domingo, 5 de julho de 2026


Coração de frango


e o coração,

quanto pesa?

perguntou ela,

moça magrela

de expostas costelas,

ao homem bigodudo

detrás do balcão.


depende,

de boi ou de frango?


intrigada

não entendeu,

pois era do dela

que tratava.


sabia que pouco valia,

era carne fraca

sangue de anemia

que batia mais por inércia,

do que serventia.


na verdade,

queria fazer uma barganha,

trocar seu coração

por, quem sabe,

um naco de picanha.


o homem não estranhou a proposta

da moça de costelas expostas.

era a terceira vez

que vinham lhe oferecer

aquele estranho produto

já conhecidamente sem uso.


mas por pena ou caridade

lhe ofereceu em troca

duas asas de frango.

o que era muito,

comparado ao seu tamanho.


faminta,

aceitou sem demora.

lambuzou-se com as asas alheias,

visto que ela,

bicho terreno,

não conhecia tais atrevimentos.


até hoje não se sabe:

se foi a gordura espessa

ou a carne fibrosa

(tão desconhecidas a seu corpo de menina)

que lhe causaram alucinação.


fato é que

munida da carcaça das duas asas,

uma em cada mão,

acreditou-se ave,

ave maria,

e do parapeito da janela,

estufou o peito externo.

de um só golpe

sentiu o corpo leve.


o voo foi breve.

o baque, surdo.

a carne mole,

moída na calçada,

parecia que indagava:


e meu corpo,

quanto vale?


Luiza Romão

quinta-feira, 2 de julho de 2026

A  MEDICALIZAÇÃO  SEM  FIM


Fenômeno típico da sociedade industrial capitalística "avançada", a medicalização corresponde a expressão da medicina no campo social.

Tal afirmação soa rasa e superficial se se limitar à medicina como ramo da ciência atrelado aos ideais iluministas ( a razão científica) e humanistas ( o homem como medida  das coisas).

Ao contrário, a medicalização da vida social é uma instituição. E como toda instituição,  só funciona em conexão com outras instituições como o Estado, a Ciência, a Mídia, a Política, a Economia, etc.

Desse modo ela desenvolve a função de ocultar  (ou maquiar) a divisão de classes. Isso é constitutivo do Capitalismo Mundial Integrado (F. Guattari, 1981) e alavanca seus valores e códigos às custas de uma subjetividade-do-capital atualizada via internet.

Mas não se trata aqui de uma afirmação idealista calcada no pensamento de Marx, e sim de uma percepção do real em si mesmo, o que existe.

O que existe são imagens de imagens de imagens circulando enlouquecidas rumo a um lucro capitalístico infinito. Então, para que serve o real se ele foi "anexado" à loucura como o fim último da produção? A loucura não tem fim, só meios.

Não existe mais o "social", a socialidade. O capital abarcou tudo, engoliu tudo. 

De volta à medicalização da vida social que é a "vida do capital": ela é esse "infinito"  expresso na luta entre os vírus e as vacinas, entre as bactérias e os antibióticos, entre a doença e a saúde, entre a morte e a vida... tudo pela expansão metastática do lucro.


A.M.


 

quarta-feira, 1 de julho de 2026

segunda-feira, 29 de junho de 2026

O TEMPO NÃO VOLTA

O movimento do capital é o da consistência das relações sociais. São fluxos de toda ordem que se expressam no cotidiano das pessoas. Estas se inserem no desempenho de papéis e funções, sendo o trabalho um dos meios por excelência para "medi-las". A família seria outro. Ora, tal consistência subjetiva (e objetiva) é o que estabelece condições para alguém dizer "estou vivo". Isso foi sendo instaurado na história das relações sociais de produção, fato que Marx já registra em 1844 nos seus "Manuscritos econômicos e filosóficos". Dito de outro modo, as relações humanas, ou mais profundamente, a condição humana ( o que é o "humano ?") foi sendo moldada e produzida (até os nossos dias) pelo sistema do capital como mega-máquina em escala planetária ao reduzir as sociedades a um significante único: o capital.  Tornou-se ridículo falar em vida "espiritual". Num mundo convertido a condições materiais e semióticas aparentemente eternas,  o fenômeno da nostalgia social dos "bons tempos" surge como uma espécie de arcaísmo: é o caso do futebol brasileiro atualmente jogado e o efeito melancólico sobre a torcida.


A.M. 

AUGUST MACKE


 

domingo, 28 de junho de 2026

PORQUE O AMOR TORNA FRÁGIL


porque o amor torna frágil tudo o que toca

e porque eu mesma não evitei que

tocasse meu corpo

meus ossos

minha respiração

meu sono

por isso temo por mim —

pelo risco de desabar a um

tremor de pálpebras


Mar Becker



 

diante do terremoto terrível na Venezuela

a natureza não tem culpa de nada

não existe desastre natural

só existe desastre social


A.M.

sexta-feira, 26 de junho de 2026

No sertão do Araripe

vive uma mulher que me faz viver

fora daqui

fora de mim

rumo à gente de origem bantu 


e que agora começasse tudo

o rio a mata a pedra o sonho

a vida



A.M.





quinta-feira, 25 de junho de 2026

VELOCIDADE E PODER


DIPLOMATIQUE: O que preocupa o senhor são os limites do tempo humano?


VIRILIO: Sim, é preciso trabalhar sobre a natureza do poder da velocidade atualmente, porque a velocidade da luz é um absoluto e é o limite do tempo humano. Nós estamos no “tempo-máquina”; o tempo humano é sacrificado como os escravos eram sacrificados no culto solar de antigamente. Eu o digo, nós estamos num novo Iluminismo em que a velocidade da luz é um culto. É um poder absoluto que se esconde atrás do progresso, e é por isso que eu afirmo que a velocidade é a propaganda do progresso. Eu não tenho nada contra o progresso. Quando eu digo que é preciso “ir mais devagar”, alguns zombam de mim. Pensam que eu condeno a revolução dos transportes, dos trens, dos carros, dos aviões, que eu sou contra os computadores e contra a Internet. Não é nesse nível que as coisas estão em jogo...

(...)

Trecho da entrevista de Paul Virilio concedida ao Le Monde Diplomatique Brasil em 15/06/2011