quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Tenho um amor fresco e com gosto de chuva e raios e urgências. Tenho um amor que me veio pronto, assim, água que caiu de repente, nuvem que não passa. Me escorrem desejos pelo rosto pelo corpo. Um amor susto. Um amor raio trovão fazendo barulho. Me bagunça. E chove em mim todos os dias.Caio Fernando Abreu

 

sábado, 21 de fevereiro de 2026

EMERGÊNCIAS PSIQUIÁTRICAS - 1

O campo das emergências psiquiátricas compreende situações em que o comportamento do paciente traz algum risco a si mesmo ou a terceiros. Tais situações são marcadas pelos códigos sociais que balizam e aplicam a moral vigente. Portanto, discutir (sem preconceito) tal tipo de emergência requer sair da ordem médica em prol de uma visão de saúde mental que priorize o paciente enquanto diferença. Isso não é fácil, notadamente em termos práticos. Alguém está agitado, o que fazer? Uma imagem-clichê costuma iluminar o olhar repressor que habita as consciências normais. Ora, se considerarmos que algo precisa ser feito em questão de minutos (ou segundos), que seja em nome do cuidado-ao-outro, e não pela manutenção da ordem racional vigente. Será, então, preciso discutir, caso a caso, o que a psicopatologia nos diz à respeito das emergências. Histeria, psicose, delírio paranóide, tentativa de suicídio, agitação psicomotora, dentre outros signos emergentes, o que se deve fazer estará inscrito no que se deve pensar à respeito. Antes de tudo, um conceito : o que é, de fato, uma emergência psiquiátrica?


A.M

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

TERAPIA, O NOVO


A clínica da diferença em psicoterapia constitui-se como uma superfície invisível onde se registram formas sociais. Não é, pois, um encontro interpessoal. É que as duas pessoas em jogo (terapeuta e paciente) são também formas sociais. Elas se misturam a mil outras formas que transversalizam o Encontro como um território-nexo entre multiplicidades. Este dado empírico condiciona a que afetos de alegria estabeleçam linhas de base que impulsionam o processo da metamorfose subjetiva. É o motor, a máquina, a energia (não metáforas) que consistem na materialidade do trabalho afetivo. Ainda que a terapia possa não avançar, não dê certo, não funcione, não atinja seus objetivos, enfim, fracasse, linhas intensivas de base e o conteúdo dos afetos fazem do agenciamento de forças uma aventura do novo, uma potência. Como diz Deleuze, não há potência má. Isso implica em se encarar o abismo do sem-eu e do caos como resposta ao desafio de produzir sentido à existência. Uns conseguem, outros não. De todo modo, uma clínica da diferença, ao contrário de psicoterapias  auto-intituladas de científicas, não coloca panos quentes em sintomas próprios do mundo civilizadamente violento em que vivemos, nem usa técnicas de adaptação passiva e resignada a esse mesmo mundo. 



A.M.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

TERESA

A primeira vez que vi Teresa 
Achei que ela tinha pernas estúpidas
 Achei também que a cara parecia uma perna
 
Quando vi Teresa de novo
 Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
 (Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)
 
Da terceira vez não vi mais nada 
Os céus se misturaram com a terra 
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas. 


 Manuel Bandeira

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

A psiquiatria atual não sabe o que é o delírio, não sabe o que é a angústia. Apenas mortifica o desejo. 


A.M.


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

HUGH LAURIE

SIGNOS EM ROTAÇÃO



Quem procura a verdade é o ciumento que descobre um signo mentiroso no rosto da criatura amada; é o homem sensível quando encontra a violência de uma impressão; é o leitor, o ouvinte, quando a obra de arte emite signos, o que o forçará talvez a criar, como o apelo do gênio a outros gênios. As comunicações de uma amizade tagarela nada são em comparação com as interpretações silenciosas de um amante. A filosofia, com todo o seu método e a sua boa vontade, nada significa diante das pressões secretas da obra de arte. A criação, como gênese do ato de pensar, sempre surgirá dos signos. A obra de arte não só nasce dos signos como os faz nascer; o criador é como o ciumento, divino intérprete que vigia os signos pelos quais a verdade se trai. (...) 

G. Deleuze in Proust e os signos

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Em que sentido esta sincronização das emoções coloca a democracia em perigo?


A democracia é a reflexão comum e não o reflexo condicionado. Não existe opinião política sem uma reflexão comum. Mas hoje predomina não a reflexão, mas o reflexo. O próprio da instantaneidade consiste em anular a reflexão em proveito do reflexo. Quando me convidam para um debate na televisão, me dizem: “Que bom, você trabalha desde 1977 nos fenômenos da velocidade. Tem um minuto para explicar-me tudo isso”. Não é possível. Estamos diante de um fenômeno reflexo, mas a democracia reflexa é uma impossibilidade, não existe. A mesma coisa acontece com a confiança. As Bolsas estão em crise porque há uma crise da confiança. E por que há uma crise de confiança? Porque a confiança não pode ser instantânea. A confiança em um sistema político ou financeiro não é automática. A opinião também não pode ser instantânea. Então, os sistemas administrados pelos políticos, inclusive o sistema financeiro, são fenômenos que tendem para o automatismo. A automatização é o contrário da democratização.


Trecho de entrevista com Paul Virilio em 20/11/2010, concedida a Eduardo Febbro e publicada no site Instituto Humanitas Unisinos, acesso em 02/02/2026.