sábado, 21 de março de 2026

Não sou cristão, nem judeu,

Nem mago, nem muçulmano.

Não sou do Oriente, nem no Ocidente,

Nem da terra, nem do mar.

Não sou corpo, não sou alma.

A alma do Amado possui o que é meu.

Deixei de lado a dualidade,

Vejo os mundos num só.


Rumi



segunda-feira, 16 de março de 2026

DA  EROSÃO  DO  SENTIDO

O processo de dissolução dos códigos (linguagens) e territórios ( valores) é uma caraterística básica do movimento do capital. Isso está em Marx logo no início de "O capital" quando analisa o fetichismo da mercadoria. Fluxos incessantes de mercadoria fazem do capital um movimento  em direção ao infinito. O lucro dos grandes capitalistas é infinito. O único modo de freá-lo  ( segundo o sistema atual) é  o de naturalizar e idolatrar a função do Estado, onde a abstração da vida nua ( o corpo servil do trabalhador) se dissolve e se confina na ordem instituída de um poder aparentemente eterno: a nação, o Estado-nação. Desse modo, a formação da subjetividade se desenha como fratura subjetiva de sentido: quem eu sou? Este dado se verifica de modo simples e direto na multiplicação das sexualidades não reprodutivas. Dir-se - ia: onde vamos parar? A perplexidade do senso comum assola mais intensamente a subjetivação da extrema direita, já que ela está colada a valores antigos, deteriorados. Tais valores sustentam o desejo como representação mental e substituem a Realidade. Tudo passa a ser imagem. Daí a angústia e o quase pânico do extremista de direita ( não que outros  não vivenciem esse afeto) mas a experiência da direita, da ultradireita, e por fim, das mil religiosidades transcendentes que a sustentam pela fé, cola nos seus "militantes" verdades arcaicas como garantia de que estão vivos. Em nosso tempo de imagens instantâneas, o ato de pensar diluiu-se como bolha de sabão. No seu lugar, palavras de ordem organizam o planeta como lugar da dor e do sofrimento eterno (pobreza, miséria, fome, guerras etc) com ares de progresso científico.  Em tal cenário de Apocalipse, a ultradireita cresce e se expande como oração atéia e violenta ao céu que nos protege.


A.M.

sábado, 14 de março de 2026

 CLÍNICA DA DIFERENÇA EM PSIQUIATRIA :  linhas vitais


1-  Considera um corpo de afeto (desejo) misturado ao organismo físico-químico (sistema de órgãos).

2 - Tal corpo desejante (invisível) é acessado pela escuta.

3 - Um ou mais diagnósticos psiquiátricos: uso clínico como funções e não essências.

4 - O processo histórico-social é condição para a semiologia psicopatológica.

5 - Farmacoterapia e psicoterapia fusionadas num monismo pluralista (cf. Deleuze-Guattari).


A.M.

quinta-feira, 12 de março de 2026

 


NENHUMA ARTE - IV

Uma vida inteira passada
dentro dos confins de um corpo
junto ao qual vem atrelada
a consciência, peso morto
que acusa o golpe sofrido
e cochicha ao pé do ouvido
depois que o fato se deu:
nada que te pertence é teu.

Único antídoto do nada
entre as peçonhas da vida,
coisa por sorte encontrada
e por desgraça perdida,
amor lega, em sua ausência,
um lembrete à consciência
(se ela por acaso esqueceu):
nada que te pertence é teu.

Princípio? Tudo é contingente.
Fim? Toda luz termina em breu.
Sentido? Quem quiser que invente,
quem não quiser se contente
com este presente besta
que, quando acabou a festa,
a vida avara lhe deu:
nada que te pertence é teu.


Paulo Henriques Britto

 

A DIFERENÇA NA PSICOPATOLOGIA                      

(...)

Retornemos ao borderline: ele pode ser  considerado  como a instabilidade    em pessoa  concretizada em impulsos violentos e tão surpreendentes quanto danosos ao outro. Os afetos  parecem vir em estágio bruto e  numa corredeira  sem freios.   O encontro  é com um  chão movente.  Não há um  ou mais  problemas, mas  uma    problematização    contínua. Não se trata de um mero jogo de palavras. É toda a  inserção no mundo, e mais, o seu mundo constituído que é o da instabilidade afetiva. Ao falar de si num tom de passado e no fulcro das relações afetivas,  fica evidente  o  dado assombroso que é o da inexistência  de   um território   onde enganchar a relação pessoal, um vínculo. Um vazio brutal  lhe constitui. Um paciente afundado na solidão? Não é possível  vê-lo desse modo,  pois seria  fincar a estaca da   moldura humanista sobre uma alma em desgoverno. O encontro com a loucura não é um exame das funções psíquicas nem  do comportamento observável.  O encontro é um devir,  aquilo que tenta  captar do paciente fluxos do desejo.   O paciente não se reduz ao eu, ainda que este esteja  preservado. Ele consegue falar, dizer como está, conversar.  Seu corpo oscila entre uma inexpressão   e  uma  expressividade dramática. Contudo, a  dramaticidade não é  “fingida”.  Assume seu discurso com se fosse ele próprio levado por uma onda de emoção. Adiante, sem que se  lhe estimule,  estanca o ritmo e se faz imóvel numa atitude que suscita dúvidas.   Elas  oscilam  entre o que    diz de si e o que se esconde em dobras subjetivas opacas. O borderline  é um ser errante de difícil ajuda pelo aparelho biomédico.  Talvez   seja  usado algum remédio químico. Aí ele se curva  para além das dobras a  que aludimos. Torna-se  paciente de um cansaço  adicional  (a sedação) ante saídas difíceis da problemática. As linhas singulares estão fora das categorizações da CID-10 ou de  outras classificações. Sob a ótica da diferença, o paciente é um mundo inexplorado e ainda não humanizado. Não há pureza nessa concepção. Trata-se  de espreitá-lo  tanto quanto se conseguir  escapar do clichê médico.  Examinar o borderline é se pôr  fora  das definições do que é ou não o limite, o corte, a fronteira entre a saúde e a doença, o anormal e o anormal, a potência e a impotência. Para isso ser possível, a experiência do contato com a loucura é essencial. Não é preciso ser louco ou ficar louco, mas sim entrar  num  devir-loucura, tornar-se loucura  se o propósito é ajudar, acolher, criar. Tal disposição não costuma ser bem vinda nas organizações promotoras da fé numa racionalidade apaziguadora. Isso inclui a psiquiatria e suas agências  de apoio à  promoção de uma felicidade quimicamente induzida.  No entanto, entramos num terreno onde a química não resolve,  e pior, oferece a sedação como  simulacro da morte. Desse modo, o encontro com a loucura precede o encontro com o paciente...

(...)


A.M. in Trair a psiquiatria

segunda-feira, 9 de março de 2026

 Miguel aos 15


1

amigo sabedoria

da alegria


2

corrida de taxi

driver e música


3

lágrimas na chuva

blade runner


4

riso do batman

sumido e roubado


5

natureza mui bela

perigosa travessia


6

universo da fala

verso encantado


7

trilhas sonoras

a hora do sonho


8

altura e elegância

palavras doces


9

ovnis à mão cheia

no céu da boca


10

filosofias na pele

por toda a parte 


11

êxtase no mistério

estrelas e planetas


12

jesus aqui agora

o que diria?


13

capitalismo for ever

nem pensar


14

amigos gregos

enigmas e luzes


15

potências da arte

tatuadas no desejo






A.M.

JOHN GRIMSHAW


 

domingo, 8 de março de 2026

DIA  INTERNACIONAL  DA  MULHER


Todos os dias

são da mulher.


Absorta

em tarefas da alma,


prepara outra humanidade

nove meses

depois.



A.M.