O cérebro MENTE
Este blog busca problematizar a Realidade mediante a expressão de linhas múltiplas e signos dispersos.
domingo, 1 de março de 2026
Gilles Deleuze sobre a Palestina (1978)
por Amálgama (08/01/2009)
Publicado originalmente no Le Monde (7/4/1978) e, depois, em Deux régimes de fous: Textes et entretiens, 1975-1995 (Minuit, 2003), org. de David Lapoujade. Como os palestinos poderiam ser “parceiros legítimos” em conversações de paz, se não têm país? Mas como teriam país, se seu país lhes foi roubado? Os palestinos jamais tiveram escolha, além […]
Publicado originalmente no Le Monde (7/4/1978) e, depois, em
Deux régimes de fous: Textes et entretiens, 1975-1995 (Minuit, 2003), org. de David Lapoujade.
Como os palestinos poderiam ser “parceiros legítimos” em conversações de paz, se não têm país? Mas como teriam país, se seu país lhes foi roubado? Os palestinos jamais tiveram escolha, além da rendição incondicional. Só lhes ofereceram a morte.
No conflito Israel-Palestina, as ações dos israelenses são consideradas retaliação legítima (mesmo que seus ataques sejam desproporcionais); e as ações dos palestinos são, sem exceção, tratadas como crimes terroristas. Um palestino morto jamais interessa tanto, nem tem o mesmo impacto, que um israelense morto.
Desde 1969, Israel bombardeia sem descanso o sul do Líbano. Israel já disse, claramente, que a recente invasão do Líbano não foi ato de retaliação pelo ataque terrorista em Telavive (11 terroristas contra 30 mil soldados); de fato, a invasão do Líbano é o ponto culminante de um plano, mais uma, numa sequência de operações a serem iniciadas como e quanto Israel decida iniciá-las. Para uma “solução final” para a questão palestina, Israel conta com a cumplicidade quase irrestrita de outros Estados (com diferentes nuances e diferentes restrições).
Um povo sem terra e sem Estado, como o palestino, é como uma espécie de leme, que dá a direção em que andará a paz de todos que se envolvam em suas questões. Se tivessem recebido auxílio econômico e militar, ainda assim teria sido em vão. Os palestinos sabem o que dizem, quando dizem que estão sós.
Os militantes palestinos têm dito que teriam conseguido arrancar, no Líbano, alguma espécie de vitória. No sul Líbano, só havia grupos de resistência, que se comportaram muito bem sob ataque. A invasão israelense, por sua vez, atacou cegamente refugiados palestino e agricultores libaneses, população pobre, que vive da terra. Já se confirmou que cidades foram arrasadas e que civis inocentes foram massacrados. Várias fontes informam que se usaram bombas de fragmentação.
Essa população do sul do Líbano, em exílio perpétuo, indo e vindo sob ataque militar dos israelenses, não vê diferença alguma entre os ataques de Israel e atos de terrorismo. Os últimos ataques tiraram 200 mil pessoas de suas casas. Agora, esses refugiados vagam pelas estradas.
O Estado de Israel está usando, no sul do Líbano, o método que já se provou tão eficaz na Galileia e em outros lugares, em 1948: Israel está “palestinizando” o sul do Líbano.
A maioria dos militantes palestinos nasceram dessa população de refugiados. E Israel pensa que derrotará esses militantes criando mais refugiados e, portanto, com certeza, criando mais terroristas. Não é por termos um relacionamento com o Líbano que dizemos: Israel está massacrando um país frágil e complexo. E há mais.
O conflito Israel-Palestina é um modelo que determinará como o ocidente enfrentará, doravante, os problemas do terrorismo, também na Europa.
A cooperação internacional entre vários Estados e a organização planetária dos procedimentos da polícia e dos bandidos necessariamente levará a um tipo de classificação que cada vez mais incluirá pessoas que serão consideradas “terroristas”. Aconteceu já na Guerra Civil espanhola, quando a Espanha serviu como laboratório experimental para um futuro ainda mais terrível que o passado do qual nascera.
Israel inteira está envolvida num experimento. Inventaram um modelo de repressão que, devidamente adaptado, será usado em vários países.
Há marcada continuidade nas políticas de Israel. Israel crê que as resoluções da ONU, que condenam Israel verbalmente, são autorizações para invadir. Israel converteu a resolução que o mandava sair dos territórios ocupados em direito de construir colônias!
Achou que seria excelente ideia manter uma força de paz no sul do Líbano… desde que essa força, em vez do exército israelense, transformasse a região em área militar, sob controle policial, um deserto em matéria de segurança.
Esse conflito é uma estranha espécie de chantagem, da qual o mundo jamais escapará, a menos que todos lutemos para que os palestinos sejam reconhecidos pelo que são: “parceiros genuínos” para conversações de paz. De fato, estão em guerra. Numa guerra que não escolheram.
Tradução a partir do inglês: Caia Fittipaldi.
sábado, 28 de fevereiro de 2026
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026
O ENGODO
O CMI (Capitalismo Mundial Integrado), sabemos, abarca tudo, abrange tudo, inclusive você que me lê e, óbvio, o futebol.
Pelo mundo afora, a Coisa captura clubes de massa.
Suas torcidas são usadas e manipuladas com o fim do lucro e da expansão infinita dos mecanismos de exploração do capital.
A vida é um grito de gol.
Mas o desejo sofre por ser interrompido.
O que os capitalistas não sacam (ou não conseguem) é que existe Torcida e torcida.
No grande negócio do City Footbaal Group com o Bahia a parte da Torcida ( gols, vitórias e títulos) não está sendo cumprida.
Há um cheiro de trapaça.
Não fique surpreso: milhões de bumerangues no seio da Torcida Tricolor podem ser disparados...
A.M.
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026
sábado, 21 de fevereiro de 2026
EMERGÊNCIAS PSIQUIÁTRICAS - 1
O campo das emergências psiquiátricas compreende situações em que o comportamento do paciente traz algum risco a si mesmo ou a terceiros. Tais situações são marcadas pelos códigos sociais que balizam e aplicam a moral vigente. Portanto, discutir (sem preconceito) tal tipo de emergência requer sair da ordem médica em prol de uma visão de saúde mental que priorize o paciente enquanto diferença. Isso não é fácil, notadamente em termos práticos. Alguém está agitado, o que fazer? Uma imagem-clichê costuma iluminar o olhar repressor que habita as consciências normais. Ora, se considerarmos que algo precisa ser feito em questão de minutos (ou segundos), que seja em nome do cuidado-ao-outro, e não pela manutenção da ordem racional vigente. Será, então, preciso discutir, caso a caso, o que a psicopatologia nos diz à respeito das emergências. Histeria, psicose, delírio paranóide, tentativa de suicídio, agitação psicomotora, dentre outros signos emergentes, o que se deve fazer estará inscrito no que se deve pensar à respeito. Antes de tudo, um conceito : o que é, de fato, uma emergência psiquiátrica?
A.M
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026
terça-feira, 17 de fevereiro de 2026
TERAPIA, O NOVO
A clínica da diferença em psicoterapia constitui-se como uma superfície invisível onde se registram formas sociais. Não é, pois, um encontro interpessoal. É que as duas pessoas em jogo (terapeuta e paciente) são também formas sociais. Elas se misturam a mil outras formas que transversalizam o Encontro como um território-nexo entre multiplicidades. Este dado empírico condiciona a que afetos de alegria estabeleçam linhas de base que impulsionam o processo da metamorfose subjetiva. É o motor, a máquina, a energia (não metáforas) que consistem na materialidade do trabalho afetivo. Ainda que a terapia possa não avançar, não dê certo, não funcione, não atinja seus objetivos, enfim, fracasse, linhas intensivas de base e o conteúdo dos afetos fazem do agenciamento de forças uma aventura do novo, uma potência. Como diz Deleuze, não há potência má. Isso implica em se encarar o abismo do sem-eu e do caos como resposta ao desafio de produzir sentido à existência. Uns conseguem, outros não. De todo modo, uma clínica da diferença, ao contrário de psicoterapias auto-intituladas de científicas, não coloca panos quentes em sintomas próprios do mundo civilizadamente violento em que vivemos, nem usa técnicas de adaptação passiva e resignada a esse mesmo mundo.
A.M.