quinta-feira, 9 de abril de 2026

COMBATE


Nem eu posso com Deus nem pode ele comigo.
Essa peleja é vã, essa luta no escuro
entre mim e seu nome. 
Não me persegue Deus no dia claro.
Arma, à noite, emboscadas.
Enredo-me, debato-me, invectivo
e me liberto, escalavrado.
De manhã, à  hora do café, sou eu quem desafia.
Volta-me as costas, sequer me escuta,
e o dia não é creditado a nenhum dos contendores.
Deus golpeia à traição. 
Também uso para com ele táticas covardes.
E o vencedor (se vencedor houver) não sentirá prazer
pela vitória equívoca.



Carlos Drummond de Andrade

LAVANDA


 

quarta-feira, 8 de abril de 2026

QUAL TRANSTORNO MENTAL?


Não é bom psiquiatrizar a política. Sob tais condições e em face do poder médico (expresso pela linguagem técnica) o universo da política se torna opaco e distorcido em sua significação. 

É uma má leitura.

No entanto, em situações extremas da geopolítica (como de agora) talvez seja útil a visão da psicopatologia clínica.   

Ora, em escala planetária e via internet, a figura do Neo-Calígula com sua máquina bélica de puro horror, sugere três hipóteses diagnósticas:

A confirmar:

1- Transtorno  específico da personalidade (paranoico)

CID - 10 : F.60. 0

2- Transtorno delirante persistente

CID 10 : F.22.8

3- Demência não especificada

CID 10 : F.03



A.M.




segunda-feira, 6 de abril de 2026

 

Prezo insetos mais que aviões.

Prezo a velocidade

das tartarugas

mais que a dos mísseis.

Tenho em mim

esse atraso de nascença.

Eu fui aparelhado

para gostar de passarinhos.

Tenho abundância

de ser feliz por isso.

Meu quintal

É maior do que o mundo.


Manoel de Barros

domingo, 5 de abril de 2026


 

SER DE ESQUERDA ( em 10 linhas)


1- Considera a realidade em primeiro lugar como percepção do cosmos e do mundo. Tal percepção decresce até o eu, ou ao si mesmo. Daí,  adotar um anti-subjetivismo radical.

2-Estabelece uma visão coletiva e econômica: para viver, há que se cuidar da saúde, habitação, educação, emprego, segurança, justiça, salário... diversão... para todos.

3- Percebe as minorias sociais, não como valor quantitativo, mas como linhas do desejo esmagado, explorado, violentado, oprimido: os negros, as crianças, as mulheres, os indígenas, os gays,  os travestis, e tantos outros...

4- Sabe que  somos todos múltiplos, singularidades existenciais. E que o indivíduo é  produto do poder e não o contrário. Assim, promove um humor escrachado e livre.

5-Combate o modelo da subjetividade européia que colonizou o planeta: homem, hetero, branco, macho. Essa prática leva ao ser de esquerda um combate institucional.  E cotidiano.

6- Encara a geopolítica: esta se baseia numa política do Estado. Por isso resistir à brutalidade do Estado e ao cinismo do Mercado é um ato de liberdade. 

7- Contempla a natureza como produção incessante e inumana de sentido e não como paisagem romântica e bela, ainda que a beleza lhe constitua.

8 -Recusa a política partidária ( mesmo na democracia) quando se expressa como referência (enganosa) de igualdade social e fraternidade universal.

9 -Não acredita em poderes que ultrapassem a dimensão do humano ou os limites da Terra como a nossa morada e o nosso corpo.

10- Desconfia da linguagem erudita, acadêmica, estatal, técnica. Ela é portadora de estratégias de domínio inconfesso. Ao contrário,  exalta a arte como resistência ao poder, à infâmia e à morte.


A.M.



" Abram o maldito Estreito, seus bastardos loucos, ou vocês vão viver no inferno. Aguardem para ver!"

Donald Trump 

terça-feira, 31 de março de 2026

HISTÓRIA : A REVELAÇÃO DA ORIGEM

Consta do livro de Gênesis, capítulo 1, que Deus, antes de criar os céus e a terra, recebeu ordem direta do Pentágono, autorizando-o.


A.M.

domingo, 29 de março de 2026

QUE  PROGRESSO?

A base da crença no progresso foi sólida entre as classes populares no início do século XX: o “nossas crianças terão uma vida melhor” justificava trabalho e sacrifício. Hoje em dia, quase ninguém acredita realmente que isso acontecerá. A crença no progresso é apenas uma maneira, diante da situação atual, de confiar nos experts, nos cientistas, nas novas tecnologias… a impotência face ao curso das coisas nos força a pensar que somente eles poderão nos preservar dos perigos que se acumulam no horizonte…

(...)

Isabelle Stengers, trecho  de entrevista,  Revista Jef Klak, 20/04/2015

sexta-feira, 27 de março de 2026

IMPRESSOS INÚTEIS


Não sei por que os guardo

nessa gaveta íntima.

O certificado de reservista.

O diploma de pós-graduação.

O mapa esperto pra uma festa chata

que rolou uns três meses atrás.

Felizmente não compareci.



Eudoro Augusto

 

quarta-feira, 25 de março de 2026

ALÉM-DO-HOMEM


Este livro pertence aos homens mais raros. Talvez nenhum deles sequer esteja vivo. É possível que se encontrem entre aqueles que compreendem o meu “Zaratustra”: como eu poderia misturar-me àqueles aos quais se presta ouvidos atualmente? — Somente os dias vindouros me pertencem. Alguns homens nascem póstumos.

As condições sob as quais sou compreendido, sob as quais sou necessariamente compreendido — conheço-as muito bem. Para suportar minha seriedade, minha paixão, é necessário possuir uma integridade intelectual levada aos limites extremos. Estar acostumado a viver no cimo das montanhas — e ver a imundície política e o nacionalismo abaixo de si. Ter se tornado indiferente; nunca perguntar se a verdade será útil ou prejudicial... Possuir uma inclinação — nascida da força — para questões que ninguém possui coragem de enfrentar; ousadia para o proibido; predestinação para o labirinto. Uma experiência de sete solidões. Ouvidos novos para música nova. Olhos novos para o mais distante. Uma consciência nova para verdades que até agora permaneceram mudas. E um desejo de economia em grande estilo — acumular sua força, seu entusiasmo... Auto-reverência, amor-próprio, absoluta liberdade para consigo...

Muito bem! Apenas esses são meus leitores, meus verdadeiros leitores, meus leitores predestinados: que importância tem o resto? — O resto é somente a humanidade. — É preciso tornar-se superior à humanidade em poder, em grandeza de alma — em desprezo...

(...)

Nietzsche