sábado, 20 de junho de 2026


 

existe uma solidão povoada

de ideias sonhos nuvens e luares

habitando o corpo

da cidade silenciosa


onde estão todos?



A.M.

 

A nossa sociedade ocidental contemporânea, apesar do seu progresso material, intelectual e político, dirige-se cada vez menos para a saúde mental, e tende a sabotar a segurança interior, a felicidade, a razão e a capacidade de amor no ser humano; tende a transformá-lo num autômato que paga o seu fracasso com as doenças mentais cada vez mais frequentes e desespero oculto sob um delírio pelo trabalho e pelo chamado prazer.


Aldous Huxley

terça-feira, 16 de junho de 2026

A DIFÍCIL TAREFA

O organismo físico-químico, visível, palpável e mensurável, é o objeto da medicina, onde ela de fato intervêm, e, caso obtenha êxito terapêutico (principalmente por isso), retira mais-valia de poder. No entanto, junto a esse organismo e fora da relação linear causa-efeito, funciona o corpo das intensidades livres. Não é visível, não é palpável, não é mensurável, nem segue os mapas fisiopatológicos vistos em exames por imagem. Distinto da consciência que sempre obedece ordens, ele não obedece, é rebelde e alterna com o organismo fluxos atuais e/ou antigos de afetos nômades. Tampouco é o corpo que a psicanálise entronizou como "a outra cena". São fluxos que impulsionam a vida, que são a vida : potências sem forma. Em face desse real estado de coisas, tal corpo traz grandes dificuldades à pesquisa. Como acessar algo que não se vê, não se toca nem se mede? É que na semiologia clínica há um "corpo que não aguenta mais" e que se expressa em sintomas álgicos (por exemplo, cefaléias crônicas - simbolismo do órgão?) , mas também como multiplicidade de sintomas que chamamos de angústia. Aqui não se trata de usar a psicanálise como doutrina ou método de trabalho, mas de "roubar" deste saber a hipótese de um inconsciente para além da representação de papai-mamãe. Um inconsciente "órfão, ateu e anarquista", inconsciente-corpo.  Difícil a tarefa de mapeá-lo.



A.M

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Não tenho ambições nem desejos.

Ser poeta não é uma ambição minha. 

É a minha maneira de estar sozinho. 


Fernando Pessoa

quarta-feira, 10 de junho de 2026

 

QUE DEUS?


Numa visão a partir de Espinosa crer no Deus da teologia cristã é reproduzir a relação dirigente-comandado,  governante-governado, rei-súdito, patrão-empregado, senhor-escravo, etc;  assim,   o pensamento se mantém prisioneiro de uma relação entre seres humanos, ou,  dito  de  um  modo cristão, numa relação entre pessoas.  Deus seria uma pessoa. No entanto, basta considerar a existência do Infinito tempo-espaço para jogar por terra essa bobagem humanísta. Não há dimensão existencial, espiritual, que se compare em grandeza a finitude humana com  o cosmos. Daí a atitude mais honesta e inteligente (apesar das diferenças) é a do agnóstico, do materialista, do ateu e  do trágico. Pena que a tal "bobagem humanísta" controle tanta gente e produza subjetividades atoladas no medo e na servidão.


A.M.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Quando faltou luz


quando faltou luz

ficou aquele breu e eu

com as mãos tremendo

morta de medo

de tudo se iluminar

de repente


Alice Sant´Anna

 

O  ESCÁRNIO

O que mostra nossa decadência, nossa degenerescência, é a maneira pela qual experimentamos a necessidade de situar a angústia, a solidão, a culpabilidade, o drama da comunicação, todo o trágico da interioridade. Mesmo Max Brod, todavia, conta como os ouvintes eram tomados pelo riso quando Kafka lia O Processo. E também Beckett é difícil ler sem rir, sem passar de um momento de alegria a um outro momento de alegria. O riso, e não o significante. O riso-esquizo ou a alegria revolucionária é o que sobressai dos grandes livros, em vez de angústias de nosso pequeno narcisismo ou terrores de nossa culpabilidade. Pode-se chamar isso de “cômico do além-do-humano”, ou então “palhaço de Deus”, há sempre uma alegria indescritível que jorra dos grandes livros, mesmo quando eles falam de coisas feias, desesperadoras ou terríveis. Todo grande livro opera já a transmutação e faz a saúde de amanhã. Não se pode deixar de rir quando se embaralham os códigos. Se você colocar o pensamento em relação com o fora, nascem os momentos de riso dionisíaco, é o pensamento ao ar livre. 

(...)

Gilles  Deleuze