sábado, 15 de janeiro de 2022

Deixe Estar

QUEM DELIRA?

O delírio é considerado um sintoma (perigoso) pela psiquiatria. Por isso necessita ser controlado via fármacos. Na fenomenologia ele é um modo de existência, um ser-no-mundo. Para Freud, uma defesa contra o desejo homossexual. Já Lacan o via como uma espécie de "buraco" no simbólico, mais elegantemente chamado de foraclusão. São todas elas concepções atadas ao espaço psíquico. Pensamos outra coisa: através das linhas abstratas (sem forma) de Deleuze-Guattari, acessamos o delírio como produção coletiva. Neste sentido, todos deliram, restando saber onde, quem, quando, como, por que e para que. Observe os tempos internéticos on line. O desejo, em seus mil agenciamentos, se expressa... Isso põe o técnico em saúde mental (não só o psiquiatra) para além dos neurônios e das sinapses, ou seja, no real. Ou "na real".


A.M.


Qualquer amor há de sofrer uma perseguição concreta e assassina. Somos impotentes do sentimento e não perdoamos o amor alheio. Por isso, não deixe ninguém saber que você ama.


Nelson Rodrigues

Etude No.2

CAPS SEM REMÉDIO

O trabalho de equipe num Caps, para ser turbinado, compreende  uma superação  da hegemonia psiquiátrica. Não nos referimos à figura do psiquiatra (nada pessoal) nem aos seus equipamentos químicos (fármacos à mão cheia)  mas à forma-psiquiatria, instituição secular registrada na  mente e no DNA dos técnicos não-psiquiatras. É claro que há outros elementos em jogo, outras condições  para a mudança. Mas essa questão é essencial. Ela implica na produção de novas clínicas, novas psicopatologias descoladas do modelo biomédico. Desse modo, o Caps sairia do ranço manicomial e do jeitão de ambulatório camuflado.  Difícil.

A.M. 

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

O Estatuto do Homem

  

Artigo Primeiro

Fica decretado que agora vale a verdade. Agora vale a vida, e de mãos dadas, marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo Segundo

Fica decretado que todos os dias da semana,  inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo Terceiro

Fica decretado que, a partir deste instante, haverá girassóis em todas as janelas, que os girassóis terão direito  a abrir-se dentro da sombra; e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo Quarto

Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem. Que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento, como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único

O homem, confiará no homem como um menino confia em outro menino.

Artigo Quinto

Fica decretado que os homens estão livres do jugo da mentira. Nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio nem a armadura de palavras. O homem se sentará à mesa com seu olhar limpo porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa. 

Artigo Sexto

Fica decretado que a maior dor sempre foi e será sempre não poder dar-se amor a quem se ama e saber que é a água que dá à planta o milagre da flor.

Artigo Sétimo

Fica permitido que o pão de cada dia tenha no homem o sinal de seu suor.Mas que sobretudo tenha  sempre o quente sabor da ternura.

Artigo Oitavo

Fica permitido a qualquer  pessoa, qualquer hora da vida, uso do traje branco.

Artigo  Nono

Fica decretado, por definição, que o homem é um animal que ama e que por isso é belo, muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo Décimo

Decreta-se que nada será obrigado nem proibido, tudo será permitido, inclusive brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único

Só uma coisa fica proibida: amar sem amor.

Artigo Décimo Primeiro

Fica decretado que o dinheiro não poderá nunca mais comprar o sol das manhãs vindouras. Expulso do grande baú do medo, o dinheiro se transformará em uma espada fraternal para defender o direito de cantar e a festa do dia que chegou.

Artigo Final

Fica proibido o uso da palavra liberdade, a qual será suprimida dos dicionários e do pântano enganoso  e das bocas. A partir deste instante a liberdade será algo vivo e transparente como um fogo ou um rio, e a sua morada será sempre o coração do homem.


Thiago de Mello

(Santiago do Chile, abril de 1964 dedicado a Carlos Heitor Cony )

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

JANEIRO  BRANCO  DESBOTADO

Saúde Mental não é uma coisa. Tampouco uma mercadoria. Não se guarda no "eu" de cada um. Ao contrário, está no mundo. Ela é o mundo.

Desde 2014 veio (de Uberaba?) essa ideia para o discurso (raso) da mídia. Como não emocionar corações vulneráveis e sensíveis? A imagem é poderosa.

Deu um branco em mim.

Ninguém nunca viu (ou enxergou) o "mental". Como, então, dedicar um mês inteiro a falar sobre esse objeto mágico?

Um mês para refexões psicológicas e existenciais. Seria lindo se não fosse tolo. Qual o melhor mês para "viagens" no interior de nós mesmos? Talvez todos eles. 

Saúde é tudo. Saúde Mental é tudo o mais...que tudo.

Na TV um psiquiatra fala da alvura de janeiro. Engasgou em duas sinapses e expeliu sete neurônios. O cérebro mente.

Ora, ora, pelas bandas do caps, do sus e do cuidado, a Saúde Mental anda meio estropiada. 

No entanto, prossegue a ideia de janeiro esbranquiçar o tempo. Mas não olhe para cima.

As palestras ocorrem num clima de delírio racional. Sem máscaras ou olanzapinas.

Saúde Mental não é uma coisa, mas é coisa séria. Tanto que anda escassa. Sem manche a  aeronave (enlouquecida) segue sem rumo. 

Você entendeu.


A.M.

 




 


terça-feira, 11 de janeiro de 2022

POLÍTICAS VITAIS

Há muitos doutores e eruditos que nos convidam a um olhar científico asseptizado, verdadeiros loucos também, paranóicos. É preciso resistir às duas armadilhas, a que nos arma o espelho dos contágios e das identificações, a que nos indica o olhar do entendimento. Nós só podemos agenciar entre os agenciamentos. Só temos a simpatia para lutar, e para escrever, dizia Lawrence. Mas a simpatia não é nada, é um corpo a corpo, odiar o que ameaça e infecta a vida, amar lá onde ela prolifera (nada de posteridade nem de descendência, mas uma proliferação...). Não, diz Lawrence, vocês não são o pequeno esquimó que passa, amarelo e gorduroso, vocês não têm que se tomar por ele. Mas talvez vocês tenham algo a ver com ele, vocês têm algo para agenciar com ele, um devir-esquimó que não consiste em se passar pelo esquimó, a imitar ou em se identificar, em assumir o esquimó, mas em agenciar alguma coisa entre ele e vocês – pois vocês só podem se tornar esquimó se o próprio esquimó se tornar outra coisa. O mesmo acontece com os loucos, com os drogados, com os alcoólatras. Há quem faça objeção: com sua miserável simpatia, você se serve dos loucos, faz o elogio da loucura, e depois os deixa de lado, permanece sobre a margem... Não é verdade. Tentamos extrair do amor toda posse, toda identificação, para nos tornarmos capazes de amar. Tentamos extrair da loucura a vida que ela contém, odiando, ao mesmo tempo, os loucos que não param de fazer essa vida morrer, de voltá-la contra si mesma. Tentamos extrair do álcool a vida que ele contém, sem beber: a grande cena da embriaguez com água pura, em Henry Miller. Abster-se do álcool, da droga, da loucura, é isso o devir, o devir-sóbrio para uma vida cada vez mais rica.

(...)

G.Deleuze e C. Parnet in Diálogos

Nicolelis explica a ômicron e a importância das vacinas

domingo, 9 de janeiro de 2022

PONTO MORTO


A minha primeira mulher 

se divorciou do terceiro marido. 

A minha segunda mulher 

acabou casando com a melhor amiga dela. 

A terceira (seria a quarta?) 

detesta os filhos do meu primeiro casamento. 

Estes, por sua vez, não suportam os filhos 

do terceiro casamento da minha primeira mulher. 

Confesso que guardo afeto pelas minhas ex-sogras.

Estava sozinho 

quando um de meus filhos acenou para mim no meio do engarrafamento. 

A memória demorou para engatar seu nome. 

Por segundos, a vida parou, em ponto morto.


Augusto Massi

Está ficando tarde, e eu tenho medo de ter desaprendido o jeito. É muito difícil ficar adulto.


Caio Fernando Abreu

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

O PENSAMENTO DA SAÚDE MENTAL  e o janeiro branco                   

Não acreditamos na crítica como ato que   propicie  uma criação.  A  criação é que   propicia uma crítica. A  criação vem primeiro.  Saúde é um conceito nominal.  Aparelho    engendrado     por  tecnocratas do Estado,   vive  para  a  ideia, o imaginário, a transcendência    e as boas  intenções humanísticas. Com o conceito de mental ocorre o mesmo. Criar  nada  tem a ver com essa  ladainha político-conceitual. A arte de  criar conceitos, como diz  Deleuze, é a aventura do novo. Em saúde mental,  criar é  despersonalizar-se sem culpa, ressentimento ou nostalgias egóicas. Começa  pela ausência de títulos e  pompas.  Uma gratuidade.  

Talvez  qualquer  Caps enfrente   a desvalorização do usuário e da equipe técnica. Baixos  salários e  a  trama do Estado corrupto.  Apesar disso, uma alegria empurra os que querem criar, os artistas. Não os  profissionais  da  arte,  mas os  que  expressam um devir-arte para  além e  aquém das categorias  do bom senso. Explicar essas  coisas requer um longo aprendizado:  sair  do eu na direção das  multiplicidades,  sair de  si para o  fora  rumo à loucura não-médica.  

O  espírito da reforma  psiquiátrica  vive atolado  nas palavras de ordem  do polvo estatal e em sonhos corporativos; psiquiatras firmam suas alianças macabras, seja com os laboratórios  farmacêuticos,  seja   com  seus   pares. Um fascismo maquiado exibe-se à seco.

É  por demais  evidente  que  a sorte dos pacientes está ligada aos agenciamentos de forças –instituições  sociais -  que se  materializam em práticas, desde que se  saiba que  a mente não  é  algo a ser consertado. A mente é o mundo. Tudo a fazer é preparar o paciente para enfrentá-lo. Ainda  assim,  alianças políticas  pesam contra,  já que o paciente não produz, não registra uma identidade  (quem sou?) e não consome. Está fora  do circuito  da produção e ao mesmo tempo no interior da produção, produto coagulado.  A questão  do fora e  do dentro merece ser considerada. Ela  remete à política em psicopatologia. O paciente está fora dos códigos sociais e  se submete  a eles, tornando-se mais um código, até  mesmo incluído em  patologias tidas como menos  graves: as neuroses.

Entretanto,  quando a psiquiatria  trabalha o desejo  desde o  interior  da clínica, podemos  chamá-la de psiquiatria materialista,  clínica da diferença ou clínica das multiplicidades.  Ela tece um território movente de criação;  essa clínica não existe fora ou dentro de algo.   Ela é imanente à produção.   Tudo é uma coisa e outra. Primado  do  “e”. A saúde mental deixa de ser um aparelho  conceitual encolhedor de mentes para construir uma superfície prática onde a clínica  é vazada pelo coletivo, o mundo  que  o paciente terá  que enfrentar, pois  o mundo é ele mesmo. Saúde mental é um  conceito a ser estilhaçado: saúde refere-se não apenas ao organismo, mas ao corpo; mental refere-se não apenas ao cérebro, mas ao mundo. Será  possível, então,  dizer   corpo-no-mundo como na fenomenologia? Sim, desde que a extensão do conceito considere a  potência do corpo e o caos do mundo. Potência e caos estão fundidos na produção de novas configurações subjetivas.O pensamento da saúde mental só existe enquanto ciência, filosofia e arte encadeadas em devires. O que se  chama de reforma psiquiátrica é um rearranjo de poder dos modos de codificar a loucura.  Desse modo  não existe o devir, a não ser  na fantasia  e/ou no delírio. Ele não,   se  constitui  como  "pensamento", mas como  saber classificatório  para  o qual a  CID-10 e o DSM-IV são cartilhas mortas com respaldo jurídico e científico. A luta pela diferença passa, então,  por  uma  rachadura no conceito de saúde mental. Feito isso, o espaço-tempo  de trabalho com o paciente alarga-se ao ponto de não  mais  pertencer  ao mercado da saúde mental  e sim aos territórios  coletivos  conquistados  no  encontro  com a  loucura. Muda o conceito de transtorno mental ou o de doença mental, como antes  era  chamado. Quem é  doente? O que  é doença?  Não há certezas. Esse fato é condição elementar para desfazer a saúde mental  como organização   da  forma- Estado e  substitui-la  por uma clínica órfã e molecular, produzindo seus próprios  códigos. Uma outra linguagem poderá surgir dos problemas (sempre há) que o paciente traz. O diagnóstico submete-se ao contexto  social  e   não o contrário. Acreditamos que, desse modo, os técnicos se farão aliados de forças que  eles  mesmos  tornam  úteis  em   terapêuticas singulares.  Ao pé  da letra, diríamos:  servir  ao  paciente  ou .... à vida?


A. M.  in Trair a psiquiatria