O professor disserta sobre ponto difícil do programa.
Um aluno dorme, cansado das canseiras desta vida.
O professor vai sacudi-lo?
Vai repreendê-lo?
Não.
O professor baixa a voz,
Com medo de acordá-lo.
Carlos Drummond de Andrade
Este blog busca problematizar a Realidade mediante a expressão de linhas múltiplas e signos dispersos.
REGIME DE DELÍRIOS
O termo "delírio" apresenta uma história atravessada pelo romantismo. Assim, quando se diz " delírio de amor", evoca-se uma intensidade afetiva na constituição do sujeito e do objeto da sua paixão. Há uma imagem que força a desejar e delirar.
Na psiquiatria clínica, orgânica, biológica, o delirio tem origem no cérebro em alguma disfunção ou numa lesão das estruturas neuronais. Até se convencionou chamar isso de " delírium" (do latim) para qualificar o sintoma "causado" pela alteração do estado da consciência. Esse estado percorre amplo espectro clínico, indo da consciência vigil ao coma ( apagamento da consciência).
Ainda na psiquiatria clínica, o delírio cursa com a psicopatologia e suas múltiplas expressões, tais como nas psicoses, esquizofrenias, transtornos do humor, transtornos da personalidade, histerias, etc... todo um universo semiológico delirante. Curioso é que esse tipo de delírio não leva uma causa orgânica, como é o caso do "delirium".
Fora do círculo normativo e clínico da psiquiatria , encontramos o delírio, ou mais precisamente, a experiência delirante por toda a parte: na arte, na literatura, na política, na filosofia, no espiritualismo, nas religiões em geral e até no cotidiano das relações sociais e pessoais...
Em toda as manifestações persiste a dificuldade em avaliar o que é o delírio e qual a sua origem. Restou a psiquiatrização mais tosca. É que sob uma égide moral, o delírio é visto como " erro " . Ele escapa ao controle institucional e racional, e por conseguinte desconcerta a prática de normalização dos indivíduos levada à efeito pela "necro" psiquiatria. É que a expressão delirante, para ser compreendida nos seus elementos históricos atuais, extrapola tal enquadre psicopatológico: o delírio do capital...
Desse modo é possível arriscar a hipótese teórica de que a modernidade produziu e produz em escala planetária condições sociais, políticas, culturais e tecnológicas para o desenvolvimento de um delírio não médico e não romântico. Aí está contida uma questão intrigante sobre a verdade.
E cada vez mais, movida a velocidades internéticas, tal questão se traduz em perguntas sem resposta: isso é verdade? qual a verdade? existe a verdade? para que serve a verdade? a quem serve?
A.M.
Obs. versão revisada.
A ANTI-ESCUTA - 3
Na sociedade moderna a Escuta vira anti-escuta. Ou pelo menos são cultivadas as condições sócio-políticas para isso.
Está no ar a velocidade dos fluxos de comunicação e informação: internet. Eles são o que passa e não pára de passar: o tempo estaria fora dos eixos? Velocidades alucinatórias ...
A linguagem do sistema do capital é composta de fluxos, e não de códigos linguísticos. Ora, tudo se ajeita. O capitalismo e seu profundo analfabetismo ( Deleuze/Guattari, 1976) .Que importa se você não compreende o que se passa? Você sente.
A produção de uma realidade imagética resulta em afetos de destruição e substitui a Terra finita por um infinito de lucro. Uma forma-pessoa torna-se forma-consumidor, mesmo e principalmente o que se consuma no extermínio da alma.
Aldous Huxley disse tudo no " Admirável mundo novo" (1932). De lá para cá o aprofundamento do controle das massas segue o percurso de um suicídio coletivo induzido.
Não há retorno do fascismo, do nazismo, da ultra-direita e de todas as expressões da pulsão de morte. Elas já estavam aí.
A anti-escuta avança como Tecnologia Científica com sua verdade religiosa. Hiroshima ainda não foi o pior.
A.M.
Obs.: versão revisada.
O amor de agora
O amor de agora é o mesmo amor de outrora
Em que concentro o espírito abstraído,
Um sentimento que não tem sentido,
Uma parte de mim que se evapora.
Amor que me alimenta e me devora,
E este pressentimento indefinido
Que me causa a impressão de andar perdido
Em busca de outrem pela vida afora.
Assim percorro uma existência incerta
Como quem sonha, noutro mundo acorda,
E em sua treva um ser de luz desperta.
E sinto, como o céu visto do inferno,
Na vida que contenho mas transborda,
Qualquer coisa de agora mas de eterno.
Dante Milano
SEXUS de Henry Miller - fragmento de resenha
“Sexus”(1949) faz parte da trilogia “Crucificação Encarnada” – ao lado de “Plexus”(1953) e “Nexus”(1960) – que consagrou Miller como um dos grandes do século XX, depois de seu começo conturbado com o censurado“Trópico de Câncer”. O livro narra os últimos anos de Miller nos Estados Unidos, antes de largar tudo e ir vagabundear na Europa – onde se revelou como escritor.(Período brilhantemente mostrado no filme “Henry & June”). O autor explica que está se aproximando de seu trigésimo terceiro aniversário – a idade de Cristo crucificado – e uma nova vida se estende para ele. Mas este é o único motivo pelo qual a trilogia deve se chamar “Crucificação”? O leitor atento pode observar: que são os discursos verborrágicos de Henry sobre a vida, o sexo, o trabalho e a sociedade que não sermões, muitas vezes em parábolas? Assim como Cristo, nosso autor/personagem prega um novo mundo, um paraíso – desta vez na Terra – que pode ser atingido através de sua doutrina. Ele converte amigos e mulheres com sua fala inflamada, realiza milagres através de orgasmos e multiplica comida e dinheiro – que consegue pedindo aos camaradas. E qual é sua punição? A crucificação simbolizada pelo casamento, o trabalho, as contas pra pagar e a rotina humana. Muito dessa filosofia não é novidade, algo foi tomado de Nietzsche(assim com de Céline vêm as descrições cruas e de Dostoiéviski os diálogos realistas.) Mas ao contrário de Nietzsche, Miller trepa.
(...)
Fred Di Giacomo
ESTÔMAGO
entre as especialidades médicas,
uma das mais elegantes na pesquisa e na clínica
é a gastroenterologia.
seu raciocínio complexo
usa conhecimentos vastos e moleculares.
são mil contatos imediatos
para além da medicina dos objetos sólidos
e inertes.
ela pulsa o alimento da terra.
chanfraduras dispostas em toda parte
migram para o trato digestivo.
boquiabertas,
atingem entranhas
da alma torturada.
especialidade que coloca
o paciente de frente
com o desejo infantil
mesmo que não saiba.
uma pena que a gastroenterologia
haja sido extinta.
no seu lugar a endoscopia
administra pólipos e dólares.
A.M.