sábado, 30 de abril de 2016

RETRATO EM BRANCO E PRETO

A tragédia da ciclovia, uma obra de R$ 45 milhões que havia sido classificada como legado olímpico e cartão-­postal dos Jogos, é um retrato 3x4 da esculhambação do país. Ali, naqueles metros que desabaram três meses após a inauguração, em 17 de janeiro, estão reunidos muitos pecados capitais. Não foi só crime de homicídio, com a morte de duas pessoas inocentes, diante de uma das vistas mais belas do Brasil, na Avenida Niemeyer.

Pedalamos num mar de crimes de responsabilidade, num deserto de homens públicos (e mulheres públicas) decentes. Não sabem o que é decoro, recato, pudor – ou compromisso. Na queda da Ciclovia Tim Maia, a ressaca é a única inocente. Análises de primeira hora apontam negligência no projeto. Possível corrupção e superfaturamento. Imperícia. Falta de estudos sobre o impacto das ondas num costão. Falta de fixação da pista às vigas. Falta de uma das duas vigas que constavam no projeto da Geo-Rio! Falta de sistema de prevenção por não interditar a ciclovia em dia de ressaca. Falta de nomes assinando o projeto. Falta de fiscalização. Falta de parafusos!

Não é isso que vivemos em grande escala no país? Uma ressaca moral de imensa magnitude. Uma onda excepcional de corrupção que mina as contas públicas, os serviços públicos, o dia a dia da população, dos ativos e inativos, aposentados e pensionistas. O que se espera de uma gestão responsável? Que esteja apoiada em pilares, assim como a ciclovia.
(...)
Ruth de Aquino, Época, 29/04/2016, 20:43 hs

SANTANA & JOHN MCLAUGHLIN - Afro Blue


UMA ARTE

Não é tão difícil dominar a arte de perder;
tanta coisa parece preenchida pela intenção de ser perdida
que sua perda não é nenhum desastre.

Perca alguma coisa todo dia. Aceite a novela das chaves perdidas,
a hora desperdiçada, aprender a arte de perder não é nada.

Exercite-se perdendo mais, mais rápido:
lugares, e nomes e... para onde mesmo você ia viajar?
Nenhum desastre...

Perdi o relógio de minha mãe. E olha, minha última e
minha penúltima casas ficaram para trás.
Não é difícil dominar a arte de perder.

Perdi duas cidades, adoráveis. E, mais ainda, alguns domínios,
propriedades, dois rios, um continente.
Sinto sua falta, mas não foi um desastre.

- Até mesmo perder você (a voz gozada, o gesto que
eu amava) eu não posso mentir. É claro que não é tão difícil dominar
a arte de perder apesar de parecer (pode Escrever!) desastre.


Elizabeth Bishop
SOB CONTROLE

Em sua fase mais avançada, a dominação funciona como administração. E nas áreas superdesenvolvidas de consumo em massa, a vida administrada se torna a boa vida de todos, em defesa do que os opostos estão unidos. Esta é a forma pura de dominação.
(...)
H.Marcuse

NETHERLANDS DANCE THEATRE - Sarabande


OLHOS PENETRANTES

Na cidade síria de Aleppo devastada pela guerra, o médico Mohammad Wassim Maaz abraçou enquanto pôde a missão de salvar as crianças, mas a morte resolveu cruzar seu caminho.

Barba bem aparada, olhos penetrantes e dono de um grande senso de humor,  Maaz "era considerado o melhor pediatra e, certamente, um dos últimos a permanecer no inferno de Aleppo", afirmaram seus colegas à AFP.
Apenas seus olhos revelavam o imenso cansaço de alguém que, dia após dia, sem trégua, tentava salvar as crianças doentes e feridas pelos bombardeios do regime em áreas controladas pelos rebeldes em Aleppo, a segunda maior cidade da Síria.
Na quarta-feira, sua vida foi levada, bem como a de um dentista, de três enfermeiros e 22 outros civis em um ataque aéreo contra o hospital al-Quds nesta cidade dividida desde julho 2012 entre rebeldes e o governo.
Maaz tornou-se uma nova vítima desta guerra que matou mais de 270 mil pessoas desde 2011. Cerca de 13.500 crianças foram mortas nos combates, de acordo com um balanço apresentado em fevereiro pelo Observatório Sírio de Direitos Humanos (OSDH).

Amigo destacou que ele era 'o pediatra mais qualificado da cidade'

Em Aleppo, Dr. Maaz salvou dezenas de tal destino. Para o seu colega o dr. Hatem, diretor de um hospital infantil em Aleppo, ele era "o pediatra mais qualificado da cidade e o mais formidável do hospital".
"Ele era amigável e muitas vezes brincava com a equipe. Ele era humano e corajoso", escreveu em uma carta publicada na quinta-feira pela campanha "Syria campaign".
Originário de Aleppo, o dr. Maaz trabalhava de dia no hospital infantil e se ocupava das emergências durante a noite no hospital al-Quds. Sua família está na Turquia e ele deveria visitá-la antes da morte encontrá-lo.
Quando os bombardeios se intensificaram vários dias antes do ataque fatal, ele e o resto da equipe levaram as incubadoras para o piso térreo para tentar protegê-las.
Para Mirella Hodeib, porta-voz em Beirute da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), que apoiava financeiramente o hospital al-Quds, dr. Maaz "era um pediatra muito dedicado e escolheu arriscar sua vida para ajudar o povo de Aleppo", uma cidade devastada pela destruição, bombas e cortes de água e energia.
"Al-Quds era o principal hospital pediátrico e ele era um pediatra importante. Ele trabalhava neste estabelecimento há anos. Sua morte é uma perda terrível", disse à AFP.
Contatada por telefone em Kilis (Turquia), Miskilda Zancada, chefe de missão da MSF na Síria, descreveu sua morte como "uma tragédia".
"Restam apenas 70 ou 80 médicos para 250 mil habitantes na parte não-governamental (de Aleppo), porque 95% deles deixaram a cidade ou foram mortos", diz ela.
Em uma carta publicada pela organização Crisis Action, médicos de Aleppo lançaram um grito de desespero.
"Em breve, não haverá mais profissionais da saúde em Aleppo. A quem os civis vão recorrer quando precisarem?", questionaram. Segundo eles, ao menos 730 médicos foram mortos na Síria em cinco anos.
"Nossos hospitais estão perto do colapso" em razão da intensificação dos ataques que têm feito "quase quatro mortos e mais de cinquenta feridos todas as horas", acrescentaram os médicos.
"As mulheres, crianças e idosos de Aleppo pagam o preço do fracasso dos Estados Unidos e da Rússia" de fazer manter a trégua, consideraram.
Unicef e a Organização Mundial da Saúde se disseram "revoltados pela frequência dos ataques contra pessoas da área da saúde e estruturas de saúde na Síria".
A vida cotidiana se torna cada vez mais difícil para o povo de Aleppo. Mas "aqueles que permaneceram são os mais vulneráveis, porque não têm os meios financeiros para sair", ressaltou Zancada.
O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, descreveu como "imperdoável" o ataque contra o hospital al-Quds, pedindo "justiça para estes crimes".
Os bombardeios a hospitais são estritamente proibidos pelo Direito Internacional Humanitário.

Da France Press, 29/04/2016, 29/04/2016, 15:00 hs

PENITÊNCIA


sexta-feira, 29 de abril de 2016

DESTRUIÇÃO

Os amantes se amam cruelmente
e com se amarem tanto não se vêem.
Um se beija no outro, refletido.
Dois amantes que são? Dois inimigos.

Amantes são meninos estragados
pelo mimo de amar: e não percebem
quanto se pulverizam no enlaçar-se,
e como o que era mundo volve a nada.
Nada, ninguém. Amor, puro fantasma
que os passeia de leve, assim a cobra
se imprime na lembrança de seu trilho.
E eles quedam mordidos para sempre.
Deixaram de existir mas o existido
continua a doer eternamente.


Carlos Drummond de Andrade
Não é que eu tenha medo de morrer. É que eu não quero estar lá na hora que isso acontecer.

Woody Allen

GRANDES ESCRITOS


DA ARTE

Falamos da arte como composição de linhas subjetivas que buscam expressar e criar um mundo. É possível captar essas forças no Encontro com o paciente.A arte surge como resistência às situações existenciais adversas. Nesse sentido ela está fora da  psiquiatria bio-cidológica, não havendo encontro possível. A linguagem da arte é inseparável da sensação, pura sensação que constitui a subjetividade como semiótica a-significante. Ou seja, não sendo submetida à consciência (“eu, enquanto pessoa”), a produção da arte é uma produção de singularidades que retira matéria viva do caos. Na psiquiatria oficial, no lugar da produção, o produto é capturado (e imobilizado) por exames de imagem. Sob controle.
Não trabalhamos assim, não funcionamos assim.

A.M. 
Até os canalhas envelhecem.

Nelson Rodrigues

IVAN AIVAZOWSKI


VISÕES DO ABISMO

O Brasil encerrou o primeiro trimestre com taxa de desemprego de 10,9%, o que corresponde a 11,1 milhões de pessoas sem trabalho, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), divulgada nesta sexta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No último trimestre de 2015, a taxa havia sido de 9%.
Com a elevação, a taxa de desemprego renovou mais uma vez a máxima da série histórica, iniciada em 2012 - no trimestre encerrado em fevereiro, o desemprego chegou a 10,2%.
No total, são 2 milhões de desempregados a mais do que o número registrado entre outubro e dezembro de 2015. A população ocupada soma 90,6 milhões de pessoas. Desse contingente, 34,6 milhões de pessoas têm carteira assinada, número 2,2% menor que o do último período de 2015 e 4%b menor que o do mesmo período do ano passado.
A média salarial foi de 1.966 reais, segundo a Pnad Contínua. O montante quase não teve variação em relação ao último trimestre do ano passado, quando foi de R$ 1.961 reais, mas caiu 3,2% se comparada com os 2.031 reais do primeiro trimestre de 2015.
Na comparação com o último trimestre de 2015, o setor em que mais houve retração foi a indústria geral, com queda de 5,2%, ou o equivalente a 645.000 pessoas. Na sequência aparecem construção, que teve retração de 4,8% (380.000 pessoas), administração pública, defesa, seguridade social, educação, saúde humana e serviços sociais, que, somados, recuaram 1,9% (299.000 pessoas), e comércio, reparação de veículos automotores e motocicletas, com retração de 1,6% no comércio (280.000 pessoas).
Em relação ao primeiro trimestre do ano passado, houve aumento de 4,3% em transporte, armazenagem e correio, (184.000 pessoas); serviços domésticos (4,3%, ou 258.000 pessoas), alojamento e alimentação (4%, ou 173.000 pessoas) e administração pública, defesa, seguridade social, educação, saúde humana e serviços sociais (2,4%, ou 358.000 pessoas). As quedas nessa base de comparação ocorreram na indústria geral e da informação (11,5%, ou 1,5 milhão de pessoas) e comunicação e atividades financeiras, imobiliárias, profissionais e administrativas (6,3%, ou 656.000 pessoas).

Da Veja.com.,29/04/2016, 09:54 hs
VOCÊ PAGA

O cargo de Dilma Rousseff não é o único que estará em jogo na sessão do Senado marcada para 11 de maio. Confirmada a tendência de afastamento da presidente da República, os senadores transferirão do PT para o PMDB a administração de uma fila de empregos que inclui 107 mil cargos comissionados —como são chamadas as poltronas cujos ocupantes recebem uma gratificação mensal além do salário.

Os assentos mais cobiçados são chamados de DAS, sigla de “Direção e Assessoramento Superior”. Somam 22,3 mil cadeiras, das quais 6,5 mil são ocupadas por pessoas estranhas ao serviço público, que entram pela janela. Excluindo-se os salários, essas gratificações custam ao contribuinte R$ 886 milhões por ano. E há outras 84,7 mil funções gratificadas. Escondem-se sob um cipoal de cerca de 50 siglas e denominações que dificultam a aferição dos custos.

Os dados foram colecionados pela assessoria técnica do DEM numa pesquisa realizada no Portal da Transparência do governo. O levantamento inclui apenas os órgãos da administração direta, sem estatais. Ainda assim, é muito cargo. Nenhum governo é capaz de preencher todas as vagas apenas com servidores amigos. Mas o poder longevo —13 anos e 4 meses no Planalto— fez do PT o partido que mais exerceu controle sobre essa engrenagem.
(...)
Do Blog do Josias de Souza, 29/04/2016, 04:27 hs

AMY WINEHOUSE - You Know I´m No Good


quinta-feira, 28 de abril de 2016

POMO ( DE MÍMICA LÍRICA )

Da vida só têm substância 
a casca e o caroço. 
No meio só tem amido, 
embromações do carbono. 
Porém todo o gosto reside 
nessa carne intermediária, 
sem valor alimentício, 
sem realidade, sem nada. 


É nela que os dentes encontram 
o que os mantém afiados; 
com ela é que a língua elabora 
a doce palavra.


Paulo Henriques Britto

QUANTO VALE OU É POR QUILO? de Sergio Bianchi, 2005


A prostituta só enlouquece excepcionalmente. A mulher honesta, sim, é que, devorada pelos próprios escrúpulos, está sempre no limite, na implacável fronteira.

Nelson Rodrigues
O PECADO MORA AO LADO

Em política, ninguém deve dizer uma mentira que não possa provar. No desespero, porém, muita gente repete tantas vezes uma mentira para si mesma que acaba se convencendo de que está diante de uma verdade irrefutável. Tome-se o caso de Dilma.

Em discurso para uma plateia companheira, a presidente disse que o processo de impeachment carrega um “pecado original”. Chama-se Eduardo Cunha. “Vou explicar”, prosseguiu a oradora, em timbre professoral:

“O senhor presidente da Câmara queria fazer um jogo escuso com o governo. Votem para impedir que eu seja julgado no Conselho de Ética, tirem os votos que o governo tem no Conselho de Ética. Eram três votos. E aí eu não entro com o processo de impeachment.”

O relato de Dilma caminhava bem. Súbito, ela se entregou à fábula: “Um governo que aceita uma negociação dessas é um governo que entra em processo de apodrecimento. Por isso, nós recusamos essa negociação.''

Dilma esqueceu de mencionar que telefonou para o pecado, convidou o pecado para visitá-la no Planalto, recebeu o pecado no gabinete presidencial, Conversou longamente com o pecado. E colocou o prestígio de sua Presidência a serviço do pecado. A coisa aconteceu em setembro de 2015. Na época, foi noticiada aqui, sem contestações:

“A convite de Dilma, Eduardo Cunha esteve no Palácio do Planalto… Depois da audiência, relatou trechos da conversa a aliados. Um desses trechos soou inusitado. De acordo com o deputado, a presidente da República ‘insinuou’ que poderia ajudá-lo no Supremo Tribunal Federal.”

Mais: “Em privado, Cunha disse ter depreendido que Dilma lhe ofereceu ajuda para lidar com o processo que corre contra ele no STF. O deputado foi acusado por um dos delatores da Lava Jato, o consultor Júlio Camargo, de ter cobrado propina de US$ 5 milhões num contrato de fornecimento de navios-sonda à Petrobras…”

Cunha duvidou da capacidade de Dilma de controlar votos no STF. Mas enxergou no Conselho de Ética da Câmara uma oportunidade para testar a disposição da interlocutora. Exigiu que os três votos do PT se integrassem aos de sua infantaria, para enterrar o processo que pede sua cabeça. Dilma topou, mas o PT, na última hora, roeu a corda. Com isso, o petismo transformou Cunha num feroz adversário.

Quer dizer: Dilma tem uma relação tormentosa com a verdade. Não é que ela seja propriamente mentirosa. O problema é que madame tem uma verdade múltipla. No instante em que aceitou negociar com Eduardo Cunha, já não havia mais nenhum pecado original. Seu governo já estava em estágio de putrefação.

Do Blog do Josias de Souza, 28/04/2016, 02:24 hs

quarta-feira, 27 de abril de 2016

terça-feira, 26 de abril de 2016

EU NÃO

Eu não bebo,
só o eu-lírico.

E quando ele chega em casa
embriagado do viver sem vida
antinegando o ócio
e chorando por tempo...
ligo a TV.

Não pra mim,
mas pra ele, coitado.


Fabio Rocha
SEM SURPRESAS

A partir desta terça-feira (26), vamos assistir a mais discursos inflamados de senadores da base de Dilma Rousseff contra o que classificam de "golpe". Do outro lado, o grupo pró-impeachment da presidente, com ampla maioria no Senado, vai reagir com palavras a favor de seu afastamento.

É bem capaz que você se surpreenda com nomes de senadores dos quais nunca ouviu falar –aqueles suplentes sem um voto sequer, mas que não vão perder a chance de tentar aparecer nas transmissões ao vivo das sessões pela TV.

Talvez seja essa a única surpresa. Não se empolgue muito, nem para um lado, nem para o outro. Ao contrário da Câmara, em que a influência da negociação política no varejo rasteiro até propiciou uma expectativa momentânea de barrar o processo, o Senado não costuma pregar muita peça –toda gritaria ali dificilmente terá efeito prático, mudança de placar significativa, contra ou a favor da admissibilidade do impeachment.

O roteiro, confirmadas as expectativas dos próprios senadores, tende a não sair desse script: até o fim da semana que vem, a comissão especial aprova, por 16 a cinco, um parecer a favor da abertura do processo. Dias depois, entre 11 e 12 de maio, mais de 50 senadores ratificam a decisão em plenário. A presidente então é afastada por até 180 dias e Michel Temer assume interinamente.

No microfone do plenário, o discurso do senador Humberto Costa (PT-PE) é de "tentar reverter essa aberração", como disse na sessão de segunda (25) que elegeu a comissão especial do impeachment.

O fato é que nem Costa nem seus colegas de bancada apostam na reversão de um massacre previsível de votos contra a presidente.

"É difícil barrar, mas vamos contestar politicamente", me disse um desanimado Paulo Rocha (PT-PA), líder da bancada petista, num canto do plenário do Senado na tarde de segunda. Falava da insistência do PSDB em eleger o tucano Antonio Anastasia (MG) para a relatoria da comissão especial.

É visível no tapete azul do Senado o semblante de resignação dos senadores que trabalham para salvar Dilma. Um sentimento de jogo perdido, fôlego sumindo, e análise de erros cometidos.

Assim como ocorreu na Câmara, ex-ministros de Dilma devem votar pelo seu afastamento, entre eles Marta Suplicy (PMDB-SP), ex-petista e ex-ministra da Cultura.

Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN) é outro. O ex-ministro da Previdência já declarou-se a favor da abertura do processo. Não esconde a mágoa por ter sido ignorado pela ex-chefe no período de Esplanada.

Ex-ministro de Minas e Energia dos governos Lula e Dilma, Edison Lobão (PMDB-MA) não manifestou ainda sua posição, mas os próprios senadores petistas já o contabilizam, em cálculos reservados, como voto pró-impeachment. Debitam na conta de José Sarney uma articulação para que os três senadores maranhenses se unam pelo afastamento da petista: além de Lobão, Roberto Rocha (PSB-MA) e João Alberto (PMDB-MA) –embora este último tenha dito ser contra.

É bem o que se vê hoje no Senado, um cenário de catástrofe política anunciada para Dilma e seus cada vez mais raros aliados. Provavelmente por isso o discurso de senadores do PT já esteja carregado no tom de oposição ao provável governo Temer.


Leandro Colon, Folha de São Paulo, 26/04/2016,07:53 hs

GEORG GRODDECK

O pensador do Isso

SOLUÇÃO INSOLÚVEL

Considere uma democracia imaginária, onde vigora o presidencialismo. Presidente, deputados e senadores são eleitos pelo voto direto. Imagine o seguinte cenário hipotético: “Podem os fatos, certos, documentados, notórios, cercados de circunstâncias acabrunhadoras, autorizar, reclamar a acusação de um presidente que, de mil formas, avilta a nação, intranquiliza a sociedade, semeia a insegurança, promove a desordem, desorganiza o trabalho, desestimula a produção, subverte as instituições, causa o pânico… O presidente pode cercar-se de elementos corruptos e incapazes, entregando os mais altos cargos da República a pessoas sem idoneidade moral ou profissional. O paço do governo pode converter-se numa praça de negócios. O opróbrio pode atingir o ponto de a suprema autoridade executiva receber propinas em retribuição aos atos que pratique. O presidente pode usurpar funções legislativas, exercer de modo caprichoso e abusivo suas prerrogativas. Pode arruinar o crédito nacional e comprometer o bom nome do país. Pode alienar bens nacionais, contrair empréstimo e emitir moeda, sem autorização legal”. Que fazer em tal caso?
(...)
Helio Gurovitz, Época, 24/04/2016, 10:00 hs

segunda-feira, 25 de abril de 2016

DOBRAS DE SI

Tenho uma espécie de dever de sonhar sempre, pois, não sendo mais, nem querendo ser mais, que um espectador de mim mesmo, tenho que ter o melhor espetáculo que posso. Assim me construo a ouro e sedas, em salas supostas, palco falso, cenário antigo, sonho criado entre jogos de luzes brandas e músicas invisíveis.
(...)
Fernando Pessoa

domingo, 24 de abril de 2016

EDU LOBO - A Moça do Sonho


MEDICALIZAÇÃO: A MAIS-VALIA DA DOR

O conceito de medicalização da sociedade é tributário do capitalismo industrial avançado. Possui um alcance planetário, na medida em que a tecnologia médica, sustentada pela idéia de progresso, avança como oferta de produtos a serem consumidos em meio ao estilo de vida contemporâneo. Tal estilo tem como base a produção subjetiva correlata à produção econômica. Ou seja, cada vez mais inexistem divisões entre os vários setores da vida social, fazendo desta uma mera extensão dos processos do capital (sempre mais lucro), no caso médico uma semiologia do organismo doente adaptada às necessidades de controle propedêutico via equipamentos de saúde. Daí as soluções de problemas sociais se afiguram através o uso da terapêutica médica precedida pelo diagnóstico cada vez mais estabelecido por Imagens (exemplo da ultra-sonografia). A medicalização não é, pois, um fenômeno médico, pelo menos na sua origem, mas um produto do funcionamento científico das relações capitalísticas, totalizadas na figura subjetiva do consumidor-padrão. A medicina segue e “obedece” ao processo histórico-social porque ela mesma é uma forma social no sentido de uma instituição poderosa que emplaca um discurso humanitário às custas da produção-consumo de pacientes. Medicalizar é, pois, um ato político antes de ser técnico.

A.M.
SEM PROGNÓSTICO

A penúria enfrentada pelos Estados era uma crise anunciada. Com uma estrutura inchada pelo aumento da dívida e crescimento das despesas com pessoal, as receitas tinham de ser crescentes para fechar a conta. A recessão econômica, no entanto, mudou esse roteiro e colocou as finanças estaduais numa rota trágica. Hoje, sem dinheiro até para pagar o funcionalismo público, a alternativa de boa parte dos governadores tem sido sacrificar os investimentos. Só no primeiro bimestre deste ano os recursos aplicados caíram 47% em relação a 2015, de R$ 2,1 bilhões para R$ 1,1 bilhão.
O resultado da paralisia dos Estados é um amontoado de obras interrompidas em todo o Brasil, sem previsão para serem concluídas. São projetos de várias áreas: de metrô a hospitais, de estradas a creches, de esgoto a escolas. Algumas foram interrompidas no meio e viraram grandes esqueletos; outras estão suspensas até a situação melhorar. E há ainda aquelas que estão sendo tocadas, mas num ritmo lento, com cronogramas a perder de vista.
(...)
Veja.com, 24/04/2016, 10:28 hs
A TEMPESTADE

Vós, montanhas selvagens, das águias
Sublime luto. Nuvens douradas
Fumegam sobre pétreo ermo.
Paciente quietude respiram os pinheiros,
As negras ovelhas junto ao abismo,
Onde súbito o azul
Estranhamente emudece,
O brando zumbido dos zangões.
Ó flor verde
Ó silêncio.

Como em sonho estremecem da torrente selvagem
Escuros espíritos o coração,
Trevas,
Que sobre as gargantas irrompem!
Brancas vozes
Errantes pelos átrios lúgubres,
Terraços destroçados,
Dos pais poderoso rancor, o lamento
Das mães,
Do menino o áureo grito de guerra
E o não-nascido
Gemendo de olhos cegos.

Ó dor, flamejante visão
Da grande alma!
Já estremece na negra confusão
De corcéis e carruagens
Um raio róseo pavoroso
No pinheiro ressoante.
Frescor magnético
Envolve esta cabeça orgulhosa,
Incandescente melancolia
De um deus irado.

Medo, tu ó serpente venenosa,
Negra, morra nas pedras!
Precipitam-se das lágrimas
As correntezas bravias,
Tempestade-misericórdia,
Ecoam em trovões ameaçadores
Os nevados cumes em volta.
Fogo
Purifica noite destroçada. 


George Trakl
(tradução de Modesto Carone Netto)

CARYBÉ


CINISMO 

O Cinismo foi uma escola filosófica grega criada por Antístenes, seguidor de Sócrates, aproximadamente no ano 400 a.C., mas seu nome de maior destaque foi Diógenes de Sínope. Estes filósofos menosprezavam os pactos sociais, defendiam o desprendimento dos bens materiais e a existência nômade que levavam.

A origem dessa expressão é um tanto controvertida, pois alguns pesquisadores crêem que ela provém do Ginásio Cinosarge, espaço no qual Antístenes teria edificado sua Escola, enquanto outros afirmam que ela deriva da palavra grega kŷőn, kynós, que significa ‘cachorro’, alusão à vida destes animais, que seria igual à pregada pelos cínicos. Aliás, o símbolo deste grupo era justamente a imagem de um cão. De qualquer forma, porém, ela se origina do grego Kynismós, passando pelo latim cynismu, e assim chegando até nossos dias. Hoje, através de desvios de significado, este termo se refere àqueles desprovidos de vergonha e de qualquer sentimento de generosidade em relação à dor do outro. Mas não por acaso, pois os cínicos desejavam se desprender de todo tipo de preocupação, inclusive com o sofrimento alheio.

Sócrates já expressava seu repúdio pelo excesso de bens materiais dos quais a Humanidade dependia para sobreviver. Ele tinha como alvo a verdadeira felicidade, para a qual nada disso era necessário, pois ela estava conectada aos estados da alma, não a objetos externos. Posteriormente os cínicos passaram a pregar justamente esta forma de viver, na prática diária. O nome de Diógenes, seu principal defensor, tornou-se praticamente sinônimo desta Escola. Segundo histórias antigas, ele encontrou-se com Antístenes assim que chegou a Atenas, mas este não queria a seu lado nenhum discípulo. Diógenes, porém, gradualmente convenceu-o do contrário.

Diógenes radicalizou as propostas de Antístenes, e as exemplificou em sua própria vida, com severidade e persistência tais que sua forma de agir atravessou os séculos, impressionando os estudiosos da Filosofia. Ele ousou quebrar a visão clássica do grego, substituindo-a por uma imagem que logo se tornou modelar para a primeira etapa do Helenismo e mesmo para o período do Império. Ele procurava um homem que vivesse de acordo com seu eu essencial, sem se preocupar com nenhuma convenção social, em harmonia com sua verdadeira forma de ser – somente esta pessoa estaria apta a alcançar a felicidade.

Para este filósofo, a existência submetida apenas à teoria, escrava das elaborações intelectuais, sem o exercício da prática, do exemplo e da ação, não tinha nenhum sentido. Assim, sua doutrina seguia na contramão da cultura, do saber racional, pois ele considerava as matemáticas, a física, a astronomia, a música e a metafísica – conhecimentos super valorizados na época – sem nenhuma utilidade para a jornada interior do Homem.

Ele radicalizava quando afirmava que as pessoas deveriam buscar seus instintos mais primários, ou seja, seu lado animal, vivendo sem objetivos, sem nenhuma carência de residência ou de qualquer conforto material. Assim, elas encontrariam seu fim maior – as virtudes morais. A este estado de desprendimento ele chamava Autarcia ou Autarquia. Os cínicos, mais uma vez seguindo o estilo de Sócrates, não deixaram nenhum legado escrito. O que se conhece sobre esta Escola foi narrado por outras pessoas, geralmente de um ângulo crítico.

Ana Lucia Santana
Se eu acho que sexo é sacanagem? Só quando é bem feito.

Woody Allen
POR QUE NÃO?

eu olhei e pensei por que não   
dezesseis anos mais velho, seguro   
homem de opinião e nenhum caráter   
o velho truque do maduro   
um ator na vida, e eu pensei por que não   
vai ver é um menino com medo   
vai ver se atrapalha   
não, acho que não  
deve ser um pouco canalha como todos são 
um cruzar de pernas, um olhar grave   
não sei direito o que se faz pra ser querida   
uma posição mais provocante   
uma atitude mais desinibida   
logo eu que morro de vergonha   
de tentar ser um pouco atrevida   
logo eu  
que o que cometo em sonhos   
seria incapaz de cometer na vida 

mas pensei por que não o estímulo de uma aventura   
o prazer de ceder à tentação   
é tão raro acontecer esse desejo, dura   
tão pouco isso  
a novidade  
e depois não tem o compromisso da paixão 

come e depois espalha pra cidade   
aquela coisa machista insuportável   
estilo gosta de levar vantagem   
— chega de pensar bobagem —  
não é possível que ele seja assim   
ele é sensível, inteligente, um homem que chora  
só falta agora um sopro de coragem, uma insinuação 

e se ele for um sujeito compulsivo   
maníaco depressivo, do tipo que atormenta   
astral anos sessenta   
e eu me arrepender profundamente   
— o ruim do porre é a ressaca —  
se for um cara babaca desses dose pra analista   
se ainda for comunista do antigo pecezão   
não, claro que não   
ele é brilhante, contemporâneo, atuante   
ativo da linha de frente   
e eu molhei os lábios sensualmente   
e pensei por que não?


Bruna Lombardi

JEFF BECK - Behind The Veil


ACASO DO AMOR

Não confie na frase da sua avó, de sua mãe, de sua irmã de que um dia encontrará um homem que você merece. Não existe justiça no amor.
O amor não é censo, não é matemática, não é senso de medida, não é socialismo. É o mais completo desequilíbrio. Ama-se quem a gente odiava, quem a gente provocava, de quem a gente debochava. Exatamente o nosso avesso, o nosso contrário, a nossa negação. O amor não é democrático, não é optar e gostar, não é promoção, não é prêmio de bom comportamento.
O melhor pra você é o pior. Amor é ironia.
(...)
Fabrício Carpinejar
O SOL POR TESTEMUNHA

O avião movido a energia solar, que é a tentativa de circunavegar o globo para promover a energia limpa e o espírito de inovação, chegou do Havaí após uma viagem de três dias sobre o Oceano Pacífico.
Um avião movido a energia solar aterrissou na Califórnia no sábado (23), completando um arriscado voo de três dias sobre o Oceano Pacífico, como parte de sua viagem ao redor do mundo, segundo a agência de notícias Associated Press (AP).
O piloto Bertrand Piccard conseguiu pousar o "Solar Impulse 2" em Mountain View, no Vale do Silício, sul de São Francisco, após 62 horas voando sem escalas. O avião taxiou em uma grande tenda montada em Moffett Airfield onde Piccard foi recebido pela equipe do projeto.
O desembarque aconteceu várias horas após Piccard realizar um sobrevoo sobre a ponte Golden Gate, onde os espectadores assistiram a aeronave estreita com as asas largas .
"Eu cruzei a ponte. Eu estou oficialmente na América ", declarou o piloto quando avistou a Baía de São Francisco.
Piccard e seu colega piloto suíço Andre Borschberg foram se revezando pilotando o avião em uma viagem ao redor do mundo desde que decolou de Abu Dhabi, a capital dos Emirados Árabes, em março de 2015. Ele fez paradas em Omã, Myanmar, China, Japão e Havaí.
A perna trans -Pacífico foi a parte mais arriscada das viagens globais do avião por causa da falta de locais de pouso de emergência, e a aeronave enfrentou alguns solavancos ao longo do caminho.
(...)
Do G1, 24/04/2016,04:54 hs

GRANDES ESCRITOS


SEM FIM

Subiu para 14 o número de mortos nos ataques suicidas contra as forças de segurança em dois subúrbios de Bagdá, capital iraquiana. Os ataques também deixaram dezenas de feridos, disseram autoridades neste domingo (24).

Um carro-bomba atingiu um posto de controle no subúrbio leste de Hussainiyah na tarde de sábado (23), matando seis civis e quatro soldados, disse um policial. O agente acrescentou que outras 28 pessoas ficaram feridas no ataque, de acordo com a Associated Press. O grupo Estado Islâmico reivindicou o ataque em um comunicado publicado em um site militante.
Outro policial disse que um carro-bomba atingiu um comboio militar que passava nos arredores no mesmo horário no subúrbio a sul de Arab Jabour, matando quatro soldados e ferindo outros oito.
Dois médicos confirmaram os números de vítimas. Todos os funcionários falaram sob condição de anonimato, pois não estavam autorizados a liberar a informação.
As forças iraquianas apoiadas por ataques aéreos liderados pelos EUA têm atacado o Estado Islâmico em uma série de frentes nos últimos meses, arranhando o território apreendido pelos extremistas durante a varredura de todo o norte e oeste do Iraque, em 2014 .
Mas o Estado Islâmico continuou a realizar ataques dentro e ao redor de Bagdá, visando principalmente forças de segurança e maioria xiita do país.

Do G1 em São Paulo, 24/04/2016, 05:31 hs

JOHN ATKINSON GRIMSHAW


sábado, 23 de abril de 2016

CUSPE

O brasileiro não está preparado para ser o maior do mundo em coisa nenhuma. Ser o maior do mundo em qualquer coisa, mesmo em cuspe à distância, implica uma grave, pesada e sufocante responsabilidade.

Nelson Rodrigues
PARA NÃO SER LIDO

Não acredite nas palavras,
nem mesmo nestas,
principalmente nestas.

Não há crime pior
que o prometido
e cometido.

Não há fala
que negue
o que cala.


Paulo Henriques Britto

A PAIXÃO DE JOANA D´ARC - direção de Carl Dreyer, 1928


NO EQUADOR

Fortes tremores de terra sacudiram o Equador nesta sexta-feira, enquanto o país luta para se recuperar do devastador terremoto do último dia 16, que deixou mais de 600 mortos e 12.000 feridos. A tragédia levou a ONU a lançar um pedido de ajuda a países doadores, enquanto o Banco Mundial oficializou um empréstimo.
Segundo o Instituto Geofísico do Equador (IG), ocorreram 722 abalos desde o terremoto de 7.8 graus que atingiu o país no sábado passado, considerado o pior desde 1979. Na noite de quinta-feira, dois de 6.0 graus foram registrados nas províncias de Manabi, Esmeraldas e Los Ríos (oeste).
Na região afetada, que abrange seis províncias costeiras nas quais foi declarado um alerta vermelho, não houve de imediato mais danos nem vítimas.
O sismo já deixou 602 mortos, 130 desaparecidos, 12.492 feridos, 26.091 desabrigados e quase 10.000 edifícios destruídos ou afetados, indicou o último balanço oficial.
(...)
Da Veja.com, 23/04/2016, 10:00 hs

JOÃO BOSCO & GONZALO RUBALCABA - Senhoras do Amazonas


sexta-feira, 22 de abril de 2016

Quando muita gente insiste muito tempo em que você está errado, você deve estar certo.

Millôr Fernandes
DUAS BAGATELAS
II

Então viver é ísso,
é essa obrigação de ser feliz
a todo custo, mesmo que doa,
de amar alguma coisa, qualquer coisa,
uma causa, um corpo, o papel
em que se escreve,
a mão, a caneta até,
amar até a negação de amar,
mesmo que doa,
então viver é só
esse compromisso com a coisa,
esse contrato, esse cálculo
exato e preciso, esse vicio,
só isso.


Paulo Henriques Britto


O ABECEDÁRIO de DELEUZE - Viagem


A TRANSIÇÃO

(...) (...) Se os processos de impeachment, no Brasil, acontecem de 20 em 20 anos, creio que este foi o último a que assisti. Privilégios da idade.
É preciso pensar agora na transição. A de Itamar era mais leve. Ele não tinha partido forte, não era candidato. Temer tem uma energia pesada em torno dele. A começar por Cunha.
Em tese, precisa tocar o barco e contribuir para que alguns corpos caiam no mar. Se não contribuir, vão cair de qualquer maneira, só que de forma mais embaraçosa. O que está em jogo é o destino de muita gente, um projeto para sair da crise.
Já que decidiu ficar calado por um tempo, Temer deveria pensar. O cavalo que chega encilhado à sua frente é um cavalo bravio. Para montá-lo é preciso coragem.
A vitória do impeachment na Câmara dos Deputados foi resultado do movimento de milhões de pessoas indignadas com a corrupção, castigadas pela crise econômica.
Se considerar apenas o resultado da Câmara, não tocará nos dois temas ao mesmo tempo. Mas se considerar o esforço social que levou a esse resultado, não pode ignorar o problema da corrupção, como se ela estivesse indo embora com os derrotados de agora.
Com mais faro para o desastre, o PMDB pode organizar melhor que o PT a sua retirada. Compreender, por exemplo, que não está chegando ao poder, mas se preparando para sair dele com estragos menores nos seus cascos bombardeados pelos canhões da Lava Jato.
É uma transição na tempestade até 2018. Nenhuma força política sabe se chegará lá ou como chegará. Diante da vigilância social, o jogo ficou mais complicado.
Mas esse é o nível do nosso universo político. Do salão verde para o azul, espera-se uma ligeira melhora no Senado. Ainda assim, é longo e espinhoso o caminho de uma renovação política no Brasil.
(...)
Fernando Gabeira, 22/04/2016
A CRENÇA

Você acredita em Deus? Não sabia por que, sentia que deveria decidir- se, era uma pergunta que ficara sem resposta, queria sempre poder responder a tudo, estar pronto a ser interrogado, fugir às respostas dúbias, hesitantes, que nada diziam. Olhou pela janela o céu estrelado, a imensidão infinita do céu... Não foi preciso muito para concluir que, sem Deus, jamais chegaria a entender onde o universo começava e onde acabava, de onde vinha ele, para onde iria. Concentrou-se, respirou fundo, e declarou com firmeza:
— Acredito.

Fernando Sabino

ALEXEY SLUSAR



Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Manoel de Barros

GRANDES ESCRITOS


ESQUIZO

(...) (...) Fazer amor não é fazer só um, nem mesmo dois, mas cem mil. Eis o que são as máquinas desejantes ou o sexo não humano: não um, nem mesmo dois, mas n sexos. A esquizoanálise é a análise variável dos n sexos num sujeito, para além da representação antropomórfica que a sociedade lhe impõe e que ele mesmo atribui à sua própria sexualidade. A fórmula esquizoanalítica da revolução desejante será primeiramente esta: a cada um, seus sexos.
(...)
G. Deleuze e F. Guattari in O anti-édipo
LOUCURA E MEDICINA

A experiência da loucura foi cooptada pela psiquiatria do século 19 europeu. A loucura tornou-se, então, doença mental. Exportada para o resto do mundo, a violência contra o louco atravessou o século XX e chegou aos dias de hoje edulcorada pelas pinças científicas da psiquiatria biológica. No caso brasileiro, ainda que a redução do nº de manicômios seja um dado importante (avanço?) na realidade da saúde mental, a exclusão do paciente (mesmo extra-muros) materializa-se em diagnósticos psiquiátricos mortificadores do desejo.Pior, conta com o apoio (explícito ou não) de instituições sociais e seus dispositivos de manutenção da racionalidade médica.

A.M. 

NISE - O CORAÇÃO DA LOUCURA, direção de Roberto Berliner, 2016


ASSIM EU ME LEVANTO

Você pode me riscar da História
com mentiras lançadas ao ar.
Pode me jogar contra o chão de terra,
mas ainda assim, como a poeira, eu vou me levantar.
Minha presença o incomoda?
Por que meu brilho o intimida?
Porque eu caminho como quem possui riquezas dignas do grego Midas.
Como a lua e como o sol no céu,
com a certeza da onda no mar,
como a esperança emergindo na desgraça,
assim eu vou me levantar.
Você não queria me ver quebrada?
Cabeça curvada e olhos para o chão?
Ombros caídos como as lágrimas,
minh'alma enfraquecida pela solidão?
Meu orgulho o ofende?
Tenho certeza que sim
porque eu rio como quem possui
ouros escondidos em mim.
Pode me atirar palavras afiadas,
dilacerar-me com seu olhar,
você pode me matar em nome do ódio,
mas ainda assim, como o ar, eu vou me levantar.
Minha sensualidade incomoda?
Será que você se pergunta
por que eu danço como se tivesse
um diamante onde as coxas se juntam?
Da favela, da humilhação imposta pela cor,
eu me levanto.
De um passado enraizado na dor,
eu me levanto.
Sou um oceano negro, profundo na fé
crescendo e expandindo-se como a maré.
Deixando para trás noites de terror e atrocidade,
eu me levanto.
Em direção a um novo dia de intensa claridade,
eu me levanto
trazendo comigo o dom de meus antepassados,
eu carrego o sonho e a esperança do homem escravizado.
E assim, eu me levanto

eu me levanto

eu me levanto


Maya Angelou
Não entendo o porque das pessoas pensarem sempre no pior e não no mais provável que é pior ainda.

George Carlin

O MITO ESTILHAÇADO

(...) (...) Luiz Inácio Lula da Silva foi uma das expressões da complexa integração das massas populares à democracia moderna no Brasil. É da natureza da democracia moderna que incorpore, integre a classe trabalhadora. No Brasil, como em muitos países, isso sempre se fez por meio de caminhos acidentados, entre os quais o corporativismo criado em 1943, no fim da ditadura getuliana, e mantido pela democracia de 1946, como por todos os interregnos democráticos que tivemos desde então. O corporativismo se estende também às camadas empresariais, assim como a diversos órgãos de atividade administrativa do Estado brasileiro. Favoreceu a promiscuidade entre interesses privados e interesses públicos e certa medida de corrupção que, de origem muito antiga, mudou de escala nos tempos mais recentes com o crescimento industrial e a internacionalização da economia brasileira. Nessa mudança dos tempos, Lula passou de "sindicalista combativo" a lobista das grandes empreiteiras. Um fim melancólico para quem foi no passado uma esperança de grande parte do povo brasileiro.
(...)
Francisco Weffort, 21/04/2016, 22:07 hs

ALEXEI ZAITSEV


quinta-feira, 21 de abril de 2016

TIRADENTES


Buemba! Buemba!

Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República!

Piada pronta: "Após votação do impeachment, deputados tiram uma semana de folga e vão para Miami".

Por isso os votos eram para a família deles. O Pedro Henrique e os netos Marcelo e Livia vão para Miami! Rarará!

Tira a Dilma e depois tira uma semana de folga. Todos pra Miami!

"Pelo direito de passar uma semana em Miami, voto SIM".

Rarará!

E o perfil da "Veja" da Marcela Temer: "bela, recatada e do lar".

Voltamos aos anos 1960!

Do tempo da batedeira Walita!

Rarará!

E hoje é Tiradentes!

Dia Nacional dos Enforcados!

Tiradentes devia ser padroeiro do Brasil. Tá todo mundo com a corda no pescoço.

Eu tenho um amigo que não é Tiradentes, mas tá enforcado nas Casas Bahia!

Rarará!

E Tiradentes? Ninguém mais sabe quem é Tiradentes. Um repórter perguntou prum menino: "Você sabe quem é Tiradentes?". "Sei, Tiradentes é um feriado".

Isso! Tiradentes é um feriado.

E todo ano eu conto essa história porque é emblemática: Tiradentes foi enforcado, esquartejado e salgado porque não pagou impostos.

Se fosse hoje em dia, ele seria enforcado, esquartejado, salgado e passado numa máquina de moer carne. Virava hambúrguer. Virava quibe. Quibe mineiro!

Quem era o ministro da Fazenda no tempo de Tiradentes? O Henrique Meirelles?

Rarará!

É mole? É mole, mas sobe!

E visitar Minas nesse feriado não é turismo, é insurreição.

E eu já viajei muito pelo interior de Minas. Minas é um monte de montanhas com um monte de gente dando adeus! Fofos!

E eu tenho uma amiga tão perua mas tão perua que não fala Aleijadinho, fala Aleijadérrimo! "Comprei duas obras do Aleijadérrimo".

Rarará!

E trabalhar em feriadão dá nó nas tripas, escrisofrinia e enframação na prósta!

E todos pra Miami!

O Morumbi da América Latina!

Rarará!

Nóis sofre, mas nóis goza.

Hoje só amanhã!

Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!


José Simão, 21/04/2016