sábado, 21 de fevereiro de 2026

EMERGÊNCIAS PSIQUIÁTRICAS - 1

O campo das emergências psiquiátricas compreende situações em que o comportamento do paciente traz algum risco a si mesmo ou a terceiros. Tais situações são marcadas pelos códigos sociais que balizam e aplicam a moral vigente. Portanto, discutir (sem preconceito) tal tipo de emergência requer sair da ordem médica em prol de uma visão de saúde mental que priorize o paciente enquanto diferença. Isso não é fácil, notadamente em termos práticos. Alguém está agitado, o que fazer? Uma imagem-clichê costuma iluminar o olhar repressor que habita as consciências normais. Ora, se considerarmos que algo precisa ser feito em questão de minutos (ou segundos), que seja em nome do cuidado-ao-outro, e não pela manutenção da ordem racional vigente. Será, então, preciso discutir, caso a caso, o que a psicopatologia nos diz à respeito das emergências. Histeria, psicose, delírio paranóide, tentativa de suicídio, agitação psicomotora, dentre outros signos emergentes, o que se deve fazer estará inscrito no que se deve pensar à respeito. Antes de tudo, um conceito : o que é, de fato, uma emergência psiquiátrica?


A.M

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

TERAPIA, O NOVO


A clínica da diferença em psicoterapia constitui-se como uma superfície invisível onde se registram formas sociais. Não é, pois, um encontro interpessoal. É que as duas pessoas em jogo (terapeuta e paciente) são também formas sociais. Elas se misturam a mil outras formas que transversalizam o Encontro como um território-nexo entre multiplicidades. Este dado empírico condiciona a que afetos de alegria estabeleçam linhas de base que impulsionam o processo da metamorfose subjetiva. É o motor, a máquina, a energia (não metáforas) que consistem na materialidade do trabalho afetivo. Ainda que a terapia possa não avançar, não dê certo, não funcione, não atinja seus objetivos, enfim, fracasse, linhas intensivas de base e o conteúdo dos afetos fazem do agenciamento de forças uma aventura do novo, uma potência. Como diz Deleuze, não há potência má. Isso implica em se encarar o abismo do sem-eu e do caos como resposta ao desafio de produzir sentido à existência. Uns conseguem, outros não. De todo modo, uma clínica da diferença, ao contrário de psicoterapias  auto-intituladas de científicas, não coloca panos quentes em sintomas próprios do mundo civilizadamente violento em que vivemos, nem usa técnicas de adaptação passiva e resignada a esse mesmo mundo. 



A.M.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

TERESA

A primeira vez que vi Teresa 
Achei que ela tinha pernas estúpidas
 Achei também que a cara parecia uma perna
 
Quando vi Teresa de novo
 Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
 (Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)
 
Da terceira vez não vi mais nada 
Os céus se misturaram com a terra 
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas. 


 Manuel Bandeira

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

A psiquiatria atual não sabe o que é o delírio, não sabe o que é a angústia. Apenas mortifica o desejo. 


A.M.


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

HUGH LAURIE

SIGNOS EM ROTAÇÃO



Quem procura a verdade é o ciumento que descobre um signo mentiroso no rosto da criatura amada; é o homem sensível quando encontra a violência de uma impressão; é o leitor, o ouvinte, quando a obra de arte emite signos, o que o forçará talvez a criar, como o apelo do gênio a outros gênios. As comunicações de uma amizade tagarela nada são em comparação com as interpretações silenciosas de um amante. A filosofia, com todo o seu método e a sua boa vontade, nada significa diante das pressões secretas da obra de arte. A criação, como gênese do ato de pensar, sempre surgirá dos signos. A obra de arte não só nasce dos signos como os faz nascer; o criador é como o ciumento, divino intérprete que vigia os signos pelos quais a verdade se trai. (...) 

G. Deleuze in Proust e os signos

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Em que sentido esta sincronização das emoções coloca a democracia em perigo?


A democracia é a reflexão comum e não o reflexo condicionado. Não existe opinião política sem uma reflexão comum. Mas hoje predomina não a reflexão, mas o reflexo. O próprio da instantaneidade consiste em anular a reflexão em proveito do reflexo. Quando me convidam para um debate na televisão, me dizem: “Que bom, você trabalha desde 1977 nos fenômenos da velocidade. Tem um minuto para explicar-me tudo isso”. Não é possível. Estamos diante de um fenômeno reflexo, mas a democracia reflexa é uma impossibilidade, não existe. A mesma coisa acontece com a confiança. As Bolsas estão em crise porque há uma crise da confiança. E por que há uma crise de confiança? Porque a confiança não pode ser instantânea. A confiança em um sistema político ou financeiro não é automática. A opinião também não pode ser instantânea. Então, os sistemas administrados pelos políticos, inclusive o sistema financeiro, são fenômenos que tendem para o automatismo. A automatização é o contrário da democratização.


Trecho de entrevista com Paul Virilio em 20/11/2010, concedida a Eduardo Febbro e publicada no site Instituto Humanitas Unisinos, acesso em 02/02/2026.

sábado, 31 de janeiro de 2026

ANJO MURITIBANO


sim, uma vez

vi um anjo


nada dos anjos

católicos

gabriéis

armados e vingativos


nada dos anjos

de Rilke

alemães terríveis


meu anjo

sem asa

e sem palavra

não foi visto num castelo

em Duíno

mas numa casa

chã e rasa

em Muritiba


era um anjo

pequenino

morto morto

placidamente morto


estava numa

caixa de sapatos



Carlos Machado

Marcus Miller live at TSF Jazz Chantilly Festival 2025 – ARTE Concert