sábado, 25 de setembro de 2021

Caetano Veloso - Anjos Tronchos (Clipe Oficial)

NEURÔNIOS AFLITOS

A relação psiquiatra-paciente está marcada pela história do poder psiquiátrico  consolidado  no século XX. Nos dias que correm, são muitas as suas  máscaras, muitos os seus disfarces. Existe, por exemplo, a psiquiatria oficial com expressão mercadológica (publicitária, midiática) obtida através das associações da categoria (há muitos sites à respeito), a psiquiatria biológica em sua versão humanista ou a psiquiatria universitária operando pesquisas duplo-cego sob o manto epistemológico apaziguador da ciência "neutra". Essas e outras formações institucionais se nivelam numa crença comum: o paciente é um organismo individual (físico-químico) avariado. Resta ao psiquiatra prescrever remédios à mão cheia. E "consertá-lo". Isso garante ao profissional do "cérebro-mente" uma estabilidade existencial, para não dizer material, um status, um território de poder e uma respeitabilidade científica (?!). Antes da terapêutica adotada, invariavelmente psicofarmacológica, um cientificismo oculto lhe confere a fármaco-verdade. Por isso o ato de medicar se reveste de nuances quase sempre desconhecidas e é aceito, em geral, como benefício inquestionável.


A.M. 

NOVA DIPLOMACIA


 

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Perplexidades órfãs – VIII


Depois de uma breve conversa (no caps) com um colega, saquei algo muito simples. Não queremos acolher porque não sabemos escutar. Técnicos sem técnica.

Setembro amarelo chegando ao fim. Mas os ipês continuam. 

A cada hora chegam rumores de Brasília. Você  ouve vozes? Não se assuste. Os canalhas passarão.

O vulcão das ilhas Canárias, sua belíssima cor sanguinolenta e a lava escorrendo. Parece uma mulher que se insi-nua.

O contra-cheque mensal ou a servidão ao capital como prato de comida (bóia). Esta é a oferenda macabra à sobrevivência. Agradeça, bicho.

Há muitos delírios na praça. Na escala e na escola dos horrores, o fascista é o da nota dez. Um crânio.

O pesadelo da humanidade nunca foi pior que o dos tempos internéticos. Tudo é uma questão de método. Intoxicados pela informação, corpos-zumbis, mentes suicidárias, lá vamos nós, contemporâneos do apocalipse.

Os fascistas não poupam sequer os autistas. Nem os adolescentes. Cuidado: por vezes se disfarçam de médicos ou educadores.

Não existe a criança como um ser puro. Existe a velocidade-criança em cada um. Os poderes estabelecidos sabem disso. E mandam porrada.

Amanhã vai dar praia, mesmo não tendo praia.


A.M.


INCERTEZAS


como deleuze pensa o mundo a partir da lógica da mudança, do devir? 


em deleuze é difícil encontrar uma visão do mundo. o mundo é um cruzamento, é um ovo. ora, no mundo você tem as estruturas duras, você tem sistemas fortes, um capital financeiro dominante… mas há pulsações, há uma variabilidade permanente. é essa complexidade que impede que você impinja a ela uma visão de mundo que seja ou catastrófica ou conservadora, seja lá o que for. deleuze tem o mundo como uma indagação permanente a ser levada a cabo a cada encontro. é preciso, apesar de tudo, ter fé para que isso seja possível. essa crença deleuziana é um dos tópicos mais difíceis de se desvendar, pois não é uma crença simplesmente caudatária das crenças religiosas, é uma crença que leva você a perguntar pelas próprias razões e ainda ser possível acreditar no mundo, tendo sempre a mesma consciência que ele tinha quando desenvolveu as análises a respeito da obra de akira kurosawa – o mundo é uma problemática que vale a pena ser cuidada.

(...)

luis orlandi, entrevista a fernanda bellei em 19/01/2009 (extraido do site instituto cpfl/cultura)

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

TULIPAS ETERNAS


 

Nem tudo que tentei perdi. Restou 

a intenção de ser alguém ou algo

que não se pode ser, mas só ter sido;

restou a tentação do nada, nunca

tão forte que vencesse esse meu medo

que é a coisa mais honesta que há em mim.

Sobrou também o hábito vadio

de me virar do avesso e esmiuçar

as emoções como quem espreme espinhas.

Mas nada disso dói; a dor é um ácido

que ao mesmo tempo que corrói consola,

é uma coceira que vem lá de dentro

e me destrói sem dignidade alguma.


Paulo Henriques Britto

GONZAGUINHA - "PALAVRAS"

terça-feira, 21 de setembro de 2021

Perplexidades órfãs - VII

O ministro da Saúde, Marcelo Quiroga, mostrou o dedo do meio ( com as duas mãos) para uma multidão de manifestantes contra Bolsonaro em Nova York. Teria sido mais elegante se ele mostrasse o dedo polegar, aquele que empurra o êmbolo da vacina anti-covid no braço dos brasileiros.

A verdade costuma ser produzida pelo poder já que o poder é mantido por forças. Assim, a mentira mais deslavada pode se tornar uma verdade. O discurso do presidente na ONU foi uma repetição do cercadinho de Brasília. 

Os tempos políticos, em terras brasílicas, devem piorar. Trovões à caminho movimentam corações fascistas. A versão brasileira do fascismo é a pior de todas, desde 1922. Tem o nosso jeitinho. 

O grande olho imaginário-delirante da presidência criou um uiniverso social paralelo para valores de rebanho.

No lugar de Deus, Belzebu costura sua linha silenciosa, traiçoeira, violenta e fake.

Saímos da política, entramos na política.  Eternamente em berço esplêndido, ó pátria amada.


A.M


Burn! Official Trailer #1 - Marlon Brando Movie (1969) HD

sábado, 18 de setembro de 2021

Perplexidades órfãs – VI


O caso Sashira: a monstruosidade humana a cru.

Setembro amarelou nos ipês da cidade.

No cotidiano de um Caps fluxos de loucura jamais adotam um rosto fixo. Circulam livres.

O sentido das depressões é não ter sentido.

O tempo tem passado tão rápido... cada vez mais, mais, mais. A hora da delicadeza não chega.

Existe a psiquiatria oficial, manicomial, comercial, normativa, acadêmica. Delícia traí-la. 

O fascismo à brasileira prossegue sua volúpia pela morte. Sonhos adolescentes resistem.

Atenção: quando um paciente fala são mil vozes que falam. Elas vêm de outras terras, planetas desconhecidos, buracos do mundo.

Não existe o amor. Existe o amar.

O caso Sashira: é isso, um homem?


A.M.



 

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

O SENTIDO DAS DEPRESSÕES

As depressões atuais se espalham num amplo espectro de acontecimentos, onde a etiologia (causa) e o quadro clínico (sintomas) são múltiplos. Desse modo, é essencial para uma clínica da diferença em psiquiatria ( um paradoxo!) não considerar as depressões no sentido biomédico. Dupla traição: trair a psiquiatria como especialidade médica e à psiquiatria como instituição (forma social). As depressões não são, pois, uma doença do cérebro, mesmo que este se mostre alterado em seu funcionamento. Ora, qualquer afeto produz efeitos sobre o cérebro, mesmo e principalmente  um "bom" afeto, por exemplo, a alegria. Ela embriaga. Assim, na análise semiológica do Encontro com o paciente, as perguntas devem partir do Mundo para o eu, e não o contrário. De onde você veio, onde você vive, com quem vive, como vive, trabalha, como trabalha, em que acredita, amores, quais seus amores, etc. São linhas existenciais que mapeiam singularidades. Sim, talvez haja necessidade de um anti-depressivo...e se houver, será na contextualização de um tempo desejante. Ou seja, tudo pelo gosto de viver. Pena que as cronificações depressivas ( no Caps são tantas...) circulem e se mostrem cada vez mais explícitas. No entanto, como poderia ser diferente se a própria psiquiatria anda deprimida? Sinapses esgotadas...  neurônios aflitos... angústia... A alma em colapso.


A.M.

Belchior - Coração Selvagem

terça-feira, 14 de setembro de 2021

A  ELITE  REPUGNANTE

Viralizou nas redes um vídeo em que o humorista André Marinho imita Jair Bolsonaro em um jantar de homenagem a Michel Temer nesta segunda (13). A gravação chama a atenção por trazer, além de uma boa imitação, um pacote simbólico do que representa o poder no Brasil. Incluindo os erros desse poder frente à realidade.

1) O local do rega-bofe, que juntou parte da nata da sociedade, é a residência do investidor Naji Nahas, um antigo conhecido da polícia e amigo de Temer. Foi preso pela Polícia Federal em meio à operação Satiagraha, em uma investigação de corrupção e lavagem de dinheiro em 2008. Não era figurinha nova: quase 20 anos antes, em 1989, a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro despencava por conta de golpes que ele aplicou no sistema financeiro. Também foi apontado como interessado no trágico despejo dos moradores do Pinheirinho, em São José dos Campos (SP), que ficou conhecido pela violência contra os sem-teto.

2) Todos os sentados à mesa são homens, brancos e ricos, uma fotografia do poder tradicional. Dentre as 18 pessoas, não há uma mulher ou pessoa negra, apesar de ambos os grupos serem maioria no país. A imagem é de 2021, mas poderia muito bem ter sido usada para representar a "Convenção de Itu de 1873" no lugar da famosa pintura de Jonas de Barros, que representava os republicanos no Império ainda escravagista.

No jantar, estavam políticos, como Gilberto Kassab, presidente do PSD; empresários, como Paulo Marinho, ex-amigo de Jair Bolsonaro e pai do humorista, e Johnny Saad, proprietário do Grupo Bandeirantes; jornalistas como Antonio Carlos Pereira, ex-editorialista do jornal O Estado de S. Paulo, e Roberto d'Ávila, apresentador e diretor da GloboNews; médicos como Raul Cutait, cirurgião do hospital Sírio-Libanês; advogados, como José Yunes, próximo a Temer. Com algumas variações, lembra o pequenino círculo do poder da Sucupira, de Dias Gomes.

3) Os presentes trataram Bolsonaro como fanfarrão. Temer e os demais riram efusivamente da imitação, mostrando que uma parte da elite brasileira considera o presidente como uma piada e não como um agente de corrosão da democracia. Os risos ajudam a explicar a razão do impeachment estar longe da agenda de uma parte do PIB.

4) Tortura com pau de arara foi recebida com risos. Em determinado trecho da imitação de Bolsonaro por André Marinho, ele diz a Temer sobre a carta que o ex-presidente o ajudou a escrever: "Cadê a parte que eu combinei de botar o pau de arara na Praça dos Três Poderes e dar de chicote no lombo de Alexandre de Moraes?" Por mais que esteja ridicularizando um presidente que instalaria, de fato, um pelourinho público se pudesse, os risos diante do equipamento usado na ditadura para abrir o bico de críticos ao regime geraram azia e má digestão.

5) Os presentes, principalmente Michel Temer, acharam graça que, na imitação, ele aparece como salvador de Bolsonaro. De fato, o ex-presidente desempenhou um papel útil, emprestando sua credibilidade junto ao centrão para acalmar os ânimos no Congresso Nacional após as micaretas golpistas. Mas isso não é parte do plano de Temer, mas da estratégia de Bolsonaro que, desde que assumiu o governo, realiza aproximações sucessivas em direção a um golpe de Estado, atacando e recuando. O recuo tático desta vez foi maior porque o avanço do dia 7 de setembro também havia sido. Temer prestou um favor ao ajudar a baixar a fervura até a próxima investida.

6) O vídeo não vazou por descuido, como muitos dizem. O registro foi feito pelo marqueteiro do ex-presidente Temer, Elsinho Mouco, que vem trabalhando para fortalecer a imagem de seu cliente nas redes sociais, e foi divulgado por ele e por Paulo Marinho, antigo apoiador de Bolsonaro que se tornou inimigo ao ser abandonado por ele. Sabiam que chegaria no presidente, e talvez fosse essa a intenção. Contudo, o vídeo pode sair pela culatra, sendo útil ao capitão. Por que um grupo da elite tradicional, ou seja, do sistema, rindo de Bolsonaro em um jantar chique, pode fortalecer a imagem do presidente junto ao seu público mais radical - que anda criticando bastante o "mito", frustrado com a arregada tática que ele deu.

7) Houve outras imitações, inclusive a do próprio Temer, mas nenhuma provocou tanto riso quanto a de Bolsonaro. O PIB prefere humilhá-lo entre quatro paredes do que permitir que seja substituído por tudo o que já fez. A cena ganhou dimensão na internet porque contou com Temer logo após as micaretas golpistas, mas situações iguais se repetem em outras residências dos Jardins, do Leblon, do Lago Sul. A questão é que, enquanto isso, o Brasil real produziu quase 600 mil mortes, 14,4 milhões de desempregados, 19 milhões de famintos e deve viver apagões de energia elétrica até dezembro. O que pensa de tudo isso o garçom, que aparece no vídeo, o único usando máscara? Será que ele pode rir de Bolsonaro como os demais em torno da mesa?


Leonardo Sakamoto, UOL, 14/09/2021, 15:04 hs