sábado, 21 de maio de 2022

ela tem os olhos azuis

mais verdes que vi

a poesia arrebenta

em suas praias de carne



A.M.

sexta-feira, 20 de maio de 2022

COVID  E SAÚDE  MENTAL 

A chegada da Covid trouxe mil questões para a saúde mental. São questões práticas, vivenciais, concretas, na medida em que o vírus bate à porta. Não é preciso citar estatísticas mortuárias com que a mídia espalha a informação/comunicação sobre o bicho-coroa. A nossa intenção é simples e direta: traçar linhas afetivas e efetivas para um pensamento que resista não só ao vírus mas à mentira, a infâmia dos poderes dominantes em tempos sem rumo. Pensamento que não é algo abstrato, mas o próprio corpo. Pensamento-corpo. E que resiste à morte disfarçada de vida (vide famélicos aos milhões) no mundo em que vivemos, não só no Brasil. Nesse momento, a Covid é o inimigo público número um, signo de um horror invisível. Temos que nos proteger. No entanto, a obviedade do enunciado esconde questões da saúde mental que sobem à flor da pele, à flor de um tempo sem alma. A Covid não tem alma. Em saúde mental a ausência de alma (não a dos religiosos, mas a alma das coisas, a vida, enfim) fez e faz da psiquiatria o modelo único (bioquímico) dos objetos (pacientes) expostos como coisas e casos. Quanto vale um paciente? Tal modelo autocentrado (narcísico) tem a capacidade de proliferar e contagiar corpos, tornando-os serviçais da razão manicomial, ainda que soltos. A Covid trouxe uma dor nova para velhos problemas.


A.M. , 29/03/2020

Blade Runner - Vangelis

terça-feira, 17 de maio de 2022

18 DE MAIO: O DIA DA LUTA


Outrora, houve uma luta. 

Chamava-se antimanicomial. Queria acabar com os manicômios.

Mas não acontecia isolada. A reforma psiquiátrica e o SUS lhe eram parceiras.

Um combate ativo.

Para além dos horrores da psiquiatria manicomial, a luta não era apenas contra os manicômios (os muros visíveis) mas a favor de uma ética do cuidado, dos afetos e a da autonomia social.

No fundo, era contra os muros invisíveis, manicômios da alma.

Houve uma luta.

Muitas frentes de combate, mil práticas clínicas, cem mil experimentações técnicas. 

Loucura!

A política, arte do impossível, era aplicada na veia. 

Hoje, não.

Resta e reina a burocracia do calendário oficial para cumprir festas onde não há mais festa.

Só a apatia dos risos imotivados.


A.M.

ZDZISLAW BEKSINSKI


 

domingo, 15 de maio de 2022

SAÚDE MENTAL: A ÉTICA DO CUIDADO

O conceito de "saúde mental"  constitui a essência da prática de um Caps. Mesmo que não esteja explícito e/ou não operacionalizado, é o que move (ou deveria mover) o trabalho técnico. Vamos tentar descrevê-lo em dez ítens (poderia ser mil, cem mil...). 1-"Saúde mental" refere-se a um bem estar subjetivo inserido no conjunto das circunstâncias (condições) que chamamos de mundo; "mental" não é "cerebral", ainda que o cérebro seja um órgão, digamos, nobre. 2- O mundo é composto de instituições (família, escola, religião, estado, casamento, etc) e daí a saúde mental é avaliada junto ao funcionamento das instituições presentes em cada caso. É um conceito singular e mutável. 3-A saúde mental inclui a saúde do organismo visível (sistema de órgãos) do qual a medicina se ocupa (rins, fígado, coração e demais). Este organismo é essencial, mas não é o objeto da pesquisa e da clínica em saúde mental. 4- Como a psiquiatria é uma especialidade médica, é importante descolar o conceito de saúde da psiquiatria (bom funcionamento do cérebro e adequação aos códigos sociais) do conceito de saúde mental (produtividade social, laboral e autonomia existencial). Dito de outro modo, separar a "saúde do cérebro" da "saúde da mente". 5- O cérebro, óbvio, é um órgão visível, palpável, mensurável. A mente é invisível, impalpável e não mensurável. Quem disser que já "viu, palpou ou mediu" a mente pode estar sofrendo de algum transtorno. 6- A técnica em saúde mental é regida por princípios éticos que valorizam a potência de viver uma clínica das singularidades em cada caso. Dai o uso do diagnóstico como função terapêutica e não como essência cadastrada (CID-10). 7- A posição antimanicomial é apenas um linha de combate que inspira e compõe algumas práticas em saúde mental. Há práticas que não dizem respeito aos muros do manicômio. São linhas invisíveis que combatem microfascismos. 8 - A saúde mental é uma saúde da alma no sentido de lidar com o sem-forma. Ou seja, trabalhar sem crenças a priori (preconceitos), não saber quem é o paciente. Retirar o conceito de exame e por no lugar o de "Encontro", não só com a pessoa do paciente, mas com tudo que lhe rodeia, o determina e o coage. 9- Saúde mental é um conceito que opera situações essencialmente práticas interferindo numa vida e mais que isso, produzindo uma vida. Daí florescer numa ética do Cuidado em oposição às redes institucionais modernas envelhecidas no "cuidado integral". ( corações manicomiais são apenas um dos exemplos). 10 - Concluindo, promover a saúde mental é promover a auto-saúde mental. A implicação numa clínica psicopatológica aberta às determinações (causas) múltiplas do sofrimento mental é a base para um trabalho (duro) no dia-a-dia de um Caps.


A.M.

sábado, 14 de maio de 2022

Reza da manhã de maio


Senhor, dai-me a inocência dos animais

Para que eu possa beber nesta manhã

A harmonia e a força das coisas naturais.


Apagai a máscara vazia e vã

De humanidade,

Apagai a vaidade,

Para que eu me perca e me dissolva

Na perfeição da manhã

E para que o vento me devolva

A parte de mim que vive

À beira dum jardim que só eu tive.


Sophia Amdresen

Rehearsal Claude Pascal - Jiří Kylián (NDT 1 | Sometimes, I wonder)

DEZ  LINHAS  PARA  RECONHECER  UM  FASCISTA

1-O fascista sabe apenas usar um método que é o do fascismo. Este método tem como principal característica um grito: " Viva a morte".

2-Para bem funcionar na prática, o fascismo necessita estar "dentro" das pessoas, dentro de nós. Daí, todo fascismo é um microfascismo

3-Apesar da origem histórica situá-lo na direita, hoje, se ampliarmos nossa visão de mundo, não existe mais fascista de direita ou de esquerda. Existe apenas o fascista e seus cânticos de destruição.

4-O fascista se aproxima do paranóico. No entanto, enquanto o paranóico acaba no manicômio, o fascista vive solto. Às vezes é até um cidadão de bem. Opera ao ar livre, destila um ódio brutal.  Seu delírio é expresso como saudável,  até mesmo salvador do país e quiçá do mundo.

5-O fascista anseia por uma verdade pronta, reta, pura e simplista. Vive de certezas absolutas. Isso o alimenta sem cessar. Sua alma gorda torna-se monstruosa. Sofre de uma espécie de bulimia ideológica.

6-Gosta de raciocinar por dualismos; bem/mal, esquerda/direita, homem/mulher, rico/pobre, louco/normal, negro/branco, bonito/feio. Seu cérebro mente

7-As regras do jogo democrático lhe são quase insuportáveis. No caso brasileiro, o fascista costuma pregar o golpe e a intervenção militar.

8- O diálogo com o fascista é muito difícil. Ele se expressa como pensamento único. Adora um monólogo. O bom senso é um fóssil que cheira mal.  Nazifascistas e estalinistas, velhos amigos, trocam ideias e figurinhas.

9-Os sentimentos fascistas podem conviver sob harmonias bizarras. Hitler amava a sua cadela Blondie.

10-Por fim, mas não menos importante, o fascista costuma atirar para matar em tudo que se move: a vida.


A.M.



quarta-feira, 11 de maio de 2022

A TRAPAÇA UNIVERSITÁRIA

A forma-universidade (e não a organização-universidade) é um conceito da análise institucional que faz pensar a universidade (qualquer uma) como forma de relação social oriunda da Idade Média e "vitoriosa" nos dias atuais. É possível, assim, falar de uma subjetividade acadêmica como produção de sentido. Difícil contestá-la. Sob o respaldo de verdades conceituais prontas (recheadas de princípios) legitima-se a intelectualidade contemplativo-narcísica atual. Apesar disso, ou por causa disso, a realidade dominante é criticada em teses tão brilhantes quanto condenadas ao bolor. É que não se trata do intelecto mas dos afetos. Estes costumam ser aniquilados. Numa operação organizacional urdida em programas de mestrado e doutorado, a forma-universidade escurraça o desejo: devires imperceptíveis, incontroláveis, sensibilidades finas, realidades reais, singularidades múltiplas, intensidades criativas, saberes menores, rebeldias, loucuras não-médicas. A universidade faz da diferença (que é o pensar por si mesmo) uma maldição. Você já discutiu (divergindo) ideias com um acadêmico, um pesquisador, um professor? Melhor não. Trata-se aí de uma representação esperta da realidade social, um teatro moral agenciado pela máquina acadêmica que diz: não afirme nada, não arrisque nada, não sinta, não crie, aceite o que a razão transcendente enfiou no seu corpo desejante. Diga amém ao capitalismo como religião da mercadoria. Apesar disso, algum dia serás doutor em qualquer coisa, tanto faz.

A.M. 

domingo, 8 de maio de 2022

Rehearsal Figures in Extinction [1.0] - By Crystal Pite with Simon McBur...

SOBRE A DIFERENÇA

Pergunta-se o que é a diferença.  A diferença não é o indivíduo, não é a pessoa, não é algo fixo e estável onde se possa ancorar o corpo e a alma exaustos. Nem tampouco é ver, assuntar, medir, pesar, adjetivar, qualificar. Ela não é do campo do substantivo nem do adjetivo, ou de alguma substância dura, pétrea, imóvel, formatada em ideais do valor de troca. Nada a ver com a troca, pilar e essência do capital em seu cortejo mortuário. Tampouco é o ser-diferente, até porque não há o ser. Não é o estranho-em-nós. Já somos de antemão  e suficientemente estranhos, estranhos a nós e ao mundo. Não há, pois, medidas para identificá-la. Ela é desmedida. Quando há cálculos, dão sempre errado, as contas não fecham, tudo se frustra e se decompõe. Ao inverso, bem mais além e aqui mesmo, há somente corpos, corpos de corpos, corpos no interior de corpos, devires, processos, passagens, relâmpagos, vertigens, intensidades, frêmitos, respirações, ardores, ardências, viagens anômalas no mesmo lugar. Da diferença não se alimenta o narcisismo porque também não existe o narcisismo no seu universo, este sim, verso encantado, encantador e cantador em estradas desertas. A diferença é o bicho. Não tem forma, não é identificável pela percepção de representações exatas ou imagens-clichês. A diferença é o bicho na espreita. Percorre o mundo em linhas finas de sensibilidade e arte. Com delicadeza foge de todos os dualismos, de todos os títulos, de todos os senhores, de todas as pátrias, de todas as pretensões e boas intenções da racionalidade, da consciência e do pensamento da autoridade, mesmo a mais admirável e mansa. Brinca com o poder,  a morte e  o amor. Faz disso a própria natureza do seu percurso invisível e silencioso pelos caminhos desconhecidos do encontro. Composta de multiplicidades ingênuas e  encravada na irreversibilidade do tempo, se tece e se faz inglória e pura. Mas quem a suporta?


A.M.

quinta-feira, 5 de maio de 2022

CADÊ OS YANOMAMI?


Um chamado, um grito de desespero.

Vou ser repetitiva hoje, porque é fundamental ser. Repetitiva, porque semana passada escrevi sobre o relatório da Hutukara Associação Yanomami revelando o panorama ilegal do avanço da destruição garimpeira na terra indígena do país. Mas repetitiva porque a pergunta precisa ecoar nas redações, os jornalistas precisam se incomodar, o governo precisa se sentir responsável.

Uma comunidade desapareceu após sofrer ataques de garimpeiros. As casas do local foram queimadas. E não há respostas sobre o que de fato ocorreu ali.

CADÊ OS YANOMAMI?

CADÊ OS YANOMAMI?

CADÊ OS YANOMAMI?

CADÊ OS YANOMAMI?

CADÊ OS YANOMAMI?

CADÊ OS YANOMAMI?

CADÊ OS YANOMAMI?

E o Brasil permanece calado.

Calado pelo desaparecimento de uma comunidade Yanomami. Calado pelas mortes diárias de jovens negros nas periferias das cidades. Calado pelas mortes das mulheres.

Uma menina de 12 anos foi raptada, sofreu violência sexual e não resistiu aos ferimentos. Sua irmã, de 3 anos, foi jogada no rio e nunca foi encontrada. O caso deveria estampar as capas de todos os jornais, mas não ganha destaque porque são crianças indígenas.

E o governo federal é cúmplice dessa violência. Não podemos aceitar que crimes como esse sigam acontecendo!

"A nossa dor é como se não tivesse importância nesse país, mais de 500 anos sofrendo depois da invasão da nossa terra e que nunca parou. Uma comunidade inteira sumiu (ou teve que sumir), após denunciarem que garimpeiros estupraram até a morte uma criança de 12 anos e jogaram outra criança de 3 anos no rio", publicou a Apib - Articulação dos povos indígenas do Brasil.

CADÊ OS YANOMAMI?

CADÊ OS YANOMAMI?

CADÊ OS YANOMAMI?

CADÊ OS YANOMAMI?

CADÊ OS YANOMAMI?

CADÊ OS YANOMAMI?CADÊ OS YANOMAMI?


Mariana Belmont, 5/5/2022

quarta-feira, 4 de maio de 2022

OUTRAS AMPLIDÕES

Se o desejo é recalcado, não é por ser desejo da mãe e da morte do pai; ao contrário, ele só devém isso porque é recalcado e só aparece com essa máscara sob o recalcamento que a modela e nele a coloca. Aliás, pode-se duvidar que o incesto seja um verdadeiro obstáculo à instauração da sociedade, como dizem os partidários de uma concepção de sociedade baseada na troca. Vê-se cada coisa... O verdadeiro perigo não é este. Se o desejo é recalcado é porque toda posição de desejo, por menor que seja, pode pôr em questão a ordem estabelecida de uma sociedade: não que o desejo seja a-social, ao contrário. Mas ele é perturbador; não há posição de máquina desejante que não leve setores sociais inteiros a explodir. Apesar do que pensam certos revolucionários, o desejo é, na sua essência, revolucionário — o desejo, não a festa! — e nenhuma sociedade pode suportar uma posição de desejo verdadeiro sem que suas estruturas de exploração, de sujeição e de hierarquia sejam comprometidas. Se uma sociedade se confunde com essas estruturas (hipótese divertida), então, sim, o desejo a ameaça essencialmente. Portanto, é de importância vital para uma sociedade reprimir o desejo, e mesmo achar algo melhor do que a repressão, para que até a repressão, a hierarquia, a exploração e a sujeição sejam desejadas. É lastimável ter de dizer coisas tão rudimentares: o desejo não ameaça a sociedade por ser desejo de fazer sexo com a mãe, mas por ser revolucionário. E isto não quer dizer que o desejo seja distinto da sexualidade, mas que a sexualidade e o amor não dormem no quarto de Édipo; eles sonham, sobretudo, com outras amplidões e fazem passar estranhos fluxos que não se deixam estocar numa ordem estabelecida. O desejo não “quer” a revolução, ele é revolucionário por si mesmo, e como que involuntariamente, só por querer aquilo que quer.

(...)

G. Deleuze e F. Guattari in O Anti-édipo

ritmo


deixar a previsão de lado e dançar bolero

no carnaval quero é romance


se não pudermos rimar nossos passos

dancemos tango salsa mambo

rock and roll


(o samba fica

para a quarta de cinzas)


Líria Porto

domingo, 1 de maio de 2022

O que é psiquiatria?  parte 2


Uma especialidade diferente essa.

Tudo porque não apenas é especialidade médica, mas instituição.

Do ponto de vista epistemológico, ela está plugada às ciências biológicas e às ciências humanas.  No primeiro caso, o organismo físico-químico. No segundo, a realidade social. Trata a realidade social como organismo físico-químico.  Trocou as bolas.

É uma especialidade ancorada em pilares teóricos de naturezas diferentes. Vive num paradoxo.

Sua condição de ser uma especialidade pode ser ampliada para a de instituição social. É que a pesquisa lida com um universo simbólico no qual a própria especialidade está inserida. 

Tal condição “institucional” normalmente é ignorada pelos psiquiatras e similares. Muito difícil que fosse diferente.

Como instituição ela codifica as pessoas. Daí, estas não precisam ser psiquiatras para pensar, sentir e agir como um. 

Atrelada à visão biomédica do comportamento humano em suas alterações (o chamado transtorno) a psiquiatria estanca numa reflexão teórica rasa, onde não consegue sequer definir com precisão o que é uma psicose.

Em essência, esse é o fundo da  "sua"epistemologia. Um conhecimento atolado na moral.

“Loucura”, conceito não-médico, converte-se ao de “transtorno mental”, termo naturalizado como distúrbio da mente igual à distúrbio do cérebro. A equação conceitual cérebro=mente estabelece, então, a partir da década do cérebro, a última do século XX , fortes razões científicas para um “admirável cérebro novo” que toma o lugar da psicopatologia.

Quanto ao aniquilamento desta última, há testemunhas: os pacientes.

Ai, então, a neurociência se fez impecável. Uma psiquiatria atual, acolhida como ciência do cérebro e surda à fala do sofrimento mental, conquistou o mercado.

No entanto, o cérebro mente.


A.M.

sábado, 30 de abril de 2022

Caetano Veloso - Samba de Verão

ESTAMOS TODOS MEDICADOS

A vitrine mercadológica dos psicofármacos, apesar de propiciar alguns usos benéficos ao paciente, acabou por cassar a sua fala e o que seria a escuta pelo técnico em saúde mental. No interior dessa ótica, considera-se que estão todos farmacologizados, pacientes e técnicos, mesmo que os segundos não usem (em si mesmos) remédios da mente. ( Será?) De todo modo, a farmacologia estabeleceu uma condição de possibilidade ( aparentemente irrecusável ) para se atuar clinicamente frente aos transtornos ditos mentais. Dir-se-ia que o fármaco está à mão (uso imediato) ou como reserva para alguma intervenção assim que necessária. O caso das psicoses é exemplar, enquanto o das depressões caminha para isso, na medida em que ninguém mais poderá ficar deprimido. Esboço exagerado de análise? Pode ser, mas a clínica psicofarmacológica cada vez mais expande o seu campo e o seu poder rumo a um suposto cérebro enfermo, enquanto o mundo explode em rajadas de um niilismo avassalador. Tempos capitais.


A.M.

quarta-feira, 27 de abril de 2022

O que é psiquiatria? (1)


A psiquiatria é uma especialidade médica surgida na França em fins do século XVIII. Ai se dá a passagem (conforme Pinel) dos asilos aos manicômios.

No entanto, sua origem mais longínqua remete à existência de asilos no século VII (cultura árabe) e no século XVI (ocupação árabe na Espanha). Desde então passam a ser chamados de hospícios e se espalham pela Europa.

Sendo assim, a origem da psiquiatria se confunde com a origem dos asilos, dos hospícios e dos manicômios. Tudo se prepara para encolher as mentes.

A lógica dos asilos é o DNA da psiquiatria.

Já o século XIX, chamado século dos manicômios, dá origem aos hospitais psiquiátricos conforme o modelo atual.

São conhecidas as agressões e os horrores perpretados contra pacientes nos manicômios desse século. Foucault descreveu com detalhes as torturas científicas.

No Brasil, entre outros horrores, o hospital psiquiátrico de Barbacena é um registro histórico como modelo da barbárie consentida.

No período do estalinismo na União Soviética (1927/1957) presos políticos (quantos?) foram internados em hospitais psiquiátricos. 

No período da ditadura brasileira (1964/1979)  presos políticos (quantos?) foram internados em hospitais psiquiátricos.

A psiquiatria tem uma história pouco edificante.

No Brasil, veio a reforma psiquiátrica e a luta antimanicomial. Diferentemente, no campo da medicina não se tem notícia de alguma reforma cardiológica, pneumológica, nefrológica, etc.

De fato, trata-se de uma especialidade que pede  um método para além do biomédico.

A psiquiatria (psicopatologia) não dispõe de uma teoria dos afetos, apesar da extrema importância desse conceito para o trabalho clínico, ou seja, da gestação do vínculo com o paciente.

O paciente psiquiátrico muitas vezes não quer ser atendido pelo psiquiatra, sendo levado à força por familiares ou terceiros. Na clínica médica, não se tem notícia de tal recusa por vezes hostil e agressiva.

O objeto de pesquisa e intervenção clínica da psiquiatria é invisível, impalpável e abstrato. Chamado de “mente” , não há nada parecido em pesquisa médica. A mente não é o cérebro.

Nos hospitais psiquiátricos (ainda existem!) é muito comum pacientes fugirem. Por que fugiriam do tratamento? Em contraste, nos hospitais gerais (clínicos) isso não existe. Pelo menos, que se saiba.

 A alta e a cura são dispositivos raros na psiquiatria clínica.

Sim, uma estranha especialidade essa.


A.M.


terça-feira, 26 de abril de 2022

A fúria da beleza

Estupidamente bela 

a beleza dessa maria-sem-vergonha rosa 

soca meu peito esta manhã! 

Estupendamente funda, 

a beleza, quando é linda demais, 

dá uma imagem feita só de sensações, 

de modo que, apesar de não se ter consciência desse todo, 

naquele instante não nos falta nada. 

É um pá. Um tapa. Um gole. 

Um bote nos paralisa, organiza, 

dispersa, conecta e completa! 

Estonteantemente linda 

a beleza doeu profundo no peito essa manhã. 

Doeu tanto que eu dei de chorar, 

por causa e uma flor comum e misteriosa do caminho. 

Uma delicada flor ordinária, 

brotada da trivialidade do mato, 

nascida do varejo da natureza, 

me deu espanto! 

Me tirou a roupa, o rumo, o prumo 

e me pôs a mesa... 

é a porrada da beleza! 

Eu dei de chorar de uma alegria funda, 

quase tristeza. 


Acontece às vezes e não avisa. 

A coisa estarrece e abre-se um portal. 

É uma dobradura do real, uma dimensão dele, 

uma mágica à queima-roupa sem truque nenhum. 

Porque é real. 

Doeu a flor em mim tanto e com tanta força 

que eu dei de soluçar! 

O esplendor do que eu vi era pancada, 

era baque e era bonito demais! 


Penso, às vezes, que vivo para esse momento 

indefinível, sagrado, material, cósmico, 

quase molecular. 

Posto que é mistério, 

descrevê-lo exato perambula ermo 

dentro da palavra impronunciável. 

Sei que é desta flechada de luz 

que nasce o acontecimento poético. 


Poesia é quando a iluminação zureta, 

bela e furiosa desse espanto 

se transforma em palavra! 

A florzinha distraída 

existindo singela na rua paralelepípeda esta manhã, 

doeu profundo como se passasse do ponto. 

Como aquele ponto do gozo, 

como aquele ápice do prazer 

que a gente pensa que vai até morrer! 

Como aquele máximo indivisível, 

que, de tão bom, é bom de doer, 

aquele momento em que a gente pede pára 

querendo que e não podendo mais querer, 

porque mais do que aquilo 

não se agüenta mais, 

sabe como é? 


Violenta, às vezes, de tão bela, a beleza é! 


Elisa Lucinda,

Titãs & Arnaldo Antunes - O Pulso

domingo, 24 de abril de 2022

ÉTICA E SAÚDE MENTAL

Em saúde mental, a ética é indissociável da clínica e de tudo que gira em torno e a determina. Assim, ela é uma atitude a construir, a tentar, a arriscar. Não como ideia, ética idealista, não como reflexão teórica sobre a moral. Trata-se de outra coisa, outro conceito, outro rumo. A ética está encravada na prática, é a prática. Aumento ou redução da força de viver. Potência ou impotência dos corpos. A clínica em psicopatologia é a ética em si mesma, crua, real, concreta, atravessada e atravessando linhas político-institucionais muitas vezes nefastas. Impossível não haver uma escolha. O ranço da psiquiatria manicomial, por vezes disfarçado do enfoque neurobiológico, portanto, científico, ou de políticas públicas da forma-Estado legitimadas pela forma-Universidade,  também é ético, ainda que regido pelo cinismo e pela destruição de singularidades. No ato clínico, a ética precede a técnica e passa por linhas singulares da existência que exigem escolhas politicas finas. Não é fácil. Não há uma chave universal para resolver os dilemas éticos. Não há modelo fixo, exceto o dos manicômios, mesmo que sejam manicômios da alma. Então a ética funciona sempre num contexto sócio-institucional dado. A não escolha é uma escolha. É essa a implicação técnica do profissional em saúde mental. Ou nada.


A.M. 


 

sexta-feira, 22 de abril de 2022

COMO FAZER A DIFERENÇA? 

A diferença é um conceito discutido em profundidade em duas grandes obras do pensador Gilles Deleuze. Trata-se de Diferença e Repetição (1968) e Lógica do Sentido (1969). Tal densidade conceitual pode (e deve) ser usada por não-filósofos para o exercício de uma atitude ética essencialmente prática. Quer dizer: o mundo não é uma substância mas sim problemático (oco) por sua própria natureza e não por uma instância que lhe seria superior (a razão, por exemplo). Assim, tudo passa a ser imanência, tudo está na terra. O corpo da terra se tece na arte dos encontros pessoais e impessoais. Aí reside a diferença como linha curva, incerta, perigosa e delicadamente potente. Não exige nem possui explicações. Para experimentá-la basta seguir o fluxo do devir (o conteúdo do desejo) em suas infinitas possibilidades de conexão com outros devires. É com a criança-em-nós e com o tempo não-cronológico que a diferença estabelece seu traço  irreversível. Mas não é fácil. Sem que se perceba, as instituições sociais administram o medo no interior de nós mesmos, naturalizando o horror e racionalizando a existência: a aposta é numa realidade mortuária for ever


A.M.

terça-feira, 19 de abril de 2022

 MICROPOLÍTICA


-Libere a ação política de toda a forma de paranóia unitária e totalizante.

-Faça crescer a ação, o pensamento e os desejos por proliferação, justaposição e disjunção, antes que por submissão e hierarquização piramidal.

-Libere-se das velhas categorias do Negativo (a lei; o limite; a castração, a falta, a lacuna) que o pensamento ocidental por tanto tempo manteve sagrado enquanto forma de poder e modo de acesso à realidade. Prefira o que é positivo e múltiplo, a diferença à uniformidade, os fluxos às unidades, os agenciamentos móveis aos sistemas, considere que o que é produtivo não é sedentário, mas nômade.

-Não imagine que precise ser triste para ser militante, mesmo se a coisa que combatemos é abominável. É o elo do desejo à realidade (e não sua fuga nas formas de representação) que possui uma força revolucionária.

-Não utilize o pensamento para dar a uma prática política um valor de verdade; nem a ação política para desacreditar um pensamento, como se ele não fosse senão  pura especulação. Utilize a prática política como um intensificador do pensamento, e a análise como  um multiplicador das formas e dos domínios de intervenção da ação política.

-Não exija da política que ela restabeleça os "direitos" do indivíduo, tais como a filosofia os definiu. O indivíduo é o produto do poder. O que é preciso é "desindividualizar" pela multiplicação e pelo deslocamento, pelo agenciamento de combinações diferentes. O grupo não deve ser o elo orgânico que une indivíduos hierarquicamente, mas um constante gerador de "desindividualização".

-Não se apaixone pelo poder.


Michel Foucault -  O Anti-édipo: uma introdução à vida não-fascista

José Simão: "Exército quer boneca inFlávio"

terça-feira, 12 de abril de 2022

TEATRO POÉTICO: SÓ PARA LOUCOS

A linguagem poética constitui um território de significações que escapa às coordenadas da razão. Há um sentido a produzir. Desse modo, a busca de singularidades existenciais é facilitada pela aventura de se ler um poema e implicar-se a ele. O que isso quer dizer? Quer dizer formar e firmar conexões afetivas com um ou muitos pedaços do poema ou do poema como um todo, mesmo sabendo que não há todo. Não há todo porque as multiplicidades heterogêneas do texto nunca fecham um sistema ou tamponam um devir. O processo do desejo é irreversível. Ou seja, sem volta. A poesia é isso: multiplicidades do leitor se ligando a multiplicidades do poema na busca de... uma diferença. Ler um poema não é como ler um ensaio de sociologia, por exemplo, mas sim escutar os versos como se escuta uma música ou se sente no corpo as vibrações das cores de um quadro de Emil Nolde, ou no mesmo corpo e ao mesmo tempo o ritmo de um improviso de jazz, ou uma coreografia de Pina Baush, um gol de bicicleta... Poesia não foi e não é feita para interpretar porque ela já é uma interpretação ou mil, cem mil interpretações da realidade. Ou a própria realidade, a realidade em si-mesma. Quando se está apaixonado (isso deveria ser sempre) a poesia cobre e recobre as superfícies do mundo numa película fina de delicadeza, suavizando os pedregulhos das estradas mais longínquas e inóspitas. Tal como em "Asas do Desejo" (Wim Wenders, 1987), o anjo amante do tempo está transfigurado por avistar a trapezista no seu camarim, não por ele ser um anjo, mas por haver entrado num devir-humano, devir-mundo, devir-risco, devir-perigo, devir-paixão, devir-amar. 


A.M.

domingo, 10 de abril de 2022

ENTÃO, ELE ME  DISSE: "EU MANDEI DEUS CRIAR O MUNDO"

O mundo caminha para se tornar um grande hospício de portas abertas. Há uma generalização social do que é chamado de transtorno mental. A psiquiatria cumpre a função de tratar para adoecer ainda mais.Chegaremos a um ponto onde cada um de nós tratará do outro e vice versa.A mercantilização da alma já não precisará dos valores de troca do mercado.Ela, a alma, será o próprio mercado intimo da angústia por viver.

Grandeza de Marx.


A.M.

HENRY ASENCIO

 


Se eu me livrasse de meus demônios, perderia meus anjos.


Tennessee Williams

O ENCONTRO MARCADO

Numa prática clínica da diferença em psicopatologia, o conceito de Encontro é essencial. Ele diz respeito à chance de estabelecer ligações com os afetos que circulam livremente e/ou aprisionados pelas formas sociais (por ex., a de paciente "mental"). No caso da psiquiatria biológica, da terapia cognitivo-comportamental, das psicoterapias regidas pelo senso comum, das psicologias do bom senso, das terapias religiosas, das psicanálises edipianizantes, enfim, das agências psi normatizadoras, os afetos livres (devires) rodopiam no mesmo ponto subjetivo, endurecidos em sintomas prontos a serem eliminados. Há até pacotes comerciais disponíveis para resolução em apenas 3 meses. Confira. Caso haja êxito, vão-se os sintomas e com eles o desejo. Ao contrário, é preciso encontrar-se com o sintoma já que o Encontro é condição básica para 1-usar os afetos livres para fora da configuração subjetiva dita patológica; 2- desorganizar as formas sociais especializadas em infeccionar as forças ativas. Em ambos os casos, o Encontro não se dá com uma bela alma, mas com a crueza do real múltiplo. Estão e estarão aí, por exemplo, todos os tipos de personalidades anormais que a psiquiatria conservadora engloba sob o código F.60. Ou as histerias, filhas freudianas convertidas ao século XXI e estranhas ao diagnóstico psicanalítico. Ou os pânicos urbanos gritando alto frente à dissolução das certezas do homem tecnológico. Ou as psicoses não especificadas em eus cindidos e aniquilados pelo tempo virtual. Ou corpos descarnados oscilando entre a autoflagelação e o suicídio enquanto formas de se sentirem vivos. O Encontro hoje é, pois, um encontro sem rosto fixo, sem modelo, sem eu, sem consciência, mas ainda assim,e principalmente, um Encontro.


A.M.

 


quinta-feira, 7 de abril de 2022

ela foi a mulher

que me fez amante

como não dizê-la

sem tê-la


como não evocá-la

sem amá-la

sem tempo


ou julgamento?



A.M.


segunda-feira, 4 de abril de 2022

E se Bolsonaro virar Orbán? | Ponto de Partida

TEMAS EM PSICOPATOLOGIA CLÍNICA -1 


O Encontro com o paciente precede os sintomas (delírios, alucinações, angústias, etc). Ou melhor, precede o Exame. Este é um dispositivo institucional à serviço da medicina clínica, positivista, mecanicista, regida pela busca de objetos sólidos, visíveis e manipuláveis: o organismo doente. Ao contrário, o percurso da diferença em psicopatologia começa pelo Encontro. É dizer que o técnico em saúde mental torna-se o outro sem ser o Outro, fazendo do território da Clínica um campo de vibração intensiva (afeto). Isso funciona sob a ética do paciente criar a si mesmo, potência de existir/agir e da resistência aos poderes vigentes.


A.M.

domingo, 3 de abril de 2022

Bedtime story - Nadav Zelner (NDT 2 | The play between)

POR QUE A PRISÃO?

"Conhecem-se todos os inconvenientes da prisão, e sabe-se que é perigosa quando não inútil. E entretanto não ‘vemos’ o que pôr em seu lugar. Ela é a detestável solução, de que não se pode abrir mão”

– Foucault, Vigiar e Punir

Agora finalmente temos recursos para responder à pergunta: por que a prisão? Ora, ela é apenas uma das muitas maneiras de se exercer o poder. Por que então necessariamente ela? Afinal, desde o começo vimos como a prisão é um enorme fracasso! Simplesmente não funciona! Não se presta a cumprir o que promete.

A prisão devia ser um lugar de transformação do criminoso, corrigindo-o e reintegrando-o à sociedade;

A prisão prometia isolar e classificar os sujeitos, segundo a gravidade de seus crimes;

As penas seriam moduladas de acordo com o bom comportamento dos detentos, seus progressos e resultados obtidos durante o processo de regeneração;

O trabalho seria uma peça essencial na transformação e ressocialização progressiva;

A educação seria um princípio indispensável de formação e crescimento;

O regime prisional seria controlado por um corpo técnico especializado, com capacidades morais e técnicas, que zelaria pela boa formação dos indivíduos durante o cumprimento da pena;

O encarceramento seria assistido e acompanhado de medidas de controle tendo em vista a readaptação definitiva do detendo, prestando-lhe suporte para sua reclassificação no seio da sociedade.

Nada disso acontece, muito pelo contrário:

A prisão coloca o presidiário sob outra forma de poder que não o judiciário, abrindo campo para instituições parapenais. Mas de forma alguma diminui as taxas de criminalidade;

A prisão mistura condenados dos mais variados tipos, constituindo uma comunidade de criminosos. Transforma criminosos amadores em profissionais;

A prisão dá abrigo, comida, roupa e às vezes trabalho, sendo, em tempos difíceis, um destino preferível a outras formas de vida. E cria a miséria para a família do delinquente, multiplicando seus efeitos deletérios;

À prisão retornam sempre reincidentes que, marcados pelo crime, só possuem esta alternativa.

Do ponto de vista histórico, a prisão é uma peça nova, inusitada e por isso desconsiderada. Do ponto de vista teórico, a prisão é estranha, pois não satisfazia nenhuma das exigências dos reformadores penais. Do ponto de vista prático e funcional, a prisão é disfuncional e nada prática: não diminui a criminalidade e leva à reincidência. Mas ainda assim:

"Há um século e meio que a prisão vem sempre sendo dada como seu próprio remédio”

– Foucault, Vigiar e Punir

Aqui a Arqueologia de Foucault se torna limitada, e por isso a necessidade da Genealogia: como vimos, a prisão não deriva dos documentos dos Reformadores Juristas. A prisão não é filha de códigos penais nem dos tribunais. Não está lá o seu nascimento, ele se encontra alhures e só o encontraremos numa heterogeneidade de todas as transformações que o período acarreta. Uma heterogeneidade que envolve a burguesia, a religião, a maneira de produzir e acumular riqueza, o fim do despotismo, a revolução política francesa e a revolução industrial inglesa.

A prisão torna-se assim mais um capítulo na história do corpo. Uma maneira do poder político atuar: sutil, imperceptível, mas penetrante. Ela veio de fora, não nasceu da cabeça de juristas, formou-se por outras razões, ela é o cume de uma sociedade disciplinar. Desempenha um papel importante por três características:

Distribui espacialmente os indivíduos. A reclusão permitia o controle dos fluxos, impedia a vagabundagem, o nomadismo, a migração. Prender é antes de mais nada colocar ao dispor;

O encarceramento oferece a chance de intervir na conduta dos indivíduos. É uma maneira de atuar nas vontades, intentos, discursos, comportamentos. A penalidade pune a infração, mas a reclusão permite punir a vida desregrada, anormal, perturbada, irregular;

A clausura permite controle parapenal, para além do crime, da infração do ato. Permite vigiar, coletar informações, atuar continuamente nas mais diversas instâncias.

A quais necessidades atendiam essas novas características do poder? De modo geral, para gerir a nova sociedade industrial como um todo! O funcionamento prisional é uma maneira de regular fluxos sociais, fluxos de pessoas, de ações, de pensamentos, de corpos, de condutas, fixar no espaço e no tempo.

Podemos chamá-las de instituições de sequestro, pois:

Adquirem tempo total sobre seus internos, sejam operários, loucos, velhos, crianças, presos, que são controlados e observados o tempo todo. O modelo prisão basicamente permite ser encontrado;

Possuem objetivos monofuncionais: o tempo de vida é usado exclusivamente para uma única atividade: produção, terapia, cuidado, formação, etc. A prisão permite treinar ininterruptamente;

Fabricação e preparação do indivíduo para o social, em função de algo externo. O indivíduo não era avaliado por si mesmo ou por pares, mas sempre por algum superior tendo em vista um fim maior, um bem maior: tornar-se um bom soldado, um bom funcionário, uma pessoa saudável. A prisão permite organizar a ordem social.

"Estar sob sequestro é estar preso numa discursividade ininterrupta no tempo, proferida a partir de fora por uma autoridade e necessariamente feita em função daquilo que é normal e daquilo que é anormal”

– Foucault, Sociedade Punitiva

Por que a prisão? Ora, a forma-prisão é muito mais que uma construção arquitetônica, ela é uma forma social! Um plano de imanência. Eis a resposta sobre o fracasso das prisões: ela não dá certo apenas para um olhar pequeno, que presta atenção somente nas grades das celas e nos muros altos. Mas do ponto de vista do poder, poderíamos concluir que ela é um enorme sucesso, pois funciona como forma-social para exercer profundamente a disciplina, a vigilância contínua e a punição eterna.

O que sustenta a prisão como elemento penal é seu valor moral. A coerção faz parte de suas engrenagens. A salvação, a limpeza da alma, a penitência. A prisão possui elementos externos que incidem sobre sua maneira de ser e atuar sobre o corpo. Trata-se de colocar ao dispor para tomar o poder sobre o tempo e o espaço, formar corpos e transformar almas.

Mas em que um sistema social baseado na prisão funcionaria tão bem e seria inquestionável por todos? Como vimos, é na sociedade vigilante e disciplinar que o poder adquire suas características mais sutis.

"A prisão, essa região mais sombria do aparelho de justiça, é o local onde o poder de punir, que não ousa mais se exercer com o rosto descoberto, organiza silenciosamente um campo de objetividade em que o castigo poderá funcionar em plena luz como terapêutica e a sentença se inscrever entre os discursos do saber. Compreende-se que a justiça tenha adotado tão facilmente uma prisão que não fora entretanto filha de seus pensamentos. Ela lhe era agradecida por isso

– Foucault, Vigiar e Punir


Do Blog "Razão Inadequada"

quinta-feira, 31 de março de 2022

AFETOS NÔMADES

Os afetos são o que impulsiona os modos de subjetivação (pessoa). Eles funcionam em dobras e misturas subjetivas de toda ordem, ao ponto de alguém dizer: "não sei o que estou sentindo". São fruto das relações humanas e inumanas. A psiquiatria tecnológica, sob a grosseria semiótica habitual no trato com eles, despreza-os, já que não escuta o paciente, ou só escuta atrás de uma grade nosológica. No entanto, o que importa para uma clínica psicopatológica que enfatize a diferença, é que os afetos são inomináveis, por isso mesmo expressão trágica (não comunicável) e extrema (radical) da condição humana. O acesso à existência do outro só se fará, então, por meio da linguagem da arte e da poesia, mesmo que não sejamos artistas ou poetas. Para "chegar" ao paciente,é preciso um devir-outro , um devir-alma, um devir-alegria e inventar linhas de risco ao conteúdo do desejo. Elas funcionam em expansão incessante ao mundo (como na criança) criando-o como território singular. E leve.


A.M.

My Love is You (Live)

A  ORAÇÃO DO PSICODRAMA


Um Encontro de dois:

olhos nos olhos,

face a face.


E quando estiveres perto,

arrancar-te-ei os olhos e

colocá-los-ei no lugar dos meus;


E arrancarei meus olhos

para colocá-los no lugar dos teus;


Então ver-te-ei com os teus olhos

e tu ver-me-ás com os meus.


Jacob Levy Moreno

terça-feira, 29 de março de 2022

O FIM E O FIM DO DIAGNÓSTICO PSIQUIÁTRICO - X

Com o fim do diagnóstico psiquiátrico (enquanto instrumento terapêutico), e a colonização da alma, restam os grandes conjuntos síndrômicos a balizar a clínica. Eles surgem de um real atual atravessado pelo horror dos tempos. A morbidade psícossocial aniquila territórios subjetivos no cotidiano das velocidades caóticas. No caso brasileiro, uma opressão oficial, natural, sustentada pela democracia representativa, traz à luz a sabotagem do desejo. Este sofre por ser interrompido, por não produzir produzindo e daí estancar em linhas patológicas a erosão crônica do Sentido. Em que acreditar? Sobram arcaísmos religiosos tanto quanto arcaísmos escolares, estatais, familiares, acadêmicos, jurídicos, políticos. Estaríamos em plena guerra fria? Arcaísmos traduzem a organização das transcendências (algo para além da vida, o culto ao passado, o messianismo populista, a verdade midiática, etc) que, no caso da psiquiatria, substituem os verdadeiros problemas por uma espécie de mecanização do pensamento. A entronização e a reificação do cérebro cumprem a função de imbecilizar modos de subjetivação através da indústria de pseudodiagnósticos cérebro-mentais (alguém já viu um cérebro funcionando?) voltados à reparação de neurocircuitos lesionados e o consumo de axiomas científicos movidos à fé religiosa. Desse modo, o fim do diagnóstico psiquiátrico é correlato ao começo de uma era onde tudo é ou será tecnologia de controle ao gosto das populações consumidoras de ordens implícitas. Uma diferença implantada na psiquiatria implicaria no estilhaçamento dos seus saberes em prol de uma psicopatologia coletiva. Impossível?


A.M

Pabllo Vittar - Problema Seu (I AM PABLLO)

segunda-feira, 28 de março de 2022

DEVIR-CRIANÇA

(...)

Devir-criança é entrar em contado com esta potência que faz novos caminhos, percorre trilhas, explora. Tudo está aqui: capacidade de palmilhar vivências. Tudo para a criança é novo, tudo é como se fosse pela primeira vez. Ela acorda todo o dia e se espanta: “uau! como o isso funciona? O que aquilo faz? Olha aquilo, que legal!” Como já dissemos, os devires são involuções criadoras, é a aliança que acontece quando se entra em zonas de vizinhança e se encontram potências escondidas. Não queremos imitar a criança, mas estar nesta mesma zona, habitar este espaço de potência criativa. Queremos o espanto do devir. A potência do devir-criança está em criar cenários, espaços, singularidades, momentos. A criança é uma mestra das novidades, das histórias, ela tira da cartola tudo que não víamos há um segundo atrás. Vir a ser gaiato.

(...)

Do site "Razão Inadequada"


[Quando vier a primavera,], Alberto Caeiro - Pedro Lamares

A noite

Não consigo dormir. Tenho uma mulher atravessada entre minhas pálpebras. Se pudesse, diria a ela que fosse embora; mas tenho uma mulher atravessada em minha garganta. 


Eduardo Galeano

domingo, 27 de março de 2022

Época de Ouro | Noites cariocas (Jacob do Bandolim) | Instrumental Sesc ...

LINHAS PARA O MÉTODO DA DIFERENÇA EM SAÚDE MENTAL

São elas. 1-Contextualizar o encontro com o paciente: onde? como? quando? com quem? por que? para que? quais as circunstâncias? 2- Considerar os afetos em jogo, incluindo os do paciente e do técnico. Não como um mal-em-si ou bom-em-si, mas como uma positividade, aquilo que move as condutas. Trata-se do desejo. 3- Estabelecer hipóteses diagnósticas conforme a chave semiológica "função versus essência". Fazer prevalecer a função terapêutica. 4- Adotar uma atitude expectante (ao modo fenomenológico) expandindo-a como percepção do imperceptível: a espreita. 5-Percutir os sintomas a partir da vivência que o paciente traz do sintoma. Ou seja, retirar o sintoma da grade biomédica (uma doença) e tratá-lo como modo de existência: "eu sou meu delírio, eu sou minha fobia, etc". 6-Tentar, na medida do possível, inverter com o paciente para além da empatia. Não sentir o que o outro sente (isso é impossível) mas sentir com o outro. Trata-se, enfim, de arriscar um cuidado. O que não é simples, ao contrário. 7- Evitar a auto-identificação em papéis sociais contrários à expressão da diferença, já que eles se nivelam ao de psiquiatra neurobiológico. Não ser, pois, juiz, policial ou sacerdote, entre outros agentes da Ordem. 8-Conectado ao ítem 1, avaliar que forças institucionais fazem o paciente falar uma verdade que não é a dele. Criar condições para ele falar em seu próprio nome. 9- Usar o poder técnico como um contra-poder a favor da expressão do corpo singular. Um exemplo é o do paciente impregnado devido a prescrição equivocada de psicofármacos. A correção deve ser acompanhada de uma explicação técnica ao próprio paciente ou aos familiares. 10-Entender que a subjetividade precede os sintomas ou os diagnósticos à la CID - 10. Ou seja, ninguém é bipolar (uma essência) e sim produzido bipolar. Que tudo é produção, inclusive de doença,  medo,  sofrimento e tédio. 11-Construir uma ética da potência, da alegria no lugar de uma ética destrutiva e do ódio. Tais afetos, conscientes ou não, atravessam e configuram o manejo do cuidado. Cuidado com o cuidado. 12- Trabalhar com a leveza existencial (tornar-se criança sendo adulto) ainda que em meio às situações mais ásperas e dolorosas. 13-Considerar que os poderes estabelecidos da sociedade funcionam e se apoiam na fabricação de crenças num além-mundo. Ao contrário, acreditar nesse mundo e nessa terra como o lugar-do-agora. 


A.M.

Marc Cary - Melancholia

abducción con cumplicidade


 eu trago a palavra

 na ponta da língua

 lambida sugada

 molhada em saliva


se queres sabê-la

beija-me a boca

depois cala o bico

pois isso é segredo

é pacto é acordo

fechado com lacre

entre bruxa e corvo


abracadabra


Líria Porto

sábado, 26 de março de 2022

Chappaquitic Woman

SINAPSES DA ALMA

Os transtornos mentais não explicam nada. Eles é que deveriam ser explicados. Isto significa que a psiquiatria biológica (bem entendido, a psiquiatria hoje hegemônica) funciona com base em entidades clínicas fixas, endurecidas, coisificadas, os chamados transtornos. Munida deste apriorismo metodológico, a pesquisa clínica não avança, não descobre, não cria, não inventa, desconhecendo o que se passa de fato com o paciente (ele não é escutado, ao contrário)  bem como com as causas do seu estado psíquico "alterado". É uma constatação prática, até certo ponto óbvia. Olhe em torno, escute relatos, leia artigos e livros de psiquiatria. É tudo atual. O pensamento está ausente. Há ainda um dado complicador: o enquadre teórico dessa psiquiatria notoriamente conservadora (em termos técnicos, teóricos e políticos) conta com traços de déficit cognitivo. Eles travam o diálogo, o que leva a psiquiatria a buscar ajuda de fora. São as neurociências. Uma teologia científica que segue um cortejo sináptico de importantes descobertas imagéticas. No entanto, tais imagens, feitas para serem vistas no écran, passam a funcionar num regime de visibilidade onipresente, constituindo o próprio universo institucional dessa especialidade: transtornos mentais-recheados-de-imagens, descarnados, desossados, cadáveres gordos. Nada explicam. Deveriam ser explicados.


A.M.

Não entendo o porque das pessoas pensarem sempre no pior e não no mais provável que é pior ainda.


George Carlin

Dave Stryker Trio - Live at Smalls Jazz Club - New York City - 3/26/22

O CONCEITO EM DELEUZE

Como muitos se propõe a falar de filosofia e dar-lhe uma definição, então precisamos começar limpando o terreno das más definições, das definições fracas, mancas, em uma palavra: inconsistentes. Comecemos então com a definição negativa, afinal, o que a filosofia não é?

Vemos ao menos o que a filosofia não é: ela não é contemplação, nem reflexão, nem comunicação

Contemplação: a filosofia não é contemplação porque ela não é desinteressada… Aos que respondem que a filosofia não serve para nada, Deleuze retribui com uma gargalhada galhofeira. Mas no fundo é triste que alguns pensem assim. Se a Filosofia é contemplação sem interesse algum, então sua utilidade é nula! De que adianta contemplar o mundo das ideias e tropeçar em uma pedra aqui? O filósofo não possui compromisso nenhum com o Universal, não está nem preocupado com isso, porque seu ato de filosofar é pura e simplesmente criar conceitos. Conceitos estes absolutamente singulares, quase particulares, que preencherão o plano de imanência.

Comunicação: a filosofia também não possui compromisso algum com o consenso. O meio termo é uma aberração para ele! Em sua função, o filósofo não espera que os conceitos sejam aceitos nem compreendidos por todos. Pelo contrário, quantas vezes a filosofia não cria o desconforto, a angústia? Os conceitos possuem fundamento e não se rendem à opinião geral. A voz do povo é a voz de Deus? Pois bem, diz o filósofo, Deus está morto! Não podemos esperar do filósofo uma comunicação que esclareça e crie consenso, ele não está preocupado com isso. Devemos fugir das discussões e comentários de internet, a filosofia tem mais o que fazer… Cada um tem a filosofia que merece, alguns, inclusive, não possuem nenhuma.

Reflexão: O horror da filosofia às discussões nos leva à última proposição negativa. Quem disse que é necessário a filosofia para refletir? Ora, de modo algum! Podemos refletir com qualquer outra coisa, com as árvores, com uma música, com um poema, com números. O matemático não espera o filósofo para refletir sobre seus problemas. O biólogo não espera o filósofo para refletir sobre os animais. O poeta não espera o filósofo! Ninguém espera a filosofia para pensar (talvez por isso o filósofo possa, mais do que ninguém, habitar a solidão). O pensamento habita a filosofia, mas não é exclusivo de seu campo.

A filosofia não possui compromisso nenhum com o Universal, com o consenso ou com a doxa (opinião). Seus caminhos são outros, ela opera por singularidades. Para Deleuze e Guattari, o conceito será o centro da filosofia, sua razão de ser; podemos resumir tudo em uma fórmula simples: Filosofar = criar conceitos. Pode parecer estranho em um primeiro momento, talvez prático demais. Quer dizer então que os conceitos não estão escondidos por trás dos fenômenos, ou brilhando no céu? Sim, é exatamente isso, filosofar é a prática de criar, inventar, construir, talhar e dar consistência aos conceitos. E podemos ir além, não há altar para os conceitos, eles precisam ser arrancados do ato do pensamento.

Rafael Tindade do site "Razão inadequada"

quinta-feira, 24 de março de 2022

Poema sobre a recusa


Como é possível perder-te

sem nunca te ter achado

nem na polpa dos meus dedos

se ter formado o afago

sem termos sido a cidade

nem termos rasgado pedras

sem descobrirmos a cor

nem o interior da erva.


Como é possível perder-te

sem nunca te ter achado

minha raiva de ternura

meu ódio de conhecer-te

minha alegria profunda.


Maria Teresa Horta

domingo, 20 de março de 2022

SEM  IDENTIDADE

O olhar da diferença é um olhar cego. Ele não vê, apenas enxerga. Capta impressões vagas e exatas. Trabalha no detalhe ínfimo das coisas. Formiga por todo o corpo. Opera como quando se diz: "o amor é cego". Não que a diferença seja o amor, até porque este não existe como coisa, substância, essência, objeto sólido, propriedade, mas como o acontecimento-amar. Ir além, é pois amar o acontecimento como o que não retorna jamais, e que sempre volta com a manhã profunda e leve. Isso é antigo e ao mesmo tempo novo. No exercício dos seus paradoxos, nas cambalhotas do pensamento da alegria, o olhar da diferença é mais que um olhar, muito mais que a perspicácia e a doçura desse olhar. O "amar" enxerga nas trevas, orienta-se por sensações, é pura arte. Questão ética: a potência. É uma prática de vida, um estremecimento, um frêmito, um grito silencioso, um instante lunático. Está encravado nas horas em que Virgínia Woolf captou com todas as suas forças, com todo o esplendor da poesia que viveu. Sem limites para criar. 

A.M


 

sábado, 19 de março de 2022

sexta-feira, 18 de março de 2022

BaianaSystem - Lucro (Descomprimindo)

QUÍMICA: MODO DE USAR

O remédio compõe a paisagem  dos consultórios. Ele expressa  o olhar direto do psiquiatra. Antes  mesmo de ver o outro, o olho do significante absoluto  empreende  o ato de medicar antes de viver e decifrar um fascies. A aparência não aparece.  O remédio é uma arma tornada amena e humana em mãos prescritivas e rápidas. Nada contra a sua eficácia comprovada em neuro-experimentos insuspeitos. Trata-se de outra coisa: o desejo. O fármaco lamina formas de vida, nivela subjetividades, enxuga paixões. Ao que tudo  indica,  ele  chega pronto para uma ação bioquímica definida.  O outro,  traste humanizado em nome do paciente, é o próprio. Remediar a condição  humana, quem não tentou? É preciso ser prudente no ato de medicar. A hora da alienação consentida domina as mentes, inclusive as do último ouvinte da loucura. Afaste-se  da demanda criada pelo fármaco salvador. Isso livra a concepção racional  da diferença  e a substitui  pela alegria: universo de potências múltiplas. O psicofármaco tripudia das mentes inferiorizadas pelo sistema dos valores de troca do mercado. Um coração fenece sempre que a dobra do tempo incide sobre o ser  imóvel.  Ao contrário,  use a posologia dos afetos.  Palavras técnicas dão lugar a vôos baixos. Vá no rumo da mais louca abstração. Espécies esquecidas. Lovecraft.


A.M.

ORQUÍDEAS ETERNAS


 

SER DE ESQUERDA,  SER DE DIREITA

Esquerda e Direita não remetem as essências. Elas são (ou deveriam ser) apenas linhas subjetivas usadas para um balizamento político. O que mudar? Por que mudar? Como mudar? Para que mudar? Mudar para quem? São questões amplas para problemas concretos. Todos (não só os políticos) falam em mudanças. Ninguém deixa de falar em mudanças, mormente num país com graves problemas. Seguindo um pensamento das multiplicidades existenciais, é possível falar em muitas esquerdas e em muitas direitas. Tudo vai depender de uma análise das instituições (formas sociais) em jogo num dado momento histórico. Seja um indivíduo: ele pode ter linhas de esquerda e de direita misturadas, entrelaçadas, ao ponto de não ser possível distingui-las. Então, será preciso obter um conceito que abranja um desejo de mudança atravessando modos de subjetivação. Não indagando "quem sou?" (uma identidade) mas: à medida em que o tempo passa, em quem me torno? Ora, se o tempo passa é porque tudo muda, queiramos ou não. Assim, o conceito de "irreversibilidade do tempo" é o que  serve para pensar a esquerda e a direita para além das essências ou das formas imutáveis. Não existe essência. O cidadão que acredita encarnar em si mesmo a esquerda ou a direita nutre-se de um imaginário narcísico e paranóico. Somos simultaneamente esquerda e direita postos sob um solo de incessante mudança, ainda que imperceptível. E para lidar com a vertigem do tempo que passa e não volta e com o dualismo grotesco esquerda~direita que busca tamponá-lo, a arte é a linha afirmativa, não a monumental ou a mercantil, mas a arte como estilo ou invenção de vida, de alegria e de possibilidades (infinitas) de criação de um novo mundo. A utopia revolucionária resiste (mesmo encurralada pelo fascismo e seu cortejo mortuário) com toda a potência e necessidade atuais. Ela compõe o desejo e a sociedade como o que há de mais digno para escapar do buraco ético em que a civilização se meteu.


A.M. 




quinta-feira, 17 de março de 2022

ela tem os olhos azuis

mais verdes que vi

a poesia arrebenta

em suas praias de carne


A.M.

AFETOS E CORPOS

Os afetos são a consistência do real subjetivo que se expressa como real objetivo. Eles são o próprio real, encontro de corpos com corpos. O corpo-a-corpo do tempo. Não organismos, mas corpos. Afetos não são passíveis de codificações fixas como tenta fazer a psiquiatria biológica e outras instituições.  Ao cunhar o logro da ansiedade-doença, do pânico-doença, da depressão-doença, da fobia-doença, entre outros, a psiquiatria entroniza a burrice erudita.  É que eles, os afetos, sempre vazam, muitas vezes inomináveis, quando, por exemplo, nem uma só palavra expressa o que alguém está sentindo. O que dizer? Eles são abstratos!  Usamos esse termo fora da acepção ordinária. Trata-se de algo sem medida, sem forma e invisível, essencialmente concreto, fluxo de corpos querendo conexões infinitas para além de toda regra social e de toda moral. Enfim, o desejo.


A.M

quinta-feira, 10 de março de 2022

PARA UMA  ANÁLISE DA MEDICINA

É possível uma análise da medicina seguindo duas linhas conceituais ( entre outras). A primeira é a linha institucional. Refere-se à inserção política da medicina na sociedade a que pertence. Como  no caso brasileiro, a sociedade é capitalista, a medicina funciona como forma social conectada ao processo de produção de mercadorias. Os atendimentos médicos, os serviços, as consultas, as técnicas, os exames, etc, tudo é mercadoria exposta na vitrine do mercado. Isso obedece ao método do capitalismo, o capital. Uma das consequências práticas de tal linha de pesquisa é ir contra um certo humanismo natural da medicina, outrora cercado por doce aura de romantismo. Acreditava-se (acredita-se?) que a medicina queria sempre o bem do paciente e que ser médico era uma profissão "linda" (sem ironia).A segunda linha conceitual diz respeito à visão epistemológica. Ela prioriza as relações de causalidade linear, a observação e descrição de objetos sólidos, mensuráveis e visibilizáveis e a compreensão mecanicista de um organismo físico-químico. Os exames de imagem são exemplos atuais e perfeitos.Está aí a enorme produção de conhecimento como efeito e a escassa produção de conhecimento como origem (etiologia) Ora, essas duas linhas (ou eixos) servem tão só como baliza teórico-prática necessária a uma visão crítica. Ao mesmo tempo não descarta os importantes serviços prestados ao paciente, mormente quando lida com procedimentos diagnósticos precisos e preciosos. E mais ainda em ações velozes nas terapêuticas de emergência. Como diria um bioquímico, a Emergência "tira gente da cova". Em suma, esse breve artigo tenta sobretudo por a medicina como um empreendimento social, mesmo que se mostre obra de algum doutor (o médico) ou expresse o indivíduo como único beneficiário (o paciente). Assim, para além de uma relação dual, a medicina é uma relação coletiva, entendendo o coletivo como a multiplicidade do ser humano. Trata-se de uma ética de vida, ética da potência que precede (ou deveria preceder) as duas linhas referidas. 

A.M

quarta-feira, 9 de março de 2022

O QUE É UMA PSIQUIATRIA MENOR?

É uma psiquiatria da alma. Não a alma usada nas religiões, mas a alma do mundo das coisas,  a que se desloca veloz e invisível: o pensamento. A psiquiatria cuida disso. Ou deveria. Pelo menos, quando ele, o pensamento, sai dos trilhos...

Uma psiquiatria menor busca captar o paciente através de percepções finas e encontrá-lo onde jamais alguém o encontrou. Uma ética de força e criação guia suas ações, mesmo as farmacológicas.

Seu instrumento de pesquisa e intervenção prática (clínica) é uma psicopatologia aberta às mil influências (saberes) do que está longe e ao mesmo tempo muito perto. O objetivo é sondar o fora,  não como espaço físico mas como ligação invisível ao cosmos aqui em terra firme. É uma psiquiatria do real.

Considera antes de tudo, os corpos-em-relação, os corpos-em-vibração,  o que move o paciente e o técnico: afetos. 

Nesta concepção, a política existe como trama de poder na qual a clínica está incluída.  Para além ou aquém do regime binário direita/esquerda, tal visão clínica é apaixonada pela diferença, pela singularidade e pelo múltiplo.

Uma psiquiatria menor é grande. Psiquiatras neuro-maníacos lhe são estranhos.


A.M.

segunda-feira, 7 de março de 2022

Nós estamos piorando cada vez mais e eu considero o ser humano um caso perdido. E falo isto com a mágoa de quem queria ser um santo. O único ideal que eu teria na vida, se fosse possível realizá-lo, era ser um santo. Eu queria ser um sujeito bom. A única coisa que eu admiro é o bom, fora disto não admiro mais nada.


Nelson Rodrigues

Rosa Passos - "Juras" (Festa/1993)

domingo, 6 de março de 2022

ela tem os olhos azuis

mais verdes que vi

a poesia arrebenta

em suas praias de carne



A.M.