terça-feira, 2 de junho de 2020

NÃO ACABOU, TÁ COMEÇANDO
(...)
A maioria brasileira que ainda não tem voz saberá como rejeitar esse individualismo possessivo que é a verdadeira forma de violência. Pois o verdadeiro embate é pela construção de uma liberdade real que nunca aceitará que mais de 28.000 brasileiras e brasileiros mortos é uma fatalidade natural, como a queda das folhas no outono.

Para finalizar, não podemos mais aceitar as chantagens que nos foram impostas. Nossas ações devem ser mais efetivas a partir de agora. Redes de boicotes a empresas que sustentam essa política da morte, manifestações de rua pelo impeachment do Governo que respeitem exigências de segurança sanitária (como vimos em Israel). Pois a queda desse Governo não será apenas a queda desse governo. Será dar a maioria sua verdadeira força de recusa e abrir o caminho para que ela possa começar a criar.

Vladimir Safatle, El País,01/06/3030, 15:44 hs 

domingo, 31 de maio de 2020

Para mim o
amor
fica-me justo
Eu só visto
a paixão
de corpo inteiro


Maria Teresa Horta

sábado, 30 de maio de 2020

O PACIENTE DA TESOURA

Há algum tempo atendi um paciente que chamo de "o homem da tesoura no crânio". É que ele dizia ter uma tesoura encravada no crânio. Alguém (que ele não sabia quem) havia feito isso enquanto ele dormia. Trouxe para a entrevista um calhamaço de exames complementares do cérebro (EEG, Tomografia, RNM, etc). Olhei um a um os exames e em todos os laudos estava escrito"exame normal". Perguntei-lhe: se os exames estavam normais por que ele achava portar uma tesoura no crânio? Respondeu mais ou menos o seguinte: "Doutor, a tecnologia de imagem está ainda pouco evoluída. A tesoura está num canto do cérebro de difícil acesso para que possa gerar imagens; por isso dá normal". Diante de tal resposta, não insisti em tentar convencê-lo. Isso foi um grande aprendizado. Nunca mais tentei convencer algum eleitor/seguidor de Lula ou Bolsonaro. 

A.M.

Documentário: A 'Noite dos Cristais' - Kristallnacht

sexta-feira, 29 de maio de 2020

JOELHO

Ponho um beijo
demorado
no topo do teu joelho

Desço-te a perna
arrastando
a saliva pelo meio

Onde a língua
segue o trilho
até onde vai o beijo

Não há nada
que disfarce
de ti aquilo que vejo

Em torno um mar
tão revolto
no cume o cimo do tempo

E os lençóis desalinhados
como se fosse
de vento

Volto então ao teu
joelho
entreabrindo-te as pernas

Deixando a boca
faminta
seguir o desejo nelas.


Maria Teresa Horta

CHRISTINE NGUYEN


A RAZÃO NA VALA COMUM

A voz da direita brasileira no poder, a qual convencionou-se chamar de "bolsonarista", está fora do universo democrático. Isso inclui não apenas a palavra dos poderes oficiais, mas o agenciamento microfascista (infernal) das subjetividades amestradas: apoiadores, seguidores, fiéis, eleitores for everyoutoubers,  redes sociais enlouquecidas, cidadãos dos mais variados matizes, quase todos bem intencionados, etc. Assim, não são dilemas da consciência, erros de julgamento, questões do ego, caráter, personalidade, ou até mesmo casos de psicopatia e/ou psicose. Nada de psicopatologia clínica. Isso é ou deveria ser política. No entanto, se esta se tornou "uma pedra no meio do caminho", cai fora o jogo democrático. Não mais política, mas polícia. 

A.M.
A INCITAÇÃO AO GOLPE

(...)
Para Oscar Vilhena, professor da FGV Direito em São Paulo, Bolsonaro e seu clã, ao invocar o 
artigo 142 da Carta, usam a “interpretação de quem conspira contra a democracia e não é capaz de interpretar um artigo dentro do quadro geral da Constituição”. “Trata-se de uma interpretação enviesada de que seriam as Forças Armadas, e não o Supremo, que têm a última palavra sobre a defesa da Constituição”, diz Vilhena.

“Ele está claramente incitando golpe, ele e o filho [Eduardo]”, disse o advogado especializado em direito público Marco Aurélio de Carvalho. A mesma opinião tem Cezar Britto, ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil e membro da Comissão Brasileira de Justiça e Paz. “Em nenhuma hipótese as Forças Armadas podem atuar a pedido dos poderes. Elas podem atuar para garantir a democracia, mas nunca contra a democracia”.

O advogado constitucionalista Guilherme Amorim Campos da Silva concorda que “não existe intervenção militar constitucional, como tem pregado o presidente”. Ele acredita que o mandatário está incorrendo em crime de responsabilidade ao quebrar o juramento de defender a Constituição. “As Forças Armadas entram em ação a pedido de algum dos poderes constituídos, para garantir a institucionalidade do país, e não para atuar como força autônoma ou soberana sobre os demais”.

Na opinião do criminalista José Carlos Abissamra Filho, diretor do Instituto em Defesa do Direito de Defesa, o presidente tem ficado sozinho politicamente e vem tentando se vincular à instituições que gozam de prestígio social, como Polícia Federal e Forças Armadas. “Ele vem pedindo esse apoio das Forças Armadas há algumas semanas já. Essa é mais uma tentativa. Está esperando para ver se as Forças Armadas vão dar. Eu não vejo clima para que isso ocorra”.

O constitucionalista Erick Pereira segue na mesma linha. Para ele, Bolsonaro faz um discurso “intimidador, mas inexequível”. “Não tem espaço constitucional para isso. Apenas se for ato de violência ditatorial e este não precisa da Constituição”. Outro especialista em direito público, Cristiano Vilela diz que o presidente tem andado no limite da incitação a um golpe. “Ele tem feito isso regularmente. Tem dado declarações que deixam a entender, mas sem dizer literalmente”
(...)

Afonso Bentes e Carla Jimenez, El País,Brasília e São Paulo, 28/05/2020, 23:45 hs

quinta-feira, 28 de maio de 2020

quarta-feira, 27 de maio de 2020

RIZOMA

Tudo se conecta com tudo. A lei do acaso absoluto. Baralho de cartas: a sorte. Mesmo um minúsculo grão do real, eis a sombra dos valores perdidos, a melancolia alegre. É tudo menos um. Contradições são para rir. Esse é o método: tornar possível "pensar". Isso dá trabalho, exige sensibilidades finas e abertas. Morrer também. Então, o caos se apresenta como destruição do eu e das formas sociais estáveis. Em todo o campo social, a qualquer hora, sem garantias de verdade, o caminho é o descaminho: força de criar. A certeza, a incerteza: o amor.  O território, a terra: alimento dos deuses. O real dói, mas é o que  resta: desejar.

A.M.

ODILON REDON