sábado, 18 de abril de 2026

O QUE É UMA PSIQUIATRIA MENOR? - parte 2


É uma psiquiatria do desejo. Não o desejo como falta, carência, incompletude, mas o desejo como produção, produção de produção. É que o desejo quer sempre mais, novas conexões, outros desejos. Desejar o desejo, produzir desejo é o que lhe resta fazer.

Mas desejar não é fácil. Um trabalho imperceptível, talvez invisível, fabrica linhas da diferença em meio ao rumor dos tempos sombrios. 

Mil disfarces são necessários à sua prática. A camuflagem torna-se uma função guerreira.

Uma psiquiatria menor vive nas e das intensidades poéticas da loucura, não da loucura-doença mas da loucura como experiência de abertura aos signos que vêm de fora.

Eles são os da Terra e dos corpos supliciados.

A ética só existe (a ser criada) como ato clínico na psicopatologia.  Não há, pois, um código de ética pronto e juramentado como o da medicina. A referência é o paciente: uma vida.

Um paciente são multidões. Não há o indivíduo. 

Uma psiquiatria menor só funciona no desejo, com o desejo e pelo desejo. Assim como a ética, o desejo não preexiste.  Construi-lo dá trabalho.



A.M. 

 

O abandono do lugar me abraçou de com força.

E atingiu meu olhar para toda a vida.

Tudo que conheci depois veio carregado de abandono.

Não havia no lugar nenhum caminho de fugir.

A gente se inventava de caminhos com as novas palavras.

A gente era como um pedaço de formiga no chão.

Por isso o nosso gosto era só de desver o mundo.



Manoel de Barros

terça-feira, 14 de abril de 2026

RELIGIÃO?


Minha opinião acerca da religião é a mesma que a de Lucrécio. Considero-a como uma doença nascida do  medo e como uma fonte de indizível sofrimento para a raça humana. Não posso, porém, negar que ela trouxe certas contribuições à civilização. Ajudou, nos primeiros tempos, a fixar o calendário, e levou os sacerdotes egípcios a registrar os eclipses com tal cuidado que, com o tempo, foram capazes de predizê-los. Estou pronto a reconhecer esses dois serviços, mas não tenho conhecimento de quaisquer outros.


Bertrand Russel in Trouxe a religião contribuições úteis à  civilização?






quinta-feira, 9 de abril de 2026

COMBATE


Nem eu posso com Deus nem pode ele comigo.
Essa peleja é vã, essa luta no escuro
entre mim e seu nome. 
Não me persegue Deus no dia claro.
Arma, à noite, emboscadas.
Enredo-me, debato-me, invectivo
e me liberto, escalavrado.
De manhã, à  hora do café, sou eu quem desafia.
Volta-me as costas, sequer me escuta,
e o dia não é creditado a nenhum dos contendores.
Deus golpeia à traição. 
Também uso para com ele táticas covardes.
E o vencedor (se vencedor houver) não sentirá prazer
pela vitória equívoca.



Carlos Drummond de Andrade

LAVANDA


 

quarta-feira, 8 de abril de 2026

QUAL TRANSTORNO MENTAL?


Não é bom psiquiatrizar a política. Sob tais condições e em face do poder médico (expresso pela linguagem técnica) o universo da política se torna opaco e distorcido em sua significação. 

É uma má leitura.

No entanto, em situações extremas da geopolítica (como de agora) talvez seja útil a visão da psicopatologia clínica.   

Ora, em escala planetária e via internet, a figura do Neo-Calígula com sua máquina bélica de puro horror, sugere três hipóteses diagnósticas:

A confirmar:

1- Transtorno  específico da personalidade (paranoico)

CID - 10 : F.60. 0

2- Transtorno delirante persistente

CID 10 : F.22.8

3- Demência não especificada

CID 10 : F.03



A.M.




segunda-feira, 6 de abril de 2026

 

Prezo insetos mais que aviões.

Prezo a velocidade

das tartarugas

mais que a dos mísseis.

Tenho em mim

esse atraso de nascença.

Eu fui aparelhado

para gostar de passarinhos.

Tenho abundância

de ser feliz por isso.

Meu quintal

É maior do que o mundo.


Manoel de Barros

domingo, 5 de abril de 2026


 

SER DE ESQUERDA ( em 10 linhas)


1- Considera a realidade em primeiro lugar como percepção do cosmos e do mundo. Tal percepção decresce até o eu, ou ao si mesmo. Daí,  adotar um anti-subjetivismo radical.

2-Estabelece uma visão coletiva e econômica: para viver, há que se cuidar da saúde, habitação, educação, emprego, segurança, justiça, salário... diversão... para todos.

3- Percebe as minorias sociais, não como valor quantitativo, mas como linhas do desejo esmagado, explorado, violentado, oprimido: os negros, as crianças, as mulheres, os indígenas, os gays,  os travestis, e tantos outros...

4- Sabe que  somos todos múltiplos, singularidades existenciais. E que o indivíduo é  produto do poder e não o contrário. Assim, promove um humor escrachado e livre.

5-Combate o modelo da subjetividade européia que colonizou o planeta: homem, hetero, branco, macho. Essa prática leva ao ser de esquerda um combate institucional.  E cotidiano.

6- Encara a geopolítica: esta se baseia numa política do Estado. Por isso resistir à brutalidade do Estado e ao cinismo do Mercado é um ato de liberdade. 

7- Contempla a natureza como produção incessante e inumana de sentido e não como paisagem romântica e bela, ainda que a beleza lhe constitua.

8 -Recusa a política partidária ( mesmo na democracia) quando se expressa como referência (enganosa) de igualdade social e fraternidade universal.

9 -Não acredita em poderes que ultrapassem a dimensão do humano ou os limites da Terra como a nossa morada e o nosso corpo.

10- Desconfia da linguagem erudita, acadêmica, estatal, técnica. Ela é portadora de estratégias de domínio inconfesso. Ao contrário,  exalta a arte como resistência ao poder, à infâmia e à morte.


A.M.



" Abram o maldito Estreito, seus bastardos loucos, ou vocês vão viver no inferno. Aguardem para ver!"

Donald Trump