sexta-feira, 31 de julho de 2020

UMA ESTRANHA ESPECIALIDADE 

O que é involuntariedade em psiquiatria? É o fato do paciente não se achar doente, não se perceber como um doente, não se sentir doente, e, portanto, não querer tratamento. A aproximação de um técnico que lhe ofereça ajuda (talvez um psiquiatra) lhe provoca rechaço, negativismo, indiferença, ou até hostilidade/agressividade. Este é um dado muito comum observado no campo da psicopatologia clínica, o qual, entre outros efeitos concretos, atesta a insuficiência do modelo biomédico nas práticas de saúde mental. Citando ao acaso, é possível incluir os quadros de transtornos da personalidade, dependências de drogas, demências graves, retardos mentais, psicoses de variadas etiologias e semiologias (com sintomas positivos ou negativos, em especial as esquizofrenias), delírios sistematizados crônicos, transtornos do humor  (formas de mania excitada e mania psicótica, e até mesmo depressões), entre outros quadros mal diagnosticados, com diagnóstico obscuro, ou até sem diagnóstico. O essencial a considerar é que a maioria não quer tratamento, nem sabe do que se trata, ou do que se passa. Ora,  como é possível que exista uma especialidade médica cujos pacientes não apenas não querem tratamento, como também não se sentem doentes? Na maioria dos quadros arrolados, a busca de tratamento é, sim, da família, ou dos que estão à volta (amigos, colegas, vizinhos, etc) e não do próprio paciente. Por que?

A.M.

quarta-feira, 29 de julho de 2020

O DIREITO DE MATAR

O número de registros de novas armas de fogo concedidos pela Polícia Federal explodiu em todo o país. A chamada posse de arma é um documento emitido pelas autoridades e permite que, caso cumpram alguns requisitos legais, as pessoas possam ter em suas casas pistolas e revólveres. Quando comparado o primeiro semestre de 2020 com o mesmo período do ano passado, houve um aumento de 205% no total de novos registros emitidos pela PF: foram 24.236 em 2019 ante 73.996 agora. Este crescimento se deve, de acordo com pesquisadores, às portarias e decretos assinados pelo presidente Jair Bolsonaro, que tinha como uma de suas principais promessas de campanha flexibilizar o acesso às armas de fogo. Na prática o mandatário desfigurou o Estatuto do Desarmamento, conjunto de leis voltadas ao controle de armas e responsável por salvar mais de 160.000 vidas, segundo estudos.
(...)

Gil Alessi, El País, São Paulo, 27/07/2020, 19:57 hs

terça-feira, 28 de julho de 2020

Chet Baker Zingaro A k a Retrato Em Branco E Preto

RESISTIR

O conceito de desejo, no pensamento de Gilles Deleuze e Félix Guattari, é imediatamente prático e, daí, político. É que ele se confronta com as linhas do poder, visíveis ou não. Esta é a grande e insuperável diferença teórica em relação ao pensamento de Freud, Jung, Lacan, e outros menos ilustres. Daí, não há como desejar sem respirar o "ar do social". Desejar é produzir. Mesmo em tempos subjetivos considerados intimistas, "interiores", há sempre o social  como multiplicidade coletiva entranhada, imiscuida, inserida nos corpos. Isso é real, este é o real. Sua resposta mais direta é (ou deveria ser) uma inserção ético-estética na experiência do mundo, resistir ao poder via a potência dos afetos.

A.M.

segunda-feira, 27 de julho de 2020


Modo de amar – VIII

Que macias as pernas
na penumbra

e as ancas
subidas
nos dedos que as desviam

Entreabro devagar
a fenda – o fundo
a febre
dos meus lábios

e a tua língua
Vagarosa:

toma – morde
lambe
essa umidade esguia


Maria Teresa Horta


mulher ucraniana

MIL ENCONTROS

Desde tempos idos operamos o conceito de Encontro a partir de Espinosa, Moreno, Martin Buber e Deleuze-Guattari. Estes autores compuseram uma espécie de matriz teórica para pensar o encontro, considerando o próprio encontro com eles. No entanto, para além de um cais seguro,outros autores foram conectados, formando um extenso rizoma onde e por onde linhas de pesquisa se tecem. Mais ainda, além e aquém de tais conexões, o conceito de encontro passou a ser engendrado no devir da clínica em psicopatologia. Observamos: a cada processo terapêutico aparecem signos que enriquecem o conceito, tonando-o peça essencial na construção de uma prática-clínica da diferença. Alguns desse signos podem ser registrados como balizas existenciais numa aventura em plagas do novo, do indeterminado e do desconhecido. Mistério da subjetividade. Em primeiro lugar, o signo da loucura como o lugar do não-lugar das significações prévias. Deserto de valores, vazio de sentido. Em segundo, o signo da morte, da finitude, da perplexidade em face do fio tênue da vida atravessando os discursos. Em terceiro, a irreversibilidade do tempo que passa e não volta jamais, truísmo imbricado na economia psíquica, e por isso nem sempre valorizado. Em quarto, a inferência direta do fracasso monumental da estadia da humanidade na Terra e o seu pesadelo do qual não se desperta. Em quinto, a relação indissociável dos modos de subjetivação com as formas sociais expressas segundo a ordem do capitalismo aparentemente vencedor. Em sexto, mas não menos importante, o corpo como o lugar das intensidades e do brilho da existência. O corpo-a-corpo como a passagem, o nexo, a conexão, o link dos encontros. Tais são a ancoragem do pensamento do encontro com a diferença. Ele pode pode e deve transmutar-se em mil linhas de intervenção prática na clínica psicopatológica. Seria possível repetir e extrair a alegria de experimentar novos encontros? Sem garantias de poder, felicidade, sucesso, dinheiro, prestígio, salvação,valores humanos, demasiado humanos, como diria o bigodudo alemão do século XIX.

A.M.
A GUERRA NÃO ACABOU

Três décadas depois da queda do muro de Berlim, as duas superpotências do século XXI parecem lançadas a uma nova guerra fria. Os Estados Unidos e a China avançam em uma espiral de ameaças, sanções e acusações de espionagem de consequências imprevisíveis, para eles mesmos e para o resto do mundo. Do confronto nos âmbitos comerciais e tecnológicos à competição armamentista e a luta pela influência nos diversos continentes, os dois gigantes protagonizam uma disputa pela hegemonia global repleta de perigos e de final incerto.
(..)

El País, 26/07/2020, 21:53

Jerry García y Pink Floyd en Zabriskie Point de Michelangelo Antonioni

domingo, 26 de julho de 2020

DEVIRES

O paciente vive entristecido pela Grande Máquina. Sua alegria foi aniquilada em plena vigília. Do nada.Ninguém assume a autoria dos pequenos  crimes. Eles são  administrados em nome da  paz de espírito. Ora, o espírito também caga. Avise aos últimos palhaços que a arte foi solapada em nome do ideal dos homens de branco.Ao que  me consta, nada mudou no sulco das bocas. Elas falam rachando dentes. Mastigam auroras nati-mortas. Mas o Rosto carrega uma expressão justa, como negar? A  bondade natural dos  humanos. Ó Lovecraft,  socorrei! Apenas uma cidade  respirando um arco-íris, manda por  favor... Não falo por  mim. Por mim, ó... Falo pelo que não sou, falo por devires. Escutai a canção do mundo... Você dança? O paciente sucumbe à  Ordem. Por favor, o senhor pode  me dizer as horas? Já vai tarde o tempo dos  mestres, com todo  o  respeito. Sonâmbulos da própria  dor, como falar aos que não falam? A  Grande Máquina é uma  pequena dose de benefícios a curto e  médio prazo. Ela se insinua na febre dos corredores infectos. Um susto, um sus. Tudo é contágio. Resistir à morte,  querida, e fazer dessa vibração algo de novo, será  possível? Talvez um devir-amante imerso  em trepadas millerianas. Bicho, perdoa  o jeito canino: o que é necessário para viver por viver?Pacientes são pacientes demais.Armaduras químicas, lições de casa, manuais de sobrevivência, coisas simples, eles são normais.Eu queria um gosto de sol em você, em suas dores mais intensas e  irremediáveis. Pena que  a sombra dos quintais do passado anuncie sessões de tortura regadas à dinheiro. A entrega é às oito.Todos estarão lá, até o chefe da  Facção Sinistra, aquele  mesmo que  começou a seduzir a multidão com truques de falar macio. Não tem jeito. Somos  inocentes radicais.

A.M.

Rehearsal Kunstkamer - Paul Lightfoot (NDT 1 and 2 | Kunstkamer)

A borra

Prefiro as palavras obscuras que moram nos
fundos de uma cozinha — tipo borra, latas, cisco
Do que as palavras que moram nos sodalícios —
tipo excelência, conspícuo, majestade.
Também os meus alter egos são todos borra,
ciscos, pobres-diabos
Que poderiam morar nos fundos de uma cozinha
— tipo Bola Sete, Mário Pega Sapo, Maria Pelego
Preto etc.
Todos bêbedos ou bocós.
E todos condizentes com andrajos.
Um dia alguém me sugeriu que adotasse um
alter ego respeitável — tipo um príncipe, um
almirante, um senador.
Eu perguntei:
Mas quem ficará com os meus abismos se os
pobres-diabos não ficarem?


Manoel de Barros

sábado, 25 de julho de 2020

ALEXEY SLUSAR


A MORTE EM SÉRIE

RIO  — O Brasil chegou aos 86.496 óbitos e 2.396.434 contaminações pela Covid-19, com 1.111 novos óbitos e 48.234 novas infecções desde as 20h de sexta-feira, de acordo com boletim das 20h deste sábado do consórcio de veículos de imprensa. A média móvel de mortes é a maior desde o início da pandemia no país, com 1.097 óbitos diários em média nos últimos sete dias. A variação é de 6% em relação às mortes registradas em 14 dias. Apenas  95 municípios do país  não têm casos da doença, número que representa menos de 2% do total de cidades brasileiras (5.570).

Os dados  são divulgados pelo consórcio de veículos de imprensa formado por O GLOBO, Extra, G1, Folha de S.Paulo, UOL e O Estado de S. Paulo, que reúne informações das secretarias estaduais de Saúde.

O boletim do Ministério da Saúde, divulgado na noite deste sábado, informa que o Brasil  tem 2.394.513 casos do novo coronavírus e 86.449 mortes. Nas últimas 24h, foram contabilizadas 51.147 pessoas infectadas com a doença e 1.211 óbitos. Ainda de acordo com os dados,  há 3.691 mortes em investigação e o total de recuperados  soma 1.617.480.
(...)

O Globo, 25/07/2020, 20:03 hs


COVID E SAÚDE MENTAL - I

A chegada do Covid trouxe mil questões para a saúde mental. São questões práticas, vivenciais, concretas, na medida em que o vírus bate à porta. Não é preciso citar estatísticas mortuárias com que a mídia espalha a informação/comunicação sobre o bicho-coroa. A nossa intenção é simples e direta: traçar linhas afetivas para um pensamento que resista não só ao vírus mas à mentira, a infâmia e aos poderes dos tempos que correm. Pensamento que não é algo abstrato, mas o próprio corpo. E que resiste à morte disfarçada de vida (vide famélicos aos milhões) no mundo em que vivemos, não só no Brasil. Nesse momento, o Covid é o inimigo público número um, signo de um Horror invisível. Temos que nos proteger. No entanto, a obviedade do enunciado esconde questões da saúde mental que sobem à flor da pele, à flor de um tempo sem alma. O Covid não tem alma. Em saúde mental a ausência de alma (não a dos religiosos, mas a alma das coisas, a vida, enfim) fez e faz da psiquiatria o modelo único (bioquímico) dos objetos (pacientes) expostos como coisas e casos. Quanto vale um paciente? Tal modelo autocentrado (narcísico) tem a capacidade de proliferar e contagiar corpos, tornando-os serviçais da razão manicomial, ainda que soltos. O Covid trouxe uma dor nova para velhos problemas.

A.M.

OLHOS COR DE MOSTARDA

à porta um sobressalto
por aquele homem eu não esperava
ao fitar-lhe os olhos percebi
vai querer ser dono
                                da minha alma

em legítima defesa eu lhe disse
a mulher que em mim procuras
não existe

nunca mais o vi
mas para assegurar-me comprei cruz
balas de prata cabeças de alho
estacas


Líria Porto
Uma prece pelos rebeldes de coração enjaulados.

Tennessee Williams

Tom Zé | Xique Xique (Tom Zé/José Miguel Wisnik) | Instrumental SESC Brasil

CLÍNICA E TECNOLOGIA DA IMAGEM - IV

Como F. Guattari previu, vivemos tempos esquizofrênicos. Isso faz retirar do conceito de Capitalismo Mundial Integrado (Guattari, 1982) elementos teóricos contingentes e necessários a uma análise institucional. A produção social (econômica) estendeu-se à produção subjetiva (semiótica) como matéria prima, ou, como diz Foucault,  biopoder. A vida passa a ser produzida, e com ela, tudo que parece imitá-la. Antigos códigos sociais (por ex., na Idade Média, o código teológico) cedem lugar à auto-dissolução numa espécie de esquizofrenização generalizada do corpo social (socius). Não há mais eu, mesmo que pareça. Há, sim, um eu voltado às logísticas de manutenção do cotidiano. É possível olhar em torno: o cenário de dissolução do Sentido é devastador. Indagações da alma ("estarei vivo?") atracam-se no território do corpo-imagem. Assim, pensar para além da simples cognição da realidade só se torna possível mediante a representação dessa realidade e não com e através dela. A realidade "real", o corpo das intensidade mundanas, cede a sua vez, seu número e seu lugar à teatralidade de um mundo em decomposição. Notícias de toda a parte chegam instantâneas. Registram as  linhas subjetivas do consumidor (orgulhoso) de ordens implícitas. Sem saber, é o desejo encalacrado nas dobras da alma: o capital.

A.M.

GUIDO LIMA


Desejar ser

O maior apetite do homem é
desejar ser. Se os olhos veem
com amor o que não é, tem ser.


Manoel de Barros
A VIRALIDADE DA AÇÃO POLÍTICA

A atual crise sanitária só tem uma vantagem, ter uma dimensão equivalente à das seguintes crises, aquelas que englobamos sob o nome de ecologia ou mudança climática. Até agora, as medidas tomadas em nome do meio ambiente sempre parecem mínimas —inclusive irrisórias— em comparação com o que está em jogo: uma ciclovia aqui, um carro elétrico ali. Por mais que os cientistas dissessem que deveríamos mudar de rumo “radicalmente” e “de modo duradouro” e reexaminar “todas as nossas condições de vida”, as pessoas assentiam com a cabeça e pensavam em outra coisa.

No entanto, o grande mérito da crise sanitária provocada pela covid-19 é ter conseguido, a toda velocidade e em todo o mundo, uma transformação radical e, infelizmente, duradoura, de nossas condições de vida em uma escala que, devido à magnitude do desastre, das forças mobilizadas e das vítimas, não tem equivalente a não ser se falarmos sobre as duas últimas guerras mundiais. Em meio à dor mais extrema, estamos vendo que a ordem mundial, que nos diziam ser impossível de mudar, tem uma plasticidade espantosa e que, como coletivo, os seres humanos não estão indefesos. Tudo depende, é claro, da sua capacidade de resistir ao retorno à ordem anterior.

E esta é a segunda e fascinante característica do vírus: está conseguindo tudo isso sem ir além do contágio de pessoa a pessoa, um contágio que cada um de nós pode interromper ou, pelo contrário, facilitar. Isso significa que o velho modelo de ação que tanto nos desesperava (como um indivíduo vai lutar sozinho contra um sistema esmagador?), na realidade, não faz sentido: um vírus vindo da China, por si só, e que viaja boca a boca, pode perfeitamente derrubar a ordem estabelecida. Uma lição maravilhosa: não existe sistema capaz de resistir à viralidade da ação política, basta colocá-la em prática com os instrumentos adequados.


Bruno Latour, El País, 24/07/2020, 12:32 hs

sexta-feira, 24 de julho de 2020

MARIA BETHÂNIA - Janelas Abertas nº 2

84.251

RIO — O número de casos confirmados de Covid-19 no Brasil subiu para 2.292.286, indica o boletim das 8h do consórcio de veículos de imprensa formado por O GLOBO, Extra, G1, Folha de S.Paulo, UOL e O Estado de S. Paulo nesta sexta-feira. Os números são consolidados a partir das secretarias estaduais de Saúde. O total de óbitos é de 84.251.
(...)

O Globo, 24/07/2020, 08: 17 hs
Direito? O que é 'direito'? Uma linha pode ser direita, ou uma rua. Mas o coração de um ser humano?

Tennessee Williams

quarta-feira, 22 de julho de 2020

Chinatown - 12. Love Theme From Chinatown (End Credits)

O TEMPO NA PSICOTERAPIA

Na prática da psicoterapia aprendemos que o tempo é o tecido da vida. Este dado aparece muito claro no processo de mudança existencial que toda terapia, em maior ou menor grau, promove. Os modos de subjetivação (estilos de viver) tornam-se concretos na medida em que a experiência de si e do mundo se mistura ao tempo-desejo sem forma, numa palavra, aos devires incontroláveis. O corpo que não aguenta mais. Isso implica na abertura de linhas desejantes criadoras de sentido. Portanto, o tempo, assim como H. Bergson o definiu, "é criação ou não é nada". Uma psicoterapia, a que acolhe signos múltiplos oriundos da ciência, da filosofia e da arte, se instala em territórios refratários aos dilemas da consciência. Assim, para muito além da psicanálise, a qual explora ad nauseam um inconsciente representativo, edipiano e familiarista, o método da diferença capta afetos impossíveis de sonhar, mas passíveis de metamorfoses rumo a um outro viver. Isso impõe riscos. Contudo, há regras de prudência (cf. G. Deleuze) elaboradas no interior de uma ética da alegria e de uma estética do novo. Desfaz-se o tempo como alta do tratamento (conceito médico) para uma implicação profunda e inadiável do paciente com a sua própria alma, ou seja, consigo mesmo.


A.M.

NINHO

quero alcançar a poesia
fico na ponta dos pés
ela mais se distancia
eu não sei o que fazer
quando me canso e desisto
ei-la ali — dentro do berço
a brincar com francisquinho
meu neto de nove meses


Líria Porto

LOUI JOVER


terça-feira, 21 de julho de 2020

A ELITE IMUNDA

Os últimos dias têm sido um festival de arrogância de homens públicos e brasileiros abastados expondo publicamente seu pedantismo diante de pessoas em suposta posição de desvantagem na escala econômica. O mais recente, o desembargador Eduardo Almeida Prado Rocha de Siqueira, chamando de “analfabeto” um guarda que cobrou dele o uso da máscara enquanto ele caminhava na orla de Santos, é de cair o queixo. Siqueira rasgou uma multa que recebeu e a jogou em cima do guarda municipal que o abordava. O desembargador ainda ligou para um superior para reforçar a ameaça, como mostram as imagens do vídeo que tomou as redes sociais neste final de semana.

Tornar-se alvo de repúdio de parte dos brasileiros não faz corar nenhum integrante desse topo da pirâmide, que só alcançou status por dinheiro, mas são deploráveis em termos de valores. Alguns entregam seu apego a uma etiqueta de opressão, descolados de um mundo que avança em outro sentido. Dias atrás circulou a imagem de um casal reclamando com um fiscal no Rio que cobrava que fossem embora de um bar pelas restrições impostas pela pandemia. Quando o fiscal chamou o rapaz de “cidadão”, a mulher reagiu dizendo: “cidadão não, engenheiro civil”. Também o secretário executivo do Ministério da Saúde, Elcio Franco Filho, mostrou sua hostilidade com quem não pode se defender ao dar ao vivo uma bronca gratuita num garçom que entrou sem querer na visão da câmera que filmava a live da qual participava Franco Filho.

Um pouco antes, foi a vez de um empresário no condomínio de luxo Alphaville apelar em alto e bom som para a baixaria quando foi abordado por um policial, chamado pela mulher do empresário. “Você é um bosta, você é um merda de um PM que ganha mil reais por mês. Eu ganho 300.000 por mês. Eu quero que você se... , seu lixo!”, vociferava ele na frente da mulher — e da filha. Este, ao menos acabou algemado, e pediu desculpas publicamente pelo show de horrores que promoveu. Mas estava sendo detido por violência doméstica. Quem é o lixo aqui?
(...)

Carla Jiménez, El País, 20/07/2020, 21:44 hs

segunda-feira, 20 de julho de 2020

Eu sofro de mimfobia, eu tenho medo de mim mesmo e me enfrento todo dia.

Millôr Fernandes
Vício

Vou vivendo na vontade
que tenho de me atirar
no incêndio dos teus braços

a procurar no final
voltar de novo ao início
entre a poesia e o voar

pois escrever e amar
é arder
no mesmo vício



Maria Teresa Horta
Clínica dos afetos - II

A clínica dos afetos poderia ser chamada "clínica da diferença" ou "clínica das multiplicidades". A opção por "afetos" deve-se à estratégica de análise da psicopatologia que sustenta (ou deveria sustentar) a psiquiatria clínica. Veja: um paciente (qualquer...) está sob a influência incessante de forças que se traduzem no corpo, na alma, na conduta, na existência enquanto afetos, intuições, sentimentos, tendências, emoções, impulsos, instintos, quer sejam criadores e/ou destrutivos. Tal perspectiva metodológica busca eliminar a visão do transtorno mental como evento extra-territorial (fora do meio em torno) o que faz por encaixotá-lo em modelos enrijecidos, frios, assépticos, desnaturados, seja o da visão biomédica, seja o de outras metodologias como a da terapia cognitivo-comportamental (TCC), sem dúvida, um monumento ao conformismo tornado ciência. Uma clínica dos afetos começa com os afetos em jogo postos pelo próprio técnico em saúde mental. O que Freud chamava de contratransferência pode ser ampliado para uma atitude de implicação ético-estética no que acontece ao Outro, sabendo que este Outro somos nós mesmos.

A.M.

Guimarães Rosa - Entrevista em Berlim (1962)

domingo, 19 de julho de 2020

Por que há tão poucas pessoas interessantes? Em milhões, por que não há algumas? Devemos continuar a viver com esta espécie insípida e tediosa? O problema é que tenho de continuar a me relacionar com eles. Isto é, se eu quiser que as luzes continuem acesas, se eu quiser consertar este computador, se eu quiser dar descarga na privada, comprar um pneu novo, arrancar um dente ou abrir a minha barriga, tenho que continuar a me relacionar. Preciso dos desgraçados para as menores necessidades, mesmo que eles me causem horror. E horror é uma gentileza.

Charles Bukowski
FECHARAM AS PORTAS

Desde que a pandemia do novo coronavírus chegou ao Brasil, 716.000 empresas fecharam as portas, de acordo com a Pesquisa Pulso Empresa: Impacto da Covid-19 nas Empresas, realizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e publicada na quinta-feira (16/07). A cifra corresponde a mais da metade de 1,3 milhão de empresas que estavam com atividades suspensas ou encerradas definitivamente na primeira quinzena de junho, devido à crise sanitária. Do total de negócios fechados temporária ou definitivamente, quatro em cada 10 (um total de 522.000 firmas) afirmaram ao IBGE que a situação deveu-se à pandemia.
(...)

Joana Oliveira, El País, São Paulo, 19/07/2020, 09:39 hs

Bella Figura. Jiri Kylian. Netherlands Dance Theater.

O QUE É VIVER?

As linhas da diferença estão em toda a parte. No entanto, caso prevaleça o olho paranóico da Consciência, este acesso é impossível. Ao contrário, buscamos o cultivo de percepções finas, sutis, delicadas, para além e aquém das formas subjetivas do eu-importante. As pessoas, em geral, se acham importantes. Queremos o desimportante. Experimentar viver sem clichês, com poucas respostas ou referências de verdade: buscar a diferença. Para isso, dobras psíquicas e corpos intensivos fazem novas conexões afetivas. A diferença é o que sobra dos afetos produzidos ao sabor dos encontros. Um "resto" composto de afetos irá encontrar novos afetos, e assim por diante, numa repetição prenhe de nuances de arte. A diferença é a arte. Não a arte mercantil ou monumental, mas a arte como processo de criação de mundos: um devir-arte.Traçar essa linha, esboçar essa linha de força ativa, linha de potência, linha de invenção, linha de vida, quem consegue saiu de si. Enlouqueceu de amor ao amar. Uma passagem, uma travessia. Viver, não apenas sobreviver.

A.M.

sexta-feira, 17 de julho de 2020

vai ver que o apocalipse
   já aconteceu
   e a gente nem percebeu


Nicolas Behr

ANNA RAZUMOVSKAYA


QUAL DEPRESSÃO?

A depressão não é uma doença. Para dizer isso, é preciso sair do modelo biomédico. Não significa que esteja ausente o sofrimento depressivo, antes, pelo contrário. São afetos destrutivos, matizados por vivências devastadoras para a sobrevivência subjetiva, mesmo que o organismo por vezes esteja hígido, intacto, funcionando. Assinar o ponto, a obrigação. Ora, se a depressão não é primariamente uma doença fora do sentido biomédico, é sim um estado psíquico desprazeroso, variável em sua gravidade, segundo os fatores que lhe são determinantes. Há uma variação infinita, vetores abstratos não menos reais e atuais. Queremos pontuar um aspecto singular, o de que ela, a depressão, codificada pela mídia inculta como "o mal do século", tem a sua gênese estritamente ligada à condição humana encravada no "social", o que implica em perdas sucessivas, mortes simbólicas ou reais, e acima de tudo, o estilhaçamento dos valores da sociedade industrial burguesa. O mundo como hospício. Tais valores não são externos à subjetividade. Eles são linhas desejantes que balizam as certezas de quem somos, ou seja, das crenças. Tempos niilistas: em que ou em quem acreditar? Talvez as crenças não mais nos sirvam, pelo menos para uma vida alegre e potente. Não mais para uma uma vida leve. Resta um grande buraco existencial, a depressão in vivo, sofrendo na pele, no corpo, nas vísceras, no olhar, no rosto, nos corpos doloridos e mortificados, a brutalidade dos fascismos à mão cheia e a erosão de sentido dos dias que correm. Os poetas sabem.

A.M.
A melhor maneira de ser feliz é gostar de seus problemas.

Woody Allen

quarta-feira, 15 de julho de 2020

O fazedor de amanhecer

Sou leso em tratagens com máquina.
Tenho desapetite para inventar coisas prestáveis.
Em toda a minha vida só engenhei
3 máquinas
Como sejam:
Uma pequena manivela para pegar no sono.
Um fazedor de amanhecer
para usamentos de poetas
E um platinado de mandioca para o
fordeco de meu irmão.
Cheguei de ganhar um prêmio das indústrias
automobilísticas pelo Platinado de Mandioca.
Fui aclamado de idiota pela maioria
das autoridades na entrega do prêmio.
Pelo que fiquei um tanto soberbo.
E a glória entronizou-se para sempre
em minha existência.


Manoel de Barros

A DIDÁTICA DO ITAMARATY

BRASÍLIA —  Um material didático disponibilizado pelo Itamaraty para estrangeiros que querem aprender o português brasileiro traz diversas frases com juízo de valor de caráter político, racial e social. Em uma delas, para ensinar a conjugação do verbo “ficar”, o texto pede que o leitor complete a sentença: “Se ela alisasse o cabelo, ela () mais bonita”. Em outras, há menções à política do país, entre elas um enunciado que aponta o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como corrupto. As apostilas, elaboradas por uma professora que tem uma escola de idiomas em São Paulo, também contêm citações ao escândalo do mensalão, ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e ao aborto.
Procurado, o Itamaraty reconheceu que o material “não se coaduna com as diretrizes estabelecidas pelos guias curriculares” e, por isso, foi “prontamente retirado da página eletrônica da Rede Brasil Cultural”. A decisão, porém, só ocorreu depois de a reportagem procurar o Ministério das Relações Exteriores. O material estava no ar desde 2013, segundo a própria nota. O órgão acrescentou que a apostila foi incluída no sistema por “terceiros”.
(...)

Gustavo Maia, O Globo, 15/07/2020, 04:30 hs

terça-feira, 14 de julho de 2020

O CORPO INVISÍVEL - III

Segundo publicação da ONU de 2018, 822 milhões de pessoas passam fome no planeta. Esse é "apenas" um índice social (comer para sobreviver) mas que expõe cruamente as condições de vida da população mundial. A pergunta: uma revolução sem guerra findaria tal aberração ética? "você tá brincando", diz um amigo mordaz. Ora, as esquerdas até que tentaram e hoje vegetam no adiamento eterno da Revolução (com guerra, claro). Quando ela virá? Quando será? A ideia de revolução tornou-se um fantasma adornando consciências sensíveis. Mas a questão é que não há mais consciência a não ser como ferramenta para as tarefas do cotidiano. Foi ao banco? Pagou as contas? Se não há mais consciência, o que há? Em tempos internéticos e midiáticos, tempos do império da tecnologia da imagem, só há o corpo-pensamento, o corpo invisível à altura dos jogos de poder e de contrapoder. Um Deus-pensamento-corpo é tão veloz como o pensamento sem imagem, aquele do vampiro, espírito traduzido em músculos, ossos, sangue e visceras. Esta é a condição de possibilidade para uma luta invisível enfiada na mente dos corações enjaulados. Tudo passa então pelo processo desse  tornar-se invisível, mais invisível ainda para um corpo já invisível. Intensificar o movimento contínuo dos corpos entre si. Isso gera signos para uma verdade ainda desconhecida, a ser inventada. Mas quem a suporta?

A.M.

HENRY ASENCIO


JOSUÉ


se você estiver cansado

de si mesmo,

vá ao cartório civil e troque seu nome para Josué



depois, com a nova certidão

no bolso, corra

desembestado pelas ruas

gritando: sol, para! Sol, para!



Isso não resolve sua dor

nem vai frear

o giro da Terra, mas

propicia um belo espetáculo.


Caros Machado

BEIJO PARTIDO - Mônica Salmaso e Joyce Moreno

A história da mulher é a história da pior tirania que o mundo conheceu: a tirania do mais fraco sobre o mais forte.

Oscar Wilde

segunda-feira, 13 de julho de 2020

O CORPO INVISÍVEL - II

A existência do corpo invisível nos leva a uma opção ética. Ao contrário da ética idealista que reflete sobre a moral, teoriza sobre a moral, trabalhamos todo o tempo com a ética como linha pratica no aumento da força de existir ou na redução desta mesma força. Neste limiar da ação  o pensamento como força inumana faz por dissolver personalidades estanques demasiado humanas em prol de linhas imperceptíveis do espirito. A ética do pensamento, ao contrário do que parece, é uma ética do corpo. E se este espirito é invisível por sua própria natureza, seguindo as "pegadas" de um Deus não hieraquizado, a ética traça linhas de potência misturadas às da impotência. O que irá "dissecar" e triar esse nó de opções  existenciais é a força de um espirito que na falta de uma palavra menos gasta, chama-se Deus. Isso autentica um nivelamento absoluto entre os humanos como força de existir no cruzamento opaco entre as linhas do infinito espaço/tempo. A ética , qualquer que seja ela, está atrelada a esses infinitos, pelo que não há uma ética pura nem tampouco uma ética única e verdadeira que abarque todas as demais. De novo, o corpo-espírito aprofunda-se no pensamento-Deus como o que não tem nome, forma, rosto ou identidade. E ao mesmo tempo está dentro de nós. Pensar (não refletir) é um exercício perigoso porque lida com terremotos da alma, com a loucura, e portanto está na beira de uma linha sem fim chamada Deus. Este não estrutura nem referencia nada, ao contrário, ele é já a Força dos processos de vida que se expressam como fluxo espiritual multiplicado e multiplicante pelos quatro cantos do mundo. Deus está no mundo. Não pensar assim é afundar numa ética do eterno adiamento de uma revolução sem guerra. E por que seria preciso a guerra?

A.M.

domingo, 12 de julho de 2020

Teresa Cristina feat. Criolo - O Mundo e um Moinho

Mapa

De certo, apenas a incerteza.
O copo branco sobre a mesa
e esta aspiração de domingos.
De certo, a morte e seus respingos.

O menino azul quer um mapa,
carta de agir, segura e exata.
Quer seguir rijo, reto e justo
para justíssimo lugar.

O que, então, responder? Desiste,
esse lugar não há e — triste! —
não há mapa, nem portulano,
nem porto lhano onde ancorar.

Como dizer? Menino, os mapas
não são roteiros de achamento,
mas tênues direções de vento
para quem só busca o buscar.


Carlos Machado

sábado, 11 de julho de 2020

O CORPO INVISÍVEL

A figura de Deus tomada como uma pessoa, ou mais precisamente, como uma Forma, nos remete a uma discussão infértil e rebaixada a um pensamento da representação, ou seja, do previamente designado, manifestado, significado em algo, no caso, um Ser Supremo. No entanto, o exercício do pensar sem limites prévios, o pensar-aventura, " seguindo sempre a linha de fuga do vôo da bruxa" implica em assumir o processo de pensar vindo de fora do sujeito. Este não pensa. Algo (invisível) é que o força a pensar: pode ser qualquer coisa, ou seja, um signo. Pensar, portanto, é uma atividade mental que ultrapassa as coordenadas de um eu ou de uma consciência, em prol da exposição dos mesmos aos signos que compõem a realidade. Esta é feita de signos e há sempre exposição a eles. Mesmo na solidão mais extrema, o pensamento é extraído das imagens-signos que rodopiam em torno da experiência de si consigo mesmo, Neste sentido, a concepção de Deus ou de um Deus, para ser inteligente (leia-se: criativa) compõe-se de uma aura invisível dotada de uma velocidade infinita ao ponto de que para pensar é preciso enlouquecer (não como psicose ou outro transtorno, mas como singularização) sob os efeitos de um espírito que nos constitui como corpo. Esse corpo não é o corpo "encarnado" de que falam os espíritas, mas o espírito como o corpo (não o organismo) em si mesmo, o corpo espiritual ou o espirito corporal, aquilo que move os processos enigmáticos e expansivos da vida. Resumindo,o conceito de Deus abrange um complexo de forças que se multiplica como espírito que se multiplica como corpo que se expressa como o sem-forma. O corpo é Deus.

A.M.

EMIL NOLDE


sexta-feira, 10 de julho de 2020

BUTLER DE NOVO

Julio Cortázar encarna uma tradição de imaginação literária e ativismo político extraordinários. Tenho em mente aquela advertência que Pablo Neruda fez há alguns anos: “Quem não lê Cortázar está condenado”. Cortázar acreditava que devemos estar conscientes da linguagem que usamos ao descrever o mundo, pois está repleta de significados inconscientes, histórias sociais, um legado de luta e submissão. É possível que a linguagem que seja mais clara para nós acabe se revelando a mais opaca e até enganosa quando começamos a nos aprofundar na história de seu uso.

Em uma aula de literatura que deu em 1980 na Universidade da Califórnia, em Berkeley, universidade onde sou professora, Cortázar disse a seus alunos: “A linguagem está aí e é uma grande maravilha e é o que faz de nós seres humanos, mas cuidado! Antes de utilizá-la é preciso ter em conta a possibilidade de que ela nos engane, ou seja, de que estejamos convencidos de que estamos pensando por conta própria e, na realidade, a linguagem está um pouco pensando por nós, usando estereótipos e fórmulas que vêm do fundo do tempo e podem estar completamente podres.”

E, no entanto, Cortázar nunca virou as costas à linguagem, nem à política, nem à esperança. Devemos questionar criticamente a maneira como reproduzimos em nossa linguagem as formas de poder às quais nos opomos e também devemos nos esforçar para usar a linguagem de um modo novo que abra uma possibilidade de esperança para o mundo. Utopia não é uma palavra fácil de usar, mas Cortázar não a rejeitou: Cortázar proclamou, como sabem, que Cuba era uma utopia alcançável. E com isso deu esperança à possibilidade de materializar uma igualdade radical de caráter político neste mundo. Ele não sabia se isso iria acontecer, nem embarcou em previsões, mas estava disposto, no entanto, a proclamar, a mobilizar o ato de falar como uma forma de combater o ceticismo e o niilismo de seu tempo. De fato, como é sabido, como membro do Tribunal Russell II, uniu forças com outros para condenar publicamente os crimes cometidos pelos regimes ditatoriais da América Latina. Ele não era juiz e o Tribunal Russell II não era um tribunal de justiça, mas quando os tribunais não cumprem seu trabalho ou quando a fé na lei vacila, existe ainda a possibilidade de fazer julgamentos públicos contundentes; particularmente quando as pessoas concordam em revisar em público as evidências.

Como escritor, Cortázar conquistou o direito de falar em público e escolheu fazê-lo em nome dos subordinados, dos censurados, dos criminalizados por fazer parte da resistência contra as ditaduras, mas também dos torturados e dos desaparecidos, daqueles cuja morte continua desconhecida e sem o reconhecimento dos governos responsáveis por seu desaparecimento. O Tribunal Russell era uma aliança transnacional composta por pessoas que se arrogaram o direito e o poder de julgar ali onde os tribunais fracassaram ou onde o sistema jurídico demonstrou inclusive ser cúmplice dos crimes.
(...)

Judith Butler, El País, 10/07/2020, 13:32 hs
SEM SIRKIS


O ambientalista, político, jornalista e escritor Alfredo Sirkis morreu por volta das 13h50 desta sexta-feira (10), em um acidente de carro no no Arco Metropolitano (BR-493), na Baixada Fluminense. Sirkis morreu no local, aos 69 anos.

A informação foi confirmada pela TV Globo, no local do acidente, e ao G1 por bombeiros, por telefone.

Segundo a Polícia Rodoviária Federal, Sirkis estava sozinho no veículo, um Volkswagem Polo, e seguia em direção à Via Dutra. Na altura do km 74, saiu da pista, bateu em um poste e capotou.

De acordo com pessoas ligadas à família, Sirkis estava indo para um sítio perto de Vassouras, onde iria encontrar a mãe dele e um filho.

Por Gabriela Moreira e Larissa Caetano*, TV Globo e G1 Rio,10/07/2020 17h12  atualizado há 18 minutos

quarta-feira, 8 de julho de 2020

O Suicídio É Uma Solução?

Não, o suicídio ainda é uma hipótese. Quero ter o direito de duvidar do suicídio assim como de todo o restante da realidade. É preciso, por enquanto e até segunda ordem, duvidar atrozmente, não propriamente da existência, que está ao alcance de qualquer um, mas da agitação interior e da profunda sensibilidade das coisas, dos atos, da realidade. Não acredito em coisa alguma à qual eu não esteja ligado pela sensibilidade de um cordão pensante, como que meteórico e ainda assim sinto falta de mais meteoros em ação. A existência construída e sensível de qualquer homem me aflige e decididamente abomino toda realidade. O suicídio nada mais é que a conquista fabulosa e remota dos homens bem-pensantes, mas o estado propriamente dito do suicídio me é incompreensível. O suicídio de um neurastênico não tem qualquer valor de representação, mas sim o estado de espírito de um homem que tiver determinado seu suicídio, suas circunstâncias materiais e o momento do seu desfecho maravilhoso. Desconheço o que sejam as coisas, ignoro todo o estado humano, nada no mundo se volta para mim, dá voltas em mim. Tolero terrivelmente mal a vida. Não existe estado que eu possa atingir. E certamente já morri faz tempo, já me suicidei. Me suicidaram, quero dizer. Mas que achariam de um suicídio anterior, de um suicídio que nos fizesse dar a volta, porém para o outro lado da existência, não para o lado da morte? Só este teria valor para mim. Não sinto apetite da morte, sinto apetite de não ser, de jamais ter caído neste torvelinho de imbecilidades, de abdicações, de renúncias e de encontros obtusos que é o eu de Antonin Artaud, bem mais frágil que ele. O eu deste enfermo errante que de vez em quando vem oferecer sua sombra sobre a qual ele já cuspiu faz muito tempo, este eu capenga, apoiado em muletas, que se arrasta; este eu virtual, impossível e que todavia se encontra na realidade. Ninguém como ele sentiu a fraqueza que é a fraqueza principal, essencial da humanidade. A de ser destruída, de não existir.

A. Artaud (1925)

(tradução: Cláudio Willer)

terça-feira, 7 de julho de 2020

Modo de amar – I

Lambe-me as seios
desmancha-me a loucura

usa-me as coxas
devasta-me o umbigo

abre-me as pernas
põe-nas nos teus ombros

e lentamente faz o que te digo:


Maria Teresa Horta

BEST OF ENNIO MORRICONE - MAN WITH A HARMONICA HQ

O SISTEMA DO DELÍRIO

(...)
o delírio crônico é uma forma clínica  em que a organização subjetiva se mantém sem déficit cognitivo. São os casos, antes discutidos pela psiquiatria  francesa,  chamados  de  “delírios  passionais ou de reivindicação” e “delírios de interpretação”. Funcionam como um território existencial de sentido.Na CID-10 compõem o item “transtornos delirantes persistentes”, capítulo da esquizofrenia.A ideação delirante se desenvolve ao longo de meses ou  anos, e até por uma vida  inteira. A gravidade psicopatológica  varia com as contextualização histórico-vital  de cada caso.Por exemplo, há pacientes  cuja integração social ainda é possível enquanto  outros apresentam dificuldades. Isolam-se. De todo modo, a manutenção da capacidade cognitiva faz por colocar esses pacientes  em situações peculiares, insólitas, constrangedoras no dia-a-dia,  já que,  conforme o senso  comum, à primeira vista "parecem que  não são  loucos mas o são”. Não aceitam tratamento porque não se sentem doentes e/ou com necessidade de ajuda.Essa é uma marca semiológica distintiva em relação aos quadros esquizofrênicos, cujos pacientes acabam por não produzir socialmente, mesmo sem sentimento de doença. 
(...)

A.M. in Trair a psiquiatria

segunda-feira, 6 de julho de 2020

De alguma forma, nunca consegui me ajustar na sociedade. Não gosto da humanidade. Não tenho o menor desejo de me ajustar, nenhum senso de lealdade, nenhum objetivo de fato.

Charles Bukowski
    

domingo, 5 de julho de 2020

Sou voraz
não me apego
ao abrigo da alma
Sou o corpo
o incêndio
só o fogo
me acalma

Maria Teresa Horta
O HORROR TRUMP

Embora a Casa Branca tenha por todos os meios tratado de impedir a publicação das memórias de John Bolton, assessor do presidente Donald Trump para a Segurança Nacional entre abril de 2018 e setembro de 2019, o livro, intitulado The Room Where It Happened (“a sala onde aconteceu”), acaba de sair nos Estados Unidos, logo depois de ser autorizado pelos juízes.

Trata-se de um grosso ensaio em que Bolton conta com riqueza de detalhes sua experiência de trabalhar um ano e meio com Trump e o critica com severidade, dando exemplos abundantes do que todos já sabíamos: que o presidente dos Estados Unidos carece do preparo mais elementar para ocupar o cargo que tem, e os erros e contradições que por essa mesma razão comete a cada dia, apesar da popularidade que obteve nos primeiros anos de seu governo e que parece ter perdido, a tal ponto que, segundo as últimas pesquisas, seria derrotado nas eleições de novembro pelo democrata Joe Biden.
(...)

Mario Vargas Lhosa, El País,05/07/2020, 07:45 hs

HENRY ASENCIO


AMORES DUROS

Um mal incurável assola a civilização industrial. Possui nomes permutáveis conforme os  interesses em jogo. O portador de transtorno mental torna-se o protagonista da anticura. É etiquetado por diagnósticos extensos que se popularizam via mídia. O psiquiatra é chamado num programa de TV para sancionar veredictos que enchem o olho - telespectador. Ao fim, a verdade injetada publicamente em subjetividades em série constroe um plano de inserção da  clínica farmacológica. Tudo é muito natural e sensacional. Você assiste ao próprio eu se materializar em cores excitantes e sons maviosos. Como resistência (ato político) resta trair a psiquiatria e escapar do esquema pomposo das maquinarias engenhosas, inclusive o rosto da saúde perfeita. A cognição das formas sociais invasivas adota o feitio do controle consentido e incentivado. Controlo a mim, controlo a você. No interior dos hiper-laboratórios, o poder afunila seu ponto de aplicação mais visceral. A procura da alma dentro do cérebro é substituída pela procura do cérebro dentro da alma. Supõe-se certamente que ela exista desde sempre como a porção etérea não codificável. Chegou a vez de tratá-la como coisa séria, coisa de cientistas. O mais a psiquiatria divulga sem cessar. No entanto, resistir, resistir é traí-la sem retorno e virar pelo avesso as baterias do fármaco, até que o mundo caminhe sobre suas próprias pernas. Fazer arte, escutar o paciente. Simples: apague o diálogo interno. Castañeda, Reich, Drácula, Lovecraft, Bukowski, freaks, espaços lisos e libertários por toda parte.

A.M.
Dou voz liberta aos sentidos
Tiro vendas, ponho o grito
Escrevo o corpo, mostro o gosto
Dou a ver o infinito


Maria Teresa Horta

LULA E BOLSONARO


PANDEMIA E PANDEMÔNIO

Tentando pensar a saúde mental no contexto do covid, há várias linhas de análise. Uma delas, talvez a mais evidente, é do significante "morte". Posta como modelo do-vírus-que infecta, sobrevoa a todos como um fantasma. As tecnologias da imagem fazem disso um sentimento. Ora, se o que move os processos subjetivos é o sentimento ("sinto que vou viver", "sinto que vou morrer"), a Realidade é o que vem de fora, e mais, o próprio Fora. Impossível discutir "saúde mental" sem considerar esse Fora (o mundo) que é onde tudo começa e termina. Sob as condições atuais do covid, esse mundo traz o modelo da morte como objeto ou objetivo a nos abater, mesmo que o vírus, de acordo com as estatísticas, tenha uma baixa taxa de letalidade. Não importa. O essencial da informação/comunicação imagética é a chegada de uma certa representação da morte que contagia o psiquismo com efeitos diversos, entre eles, a paranóia, a depressão, a angústia e a fobia. Assistimos, então, a uma espécie de implante diário de uma vivência/percepção de que "estar vivo é estar morto". Esta seria uma formulação absurda se a Consciência, ou seja, se os elementos do bom senso comandassem as ações humanas, mormente no campo da política. Mas as coisas não funcionam assim, ao contrário.

A.M. 

sexta-feira, 3 de julho de 2020

O PAGADOR DE PROMESSAS

Leonardo Villar, ator de 96 anos, morreu na manhã desta sexta-feira (3) em São Paulo, vítima de uma parada cardíaca. A informação foi confirmada ao G1 por familiares dele.
(...)

Por G1, 03/07/2020, 16:50 hs, atualizado há uma hora
Não sou cristão, nem judeu,
Nem mago, nem muçulmano.
Não sou do Oriente, nem no Ocidente,
Nem da terra, nem do mar.
Não sou corpo, não sou alma.
A alma do Amado possui o que é meu.
Deixei de lado a dualidade,
Vejo os mundos num só.

Rumi

ANDRE KOHN


UMA CRIANÇA

Gilles Deleuze e Félix Guattari trabalham com três categorias teóricas em filosofia (O que é a filosofia? 1991). Elas lhe servem como linhas de afirmação das singularidades, ou mais amplamente, da própria diferença. São: O Conceito, o Plano de Imanência e os Personagens Conceituais. Nestes últimos, não podemos deixar de incluir a criança e a sua alegria "sem motivo", sua espontaneidade-criativa, sua produção incessante e infatigável de realidades múltiplas, seu choro não-trágico, seus jogos pela e na vida, sua vida desprovida de culpa e ressentimento, sobretudo seus erros fazendo parte dos acertos, enfim, uma beleza "espiritual" inscrita na velocidade da carne dos corpos lisos. No mais, só o cristianismo ( a doença entronizada) e a sua má vontade crônica contra tudo o que é terráqueo, político e poético, consegue "melar"o desejo como produção órfã, atéia e anarquista.

A.M.
Transição

ao tirar o sutiã soltava os peitos
o recheio todo feito de algodão
precisava ser mulher de qualquer jeito
o seu corpo foi fazer revolução

começou por arrancar aqueles pelos
que habitavam suas pernas sua cara
e deixou que lhe crescessem os cabelos
e vestiu roupa de flor — a que sonhara

já não era decassílabo o soneto
muito menos o heroico alexandrino
travestiu-se de mulher algo divino

caminhava pelos becos pelo gueto
como fosse a mais bela das rainhas
e ostentasse uma coroa com espinhos
relembranças e esquecimentos

raro o ano que mamãe não tinha filho
quatro meninas dois meninos duas meninas um menino
uma fileira de nove rebentos e o corpo acostumado
com criança dentro
:
velhinha mamãe tinha
criança dentro
violência

não tenho medo da vida não tenho medo da morte
tenho medo é da ferida — e da lâmina
e do corte


Líria Porto