terça-feira, 17 de maio de 2022

18 DE MAIO: O DIA DA LUTA


Outrora, houve uma luta. 

Chamava-se antimanicomial. Queria acabar com os manicômios.

Mas não acontecia isolada. A reforma psiquiátrica e o SUS lhe eram parceiras.

Um combate ativo.

Para além dos horrores da psiquiatria manicomial, a luta não era apenas contra os manicômios (os muros visíveis) mas a favor de uma ética do cuidado, dos afetos e a da autonomia social.

No fundo, era contra os muros invisíveis, manicômios da alma.

Houve uma luta.

Muitas frentes de combate, mil práticas clínicas, cem mil experimentações técnicas. 

Loucura!

A política, arte do impossível, era aplicada na veia. 

Hoje, não.

Resta e reina a burocracia do calendário oficial para cumprir festas onde não há mais festa.

Só a apatia dos risos imotivados.


A.M.

ZDZISLAW BEKSINSKI


 

domingo, 15 de maio de 2022

SAÚDE MENTAL: A ÉTICA DO CUIDADO

O conceito de "saúde mental"  constitui a essência da prática de um Caps. Mesmo que não esteja explícito e/ou não operacionalizado, é o que move (ou deveria mover) o trabalho técnico. Vamos tentar descrevê-lo em dez ítens (poderia ser mil, cem mil...). 1-"Saúde mental" refere-se a um bem estar subjetivo inserido no conjunto das circunstâncias (condições) que chamamos de mundo; "mental" não é "cerebral", ainda que o cérebro seja um órgão, digamos, nobre. 2- O mundo é composto de instituições (família, escola, religião, estado, casamento, etc) e daí a saúde mental é avaliada junto ao funcionamento das instituições presentes em cada caso. É um conceito singular e mutável. 3-A saúde mental inclui a saúde do organismo visível (sistema de órgãos) do qual a medicina se ocupa (rins, fígado, coração e demais). Este organismo é essencial, mas não é o objeto da pesquisa e da clínica em saúde mental. 4- Como a psiquiatria é uma especialidade médica, é importante descolar o conceito de saúde da psiquiatria (bom funcionamento do cérebro e adequação aos códigos sociais) do conceito de saúde mental (produtividade social, laboral e autonomia existencial). Dito de outro modo, separar a "saúde do cérebro" da "saúde da mente". 5- O cérebro, óbvio, é um órgão visível, palpável, mensurável. A mente é invisível, impalpável e não mensurável. Quem disser que já "viu, palpou ou mediu" a mente pode estar sofrendo de algum transtorno. 6- A técnica em saúde mental é regida por princípios éticos que valorizam a potência de viver uma clínica das singularidades em cada caso. Dai o uso do diagnóstico como função terapêutica e não como essência cadastrada (CID-10). 7- A posição antimanicomial é apenas um linha de combate que inspira e compõe algumas práticas em saúde mental. Há práticas que não dizem respeito aos muros do manicômio. São linhas invisíveis que combatem microfascismos. 8 - A saúde mental é uma saúde da alma no sentido de lidar com o sem-forma. Ou seja, trabalhar sem crenças a priori (preconceitos), não saber quem é o paciente. Retirar o conceito de exame e por no lugar o de "Encontro", não só com a pessoa do paciente, mas com tudo que lhe rodeia, o determina e o coage. 9- Saúde mental é um conceito que opera situações essencialmente práticas interferindo numa vida e mais que isso, produzindo uma vida. Daí florescer numa ética do Cuidado em oposição às redes institucionais modernas envelhecidas no "cuidado integral". ( corações manicomiais são apenas um dos exemplos). 10 - Concluindo, promover a saúde mental é promover a auto-saúde mental. A implicação numa clínica psicopatológica aberta às determinações (causas) múltiplas do sofrimento mental é a base para um trabalho (duro) no dia-a-dia de um Caps.


A.M.

sábado, 14 de maio de 2022

Reza da manhã de maio


Senhor, dai-me a inocência dos animais

Para que eu possa beber nesta manhã

A harmonia e a força das coisas naturais.


Apagai a máscara vazia e vã

De humanidade,

Apagai a vaidade,

Para que eu me perca e me dissolva

Na perfeição da manhã

E para que o vento me devolva

A parte de mim que vive

À beira dum jardim que só eu tive.


Sophia Amdresen

Rehearsal Claude Pascal - Jiří Kylián (NDT 1 | Sometimes, I wonder)

DEZ  LINHAS  PARA  RECONHECER  UM  FASCISTA

1-O fascista sabe apenas usar um método que é o do fascismo. Este método tem como principal característica um grito: " Viva a morte".

2-Para bem funcionar na prática, o fascismo necessita estar "dentro" das pessoas, dentro de nós. Daí, todo fascismo é um microfascismo

3-Apesar da origem histórica situá-lo na direita, hoje, se ampliarmos nossa visão de mundo, não existe mais fascista de direita ou de esquerda. Existe apenas o fascista e seus cânticos de destruição.

4-O fascista se aproxima do paranóico. No entanto, enquanto o paranóico acaba no manicômio, o fascista vive solto. Às vezes é até um cidadão de bem. Opera ao ar livre, destila um ódio brutal.  Seu delírio é expresso como saudável,  até mesmo salvador do país e quiçá do mundo.

5-O fascista anseia por uma verdade pronta, reta, pura e simplista. Vive de certezas absolutas. Isso o alimenta sem cessar. Sua alma gorda torna-se monstruosa. Sofre de uma espécie de bulimia ideológica.

6-Gosta de raciocinar por dualismos; bem/mal, esquerda/direita, homem/mulher, rico/pobre, louco/normal, negro/branco, bonito/feio. Seu cérebro mente

7-As regras do jogo democrático lhe são quase insuportáveis. No caso brasileiro, o fascista costuma pregar o golpe e a intervenção militar.

8- O diálogo com o fascista é muito difícil. Ele se expressa como pensamento único. Adora um monólogo. O bom senso é um fóssil que cheira mal.  Nazifascistas e estalinistas, velhos amigos, trocam ideias e figurinhas.

9-Os sentimentos fascistas podem conviver sob harmonias bizarras. Hitler amava a sua cadela Blondie.

10-Por fim, mas não menos importante, o fascista costuma atirar para matar em tudo que se move: a vida.


A.M.



quarta-feira, 11 de maio de 2022

A TRAPAÇA UNIVERSITÁRIA

A forma-universidade (e não a organização-universidade) é um conceito da análise institucional que faz pensar a universidade (qualquer uma) como forma de relação social oriunda da Idade Média e "vitoriosa" nos dias atuais. É possível, assim, falar de uma subjetividade acadêmica como produção de sentido. Difícil contestá-la. Sob o respaldo de verdades conceituais prontas (recheadas de princípios) legitima-se a intelectualidade contemplativo-narcísica atual. Apesar disso, ou por causa disso, a realidade dominante é criticada em teses tão brilhantes quanto condenadas ao bolor. É que não se trata do intelecto mas dos afetos. Estes costumam ser aniquilados. Numa operação organizacional urdida em programas de mestrado e doutorado, a forma-universidade escurraça o desejo: devires imperceptíveis, incontroláveis, sensibilidades finas, realidades reais, singularidades múltiplas, intensidades criativas, saberes menores, rebeldias, loucuras não-médicas. A universidade faz da diferença (que é o pensar por si mesmo) uma maldição. Você já discutiu (divergindo) ideias com um acadêmico, um pesquisador, um professor? Melhor não. Trata-se aí de uma representação esperta da realidade social, um teatro moral agenciado pela máquina acadêmica que diz: não afirme nada, não arrisque nada, não sinta, não crie, aceite o que a razão transcendente enfiou no seu corpo desejante. Diga amém ao capitalismo como religião da mercadoria. Apesar disso, algum dia serás doutor em qualquer coisa, tanto faz.

A.M. 

domingo, 8 de maio de 2022

Rehearsal Figures in Extinction [1.0] - By Crystal Pite with Simon McBur...

SOBRE A DIFERENÇA

Pergunta-se o que é a diferença.  A diferença não é o indivíduo, não é a pessoa, não é algo fixo e estável onde se possa ancorar o corpo e a alma exaustos. Nem tampouco é ver, assuntar, medir, pesar, adjetivar, qualificar. Ela não é do campo do substantivo nem do adjetivo, ou de alguma substância dura, pétrea, imóvel, formatada em ideais do valor de troca. Nada a ver com a troca, pilar e essência do capital em seu cortejo mortuário. Tampouco é o ser-diferente, até porque não há o ser. Não é o estranho-em-nós. Já somos de antemão  e suficientemente estranhos, estranhos a nós e ao mundo. Não há, pois, medidas para identificá-la. Ela é desmedida. Quando há cálculos, dão sempre errado, as contas não fecham, tudo se frustra e se decompõe. Ao inverso, bem mais além e aqui mesmo, há somente corpos, corpos de corpos, corpos no interior de corpos, devires, processos, passagens, relâmpagos, vertigens, intensidades, frêmitos, respirações, ardores, ardências, viagens anômalas no mesmo lugar. Da diferença não se alimenta o narcisismo porque também não existe o narcisismo no seu universo, este sim, verso encantado, encantador e cantador em estradas desertas. A diferença é o bicho. Não tem forma, não é identificável pela percepção de representações exatas ou imagens-clichês. A diferença é o bicho na espreita. Percorre o mundo em linhas finas de sensibilidade e arte. Com delicadeza foge de todos os dualismos, de todos os títulos, de todos os senhores, de todas as pátrias, de todas as pretensões e boas intenções da racionalidade, da consciência e do pensamento da autoridade, mesmo a mais admirável e mansa. Brinca com o poder,  a morte e  o amor. Faz disso a própria natureza do seu percurso invisível e silencioso pelos caminhos desconhecidos do encontro. Composta de multiplicidades ingênuas e  encravada na irreversibilidade do tempo, se tece e se faz inglória e pura. Mas quem a suporta?


A.M.

quinta-feira, 5 de maio de 2022

CADÊ OS YANOMAMI?


Um chamado, um grito de desespero.

Vou ser repetitiva hoje, porque é fundamental ser. Repetitiva, porque semana passada escrevi sobre o relatório da Hutukara Associação Yanomami revelando o panorama ilegal do avanço da destruição garimpeira na terra indígena do país. Mas repetitiva porque a pergunta precisa ecoar nas redações, os jornalistas precisam se incomodar, o governo precisa se sentir responsável.

Uma comunidade desapareceu após sofrer ataques de garimpeiros. As casas do local foram queimadas. E não há respostas sobre o que de fato ocorreu ali.

CADÊ OS YANOMAMI?

CADÊ OS YANOMAMI?

CADÊ OS YANOMAMI?

CADÊ OS YANOMAMI?

CADÊ OS YANOMAMI?

CADÊ OS YANOMAMI?

CADÊ OS YANOMAMI?

E o Brasil permanece calado.

Calado pelo desaparecimento de uma comunidade Yanomami. Calado pelas mortes diárias de jovens negros nas periferias das cidades. Calado pelas mortes das mulheres.

Uma menina de 12 anos foi raptada, sofreu violência sexual e não resistiu aos ferimentos. Sua irmã, de 3 anos, foi jogada no rio e nunca foi encontrada. O caso deveria estampar as capas de todos os jornais, mas não ganha destaque porque são crianças indígenas.

E o governo federal é cúmplice dessa violência. Não podemos aceitar que crimes como esse sigam acontecendo!

"A nossa dor é como se não tivesse importância nesse país, mais de 500 anos sofrendo depois da invasão da nossa terra e que nunca parou. Uma comunidade inteira sumiu (ou teve que sumir), após denunciarem que garimpeiros estupraram até a morte uma criança de 12 anos e jogaram outra criança de 3 anos no rio", publicou a Apib - Articulação dos povos indígenas do Brasil.

CADÊ OS YANOMAMI?

CADÊ OS YANOMAMI?

CADÊ OS YANOMAMI?

CADÊ OS YANOMAMI?

CADÊ OS YANOMAMI?

CADÊ OS YANOMAMI?CADÊ OS YANOMAMI?


Mariana Belmont, 5/5/2022

quarta-feira, 4 de maio de 2022

OUTRAS AMPLIDÕES

Se o desejo é recalcado, não é por ser desejo da mãe e da morte do pai; ao contrário, ele só devém isso porque é recalcado e só aparece com essa máscara sob o recalcamento que a modela e nele a coloca. Aliás, pode-se duvidar que o incesto seja um verdadeiro obstáculo à instauração da sociedade, como dizem os partidários de uma concepção de sociedade baseada na troca. Vê-se cada coisa... O verdadeiro perigo não é este. Se o desejo é recalcado é porque toda posição de desejo, por menor que seja, pode pôr em questão a ordem estabelecida de uma sociedade: não que o desejo seja a-social, ao contrário. Mas ele é perturbador; não há posição de máquina desejante que não leve setores sociais inteiros a explodir. Apesar do que pensam certos revolucionários, o desejo é, na sua essência, revolucionário — o desejo, não a festa! — e nenhuma sociedade pode suportar uma posição de desejo verdadeiro sem que suas estruturas de exploração, de sujeição e de hierarquia sejam comprometidas. Se uma sociedade se confunde com essas estruturas (hipótese divertida), então, sim, o desejo a ameaça essencialmente. Portanto, é de importância vital para uma sociedade reprimir o desejo, e mesmo achar algo melhor do que a repressão, para que até a repressão, a hierarquia, a exploração e a sujeição sejam desejadas. É lastimável ter de dizer coisas tão rudimentares: o desejo não ameaça a sociedade por ser desejo de fazer sexo com a mãe, mas por ser revolucionário. E isto não quer dizer que o desejo seja distinto da sexualidade, mas que a sexualidade e o amor não dormem no quarto de Édipo; eles sonham, sobretudo, com outras amplidões e fazem passar estranhos fluxos que não se deixam estocar numa ordem estabelecida. O desejo não “quer” a revolução, ele é revolucionário por si mesmo, e como que involuntariamente, só por querer aquilo que quer.

(...)

G. Deleuze e F. Guattari in O Anti-édipo

ritmo


deixar a previsão de lado e dançar bolero

no carnaval quero é romance


se não pudermos rimar nossos passos

dancemos tango salsa mambo

rock and roll


(o samba fica

para a quarta de cinzas)


Líria Porto