sexta-feira, 5 de junho de 2026

ARTE DE AMAR


Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.

A alma é que estraga o amor.

Só em Deus ela pode encontrar satisfação.

Não noutra alma.

Só em Deus - ou fora do mundo.


As almas são incomunicáveis.


Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.


Porque os corpos se entendem, mas as almas não.



Manuel Bandeira

quinta-feira, 4 de junho de 2026

 

SEM IGUAL


(...) O humor negro de Marx, a fonte do Capital, é sua fascinação por uma tal máquina: como isso pôde montar-se, sobre que fundo de descodificação e de desterritorialização, como isso funciona, cada vez mais descodificada, cada vez mais desterritorializada, como isso funciona tão solidamente através da axiomática, através da conjugação de fluxos, como isso produz a terrível classe única dos homens cinzentos que mantêm a máquina, como isso não corre o risco de morrer sozinho, mas, antes, o que faz e nos leva a morrer, suscitando até o fim investimentos de desejo que nem sequer passam por uma ideologia enganadora e subjetiva e que nos fazem gritar até o fim Viva o capital na sua realidade, na sua dissimulação objetiva! Nunca houve, a não ser na ideologia, capitalismo humano, liberal, paternal etc. O capital define-se por uma crueldade sem igual quando comparada com o sistema primitivo da crueldade, define-se por um terror sem igual quando comparado com regime despótico do terror. Os aumentos de salário, a melhoria do nível de vida são realidades, mas realidades que decorrem de tal ou qual axioma suplementar que o capitalismo é sempre capaz de acrescentar à sua axiomática em função de uma ampliação dos seus limites (façamos o New Deal, defendamos e reconheçamos sindicatos mais fortes, promovamos a participação, a classe única, venhamos a dar um passo em direção à Rússia que faz o mesmo em nossa direção etc.). Mas, na realidade ampliada que condiciona essas ilhotas, a exploração não pára de endurecer, a falta é arranjada da maneira mais hábil, as soluções finais do tipo “problema judeu” são preparadas muito minuciosamente, o Terceiro Mundo é organizado como parte integrante do capitalismo.

(...)


G. Deleuze e F. Guattari in O anti-édipo

 O DESEJO  NÃO  É O PRAZER


Falando de desejo, não pensamos no prazer nem em suas festas. Certamente o prazer é agradável, certamente tendemos a ele com todas as nossas forças. Mas na forma mais amável ou mais indispensável, ele vem, antes, interromper o processo do desejo como constituição de um campo de imanência. Nada mais significativo do que a ideia de um prazer-descarga; obtido o prazer, se terá, ao menos, um pouco de tranquilidade antes que o desejo renasça: há muito ódio, ou medo em relação ao desejo, no culto do prazer. O prazer é assinalação do afeto, a afeição de uma pessoa ou de um sujeito, é o único meio para uma pessoa "se encontrar" no processo do desejo que vai além dela (...)  


G. Deleuze e Claire Parnet in Diálogos

segunda-feira, 1 de junho de 2026

homem zero


a música chega através algoritmos da alma prenhe

perambula em madrugadas cheias

de imagens do corpo jamais tocado

mas desejado na ardência louca dos temporais


assim meu coração pára na aventura de ser só

e invisível



A.M.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

 

Os dois lados da medalha
E porque você me ama,
você pensa que não me odeia?
Ah, desde que você me ama
até ao arrebatamento
segue-se que você me odeia arrebatadamente.

Porque quando você me ouve
ir estrada abaixo fora da casa
você tem que chegar à janela para me ver,
acha que é pura adoração?

Porque, quando me assento no quarto,
aqui, na minha própria casa,
e você quer expandir-se com este meu amigo,
amigo como ele é,
mesmo assim você não pode ir além da sua consciência de mim,
você se detém por eu estar no mesmo mundo com você,
pensa que isto é êxtase somente?
harmonia total?

Nenhuma dúvida, se eu estivesse morto, você deveria
alcança-me na morte,
mas não iria o seu ódio demente muito além do seu amor?
o seu ódio apaixonado, inacabado?

Visto que você está apaixonada por mim,
como eu por você,
não fica essa paixão no seu caminho como o asno de Balaão?
e não sou eu o asno de Balaão
boca de ouro, ocasionalmente?
Acima de tudo, não detesta você meu zurro?

Desde que você está confinado à minha órbita
não detesta o confinamento?
Não é até mesmo a beleza e paz de uma órbita
uma prisão intolerável para você,
como é para todo mundo?

Mas nós aprendemos a nos submeter
cada um de nós à órbita eterna e equilibrada
na qual circundamos nosso destino
em estranha conjunção.

O que é o caos, meu amor?
Não é liberdade.
Uma desordem de estrelas cadentes resultando em nada.

D.H. Lawrence

sábado, 23 de maio de 2026

A  MEDICALIZAÇÃO  SEM  FIM


Fenômeno típico da sociedade industrial capitalística "avançada", a medicalização corresponde a expressão da medicina no campo social.

Tal afirmação soa rasa e superficial se se limitar à medicina como ramo da ciência atrelado aos ideais iluministas ( a razão científica) e humanistas ( o homem como medida  das coisas).

Ao contrário, a medicalização da vida social é uma instituição. E como toda instituição,  só funciona em conexão com outras instituições, no caso, o Estado, a Ciência, a Mídia, a Política, a Economia, etc.

Desse modo ela desenvolve a função de ocultar  (ou maquiar) a divisão de classes. Isso é constitutivo do Capitalismo Mundial integrado (F. Guattari, 1981) e alavanca seus valores e códigos às custas de uma subjetividade-do-capital atualizada via internet.

Mas não se trata aqui de uma afirmação idealista calcada no pensamento de Marx, e sim de uma percepção do real em si mesmo, o que existe.

O que existe são imagens de imagens de imagens circulando enlouquecidas rumo a um lucro capitalístico infinito. Então, para que serve o real se ele foi "anexado" à loucura como o fim último da produção?

Não existe mais o "social", a socialidade. O capital abarcou tudo, engoliu tudo. 

Assim, de volta à medicalização da vida social que é a "vida do capital": ela é esse "infinito"  expresso na luta entre os virus e as vacinas, entre as bactérias e os antibióticos, entre a doença e a saúde, entre a morte e a vida... tudo pela expansão metastática do lucro.


A.M.


terça-feira, 19 de maio de 2026

CENÁRIO


Tudo é só, a montanha é só, o mar é só,

A lua ainda é mais só.

Se encontrares alguém

Ele está só também.


Que fazes a estas horas nesta rua?

Que solidão é a tua

Que te faz procurar

O cenário maior,

O de uma solidão maior que a tua?


Dante Milano

ROSAS FOREVER


 

NADA PESSOAL 

De fato,o paciente não é uma "pessoa". Ninguém é. Trata-se de um conceito produzido pelo cristianismo (pessoa humana) e que o capital adornou com tecnologias sedutoras. Longa história... de uma Forma estável, de onde, por exemplo, surgem elementos subjetivos prontos para o adestramento social. Ora, uma "clínica da diferença" maquina a dissolução de tal pessoa, substituindo-a por multiplicidades pulsantes. O que seria isso? Tarefa difícil, pois a medicalização, entronizada como verdade da Saúde, exibe garras mansas. Mesmo psicoterapias reproduzem a medicina dos sintomas. Qualquer linha teórica...(qualquer mesmo!), umas mais cínicas, outras menos... no entanto, como traçar linhas impessoais?

 
A.M.