quarta-feira, 15 de julho de 2026

 

A  ANTI-ESCUTA  -  3


Na sociedade moderna a Escuta vira anti-escuta. Ou pelo menos são cultivadas as condições sócio-políticas para isso.

Está no ar a velocidade dos fluxos de comunicação e informação: internet.  Eles são o que passa e não pára de passar: o tempo estaria fora dos eixos?  Velocidades alucinatórias ...

A linguagem do sistema do capital é composta de fluxos, e não de códigos linguísticos. Ora, tudo se ajeita. O capitalismo e seu profundo analfabetismo ( Deleuze/Guattari, 1976) .Que importa se você não compreende o que se passa? Você sente.

A produção de uma realidade imagética resulta em afetos de destruição e substitui a Terra finita por um infinito de lucro. Uma forma-pessoa torna-se forma-consumidor, mesmo e principalmente o que se consuma no extermínio da alma.

Aldous Huxley disse tudo no " Admirável mundo novo" (1932). De lá para cá o aprofundamento do controle das massas segue o percurso de um suicídio coletivo induzido.

Não há retorno do fascismo, do nazismo, da ultra-direita e de todas as expressões da pulsão de morte. Elas já estavam aí.

A anti-escuta avança como Tecnologia Científica com sua verdade religiosa. Hiroshima ainda não foi o pior.


A.M.


Obs.: versão revisada.

terça-feira, 14 de julho de 2026

Não passo de um mendigo do futebol, ando pelo mundo de chapéu na mão, e nos estádios suplico: - Uma linda jogada pelo amor de Deus! E quando acontece o bom futebol, agradeço o milagre - sem me importar com o clube ou o país que o oferece.


Eduardo Galeano

segunda-feira, 13 de julho de 2026

TULIPAS ETERNAS

 


 O amor de agora


O amor de agora é o mesmo amor de outrora

Em que concentro o espírito abstraído,

Um sentimento que não tem sentido,

Uma parte de mim que se evapora.


Amor que me alimenta e me devora,

E este pressentimento indefinido

Que me causa a impressão de andar perdido

Em busca de outrem pela vida afora.


Assim percorro uma existência incerta

Como quem sonha, noutro mundo acorda,

E em sua treva um ser de luz desperta.


E sinto, como o céu visto do inferno,

Na vida que contenho mas transborda,

Qualquer coisa de agora mas de eterno.


Dante Milano

domingo, 12 de julho de 2026

SOPHIA PINHEIRO


 

 SEXUS de Henry Miller -  fragmento de resenha


“Sexus”(1949) faz parte da trilogia “Crucificação Encarnada” – ao lado de “Plexus”(1953) e “Nexus”(1960) – que consagrou Miller como um dos grandes do século XX, depois de seu começo conturbado com o censurado“Trópico de Câncer”. O livro narra os últimos anos de Miller nos Estados Unidos, antes de largar tudo e ir vagabundear na Europa – onde se revelou como escritor.(Período brilhantemente mostrado no filme “Henry & June”). O autor explica que está se aproximando de seu trigésimo terceiro aniversário – a idade de Cristo crucificado – e uma nova vida se estende para ele. Mas este é o único motivo pelo qual a trilogia deve se chamar “Crucificação”? O leitor atento pode observar: que são os discursos verborrágicos de Henry sobre a vida, o sexo, o trabalho e a sociedade que não sermões, muitas vezes em parábolas? Assim como Cristo, nosso autor/personagem prega um novo mundo, um paraíso – desta vez na Terra – que pode ser atingido através de sua doutrina. Ele converte amigos e mulheres com sua fala inflamada, realiza milagres através de orgasmos e multiplica comida e dinheiro – que consegue pedindo aos camaradas. E qual é sua punição? A crucificação simbolizada pelo casamento, o trabalho, as contas pra pagar e a rotina humana. Muito dessa filosofia não é novidade, algo foi tomado de Nietzsche(assim com de Céline vêm as descrições cruas e de Dostoiéviski os diálogos realistas.) Mas ao contrário de Nietzsche, Miller trepa.

(...)

Fred Di Giacomo

sábado, 11 de julho de 2026

 

ESTÔMAGO


entre as especialidades médicas,

uma das mais elegantes na pesquisa e na clínica

é a gastroenterologia.

seu raciocínio complexo

usa conhecimentos vastos e moleculares.

são mil contatos imediatos

para além da medicina dos objetos sólidos

e inertes.

ela pulsa o alimento da terra.

chanfraduras dispostas em toda parte 

migram para o trato digestivo.

boquiabertas, 

atingem entranhas

da alma torturada. 


especialidade que coloca

o paciente de frente

com o desejo infantil

mesmo que não saiba.


uma pena que a gastroenterologia

haja sido extinta.


no seu lugar a endoscopia

administra pólipos e dólares.


A.M.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

o desejo

não se esquece

não se esquece


cavernas sombrias

da angústia e do medo 

se esquece


o desejo não

não envelhece

ou alivia


ao contrário

cria

mundos



A.M.





quarta-feira, 8 de julho de 2026

O PROCESSO DE PRODUZIR MAIS VALIA


O produto, de propriedade do capitalista, é um valor-de-uso, fios, calçados etc. Mas, embora calçados sejam úteis à marcha da sociedade e nosso capitalista seja um decidido progressista, não fabrica sapatos por paixão aos sapatos. Na produção de mercadorias, nosso capitalista não é movido por puro amor aos valores-de-uso. Produz valores-de-uso apenas por serem e enquanto forem substrato material, detentores de valor-de-troca. Tem dois objetivos. Primeiro, quer produzir um valor-de-uso, que tenha um valor-de-troca, um artigo destinado à venda, uma mercadoria. E segundo, quer produzir uma mercadoria de valor mais elevado que o valor conjunto das mercadorias necessárias para produzi-la, isto é, a soma dos valores dos meios de produção e força de trabalho, pelos quais antecipou seu bom dinheiro no mercado. Além de um valor-de-uso quer produzir mercadoria, além de valor-de-uso, valor, e não só valor, mas também valor excedente (mais valia).

(...)

K. Marx

terça-feira, 7 de julho de 2026

 

TECNOLOGIA DA IMAGEM: CLÍNICA E POLÍTICA 


A partir da "tecnologia da imagem" e seus atravessamentos corporais é possível ir à análise da demanda em saúde mental. Na atualidade o corpo (não o corpo-organismo, mas o corpo-desejo) é atingido em cheio por imagens-clichês, imagens-de-imagens que tornam o contato do eu  consigo mesmo uma experiência plugada aos fluxos semióticos. Eles vêm de fora, mas parecem vir "de dentro". É que a forma das instituições sociais (cf Guattari e outros) está interiorizada, subjetivizada num inconsciente que não mais passa por categorias edipianas (tal como a psicanálise o vê) mas por categorias planetárias, portanto, capitalísticas. A tecnologia da imagem torna-se pois um território de sentido de uma verdade subjetiva. Esta é veiculada por equipamentos de poder. Daí o homem moderno encarnar uma espécie de sonambulismo coletivo que a todos arrasta. A incrível aceleração da velocidade do tempo aniquila o Sentido. Efeitos práticos: na clínica, a psicose. Na política, o fascismo.



A.M.