domingo, 3 de maio de 2026


CLÍNICA E TECNOLOGIA DA IMAGEM - III


Numa acepção deleuziana, o acontecimento pode ser definido como um encontro de corpos, humanos e/ou inumanos, no qual e do qual emerge o Sentido. Assim, o sentido nunca é dado, nunca é "um estar lá", mas sim produzido no próprio ato do Encontro. É possível notar que a realidade virtual substituiu a realidade do Encontro (daí, a dos corpos) pela realidade da imagem, profusão de imagens sobre imagens, realidade descarnada, mas Realidade subjetivamente  assimilada como Verdade. Dissemos que a tecnologia da imagem não é um mal em si, mas um signo de poder acelerado a uma velocidade não captada pela Consciência. A velocidade é quem (sujeito) captura a consciência. Um encontro de corpos fica, então, descartado em prol da verdade da imagem, inclusive a imagem de si. Segue-se o empreendimento desejante de um profundo estilhaçamento do eu, beirando a psicose ou nela se instalando. Tempos esquizofrênicos, como previu Guattari. Ora, para uma psiquiatria atravessada por tais fluxos, há duas opções ético-políticas: 1- Encolher-se sob o discurso epistemológico das neurociências, detentor de uma verdade reificada, reificante e erguer o manto acadêmico como anti-autocrítica. 2-Abrir-se, estender-se sobre o campo social em suas formações discursivas caóticas e inventar clínicas à altura do horror dos tempos que correm. Fazer o acontecimento.


A.M.


TULIPAS RAINHAS DA NOITE


 

A FRAUDE CÓSMICA

No cristianismo nem a moral, nem a religião têm qualquer ponto de contado com a realidade. São oferecidas causas puramente imaginárias (‘Deus’, ‘alma’, ‘eu’, ‘espírito’, ‘livre arbítrio’ – ou mesmo o ‘não-livre’) e efeitos puramente imaginários (‘pecado’, ‘salvação’, ‘graça’, ‘punição’, ‘remissão dos pecados’). Um intercurso entre seres imaginários (‘Deus’, ‘espíritos’, ‘almas’); uma história natural imaginária (antropocêntrica; uma negação total do conceito de causas naturais); uma psicologia imaginária (mal-entendidos sobre si, interpretações equivocadas de sentimentos gerais agradáveis ou desagradáveis, por exemplo, os estados do 'nervus sympathicus' com a ajuda da linguagem simbólica da idiossincrasia moral-religiosa – ‘arrependimento’, ‘peso na consciência’, ‘tentação do demônio’, ‘a presença de Deus’); uma teleologia imaginária (o ‘reino de Deus’, ‘o juízo final’, a ‘vida eterna’).


Friedrich Nietzsche

quarta-feira, 29 de abril de 2026

A vida é agora, aprende. Ainda outra vez tocarão teus seios, lamberão teus pelos, provarão teus gostos. E outra mais, outra vez ainda. Até esqueceres faces, nomes, cheiros. Serão tantos. O pó se acumula todos os dias sobre as emoções.


Caio Fernando Abreu

sábado, 25 de abril de 2026

QUEM PRECISA DE QUEM?


A psiquiatria e as psicoterapias necessitam mais do seu paciente do que o contrário. Tal enunciado, no mínimo estranho e desconcertante, tem sua "razão de ser" no funcionamento do círculo do capital. Conforme Marx demonstrou, o capital, (operador semiótico hegemônico), é ávido pela manutenção ad infinitum do circuito produção-consumo-produção. Isso constitui o universo delirante da realidade contemporânea. Ele atravessa as linhas da subjetividade, mesmo as ditas "normais", produzindo a convicção de que nada existe ou existirá para além dos axiomas (princípios ossificados) da civilização moderna. No caso da psicopatologia clínica, assistimos a dois fenômenos correlatos. Num, o seu próprio desaparecimento, caso da "necro-psiquiatria"  filha bastarda das neurociências. No outro, o endurecimento (reificação) conceitual da psicopatologia, caso da psicanálise ortodoxa e das psicoterapias aliançadas a ela (ou não), mas expostas na vitrine do mercado da clínica. Em ambos os casos o paciente surge como consumidor (passivo) de remédios químicos ou de teorias da subjetividade. Mil peças prontas para abastecer o Mercado.


A.M.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

O GRITO BICÉFALO


 

 A ENERGIA E A ERA INDUSTRIAL


O Fogo transforma as coisas, permite aos corpos entrarem em reação química, se dissolveram, se dilatarem, se fundirem ou se evaporarem e, evidentemente, permite ao combustível queimar com grandes desprendimentos de calor e de chamas. De tudo isso, que todos sabem e sabiam, o século XIX vai selecionar isto: a combustão liberta calor, e o calor pode provocar uma variação de volume, quer dizer, pode produzir um efeito mecânico. O fogo é capaz de fazer girar máquinas de um gênero novo, as máquinas térmicas que, nessa época, fazem surgir a sociedade industrial.

(...)

I. Prigogine e I. Stengers    in  A nova aliança

sábado, 18 de abril de 2026

O QUE É UMA PSIQUIATRIA MENOR? - parte 2


É uma psiquiatria do desejo. Não o desejo como falta, carência, incompletude, mas o desejo como produção, produção de produção. É que o desejo quer sempre mais, novas conexões, outros desejos. Desejar o desejo, produzir desejo é o que lhe resta fazer.

Mas desejar não é fácil. Um trabalho imperceptível, talvez invisível, fabrica linhas da diferença em meio ao rumor dos tempos sombrios. 

Mil disfarces são necessários à sua prática. A camuflagem torna-se uma função guerreira.

Uma psiquiatria menor vive nas e das intensidades poéticas da loucura, não da loucura-doença mas da loucura como experiência de abertura aos signos que vêm de fora.

Eles são os da Terra e dos corpos supliciados.

A ética só existe (a ser criada) como ato clínico na psicopatologia.  Não há, pois, um código de ética pronto e juramentado como o da medicina. A referência é o paciente: uma vida.

Um paciente são multidões. Não há o indivíduo. 

Uma psiquiatria menor só funciona no desejo, com o desejo e pelo desejo. Assim como a ética, o desejo não preexiste.  Construi-lo dá trabalho.



A.M.