terça-feira, 28 de dezembro de 2021

O ESCÁRNIO 


Milhares de pessoas estão ao desabrigo, desalojadas e muitas mortas, dragadas pelas águas torrenciais das tempestades na Bahia. De todos os lados, cidades parecem desistir de se opor às chuvas e são encobertas pela lama, enterrando em poças descomunais os tesouros pobres, mas únicos dos mais pobres agora.

As chuvas no estado da Bahia nos fazem ficar diante do que a pandemia do Coronavírus mostrou: a nossa incapacidade de lidar com a revolta do meio ambiente diante da nossa própria arrogância e desrespeito à natureza.

A ausência absoluta de empatia do ex-capitão, que não entendeu, às vésperas de deixar o cargo, que precisa trabalhar, aprendeu a usar o cartão de crédito da Presidência da República e gasta em milhões de reais para uma vida de férias.

E até o suspiro derradeiro de 2021, dissemina omissão, discórdia, ódio, confusão. Às crianças, nega vacina. Ao país, oferece um espetáculo melancólico do exercício do cargo.

Os últimos dias do ano, que parece não ter fim, são propícios para a realização de previsões para o ano novo. Videntes e evidentes se esforçam para contar o que será, mas na maioria das vezes são surpreendidos pelos fatos, muito além da imaginação dos astros das cartas do tarô. Foi assim em2018, 2019, 2020, 2021. Pela consistência da regra, o ano de 2022 chega como uma oportunidade para confirmá-la, pela exceção.

O futuro, que não está nas bolas de cristal, é uma construção do presente. As estatísticas, além das cenas que vivemos em 2021, não serão esquecidas pelas tragédias que estamparam, tampouco ficarão de fora dos livros de história a excrescência de um governo federal estulto e negligente com o povo; algoz maior da sua gente.

Em 2022 teremos mais do mesmo. A idiotice cristalizada ainda produzirá efemérides e terá pontos de apoio na ignorância calculada dos soldados do caos. As instituições - em especial o STF (Supremo Tribunal Federal) - terão que engolir seco para não cuspir marimbondos diante das provocações que virão - e serão muitas, porque o cerco está se fechando nas investigações em andamento da família real.

Mais pobres ficarão miseráveis; a inflação vai corroer o dinheiro do salário-mínimo, mas fermentar a riqueza daquele 1% que vive às custas de juros, e irá enfraquecer quem produz bens e serviços.

A ciência vai resistir às tentativas de descrédito pela sobrevivência dos imunizados.

E tem as eleições.

Lula ganha no primeiro turno. Vai entregar anéis para ficar com os dedos. E o PT vai engolir.

Os sobrinhos do ex-capitão, a maior parte deles no Congresso e nos estados, regressarão ao ostracismo, de onde não poderiam ter saído, não fosse o delírio coletivo em 2018, que enxergou um poço no deserto onde havia apenas dunas.

A Amazônia vai seguir sendo desmatada, os rios abusados por garimpeiros, os bichos ameaçados e mortos em todos os biomas. O Pantanal ainda vai arder em chamas.

A polícia vai matar.

Os outros bandidos também vão matar. E serão mortos em cárceres, nas favelas e em todos os becos do país.

Haverá uma enxurrada de fake news - de mentiras. A imprensa vai trabalhar para desmentir. A imprensa também será vítima de mentiras; muito vai se tentar esclarecer, mas nem tudo será esclarecido. O raciocínio paranoico com as suas síndromes persecutórias será ativíssimo.

Aqueles e aquelas que estavam silenciosos, confiando que o bem vence, vão descobrir que é preciso lutar para que isso aconteça. Haverá o grito além da esperança, será o coro pela vida. E chegará 2023.

O ex-capitão, como os negacionistas do recém-lançado filme "Não olhe para cima", fecha os olhos para o Brasil, mas não impede que o cometa siga a sua trajetória. Como a estrela que apontou o caminho para os reis magos Gaspar, Balthazar e Melchior, 2022 vem aí!


Olga Curado, UOL, 28/12/2021, 12:30 hs

sábado, 25 de dezembro de 2021

O CÂNTICO DO DESEJO


"Amo tudo quanto flui ", diz o grande Milton cego de nosso tempo. Pensava nele esta manhã quando acordei com um grande e furioso grito de alegria: pensava em seus rios e árvores e em todo aquele mundo da noite que ele está explorando. Sim, disse comigo mesmo, eu amo tudo quanto flui: rios, esgotos, lava, sêmen, sangue, bílis, palavras, sentenças. Amo o líquido amniótico quando escorre da bolsa. Amo o rim com seus cálculos dolorosos, suas pedras e não sei que mais; amo a urina que escorre escaldante e a gonorréia que corre sem parar; amo as palavras de histerismo e as sentenças que correm como disenteria e refletem todas as imagens doentes da alma; amo os grandes rios como o Amazonas e o Orenoco, onde homens malucos como Moravagine flutuam através do sonho e da lenda em um barco aberto e se afogam nas cegas embocaduras do rio. Amo tudo quanto flui, até mesmo o fluxo menstrual que leva embora a semente não fecundada. Amo tudo quanto flui, tudo quanto tem em si tempo e gênese, que nos leva de volta para o princípio onde nunca há fim: a violência dos profetas, a obscenidade que é êxtase, a sabedoria do fanático, o padre com sua elástica litania, os palavrões da puta, o cuspe que corre na sarjeta, o leite do seio e o mel amargo que escorre do útero, tudo quanto é fluido, derretido, dissolvido e dissolvente, todo o pus e sujeira que ao fluir se purifica, que perde seu senso de origem, que faz o grande circuito em direção à morte e à dissolução. O grande desejo incestuoso é continuar fluindo, unido com o tempo, fundir a grande imagem do além com o aqui e o agora. Um desejo insensato e suicida, que é constipado por palavras e paralisado pelo pensamento. 

(...)

H. Miller in Trópico de Câncer

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

ESPÍRITO DO NATAL


 

O MINISTRO  INFANTICIDA (*)

 

É preciso dar o nome correto às coisas. Chama-se crime o esforço do governo Bolsonaro para retardar a aplicação da vacina pediátrica contra Covid. Se a ação criminosa não for interrompida, as maiores vítimas serão as crianças de famílias pobres e miseráveis.

Cumprindo ordens do presidente da República, o Ministério da Saúde condiciona a vacinação de crianças à prescrição médica. Os pais endinheirados obterão a receita com um telefonema. Alguns não precisarão nem comparecer ao consultório.

Os pobres terão de ralar por consultas pediátricas num sistema de saúde público sobrecarregado pelas sequelas da Covid, pelos tratamentos retardados de outras doenças e pelo assédio da ômicron e do H3N2.

Os miseráveis talvez prefiram deixar os filhos sem vacina para não perder o lugar na fila do osso. Pressentindo o desastre, os governos estaduais anunciam a intenção de ignorar o governo federal.

Em manifestação veiculada nas redes sociais, habitat natural do seu chefe, o ministro da Saúde disse que, sob Bolsonaro, impera a "responsabilidade." Repetiu que os pais e "seus médicos de confiança" são as pessoas mais adequadas para decidir sobre a vacinação das crianças. "Segurança e liberdade", anotou.

Na véspera, Queiroga naturalizara as mortes de 301 crianças por Covid no Brasil. Dissera que essa quantidade de cadáveres está "dentro de um patamar que não implica decisões emergenciais." Há duas semanas, ao ecoar Bolsonaro na condenação à exigência de comprovante de vacina de viajantes, o ministro dissera que "é melhor perder a vida do que perder a liberdade."

É esse personagem perverso que controla a pasta da Saúde. As vacinas pediátricas da Pfizer foram aprovadas pela Anvisa em 16 de dezembro. Queiroga deveria ter antecipado a encomenda do produto. Em vez disso, retardou para 5 de janeiro de 2022 os procedimentos burocráticos para a inclusão da vacina no plano nacional de imunização.

Utilizará os 20 dias de atraso para realizar uma inédita consulta pública com ares de plebiscito sobre a vacina infantil. As falanges bolsonaristas se mobilizam para produzir o resultado desejado pelo mito do negacionismo.

Queiroga está há nove meses na poltrona de ministro da Saúde. Como cardiologista, já deveria ter notado que é melhor perder o cargo servindo à sua consciência do que perder a cabeça servindo à irracionalidade que usa a liberdade como pretexto para aprisionar brasileiros no caixão.

Presidente licenciado da Sociedade Brasileira de Cardiologia, Queiroga assassinou a sua reputação de médico. A morte costuma atenuar todos os julgamentos. Mas ainda que o doutor mate seu diploma de medicina um milhão de vezes para sobreviver no cargo não conseguirá mudar a opinião desabonadora que os brasileiros de bom senso formaram a respeito de um médico que se associa à morte.

Num país convencional, Queiroga receberia voz de prisão, não respostas para uma consulta pública criminosa. Mas Bolsonaro e seus cúmplices dispõem de um sistema de blindagem. Nem o infanticídio anima o procurador-geral da República Augusto Aras a procurar.


Josias de Souza, 24/12/2021,11:25 hs

(*) Título do blog




segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

Ex-ministro Ernesto Araújo defende gestão da pandemia em entrevista à BBC

O SISTEMA DO DELÍRIO

O delírio crônico é uma forma clínica  em que a organização subjetiva se mantém sem déficit cognitivo. São os casos, antes discutidos pela psiquiatria  francesa,  chamados  de  “delírios  passionais ou de reivindicação” e “delírios de interpretação”. Funcionam como um território existencial de sentido.Na CID-10 compõem o item “transtornos delirantes persistentes”, capítulo da esquizofrenia.A ideação delirante se desenvolve ao longo de meses ou  anos, e até por uma vida  inteira. A gravidade psicopatológica  varia com as contextualização histórico-vital  de cada caso.Por exemplo, há pacientes  cuja integração social ainda é possível enquanto  outros apresentam dificuldades. Isolam-se. De todo modo, a manutenção da capacidade cognitiva faz por colocar esses pacientes  em situações peculiares, insólitas, constrangedoras no dia-a-dia,  já que,  conforme o senso  comum, à primeira vista "parecem que  não são  loucos mas o são”. Não aceitam tratamento porque não se sentem doentes e/ou com necessidade de ajuda.Essa é uma marca semiológica distintiva em relação aos quadros esquizofrênicos, cujos pacientes acabam por não produzir socialmente, mesmo sem sentimento de doença.(...)

A.M. in Trair a psiquiatria

domingo, 19 de dezembro de 2021

MICHAEL FLOHR


 

contagem regressiva


faltam 378 dias, 6 horas, 52 minutos e 34 segundos para acabar

o pesadelo

ufa


está próximo ou longe

a depender da tragédia

de cada um 


não há mal que dure

sempre

e nem falamos do vírus


A.M.


sábado, 18 de dezembro de 2021

Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra.


Caio Fernando Abreu

Bedroom Folk - Sharon Eyal & Gai Behar (NDT 1 | Strong Language)

NOSSO ADMIRÁVEL MUNDO

No universo de Orwell, a população é controlada pela dor. No de Huxley, pelo prazer. “Orwell temia que nossa ruína seria causada pelo que odiamos. Huxley, pelo que amamos”, escreve Postman. Só precisa haver censura, diz ele, se os tiranos acreditam que o público sabe a diferença entre discurso sério e entretenimento. “Quão maravilhados ficariam todos os reis, czares, führers do passado (e comissários do presente) em saber que a censura não é uma necessidade quando todo o discurso político assume a forma de diversão.” O alvo de Postman, em seu tempo, era a televisão, que ele julgava ter imposto uma cultura fragmentada e superficial, incapaz de manter com a verdade a relação reflexiva e racional da palavra impressa. O computador só engatinhava, e Postman mal poderia prever como celulares, tablets e redes sociais se tornariam – bem mais que a TV – o soma (*) contemporâneo. Mas suas palavras foram prescientes: “O que afligia a população em Admirável Mundo Novo não é que estivessem rindo em vez de pensar, mas que não sabiam do que estavam rindo, nem que tinham parado de pensar”.

Helio Gurovitz, Época, 12/02/2017, 10:19 hs

(*) Psicotrópico do universo de Huxley (Nota do Blog)

quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

  • Por que não teria direito de falar da medicina sem ser médico, já que falo dela como um cão? Por que não falar da droga sem ser drogado, se falo dela como um passarinho? E por que eu não inventaria um discurso sobre alguma coisa, ainda que esse discurso seja totalmente irreal e artificial, sem que me peçam os meus títulos para tal? A droga às vezes faz delirar, por que eu não haveria de delirar sobra a droga?

          (...)

         G. Deleuze in Conversações

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

É difícil aprisionar os que têm asas.


Caio Fernando Abre

OS FUNCIONÁRIOS DA VERDADE


Eles estão em toda a parte. Talvez sejam a maioria. 

São funcionários porque funcionam, operam, agem. Sustentam o mundo estabelecido dos humanos.

Iremos citar alguns exemplos como tentativa de caracterização objetiva e subjetiva. São linhas existenciais que os constituem e se misturam. Por isso um lusco-fusco na expressão prática se impõe como camuflagem de crenças. 

Os funcionários administram o acaso para que seja possível a manutenção da ordem. E apelam para a verdade como referência única.

Essa verdade pode ser várias,  mil, cem mil. Permanece, contudo, sendo uma verdade.Os funcionários precisam de certezas, assim como os pulmões de ar.

Encontramos na grande política funcionários vitalícios. Tanto os que dominam quanto os que são dominados. Há quem chame estes últimos de massa.

Começamos pela política porque aí a história da humanidade é a de um pesadelo do qual não se acorda.Mas poderia ser outro começo.

Por exemplo, a religião: nela os funcionários (ou fiéis) costumam ser ungidos acima dos mortais, na medida em que cultuam a imortalidade.

Mas há muito mais, já que a verdade ajuda (e muito) a viver.

A universidade, e sua forma que vem da Idade Média, usa dos seus para promover a verdade do pensamento. A sociedade fica abaixo no quesito intelectual.

A verdade da academia exporta seus seguidores para a ciência. Ou o inverso, tanto faz. 

Para complicar a questão da verdade, o capital e o seu método, o capitalismo, fabrica uma verdade única, a mercadoria. Esta se expande e se disfarça nos poros abertos do corpo social. Uma longa história atualiza a barbárie planetária do horror econômico. Ou seria político?

A pessoa humana (conceito cristão) naturaliza o funcionamento da verdade como crença no eu, na consciência e no céu como eterna promessa. O futuro não chega.

As massas consomem  e gozam palavras-de-ordem veiculadas pela mídia.

Fake news são verdades, mesmo não sendo. 

Em casos extremos, funcionários da verdade tornam-se fascistas. Querem tampar o buraco de sentido das sociedades de controle. Uma crispação paranóide se anuncia como crise política.

No amor, o romantismo traz o tom adocicado da verdade para os amantes da fantasia. Isso não funciona mais, exceto como arcaísmo.


A.M

domingo, 12 de dezembro de 2021

The Alan Parsons Project - The Fall Of The House Of Usher - 1976 - .

PARA UMA  ANÁLISE DA MEDICINA


É possível uma análise da medicina seguindo duas linhas conceituais ( entre outras). A primeira é a linha institucional. Refere-se à inserção política da medicina na sociedade a que pertence. Como a sociedade, no caso brasileiro, é capitalista, a medicina funciona como forma social conectada ao processo de produção de mercadorias. Os atendimentos médicos, os serviços, as consultas, as técnicas, os exames, etc, tudo é mercadoria exposta na vitrine do Mercado. Isso obedece ao método do capitalismo, o capital. Uma das consequências práticas de tal linha de pesquisa é ir contra um certo humanismo natural da medicina, outrora cercado por doce aura de romantismo. Acreditava-se (acredita-se?) que a medicina queria sempre o bem do paciente e que ser médico era uma profissão "linda" (sem ironia).A segunda linha conceitual diz respeito à visão epistemológica. Ela prioriza as relações de causalidade linear, a observação e descrição de objetos sólidos, mensuráveis e visibilizáveis e a compreensão mecanicista de um organismo físico-químico. Os exames de imagem são exemplos atuais e perfeitos.Está aí a enorme produção de conhecimento como efeito e a escassa produção de conhecimento como origem (etiologia) Ora, essas duas linhas (ou eixos) servem tão só como baliza teórico-prática necessária a uma visão crítica. Ao mesmo tempo não descarta os importantes serviços prestados ao paciente, mormente quando lida com procedimentos diagnósticos precisos e preciosos. E mais ainda em ações velozes nas terapêuticas de emergência. Como diria um bioquímico, a Emergência "tira gente da cova". Em suma, esse breve artigo tenta sobretudo por a medicina como um empreendimento social, mesmo que se mostre obra de algum doutor (o médico) ou expresse o indivíduo como único beneficiário (o paciente). Para além de uma relação dual, a medicina é uma relação coletiva, entendendo o coletivo como a multiplicidade do ser humano. Trata-se de uma ética de vida, ética da potência que precede (ou deveria preceder) as duas linhas referidas. 


A.M

Live 11/12/21 - Átila Iamarino

LINHAS DE COMBATE

Há um combate silencioso no âmago da clínica da diferença. Ele segue por sendas obscuras que mapeiam singularidades não ditas, ou se ditas, apenas como semióticas (regimes de signos) secretas, talvez clandestinas. Não se trata de extrair ou identificar conteúdos latentes ao jeito da psicanálise, mas de criar condições práticas para que formas expressivas façam valer potências subjetivas sequer sonhadas. Deste modo, a profusão de signos enviados (de toda ordem) faz por "forçar" as singularidades a um rearranjo no universo subjetivo. A prudência, a delicadeza e a sabedoria ancoram-se na relação terapêutica como devir-outro, ou seja, como exposição ao contágio dos afetos enquanto forças movimentando a irreversibilidade do tempo que não se vê, mas que se sente. Enfim, trabalhar a diferença é de fato um combate porque implica no uso de mil linhas rizomáticas sob a égide da ética (que potências?) e da estética ( que criações?) se cruzando e se aliando no momento do uso da técnica. Que vem depois.


A.M.

ATAQUE DOS CÃES, 2021

sábado, 11 de dezembro de 2021

quando faltou luz

ficou aquele breu e eu

com as mãos tremendo

morta de medo

de tudo se iluminar

de repente



Alice Sant ´Anna

O que é delírio?

Delírio é um dos principais sintomas em psicopatologia clínica. Numa visão biomédica, deve ser  eliminado,  como, por exemplo, se faz com uma dor de cabeça.

Ou ainda, segundo essa visão, remete a uma causa, a qual sendo eliminada, cessa o efeito (sintoma). Relação linear causa-efeito. A face tosca da "inteligência psiquiátrica."

Tanto num caso como noutro, a compreensão "do que é delírio" está falseada. Não conduz ao essencial que é cuidar do paciente. Leva apenas ao controle e à violência maquiada.

Mas, afinal, o que é isso, o delírio?

Delírio é uma vivência em que o juízo da realidade (de si e do mundo) está alterado. Mais profundamente significa dizer que uma outra realidade foi inventada. Trata-se de uma crença.

O que está em jogo então é a verdade. Pergunta-se: isso é verdade?

A questão da verdade abrange todos nós.A verdade vem de fora. Desde muito cedo nossos pais  enfiam verdades em nossas mentes. Acreditamos, claro, sem questionar. E mais: a crença (qualquer uma) vem sempre acompanhada de um afeto. A crença na família, na escola, na pátria, em Deus, etc...

Delirar talvez seja acreditar no que ninguém ou poucos acreditam. A arte, a filosofia e a ciência fazem isso.

E por que surge o caráter patológico, ou seja, aquilo que conduz à busca de uma ajuda clínica? Lembremos que nem sempre o delirante quer ajuda. Isso é fácil de verificar.

De todo modo, o delírio em saúde mental remete a várias causas e formas clínicas. Os quadros mais graves são os que o paciente nem mais delira já que é o próprio delírio. São as psicoses por vezes chamadas de esquizofrenias.

A rigor, qualquer patologia mental pode apresentar delírio. Ou mesmo qualquer vivência mental não patológica ( desilusão amorosa, a morte de alguém querido, um trauma existencial) pode  gerar um delirio.

O capítulo sobre delírio em psicopatologia é muito extenso. Convém destacar aqui o aspecto vivencial que o aproxima do normal ou do patológico.

Neste sentido o delírio do paciente pode estar próximo ao "delirio" do técnico que o acompanha. Esse fato nem sempre ocorre, claro, mas serve como linha comum do Encontro com a loucura, conforme exposto em texto anterior.

Concluindo, o delírio está em toda a parte onde há alguma crença. E sempre há. Ele compõe a realidade do mundo (veja a política...) e nem por isso  risperidona e haldol lhes são prescritos. Só para delirantes cadastrados.


A.M

sábado, 4 de dezembro de 2021

 LUIZ  INÁCIO e a confissão do século.

O ser humano é cego para os próprios defeitos. Jamais um vilão do cinema mudo proclamou-se vilão. Nem o idiota se diz idiota. Os defeitos existem dentro de nós, ativos e militantes, mas inconfessos. Nunca vi um sujeito vir à boca de cena e anunciar, de testa erguida: - Senhoras e senhores, eu sou um canalha.


Nelson Rodrigues


 

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

OUTROS ENCONTROS

O organismo físico-químico, visível, palpável e mensurável, é o objeto da medicina, onde ela de fato intervêm, e, caso obtenha êxito terapêutico (principalmente por isso), retira mais-valia de poder. No entanto, junto a esse organismo e fora da relação linear causa-efeito, funciona o corpo das intensidades livres. Não é visível, não é palpável, não é mensurável, nem segue os mapas fisiopatológicos vistos em exames por imagem. Distinto da Consciência, a qual sempre obedece ordens, ele, ao contrário, não obedece, é rebelde e alterna com o organismo fluxos atuais e/ou antigos de afetos nômades. São estes que impulsionam a vida, que são a vida : potência sem forma. Em face desse estado (real) das coisas, tal corpo traz grandes dificuldades à pesquisa. Como acessar algo que não se vê, não se toca nem se mede? Na clinica psicopatológica é possível constatar: há um "corpo que não aguenta mais" e que se expressa em sintomas álgicos, como por exemplo em cefaléias crônicas, mas também na multiplicidade de sintomas que englobamos sob o nome de angústia. Aqui não se trata de usar a psicanálise como doutrina ou método de trabalho, mas de roubar deste saber a hipótese de um inconsciente para além da representação de papai-mamãe. Um inconsciente "órfão, ateu e anarquista", inconsciente-corpo. Apesar de estar sempre ao alcance da mão, não é fácil encontrá-lo.


A.M.

Covid: 4 perguntas ainda sem resposta sobre impacto da ômicron

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

Mais do que em qualquer outra época, a humanidade está numa encruzilhada. Um caminho leva ao desespero absoluto. O outro, à total extinção. Vamos rezar para que tenhamos a sabedoria de saber escolher.


Woody Allen

domingo, 21 de novembro de 2021

A  LINHA DO  INFINITO

Há um limite a partir do qual a diferença não se reconhece e não mais reconhece o mundo. Um horror tão extremo e definitivo se instala: ela, a diferença, torna-se pequena e frágil. Tudo o indica. Fala-se da história da humanidade: uma brochada cósmica. A diferença não mais reconhece aí a palavra "vida" por entre escombros da própria vida. Resta o império do medo. Internético, ele assombra o dia que nasce. Assombra todas as revoluções. Nivela os afetos. Aniquila a política. Uma melancolia compõe a paisagem dos monstros da História. E os adorna. E os adora. Seguidores idiotizados nutrem-se da morte camuflada. Anunciam o fim, apocalipse moderno. No entanto, algo resiste... a diferença...

A.M.

GRANDEZA DE MARX


 

Salmo Perdido


Creio num deus moderno,

Um deus sem piedade,

Um deus moderno, deus de guerra e não de paz.


Deus dos que matam, não dos que morrem,

Dos vitoriosos, não dos vencidos.

Deus da glória profana e dos falsos profetas.


O mundo não é mais a paisagem antiga,

A paisagem sagrada.


Cidades vertiginosas, edifícios a pique,

Torres, pontes, mastros, luzes, fios, apitos, sinais.

Sonhamos tanto que o mundo não nos reconhece mais,

As aves, os montes, as nuvens não nos reconhecem mais,

Deus não nos reconhece mais.


Dante Milano

Furtivo


Passeando num jardim inexistente

Encontrarás uma mulher ausente ...


Segue-a. Fala-lhe. Espera que ela te olhe,

Beija-lhe a mão antes que se desfolhe,


Depois, no ouvido, dize-lhe o que sentes,

Expressa-lhe, em palavras balbuciantes,


Com voz arfante e comoção sincera

A paixão que te faz tremer os dentes ...


Dante Milano


sábado, 20 de novembro de 2021

Rehearsal Vanishing Twin - Jiří Kylián (NDT 1 | Sometimes, I wonder)


Revista Mal Estar e Subjetividade



 


Que política é possível com o pensamento deleuziano?


 


What politic it is possible with deleuzian thought?


 


 


Daniel Dutra TrindadeI; Tania Mara Galli FonsecaII


IMestrando do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). End.: Av. Venâncio Aires, 101, apt. 405. Cidade baixa. Porto alegre, RS. CEP: 90040-191 E-mail: ddtpsi@yahoo.com.br

IIProfessora dos Programas de Pós-Graduação em Psicologia Social e de Informática Educativa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). End.: R. Campos Salles, 262, Boa Vista. Porto Alegre, RS. CEP: 90480-030. E-mail: tfonseca@via-rs.net

RESUMO


Este trabalho pretende discutir a possibilidade de uma política na esteira do pensamento de Gilles Deleuze, levando em consideração a tensão existente entre as concepções de macro e micropolítica e a sua relevância diante de uma filosofia que preza, em última instância, pela diferença pura, o puro devir. O trabalho não pretende descrever o que é a política segundo Deleuze, mas como uma política pode servir de matéria para crítica e para o pensamento segundo o movimento filosófico de suas idéias. O que resulta desse trabalho não é um dado, mas uma interpretação que intenta ser justa com uma filosofia que em todo o seu corpus adensa a crítica do sujeito moderno, identitário e substancial. Essa justiça levada a cabo implica duas conseqüências: arrefece as pretensões humanistas e voluntaristas cujo fundamento está num sujeito capaz de, através da tomada de consciência de suas circunstâncias, mudar os rumos da história e da sociedade - um sujeito compreendido como causa de sua própria humanidade; e liberta o devir, como ser livre, de suas amarras humanas, demasiado humanas, mostrando que existe vida além do homem como medida de todas as coisas. Essas duas conseqüências certamente trazem o desconforto de não mais sentir as rédeas da vida nas mãos, ainda mais se tratando de um tempo histórico onde a miséria humana é chocante. Deleuze, no entanto, não conforta; ele impõe desafios e instiga a criação de sentidos esgotando o possível até brilhar uma vida...


Palavras-chave: macropolítica, micropolítica, sujeito, estética, devir.


ABSTRACT


This work has the/ pretention to discuss the possibility of a politic in the wake of the thought of Gilles Deleuze, taking into account the tension between the concepts of macro and micropolitic and its relevance to a philosophy that values in last instance the pure difference, the pure becoming. This work is not intented to describe what is politics according to Deleuze, but how a politics can serve as a subject to critique and to tought in the philosophical moviment of his ideas. What results of this work is not a fact, but an interpretation that intents to be fair with a philosophy wich, in all of its corpus, makes the critique of the modern subject, subject conceived in identity and substance, denser. This fairness carried out implies two consequences: it cools the humanist and voluntarist pretensions, whose foundation is in a subject capable of, through taking awareness of his circumstances, change the direction of history and society - a subject understood as cause of his own humanity; and frees the devir, as a free being, of its human tethers, all too human, showing that there is life beyond man as a measure of all things. This two consequences certainly bring the discomfort of no longer feeling the life's reins in our own hands, specially considering our historical time where the human misery is shocking. Deleuze, however, does not comfort; he imposes challenges and provokes creation of senses, exhausting the possible until a life shines...


Keywords: macropolitic, micropolitic, subject, esthetic, becoming.


 


 


Introdução


O pensamento, desde muito tempo, vem sendo convocado pelo desespero de nossos dias, mas ele mesmo não pode desesperar. A urgência não pode ser razão do pensamento, sob pena de torná-lo imediatista. Isto não é uma proposição, esta é uma posição, uma perspectiva. E também é uma angústia a ser vivida. Se trouxermos a máxima cartesiana - penso, logo existo - para o âmbito mundano, e para muito aquém de suas reivindicações filosóficas, nos deparamos com uma contradição: pensar não é existir na imediatez dos instantes? Sim, todo esse jogo de palavras é retórico, abusamos da generalização dos termos pensar e ser ou estar no mundo. Mas esse jogo é útil para apresentar ou introduzir a percepção de uma tensão entre o pensamento (filosófico) e a ordem das coisas humanas dispostas sobre o "nosso mundo". Essa tensão é, por sua vez, acolhida no seio do que entendemos por território da política - aquele que se pretende a condição do encontro entre pensamento e um modo de ser no mundo. No entanto, este território está mais para o pensamento que para os modos de ser, pois é o pensamento que o reivindica a cada vez para insistir que é em si mesmo de natureza política, ou seja, a cada acontecimento seu ele está imediatamente ligado aos modos de ser e à práxis mundana. É assim que o pensamento quer para si que esse laço com o universo das coisas humanas o faça político. E é, talvez, das idéias a mais tacanha. A própria filosofia se responsabilizou pelos males do século XX (notadamente o regime nazista), e a partir de então, impõe a si mesmo um pathos político para afastar-se de uma vez por todas de sua alienação e consequente condescendência velada diante do mal. O pensamento, então, sucumbe à história, é politizado, condenado desde então a prestar contas ao que aí está. Abriu-se, diante da filosofia, duas alternativas apenas: ou ela está contra ou ela está a favor de um atual estado de coisas. O pensamento se transforma, assim, em diagnóstico, prescrição e prognóstico. Daí é certo que muitos devam lamentar a morte da filosofia, justamente porque não deixaram restar outra alternativa que a de se igualar a uma ciência, um tipo de conhecimento onde o primado é o do referente; neste caso, a filosofia estaria amarrada ao referente "nosso mundo", aquele consagrado pela história universal. E como esse "nosso mundo" espelha a precariedade e a miséria da humanidade, portanto, caberia à filosofia corrigir essa imagem, donde sua condição política de existência. Entretanto, vejamos.


A política foi, por muito tempo, o âmbito do "governo", onde as ações dos governantes assumiam um valor diante da sua incidência sobre as vidas alheias. Entretanto, nossa experiência modernista da política nos fez acreditar que o seu âmbito é aquele das atitudes e ações não mais relativas ao governo, apesar de estas também serem consideradas como políticas, mas relativas aos governados; a ação política se tornou uma questão relativa muito mais ao mau governo que ao bom governo. Da gama de reflexões sobre política que encontramos hoje em dia, pouquíssimas ou nenhuma explora a pertinência e a possibilidade do melhor governo, qual filosofia se atreveria a isso?, no entanto, encontra-se um número enorme de reflexões sobre qual governo não queremos mais, sobre as mazelas, o descrédito e o esgotamento de tal ou qual sistema político. A política se tornou, para nós, primordialmente, um dizer não ao governo; todavia, para não definhar numa atitude puramente negativa, imputa-se à política uma atitude afirmativa ao considerar cada novidade referente às práticas e discursos cotidianos como uma substância política. Dessa forma, toda ação humana se torna política, pois se ela desvia do sistema de governo ela é política por ser desviante, caso contrário ela também é política, posto que ela confirma o sistema. Assim, no círculo moderno da política uma tangente se torna impossível. E este círculo é, obviamente, o círculo do humanismo, o homem como centro da Terra e esta sob o reinado daquele; o homem tido como o grande transformador do universo, e não é este o sentido que toca o coração da política? - o homem sabendo como deve governar todas as coisas, porém, se este governo vai mal, cabe ao homem aprumar os rumos. Este "homem" tem outros nomes também: "sujeito", "ego", "consciência". De qualquer maneira, foram todos estes "nomes" os responsáveis, segundo os críticos da modernidade, pela progressiva decadência da civilização moderna. Não por que eles fossem as causas, mas porque eles estiveram no centro de toda essa "construção histórica". O "para-além-do-homem" se tornou praticamente uma exigência para a filosofia em nome da superação das grades de ferro do subjetivismo, nisso estão juntos alemães e franceses, não obstante a diversidade de suas construções filosóficas. O espectro dessas empresas críticas é muito vasto, as nuanças são várias, e as perspectivas estão, em muitas delas, em lados diametralmente opostos: derrubam-se os privilégios da "consciência" aqui, restaura-se este privilégio pela conversação lá; a crítica corrói a identidade e a interioridade do sujeito, mas a "liberdade do indivíduo" se mantém aqui e acolá. Poderíamos ainda dizer que parte da crítica filosófica tem como inimigo a pretensão humanista de universalidade, o imperialismo de um tipo-humano, por certo o homem de razão ocidental. Então, se abandonamos os universais podemos retomar o leme da vida num pequeno universo "particular" sem maiores pretensões. E se advém um abuso de poder no interior desse pequeno universo, certamente ele merecerá uma reviravolta "política", leia-se, as "individualidades livres" podendo transformar a situação. Finalmente, quando o controle vence qualquer "liberdade individual", a própria vida como fenômeno genérico se rebela, e a vida, essa potência subversiva e incontrolável por natureza, triunfa. O indivíduo, ao se identificar com o próprio fenômeno vida, colhe para si os louros dessa vitória; ele crê piamente que a liberdade da própria vida é a sua liberdade, e, portanto, a própria vida se torna um fenômeno essencialmente político - eis que surge uma biopolítica. O indivíduo, agora cúmplice da vida, certamente não usufrui de uma identidade, nem de uma interioridade fechada, nem mesmo de uma "individualidade", posto que a vida devém a todo instante uma outra natureza. A vida roubou a cena, mas não podemos ver quem dirige esta peça? Não pretendemos, nós, críticos da modernidade, dar voz aos "loucos", aos "criminosos", e a toda sorte de excluídos do monólogo da razão? Então, por que não ouvir a própria vida? Por acaso ela não diz "não queiram vocês serem o que eu sou, pois vocês já são e apenas eu posso querer, deixem de ser orgulhosos até no seu último instante"?


 


Deleuze: re-introdução do problema


São estes ouvidos delicados que Gilles Deleuze (1925-1995) parece ter criado para si, é essa delicadeza filosófica que viemos brindar da maneira como nos é possível. Não podemos falar por ele, somente tentar ouvi-lo. Nossa intenção é fazer somente um percurso a mais pelas sendas do pensamento de Deleuze pois, antes de mais nada, não queremos ser definitivos nem conclusivos, quereríamos mais ser incisivos. Visar uma última palavra não condiz aos nossos objetivos, nem por uma veleidade autoritária qualquer, nem por algum critério hermenêutico: a melhor interpretação. A propósito, a melhor interpretação não existe, no sentido de uma precisão indefectível. Ela pode ser, no mais, o esvaziamento dos sentidos dados, o rompimento do consenso; e nem mesmo as idéias de Deleuze escaparam dos círculos consensuais, ao menos dois deles, o dos que o leram desde sempre reativamente, e o de todos aqueles que acreditam ter herdado o seu próprio pensar. Ambos os círculos representam o desleixo para com uma filosofia em "tempos difíceis", não vêem a riqueza das nuanças, as sutilezas da retórica e as estratégias significantes, daí o consenso que banaliza ou tiraniza um filósofo - confunde-se um "romance policial" com um "caderno diário de notícias" e quer-se tratar das ordens do dia, a condenação ou a panacéia, a alternativa basta.


No próprio seio de sentidos deleuzianos, queremos não mais que apontar para uma linha de atualização dentre toda a gama de virtuais que compõem sua filosofia, uma filosofia da e para a Diferença. Essa linha de atualização, ou matéria-fluxo, é a de uma política ainda indefinida em seus significados porque o seu próprio sentido é um foco problemático; isso quer dizer: a questão "que política é possível a partir do pensamento deleuziano?" ainda está carente de resposta; essa tensão problemática deve ser mantida num primeiro momento. Manutenção que já é um índice de uma esquiva a respostas prontas e de um desejo de imprevisto; não pretendemos ser cômodos nem incômodos com esse jogo, queremos apenas desviar os olhares e a espera do óbvio. Retomemos, agora, o teor das questões que até o momento nos entretinha.


Em que sentido pensamos em uma política, comumente? No mínimo em dois, ação e organização, dois termos que carregam consigo, ainda mais em se tratando de política, uma conotação bastante voluntarista. Eis aqui um ponto problemático, mas o deixaremos em suspenso por ora. A estes dois termos aditam-se mais questões: se tratamos de ação, quem age?; se tratamos de organização, quem organiza?; se agimos ou organizamos, para quê?! Esses movimentos interrogativos pelos quais nos encontramos agora rodeados seriam facilmente sossegados se recorrêssemos à figura do Sujeito (figura, porque ela é intrinsecamente representativa). Porém, o Sujeito como unidade representativa é um alvo tão significativo para a filosofia da Diferença quanto fácil de acertá-lo e dissipá-lo; o Sujeito da representação não se mantém, sua fragilidade e imperfeição constituintes o subjugam e o ultrapassam, sem finalidade e sem sentido, sempre. A tríade que pretende definir o Sujeito (substância, representação, identidade) é paulatinamente diluída pela acidez do pensamento deleuziano ao longo de toda a sua vida filosófica. O Sujeito que representa e é representado não passa de um artifício, um artifício ruim. Mesmo a partir dessa desconstrução do "sujeito da representação" ainda nos restaria um "sujeito da ação", que poderia, de direito, abdicar, dos derivados da representação, o representante e o representado, e levar a cabo um "ativismo político", sob o qual a representação é sepultada, mas sobre o qual o sujeito permaneceria inteiro1. Nesse outro ponto a que chegamos, impõe-se outra questão: as ações de um sujeito definem-se desde o princípio como ações políticas? Parece óbvia que a resposta seja negativa, então, qual seria o elemento que nos permitiria definir as ações politicamente? Esse elemento parece ser a finalidade, com a condição de que essa finalidade intervenha num campo social; é o elemento da finalidade que define se uma ação é política ou não. Notemos, nesse entretempo, que ainda estamos tratando de uma política que não escapa do sujeito como referência (como um pólo lógico ou empírico). Qual seria, em última instância, a finalidade mais pertinente da atualidade quando colocados em relação o sujeito e a política, de um ponto de vista geral, evitando a abstração, senão a reivindicação de direitos individuais? (Poderíamos pensar em direitos de uma coletividade, mas quaisquer destes direitos só se efetivam se distribuídos individualmente). Com essa questão, nosso traçado crítico se configura da seguinte maneira: um encerramento da política entre os pólos do sujeito e da finalidade, que remonta ao sujeito, na forma de indivíduo. Essa é uma visão demasiado humana da política, nós sabemos; entretanto, haveria um outro sentido para a política que não este do interior de um confinamento subjetivo e teleológico? Essa questão nos leva certamente a um limite do significante político e são essas linhas limítrofes da política que pretendemos tornar mais claras.


 


A micropolítica: alguma impertinência


"Em suma, tudo é político, mas toda política é ao mesmo tempo macropolítica e micropolítica" (Deleuze, G., Guattari, F., 1996, p. 83).


Conceitualmente, essa proposição é um tanto precária, porque se tudo é político, logo, a política é tudo, e definir alguma coisa dessa maneira é absolutamente não defini-la, seria uma simples generalização, abstrata demais. A oração adversativa que segue essa definição é mais pertinente, todavia, ela inicia um campo polêmico que é o de uma micro-política, sendo que a polêmica estaria menos numa micrologia dos acontecimentos que no significante que lhe serve de companhia e de valor, a politização dessa lógica dos acontecimentos. De nossa perspectiva, o significante não tem qualquer relevância fundamental, bem como uma colcha de retalhos onde os retalhos são os significados, o significante é nada mais que as formas, as cores e as posições dos retalhos; se mudarmos os retalhos, a colcha não é mais a mesma. Assim, o que importa é que os significados sempre destituam os significantes, e que não permaneça, sob a invenção de uma micro-política, a sombra significante da macro-política, demasiado humana e avessa ao seu próprio estatuto de invenção (o preconceito do homem como ser político natural), ou ainda, uma política guiada pela fé de carvoeiro na liberdade da vontade do sujeito. No entanto, nos parece que em espaços e tempos dispersos (ou seja, ora aqui, ora acolá), é o próprio significante política que insiste em resistir à insurreição dos seus novos significados quando concernidos ao universo de um micro-logos, mantendo debaixo dessa sombra significante (ela é de fato uma sutileza) o bem-estar vicioso e viciante do círculo sujeito, finalidade, sujeito (indivíduo). Em suma, para que seja pensada uma micropolítica da imanência é preciso eliminar qualquer preeminência transcendente de um Sujeito, é preciso realçar a pureza da ação micropolítica (a-subjetiva). Essa precisão conceitual, que por si mesmo é crítica, nos permitiria escapar de um mal-entendimento das coisas desumanas que compoem esse nosso mundo e não tomar por micropolítico aquilo que é macropolítico. Não se trata de instaurar uma falsa polêmica, mas de desiludir os voluntaristas e reativos (para não dizer niilistas) de plantão que nos capturam como outros tantos "eus" que nos compõem, exatamente como Deleuze e Guattari alertavam para o microfascismo que se refugia em cada um de nós. Assim como o Bergsonismo a respeito do corpo, da matéria e da memória, podemos dizer que politicamente somos um misto mal analisado (Deleuze, 1999). Uma tarefa para a filosofia é justamente purificar essa mistura de naturezas distintas, a micro e a macropolítica, e privilegiar a parte boa, direita (qualquer alusão é uma falsa ironia). Esse percurso pode nos levar a um desenlace bastante radical, cujo signo poderia estar numa pergunta como esta: existiria uma política da Vida, dos Acontecimentos, da Diferença?


 


Sem sujeito e sem finalidade: ainda uma política?


Voltemos aos acontecimentos de maio de 68, já que é um exemplo conhecido de acontecimento micro-político, aos olhos de Deleuze e Guattari. Naquele tempo, o que houve de mais significativo certamente não fora a reivindicação de sujeitos pelo poder nem por garantia de direitos (nos referimos aos direitos formalizados), mas agenciamentos coletivos de enunciação e agenciamentos maquínicos de desejo que se expressaram na vontade e na prática de conviverem de uma outra maneira, à imagem e semelhança de uma liberdade. Antes de qualquer pensamento, ação ou reflexão, era preciso que a sensibilidade fosse outra, e parece ter sido exatamente o que acontecera naquela ocasião e que, até hoje, nos inspira tanto: milhares de pessoas, cujos rumores desabafavam obstinados: - não queremos mais viver do mesmo modo, não queremos mais qualquer poder e sim o quanto for de prazer em vivermos juntos. Esse clamor é certamente um fluxo revolucionário (é possível uma revolução despolitizada!), mas qualquer atribuição de subjetividade ou finalidade a esse fluxo é mera ilusão de molaridade (curioso anagrama de moralidade). O sujeito, unidade molar, só pode dizer sim ao próprio movimento ou essência das coisas (do Ser), matéria intensiva em diferenciação, atualização sensível das intensidades - nietzschianamente: o Homem dizendo sim à própria Vida. A afirmação pelo sujeito da própria diferença e multiplicidade vitais: essa é a ética que nos reclama, mas podemos nos perguntar, o que tem de política essa ação? Onde estão aí sujeitos da ação, cuja finalidade retorna aos indivíduos? Ainda, essa ação não pertence a uma micro-política (quando Deleuze e Guattari montam um esquema binário) ou ainda, essa ação não é uma linha de fuga, um fluxo ou quanta (quando Deleuze e Guattari montam um esquema ternário), ou melhor, ela é uma ação eminentemente micro-política na mesma medida em que ela abandona as coerções de uma subjetividade. A expressão "afirmação pelo sujeito" não significa "afirmação cuja causa é o sujeito", mas "afirmação que atravessa o sujeito". Dizermos, por exemplo, que é preciso que tracemos cada vez mais linhas de fuga em nossos diagramas sociais não passa de uma incorreção, senão de uma trapaça teórica.


Quiçá afoitos demais, chegamos num ponto crítico, qual seja, o de se questionar por que uma política que é de outra natureza é ainda designada política, a não ser sob o risco de conotar e aludir à macro-política, cuja marca de expressão mais forte é a de uma revolta da consciência em relação a um estado de coisas. Poderiam nos objetar que a vida é política em si mesma, que em seu seio se desenreda nada mais que um irredutível jogo de forças e dominação. Desse modo, a vida politizada se apóia na seguinte cadeia significante: forças-disputa-dominação. Aqui, dormita um grande mal-entendido, aquele que pretendemos desfazer, quem sabe entre tantos outros esforços, o de que aqueles signos não são políticos, são signos estéticos porque a vida é um fenômeno estético. O sentido (dominação) de um jogo de forças é nada mais que o desejo afetando-se, é uma questão de encontros, que somente por uma sobrecodificação (a finalidade para o Sujeito) pode adquirir um caráter político. (Não é por acaso que Espinosa escreveu uma Ética, e não uma Política).


"Os afectos atravessam o corpo como flechas, são armas de guerra" (Deleuze, G., Guattari, F., 1997, p.18). São esses os significantes que devemos corromper a cada novo trabalho, são armas de uma guerra que não é santa, nem quente, nem morna, nem fria, essa guerra é uma guerra imaginária, mas não é impotente. Caso não tomemos esse cuidado, corremos o risco de, a cada enunciado, ressuscitar o velho monstro que habita a língua: o estereótipo: o signo do poder (Barthes, R., 2007).


 


A máquina de guerra: para além da síntese suplementar


Os problemas se apresentam sempre desse jeito. Boa ou má, a política e seus julgamentos são sempre molares, mas é o molecular, com suas apreciações, que a "faz" (Deleuze, G., Guattari, F.,1996, p. 94).


Ao fim do Tratado de nomadologia, Deleuze retoma uma proposição que já havia sido colocada em Micropolítica e segmentaridade, a de que a máquina de guerra não tem por objeto a guerra. Por que então essa máquina é de guerra? Ela se transforma em máquina de guerra em duas circunstâncias, quando ela é capturada pelo aparelho de Estado, e quando ela reage aos movimentos de captura do aparelho de Estado. Num caso, sua natureza é destorcida ou manipulada, no outro, sua natureza é negativa. Deste modo, quando a guerra se torna o objeto da máquina essa síntese é apenas complementar, ela é fortuita. Ora, ainda nos resta a melhor parte que é a positividade de qualquer natureza, aquilo que a movimenta como causa sui, no caso da máquina de guerra, é a própria produção de um espaço liso e a distribuição de uma quantidade numérica sobre ele, cujo fim é o privilégio dos fluxos e das velocidades absolutas sobre este espaço: o nômade não quer deixar o deserto (ele não é imigrante), ele apenas povoa e amplia esse topos. Qualquer império é apenas um obstáculo para o nômade, não a sua condição. Aqui, já não vemos mais onde está a guerra, mas ainda sentimos a máquina, e mais, ousaríamos numa direção incisiva em dizer que a máquina que encontramos como pura forma de exterioridade é uma máquina de diversões (devir-infância?) como efeito de uma substituição potencializante da máquina de guerra. Diversão é a consistência daquilo que diverte, divertir é verter-se numa outra direção, a máquina de diversões corresponde à produção maquínica de clinamens, produção heterogênea de desvios. A máquina de diversões é uma máquina clínica ou analítica. O que nos interessa é mostrar que essa máquina é puramente ativa ou resignativa (não no sentido de passividade, mas no sentido de ação mínima), quem habita o espaço liso produzido por essa máquina está mais para Bartleby2 que para o Nômade, não há resistência direta: entre lutar e render-se o Nômade reage escolhendo lutar, entre lutar ou render-se Bartleby age minimamente dizendo "prefiro não".


Cremos que as relações entre máquina de guerra e aparelho de Estado são muito mais complexas hoje do que foram a milhares de anos3. A própria exterioridade geográfica é um ponto notável; outrora, era o alargamento territorial dos Nômades ou do Estado (primitivo) que tinha por conseqüência o enfrentamento de ambos; hoje, já não experimentamos este tipo de exterioridade. Máquinas se constroem dentro do Estado, e o próprio Estado já se degenerou em suas aparelhagens, é o Capital quem cerceia e controla a despeito das fronteiras. Aqui, podemos ver a encruzilhada medonha em que se encontram os resistentes ao Capital, os que aderem ao Estado (qualquer tipo de estriagem ou organização, mesmo as de formação estratégica) ou os que esquecem a política. O que tentamos mostrar até aqui é justamente o impasse que permeia essa encruzilhada, ou uma micro-política ainda supõe um Estado (micro), ou simplesmente ela não é política, queremos dizer, em ultima instância a micro-política deve deixar de rebelar contra e divergir, ou tergiversar, ou ainda criar qualquer tangente para além do ressentimento e da reação. Caso contrário, morreremos tristes no cerne de uma batalha infindável, a da revolta contra o status quo. A micro-política que Deleuze nos faz ver parece estar para além de toda revolta (ainda imantada num Estado), para além da consciência (a melhor arma do insurreto), no entanto, até que ponto nossos olhos deixam ver?


Em matéria de método intuitivo, ou a diferença é uma diferença de grau ou é uma diferença de natureza. Entrementes, o fato intrigante é o desprestígio da diferença de grau quando esta se torna consciente. Afinal, qual é o problema dos sujeitos em agir com vistas a um fim que remonte a individualidade? Qual é o problema em lutar pelos direitos individuais? Qual é o problema em lutar pelas minorias? Qual é o problema de lutar contra a injustiça, contra a miséria, contra o abuso de poder, contra a corrupção? Qual é o problema de lutar para além da Representação, para além da Universalidade, para além da Identidade? A existência de uma sociedade sem uma macro-política nos parece impossível, não porque ela é uma condição essencial da sociedade, mas porque nós, modernos, somos impotentes para abandoná-la. Podemos dispensar a boa vontade dos sistemas representativos, esgotados e corrompidos, em nome de um ativismo cada vez mais intenso, desde que não beire o fanatismo. A condição e a fórmula dessa política pode ser esta: podemos ir a todos os lugares e lutar por quem quer que seja: sem-terras, minorias raciais, gays, palestinos, o povo de Oaxaca, os índios da Amazônia, os monges de Mianmar etecetera e tal. Ainda assim, nossa primeira questão continuaria em pé, com uma pequena variação provocante: é essa a política possível no pensamento deleuziano? É possível sim, desde que desfeitos os mal-entendidos a respeito do que é macro e do que é micro-político, para não cairmos numa trapaça. Porém, já demos algumas pistas de que não é essa política que encontramos em Deleuze e que motiva esse texto, e até mesmo de que a potência revolucionária e subversiva da sua filosofia das multiplicidades, a despeito da estereotipia dos termos, não se expressa numa política, não importam as dimensões, mas numa estética da Diferença e das multiplicidades, cuja beleza se encontra num pensamento sem imagem e numa lógica dos acontecimentos (a-subjetiva, pré-individual). Sentir e pensar: é como inventar uma nova vida, é como viver num outro mundo.


 


Conclusão: para terminar num começo


Tornar-se um território propício ao desfile dos devires nos parece, sem dúvida, um fenômeno estético, e nos parece também que esse é um objetivo essencial da filosofia deleuziana, talvez o mais importante e notável; neste trabalho, esse objetivo é nossa linha mestra. É certo que esse objetivo, o de se tornar um território fértil, deva ser pensado como uma colocação subjetiva ou individual, talvez este seja o derradeiro ato político que aparece em Deleuze, não o ato, como se este fosse a apoteose de sua filosofia, mas uma discrição, um devir ou uma virtualidade. Sabemos que todas as partículas em velocidade, consideradas sob um desenvolvimento normal, em algum momento hão de precipitar, talvez esse seja um momento análogo àquele em que tantas possibilidades de um pensamento precipitam-se num uso dominante: a reivindicação do pensamento deleuziano pelos movimentos políticos, seja de um grupo ou de um pensador, parece corresponder exatamente ao momento precipitante. Entendemos as urgências sociais e planetárias, a calamidade que se exibe no abismo existente entre um miserável que se alimenta de papelão e um milionário que coleciona lipoaspirações; imaginamos o quanto um profissional da psicologia social não deve ter chegado até essa especialidade senão por um viés crítico e humanitário (esqueçamos qualquer sentido pejorativo desse adjetivo, pois sabemos muito bem o que sentimos diante da decrepitude humana, para o bem ou para o mal); compreendemos o sentimento de revolta que todo aquele que, por uma benção ou fatalidade, alguma vez nessa vida tomou consciência da condição e circunstâncias humanas. Como num momento delicado, no qual a gagueira precede a notícia, não sabemos muito bem por onde começarmos. Certamente não diríamos que o pensamento de Deleuze não serve à consciência insurreta, nem que essa não é o melhor acolhimento das suas idéias, mas estamos tentados a usar, pela primeira vez, um artigo definido e dizer que no (e não num dos) pico mais intenso da sua filosofia, onde ferve o afecto mais perturbador da sua arte, o presente desfere um golpe mortal no seu passado, o esquecimento consome o destino daquele que desfrutava de um rosto, o emprego, o próprio nome, a mágoa e a esperança, qualquer horizonte, a vida ordinária, tudo isso se esvai. Um brutal acontecimento. Não há restituição ulterior possível. Ele nos colocou nalgum instante na corredeira da vida. Não é possível nos tornarmos reformadores, o que nos cabe é transformar, transfigurar; não podemos mais criar um partido, mas podemos agregar amigos; não podemos mais convencer os mais fortes de sua fraqueza e tampouco os mais fracos de sua força, nos foi roubado o fundamento, o argumento, o julgamento, o ressentimento, a redenção. Desapegamos de nós mesmos e nos apaixonamos pelo que acontece, desperdiçamos nossa vontade e mergulhamos no desejo, nos matam a cada dia e no dia seguinte renascemos em todo lugar, nos tornamos a vida e a vida não morre. Eis a nossa beleza, eis a nossa alienação; ainda nos resta sentir, ainda nos resta pensar, ainda nos resta sonhar. Não temos nem habitamos alguma polis, nos falta o sujeito e a alteridade, nos falta a comunicação, somos ninguém fitando os olhos de outrem, fabulando a imagem de um mundo deserto, a espera do povo porvir... somos solidão... povoada. Morreremos sentados4, mas sorrindo!


 


Segunda conclusão: para não parecer que o começo é um fim


Nossa interpretação dos movimentos e idéias deleuzianas não quer acomodar os ânimos. Cremos ter deixado isso bem claro desde o início. O desconcerto que o filosofar deleuziano suscita e as possibilidades que ele prenuncia na maior parte das vezes assustam, outras vezes irritam, outras ainda comovem, e outras tantas consolam. Mas esse não é o sentimento daquele que escuta "não seja mais o mesmo, não queira mudar o mundo, e não diga que viver não vale a pena"? Vivemos desde há muito tempo sob o conforto das certezas, principalmente aquela que guarda o porquê das nossas vidas. Deleuze não foi apenas mais um a dizer "que razão queremos para viver, se já temos a melhor de todas em estarmos vivos"? Esse é, certamente, um pensamento dos mais singulares, dos mais profundos, e por que não dos mais horríveis. Não é esse o abismo que separa o pensamento filosófico das coisas demasiado humanas, e no qual as cruzadas políticas que intentam amarrar os nós de um lado e do outro são engolidas? Sabemos que a questão é delicada, e aprendemos a temer o tirano que pode estar por detrás de "pensamentos profundos e horríveis", mas não podemos descuidar, o consenso contra o "mal" também tiraniza. O ser humano sempre foi um pescador de ilusões até que um dia lhe disseram uma coisa dessas, "deus e o homem estão mortos", e tudo isso justamente para lhe devolver a inocência. Mas, desde então, vivemos num embaraço, numa espécie de delírio, por vezes muito desiludidos e cansados, por outras vivazes e desejantes. Deveríamos estar felizes, porque Nietzsche (1944-1900) jogou todas as fichas e ganhou; nós podemos ser, depois de tantas cargas e lutas, uma criança novamente. No entanto, bem como uma criança, estamos ou estupefatos ou distraídos demais para agradecer o presente que nos foi dado; não nos atiramos ainda à experiência dessa nova vida, que é a da reinvenção da brincadeira com as ilusões. A "verdade" de que não estamos no comando do barco da vida e de que o oceano é o grande senhor não impede que imaginemos nossas aventuras: temos ainda terras a serem descobertas, tesouros escondidos, inimigos para guerrear, amigos para conquistar e, acima de tudo, o contentamento de sentir o vento e a liberdade de horizontes sempre à espera. As "grandes verdades" destroem apenas as "grandes mentiras", mas não as grandes ilusões, estas são as maiores riquezas e brindes dessa nossa vida. Se existe um grande desafio ao nosso tempo, deve ser o de reinventar as ilusões sem a má companhia das mentiras, deve ser o de achar que realmente transformamos a realidade, que nossos fracassos e sucessos realmente existem, que somos torpes nalgum momento e sublimes num outro. Ser humano é poder iludir-se e o niilismo moderno é a diminuição dessa potência, cujo sintoma é a busca de uma certeza, ou seja, a maior das mentiras. Se a clareza nos foi permitida pelas armadilhas da linguagem é possível compreender que Deleuze foi mais um a nos presentear com "verdades" e não com certezas, e cabe a nós continuar a mais séria das brincadeiras - ser humano.


 


Notas


1. Ver Revisitando os intelectuais e o poder, Renato Janine Ribeiro em Gilles Deleuze: uma vida filosófica.


2. Personagem de Herman Melville em Bartleby, o escriturário: uma história de wall street.


3. Ver Post scriptum: sociedades de controle em Conversações, Gilles Deleuze.


4. "Morrer sentado" é uma alusão ao esgotamento beckettiano em L'èpuisé, Gilles Deleuze.


 


Referências


Alliez, E. (2000). Gilles Deleuze: Uma vida filosófica. Rio de Janeiro: Editora 34.        [ Links ]

Barthes, R. (2007). Aula. São Paulo: Cultrix        [ Links ]

Deleuze, G. (1992a). Conversações. Rio de Janeiro. Editora 34.        [ Links ]

Deleuze, G.(1992b). L'épuisé. In S. Beckett, Quad et autre pièces pour la télévision (pp. 55-112). Paris: Editions de Minuit.        [ Links ]

Deleuze, G. (1997). Crítica e clínica. Rio de Janeiro: Editora 34.        [ Links ]

Deleuze, G. (1999). Bergsonismo. Rio de Janeiro: Editora 34.        [ Links ]

Deleuze, G., & Guattari. F. (1996). Mil platôs: Capitalismo e esquizofrenia (5ª ed., Vol. 3). Rio de Janeiro: Editora 34.        [ Links ]

Deleuze, G., & Guattari. F. (1997). Mil platôs: Capitalismo e esquizofrenia (Vol. 5). Rio de Janeiro: Editora 34.        [ Links ]


terça-feira, 16 de novembro de 2021

O que é psiquiatria?  parte 3


Há na psiquiatria uma clínica a ser inventada. 

A clínica é o lugar de resistência à violência simbólica ou real, aos manicômios da alma e às emergências programadas.

Para isso o trabalho da psiquiatria tem um sentido a ser oferecido no encontro com a loucura de todos nós e os pacientes.  

Para os multi-sintomáticos,graves, gravíssimos, medicar com precisão exige método, arte e intuição. Muito difícil a jornada solitária.

O psiquiatra e os  mil afetos  no exame do paciente. Aí se constroe a ajuda. Ou nada.

Ser mais um técnico em saúde mental, buscar relações não hierarquizadas com os técnicos em saúde mental.

Usar o diagnóstico psiquiátrico como função terapêutica e não como estigma e controle moral.

Avaliar os sinais delicados da psicopatologia na inserção subjetiva da realidade social. A pergunta (ampla) seria: como você vive?

Sempre que possível, reagir às agressões farmacológicas antes sofridas. Tal atitude requer mudanças de prescrição e orientação técnica ao paciente, familiares ou terceiros.

Diante do paciente, evitar ocupar o lugar de juiz, policial, professor ou sacerdote, entre outros. Ser técnico já é muito.

Entrar no delírio (se for o caso) com o paciente, não no lugar dele. Não confirmar o delirio, mas aceitar o delirante.

Valorizar a psicoterapia, antes como atitude, arte e depois como técnica.

Valorizar a arte, antes como estilo, depois como técnica.

Fazer psiquiatria.


A.M.





 



segunda-feira, 15 de novembro de 2021

BORIS DENEV


 

O que é psiquiatria?  parte 2

Uma especialidade diferente essa.

Tudo porque não apenas é especialidade médica, mas instituição.

Do ponto de vista epistemológico, ela está plugada às ciências biológicas e às ciências humanas.  No primeiro caso, o organismo físico-químico. No segundo, a realidade social. Trata a realidade social como organismo físico-químico.  Trocou as bolas.

É uma especialidade ancorada em pilares teóricos de naturezas diferentes. Vive num paradoxo.

Sua condição de ser uma especialidade pode ser ampliada para a de instituição social. É que a pesquisa lida com um universo simbólico no qual a própria especialidade está inserida. 

Tal condição “institucional” normalmente é ignorada pelos psiquiatras e similares. Muito difícil que fosse diferente.

Como instituição ela codifica as pessoas. Daí, estas não precisam ser psiquiatras para pensar, sentir e agir como um. 

Atrelada à visão biomédica do comportamento humano em suas alterações (o chamado transtorno) a psiquiatria estanca numa reflexão teórica rasa, onde não consegue sequer definir com precisão o que é uma psicose.

Em essência, esse é o fundo da  "sua"epistemologia. Um conhecimento atolado na moral.

“Loucura”, conceito não-médico, converte-se ao de “transtorno mental”, termo naturalizado como distúrbio da mente igual à distúrbio do cérebro. A equação conceitual cérebro=mente estabelece, então, a partir da década do cérebro, a última do século XX , fortes razões científicas para um “admirável cérebro novo” que toma o lugar da psicopatologia.

Quanto ao aniquilamento desta última, há testemunhas: os pacientes.

Ai, então, a neurociência se fez impecável. Uma psiquiatria atual, acolhida como ciência do cérebro e surda à fala do sofrimento mental, conquistou o mercado.

No entanto, o cérebro mente.


A.M.


O Que Há Em Mim É Sobretudo Cansaço | Poema de Fernando Pessoa com narra...

domingo, 14 de novembro de 2021

HOSPÍCIOS DA ALMA

Vivemos em um mundo desagradável, onde não apenas as pessoas, mas os poderes estabelecidos têm interesse em nos comunicar afetos tristes. A tristeza, os afetos tristes são todos aqueles que diminuem nossa potência de agir. Os poderes estabelecidos têm necessidade de nossas tristezas para fazer de nós escravos. O tirano, o padre, os pastores, os gurus, os tomadores de almas, têm necessidade de nos persuadir que a vida é dura e pesada. Os poderes têm menos necessidade de nos reprimir do que de nos angustiar, ou, como diz Virilio, de administrar e organizar nossos pequenos terrores íntimos. A longa lamentação universal sobre  a vida: a falta-de´ser que é a vida... Por mais que se diga "dancemos", não se fica alegre. Por mais que se diga "que infelicidade a morte", teria sido preciso viver para ter alguma coisa a perder. Os doentes, tanto da alma quanto do corpo, não nos largarão, vampiros, enquanto não nos tiverem comunicado sua neurose e sua angústia, sua castração bem amada, o ressentimento contra a vida, o imundo contágio.

(...)

G. Deleuze e C. Parnet in Diálogos

O que é psiquiatria?   parte 1


A psiquiatria é uma especialidade médica surgida na França em fins do século XVIII. Ai se dá a passagem (conforme Pinel) dos asilos aos manicômios.

No entanto, sua origem mais longínqua remete à existência de asilos no século VII (cultura árabe) e no século XV (ocupação árabe na Espanha). Desde então os asilos (aos poucos) passam a ser chamados de hospícios e se espalham pela Europa.

Sendo assim, a origem da psiquiatria se confunde com a origem dos asilos, dos hospícios e dos manicômios. Uma máquina institucional se prepara para encolher as mentes.

A lógica dos asilos é o DNA da psiquiatria.

Já o século XIX, chamado século dos manicômios, dá origem aos hospitais psiquiátricos conforme o modelo atual.

São conhecidas as agressões e os horrores perpretados contra pacientes internados nos manicômios europeus. Michel Foucault descreve com rigor os detalhes das torturas científicas.

No Brasil, entre outros horrores, o hospital psiquiátrico de Barbacena (criado em 1903) tornou-se um registro histórico e modelo de uma barbárie consentida. O holocausto brasileiro.

No período do estalinismo na União Soviética (1927/1957) presos políticos (quantos?) foram internados em hospitais psiquiátricos. 

No período da ditadura brasileira (1964/1985)  presos políticos (quantos?) foram internados em hospitais psiquiátricos.

A psiquiatria tem uma história pouco edificante.

No Brasil, vieram a reforma psiquiátrica e a luta antimanicomial (em 1978). Mas no campo restante da medicina não há notícia de alguma reforma cardiológica, pneumológica, nefrológica, oftalmológica, etc.

De fato, trata-se de uma especialidade diferente.

A psiquiatria (psicopatologia) não produziu uma teoria dos afetos, apesar da extrema importância desse conceito para o trabalho clínico na construção do vínculo terapêutico com o paciente.

O paciente psiquiátrico muitas vezes não quer ser atendido pelo psiquiatra, sendo levado por familiares ou terceiros. Contudo, na clínica médica não se tem notícia de tal recusa, que por vezes é hostil e agressiva.

O objeto de pesquisa e intervenção clínica da psiquiatria é invisível, impalpável e abstrato. Chamado de “mente” , não há nada parecido em pesquisa médica em termos de metodologia científica.

Nos hospitais psiquiátricos (ainda há!) é muito comum pacientes fugirem. Pulam o muro. Em contraste,  nos hospitais gerais isso não existe. 

Sim, uma estranha especialidade essa.


A.M


Bedroom Folk - Sharon Eyal & Gai Behar (NDT 1 | Skin of the mind)

sábado, 13 de novembro de 2021

O que é organização?


Uma organização social é um conjunto de pessoas (ou indivíduos) com  objetivos comuns. Isso os une. A organização é um grupo ampliado. Entre seus objetivos práticos está contida a natureza do trabalho, não só remunerado. É na execução do trabalho que funcionam afetos

Entre as organizações, há variadas estruturas jurídicas, bem como objetivos diversos. Consideramos nesse breve texto tão só o campo do serviço público em saúde.

Seja, pois, uma organização (ou serviço) em saúde mental. Os grupos que a constituem são por sua vez codificados em linhas institucionais (formas de relação social). Algumas delas seriam: divisão de trabalho, hierarquia, formação e função técnica, salário, servidor público, gênero, papel social, etc. A lista é extensa.

Desse modo, para além da organização visível, há níveis de funcionamento do serviço que não são captados a “olho nu”. É, então, possível considerar os grupos (subgrupos), as instituições e os afetos. Estes últimos são o combustível que faz andar (ou desandar ) a organização.

Eles são a produção.

Afetos remetem a pessoas. Entre elas, ou seja, na relação umas com as outras é onde se dá a prática diária do trabalho para obtenção dos objetivos propostos. Isso parece óbvio.

Entre pessoas é onde correm e escorrem fluxos de produção ou de antiprodução dos resultados. 

Circulando sem parar, há, então, três correntes de afetos possíveis 1- atração; 2-repulsão; 3-indiferença. Elas se sustentam na função técnica. Você faz bem o seu serviço? As relações são técnicas e é nesse nível que alguém é atraído (gosto de trabalhar com você), sente repulsa (não gosto de trabalhar com você) ou é indiferente (para mim tanto faz).

É um quadro que apareceria explícito nas reuniões, conversas, discussões de casos e  problemas do dia a dia do serviço.

Mas nem sempre. Há camuflagens.

É que a realidade das relações humanas é muito mais complexa. Dois elementos a fazem mutante, plástica e  por vezes misteriosa. O primeiro diz respeito à mutualidade dos afetos. Uma atração pode não corresponder a outra atração e sim a um rechaço. Ou o inverso. Além disso, tal configuração pode mudar ( a atração pode se tornar indiferença ou um rechaço).

Há um processo do tempo institucional. Que não volta. Este é o dinamismo que nos leva ao segundo elemento da realidade, aquilo que está “escondido”, o invisível.

O conjunto das correntes afetivas que não se mostra, que não se explicita (por variados motivos) pode ser chamado de inconsciente institucional. Não no estilo freudiano como “a outra cena” mas como a cena real do cotidiano do serviço, onde e quando os afetos são a própria consistência do viver (um território) de se estar trabalhando com prazer, alegria, tristeza ou irritação, entre tantos afetos que “empurram” a produção. 

Produção do trabalho como de si mesmo: a subjetividade. 

A subjetividade do trabalhador é produzida pelo que ele trabalha, como e onde trabalha, com quem, por que, para que e para quem. Marx vive.

Voltando à realidade de um serviço público em saúde mental, a natureza do trabalho, ou seja, o que lhe dá valor e sentido é o cuidado ao paciente. As questões institucionais, subgrupais e afetivas, importantíssimas para esse cuidado, devem ser expostas e debatidas unicamente com esse fim, sob pena da equipe técnica se esfarelar como uma psicose coletiva de mau prognóstico: a pseudo-equipe.

Assim, só uma auto-avaliação e uma auto-criação permanentes encontram saídas para os impasses do serviço.

A.M.