, se necessário por períodos às vezes longos, ou de acordo com ritmos temporais apropriados, como a questão de sua implantação, de seus campos de investigação, da integração de sua atividade com o meio ambiente humano será freqüentemente discutida. Por exemplo, no domínio da cooperação com os países em via de desenvolvimento, os especialistas freqüentemente caíram de pára-quedas em terrenos sociais que não estavam preparados para recebê-los e que eles não estavam preparados para encontrar. Sob este aspecto, a análise dos fracassos seria bastante enriquecedora. O saber agrônomo, médico, ecológico, da arquitetura, deve ser, de alguma forma, reinventado a cada situação concreta. Daí, como corolário, a importância de se prepararem monografias traçando o percurso inicial de uma experiência, suas fases positivas e negativas, as bifurcações que caracterizam a formação do que chamei de agenciamentos coletivos de enunciação.  

Não existe uma pedagogia geral com relação à constituição de uma transdisciplinaridade viva. Deve-se levar em conta a iniciativa, o gosto pelo risco, a fuga de esquemas pré-estabelecidos, a maturidade da personalidade (mesmo tratando-se de pessoas muito jovens). Ainda uma vez, teremos mais a ganhar ao nos referirmos neste depoimento ao processo de criação estética do que às visões padronizadas, planificadas, burocratizadas que reinam freqüentemente nos centros de pesquisas científicas, nos laboratórios e nas universidades. 


Félix Guattari /1992