segunda-feira, 16 de março de 2026

DA  EROSÃO  DO  SENTIDO

O processo de dissolução dos códigos (linguagens) e territórios ( valores) é uma caraterística básica do movimento do capital. Isso está em Marx logo no início de "O capital" quando analisa o fetichismo da mercadoria. Fluxos incessantes de mercadoria fazem do capital um movimento  em direção ao infinito. O lucro dos grandes capitalistas é infinito. O único modo de freá-lo  ( segundo o sistema atual) é  o de naturalizar e idolatrar a função do Estado, onde a abstração da vida nua ( o corpo servil do trabalhador) se dissolve e se confina na ordem instituída de um poder aparentemente eterno: a nação, o Estado-nação. Desse modo, a formação da subjetividade se desenha como fratura subjetiva de sentido: quem eu sou? Este dado se verifica de modo simples e direto na multiplicação das sexualidades não reprodutivas. Dir-se - ia: onde vamos parar? A perplexidade do senso comum assola mais intensamente a subjetivação da extrema direita, já que ela está colada a valores antigos, deteriorados. Tais valores sustentam o desejo como representação mental e substituem a Realidade. Tudo passa a ser imagem. Daí a angústia e o quase pânico do extremista de direita ( não que outros  não vivenciem esse afeto) mas a experiência da direita, da ultradireita, e por fim, das mil religiosidades transcendentes que a sustentam pela fé, cola nos seus "militantes" verdades arcaicas como garantia de que estão vivos. Em nosso tempo de imagens instantâneas, o ato de pensar diluiu-se como bolha de sabão. No seu lugar, palavras de ordem organizam o planeta como lugar da dor e do sofrimento eterno (pobreza, miséria, fome, guerras etc) com ares de progresso científico.  Em tal cenário de Apocalipse, a ultradireita cresce e se expande como oração atéia e violenta ao céu que nos protege.


A.M.

sábado, 14 de março de 2026

 CLÍNICA DA DIFERENÇA EM PSIQUIATRIA :  linhas vitais


1-  Considera um corpo de afeto (desejo) misturado ao organismo físico-químico (sistema de órgãos).

2 - Tal corpo desejante (invisível) é acessado pela escuta.

3 - Um ou mais diagnósticos psiquiátricos: uso clínico como funções e não essências.

4 - O processo histórico-social é condição para a semiologia psicopatológica.

5 - Farmacoterapia e psicoterapia fusionadas num monismo pluralista (cf. Deleuze-Guattari).


A.M.

quinta-feira, 12 de março de 2026

 


NENHUMA ARTE - IV

Uma vida inteira passada
dentro dos confins de um corpo
junto ao qual vem atrelada
a consciência, peso morto
que acusa o golpe sofrido
e cochicha ao pé do ouvido
depois que o fato se deu:
nada que te pertence é teu.

Único antídoto do nada
entre as peçonhas da vida,
coisa por sorte encontrada
e por desgraça perdida,
amor lega, em sua ausência,
um lembrete à consciência
(se ela por acaso esqueceu):
nada que te pertence é teu.

Princípio? Tudo é contingente.
Fim? Toda luz termina em breu.
Sentido? Quem quiser que invente,
quem não quiser se contente
com este presente besta
que, quando acabou a festa,
a vida avara lhe deu:
nada que te pertence é teu.


Paulo Henriques Britto

 

A DIFERENÇA NA PSICOPATOLOGIA                      

(...)

Retornemos ao borderline: ele pode ser  considerado  como a instabilidade    em pessoa  concretizada em impulsos violentos e tão surpreendentes quanto danosos ao outro. Os afetos  parecem vir em estágio bruto e  numa corredeira  sem freios.   O encontro  é com um  chão movente.  Não há um  ou mais  problemas, mas  uma    problematização    contínua. Não se trata de um mero jogo de palavras. É toda a  inserção no mundo, e mais, o seu mundo constituído que é o da instabilidade afetiva. Ao falar de si num tom de passado e no fulcro das relações afetivas,  fica evidente  o  dado assombroso que é o da inexistência  de   um território   onde enganchar a relação pessoal, um vínculo. Um vazio brutal  lhe constitui. Um paciente afundado na solidão? Não é possível  vê-lo desse modo,  pois seria  fincar a estaca da   moldura humanista sobre uma alma em desgoverno. O encontro com a loucura não é um exame das funções psíquicas nem  do comportamento observável.  O encontro é um devir,  aquilo que tenta  captar do paciente fluxos do desejo.   O paciente não se reduz ao eu, ainda que este esteja  preservado. Ele consegue falar, dizer como está, conversar.  Seu corpo oscila entre uma inexpressão   e  uma  expressividade dramática. Contudo, a  dramaticidade não é  “fingida”.  Assume seu discurso com se fosse ele próprio levado por uma onda de emoção. Adiante, sem que se  lhe estimule,  estanca o ritmo e se faz imóvel numa atitude que suscita dúvidas.   Elas  oscilam  entre o que    diz de si e o que se esconde em dobras subjetivas opacas. O borderline  é um ser errante de difícil ajuda pelo aparelho biomédico.  Talvez   seja  usado algum remédio químico. Aí ele se curva  para além das dobras a  que aludimos. Torna-se  paciente de um cansaço  adicional  (a sedação) ante saídas difíceis da problemática. As linhas singulares estão fora das categorizações da CID-10 ou de  outras classificações. Sob a ótica da diferença, o paciente é um mundo inexplorado e ainda não humanizado. Não há pureza nessa concepção. Trata-se  de espreitá-lo  tanto quanto se conseguir  escapar do clichê médico.  Examinar o borderline é se pôr  fora  das definições do que é ou não o limite, o corte, a fronteira entre a saúde e a doença, o anormal e o anormal, a potência e a impotência. Para isso ser possível, a experiência do contato com a loucura é essencial. Não é preciso ser louco ou ficar louco, mas sim entrar  num  devir-loucura, tornar-se loucura  se o propósito é ajudar, acolher, criar. Tal disposição não costuma ser bem vinda nas organizações promotoras da fé numa racionalidade apaziguadora. Isso inclui a psiquiatria e suas agências  de apoio à  promoção de uma felicidade quimicamente induzida.  No entanto, entramos num terreno onde a química não resolve,  e pior, oferece a sedação como  simulacro da morte. Desse modo, o encontro com a loucura precede o encontro com o paciente...

(...)


A.M. in Trair a psiquiatria

segunda-feira, 9 de março de 2026

 Miguel aos 15


1

amigo sabedoria

da alegria


2

corrida de taxi

driver e música


3

lágrimas na chuva

blade runner


4

riso do batman

sumido e roubado


5

natureza mui bela

perigosa travessia


6

universo da fala

verso encantado


7

trilhas sonoras

a hora do sonho


8

altura e elegância

palavras doces


9

ovnis à mão cheia

no céu da boca


10

filosofias na pele

por toda a parte 


11

êxtase no mistério

estrelas e planetas


12

jesus aqui agora

o que diria?


13

capitalismo for ever

nem pensar


14

amigos gregos

enigmas e luzes


15

potências da arte

tatuadas no desejo






A.M.

JOHN GRIMSHAW


 

domingo, 8 de março de 2026

DIA  INTERNACIONAL  DA  MULHER


Todos os dias

são da mulher.


Absorta

em tarefas da alma,


prepara outra humanidade

nove meses

depois.



A.M.






quinta-feira, 5 de março de 2026


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 O ENCONTRO REAL


Quando se diz "relações interpessoais", está embutido o conceito de "pessoa humana" de origem intrinsecamente cristã. No entanto, ao se pensar o encontro entre duas pessoas, é possível agenciar o Encontro entre multiplicidades, aquele que remete ao movimento dos corpos (visíveis e invisíveis) enfiados no livre fluxo dos acontecimentos. Trata-se de uma torção do discurso, um desvio da fala banal em prol dos afetos e da potência de ser afetado. Silêncio! A chamada pessoa já não se sustenta, já não recolhe energia de uma suposta unidade de ação (o eu, a consciência...), exceto se estiver sob a égide dos códigos estabelecidos em dispositivos de controles tecno-burocráticos ou de despotismos morais. De todo modo, o Encontro real é composto por linhas de singularização que se ligam umas às outras, constroem territórios afetivos e ficam à espreita... Então, a coisa é assim: cada pessoa não é una, não é uniforme, mas múltipla, multiplicada e multiplicante por "n" mil. Seja o objeto de uma paixão. Não é o objeto o que importa ou o que faz funcionar o mundo e o universo, não é o que encanta e  faz renascer a realidade a cada segundo, mas os signos que são enviados por ele (sem cessar) para o amante. Tampouco este é "uma pessoa", mas uma multiplicidade de linhas afetivas movidas à alegria em viagens de perdição. É o segredo revelado no cerne do Encontro real entre o Amante e o Objeto da sua paixão. Ou melhor seria dizer: o encontro com a paixão por seu objeto. Tudo passa, pois, pelos signos e pela força de sua expressão livre nos cantos e encantos de uma natureza impassível e esplendorosa. É a arte do encontro, um alumbramento.


A.M.