segunda-feira, 6 de abril de 2026

 

Prezo insetos mais que aviões.

Prezo a velocidade

das tartarugas

mais que a dos mísseis.

Tenho em mim

esse atraso de nascença.

Eu fui aparelhado

para gostar de passarinhos.

Tenho abundância

de ser feliz por isso.

Meu quintal

É maior do que o mundo.


Manoel de Barros

domingo, 5 de abril de 2026


 

SER DE ESQUERDA ( em 10 linhas)


1- Considera a realidade em primeiro lugar como percepção do cosmos e do mundo. Daí reduz tal percepção até afetar o eu, ou o si mesmo. Professa um anti-subjetivismo radical.

2-Adota uma visão coletiva e econômica: para viver, há que se cuidar da saúde, habitação, educação, segurança, justiça, salário... diversão... para todos.

3- Percebe as minorias sociais, não como valor quantitativo, mas como linhas do desejo esmagado, explorado, violentado, oprimido: os negros, as mulheres, os indígenas, os gays, os travestis, os trans e tantos outros...

4- Sabe que  somos todos múltiplos, singularidades existenciais. E que o indivíduo é  produto do poder e não o contrário. Assim, promove um humor escrachado e livre.

5-Combate o modelo da subjetividade européia: homem, hetero, branco, macho. Essa prática leva ao ser de esquerda um combate institucional.  E cotidiano.

6- Encara a geopolítica: esta se baseia numa política do Estado. Por isso resistir à brutalidade do Estado e ao cinismo do Mercado é um ato de liberdade. 

7- Contempla a natureza como produção incessante e inumana de sentido e não como paisagem romântica e bela, ainda que a beleza lhe constitua.

8 -Execra a política partidária ( mesmo na democracia) como referência de igualdade social e fraternidade universal enganosas.

9 - Não acredita em poderes que ultrapassem a dimensão do humano ou os limites da Terra como a nossa morada e o nosso corpo.

10- Desconfia da linguagem erudita, acadêmica, estatal, técnica. Ela é portadora de estratégias de domínio inconfesso. Ao contrário,  exalta a arte como resistência ao poder, à infâmia e à morte.


A.M.



" Abram o maldito Estreito, seus bastardos loucos, ou vocês vão viver no inferno. Aguardem para ver!"

Donald Trump 

terça-feira, 31 de março de 2026

HISTÓRIA : A REVELAÇÃO DA ORIGEM

Consta do livro de Gênesis, capítulo 1, que Deus, antes de criar os céus e a terra, recebeu ordem direta do Pentágono, autorizando-o.


A.M.

domingo, 29 de março de 2026

QUE  PROGRESSO?

A base da crença no progresso foi sólida entre as classes populares no início do século XX: o “nossas crianças terão uma vida melhor” justificava trabalho e sacrifício. Hoje em dia, quase ninguém acredita realmente que isso acontecerá. A crença no progresso é apenas uma maneira, diante da situação atual, de confiar nos experts, nos cientistas, nas novas tecnologias… a impotência face ao curso das coisas nos força a pensar que somente eles poderão nos preservar dos perigos que se acumulam no horizonte…

(...)

Isabelle Stengers, trecho  de entrevista,  Revista Jef Klak, 20/04/2015

sexta-feira, 27 de março de 2026

IMPRESSOS INÚTEIS


Não sei por que os guardo

nessa gaveta íntima.

O certificado de reservista.

O diploma de pós-graduação.

O mapa esperto pra uma festa chata

que rolou uns três meses atrás.

Felizmente não compareci.



Eudoro Augusto

 

quarta-feira, 25 de março de 2026

ALÉM-DO-HOMEM


Este livro pertence aos homens mais raros. Talvez nenhum deles sequer esteja vivo. É possível que se encontrem entre aqueles que compreendem o meu “Zaratustra”: como eu poderia misturar-me àqueles aos quais se presta ouvidos atualmente? — Somente os dias vindouros me pertencem. Alguns homens nascem póstumos.

As condições sob as quais sou compreendido, sob as quais sou necessariamente compreendido — conheço-as muito bem. Para suportar minha seriedade, minha paixão, é necessário possuir uma integridade intelectual levada aos limites extremos. Estar acostumado a viver no cimo das montanhas — e ver a imundície política e o nacionalismo abaixo de si. Ter se tornado indiferente; nunca perguntar se a verdade será útil ou prejudicial... Possuir uma inclinação — nascida da força — para questões que ninguém possui coragem de enfrentar; ousadia para o proibido; predestinação para o labirinto. Uma experiência de sete solidões. Ouvidos novos para música nova. Olhos novos para o mais distante. Uma consciência nova para verdades que até agora permaneceram mudas. E um desejo de economia em grande estilo — acumular sua força, seu entusiasmo... Auto-reverência, amor-próprio, absoluta liberdade para consigo...

Muito bem! Apenas esses são meus leitores, meus verdadeiros leitores, meus leitores predestinados: que importância tem o resto? — O resto é somente a humanidade. — É preciso tornar-se superior à humanidade em poder, em grandeza de alma — em desprezo...

(...)

Nietzsche

terça-feira, 24 de março de 2026

IMPÉRIO


"Império é a primeira grande cartografia do terceiro milênio”

– Peter Pal Pelbart, Vida Capital, p. 81

Antonio Negri e Michael Hardt apresentam o conceito de Império. Como entender as relações de poder, dominação, capitalistas em nosso tempo? Como fazer uma análise do mundo pós-moderno e pós 11 de setembro? Para responder a estas perguntas Negri e Hardt nos dão apenas uma palavra: Império. Um poder transcendente, sem centro, uma força globalmente opressora, sem líderes, acima de qualquer instituição e estado nação. O Império funciona capilarmente, horizontalmente. Todos são seus servos.

Diferentemente do Imperialismo, mais simples, localizável, o império é um não-lugar, é o poder difuso. Não se trata mais apenas da concentração de outro, de moeda, de riquezas materiais. A concentração, a desigualdade, também acontecem subjetivamente. O Império explora mentes, subjetividades, criatividades, conhecimentos, relações, penetra a própria vida das pessoas, molda os desejos, articula afetividades. O fluxo de capital não é apenas dos países de terceiro mundo para os de primeiro e não se trata mais apenas de fluxo de capital, o Império realiza fluxos ininterruptos dos mais simples aos mais complicados. O poder imperial não tem lado de fora.

O Império está se materializando diante de nossos olhos”

– Hardt e Negri, Império, p. 11

Nesta nova constituição, os estados nação são subordinados ao império, ele engloba, axiomatiza, fagocita lentamente o mundo inteiro, expandindo suas barreiras até não haver mais lado de fora. A soberania dos estados nação está em crise. O mundo não é mais governado pelos países e nem por uma estrutura centralizada de poder. Presidentes se curvam ao FMI, ao G8 à OMC, o poder atravessa fronteiras. As bandeiras nacionais têm hoje e cada vez mais um poder simbólico. Não há fronteiras, globalização é sinônimo de regulação global. É um mundo controlável, manejável, tudo pode ser articulado para melhor seduzir e criar a servidão. Todo o território é administrado. Não só um mundo é criado, mas as próprias pessoas que habitam este mundo.

O Império só pode ser concebido como uma república universal, uma rede de poderes e contrapoderes estruturada numa arquitetura ilimitada e inclusiva”

– Negri e Hardt, Império, p. 185

O Império não reprime, produz; não pune, controla. Entramos na sociedade biopolítica de Foucault e de controle que Deleuze tão bem definiu. Tudo sobreposto, produção e reprodução integral da vida: tornar todos escravos e opressores. Produção de subjetividades em série. O poder interpreta a vida por nós. Teoria da conspiração? Não, as formações de subjetividade acontecem antes mesmo de nascer. Não há mais linha a ser cruzada, a sociedade de controle age antes mesmo que você possa visualizar uma linha que separa a liberdade da servidão.

– Feast of Kings, 1913, Pavel Filinov

O conceito proposto por Negri e Hardt procura dar conta de explicar uma máquina universal de integração, um apetite infinito e engole tudo à sua frente. O domínio Imperial envolve, perigosamente, aproveitar estas diferenças, não exclui-las. No nível jurídico, teoricamente, não há diferença; no nível cultural, as diferenças são aceitas e hierarquizadas. Trata-se de um triplo imperativo: diferenciar, incorporar e administrar.

Diferenciar, causar a diferença, permitir que a diferença se manifeste (até porque ela inevitavelmente se manifesta), a diferença sempre escapa às redes de controle, vigilância e disciplina, o Império sabe disso; tendo em vista que é impossível controlar tudo e todos, o Império age incorporando as diferenças (é, por exemplo, a camiseta do Che Guevara que você comprou no Shopping); desta forma o Império pode administrar aquilo que lhe escapa e que eventualmente o destruiria. Deleuze e Guattari chamam de reterritorialização e axiomatização.

O império é o parasita que constantemente se alimenta da criatividade e da vitalidade da Multidão. A criatividade do Império é a reterritorialização da criatividade que emergem de milhões de linhas de fuga. Há um constante desejo de desterritorialização das multidões. Quem vive sob o Império quer fugir, todo desejo quer tornar-se nômade, e o capital precisa constantemente conter as linhas que escapam da forma fechada.

A soberania imperial depende não só do consentimento como da produtividade social dos governados. Os circuitos de produtores sociais constituem o sangue que corre nas veias do Império, e se eles viessem a recusar a relação de poder, esquivando-se dela, ele simplesmente desmoronaria sem vida” – Hardt e Negri, Multidão, p. 419

O Império é um vampiro, é ele que transforma o “alternativo” em “mainstream”, o hippie em hipster. Em cima e embaixo, por todos os lados, ele vampiriza a produção da Multidão. O Império vive como um parasita que suga o sangue da Multidão, ou pelo menos sua capacidade de produção e consumo. Como armas de luta, os autores propõe o êxodo, deixar de obedecer. A verdadeira força produtiva do mundo não vem do Império, por isso o poder se dá sobre a vida.

O poder político soberano nunca pode realmente chegar à pura produção de morte, pois não se pode permitir eliminar a vida de seus súditos” – Hardt e Negri, Multidão, p. 4

Mas as saídas estão dentro das brechas que se abrem em toda forma de controle e disciplina. Encontrar os momentos de indisciplina nos intervalos do controle. Fazer da luta uma flor que cresce no asfalto. Se a forma Imperial que Negri e Hardt definiram se alimenta constantemente da produção da Multidão, esta, por sua vez, é potencialmente autônoma, ou seja não precisa dos mecanismos imperiais para existir.

O Império pretende ser senhor do mundo e caso isso não seja possível, ameaça destrui-lo, nós queremos o mundo porque somente nós o criamos. O objetivo não é tomar o Império, porque a própria estrutura do Império está afundando, não queremos tomar o timão do barco, queremos abandoná-lo o mais rápido possível e pensar em alternativas que sejam não substitutivas, mas melhores. É preciso atravessar o Império para sair do outro lado. Melhor que resistir à globalização é acelerar o processo.

A ordem imperial se apresenta como eterna, necessária e permanente. O Império se utiliza dos estados-nação como um canal de dominação. E desta reprodução ad aeternum brotam todas as teorias que enfatizam como as coisas são e devem ser: a inércia da vida presa no Império é fonte de suas próprias teorias conservadores: “as coisas são assim” traz implícito um “as coisas devem ser assim”. As figuras de subjetividade em crise nascem desta dominação: o representado, o mediatizado, o securizado; o endividado.

Mas sabemos que o império, enquanto faz da multidão seu próprio instrumento, ele está constantemente ruindo. A corrupção do Império é a fonte de onde jorra a água de uma nova democracia. A própria pós-modernidade, sabemos, é definida pela crise constante, onde é constantemente necessário o estado de exceção. Mas guerra do opressor nunca é igual à guerra do oprimido. Da lama do Império vemos a flor de lótus da multidão que se eleva em direção ao Sol.


Rafael Trindade, do site Razão Inadequada, acessado em 03/01/2026

sábado, 21 de março de 2026

Não sou cristão, nem judeu,

Nem mago, nem muçulmano.

Não sou do Oriente, nem no Ocidente,

Nem da terra, nem do mar.

Não sou corpo, não sou alma.

A alma do Amado possui o que é meu.

Deixei de lado a dualidade,

Vejo os mundos num só.


Rumi