quinta-feira, 30 de julho de 2026

SER DE ESQUERDA  - nº 2  ( em 10 linhas)

1- Combater o ressentimento como expressão anti-vida da cultura cristã. 

2- Conceber o poder como "relação entre forças" ao modo foucaultiano.

3- Rejeitar toda forma de dominação dos corpos livres, operários do desejo.

4- Considerar a mulher sob o signo da criação desejante,  natureza feroz e delicada.  Amar os paradoxos.

5- Evitar o dualismo estéril direita/esquerda em prol das multiplicidades do viver.

6- Combater o fascismo e os micro-fascismos dos modos explícitos ou nos disfarces da língua.

7-Odiar a geopolítica, imperadores do mundo em cálculos genocidas. 

8-Experimentar a delicadeza como estilo de viver a interpessoalidade.

9-  Desconfiar do  Estado nas patrulhas do desejo. Destruir suas metástases burocráticas. 

10 - Usar a camuflagem como função guerreira em contextos institucionais adversos.


A.M.

sábado, 25 de julho de 2026

o vôo da bruxa


pierre bourdieu?

ninguém mais


exceto miguel


em sua jornada

adolescente

incandescente


karl marx?

ninguém mais 

nem os jornais


exceto miguel

na velocidade

do pensamento


sem imagem




A.M.







domingo, 19 de julho de 2026

O professor disserta sobre ponto difícil do programa.

Um aluno dorme, cansado das canseiras desta vida.

O professor vai sacudi-lo?

Vai repreendê-lo?

Não.

O professor baixa a voz,

Com medo de acordá-lo. 


Carlos Drummond de Andrade 


 

sábado, 18 de julho de 2026

REGIME DE DELÍRIOS


O termo "delírio" apresenta uma história atravessada pelo romantismo. Assim, quando se diz " delírio de amor", evoca-se uma intensidade afetiva  na constituição do sujeito e do objeto da sua paixão. Há uma imagem que força a desejar e delirar.

Na psiquiatria clínica, orgânica, biológica, o delirio tem origem no cérebro em alguma disfunção ou numa lesão das estruturas neuronais. Até se convencionou chamar isso de " delírium" (do latim) para qualificar o sintoma "causado" pela alteração do estado da consciência. Esse estado percorre amplo espectro clínico, indo da consciência vigil ao coma ( apagamento da consciência).

Ainda na psiquiatria clínica, o delírio cursa com a psicopatologia e suas múltiplas expressões, tais como nas psicoses, esquizofrenias, transtornos do humor, transtornos da personalidade, histerias, etc... todo um universo semiológico delirante. Curioso é que esse tipo de delírio não leva uma causa orgânica, como é o caso do "delirium". 

Fora do círculo normativo e clínico da psiquiatria , encontramos o delírio, ou mais precisamente, a experiência delirante por toda a parte: na arte, na literatura, na política, na filosofia, no espiritualismo, nas religiões em geral e até no cotidiano das relações sociais e pessoais...

Em toda as manifestações persiste a dificuldade em avaliar o que é o delírio e qual a sua origem. Restou a psiquiatrização mais tosca. É que sob uma égide moral, o delírio é visto como " erro " . Ele escapa ao controle institucional e racional, e por conseguinte desconcerta a prática de normalização dos indivíduos levada à efeito pela "necro" psiquiatria. É que a expressão delirante, para ser compreendida nos seus elementos históricos atuais, extrapola tal enquadre psicopatológico: o delírio do capital...

Desse modo é possível arriscar a hipótese teórica de que a modernidade produziu e produz em escala planetária condições sociais, políticas, culturais e tecnológicas para o desenvolvimento de um delírio não médico e não romântico. Aí está contida uma questão intrigante sobre a verdade.

E cada vez mais, movida a velocidades internéticas, tal questão se traduz em perguntas sem resposta: isso é verdade? qual a verdade? existe a verdade? para que serve a verdade? a quem serve?



A.M.


Obs. versão revisada.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

 

A  ANTI-ESCUTA  -  3


Na sociedade moderna a Escuta vira anti-escuta. Ou pelo menos são cultivadas as condições sócio-políticas para isso.

Está no ar a velocidade dos fluxos de comunicação e informação: internet.  Eles são o que passa e não pára de passar: o tempo estaria fora dos eixos?  Velocidades alucinatórias ...

A linguagem do sistema do capital é composta de fluxos, e não de códigos linguísticos. Ora, tudo se ajeita. O capitalismo e seu profundo analfabetismo ( Deleuze/Guattari, 1976) .Que importa se você não compreende o que se passa? Você sente.

A produção de uma realidade imagética resulta em afetos de destruição e substitui a Terra finita por um infinito de lucro. Uma forma-pessoa torna-se forma-consumidor, mesmo e principalmente o que se consuma no extermínio da alma.

Aldous Huxley disse tudo no " Admirável mundo novo" (1932). De lá para cá o aprofundamento do controle das massas segue o percurso de um suicídio coletivo induzido.

Não há retorno do fascismo, do nazismo, da ultra-direita e de todas as expressões da pulsão de morte. Elas já estavam aí.

A anti-escuta avança como Tecnologia Científica com sua verdade religiosa. Hiroshima ainda não foi o pior.


A.M.


Obs.: versão revisada.

terça-feira, 14 de julho de 2026

Não passo de um mendigo do futebol, ando pelo mundo de chapéu na mão, e nos estádios suplico: - Uma linda jogada pelo amor de Deus! E quando acontece o bom futebol, agradeço o milagre - sem me importar com o clube ou o país que o oferece.


Eduardo Galeano

segunda-feira, 13 de julho de 2026

TULIPAS ETERNAS

 


 O amor de agora


O amor de agora é o mesmo amor de outrora

Em que concentro o espírito abstraído,

Um sentimento que não tem sentido,

Uma parte de mim que se evapora.


Amor que me alimenta e me devora,

E este pressentimento indefinido

Que me causa a impressão de andar perdido

Em busca de outrem pela vida afora.


Assim percorro uma existência incerta

Como quem sonha, noutro mundo acorda,

E em sua treva um ser de luz desperta.


E sinto, como o céu visto do inferno,

Na vida que contenho mas transborda,

Qualquer coisa de agora mas de eterno.


Dante Milano