sábado, 25 de setembro de 2021

Caetano Veloso - Anjos Tronchos (Clipe Oficial)

NEURÔNIOS AFLITOS

A relação psiquiatra-paciente está marcada pela história do poder psiquiátrico  consolidado  no século XX. Nos dias que correm, são muitas as suas  máscaras, muitos os seus disfarces. Existe, por exemplo, a psiquiatria oficial com expressão mercadológica (publicitária, midiática) obtida através das associações da categoria (há muitos sites à respeito), a psiquiatria biológica em sua versão humanista ou a psiquiatria universitária operando pesquisas duplo-cego sob o manto epistemológico apaziguador da ciência "neutra". Essas e outras formações institucionais se nivelam numa crença comum: o paciente é um organismo individual (físico-químico) avariado. Resta ao psiquiatra prescrever remédios à mão cheia. E "consertá-lo". Isso garante ao profissional do "cérebro-mente" uma estabilidade existencial, para não dizer material, um status, um território de poder e uma respeitabilidade científica (?!). Antes da terapêutica adotada, invariavelmente psicofarmacológica, um cientificismo oculto lhe confere a fármaco-verdade. Por isso o ato de medicar se reveste de nuances quase sempre desconhecidas e é aceito, em geral, como benefício inquestionável.


A.M. 

NOVA DIPLOMACIA


 

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Perplexidades órfãs – VIII


Depois de uma breve conversa (no caps) com um colega, saquei algo muito simples. Não queremos acolher porque não sabemos escutar. Técnicos sem técnica.

Setembro amarelo chegando ao fim. Mas os ipês continuam. 

A cada hora chegam rumores de Brasília. Você  ouve vozes? Não se assuste. Os canalhas passarão.

O vulcão das ilhas Canárias, sua belíssima cor sanguinolenta e a lava escorrendo. Parece uma mulher que se insi-nua.

O contra-cheque mensal ou a servidão ao capital como prato de comida (bóia). Esta é a oferenda macabra à sobrevivência. Agradeça, bicho.

Há muitos delírios na praça. Na escala e na escola dos horrores, o fascista é o da nota dez. Um crânio.

O pesadelo da humanidade nunca foi pior que o dos tempos internéticos. Tudo é uma questão de método. Intoxicados pela informação, corpos-zumbis, mentes suicidárias, lá vamos nós, contemporâneos do apocalipse.

Os fascistas não poupam sequer os autistas. Nem os adolescentes. Cuidado: por vezes se disfarçam de médicos ou educadores.

Não existe a criança como um ser puro. Existe a velocidade-criança em cada um. Os poderes estabelecidos sabem disso. E mandam porrada.

Amanhã vai dar praia, mesmo não tendo praia.


A.M.


INCERTEZAS


como deleuze pensa o mundo a partir da lógica da mudança, do devir? 


em deleuze é difícil encontrar uma visão do mundo. o mundo é um cruzamento, é um ovo. ora, no mundo você tem as estruturas duras, você tem sistemas fortes, um capital financeiro dominante… mas há pulsações, há uma variabilidade permanente. é essa complexidade que impede que você impinja a ela uma visão de mundo que seja ou catastrófica ou conservadora, seja lá o que for. deleuze tem o mundo como uma indagação permanente a ser levada a cabo a cada encontro. é preciso, apesar de tudo, ter fé para que isso seja possível. essa crença deleuziana é um dos tópicos mais difíceis de se desvendar, pois não é uma crença simplesmente caudatária das crenças religiosas, é uma crença que leva você a perguntar pelas próprias razões e ainda ser possível acreditar no mundo, tendo sempre a mesma consciência que ele tinha quando desenvolveu as análises a respeito da obra de akira kurosawa – o mundo é uma problemática que vale a pena ser cuidada.

(...)

luis orlandi, entrevista a fernanda bellei em 19/01/2009 (extraido do site instituto cpfl/cultura)

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

TULIPAS ETERNAS


 

Nem tudo que tentei perdi. Restou 

a intenção de ser alguém ou algo

que não se pode ser, mas só ter sido;

restou a tentação do nada, nunca

tão forte que vencesse esse meu medo

que é a coisa mais honesta que há em mim.

Sobrou também o hábito vadio

de me virar do avesso e esmiuçar

as emoções como quem espreme espinhas.

Mas nada disso dói; a dor é um ácido

que ao mesmo tempo que corrói consola,

é uma coceira que vem lá de dentro

e me destrói sem dignidade alguma.


Paulo Henriques Britto

GONZAGUINHA - "PALAVRAS"

terça-feira, 21 de setembro de 2021

Perplexidades órfãs - VII

O ministro da Saúde, Marcelo Quiroga, mostrou o dedo do meio ( com as duas mãos) para uma multidão de manifestantes contra Bolsonaro em Nova York. Teria sido mais elegante se ele mostrasse o dedo polegar, aquele que empurra o êmbolo da vacina anti-covid no braço dos brasileiros.

A verdade costuma ser produzida pelo poder já que o poder é mantido por forças. Assim, a mentira mais deslavada pode se tornar uma verdade. O discurso do presidente na ONU foi uma repetição do cercadinho de Brasília. 

Os tempos políticos, em terras brasílicas, devem piorar. Trovões à caminho movimentam corações fascistas. A versão brasileira do fascismo é a pior de todas, desde 1922. Tem o nosso jeitinho. 

O grande olho imaginário-delirante da presidência criou um uiniverso social paralelo para valores de rebanho.

No lugar de Deus, Belzebu costura sua linha silenciosa, traiçoeira, violenta e fake.

Saímos da política, entramos na política.  Eternamente em berço esplêndido, ó pátria amada.


A.M


Burn! Official Trailer #1 - Marlon Brando Movie (1969) HD

sábado, 18 de setembro de 2021

Perplexidades órfãs – VI


O caso Sashira: a monstruosidade humana a cru.

Setembro amarelou nos ipês da cidade.

No cotidiano de um Caps fluxos de loucura jamais adotam um rosto fixo. Circulam livres.

O sentido das depressões é não ter sentido.

O tempo tem passado tão rápido... cada vez mais, mais, mais. A hora da delicadeza não chega.

Existe a psiquiatria oficial, manicomial, comercial, normativa, acadêmica. Delícia traí-la. 

O fascismo à brasileira prossegue sua volúpia pela morte. Sonhos adolescentes resistem.

Atenção: quando um paciente fala são mil vozes que falam. Elas vêm de outras terras, planetas desconhecidos, buracos do mundo.

Não existe o amor. Existe o amar.

O caso Sashira: é isso, um homem?


A.M.



 

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

O SENTIDO DAS DEPRESSÕES

As depressões atuais se espalham num amplo espectro de acontecimentos, onde a etiologia (causa) e o quadro clínico (sintomas) são múltiplos. Desse modo, é essencial para uma clínica da diferença em psiquiatria ( um paradoxo!) não considerar as depressões no sentido biomédico. Dupla traição: trair a psiquiatria como especialidade médica e à psiquiatria como instituição (forma social). As depressões não são, pois, uma doença do cérebro, mesmo que este se mostre alterado em seu funcionamento. Ora, qualquer afeto produz efeitos sobre o cérebro, mesmo e principalmente  um "bom" afeto, por exemplo, a alegria. Ela embriaga. Assim, na análise semiológica do Encontro com o paciente, as perguntas devem partir do Mundo para o eu, e não o contrário. De onde você veio, onde você vive, com quem vive, como vive, trabalha, como trabalha, em que acredita, amores, quais seus amores, etc. São linhas existenciais que mapeiam singularidades. Sim, talvez haja necessidade de um anti-depressivo...e se houver, será na contextualização de um tempo desejante. Ou seja, tudo pelo gosto de viver. Pena que as cronificações depressivas ( no Caps são tantas...) circulem e se mostrem cada vez mais explícitas. No entanto, como poderia ser diferente se a própria psiquiatria anda deprimida? Sinapses esgotadas...  neurônios aflitos... angústia... A alma em colapso.


A.M.

Belchior - Coração Selvagem

terça-feira, 14 de setembro de 2021

A  ELITE  REPUGNANTE

Viralizou nas redes um vídeo em que o humorista André Marinho imita Jair Bolsonaro em um jantar de homenagem a Michel Temer nesta segunda (13). A gravação chama a atenção por trazer, além de uma boa imitação, um pacote simbólico do que representa o poder no Brasil. Incluindo os erros desse poder frente à realidade.

1) O local do rega-bofe, que juntou parte da nata da sociedade, é a residência do investidor Naji Nahas, um antigo conhecido da polícia e amigo de Temer. Foi preso pela Polícia Federal em meio à operação Satiagraha, em uma investigação de corrupção e lavagem de dinheiro em 2008. Não era figurinha nova: quase 20 anos antes, em 1989, a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro despencava por conta de golpes que ele aplicou no sistema financeiro. Também foi apontado como interessado no trágico despejo dos moradores do Pinheirinho, em São José dos Campos (SP), que ficou conhecido pela violência contra os sem-teto.

2) Todos os sentados à mesa são homens, brancos e ricos, uma fotografia do poder tradicional. Dentre as 18 pessoas, não há uma mulher ou pessoa negra, apesar de ambos os grupos serem maioria no país. A imagem é de 2021, mas poderia muito bem ter sido usada para representar a "Convenção de Itu de 1873" no lugar da famosa pintura de Jonas de Barros, que representava os republicanos no Império ainda escravagista.

No jantar, estavam políticos, como Gilberto Kassab, presidente do PSD; empresários, como Paulo Marinho, ex-amigo de Jair Bolsonaro e pai do humorista, e Johnny Saad, proprietário do Grupo Bandeirantes; jornalistas como Antonio Carlos Pereira, ex-editorialista do jornal O Estado de S. Paulo, e Roberto d'Ávila, apresentador e diretor da GloboNews; médicos como Raul Cutait, cirurgião do hospital Sírio-Libanês; advogados, como José Yunes, próximo a Temer. Com algumas variações, lembra o pequenino círculo do poder da Sucupira, de Dias Gomes.

3) Os presentes trataram Bolsonaro como fanfarrão. Temer e os demais riram efusivamente da imitação, mostrando que uma parte da elite brasileira considera o presidente como uma piada e não como um agente de corrosão da democracia. Os risos ajudam a explicar a razão do impeachment estar longe da agenda de uma parte do PIB.

4) Tortura com pau de arara foi recebida com risos. Em determinado trecho da imitação de Bolsonaro por André Marinho, ele diz a Temer sobre a carta que o ex-presidente o ajudou a escrever: "Cadê a parte que eu combinei de botar o pau de arara na Praça dos Três Poderes e dar de chicote no lombo de Alexandre de Moraes?" Por mais que esteja ridicularizando um presidente que instalaria, de fato, um pelourinho público se pudesse, os risos diante do equipamento usado na ditadura para abrir o bico de críticos ao regime geraram azia e má digestão.

5) Os presentes, principalmente Michel Temer, acharam graça que, na imitação, ele aparece como salvador de Bolsonaro. De fato, o ex-presidente desempenhou um papel útil, emprestando sua credibilidade junto ao centrão para acalmar os ânimos no Congresso Nacional após as micaretas golpistas. Mas isso não é parte do plano de Temer, mas da estratégia de Bolsonaro que, desde que assumiu o governo, realiza aproximações sucessivas em direção a um golpe de Estado, atacando e recuando. O recuo tático desta vez foi maior porque o avanço do dia 7 de setembro também havia sido. Temer prestou um favor ao ajudar a baixar a fervura até a próxima investida.

6) O vídeo não vazou por descuido, como muitos dizem. O registro foi feito pelo marqueteiro do ex-presidente Temer, Elsinho Mouco, que vem trabalhando para fortalecer a imagem de seu cliente nas redes sociais, e foi divulgado por ele e por Paulo Marinho, antigo apoiador de Bolsonaro que se tornou inimigo ao ser abandonado por ele. Sabiam que chegaria no presidente, e talvez fosse essa a intenção. Contudo, o vídeo pode sair pela culatra, sendo útil ao capitão. Por que um grupo da elite tradicional, ou seja, do sistema, rindo de Bolsonaro em um jantar chique, pode fortalecer a imagem do presidente junto ao seu público mais radical - que anda criticando bastante o "mito", frustrado com a arregada tática que ele deu.

7) Houve outras imitações, inclusive a do próprio Temer, mas nenhuma provocou tanto riso quanto a de Bolsonaro. O PIB prefere humilhá-lo entre quatro paredes do que permitir que seja substituído por tudo o que já fez. A cena ganhou dimensão na internet porque contou com Temer logo após as micaretas golpistas, mas situações iguais se repetem em outras residências dos Jardins, do Leblon, do Lago Sul. A questão é que, enquanto isso, o Brasil real produziu quase 600 mil mortes, 14,4 milhões de desempregados, 19 milhões de famintos e deve viver apagões de energia elétrica até dezembro. O que pensa de tudo isso o garçom, que aparece no vídeo, o único usando máscara? Será que ele pode rir de Bolsonaro como os demais em torno da mesa?


Leonardo Sakamoto, UOL, 14/09/2021, 15:04 hs




segunda-feira, 13 de setembro de 2021

DESIMPORTANTE

Primeiro levaram os negros, mas não me importei com isso. Eu não era negro. Em seguida levaram alguns operários, mas não me importei com isso. Eu também não era operário. Depois prenderam os miseráveis, mas não me importei com isso, porque eu não sou miserável. Agora estão me levando, mas já é tarde. Como eu não me importei com ninguém, ninguém se importa comigo.


Bertolt Brecht

ORQUÍDEAS ETERNAS


 

sábado, 11 de setembro de 2021

Perplexidades órfãs – V


O capitão brochou.

Seus seguidores delirantes também.

No entanto, contra a falta de sentido da existência, vale tudo.

Até o Zé Trovão.

Andei lendo sites delirantes. Gnomos da floresta no pedaço.

Por toda a parte, vozes imperativas: Antonio, reaja.

A história não pára. Nós paramos.

Sinto que preciso reler Freud. Ele me anima.

Tantos autores, tanta gente, tantas ideias. Isso esbarrou numa ferida sem cura.

Uma psicopatologia na carne do coração invade o tempo.


A.M.


aumente o volume

do teu grito


Nicolas Behr

terça-feira, 7 de setembro de 2021

domingo, 5 de setembro de 2021

MEDICALIZAÇÃO: A MAIS-VALIA DA DOR


O conceito de medicalização da sociedade é tributário do capitalismo industrial avançado. Possui um alcance planetário, na medida em que a tecnologia médica, sustentada pela idéia de progresso, avança como oferta de produtos a serem consumidos em meio ao estilo de vida contemporâneo. Tal estilo tem como base a produção subjetiva correlata à produção econômica. Ou seja, cada vez mais inexistem divisões entre os vários setores da vida social, fazendo desta uma mera extensão dos processos do capital (sempre mais lucro), no caso médico uma semiologia do organismo doente adaptada às necessidades de controle propedêutico via equipamentos de saúde. Daí as soluções de problemas sociais se afiguram através o uso da terapêutica médica precedida pelo diagnóstico cada vez mais estabelecido por imagens (exemplo da ultra-sonografia). A medicalização não é, pois, um fenômeno médico, pelo menos na sua origem, mas um produto do funcionamento científico das relações capitalísticas, totalizadas na figura subjetiva do consumidor-padrão. A medicina segue e “obedece” ao processo histórico-social porque ela mesma é uma forma social no sentido de uma instituição poderosa que emplaca um discurso humanitário às custas da produção-consumo de pacientes. Medicalizar é, pois, um ato político antes de ser técnico.


A.M.

Kika Hamaoui | Quando Vier a Primavera | Fernando Pessoa

sábado, 4 de setembro de 2021

TODO MORALISMO É BURRO

Se o presidente Bolsonaro é corno e/ou gay, isso não tem a menor importância para uma avaliação politica do seu governo. Há um fundo de preconceito que se instala nas imagens sobre imagens. As mídias sociais deliciam-se com a utilização de um moralismo secular enraizado em subjetividades abrutalhadas. Elas operam de ponta a ponta num vasto leque ideológico chamado esquerda/direita. Sua produção discursiva atual desvia o assunto politico (e tudo que lhe diz respeito) em prol de uma monte de asneiras sobre a sexualidade.  É cansativo.


A.M.

 


sexta-feira, 3 de setembro de 2021

O QUE SERÁ

Há qualquer coisa no ar. Impossível saber do que se trata. Nem mesmo cogitar se é uma coisa palpável para pelo menos organizar as percepções. O fato é que são estranhas sensações. Percorrem o corpo em brasa. Há qualquer coisa, sentimos, não identificável, fugidia, inefável, talvez mesmo invisível. Atravessa espaços e chega às colinas verdes de um pensamento sem imagem, sem sonhos. Fala de anjos, forças cósmicas, deuses, musas, seres errantes da floresta, estados dionisíacos. Talvez uma música ao longe se aproxime e estabeleça um ritmo de dança para entender o que se passa. É preciso, no entanto, escutar vozes para conseguir dizer: há qualquer coisa no ar dos pulmões do tempo tecendo um brilho nos olhos. E se os dias seguem irreversíveis, a cada segundo intuímos na carne dos sonhos um presente: sim, existe alguma coisa sem nome embriagando a existência. Ele (ou ela) fabrica o sol e envia signos de alegria .Meu coração anda parado, à espera.

A.M. 

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

ESTUDOS SOBRE O SUICÍDIO - II

O Centro de Valorização da Vida (CVV), o Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) criaram em 2015 a campanha de prevenção ao suicídio chamada "Setembro Amarelo". A ação buscava prevenir atos suicidas através o método de informar/comunicar a população sobre o tema. Tais entidades civis, a priori, consideram que sabem mais sobre o suicídio do que a sociedade em geral. Tudo bem. Estão "autorizadas" (cada uma a seu modo e do seu lugar social) a orientar pessoas e em consequência evitar que se matem. Assim, a campanha se instalou sobre a linha empírica do problema, a do ato suicida concreto. Tenta evitá-lo e para isso recorre à conscientização da gente. Atitude positiva. No entanto, sem entrar no mérito de "por que alguém quer se matar?", pode-se objetar: fazer uma campanha anti-suicídio não acaba paradoxalmente incitando a vontade de se matar? Em tempos tecnológicos atuais, os fluxos de imagens (internet, TV, celulares, etc) fabricam a subjetividade. Informar/comunicar é o seu método. Embutidas em imagens, palavras-de-ordem anti-suicidas abastecem neurônios e a todos nós, consumidores passivos. Mensagens tocam a ambiguidade da mente. Corria o ano de 2018. Era setembro. De manhã, ao chegar ao Caps, um paciente me perguntou: "esse é o mês do suicídio?"


A.M.

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

HENRY ASENCIO


 

DEZ PONTOS PARA IDENTIFICAR UM FASCISTA


O fascista sabe apenas usar um método que é o do fascismo. Este método tem como principal característica um grito: " Viva a morte".


Para funcionar na prática, o fascismo necessita estar "dentro" das pessoas, dentro de nós. Daí, todo fascismo é um microfascismo


Apesar da origem histórica situá-lo na direita, hoje (usando-se lentes de aumento) não há mais fascista de direita ou de esquerda. Existe só o fascista e seus cânticos de destruição.


Ele se aproxima do paranóico: conspirações por toda parte. No entanto, enquanto o paranóico acaba no manicômio, o fascista continua solto. Opera ao ar livre, destila e propaga seu delírio com orgulho (sou brasileiro!) e talvez como salvador da humanidade.


Anseia por uma verdade pronta, reta, visível e simplória. Vive de certezas absolutas. Isso o alimenta sem cessar. Sofre de uma espécie de bulimia ideológica. 


Gosta de raciocinar por dualismos; bem/mal, esquerda/direita, homem/mulher, rico/pobre, louco/normal, bonito/feio. Seu cérebro mente. 


As regras do jogo democrático lhe são quase insuportáveis. No caso brasileiro, o fascista costuma pregar o golpe e a intervenção militar.


O diálogo com ele é muito difícil. É que se expressa com um pensamento único. Nazistas e estalinistas, velhos amigos, trocam ideias e figurinhas.


Os sentimentos fascistas podem conviver sob harmonias bizarras. Hitler amava a sua cadela Blondie.


Por fim, mas não menos importante, o fascista costuma atirar pra matar em tudo que se move: a vida.


A.M.




E se o erro, a fabulação, o engano revelarem-se tão essenciais quanto a verdade?


RESUMO O autor analisa o atual fenômeno de relativização da verdade à luz de conceitos como o perspectivismo nietzschiano. Ele sustenta que, num cenário de produção e consumo ininterruptos de informação, a ambiguidade do conteúdo difundido parece ser pré-requisito para despertar o interesse do público e fidelizá-lo.*


Integram o cortejo dos espectros que rondam Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, certas noções vagas como “pós-verdade” e “cultura pós-factual”, as quais, a despeito de sua fluidez, aparecem no debate público como se fossem conceitos filosóficos.Ambas designam a poluição da mídia por notícias falsas, ou “fake news”, e geram uma transformação nas relações entre verdade e mentira. Já não se pergunta simplesmente se uma notícia é falsa ou verdadeira, mas em que consiste a noção de verdade de uma informação. Ou seja, a própria ideia de verdade surge como um problema.Declarações ambíguas, enviesadas, enganosas ou derivadas de enganos são na prática equiparadas a mentiras inventadas deliberadamente pelos mais diversos motivos: ganhar dinheiro de anunciantes, alcançar resultados eleitorais específicos, formar e influenciar correntes de opinião, induzir metas de políticas públicas e reforçar vínculos de identificação coletiva, formatando maneiras de pensar e sentir em determinados segmentos sociais.Avulta entre essas figuras a “disinformatzya”: o objetivo aqui não é defender uma bandeira particular ou atacar um adversário determinado, mas causar desinformação. Inundam-se os suportes de difusão de mensagens com afirmações falaciosas e distorções sensacionalistas no intuito de minar as bases de confiança tanto dos veículos tradicionais de comunicação quanto das diferentes redes informáticas que se aninham na internet.Trata-se, portanto, de solapar o crédito de informações que se pretendem objetivas, como se não houvesse um critério para diferenciar a notícia falsa da verdadeira. O leitor, largado num meio sabidamente repleto de mentiras, pode nivelar por baixo e duvidar de todos os conteúdos publicados, ou pode agarrar-se àqueles que lhe pareçam mais apropriados.Que importa se, objetivamente, era possível medir o tamanho do público presente à cerimônia de posse de Trump? O governo americano sentiu-se à vontade para mencionar um número maior, iniciativa que depois uma assessora do presidente definiu como a apresentação de “fatos alternativos”.Não existe nesse tipo de atitude nada que se confunda com a postura filosófica do perspectivismo, segundo o qual o ponto de vista de cada um interfere no modo de conhecer e apreender a verdade (que existe). Na era da “pós-verdade”, tudo se passa como se a verdade simplesmente não existisse e todos os pontos de vista tivessem valor idêntico -como se a suposta “verdade” divulgada pelo governo americano não fosse pior do que a “verdade” factual apurada pelos jornais tradicionais.Ora, se todas as “verdades” são igualmente válidas, se cada cidadão pode escolher o ponto de vista de seu agrado, qual o sentido de um debate público que busque o esclarecimento? Em outras palavras, está em jogo o emprego sistemático de técnicas de propaganda para obliterar e entorpecer a capacidade de pensar criticamente.O filósofo Friedrich Nietzsche (1844-1900), falsamente identificado como precursor desse relativismo ambientado na penumbra em que todos os gatos são pardos, foi, em vez disso, o pensador que antecipou um conflito eventual que pode nos ajudar a compreender as agruras do momento problemático que atravessamos.É conhecida sua formulação: e se o erro, a falsidade, o engano revelarem-se, tanto quanto a verdade, essenciais como meios úteis para a conservação da vida? Essa pergunta incomoda o pensamento filosófico desde que Nietzsche teve a ousadia de colocá-la em toda sua extensão e profundidade.Ora, os fenômenos que nos confrontam hoje podem ser interpretados na chave hermenêutica que Nietzsche generosamente nos colocou nas mãos. Vivenciamos um conflito entre verdade e condições de existência. De que existência, porém, se trata aqui? Daquela que, como pensava Nietzsche, sempre se produz em termos de relações de poder, de jogos de força em que encontram apoio e expressão interesses vitais, desejos, temores, expectativas de reconhecimento, aspirações de domínio e estratégias de resistência.Identifiquemos, então, algumas das variáveis no debate atual sobre a definição e as consequências das “fake news” para os rumos da cultura e da política nas democracias contemporâneas.VERIFICAÇÃOCom a explosão dos novos meios de comunicação no ambiente digital, distribuídos pela malha includente da sociedade global em arranjos de alta capilaridade (rizomáticos, a rigor) e se reproduzindo em milhares de centros virtuais dificilmente localizáveis e responsabilizáveis (nos sentidos ético e jurídico), torna-se instável a possibilidade de verificação isenta de fatos, bem como muito mais dinâmica e inventiva a produção e a circulação de mensagens, seja qual for o seu teor.Em sociedades lastreadas na troca de informações e na comunicação sustentada por tecnologias de ponta, que se autorreplicam e formatam todos os setores da vida -economia, política, educação, cultura etc.-, os interesses estratégicos e as condições de existência estão estreitamente vinculados às possibilidades, tecnologicamente facilitadas, de “tornar-comum” o conteúdo veiculado, ou seja, de difundi-lo a um universo amplo de pessoas e de reduzi-lo a sua dimensão mais simplória, num movimento que cria oportunidades para o vulgar e o sensacionalista.Com isso, torna-se possível inserir nessas redes tudo o que for capaz de abastecê-las com eficiência, passando, então, a fazer parte da “nutrição cotidiana” de cada um. Não importa tanto se o conteúdo é “verdadeiro”; importa acompanhar “como a coisa rola”. A ambiguidade das mensagens é condição necessária para manter acesa a avidez por “novidades”, a reiteração da expectativa curiosa em espiral infinita.Informações transformaram-se em mercadorias intercambiáveis num arranjo cujos agentes são reduzidos ao denominador comum de consumidores e cuja lógica operante é a da produção e da circulação mercantil.Razão pela qual importa menos a pretensão de validade do que a expectativa de realização de desejo que a informação venha a satisfazer. Por isso adquire plausibilidade o pseudoargumento: afinal, o que é a verdade, já que temos bons motivos para descrer de toda verificação factual?A imputação de falsidade por parte de um opositor funciona como seu contrário. Reforça convicções previamente firmadas, preconceitos arraigados e impermeáveis a razões, mas dóceis às moções afetivas de autoidentificação.Daí por que notícias inventadas na esteira do sensacionalismo midiático não são desqualificadas, mas, ao contrário, reafirmadas e até estimuladas pelos melhores esforços para desmascará-las; pois o que importa para os atores e as organizações sociais interessados na proliferação desse tipo de comunicação é manter acesa a chama da curiosidade que elas atiçam e alimentar o falatório até suas derradeiras possibilidades de rendimento.Uma explicação para isso encontra-se na lógica interna de tais processos, infensos ao escrutínio crítico, já que o único critério que conta são os acessos, ou indicadores quantitativos de consumo. Desenvolve-se uma simbiose perfeita entre a comprovada demanda crescente dos clientes e o rendimento auferido graças à divulgação de material publicitário.Dado que os indicadores de acesso substituem os antigos critérios de verificação, embute-se o risco de esse novo parâmetro gerar um círculo vicioso: a quantidade de acessos quase sempre está em relação com o potencial de atração contido na distorção da mensagem. Isso significa que o horizonte de avaliação é o do impacto causado.Para manter vivo o interesse pela informação vale tudo, inclusive induzir e filtrar seletivamente as escolhas preferenciais do leitor por meio de algoritmos que “adivinham” sites mais consentâneos com suas tendências. As possibilidades e limites da apropriação político-ideológica dos conteúdos, bem como aquelas de seu controle responsável, são virtualmente indetermináveis, e isso a despeito de todas as catastróficas consequências que esse desregramento pode causar, dentre as quais o estímulo ao cinismo irresponsável, o desfecho eleitoral pernicioso e a destruição sistemática de reputações.A capacidade de pensar por si e de assumir responsabilidades por opiniões e ações passa pela antiga e saudável desconfiança e pelo esforço de nos distanciarmos do que se nos pretende impingir como última novidade, como sinal dos tempos da “pós-verdade”.É possível que se oculte aí apenas um velho fetiche, uma manobra diversionista para desviar a atenção e dispensar da reflexão, reforçando o isolamento narcísico que parece estar vinculado à inclusão aparente e à conexão em redes de comunicação com alcance planetário.


Oswaldo Giacoia Junior

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

domingo, 29 de agosto de 2021

A FORÇA MAIOR

A alegria subverte a clínica.E não é maníaca. Tampouco faz o par alternante com a depressão. É, isto sim, o combustível da produção desejante de territórios existenciais, e se espraia para além de duas pessoas fabricadas numa verticalidade hierárquica. Nada a ver com a alegria fluoxetínica pois, além de estar ausente nos neurocircuitos totalitários, ela não se reduz à adequação do paciente ao meio social. Essência do devir,  desanuncia a sua chegada. Surpresa ! A equação “bom comportamento=alegria”será, então, substituída pela da “potência=produção de mundos”. O corpo erótico é essa alegria, curva silenciosa e invisível que o permeia. Tudo a ver com o modo louco de viver sem a crosta psiquiátrica. Não se trata, é preciso dizer, do louco romântico. Uma experiência  sustentada por mil fluxos afetivos que chegam de fora, que são o Fora. Alimenta-se da realidade "real". Mistura e dissolução dos códigos, poucos a suportam, vivendo que estão sob a tirania da técnica, da consciência, da razão utilitária,  do intelecto, da moral e do bom senso. Ao inverso, desviar as subjetividades para o non sense torna-se um sentido. A psiquiatria não compreende. É que a alegria chega sem aviso, sem explicações, sem origens. Insiste nos devires inauditos como forma de estar presente no mundo (apesar de tudo) e afirmar uma prática inscrita na pele. A força de um furacão no horizonte expressa os extremos da intensidade do desejo, entre a alegria e a angústia.


A.M.

ALEXANDER BOLOTOV


 

sossegue coração

ainda não é agora

a confusão prossegue

sonhos afora


calma calma

logo mais a gente goza

perto do osso

a carne é mais gostosa



Paulo Leminski

ESTUDOS SOBRE O SUICÍDIO - IV

A complexidade do tema "suicídio" conduz a pesquisa para linhas dispostas num rizoma. Este é um método, uma visão transdisciplinar. Ultrapassa as fronteiras entre os saberes em prol da construção de um conhecimento que os atravessa. Nesse caso a questão é a da vida. Tanto a nível especulativo quando a nível empírico, é a vida e mais precisamente "o que é viver" que se expressa como densidade existencial irrecusável. Enfim, é o que está em jogo. Entre os focos de atenção para com o tema está o ato concreto de alguém se matar. Como foi possível? Como ele conseguiu? O "como" não se refere ao método usado, mas mais profundamente à pergunta: que forças atuaram no momento fatal? É simples constatar que motivos de toda ordem existem para alguém se matar. Quem nunca pensou nisso, nem que por um breve momento? Nas síndromes psiquiátricas a ideação suicida, apesar de comum, nem sempre chega a se consumar como ato. Então, eis a nossa hipótese: mais importantes que os motivos são as linhas de forças destrutivas na organização subjetiva (afetiva) que triunfam: chegou a hora. Como isso se agencia? Como isso passa ao ato? Os afetos (um "gosto ou desgosto em viver") são uma vivência interna (o "não querer viver") produzida de fora, ou seja, pela sociedade. O "não querer viver" é social. Não no sentido de que "a sociedade é culpada" mas no sentido em que somos seres sociais e é isso que nos faz humanos. Não existe, pois, o indivíduo e a sociedade separados porque o indivíduo já é a sociedade-em-nós. O suicídio é um sintoma social do "não querer viver". Ou no mínimo, que está muito difícil viver. Esta é a base conceitual para se pensar esse tema sem apelar para uma reflexão mortuária em disfarces moralistas (a religião), técnicos (a medicina), políticos (o estado) e publicitários (a mídia). 


A.M.

sábado, 28 de agosto de 2021

Saying goodbye after season 2020-2021

Perplexidades órfãs – IV

A esquerda brasileira é um desastre ético, político, econômico e cultural. É fraca e pusilânime.

Alimenta-se dos restos de 1964. Um ressentimento monstruoso move seus corações.

Não pensa, não cria, não inventa. Só repete antigos clichês.

Gira em torno do partido dos trabalhadores e das suas palavras de ordem estalinistas. Um horror.

Seus militantes adoram Lula, cultuam Lula, respiram Lula. E este também.

A esquerda brasileira gosta de xingar o presidente  o tempo todo. Parece não ter mais o que fazer.

Diz também que o presidente sofre de transtorno mental. Nada mais equivocado.

Tenho muitos amigos na esquerda brasileira. Sinto muito.

A esquerda brasileira ainda defende uma espécie de fundamentalismo da pobreza à la Madre Teresa de Calcutá. E acredita que irá para o Céu.

O fascismo à brasileira achou o terreno bem fértil.E se espalhou como um câncer.  

Deu no que deu.


A.M.


quinta-feira, 26 de agosto de 2021

domingo, 22 de agosto de 2021

Perplexidades órfãs – III

1-Como foi dito, não existe o “bolsonarismo”, mas sim o fascismo à brasileira. No entanto, para facilitar a compreensão do argumento, usaremos o termo.

2-O bolsonarismo é uma cepa tropical do fascismo, doença psicossocial iniciada em 1922 na Itália.

3-No Brasil esta cepa assumiu características semiológicas peculiares. Descrevamos o portador sintomático. A registrar: Isso tem uma base clínica.

4-Ele se julga uma boa pessoa (talvez seja de fato) amante dos valores do humanismo tipo senso comum. Linhas cristãs e mesmices do homem comum.

5-A atividade cognitiva costuma estar preservada. Nada de lesão cerebral ou disfunção dos neurotransmissores. Definitivamente, os neurocientistas  não o alcançam. Trata-se de um cidadão ( ou cidadã) normal.

6-O perfil social é o de classe média, habituada e identificada ao ritmo do consumo internético, veloz e massacrante. Ele não se importa. Até goza.

7-Apresenta ideação deliróide (quase delírio) ou delirante  (delírio primário) com forte teor paranóide. Em um caso como no outro, “há um complô planetário em marcha”.

8-O seu objeto persecutório favorito alterna formas abstratas ( o comunismo) com formas concretas ( STF – Alexandre de Moraes, o “Xandão”). O nosso paciente sofre por isso.

9-Apesar da atividade cognitiva preservada, equivoca-se quando reduz a esquerda ao partido dos trabalhadores. E pior, ao Lula. Inútil contestá-lo. Há uma espécie de ideação “burra” que se afirma como verdade.

10- Ora, tal delírio sistematizado não teria problema, não assustaria ninguém se não tivesse como combustível um ódio profundo e visceral à transformação social.

11- No “sete de setembro” vai para a rua anunciar a nova ordem das tradições intactas, apesar de  todo o pesadelo da humanidade. Um horror coletivo.


A.M.


Ana Cañas - SUJEITO DE SORTE

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

A DIFERENÇA NA SAÚDE MENTAL - VIII

Conforme a diferença, o diagnóstico psiquiátrico é funcional e não essencial. Isto significa dizer que a pergunta-chave passa a ser: a quem ou para que serve tal diagnóstico? Ora, a psiquiatria tem ao seu dispor um manancial extensíssimo de diagnósticos. Eles compõem um sistema de registro de sintomas. Objetivam um controle sobre os corpos e as mentes. Tudo, claro, com respaldo jurídico e institucional.  Por outro lado, a diferença em saúde mental vai na contra-corrente. Não que traga uma verdade pronta para se opor à verdade da psiquiatria. Nada seria mais tosco. Ao contrario, a diferença não usa o conceito de verdade, e sim o de criação. Neste sentido a prática da diferença em psicopatologia se caracteriza pelo ato de experimentar o novo, inventar, arriscar. Adota o critério da ética pela vida e da estética dos corpos em relação. Em outros termos, a diferença na psicopatologia é a clinica da diferença. Ai a potência de cuidar do outro (e de si mesmo) se traduz numa ética do viver. E que o Encontro com o outro (não só a pessoa do paciente, mas o mundo) expresse um estilo singular de captar signos (mesmo os terríveis) e transformá-los em arte. A diferença é uma produção de arte. Poucos a suportam.

A.M.

Quadrilha


João amava Teresa que amava Raimundo

que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili,

que não amava ninguém.

João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,

Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,

Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes

que não tinha entrado na história.


Carlos Drummond de Andrade

LOUI JOVER


 

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

TEMAS EM PSICOPATOLOGIA CLÍNICA - 3

Os delírios em psicopatologia costumam ser percebidos conforme o ideário positivista da ciência (psiquiatria biológica) ou do humanismo crônico das ciências humanas (psicologia e afins). Deste modo, a medicina psiquiátrica quer deletar o sintoma e a psicologia clínica quer compreendê-lo. Nem uma coisa nem outra são possíveis. Trata-se de uma falácia epistemológica disfarçada de boas intenções. Os delírios assombram as consciências vigis e vigilantes. É que eles se referem a modos de subjetivação secretados pelo mundo e ultrapassam a divisão bem/mal em prol da construção de territórios de verdade. "Um pouco de verdade senão eu sufoco!" Assim, é possível "sentir-se vivo" mesmo que tudo em volta esteja em decomposição. Os delírios são, portanto, "verdades verdadeiras" mesmo que não sejam. Isso não importa, pelo menos a nível da escuta do paciente. A sua função social está inscrita nas entranhas de um "inconsciente órfão, ateu, anarquista" (Deleuze-Guattari, 1972) à flor da pele, à flor do tempo, à flor do desejo, à flor do socius e coextensivo a todas as expressões humanas. Então o eu se volatiza e o delírio o substitui. Se todos deliram (e deliram!) não significa que todos estejam loucos, mas que correm e se debatem numa megaloucura insubornável, assim como contra a morte. Os tempos atuais revelam, mormente em comunicações/informações midiáticas, uma verdade explícita: o mundo torna-se, em velocidades aceleradas, um manicômio planetário ao ar livre.


A.M.

PARA ALÉM DO HOMEM


As condições sob as quais sou compreendido, sob as quais sou necessariamente compreendido – conheço-as muito bem. Para suportar minha seriedade, minha paixão, é necessário possuir uma integridade intelectual levada aos limites extremos. Estar acostumado a viver no cimo das montanhas – e ver a imundície política e o nacionalismo abaixo de si. Ter se tornado indiferente; nunca perguntar se a verdade será útil ou prejudicial... Possuir uma inclinação – nascida da força – para questões que ninguém possui coragem de enfrentar; ousadia para o proibido; predestinação para o labirinto. Uma experiência de sete solidões. Ouvidos novos para música nova. Olhos novos para o mais distante. Uma consciência nova para verdades que até agora permaneceram mudas. E um desejo de economia em grande estilo – acumular sua força, seu entusiasmo... Auto-reverência, amor-próprio, absoluta liberdade para consigo...


 F. Nietzsche

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

Perplexidades órfãs – II


1-O paciente deprimido crônico e incurável baixa meu humor. Me sinto um inútil.

2-Há uma poética do mundo.  Ela roça a pele das manhãs. E faz brilhar.

3-Escute com atenção, cuidado e leveza tudo que o delirante diz. Não esqueça de guardar seu próprio delírio para você mesmo.

4-Tenho quinhentos e vinte e um anos e nunca vi o Brasil tão descachimbado.

5-O tempo e a morte a tudo e a todos nivelam . Até os canalhas sabem.

6-Um amigo psiquiatra me disse outro dia que ainda estou em tempo de mudar de profissão.

7-O povo afegão não é o Taleban. Será que avisaram os americanos?

8-Sempre trabalhei com a esquerda. Como lateral fazia muitos cruzamentos, claro, pela esquerda. Belos gols de cabeça, ó companheiros!

9-Não gosto quando chamam o nosso presidente de Belzebu. Não me agrada. E olhe que estou sendo sincero.

10-As mulheres afegãs valem menos que rãs.

11-Em Vitória da Conquista, andar de Hyllux (e similares) é uma conquista.

12-Em psiquiatria há histórias clínicas tão ricas e trágicas que os pacientes deveriam ser remunerados.

13-Com poucas exceções,  professores universitários costumam ser pernósticos (isso é antigo).

14-Previsões de Baba Vanga para 2022: não haverá carnaval, mas haverá eleições para presidente. Na marra.

15-Cuidado! Quem parece louco, não é. Quem não parece, é. Eis o dilema da psiquiatria e seus sequazes.

16-O fascismo à brasileira é marcado por ideias de alta conspiração. Brasil contra tudo e Deus contra todos.

17-O petista ainda não resolveu seu luto histórico e devastador. Imagino a sua dor. Mas isso não justifica vir atormentar e encher o saco dos espíritos livres. 

18-Na recente passeata dos blindados em Brasília havia um tanque soltando um flato. Sem parar.

19-Setembro está chegando para lembrar que o suicídio está ao alcance de todos.  De quem foi essa ideia macabra?

20-Não toque na vida. Ela é quem toca em você.


A.M


Yan Boechat: Situação no Afeganistão é o maior fracasso da comunidade in...

OS CÁLCULOS INCORRETOS

A diferença não é o diverso. O diverso é dado. Mas a diferença é aquilo pelo qual o dado é dado. É aquilo pelo qual o dado é dado como diverso. A diferença não é o fenómeno, mas o númeno mais próximo do fenómeno. É, portanto, verdade que Deus fez o mundo calculando, mas os seus cálculos nunca estão correctos; e é mesmo esta injustiça no resultado, esta irredutível desigualdade que forma a condição do mundo. O mundo «faz-se» enquanto Deus calcula; não haveria mundo se o cálculo fosse correcto. O mundo é sempre assimilável a um "resto" e o real no mundo só pode ser pensado em termos de números fraccionários ou mesmo incomensuráveis. Todo o fenómeno remete para uma desigualdade que o condiciona. Toda a diversidade e toda a mudança remetem para uma diferença que é a sua razão suficiente. Tudo o que se passa e aparece é correlativo de ordens de diferenças: diferença de nível, de temperatura, de pressão, de tensão, de potencial, diferença de intensidade.

(...)

Gilles Deleuze in Diferença e Repetição

sábado, 14 de agosto de 2021

Perplexidades órfãs


1-Não existe “bolsonarismo”. Existe fascismo à brasileira.

2-O fascismo se espalha como delírio coletivo encarnado em cada indivíduo. Neurônios conspiratórios.

3-Deus não é uma ideia inteligente. Sequer está em discussão a sua existência. Simplesmente essa ideia bloqueia o ato de pensar. Uma pedra no caminho.

4-Não é fácil pensar. Refletir não é pensar. Informar não é pensar. Pensar é criar: um exercício perigoso.

5-Um psicótico grave, num arroubo erótico, pegou na bunda de uma mulher que passava. Ela revidou, espancando-o e chamou a polícia. O paciente ficou dois dias na prisão e teve a cabeça raspada.

6-O encontro corona-hospedeiro é uma metáfora da vida. O acaso costuma aí jogar os seus dados.

7-Se a esquerda é uma entidade, ela se torna um alvo fácil. É preciso a camuflagem.

8-Anjos parceiros, espíritos de luz, criaturas da noite, forças da natureza, raios de sol nascente, noites de lua cheia e deuses do cosmos funcionam muito bem.

9-Jesus, um revolucionário. Foi preciso criar uma Igreja, depois mil, cem mil igrejas para combater e destruir a sua proposta.

10-A obra de Karl Marx não é uma bíblia. Nenhum autor é uma bíblia. Nem a bíblia é uma bíblia.

11-Tanques, fuzis, revólveres e metralhadoras dão tesão a muita gente. E fazem gozar sem parar, sem parar, sem parar...

12-Um portador da demência de Alzheimer, estágio avançado, me disse outro dia: o golpe de 64 não foi um golpe, não matou, não perseguiu, não torturou. 

13-Uma onda conservadora gigante percorre o mundo. O ódio à diferença alimenta os seus seguidores.

14-Antes de ser um sistema politico, o fascismo é um sentimento. Isso é o que o sustenta e o glorifica.

15-O suicídio não é uma solução, mas uma realidade cada dia mais real.Os jovens sabem.

16-A arte resiste à infâmia, à opressão, ao preconceito. Se não resistir, não é arte.

17-Lá vem ele com os clichês de direita, lá vem ela com os clichês de esquerda. Deus, é insuportável!

18-Além da tragédia brasileira atual, tenho vergonha de dizer a amigos de outros países que aqui se usa quebra-molas (aos montes), até em rodovias.

19-Velocidades internéticas: o fim do diálogo.

20- No futebol, ainda vale a pena assistir uma caneta, um elástico, um chapéu e um gol de placa. Mesmo do adversário.


A.M.

quinta-feira, 12 de agosto de 2021


 

LINHAS DE RISCO NA CLÍNICA PSICOPATOLÓGICA

Depressão não é tristeza. A psiquiatria quer que tristeza seja depressão pois assim ganha mais pacientes e o seu valor (da psiquiatria) fica estabelecido como verdade: "procure um psiquiatra". Interesses de mercado. A depressão não é uma doença no sentido biomédico, com etiopatogenia firmada, epidemiologia, diagnóstico etiológico, quadro clínico preciso, tratamento, eficácia e limitações, tempo de duração média da terapêutica, prognóstico, etc. Não existe como uma doença, mas sim como sofrimento do outro.  O que é? A depressão é um modo psíquico de reagir a uma multiplicidade de fatores, desde os tradicionais orgânicos (físico-químicos) até os subjetivamente mais abstratos (psico-existenciais-coletivos). Isso requer do psiquiatra, bem como de todos os técnicos em saúde mental, a observação racional e a intuição clínica necessárias para lidar com o paciente num regime de pré-diagnóstico, ou seja, o que opera em condições do encontro com modos de existir (mesmo os mais estranhos e bizarros...) inseridos em situações práticas concretas. Só dessa maneira é possível adentrar ao universo de sentido do suposto deprimido: o sentido do sem sentido. Tal realidade é tanto mais difícil de captar quando a escuta clínico-psicopatológica está contaminada por clichês antigos (os do manicômio) e clichês modernos (os da neuromania). Em ambos os casos, a depressão acaba por estar presente onde está ausente, ou vice-versa, fazendo da clínica um cipoal louco de juízos morais e ultra-medicalizações visando o controle de corpos e mentes. Ou simplesmente a escolha da psiquiatria como principal opção terapêutica ao humor hipotímico. Que pobreza intelectual!


A.M.

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

A BUSCA DA DIFERENÇA

Concebemos  a psiquiatria  antes de tudo como uma  instituição. É deste modo que ela empreende a pesquisa e o exercício da clínica, minorando sofrimentos e ajudando sujeitos a se reorganizarem psiquicamente. Mas é  também deste  modo que ela desenvolve e exerce práticas de segregação e violência. Por isso não é recomendável substancializá-la como sendo uma coisa nem  considerá-la possuidora de uma “ natureza”. Ela é, isto sim,  processo histórico-social inserido em formações  subjetivas concretas. Para  ser possível  enxergar  deste  modo, partimos de outro lugar do pensamento, ainda que estejamos no mesmo lugar, que é o da clinica  psicopatológica. Iremos ao que está   fora das coordenadas da  razão, o Aberto, para daí extrair acontecimentos, mesmo os menores, e, principalmente, quase imperceptíveis. Assim se  descobrem  mundos  subjetivos insuspeitos de existir, e que produzem  realidades radicalmente  distintas  das  vigentes. É  o universo da diferença.(...)

A.M.

terça-feira, 3 de agosto de 2021

OS CÁLCULOS INCORRETOS


A diferença não é o diverso. O diverso é dado. Mas a diferença é aquilo pelo qual o dado é dado. É aquilo pelo qual o dado é dado como diverso. A diferença não é o fenómeno, mas o númeno mais próximo do fenómeno. É, portanto, verdade que Deus fez o mundo calculando, mas os seus cálculos nunca estão correctos; e é mesmo esta injustiça no resultado, esta irredutível desigualdade que forma a condição do mundo. O mundo «faz-se» enquanto Deus calcula; não haveria mundo se o cálculo fosse correcto. O mundo é sempre assimilável a um "resto" e o real no mundo só pode ser pensado em termos de números fraccionários ou mesmo incomensuráveis. Todo o fenómeno remete para uma desigualdade que o condiciona. Toda a diversidade e toda a mudança remetem para uma diferença que é a sua razão suficiente. Tudo o que se passa e aparece é correlativo de ordens de diferenças: diferença de nível, de temperatura, de pressão, de tensão, de potencial, diferença de intensidade.

(...)


Gilles Deleuze in Diferença e Repetição

domingo, 1 de agosto de 2021

Um deles


Os que acreditam fazem perguntas aos que parecem acreditar.

Os que parecem, parecem não ouvir.

Os que ouvem permanecem calados.

Os que respondem parecem não acreditar no que dizem

os que perguntam.

Todos parecem em silêncio.



Bruno Brum

Se for dizer a verdade aos outros, faça-os rir, do contrário eles o matarão.


Oscar Wilde


 

sexta-feira, 30 de julho de 2021

 DEZ PONTOS PARA IDENTIFICAR UM FASCISTA


1-O fascista sabe apenas usar um método que é do fascismo. Este método tem como principal característica um grito: " Viva a morte".


2-Acontece que para funcionar na prática, o fascismo necessita estar "dentro" das pessoas, dentro de nós. Daí, todo fascismo é um microfascismo. 


3-Apesar da origem histórica situá-lo na direita, hoje (usando-se lentes de aumento) não há mais fascista de direita ou de esquerda. Existe apenas o fascista e seus cânticos de destruição.


4-O fascista se aproxima do paranóico. No entanto, enquanto o paranóico acaba no manicômio, o fascista continua solto. Opera ao ar livre, destila e propaga seu delírio como normal e talvez salvador.


5-O fascista anseia por uma verdade pronta, reta e simplória. Vive de certezas absolutas. Isso o alimenta sem cessar. Sofre de uma espécie de bulimia ideológica.


6-Gosta de raciocinar por dualismos; bem/mal, esquerda/direita, homem/mulher, rico/pobre, louco/normal, bonito/feio. Seu cérebro mente. 


7-As regras do jogo democrático lhe são quase insuportáveis. No caso brasileiro, o fascista costuma pregar o golpe e a intervenção militar.


8- O diálogo com o fascista é muito difícil. Ele se expressa como pensamento único. Nazistas e estalinistas, velhos amigos, trocam ideias e figurinhas.


9-Os sentimentos fascistas podem conviver sob harmonias bizarras. Hitler amava a sua cadela Blondie.


10-Por fim, mas não menos importante, o fascista costuma atirar pra matar em tudo  que se movimenta: a vida.


A.M.


 

Nenhum homem ou mulher pode se gabar de ter dado uma boa foda a não ser que ele, ou ela, seja bem fodido também.

(...)


Henry Miller in O mundo do sexo

terça-feira, 27 de julho de 2021

O CISTO SOCIAL

A experiência capsiana é (ou deveria ser) movida por dois conceitos.  São eles: o “cuidado ao paciente” e o “técnico em saúde mental”. A criação destes conceitos emerge no interior  da prática com o paciente. É aí onde o “psicossocial” interpela o “biomédico” como parte de uma luta diária em prol de regimes ético-estéticos inauditos. Isso pode parecer estranho e demasiado abstrato. Lamento que não o seja ainda mais abstrato: é que o puro afeto não tem forma. A abstração ordinária (perda das formas instituídas) está inscrita em cada gesto como o que inova e faz dos modelos fixos peças recicláveis em arranjos clínicos disformes. O Caps é a clínica-linha como signo de vida da crueza do real-social. O cuidado ao paciente funciona em alianças institucionais e fluxos atrevidos rasgando convenções arcaicas. Isso margeia a periferia dos espíritos que resistem à infâmia e a vergonha. O técnico em saúde mental é o que ultrapassou as divisões entre disciplinas e entre os saberes e se transferiu para a técnica, aí onde já não há mais fronteiras. O contato com a loucura (este não é um conceito médico) é regido pela percepção do caos da psicopatologia num mundo fora e dentro de nós, técnicos do equilibrismo. Sim, não é para qualquer um. Diante disso, o planejamento de um serviço ambulatorial em saúde mental dispara na contra-corrente das práticas clínicas de autonomia subjetiva. Tal serviço parece mais um cisto parasitário do corpo coletivo, tudo em nome da verdade médica. Como calar?


A.M.

Me canso fácil dos preciosos intelectos que precisam cuspir diamantes toda vez que abrem as suas bocas. Eu me canso de ficar batalhando por cada espaço de ar para o espirito. É por isso que me afasto das pessoas por tanto tempo, e agora que estou encontrando as pessoas, descubro que preciso voltar para a minha caverna.


Charles Bukowski

sábado, 24 de julho de 2021

O QUE EXISTE

Não existe a "esquizofrenia". Existe a experiência esquizofrênica em seu dilaceramento existencial, seus delírios, sua profunda mudança na percepção da realidade de si e do mundo.Não existe o "bipolar". Existe a perda de controle do humor e, ao contrário, o controle do humor sobre si, seja na direção às  alturas do eu sem dono, seja no rumo das cisternas do eu sem fundo. Não existe o "transtorno do pânico". Existe a experiência da angústia, do medo ampliado aos confins do infinito e da morte insistente nas batidas de um coração inquieto. Não existe a "depressão". Existe a experiência de recusa em viver e, simultaneamente, da impossibilidade de morrer como sensação inscrita nas entranhas de um corpo supliciado. Não existe o "toc". Existe uma corrosão da invenção de si mesmo em meio a um mundo automatizado pelas máquinas em condutas iguais e voltadas à repetição estéril.  Não existe o "transtorno da ansiedade". Existe a experiência de um mal estar indefinível, de um incômodo atroz, da fobia, do desgosto subjetivo concretizado na interrupção dos processos (livres) do desejo. Não existe o diagnóstico. Existem dores da alma.


A.M.


EMIL NOLDE


 

A DIFERENÇA NA SAÚDE MENTAL 


Para discutir a diferença na saúde mental há uma questão conceitual básica. A "mente" não é o cérebro. Ninguém nunca viu a mente, ninguém nunca pegou, mediu ou pesou a mente. Lidamos com um objeto abstrato, ou seja, com o sem-forma. Para acessá-lo, o método científico da psiquiatria  não só é limitado como muitas vezes se faz nocivo ao paciente. É que em função do lugar de poder que ocupa, o discurso psiquiátrico produz verdades subjetivadas como transtorno mental. Num quadro conceitual que representa a saúde mental como saúde do cérebro, como inserir a diferença? Ora, a diferença concebe a mente enquanto mundo, já que o mundo não tem uma forma única, não tem um modelo. Ao contrário e bem mais, o mundo é composto de processos sociais (forças) que se cruzam, se aliam, se destroem, se alimentam, configurando o que chamamos de inconsciente-produção no sentido em que Deleuze-Guattari trabalham. A diferença está imersa no inconsciente. "O inconsciente é órfão, ateu e anarquista". Bem entendido, não o psicanalítico, mas é o inconsciente- produção e sem-forma (a mente) que se corporifica em práticas sociais concretas (a clínica). 


A.M.

quinta-feira, 22 de julho de 2021

Gabriel O Pensador - Patriota Comunista

O SENTIDO DAS DEPRESSÕES

As depressões atuais se espalham num amplo espectro de acontecimentos, onde a etiologia (causa) e o quadro clínico (sintomas) são múltiplos. Desse modo, é essencial para uma clínica da diferença em psiquiatria ( um paradoxo!) não considerar as depressões no sentido biomédico. Dupla traição: trair a psiquiatria como especialidade médica e à psiquiatria como instituição (forma social). As depressões não são, pois, uma doença do cérebro, mesmo que este se mostre alterado em seu funcionamento. Ora, qualquer afeto produz efeitos sobre o cérebro, mesmo e principalmente  um "bom" afeto, por exemplo, a alegria. Ela embriaga. Assim, na análise semiológica do Encontro com o paciente, as perguntas devem partir do Mundo para o eu, e não o contrário. De onde você veio, onde você vive, com quem vive, como vive, trabalha, como trabalha, em que acredita, amores, quais seus amores, etc. São linhas existenciais que mapeiam singularidades. Sim, talvez haja necessidade de um anti-depressivo...e se houver, será na contextualização do tempo desejante. Ou seja, tudo pelo gosto de viver. Pena que as cronificações depressivas ( no Caps são tantas) circulem e se mostrem cada vez mais explícitas. No entanto, como poderia ser diferente se a própria psiquiatria anda deprimida? Sinapses esgotadas...  neurônios aflitos... angústia por toda parte.


A.M.

terça-feira, 20 de julho de 2021

domingo, 18 de julho de 2021

Bolsonaro mente 7 vezes em discurso após saída de hospital

POLÍTICAS VITAIS


Há muitos doutores e eruditos que nos convidam a um olhar científico asseptizado, verdadeiros loucos também, paranóicos. É preciso resistir às duas armadilhas, a que nos arma o espelho dos contágios e das identificações, a que nos indica o olhar do entendimento. Nós só podemos agenciar entre os agenciamentos. Só temos a simpatia para lutar, e para escrever, dizia Lawrence. Mas a simpatia não é nada, é um corpo a corpo, odiar o que ameaça e infecta a vida, amar lá onde ela prolifera (nada de posteridade nem de descendência, mas uma proliferação...). Não, diz Lawrence, vocês não são o pequeno esquimó que passa, amarelo e gorduroso, vocês não têm que se tomar por ele. Mas talvez vocês tenham algo a ver com ele, vocês têm algo para agenciar com ele, um devir-esquimó que não consiste em se passar pelo esquimó, a imitar ou em se identificar, em assumir o esquimó, mas em agenciar alguma coisa entre ele e vocês – pois vocês só podem se tornar esquimó se o próprio esquimó se tornar outra coisa. O mesmo acontece com os loucos, com os drogados, com os alcoólatras. Há quem faça objeção: com sua miserável simpatia, você se serve dos loucos, faz o elogio da loucura, e depois os deixa de lado, permanece sobre a margem... Não é verdade. Tentamos extrair do amor toda posse, toda identificação, para nos tornarmos capazes de amar. Tentamos extrair da loucura a vida que ela contém, odiando, ao mesmo tempo, os loucos que não param de fazer essa vida morrer, de voltá-la contra si mesma. Tentamos extrair do álcool a vida que ele contém, sem beber: a grande cena da embriaguez com água pura, em Henry Miller. Abster-se do álcool, da droga, da loucura, é isso o devir, o devir-sóbrio para uma vida cada vez mais rica.

(...)


G.Deleuze e C. Parnet in Diálogos

sábado, 17 de julho de 2021

TULIPAS ETERNAS


 

ESTUDOS SOBRE O SUICÍDIO - IV


A complexidade do tema "suicídio" conduz a pesquisa para linhas dispostas num rizoma.  Trata-se de uma abordagem transdisciplinar. Isso ultrapassa as fronteiras entre os saberes em prol da construção de um conhecimento que os atravessa. Nesse caso a questão é a da vida. Tanto a nível especulativo quando a nível empírico, é a vida e mais precisamente "o que é viver" que se expressa como densidade existencial irrecusável. É o que está em jogo. Entre os focos de atenção para com o tema está o ato concreto de alguém se matar. Como foi possível? Como ele conseguiu? O "como" não se refere ao método usado, mas mais profundamente à pergunta: que forças atuaram no momento fatal? É simples constatar que motivos de toda ordem existem para alguém se matar. Quem nunca pensou nisso, nem que por um breve momento? Nas síndromes psiquiátricas a ideação suicida, apesar de comum, nem sempre chega a se consumar como ato. Então, eis a nossa hipótese: mais importantes que os motivos, são as linhas de forças destrutivas na organização subjetiva (afetiva) que triunfam: chegou a hora. Como isso se agencia? Como isso passa ao ato? Os afetos (um "gosto ou desgosto em viver") são ultrapassados por uma vivência interna (um "não querer viver") produzida de fora, ou seja, pela sociedade. O "não querer viver" é social. Não no sentido de que "a sociedade é culpada" mas no sentido em que somos seres sociais e é isso que nos faz humanos. Não existe, pois, o indivíduo e a sociedade separados porque o indivíduo já é a sociedade-em-nós. O suicídio é um sintoma social do "não querer viver". Ou no mínimo, que está muito difícil viver. Esta é a base conceitual para se pensar o tema "suicídio" sem apelar para uma reflexão mortuária em  disfarces moralistas (a religião), técnicos (a medicina), políticos (o estado) e publicitários (a mídia). 


A.M.


 

quinta-feira, 15 de julho de 2021

A felicidade real sempre parece bastante sórdida em comparação com as supercompensações do sofrimento. E, por certo, a estabilidade não é, nem de longe, tão espetacular como a instabilidade. E o fato de se estar satisfeito nada tem da fascinação de uma boa luta contra a desgraça, nada do pitoresco de um combate contra a tentação, ou de uma derrota fatal sob os golpes da paixão ou da dúvida. A felicidade nunca é grandiosa.

(...)


Aldous Huxley