sábado, 15 de agosto de 2026

 CLÍNICA E TECNOLOGIA DA IMAGEM - III


Numa acepção deleuziana, o acontecimento pode ser definido como um encontro de corpos, humanos e/ou inumanos, no qual e do qual emerge o Sentido. Assim, o sentido nunca é dado, nunca é "um estar lá", mas sim produzido no próprio ato do Encontro. É possível notar que a realidade virtual substituiu a realidade do Encontro (daí, a dos corpos) pela realidade da imagem, profusão de imagens sobre imagens, realidade descarnada, mas Realidade subjetivamente  assimilada como Verdade. Dissemos que a tecnologia da imagem não é um mal em si, mas um signo de poder acelerado a uma velocidade não captada pela Consciência. A velocidade é quem (sujeito) captura a consciência. Um encontro de corpos fica, então, descartado em prol da verdade da imagem, inclusive a imagem de si. Segue-se o empreendimento desejante de um profundo estilhaçamento do eu, beirando a psicose ou nela se instalando. Tempos esquizofrênicos, como previu Guattari. Ora, para uma psiquiatria atravessada por tais fluxos, há duas opções ético-políticas: 1- Encolher-se sob o discurso epistemológico das neurociências, detentor de uma verdade reificada, reificante e erguer o manto acadêmico como anti-auto-crítica. 2-Abrir-se, estender-se sobre o campo social em suas formações discursivas caóticas e inventar clínicas à altura do horror dos tempos que correm. Fazer o acontecimento.


A.M.

Deus não criou Adão pecador, mas, primeiramente, o mundo em que Adão pecou.


Gilles Deleuze

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

celular


não é aparelho.

é um órgão

do organismo

tipo cérebro:

informa, comunica

mas não pensa

nem inventa.



A.M.

quinta-feira, 30 de julho de 2026

SER DE ESQUERDA  - nº 2  ( em 10 linhas)

1- Combater o ressentimento como expressão anti-vida da cultura cristã. 

2- Conceber o poder como "relação entre forças" ao modo foucaultiano.

3- Rejeitar toda forma de dominação dos corpos livres, operários do desejo.

4- Considerar a mulher sob o signo da criação desejante,  natureza feroz e delicada.  Amar os paradoxos.

5- Evitar o dualismo estéril direita/esquerda em prol das multiplicidades do viver.

6- Combater o fascismo e os micro-fascismos dos modos explícitos ou nos disfarces da língua.

7-Odiar a geopolítica, imperadores do mundo em cálculos genocidas. 

8-Experimentar a delicadeza como estilo de viver a interpessoalidade.

9-  Desconfiar do  Estado nas patrulhas do desejo. Destruir suas metástases burocráticas. 

10 - Usar a camuflagem como função guerreira em contextos institucionais adversos.


A.M.

sábado, 25 de julho de 2026

o vôo da bruxa


pierre bourdieu?

ninguém mais


exceto miguel


em sua jornada

adolescente

incandescente


karl marx?

ninguém mais 

nem os jornais


exceto miguel

na velocidade

do pensamento


sem imagem




A.M.







domingo, 19 de julho de 2026

O professor disserta sobre ponto difícil do programa.

Um aluno dorme, cansado das canseiras desta vida.

O professor vai sacudi-lo?

Vai repreendê-lo?

Não.

O professor baixa a voz,

Com medo de acordá-lo. 


Carlos Drummond de Andrade 


 

sábado, 18 de julho de 2026

REGIME DE DELÍRIOS


O termo "delírio" apresenta uma história atravessada pelo romantismo. Assim, quando se diz " delírio de amor", evoca-se uma intensidade afetiva  na constituição do sujeito e do objeto da sua paixão. Há uma imagem que força a desejar e delirar.

Na psiquiatria clínica, orgânica, biológica, o delirio tem origem no cérebro em alguma disfunção ou numa lesão das estruturas neuronais. Até se convencionou chamar isso de " delírium" (do latim) para qualificar o sintoma "causado" pela alteração do estado da consciência. Esse estado percorre amplo espectro clínico, indo da consciência vigil ao coma ( apagamento da consciência).

Ainda na psiquiatria clínica, o delírio cursa com a psicopatologia e suas múltiplas expressões, tais como nas psicoses, esquizofrenias, transtornos do humor, transtornos da personalidade, histerias, etc... todo um universo semiológico delirante. Curioso é que esse tipo de delírio não leva uma causa orgânica, como é o caso do "delirium". 

Fora do círculo normativo e clínico da psiquiatria , encontramos o delírio, ou mais precisamente, a experiência delirante por toda a parte: na arte, na literatura, na política, na filosofia, no espiritualismo, nas religiões em geral e até no cotidiano das relações sociais e pessoais...

Em toda as manifestações persiste a dificuldade em avaliar o que é o delírio e qual a sua origem. Restou a psiquiatrização mais tosca. É que sob uma égide moral, o delírio é visto como " erro " . Ele escapa ao controle institucional e racional, e por conseguinte desconcerta a prática de normalização dos indivíduos levada à efeito pela "necro" psiquiatria. É que a expressão delirante, para ser compreendida nos seus elementos históricos atuais, extrapola tal enquadre psicopatológico: o delírio do capital...

Desse modo é possível arriscar a hipótese teórica de que a modernidade produziu e produz em escala planetária condições sociais, políticas, culturais e tecnológicas para o desenvolvimento de um delírio não médico e não romântico. Aí está contida uma questão intrigante sobre a verdade.

E cada vez mais, movida a velocidades internéticas, tal questão se traduz em perguntas sem resposta: isso é verdade? qual a verdade? existe a verdade? para que serve a verdade? a quem serve?



A.M.


Obs. versão revisada.