quarta-feira, 30 de setembro de 2020

A ARTE É ETERNA

Morreu nesta quarta-feira Quino, o cartunista mais internacional e mais traduzido da língua espanhola, e talvez também o mais cativante. Joaquín Salvador Lavado nasceu em 17 de julho de 1932 em Mendoza (Argentina), e tinha 88 anos. Voltara a residir nessa cidade em 2017, cuidado por seus sobrinhos desde que se mudou para lá em novembro de 2017, após a morte de sua esposa, Alicia Colón. O nome de Quino ficará para sempre associado à mais famosa das suas personagens: Mafalda, a garota sábia e respondona.Os pais de Joaquín Lavado eram espanhóis de Fuengirola (Málaga, sul) e emigraram para a Argentina na década de 1930. A humilde família viveu em um círculo algo fechado, a tal ponto que o menino Quino falava em dialeto andaluz até os seis anos.

(...)

Álex Grifelmo, El País, Madri, 30/09/2020, 12:12 hs

ODILON REDON


 

terça-feira, 29 de setembro de 2020

10 ANOS DE CAPS: RELATOS DO TEMPO - 14

21 DE MAIO DE 2013

Do lado direito de quem entrava no Caps, a área verde se mostrava em contraste com a extensão de um corredor largo cuja geografia era simples. Salas de um lado e do outro erguiam trilhos para um andar reto. Este funcionava silencioso, como se diz, lúcido, pragmático, orientado, e estava bem ali. Fincava no peito ingênuo estacas do limite:  normal/anormal, sanidade/loucura. Isso, claro, era invisível. Notei porque vim depois, e a área verde invadiu (numa visão delirantemente bela) o imaginário da saúde mental. Tal invasão se dava ao custo de viagens clínicas em prontuários sobre a mesa. Intensas e secretas, entre um atendimento e outro, elas eram reais, tão reais como a oficina de arte produzindo uma vida leve e doce. Viajava só e tão só no mesmo lugar de psiquiatra para a equipe. Já era muito. Um consultório no corredor, um corredor como via única para decifrar a loucura daqueles dias. Ou os dias daquela loucura serviam para deslocar o foco da análise? Qual o lugar do novo? Manicômios nunca mais? Difícil responder na medida em que as correntes forçadas do pensar marcavam os passos da razão política vinda de fora. E que se dobravam sobre o serviço na busca da publicidade dos méritos privados. Nessa época, a traição à psiquiatria se fez arte de viver numa linha de fuga impossível. Médico, use o disfarce.

 

A.M.


 Rugido


há quem chame melancolia

o rugido tardio das pedras

dinamitadas contra o peito


mas não há por que dizer

restos de estrondo e pólvora

(as coisas são mais que seus nomes)


a mim fere mais

esse burburinho de pássaro

movendo suas asas finíssimas

intocado pelo tempo


Daniela Delias

ROSINHA DE VALENÇA - Consolação,1966

NA CONTRA-CORRENTE

A psiquiatria é um aparelho de poder filhote e subproduto da medicina, por sua vez uma megamáquína em escala planetária que produz, entre outras coisas, a medicalização da vida social. É preciso sempre mais doentes! Tal medicalização implica, antes de tudo, na fabricação de afetos coletivos"baixos" tais como a reverência à figura do médico, o medo à vida (no que se inclui a doença), a crença acrítica nos métodos e na palavra deificada da medicina, e no caso psiquiátrico, a fobia à loucura e à perda do controle sobre si. Assim, o que está em jogo, nas duas formas sociais citadas, é o empreendimento capitalístico voraz de controle massivo sobre corpos e mentes, aplicado pelas vias e veias do inconsciente-fábrica ( importante: a consciência vigil só recolhe os efeitos imediatos das formas de soberania política) a desejar o modo de vida contemporâneo. Ou seja, o capitalismo não apenas como pauperização econômica "natural" eterna e brutal de milhões de pessoas, mas como capital ("simples" relação social) instalado na alma: a servidão imunda.Tudo isso é invisivelmente explícito na vitrine internética e escancarado aos milhões numa sutil fabricação de indiferença e o ressurgir do leito esplêndido para um dualismo esgotado (esquerda versus direita) como é o caso do Brasil atual. De todo modo, voltando ao início desse texto menor, é possível dizer que a psiquiatria e seus psiquiatrizados, a medicina e seus medicalizados, compõem a superfície encantada do apoliticismo hegemônico e a sua correlata substituição pela tecnologia das virtualidades passivas.


A.M.

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Você pode desconfiar de uma admiração, mas não de um ódio. O ódio é sempre sincero.


Millôr Fernandes

domingo, 27 de setembro de 2020

LOUI JOVER


 

 DESAPARECIDA


Ela desapareceu ontem à noite:

Vestia sapatos obscenos

e aparentava a tristeza de um amor sem fim.

Sofre de alguns probleminhas mentais,

consequências de um passado

que não passa mais.

Foi vista pela última vez na noite de ontem,

na porta de sua casa.

Quem souber noti¬¬cias dela,

quem souber seu paradeiro,

por favor não diga nada,

por favor

me deixe em paz



Flávio de Castro

10 ANOS DE CAPS: RELATOS DO TEMPO -13

16 de março de 2013

No cotidiano do Caps a presença de estagiários de universidades e faculdades era cada vez mais notória.Eles em vinham em bandos, inicialmente acompanhados por professores e/ou supervisores. Só que estes em seguida geralmente  sumiam, reaparecendo meses depois para a conclusão da disciplina do semestre. Eu observava tal ciclo meio que com espanto levando comentários não favoráveis à gerência. Era atingido em cheio quando por exemplo um estagiário certa vez me procurou para pedir um paciente "emprestado". Ou em três ou quatro vezes que me pediram (quem?) para conceder uma entrevista cujo objetivo era compor a monografia de conclusão do curso ou o trabalho respectivo da disciplina. Noutra vez a professora me solicitou educadamente para fazer uma roda de conversa com os seus alunos, o que na verdade, era um eufemismo de aula ou palestra. Uma trapaça que recusei. Como psiquiatra, não dispunha de qualquer controle (nem poderia ) destes fluxos de estagiários e representantes da Academia, circulando pelos corredores de um Caps  já atolado nos seus próprios problemas, inclusive os do espaço físico. Ora, estava claro que a atividade essencial da Academia é a de caráter predatório, fornecendo ao aparelho universitário a vampirização calculada dos serviços onde ela passa.  Sem dúvida o objetivo maior era o da obtenção de títulos de mais valia de prestígio, poder e dinheiro no tráfico do conhecimento imaculado. Isso era repugnante mas no fim das contas infelizmente aceito por todos, eu inclusive. Ressalte-se que a universidade era (ou é?) uma manobra institucional legalmente absorvida (ou até louvada por alguns) em seus efeitos danosos ao serviço. Claro, muito menos para o psiquiatra e demais técnicos  e muito mais para o paciente, considerado e tratado como objeto útil à uma ascenção intelectual e acadêmica consolidada.


A.M


FEMINICÍDIO: MAIS UM

Após envenenar sua esposa, Luiz Edivaldo Fernandes da Silva, de 34 anos, respondeu mensagens de familiares e amigos da vítima se passando por ela. Preso por suspeita de homicídio e feminicídio, ele confessou ter colocado uma substância na comida servida a sua mulher durante um jantar. O filho do casal de três meses também morreu ao ser amamentado pouco depois.

A polícia encontrou os corpos de Josieli Lopes, de 36 anos, e seu bebê na madrugada desta quarta (23) no município de Rio dos Cedros, em Santa Catarina. Os cadáveres foram enterrados em uma zona rural logo após o assassinato no último dia 15, desde quando os dois foram dados como desaparecidos.

A família da vítima procurou as autoridades após desconfiar de mensagens enviadas do celular de Josieli, que não teriam sido escritas por ela. Parentes e amigos relataram que foram bloqueados no aplicativo de conversas. O filho mais velho dela, fruto de outro relacionamento, registrou um boletim de ocorrência três dias depois do crime.

A polícia localizou o aparelho no município de Itajaí, onde Luiz Edivaldo estaria hospedado na casa da irmã. Detido, ele confessou que envenenou o molho da carne enquanto preparava um jantar para a mulher na casa em que viviam na cidade de Itapema. O bebê acabou contaminado ao ser amamentado pela mãe.

Amigos relataram que Josieli foi ameaçada pelo marido, que não aceitava a separação. Dois dias antes do crime, o casal teve uma discussão ríspida, e Luiz Edivaldo deixou a residência. Segundo Clarice de Freitas, irmã da vítima, ela disse após o episódio que estava convicta em se separar e que procuraria um advogado. A decisão teria sido motivada pela descoberta de um relacionamento extraconjugal dele.


Rodrigo Castro, Época, 27/09/2020, 05:00 hs

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

IMPACIENTE

Uma clínica da diferença em psicopatologia trabalha para que o paciente deixe de sê-lo. Importante: não é a busca da melhora, da cura, da readaptação ou inclusão social, da reabilitação profissional ou outros conceitos liberais muito vizinhos entre si. Encarar a diferença, ou melhor, encontrar o paciente enquanto diferença é considerar a priori que ele pode deixar de ser paciente. A utopia de tal assertiva dissolve-se num campo virtual de uma política das multiplicidades.Entretanto, antes que tudo isso pareça obscuro, é preciso dizer que as multiplicidades são o real de uma vida. É hábito arrancá-las do paciente em prol da fabricação subjetiva de corpos-zumbis. Ou como trama poderosa urdida nos intelectos acadêmicos em direção a um encaixotamento da alma com verniz farmacológico. Ou, por fim, e talvez o pior, como objeto de lucro e prestígio para corporações profissionais.

A,M.

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Ponto final


O mundo acaba? Talvez sim.

Porém não como supõem

poetas e profetas. Quem 

treme de medo diante dos 

círculos infernais de Dante;

quem teme as trombetas

do Apocalipse; quem geme

de pânico ao pensar nas geenas

e nos seres estrambóticos

de Hieronymus Bosch. Não, 

a ciência é mais sutil e cruel.

Nenhum temor ou tremor

pressupõe o que pode vir

das sinistras conjecturas

dos cosmólogos. Nem água

nem fogo nem horror dantesco.

Colapso universal e absurdo.

O Big Bang ao avesso.

Todas as dimensões contraídas

num ponto único. Ponto

monstruosamente final.


Carlos Machado

EMIL NOLDE


 

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

10 ANOS DE CAPS: RELATOS DO TEMPO - 12

29 de fevereiro de 2012

A psiquiatria-em-mim tornou-se um elemento importante do processo-caps. À medida em que fui conhecendo outros psiquiatras (para além do caps), colegas de praça, academia e mercado, o encontro virou desencontro, ou dito de outro modo, um mau encontro. Nada pessoal.  Até porque nunca conversei mais que 10 minutos com algum colega, muito menos no serviço. Neste, até 2012, foram dois ou três médicos do cérebro. Que captei. As anotações na folha de evolução, os relatos de pacientes, falas em reunião técnica, informações de terceiros, tudo me cheirava absolutamente distante. Um estranhamento rondava minha cabeça como sinapse do mal entendido ou do não sentido. Sequer houve alguma fala, qualquer uma, qualquer atrito, mesmo contingente ou óbvio, que me aproximasse de alguém.  Deixei vazar o silêncio dos negativistas autistas. No Caps, a comunicação com eles, os psiquiatras da vez ( o que é isso?) pelo menos nos dois primeiros anos de trabalho, foi a de um brutal distanciamento de linguagens, perspectivas clínicas e institucionais. O que veio depois (pós 2012)  não fez mais que acirrar um estado de coisas já dito e tido como normal. Sem ressonâncias policiais, ser um agente duplo foi o que me restou no cotidiano da loucura.


A.M.

JOÃO GILBERTO - Saudosa Maloca (1982)

AULAS VIRTUAIS, SALÁRIOS CRUÉIS


“A palavra que melhor define meu momento é desespero”, conta Horácio*, professor da Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, do grupo Laureate, referindo-se à redução de 75% das suas horas de trabalho no atual semestre letivo.

Com mais de oito anos de Anhembi, o professor desabafou em julho num e-mail enviado ao Sindicato dos Professores de São Paulo (Sinpro). “A redução de 24 para seis horas-aula torna o meu sustento inviável, visto que minha única fonte de renda é a Anhembi. É cruel…”.

Enzo, professor de outra universidade do grupo Laureate, a FMU, passou de 21 horas semanais no último semestre para apenas três horas. Ele diz que a maioria dos professores está nessa situação. “Nós estamos recebendo em média R$ 500 por mês".

A redução das horas de trabalho é um dos aspectos de um movimento do ensino superior privado que Celso Napolitano, representante do Sinpro, chamou de “imoral, mas legal”. Napolitano argumenta que cortes de hora-aula e demissões estão ocorrendo em outras universidades privadas país afora. Na Universidade Nove de Julho (Uninove), cerca de 500 docentes foram demitidos no primeiro semestre do ano.

Em uma reunião on-line presenciada pela reportagem, professores contaram sobre a indigesta surpresa que foi saber da demissão por uma mensagem de pop-up na tela do computador ao acessar o sistema. “É emocionalmente pesado, depois de tantos anos trabalhando lá”, contou um deles, sob anonimato.

(...)

A situação toda impactou também a saúde mental de Horácio. Em meio ao entusiasmo de ser professor —“Eu adoro dar aula. Na hora que começa a aula, é uma delícia, é uma maravilha, parece que eu estou em outro mundo”— ele relatou o choque emocional a que foi submetido. “Faço tratamento psiquiátrico faz algum tempo e meu quadro se agravou quando recebi a notícia dessa redução absurda na carga horária”, diz. “A minha angústia e ansiedade aumentaram drasticamente. Comecei a ter até pensamentos suicidas, só pra você ter uma noção do grau que eu cheguei”, desabafa.


Thiago Domenici, El País, 22/09/2020, 21:47 hs


segunda-feira, 21 de setembro de 2020

10 ANOS DE CAPS: RELATOS DO TEMPO - 11

17 de novembro de 2011

Havia pacientes (muitos) que desenvolviam uma relação imaginária com o Serviço. Ou seja, ainda que o tratamento lhes fosse muito benéfico, lentamente usavam o Caps como extensão dos seus corpos. Assim, existir-no-caps era adentrar num território de sentido. Ouvi comentários de técnicos que percebiam (com lucidez) tal situação. No entanto, a prática clínica instituída (não só a farmacológica) fabricava subjetividades crônicas e mais profundamente submetidas ao serviço enquanto espécie de casa, lar, referência para o viver. Alguém falou "meu Caps, minha vida". Isso é relação de transferência institucional, modelo de cuidado que se impôs "naturalmente". Tanto que o procedimento "alta" era encarado com muita dificuldade, fosse pelos pacientes ou pelos técnicos. Tratava-se de uma marca subjetiva que produzia travamentos na relação com o paciente. Se o Caps tinha (ou tem) um movimento clínico para fora dele mesmo, percebi o oposto, um voltar-se sobre si e para si como reprodução adocicada da forma-hospício. Explicar as causas do "desvio" de objetivos requer , para além da clínica, considerar fatores políticos funcionando num regime macrossocial de instituições: a Atenção Básica, o PSF, a Coordenação de Saúde Mental, o Hospital Afrânio Peixoto... entre outras.

A.M.


O  PIAUÍ  RESISTE

E se o Brasil comemorasse a educação como se fosse uma vitória no futebol? Vez por outra essa pergunta circula quando alguém quer apontar a falta de interesse do país pelo tema. Trata-se, no entanto, de uma falsa premissa. Esse Brasil, que torce pela educação e festeja cada pequena vitória como se fosse um gol, existe. Mesmo em tempos de pandemia, cidades do interior do Piauí interromperam por um momento o foco na contagem de casos de coronavírus para celebrar, com carreatas e buzinaço pelas ruas, cada décimo de avanço no Índice Nacional de Educação Básica (Ideb), o principal marcador da qualidade do ensino brasileiro.

“A gente comemorou muito no grupo de WhatsApp da escola, mas não fui para rua”, conta Vanessa de Carvalho Oliveira Lima, 15 anos, que mora a cerca de 12 quilômetros do centro de Oeiras, antiga capital do Piauí, numa comunidade rural. A distância atrapalhou Vanessa, mas no centro da cidade, o cenário foi outro. Pais, professores, alunos e funcionários da rede pública saíram em carreata para celebrar.

Educação é motivo de orgulho neste município piauiense de 37.000 habitantes. A rede municipal, que tem 6.139 alunos, alcançou nota 7.4 nos anos iniciais (5º ano) do Ideb, um avanço em relação aos 7.1 da prova anterior, em 2017. Todas as escolas registraram nota acima de 6.4 nos anos iniciais do ensino fundamental, superior à média do Piauí (5.7), à média nacional (5.9) e muito acima do definido no programa de metas do Ministério da Educação (5.0). Nos anos finais (9º ano), a cidade também avançou, de 5.4 para 6.3, acima da média do Estado (5.0) e do Brasil (4.9).

(...)


Diago Magri e Regiane Oliveira, El País, 21/09/2020, 12:08 hs

domingo, 20 de setembro de 2020

Não se sinta só, o Universo inteiro está dentro de você.

Rumi

LOUI JOVER


 

10 ANOS DE CAPS: RELATOS DO TEMPO - 10

21 de setembro de 2011

Pouco antes de deixar Salvador (2010), conversando com  o colega Antonio Nery, lhe perguntei: “estou indo para Conquista, e deverei trabalhar num Caps:   se fosse você, preferiria atuar num Caps II ou no Ad?”. Ele me respondeu: “olha, Moura,sem pensar muito, um Caps Ad seria bem mais interessante para você; o trabalho envolve muitas questões sócio-culturais,o que faz da clínica e da pesquisa campos de um aprendizado rico”. Trabalhei no Caps Ad por cerca de 1 ano e meio. Ia só uma vez por semana, já que nos outros dias estava no Caps II. Frequentava as reuniões técnicas e depois atendi pacientes no mesmo horário da reunião. Aos poucos notei ser pouco produtivo ir só uma vez por semana. Além do mais, o Caps II aumentara a demanda... e então deixei o Ad. Resumindo, essa experiência (ainda que breve) expôs a extrema complexidade da "clínica das substâncias", onde os vetores psicossociais são a “essência” dos problemas. Isso pode parecer uma obviedade, mas, lembrando Nery na sua sabedoria,  a experiência, sim, pode ser muito rica mas as soluções muito pobres. 

A.M.

Os Três Mal Amados

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto, mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.


João Cabral de Melo Neto

CHICO CÉSAR - Mama África

sábado, 19 de setembro de 2020

UMA SÓ VOZ PARA O SER

Com efeito, o essencial na univocidade não é que o Ser se diga num único sentido. É que ele se diga num único sentido de todas as suas diferenças individuantes ou modalidades intrínsecas. O Ser é o mesmo para todas estas modalidades, mas estas modalidades não são as mesmas. Ele é "igual" para todas, mas elas mesmas não são iguais. Ele se diz num só sentido de todas, mas elas mesmas não têm o mesmo sentido. É da essência do ser unívoco reportar-se a diferenças individuantes, mas estas diferenças não têm a mesma essência e não variam a essência do ser como o branco se reporta a intensidades diversas, mas permanece essencialmente o mesmo branco. Não há duas "vias", como se acreditou no poema de Parmênides, mas uma só "voz" do Ser, que se reporta a todos os seus modos, os mais diversos, os mais variados, os mais diferenciados. O Ser se diz num único sentido de tudo aquilo de que ele se diz, mas aquilo de que ele se diz difere: ele se diz da própria diferença.

(...)

G. Deleuze in Diferença e Repetição 

O PROBLEMA DO SUICÍDIO É O DA VIDA

O problema do suicídio geralmente é mal colocado, principalmente pela corporação psiquiátrica. Guiada por um pensamento tosco e reducionista, ela apropria-se de um objeto de pesquisa complexo, só compatível com uma abordagem transdisciplinar. Desse modo, é possível, sem muito esforço, escutar um monte de asneiras do tipo "todo suicida tem algum transtorno mental". Ora, isso não explica nada! O chamado transtorno mental é que deve ser explicado... 


A.M.


 

1964?

A equipe responsável pela segurança do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na visita a Mato Grosso nesta sexta-feira (18) impediu o trabalho dos profissionais de jornalismo da TV Centro América, afiliada da Globo.

Um dos compromissos do presidente era numa fazenda no município de Sorriso. Jornalistas acompanhavam o evento, mas um dos seguranças reconheceu a repórter Mel Parizzi e o cinegrafista Idemar Marcatto como funcionários da emissora. Os dois jornalistas foram conduzidos para fora da fazenda.

A Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), a Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner) e a Associação Nacional de Jornais (ANJ) divulgaram uma nota de repúdio à censura imposta à equipe da TV Centro América.

As associações ressaltaram que, de forma arbitrária, os agentes permitiram a entrada de outras equipes de reportagem e impediram a equipe da TV Centro América, sob ameaça de prisão.

A Abert, a Aner e a ANJ destacaram que qualquer tipo de censura cerceia o direito constitucional da sociedade de ser livremente informada.

A assessoria do Palácio do Planalto foi procurada, mas não respondeu.


Por TV Globo, 19/09/2020

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

pôr de lua


estou naquela fase

cheia de resumo


foge-me o verso

a rima escapole-me


peço a são jorge

lave-me leve-me


love me



Líria Porto

MINJAE LEE


 

10 ANOS DE CAPS: RELATOS DO TEMPO - 9

31 de agosto de 2011

Em tempos idos do hospital psiquiátrico, eu já não gostava de festas para e com os pacientes. São João, Natal, Carnaval, entre outras, me pareciam modos de segregação social disfarçados em sentimentos de piedade. Eram dispositivos que fabricavam (explicitamente) cenas da subjetividade manicomial. No Caps isso continuava e trazia a sensação do "já visto". Pacientes dançando, sorrindo, brincando, não evitavam a exposição da sua doença (ou transtorno) como sendo o rosto das festas. Sim, as festas tinham uma rostidade, uma aparência estanque. Talvez me agradasse muito mais o rosto da não-festa, o rosto permanente do cotidiano do mundo não travestido em objeto da psiquiatria. Contudo, não me interessava o objeto da psiquiatria nem mesmo o sujeito da psiquiatria (os psiquiatras como um bando) e sim o acontecimento psicossocial que escorria para além dos muros invisíveis do Caps. Tais pensamentos errantes compunham a ideia de ser não sendo (cultivo do paradoxo?) um mero psiquiatra passador de receitas. Ora, se a reforma psiquiátrica incutiu em todos nós o gosto de questionar o manicômio, herdamos o hábito de monitorar risos, ainda e principalmente os imotivados. Como nas festas.

A.M.




O silêncio é a expressão mais verdadeira e efetiva das coisas inomináveis. E a tomada de consciência de que há determinadas experiências para as quais a linguagem não serve, ou que a linguagem não alcança, é um traço decisivo do conhecimento. Nesse sentido, tradições como a cristã, em que o silêncio é muito importante, tornam-se reveladoras: a sabedoria dirige-se a compreender o que não se pode dizer, o que transcende a linguagem. Nessa mesma tradição, o silêncio é uma via de aproximação de Deus, o que também se pode interpretar como um conhecimento. Podemos utilizar o silêncio para nos conhecermos melhor, para nos distanciarmos do ruído. E este é um valor a reivindicar no presente.

(...)

David Le Breton, 2018

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

meu bem que bom
que você não é
homem

meu bem que bom
que às vezes
você é


Dimitri BR

Johnny Alf e Alaíde Costa - "Ilusão à toa" - 1969

10 ANOS DE CAPS - RELATOS DO TEMPO - 8
15 de junho de 2011


As visitas domiciliares eram um momento especial. Essa foi solicitada pelo Ministério Público. Estavam o motorista, um psicólogo, uma enfermeira e eu. Num bairro periférico de Vitória da Conquista a procurar o endereço. Era um lugar muito precário, ruas em chão batido. Havia restos de lixo a céu aberto no quintal e na entrada da casa. Pouco antes, avistamos um jovem andando só com aspecto de estar alheio ao em torno.Depois soubemos que era o próprio paciente... Dona Maria (nome fictício), a mãe, nos recebeu do lado de fora da casa com um leve sorriso. Um de nós perguntou:" -como está a senhora, dona Maria?" Ela respondeu :" - como Deus quer.". Explicamos o motivo da visita, pedimos licença para entrar. Numa manhã ensolarada o interior da casa era escuro. Eu andei um pouco na pequena sala, enquanto o psicólogo e a enfermeira conversavam com dona Maria. Eram cerca de 10 da manhã. Olhei em torno, divisei a pequena cozinha e não vi sinal de comida. Do lado direito havia um quarto semi-aberto e parecia que alguém estava ali deitado. Dona Maria explicou que era a sua filha (muito jovem) que sofria de um grave problema neurológico e não podia sair da cama.Ainda obtivemos alguns dados sobre o filho, o que estava perambulando pela rua (objeto da solicitação para uma avaliação psiquiátrica). Ele não aceitaria conversar. Agradecidos, nos retiramos. Na volta ao Caps, a frase de dona Maria "como Deus quer" ainda ressoava na minha mente. E talvez na dos colegas.Não lembro exatamente como ocorreu, mas isso se tornou o centro de um pequeno debate no grupo. "Como Deus quer? Como assim? E Deus quer isso? Que Deus é esse que quer isso? Por que dona Maria pensa assim? Sempre será assim?" e tantas  questões, perguntas sem respostas, angústias e um horror contido. De volta ao Caps,  imagino que cada um, à sua maneira, ficou mexido com aquele encontro.

A.M.
I. N. S. S. = Infelizmente Não Sabemos Servir


Médicos recusam retomada afirmando que agências não foram aprovadas em inspeção; INSS diz que grande parte das agências apresentaram problemas estruturais relativos à perícia, mas não aos protocolos em relação à Covid-19.

A reabertura das agências do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) instaurou uma queda de braços entre o órgão e médicos peritos – em que sofrem os segurados. Isso, em meio à pandemia do novo coronavírus e restrição de atendimentos presenciais por quase seis meses.

Enquanto os profissionais da saúde acusam o INSS de não terem feito as adaptações necessárias nas agências para receber os segurados, em ambiente que gera aglomeração e tem público em grande parte idoso, o órgão aponta que os peritos pedem melhorias que estariam além do escopo de prevenção da Covid-19.

Mesmo algumas poucas agências cujos protocolos foram aprovados pelos peritos, no entanto, não retomaram a perícia médica.

Em nota ao G1, o INSS admite que "algumas agências" não atendiam todo o protocolo exigido pela Perícia Médica Federal, mas foram retiradas da lista dos locais que abririam na última segunda-feira (14) e retornarão assim que todos os protocolos forem atendidos, "da forma mais célere possível".

"Informamos ainda que grande parte das agências apresentaram problemas estruturais relativos à perícia, mas não aos protocolos de segurança em relação à Covid-19, como é o caso de rota de fuga para o perito, o que não impede a abertura para os demais serviços que foram oferecidos normalmente desde a manhã desta segunda-feira: cumprimento de exigência, justificação administrativa, avaliação social e reabilitação profissional", diz o INSS em nota.

O INSS promete inspeções em conjunto com a Secretaria Especial de Previdência e Trabalho, que representa a Perícia Médica Federal, nas salas de perícia médica entre esta terça e quarta-feira (16). O órgão não informa, contudo, quando pretende retomar plenas atividades - e os peritos contestam essas novas inspeções.
(...)

Marta Cavallini e Raphael Martins, G1,16/09/2020, 02:00 hs

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

10 ANOS DE CAPS: RELATOS DO TEMPO - 7
4 de abril de 2011

Eu fazia o trabalho clínico do psiquiatra da equipe e não do psiquiatra na equipe. Tal distinção seria fundamental adiante. Fui percebendo um "q" de cronificação não apenas dos pacientes mas de todo o dispositivo Caps. E eu estava nele, pongado nele, vivendo nele, ainda que me alentassem discursos progressistas em nome de uma esquerda cansada e decadente. Nesse ponto, a política e a micropolítica se misturam-em-mim na produção de uma subjetividade individuada no médico. Crise de identidade profissional? Não, a crise era parte do processo, ela era o que movia forças de um coração inquieto. Um eu-profissional vagava entre as ideias libertárias e os pesadelos da burocracia perversa. O que restaria, então, de mim, senão o servidor público estarrecido ante a dor clonazepínica? Um gota-a-gota no cotidiano espetaculoso anunciava a maravilha que era o Caps. Isto chegou ao modo político disfarçado pelas boas intenções do partido no poder. Mas o poder não tem partido. Assim, me vi dentro de uma armadilha-delícia em prol dos "humilhados e ofendidos". Não recuso a co-responsabilidade.

A.M.  

domingo, 13 de setembro de 2020

Rehearsal Silent Tides - Medhi Walerski (NDT 1 | Endlessly Free)

EXTREMISMOS

Os protestos contra as medidas de combate ao coronavírus vêm ganhando força em toda a Europa, alimentadas pelos movimentos das teorias conspiratórias e os grupos extremistas que tratam de explorar os temores e frustrações provocados pela pandemia. Aproximadamente 50.000 negacionistas do coronavírus se reuniram no final de agosto em Berlim. Centenas tentaram irromper no Parlamento alemão enquanto agitavam a bandeira imperial de antes de 1918. No começo de setembro, 13 pessoas foram detidas na praça Callao, em Madri, numa manifestação similar. Os manifestantes antimáscaras portavam cartazes que diziam que “as máscaras matam”, “queremos ver o vírus” e “o que mata é o 5G”.
Para preparar meu novo livro, Going dark – the secret social lives of extremists (“Tornando-se sombrio – a vida social secreta dos extremistas”, inédito no Brasil), me infiltrei por dois anos em uma dúzia de movimentos extremistas: aderi a um grupo de piratas informáticos do Estado Islâmico, me deixei recrutar por neonazistas, assisti a reuniões secretas com nacionalistas brancos para elaborar estratégias e participei de chats com mulheres misóginas. Também entrei nos movimentos conspiratórios que hoje impulsionam os protestos relativos à covid-19. Aprendi que não existe um perfil concreto que seja mais propenso a cair nessas redes: deparei-me com pessoas de todas as faixas etárias, classes sociais e níveis educativos. Entretanto, o que ficou muito claro foi que estamos todos mais suscetíveis a teorias da conspiração e ideologias extremistas quando atravessamos épocas de crise pessoal ou coletiva.
(...)

Julia Ebner, El País, 13/09/2020, 1128 hs
Só o inimigo não trai nunca.

Nelson Rodrigues

sábado, 12 de setembro de 2020

As Time Goes By - Casablanca - Delphis Fonseca - Legendado

A DIREITA NO PODER

A direita, desde os avoengos, existia quando alguém (não uma pessoa, mas um coletivo) sentia a necessidade de argumentar (ou sofria o pavor) em face dos processos do afeto ou seja, dos devires: o inconsciente, não dentro do cérebro mas como campo social. Esse fato tem um alcance histórico-social que compõe a "evolução" da humanidade, sem dúvida, um pesadelo que não acaba nunca. Assim, a direita começa desde sempre como aquilo que freia os devires. Usamos esse conceito no plural porque não existe um devir único, universal para todos. Pensar assim é contrariar a natureza dos devires, toda ela grávida de criação ilimitada num tempo irreversível. Os devires constituem então o real em si mesmo, compondo mil territórios, cem mil, milhões de funcionamentos da subjetividade em qualquer região do planeta. Ora, já que é impossível, numa análise dos signos do real (as linguagens) abarcar toda a amplitude desses tempos irreversíveis, resta operar uma peneira no caos da existência e estabelecer alguma verdade potencial, atuante, fragmentária e alegre.Tais pressupostos filosóficos não são abstratos, e sim ferramentas que fraturam os aparelhos de tortura da direita, por exemplo, no campo psiquiátrico. Aí, neste campo complexo e essencialmente ético-político, a ideação tosca da clínica psicopatológica da psiquiatria atual se expõe servilmente ao funcionamento do capital (mais, mais lucro, mais poder, mais controle...), gerando monstruosidades éticas em nome de um conceito espúrio de saúde mental. De volta ao início desse breve texto, a direita traça a linha performática das boas intensões administrativas na esteira de um cientificismo à la Comte. O discurso da saúde coletiva (e do SUS, óbvio) é escorraçado como delírio incurável.

A.M.
NÃO HÁ MAIS FORA

A passagem da sociedade disciplinar à sociedade de controle se caracteriza, inicialmente, pelo desmoronamento dos muros que definiam as instituições. Haverá, portanto, cada vez menos distinções entre o dentro e o fora. Trata-se, efetivamente, de um elemento de mudança geral na maneira pela qual o poder marca o espaço, na passagem da modernidade à pós-modernidade. A soberania moderna sempre foi concebida em termos de território – real ou imaginário – e da relação desse território com seu fora. É assim que os primeiros teóricos modernos da sociedade, de Hobbes a Rousseau, compreendiam a ordem civil como um espaço limitado e interior que se opõe à ordem exterior da natureza, ou que dela se distingue. O espaço circunscrito da ordem civil, seu lugar, se define por sua separação dos espaços exteriores da natureza. De modo análogo, os teóricos da psicologia moderna compreenderam as pulsões, as paixões, os instintos e o inconsciente metaforicamente, em termos espaciais, como um fora no âmbito do espírito humano, como um prolongamento da natureza bem no fundo de nós. A soberania do indivíduo repousa, aqui, em uma relação dialética entre a ordem natural das pulsões e a ordem civil da razão ou da consciência. Por fim, os diversos discursos da antroposofia moderna sobre as sociedades primitivas funcionam, freqüentemente, como o fora que define as fronteiras do mundo civil. O processo de modernização repousa nesses diferentes contextos, na interiorização do fora da civilização da natureza.No mundo pós-moderno, entretanto, essa dialética entre dentro e fora, entre ordem civil e ordem natural chegou ao fim.
(...)

Michael Hardt

John Cage - Dream (1948)

Os sonhos teus vão acabar contigo

Os sonhos teus vão acabar contigo.
O interesse pela vida austera
Irá desaparecer feito fumaça. Então
Desejos e paixões irão murchar,
O mensageiro do céu não virá a correr
Nem a juventude do ardente pensar…
Pára, meu amigo, de tanto sonhar,
Exime o entendimento de morrer.


Daniil Kharms - 4 de outubro de 1937

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

NON SENSE


No trabalho clínico em saúde mental, a fala do técnico deve evitar o emprego do senso comum e/ou do bom senso. Isso desfigura a relação de ajuda, tornando-a mero simulacro de relações de poder como a do juiz ("eu julgo"), a do policial ("eu prendo), a do professor ("eu ensino"), a do sacerdote (eu salvo"), bem como as da família, resumo e condensação das anteriores, aquilo que a psicanálise (ícone do familiarismo) expôs ad nauseam. O técnico em saúde mental não é mais do que um facilitador dos processos existenciais de expansão da vida e do aumento da potência de agir, como diz Espinosa. Isso posto, a psicoterapia como técnica está ao alcance de qualquer um, desde que ultrapasse a fronteira dos valores instituídos da moral burguesa e institua a ética da alegria no próprio meio (caos) contemporâneo. Tarefa difícil, complexa e inglória, reservada  aos que se deixam atravessar por uma espécie de"solidão povoada", método em que a arte é o que move, o que impulsiona, o que vibra, e o que faz viver sem garantias ilusórias. Trata-se, enfim, de encarar o real e mais ainda, de fazer o real.

A.M. 

ALEXEY SLUSAR


Resumo do outono

No cofre da tarde, cada pássaro é um ponto de lembrança. Às vezes, surpreende que o fervor do tempo retorne, sem que um corpo retorne, e sem motivo retorne; Que a beleza, tão breve em seu amor violento, mantenha um eco na descida da noite.

E então, o que mais poderia estar com os braços para baixo, o coração empilhado e aquele gosto de poeira que era rosa ou vermelha. O vôo excede a asa. Sem humildade, sabendo que o que resta é conquistado na sombra pela obra do silêncio; que o galho em sua mão, que as lágrimas escuras são herança, o homem com sua história, a lâmpada que brilha.

Julio Cortázar
10 ANOS DE CAPS: RELATOS DO TEMPO - 5
3 DE MARÇO DE 2011

A paciente trazia uma típica história psiquiatrizada. Passara por vários psiquiatras e um deles (ou todos?) lhe dissera que ela tinha esquizofrenia. Íris, (nome fictício), com 48 anos, era atendida a cada 30 dias. As consultas duravam de 30 a 50 minutos. Falava muito, era teatral, contava histórias da sua vida, vicissitudes, desventuras, violências, dramas, traumas, mudanças, mortes, enfim, um louco percurso. A tragédia humana me chegava na voz-expressão daquela mulher forte. Na sua fala o diagnóstico de esquizofrenia sempre voltava à cena, a reafirmar que "tinha esquizofrenia". Certa vez, ao dizê-lo, quis a minha confirmação: "Dr. o sr. também  não acha que eu tenho esquizofrenia?". Eu disse que não sabia, não tinha ainda um diagnóstico firmado, mas que um dia provavelmente eu teria. Na verdade, eu já achava que ela "não tinha esquizofrenia", mas em face da subjetivação violenta que a máquina psiquiátrica lhe incutira na alma preferi aguardar. Usei um certo tempo para trabalhar a relação psiquiatra/paciente no sentido de criar condições técnicas para enunciar a Resposta. Esta seria contrária ao diagnóstico-sentença já consagrado. Como Íris voltava frequentemente ao tema ("porque sei que tenho esquizofrenia"), certa feita, achei que o momento, enfim, chegara. "Olha, Íris, quero lhe dizer uma coisa: é sobre esse diagnóstico que você tanto fala. Hoje eu lhe respondo ao que me perguntou: não, não, você não tem esquizofrenia". Ela fez uma cara de espanto e perplexidade. "O sr. tem certeza, dr?" Respondi que sim, que tinha certeza. E repeti: "Você não tem esquizofrenia!". Ela ficou alguns segundos em silêncio, assentiu com a cabeça e disse: "Tá bom, doutor, eu vou acreditar por que é o sr que está me falando. Mas, o que posso dizer é que sei que tem alguma coisa errada comigo".


A.M.
Há 19 anos

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Marca a hora o relógio; mas, o que marca a eternidade?

Walt Whitman

O FUTEBOL COMO EXPERIÊNCIA ESTÉTICA

A DIFERENÇA NA SAÚDE MENTAL - II


Para discutir a diferença na saúde mental há uma questão conceitual básica. A "mente" não é o cérebro. Ninguém nunca viu a mente, ninguém nunca pegou, mediu ou pesou a mente. Lidamos com um objeto abstrato, ou seja, com o sem-forma. Para acessá-lo, o método científico da psiquiatria  não só é limitado como muitas vezes se faz nocivo ao paciente. É que em função do lugar de poder que ocupa, o discurso psiquiátrico produz verdades subjetivadas como transtorno mental. Num quadro conceitual que representa a saúde mental como saúde do cérebro, como inserir a diferença? Ora, a diferença concebe a mente enquanto mundo, já que o mundo não tem uma forma única, não tem modelo. Ao contrário e bem mais, o mundo é composto de processos sociais (forças) que se cruzam, se aliam, se destroem, se alimentam, configurando o que chamamos de inconsciente-produção no sentido em que Deleuze-Guattari trabalham. A diferença está imersa no inconsciente. Mais: ela é o próprio inconsciente, bem entendido, não o psicanalítico, mas o inconsciente como o sem-forma (a mente) que se corporifica em práticas sociais concretas (a clínica) tudo isso em incessante produção (os devires).

A.M. 

Rehearsal Vanishing Twin - Jiří Kylián (NDT 1 | Sometimes, I wonder)

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

ISSO NÃO PÁRA

Os advogados Frederick Wassef (que representou a família Bolsonaro), Cristiano Zanin (Lula) e Ana Tereza Basílio (Wilson Witzel) são alvos de nova fase da Operação Lava Jato, nesta quarta-feira (9). Bolsonaro, Lula e Witzel não são investigados nesta operação.

A Operação E$quema S investiga desvios de pelo menos R$ 150 milhões do Sistema S do RJ por escritórios de advocacia no Rio e em São Paulo, para propinas a agentes públicos.

A operação é baseada em uma delação premiada de Orlando Diniz, ex-presidente da seção fluminense do Sistema S -- que engloba Fecomércio, Sesc e Senac.

O juiz federal Marcelo Bretas expediu 50 mandados de buscas e apreensões -- não há mandados de prisão -- e aceitou a denúncia do Ministério Público Federal (MPF), tornando rés 26 pessoas (veja a lista abaixo) . O MPF não informou todos os alvos das buscas desta quarta.
(...)

TV Globo e G1, Rio, 09/09/2020, há oito minutos

terça-feira, 8 de setembro de 2020

TYRANNUS MELANCHOLICUS


Menina feia

Entre as outras crianças que brincam
Ela faz lembrar uma rãzinha.
A blusa feia enfiada nos calções,
Os anéis arruivados dos cachos
Desgrenhados, a boca longa, os dentinhos tortos,
Os traços do rosto agudos e feios.
Para dois menininhos da mesma idade dela
Os pais compraram uma bicicleta pra cada.
Hoje os meninos, sem se apressar pro almoço,
Pilotam pelo quintal, esquecidos dela,
Mas ela corre atrás deles, em seu rastro. 
A alegria alheia, tanto quanto a sua própria
A exaure, e explode para fora do coração,
E a menina regozija e ri,
Capturada pela felicidade da existência.
Nem sombra de inveja, nem mau desígnio
Ainda não conhece esse ser.
Para ela tudo no mundo é tão incomensuravelmente novo!
É tão vivo tudo que para outros está morto!
E eu não quero pensar, ao observar,
haverá um dia em que ela, soluçando,
Verá com terror que entre suas amigas
Ela é somente uma pobre feiosinha!
Eu quero crer que o coração não é um brinquedo,
Mal se pode parti-lo de repente!
Eu quero crer que essa chama pura
Que arde no fundo dela,
Curará sozinha toda a sua dor
E derreterá a pedra mais pesada!
E mesmo que os traços dela não sejam belos
E ela não tenha com que seduzir a imaginação,
A graça infantil da alma
Já lhe perpassa todos os movimentos.
Mas se isso é assim, então o que é a beleza,
E por que as pessoas a idolatram?
Ela é um jarro, no qual há um vazio,
Ou um fogo, cintilando em um jarro?


Nicolai Zabolótzki 

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

As  bases  da  subjetividade
                                           
A clínica das  multiplicidades necessita problematizar  a origem dos  chamados  transtornos mentais e propor  uma  teoria  da  subjetividade. Desse  modo, considera  o conceito  de subjetividade a  partir do contexto   sócio-cultural onde se  insere o indivíduo.  Em tempos atuais, tal  contexto  está plenamente  identificado   com a  realidade do  capital   .  O registro é  o das  relações sociais   onde  tudo  começa, mesmo  o  nível  biológico. A título de esquematizar a discussão, o “subjetivo” é  colocado   como um modo  de expressão do indivíduo. Ora, tal posição se ancora em três vetores. Primeiro, o dos  processos  físico-químicos  que se  subdividem em fatores  genéticos, orgânicos, bioquímicos, etc. O segundo, marcado pela  história psíquica, inclue  valores e significados que o paciente  atribui  a   si  mesmo  e  à Realidade.  O  terceiro  compreende a   instância do socius (papéis  sociais)  por  sua vez  determinada  pelo funcionamento das  instituições  (o cultural-em-nós).A proximidade destes fatores com o clássico  tripé  bio-psico-social é evidente. O que não é evidente  é  a linha  de fronteira entre  eles. Onde   termina o   bio? onde  começa   o psi ? e o  socius?   ou  o inverso...  Não obstante, limites frouxos  podem  ser úteis  para  uma  visão  transdisciplinar  do  problema. Nosso interesse  é, pois,   a subjetividade, o que   parece não interessar  à  psiquiatria, marcada pelo isolamento  do  cérebro  como objeto de   pesquisa.  Não  parece ser , mas é. Na verdade, a psiquiatria se  ocupa, sim, ainda   que por   meios  enviesados,  da  subjetividade para melhor adestrá-la a  dogmas cientificamente  respaldados e  interesses  concretos. Temos então  uma  subjetividade-doente-mental (ou portador-de-transtorno-mental) que se  constitui como um a priori da epistemologia  psiquiátrica. Um  “já  estar  lá”.  Uma  clínica das  multiplicidades  é  outra  coisa:  busca  trabalhar como  produção e  não  como produto. Isso constitui  um olhar  sobre  o doente que  difere  em natureza  do olhar psiquiátrico. Em outros  termos, o interesse  da  psiquiatria estabelecida  sobre a  subjetividade é fruto de  investimentos  (econômico-desejantes) no campo  do  biopoder  . Assim, o   primeiro  passo para uma  outra compreensão  da  subjetividade seria  o de  efetuar uma  espécie  de  descolamento do  conceito  de indivíduo. É  que  a  forma-indivíduo  cola   na  figura  do  doente mental a “confirmação” visível de  um suposto  mau funcionamento do  cérebro. Tal fato acaba por ocultar  o pressuposto  teórico que  sustenta   tal   enquadre metodológico.  Não partimos do indivíduo e sim dos processos  subjetivos. Evidentemente estes  incluem  o cérebro  já que, como multiplicidades,   são   o real  em si  mesmo.  É  uma opção  metodológica  com implicações éticas,  políticas e  clínicas.

A.M.

7 DE SETEMBRO


domingo, 6 de setembro de 2020

CADÊ AS TORCIDAS?

Tem alguma coisa errada aí, talkei?, como diria o nosso presidente.

Se no Brasil tudo avacalhou geral, como se a pandemia já tivesse acabado, ou nunca existido, e a vida voltou ao "novo anormal", por que só os estádios de futebol continuam interditados para as torcidas?

Os clubes também não precisam de renda para pagar os altos salários dos seus jogadores e a manutenção dos seus estádios, centros de treinamento e todo o circo que gira em torno do futebol? Como ficam os vendedores de churrasquinho, camisas e bandeiras?

Me sinto um idiota, confinado há mais de seis meses em casa para respeitar a quarentena dos grupos de risco, e com todo mundo sem máscaras se esbaldando nas praias, nos botecos e nas quebradas, como se não houvesse amanhã.

Igrejas, cinemas, teatros, casas de shows, pet shops e academias estão cheios de gente, já reabriu tudo, na maior festa do caqui, mas eu não posso ir ao estádio ver o meu time jogar. Qual é a lógica, Juca Kfouri?

Ver um jogo pela TV com o estádio vazio é a mesma coisa que assistir a um desfile de escola de samba com as arquibancadas desertas, tomar cerveja sem álcool e fumar sem tragar. Não tem graça. São as torcidas que dão vida, alma e alegria ao futebol.

Em vários países da Europa, com todos os cuidados e lotações limitadas, as torcidas já voltaram a ocupar seus lugares, e não se tem notícia de nenhuma tragédia.

Acho estranho que cartolas, boleiros e meus amigos da crônica esportiva ainda não tenham falado dessa injustiça com o futebol. Silêncio total.

Ainda não vi até agora nenhuma noticia sobre algum estudo de viabilidade ou providência que está sendo tomada para a reabertura dos estádios, no momento em que até as escolas estão voltando às aulas presenciais em todo o Brasil, e o presidente viaja pelo país promovendo aglomerações em sua campanha reeleitoral.

Por que só as torcidas de futebol têm que esperar pelas vacinas?

Se ninguém é obrigado a tomar vacina, também ninguém será obrigado a ir a um estádio ver o seu time.

Só quem está ganhando com isso são as TVs pagas, que vendem caros pacotes do pay-per-view e transmitem jogos de futebol todos os dias, dia e noite.

Futebol para mim não é só o jogo. Ganhando ou perdendo, é uma festa que começa no churrasquinho de gato e na cerveja, o encontro com os amigos e as brincadeiras com os torcedores do outro time.

De vez em quando, sai uma briga, vá lá, mas isso também faz parte do ritual. É diferente de assistir a uma ópera pelo zoom.

Faço aqui um apelo para que liberem a volta das torcidas aos estádios.

Já nos tiraram tantas coisas, devolvam-nos pelo menos essa alegria.

Vida que segue.

Ricardo Kotscho, UOl, 06/09/2020, 14:46 hs

Dick Farney e Lúcio Alves - Tereza da Praia

MULHERES QUE SE MATAM

Caroline, 28, já foi hospitalizada três vezes por risco de suicídio, devido a fortes crises de depressão. A última foi em fevereiro deste ano, quando ao dar entrada numa unidade de saúde sozinha, foi colocada pela equipe médica num leito e recebeu atendimento de seu psiquiatra, para estabilizá-la e conversar.
Formada em letras e vivendo em São Paulo, ela, que pediu para não colocar o nome completo, conta que se sentia mal por não estar trabalhando nem conseguir realizar as tarefas domésticas. "Ou seja, por não ter planos nem perspectivas, tanto em casa quanto fora dela", diz.
Dados do Ministério da Saúde mostram que houve um aumento de 50% na taxa de suicídio entre mulheres, de 2009 a 2019. O número aumentou de 1.872 para 2.817. Entre a população masculina, o crescimento foi de 37% no mesmo período. Ao todo, foram registrados 121.125 suicídios nesses dez anos no país, uma média de 12 mil por ano. Os dados de 2019 são preliminares, ou seja, ainda estão sendo compilados.
(...)

Luiza Souto, de Universa, 06/09/2020, 04:00 hs

sábado, 5 de setembro de 2020

TRAP

Ainda adolescente, seis anos atrás, Derek Luccas se ligou que havia uma nova batida bombando nos Estados Unidos. Era o trap, gênero que mistura rap com música eletrônica, inicialmente difundido em Atlanta. Como já tocava na periferia de São Paulo, ele tentou buscar inspirações similares entre artistas brasileiros, mas não encontrou nada que se aproximasse daquele som que o fisgou de primeira. “A referência era a cena americana”, conta. Em 2016, começou a brincar com o estilo, postou vídeos no Youtube e, aos poucos, ele lembra, “o bagulho foi ficando sério”. Até que, depois de um happy hour, veio a grande sacada.
Junto com amigos e outros rappers parceiros, Derek ajudou a fundar a Recayd Mob, um coletivo que abraçou a missão de popularizar o trap no Brasil. “O que a gente fez foi abrasileirar a parada. Levamos a linguagem do funk para o trap”, diz Felipe Micaela, o Dfideliz. Depois de consagrar o estilo nos bailes da quebrada, a Recayd explodiu com Plaqtudum, hit que bateu recentemente a marca de 100 milhões de visualizações e alavancou o canal no Youtube a 1 milhão de inscritos. Na primeira semana de julho, as músicas de trap desbancaram o sertanejo em buscas no Spotify, impulsionadas pelo grupo, que também se aproxima de 1 milhão de ouvintes mensais na plataforma. “Não esperava que seria tão rápido”, afirma Derek. “Achei que ia demorar a chegar no mainstream, mas hoje todo mundo ouve ou, pelo menos, já ouviu falar do trap".
(..)

Breiller Pires, El País, 05/09/2020, 10:22 hs

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Não gostava de nada. Vai ver eu estava com medo. É isso: eu tinha medo. Eu queria ficar sozinho num quarto com a janela fechada. Fiquei curtindo essa ideia. Eu era um trambolho. Eu era um lunático.

Charles Bukowski

quinta-feira, 3 de setembro de 2020


10 ANOS DE CAPS - RELATOS DO TEMPO - 6
19 de outubro de 2010


Gostava de atender pacientes graves e gravíssimos. Um contato com o cruel do real. Contudo, no primeiro ano de Caps essas duas categorias pouco surgiram. Havia, sim, pacientes já cronificados e plenamente adaptados às condições de funcionamento do Caps. Compunham o molde psiquiátrico e eram lentificados como vivência no tempo. Os diagnósticos de "psicoses e neuroses graves", dado clínico escrito nos primeiros manuais sobre caps (anos 80 do século passado) não facilitavam a criação de critérios para responder a pergunta: "este é para o caps?". Enfim, escritos, mas não descritos. Talvez porque os dois conceitos estivessem mal elaborados. Afinal, o que seriam as psicoses? O que seriam as neuroses graves? Não existia a psicopatologia a ser inventada junto a clínica psicossocial a que nos referimos. No seu lugar fui "obrigado" a conviver com as categorias espúrias da psiquiatria manicomial adornadas com o desejo coletivo do novo. Ora, isso não ia além do imaginário, ou seja, circulava na altura das boas intenções, tanto a nível interno (técnico) quanto externo (administrativo). Técnicamente e politicamente eram tempos românticos.

A.M.