quinta-feira, 7 de maio de 2026

 

UM GRANDE AMOR


Um grande amor é físico. Mesmo espiritual, ele é físico.Vem da alma, vem de almas errantes em terras inexploradas. Insinua-se à beira do tempo, à beira do corpo, sorvendo líquidos, calores e aproveitando o fino dom da vida. O de viver. Um grande amor é trágico, não por ser triste, mas por ser radical no corte da carne exangue. Bebe a seca e seca a boca. De nada adianta ouvir músicas dolentes, nostalgias, cantares eternos, discursos poéticos, se ele não é vivido na linha do tempo, no fio da passagem. Que passa. E não volta. Mesmo. Um grande amor é costurado em pequenas coisas. Seus efeitos adentram o lugar mais seguro da Terra e o não lugar da loucura mais longínqua. E bela. Não sei se alguém saberia vivê-lo, exceto num coração aos pulos e ao ritmo das canções dianisíacas.  Talvez assim a madrugada seja promessa do dia. Para sempre.


A.M. 

Na cidade o silêncio avilta-se.


Manoel de Barros

 

COMO FAZER UMA CLÍNICA DA DIFERENÇA?


Há o conceito de hiato organo-clínico ( Henri Hey, psiquiatra francês, 1900/1977 ). Isso significa que para uma avaliação diagnóstica em psiquiatria (ou na clínica médica) há dois eixos de análise:  1- História familiar, pessoal, escolaridade, nível sócio-econômico, sexualidade, vida amorosa, profissional, social, etc. - vetores psico-existenciais. 2-Estrutura anátomo-fisio-patológica, sistema imunológico, antecedente genético, história médica, etc - vetores físico-químicos. Os dois ítens preenchem o campo etiológico ( causas e mecanismos) das patologias. No primeiro caso está o "hiato", espécie de vazio, "espaço" de produção subjetiva. No segundo estão as determinações "objetivas", marcadas por um saber biomédico estabelecido como verdade. No plano 3 surge a clínica (psiquiátrica ou geral) como expressão dos sintomas e queixas do paciente. Importante é situar o paciente como processo de subjetivação sempre em curso (no tempo) e inserido em circunstâncias atuais concretas ( vetores causais). Tal base conceitual altera por completo o olhar da psiquiatria neuro-biológica em prol de uma concepção do paciente como singularidade. Ou diferença.


A.M.


segunda-feira, 4 de maio de 2026

domingo, 3 de maio de 2026


CLÍNICA E TECNOLOGIA DA IMAGEM - III


Numa acepção deleuziana, o acontecimento pode ser definido como um encontro de corpos, humanos e/ou inumanos, no qual e do qual emerge o Sentido. Assim, o sentido nunca é dado, nunca é "um estar lá", mas sim produzido no próprio ato do Encontro. É possível notar que a realidade virtual substituiu a realidade do Encontro (daí, a dos corpos) pela realidade da imagem, profusão de imagens sobre imagens, realidade descarnada, mas Realidade subjetivamente  assimilada como Verdade. Dissemos que a tecnologia da imagem não é um mal em si, mas um signo de poder acelerado a uma velocidade não captada pela Consciência. A velocidade é quem (sujeito) captura a consciência. Um encontro de corpos fica, então, descartado em prol da verdade da imagem, inclusive a imagem de si. Segue-se o empreendimento desejante de um profundo estilhaçamento do eu, beirando a psicose ou nela se instalando. Tempos esquizofrênicos, como previu Guattari. Ora, para uma psiquiatria atravessada por tais fluxos, há duas opções ético-políticas: 1- Encolher-se sob o discurso epistemológico das neurociências, detentor de uma verdade reificada, reificante e erguer o manto acadêmico como anti-autocrítica. 2-Abrir-se, estender-se sobre o campo social em suas formações discursivas caóticas e inventar clínicas à altura do horror dos tempos que correm. Fazer o acontecimento.


A.M.


TULIPAS RAINHAS DA NOITE


 

A FRAUDE CÓSMICA

No cristianismo nem a moral, nem a religião têm qualquer ponto de contado com a realidade. São oferecidas causas puramente imaginárias (‘Deus’, ‘alma’, ‘eu’, ‘espírito’, ‘livre arbítrio’ – ou mesmo o ‘não-livre’) e efeitos puramente imaginários (‘pecado’, ‘salvação’, ‘graça’, ‘punição’, ‘remissão dos pecados’). Um intercurso entre seres imaginários (‘Deus’, ‘espíritos’, ‘almas’); uma história natural imaginária (antropocêntrica; uma negação total do conceito de causas naturais); uma psicologia imaginária (mal-entendidos sobre si, interpretações equivocadas de sentimentos gerais agradáveis ou desagradáveis, por exemplo, os estados do 'nervus sympathicus' com a ajuda da linguagem simbólica da idiossincrasia moral-religiosa – ‘arrependimento’, ‘peso na consciência’, ‘tentação do demônio’, ‘a presença de Deus’); uma teleologia imaginária (o ‘reino de Deus’, ‘o juízo final’, a ‘vida eterna’).


Friedrich Nietzsche