Este blog busca problematizar a Realidade mediante a expressão de linhas múltiplas e signos dispersos.
quinta-feira, 1 de outubro de 2026
sábado, 26 de setembro de 2026
SER DE ESQUERDA ( em 10 linhas)
1- Considera a realidade em primeiro lugar como percepção do cosmos e do mundo. Tal percepção decresce até o eu, ou ao si mesmo. Daí, adotar um anti-subjetivismo radical.
2-Estabelece uma visão coletiva e econômica: para viver, há que se cuidar da saúde, habitação, educação, emprego, segurança, justiça, salário... diversão... para todos.
3- Percebe as minorias sociais, não como valor quantitativo, mas como linhas do desejo esmagado, explorado, violentado, oprimido: os negros, as crianças, as mulheres, os indígenas, os gays, os travestis, e tantos outros...
4- Sabe que somos todos múltiplos, singularidades existenciais. E que o indivíduo é produto do poder e não o contrário. Assim, promove um humor escrachado e livre.
5-Combate o modelo da subjetividade européia que colonizou o planeta: homem, hetero, branco, macho. Essa prática leva ao ser de esquerda um combate institucional. E cotidiano.
6- Encara a geopolítica: esta se baseia numa política do Estado. Por isso resistir à brutalidade do Estado e ao cinismo do Mercado é um ato de liberdade.
7- Contempla a natureza como produção incessante e inumana de sentido e não como paisagem romântica e bela, ainda que a beleza lhe constitua.
8 -Recusa a política partidária ( mesmo na democracia) quando se expressa como referência (enganosa) de igualdade social e fraternidade universal.
9 -Não acredita em poderes que ultrapassem a dimensão do humano ou os limites da Terra como a nossa morada e o nosso corpo.
10- Desconfia da linguagem erudita, acadêmica, estatal, técnica. Ela é portadora de estratégias de domínio inconfesso. Ao contrário, exalta a arte como resistência ao poder, à infâmia e à morte.
A.M.
quinta-feira, 24 de setembro de 2026
MIL SABERES
Um trabalho transdisciplinar na Clínica começa com o devir, ou seja, com o encontro (conteúdo desejante) entre os saberes. Isso significa antes de tudo a dissolução das fronteiras entre as disciplinas e os papéis profissionais.Um devir-loucura cria um espaço-tempo onde estão suspensas as certezas estabelecidas sobre o paciente, inclusive o conceito deste e as suas atualizações técnicas. A implicação do técnico com a clínica é parte dela mesma e motor-combustível à prática. Esta pode (e deve) ser também teórica, pois o pensamento define as linhas do real. Que tipo de real? O virtual, as virtualidades que formigam aqui e ali na produção do inconsciente. Desse modo, para além dos espaços fechados do organismo, o conceito de loucura estabelece compromissos éticos e clínicos.
(...)
A.M. in Trair a Psiquiatria
quarta-feira, 23 de setembro de 2026
domingo, 13 de setembro de 2026
Qual psiquiatria?
Há na psiquiatria atual, hegemônica, uma clínica a ser inventada.
A clínica como lugar de resistência à violência simbólica ou real, aos manicômios da alma e à violência implícita do sistema do capital.
Para isso o trabalho da psiquiatria pode oferecer um sentido ao Encontro com a loucura dos pacientes. E com a nossa.
Para os multissintomáticos graves, gravíssimos, medicar com precisão e método, arte e intuição. Muito difícil, pois é uma jornada solitária.
O psiquiatra e os mil afetos no exame do paciente. E na construção do Cuidado.
Ser mais um técnico em saúde mental, buscar relações não hierarquizadas com os técnicos em saúde mental.
Usar o diagnóstico psiquiátrico como função terapêutica e não como estigma e controle moral.
Avaliar os sinais delicados da psicopatologia na inserção subjetiva da realidade social. A pergunta (ampla) : como você vive?
Sempre que possível, reagir às agressões farmacológicas antes sofridas. Tal atitude requer mudanças de prescrição e orientação técnica ao paciente, familiares ou terceiros.
Diante do paciente, evitar ocupar o lugar de juiz, policial, professor ou sacerdote, entre outros. Ser técnico já é muito.
Entrar no delírio (se for o caso) com o paciente, não no lugar dele. Não confirmar o delirio, mas aceitar o delirante.
Valorizar a psicoterapia, antes como atitude, arte e depois como técnica.
Valorizar a arte como estilo, modo de viver.
Fazer uma psiquiatria menor e sensivel aos fluxos do mundo.
A.M.
sexta-feira, 11 de setembro de 2026
quinta-feira, 10 de setembro de 2026
quarta-feira, 9 de setembro de 2026
Xeque-mate
Quando menos se espera, já são horas.
A dama de espadas perde o gume
e o pássaro pousado vai embora.
Quando menos se espera, o que se anuncia
não é a sorte grande, a estrela Aldebarã
ou a sagração da primavera.
São tempos de abutre
e o coração, músculo bélico, fraqueja.
De repente, já é sábado,
há uns assuntos desagradáveis para resolver
e, sobre a pele confusa da alma,
uma densa crosta de óxido e desalento.
Quando menos se espera, o rei está em xeque,
e é dezembro.
Há uma complicação de trânsito
na avenida
uma artéria que não dá passagem.
Quando menos se espera, já é tarde.
Carlos Machado
terça-feira, 8 de setembro de 2026
sábado, 5 de setembro de 2026
Ser de esquerda - 3 ( em 10 linhas)
1-Considerar a "irreversibilidade do tempo" um conceito chave para compreender e fazer surgir a novidade; o tempo é criação ou não é nada ( Bergson ).
2-Nas práticas político-institucionais (igrejas, escolas, empresas, prisões, etc) usar a camuflagem como função guerreira. Não viver na sombra , mas "ser a sombra".
3-Deixar-se levar por uma poética em mil fluxos emaranhados na linguagem (banal) do cotidiano.
4-Escrever, escrever pelos que não escrevem, mas gritam. Não representá-los mas tecer alianças entre almas errantes: o coletivo em nós, a extradição do eu.
5-Observar linhas ínfimas na forma de uma pessoa, de modo que não seja mais uma pessoa, senão acontecimento; o verbo no infinitivo: "amar" ao invés de "amor".
6-Não discutir com fascistas, neofascistas, supremacistas, nazistas, em suma, extremistas de direita. Usar o silêncio como um estrondo.
7-Recusar qualquer sentimento de idolatria, mesmo em relação a figuras humanas de muitíssimo valor e produtividade coletiva.
8-Execrar e expulsar a sentimentalidade burguesa atuante nos estratos capitalísticos e principalmente em nós mesmos.
9-Abandonar o uso dos termos "direita" e "esquerda", ainda que os guarde como tijolos para o ato de pensar.
10 -Experimentar modos empáticos em subjetividades ditas "estranhas" : indígenas, transsexuais, paranormais, místicos,"freaks", autistas, esquizos...
A.M.
domingo, 30 de agosto de 2026
sábado, 29 de agosto de 2026
O Capitalismo Mundial Integrado (CMI)
Para Guattari, o capitalismo contemporâneo é mundial e integrado porque ele ultrapassou as barreiras das fábricas e das fronteiras físicas. O CMI não coloniza apenas territórios; ele coloniza a subjetividade humana, transformando desejos, culturas e modos de vida em mercadorias serializadas. Ele exige uma homogeneização global para que o mercado funcione sem fricção.
IA /2908/2026
quinta-feira, 27 de agosto de 2026
COMO FAZER A DIFERENÇA?
(...) Tirar a diferença de seu estado de maldição parece ser, assim, a tarefa da filosofia da diferença. Não poderia a diferença tornar-se um organismo harmonioso e relacionar a determinação com outras determinações numa forma, isto é, no elemento coerente de uma representação orgânica? Como "razão", o elemento da representação tem quatro aspectos principais: a identidade na forma do conceito indeterminado, a analogia na relação entre conceitos determináveis últimos, a oposição na relação das determinações no interior do conceito, a semelhança no objeto determinado do próprio conceito. Estas formas são como que as quatro cabeças ou os quatro liames da mediação. Diz-se que a diferença é "mediatizada" na medida em que se chega a submetê-la à quadrupla raiz da identidade e da oposição, da analogia e da semelhança. A partir de uma primeira impressão (a diferença é o mal), propõe-se "salvar" a diferença, representando-a e, para representá-la, relaciona-la às exigências do conceito em geral.
(...)
Gilles Deleuze in Diferença e Repetição
domingo, 23 de agosto de 2026
sábado, 22 de agosto de 2026
Subjetividade nazi - fascista à brasileira
Pensar a formação histórico-patriarcal brasileira inscrita na Realidade é condição para compreender a subjetividade (ou subjetivação) atual.
Subjetivar o mundo objetivo e objetivar linhas subjetivas. Isso se equivale. É que não existe o indivíduo com um ser isolado, autônomo.
Existem processos (linhas) existenciais com expressão prática sócio-desejante. Mil afetos.
Vêm da Itália ( 1922) e da Alemanha (1933) processos existenciais de base política que eram chamados de fascismo e nazismo.
Apesar do fascismo e do nazismo terem sido derrotados na segunda guerra, os sentimentos que eles evocam sobrevivem.
Com máscaras.
Tais sentimentos se abrigam na chamada direita ou mais precisamente na extrema direita. Mas ninguém, óbvio, quer ser chamado de fascista e/ou nazista.
Eles habitam a Cloaca Brasileira: católicos, evangélicos, religiosos, espiritualistas, liberais, empresários, conservadores, pessoas "normais" e outros menos votados.
A.M.
O QUE É O QUE É?
(respondendo a Miguel) :
1- O QUE É CAPITALISMO?
O capitalismo é um sistema econômico, político, social e cultural. Sua origem remete ao século XIV e XV na Europa, "evoluindo" a uma forma industrial em meados do século XIX e no século XX, o chamado capitalismo financeiro. Em tempos atuais, ao colonizar e habitar a Terra, configura um sistema integrado (global) de dominação e constroe a "sua" realidade, mundo do capital como realidade natural. Para isso, mais que "econômico", ele produz subjetividades (almas) convertidas, seduzidas ao seu modo de produção da vida e da existência. A divisão de classes, o horror econômico, a busca insana pelo lucro, a competição individual, o consumo desenfreado, a ética de destruição da natureza, a ética do "cada um por si", o financiamento científico-industrial das guerras, enfim, "tudo está demente no sistema". É, pois, muito difícil combater o capitalismo, já que ele nos constitui "por dentro" como habitantes do planeta, servos do seu poder e cliente dos seus valores, códigos, serviços e projetos. Mas, será possível uma saída? Sim, claro. A História continua e o tempo é irreversível.
A.M.
quinta-feira, 20 de agosto de 2026
“Imagens-Deleuze”, por Roger-Pol Droit
7 de julho de 2017
rodrigolucheta
por Roger-Pol Droit | Trad.: Rodrigo Lucheta
Quando eu já não souber amar e admirar pessoas ou coisas (não muitas), me sentirei morto, mortificado.
Gilles Deleuze, Conversações.
Sem clichês calculados. Nenhum ponto de vista. De Gilles Deleuze me restam imagens de amador. Não são fotografias. Nada além de esboços mentais, que eu sou o único a ver. Eles têm para mim algo de amistoso, afetuoso, vivo e desfocado. Desfocado não significa impreciso ou descuidado, menos ainda “falhado”. É o próprio movimento da vida que é desfocado, sem bordas nítidas, sempre tremido. Os contornos se duplicam, triplicam, fimbriam e se desfiam. Difícil dizer. Não uma degradação, de maneira alguma a passagem de um estado estável, pleno, a uma situação de menor nitidez. Não. Um desfoque sempre aí, antes durante depois. O desfoque do movimento incessante, aquele que contém o mais preciso dos gestos, o mais exato dos movimentos, um desfoque interno, “essencial”, ainda que ele seja justamente, sem dúvida, ligado à ausência de essência.
Dessas imagens, tentar dizer algumas palavras. Sem triagem, como isso vier. Também sem procurar compreender. Lembranças-telas.
O jogo das sete famílias
A primeira vez que encontrei Gilles Deleuze foi na casa dele em Paris, na rua de Bizerte, em 1974 ou 1975. Lembro-me somente que ele estava na cozinha e jogava com a sua filha o jogo das sete famílias. Ele ria. Não como as pessoas riem, mirando-se no fora e abrindo-se para fora delas mesmas pelo riso. Ele, ao contrário, ria de dentro. A voz, o olho, o inclinado da cabeça – como algum olhar aliás, todo Deleuze era atravessado pelo riso de dentro [que] o fazia circular, o deixava escapar sem cessar. Como se ele tivesse vivido na borda do riso, empurrado pelo riso, segurando-se com dificuldade de tempos em tempos nas palavras e nas coisas.
Bizerte era bizarro. O nome como o lugar. O nome evocava para mim, sem que eu saiba bem como, o Oriente, a Legião, tempos indistintos dos impérios coloniais desaparecidos. Aquele lugar era um parêntese. Entre lugares definidos – Batignolles, Rome, rue des Dames, Ternes -, ele parecia pousado, sem identidade.
Por que eu tinha ido vê-lo? Nenhuma lembrança. Somente a cozinha e o autor de O Anti-Édipo, diabo pensador que diziam perverso: jogando com a sua filha o jogo das sete famílias. Acho que ele me tinha feito esperar, porque a pequena se divertia, ela devia ter uns seis ou sete anos, a partida não tinha terminado.
Eu não sei se isso tudo é verdade. Ninguém poderá verificar. Isso seria aliás absurdo. Nenhuma importância. Está tornado verdade, em imagem.
A lagosta apaixonada
Outras cenas são vagas. Deleuze em La Lorraine. Eu me perguntava por que ele gostava tanto dessa cervejaria. Ela me parecia fria, impessoal, desinteressante. Alguma coisa de Paris antes da guerra, que eu constato sem sentir. Meu pai também gostava desse lugar, pelas mesmas razões, sem dúvida, que me escapam. Da rua de Bizerte, ao longo das outras visitas, mais tarde, eu guardo a imagem de um veludo grená, um curioso móvel de madeira negra e de veludo, um pouco anos 30, um pouco bordel e burguês e ao mesmo tempo deslocado. Acho que vi esse móvel (ele mesmo? esse precisamente?) há alguns meses na vitrine de um antiquário do Marais e aquilo me deu uma estranha emoção: quase comprei-o, mas depois preferi caminhar pela rua como se isso substituísse.
O que me resta desses anos, por volta de 1975, é – entre outras – a imagem de um almoço. Não era em La Lorraine. Eu tinha proposto a Deleuze assinar um volume de diálogos numa coleção que eu havia preparado com um amigo da Flammarion. A ideia era fazer falar um pesquisador sobre o seu itinerário, incitá-lo a responder questões mais ou menos embaraçosas sobre seu percurso teórico e deixar-lhe um espaço para esboçar oralmente projetos que ele talvez não tivesse tempo de escrever. Deleuze tinha decidido realizar esse livro com Claire Parnet. Eu evidentemente escolhi deixá-los trabalhar como quisessem.
Diálogos é um belo texto. Sinto-me feliz que essa cumplicidade tenha sido perseguida bem depois, até a série de TV intitulada Abecedário. No momento de concluir esse projeto, Deleuze estava mergulhado nas análises do devir-animal e das máquinas desejantes. Ele propôs que fôssemos comer na Lagosta Apaixonada. Esse restaurante, ao lado da Place des Ternes, era então de um gordo chef que fazia muito o estilo Falstaff e colocava conchas de creme fresco com conhaque nos molhos.
Uma coisinha.
Momentos curiosos como cascas de enigmas, grãos de mistérios sem conteúdo, embaraços sem objeto – segredos sem importância… Eu não sei ao que correspondiam, em Deleuze, essas passagens de pequeno segredo, essa vela para nada. Acredito mesmo, graças a ele, que perguntar ao que “corresponde” uma conduta é uma inconveniente maneira de colocar a questão, uma fabricação de falsos problemas.
Entre as imagens que vêm, esse telefonema estranho, alguns dias ou semanas após a Lagosta Apaixonada:
Bom dia, é Gilles Deleuze (ele acentua as primeiras sílabas de uma maneira quase suíça). Eu queria lhe dizer que os contratos estão assinados. Foram muito gentis na Flammarion. Enfim, teve uma coisinha, mas verdadeiramente sem importância. Não, eu prefiro não lhe falar. Isso põe em causa uma pessoa que você conhece bem, então me aborrece, e isso verdadeiramente não tem nenhuma importância, eu lhe garanto, isso não tem nenhum interesse.
Lembro-me de ter me contido para não parecer muito irritado. Ou tinha havido um incidente, e então ele devia falar-me – já que tinha decidido começar a dizer. Ou então ele se calava porque não havia acontecido nada – ou porque isso não tinha realmente nenhuma importância. Então eu sutilmente tentava falar-lhe, cobrindo tudo tão gentilmente quanto possível. Nada feito. Finalmente, propus falar-lhe exatamente dali a um ano, para saber do que se tratava. Nesse ínterim o manuscrito já estaria entregue e o livro sem dúvida publicado. Assim, ele poderia me pôr a par do assunto sem o mínimo inconveniente. Essa solução o havia divertido.
Um ano depois, de minha parte, eu havia “mudado de vida”, como se diz. Não lhe telefonei como havíamos combinado. Sem dúvida jamais saberei do que se tratava. De todo modo, isso não tem importância. É uma coisinha.
As duas linhas
Foi bem mais tarde que eu descobri o amigo. O quanto Deleuze era atencioso, com qual exatidão ele sabia ler e aconselhar, ou antes incitar, estimular, fazer cada um seguir o seu caminho – ajudar nisso sem parecer. Ou, ao contrário, tendo o ar de aí possuir longo saber. A maneira como ele me disse um dia, no fim dos anos 80, a respeito de Schopenhauer, a quem eu começava a dedicar alguns trabalhos: “É um homem para você”, coisa que me deixava estupefato. O que ele queria dizer exatamente? Ou antes: o que ele sabia disso? Por quê? Como? Seria mais que uma palavra ao vento, um julgamento ao acaso? Seguramente não – mas ignoro sobre o que ele poderia se fundar. Antes de tudo, ele me conhecia pouco. Como ele teria percebido?
Lembro-me de um outro almoço (de 92, de 93?), bastante longo, que deve ter terminado depois de umas quatro horas, após quantidades consideráveis de salmão defumado, cigarros e conselhos inteligentes. Deleuze comentava uma frase, para mim enigmática, de uma carta que ele havia me enviado. A respeito de minhas pesquisas sobre a Índia ele me explicava que havia, a seu ver, “duas linhas” em obra no meu trabalho. Grosso modo, no que eu retive, ele queria me dizer que eu podia ou seguir trabalhos de historiador relativos à evolução das representações europeias da Índia, ou utilizar o que eu sabia das doutrinas indianas para perturbar um pouco a filosofia. Não segui senão a primeira linha.
A cada vez, com Deleuze, junto dele, no tempo de uma conversa ou de uma aula, a impressão era sempre parecida: uma aceleração da inteligência. De repente, se pôr a pensar, a compreender, a pegar linhas e segui-las, a velocidade crescente. Intensificação imediata da mobilidade. Depois, sentia-me completamente estúpido… Onde isso acontecia?
A mesma coisa lendo-o. Sempre um efeito de agitação, alguma coisa de vibrante. Um efeito feliz, uma leveza arejada, colocação em movimento de partículas de ideias-corpo. Quando leio Deleuze, eu ouço sua voz nas frases.
O pulôver extraterrestre
Sua voz tem uma fonte alta. Era esta, a imagem: a voz descendo entre as pedras, carregando grãos de areia, poeiras de rochas – pequeninas coisas, partículas, mas provindo de uma montanha interna bastante alta e pura, sem que ela se sobreponha a nada. Pergunto-me se não era isso que escutávamos primeiro: tanto sua voz quanto o que ela dizia, como se as duas coisas avançassem juntas, próximas e paralelas, distintas apesar de tudo.
Lembrança de um grande anfiteatro, em Paris, após a morte de François Châtelet. Deleuze, ainda que quase já não saísse, tinha vindo de micro pulôver vermelho e pronunciado o que depois tornou-se Péricles e Verdi. O pequeno pulôver estava em baixo da tribuna, mas a voz das alturas tomava toda a sala sob seu fluxo hesitante. Era uma hesitação muito curiosa, pois a voz de Deleuze dava, ao mesmo tempo, a impressão de poder interromper-se no instante seguinte e a certeza de continuar. Como a vida.
Como o corpo. O corpo de Deleuze era extraterrestre? Diversos traços poderiam fazer crer que ele não era rigorosamente conforme aos hábitos mais disseminados na espécie humana. Frequentemente o corpo de padres, monges, espiritualistas e crentes atestam contra a sua própria fé. Ao contrário, com Deleuze, ateu, o corpo na imanência deixava à evidência da alma um lugar móbil e singular.
Cada vez mais livre?
Último encontro em Bizerte:
Eu quase não saio mais. Algumas vezes dou uma volta no quarteirão. Mas você sabe, desde que passei a me mexer menos, sinto-me cada vez mais livre. Assim, quanto mais meu espaço se restringia, mais a liberdade de movimento tornava-se grande.
Último apelo antes que ele fosse morar na avenida Niel:
Você mudou-se também? Eu não começaria. Não poderia refazer tudo, tecer mais uma vez, é muito difícil, estou muito velho, eu não poderia, tenho medo.
Foi a primeira vez, a única aliás, em que o ouvi parar.
As visitas que fiz a Deleuze na avenida Niel não foram numerosas. Suas cartas nesses anos finais são todas tão calorosas e belas quanto eram difíceis os momentos de encontro, interrompidos, incertos tanto na duração quanto no tom. Na última vez ele estava ligado ao aparelho de respiração por um longo tubo verde que o permitia mexer-se, apesar de tudo. Não gostei de ver o esforço terrível que ele fez, sem conseguir chegar a colocar-se de pé.
Sem entrevista
A ideia de entrevistá-lo era para mim perfeitamente excluída. Não é muito cômodo entender porquê, mas isso fará talvez a imagem. Nenhuma interdição, evidentemente. Entrevistei muitos filósofos e entendi vários livros de Deleuze. Nada de tão impossível, factualmente. Ideia entretanto excluída, totalmente, por razões às vezes evidentes (eu sempre soube que ele não seria questão) e muito obscuras (eu não sabia ainda como formulá-las, mesmo de maneira aproximativa). Deleuze, eu poderia escrever a seu respeito, receber dele algumas linhas manuscritas, daquelas que contam em uma vida, mas a conversa não era pública.
Talvez isso tenha também a imagem produzida pela voz: não se trata de um pensamento, não é um escrito simplesmente, nem mesmo a filosofia: mas somente o desvio, o vibrato da altura, o outro nome do rir.
Roger-Pol Droit
Texto publicado pela primeira vez em Tombeau de Gilles Deleuze, dir. Yannick Beaubatie, Tulle, Mille Sources, 2000.
Extraído do livro Deleuze Épars. Bernold, André & Pinhas, Richard (2005): (comps.) Déleuze épars, Hermann éditeurs, Paris.
quarta-feira, 19 de agosto de 2026
terça-feira, 18 de agosto de 2026
O TEMPO NÃO VOLTA
O movimento do capital é o da consistência das relações sociais. São fluxos de toda ordem que se expressam no cotidiano das pessoas. Estas se inserem no desempenho de papéis e funções, sendo o trabalho um dos meios por excelência para "medi-las". A família seria outro. Ora, tal consistência subjetiva (e objetiva) é o que estabelece condições para alguém dizer "estou vivo". Isso foi sendo instaurado na história das relações sociais de produção, fato que Marx já registra em 1844 nos seus "Manuscritos econômicos e filosóficos". Dito de outro modo, as relações humanas, ou mais profundamente, a condição humana ( o que é o "humano ?") foi sendo moldada e produzida (até os nossos dias) pelo sistema do capital como mega-máquina em escala planetária ao reduzir as sociedades a um significante único: o capital. Torna-se ridículo falar em vida "espiritual". Num mundo convertido a condições materiais e semióticas aparentemente eternas, o fenômeno da nostalgia social dos "bons tempos" surge como uma espécie de arcaísmo...e melancolia...
A.M.
sábado, 15 de agosto de 2026
CLÍNICA E TECNOLOGIA DA IMAGEM - III
Numa acepção deleuziana, o acontecimento pode ser definido como um encontro de corpos, humanos e/ou inumanos, no qual e do qual emerge o Sentido. Assim, o sentido nunca é dado, nunca é "um estar lá", mas sim produzido no próprio ato do Encontro. É possível notar que a realidade virtual substituiu a realidade do Encontro (daí, a dos corpos) pela realidade da imagem, profusão de imagens sobre imagens, realidade descarnada, mas Realidade subjetivamente assimilada como Verdade. Dissemos que a tecnologia da imagem não é um mal em si, mas um signo de poder acelerado a uma velocidade não captada pela Consciência. A velocidade é quem (sujeito) captura a consciência. Um encontro de corpos fica, então, descartado em prol da verdade da imagem, inclusive a imagem de si. Segue-se o empreendimento desejante de um profundo estilhaçamento do eu, beirando a psicose ou nela se instalando. Tempos esquizofrênicos, como previu Guattari. Ora, para uma psiquiatria atravessada por tais fluxos, há duas opções ético-políticas: 1- Encolher-se sob o discurso epistemológico das neurociências, detentor de uma verdade reificada, reificante e erguer o manto acadêmico como anti-auto-crítica. 2-Abrir-se, estender-se sobre o campo social em suas formações discursivas caóticas e inventar clínicas à altura do horror dos tempos que correm. Fazer o acontecimento.
A.M.
quinta-feira, 13 de agosto de 2026
quinta-feira, 6 de agosto de 2026
domingo, 2 de agosto de 2026
quinta-feira, 30 de julho de 2026
SER DE ESQUERDA - nº 2 ( em 10 linhas)
1- Combater o ressentimento como expressão anti-vida da cultura cristã.
2- Conceber o poder como "relação entre forças" ao modo foucaultiano.
3- Rejeitar toda forma de dominação dos corpos livres, operários do desejo.
4- Considerar a mulher sob o signo da criação desejante, natureza feroz e delicada. Amar os paradoxos.
5- Evitar o dualismo estéril direita/esquerda em prol das multiplicidades do viver.
6- Combater o fascismo e os micro-fascismos dos modos explícitos ou nos disfarces da língua.
7-Odiar a geopolítica, imperadores do mundo em cálculos genocidas.
8-Experimentar a delicadeza como estilo de viver a interpessoalidade.
9- Desconfiar do Estado nas patrulhas do desejo. Destruir suas metástases burocráticas.
10 - Usar a camuflagem como função guerreira em contextos institucionais adversos.
A.M.
domingo, 26 de julho de 2026
sábado, 25 de julho de 2026
quinta-feira, 23 de julho de 2026
domingo, 19 de julho de 2026
sábado, 18 de julho de 2026
REGIME DE DELÍRIOS
O termo "delírio" apresenta uma história atravessada pelo romantismo. Assim, quando se diz " delírio de amor", evoca-se uma intensidade afetiva na constituição do sujeito e do objeto da sua paixão. Há uma imagem que força a desejar e delirar.
Na psiquiatria clínica, orgânica, biológica, o delirio tem origem no cérebro em alguma disfunção ou numa lesão das estruturas neuronais. Até se convencionou chamar isso de " delírium" (do latim) para qualificar o sintoma "causado" pela alteração do estado da consciência. Esse estado percorre amplo espectro clínico, indo da consciência vigil ao coma ( apagamento da consciência).
Ainda na psiquiatria clínica, o delírio cursa com a psicopatologia e suas múltiplas expressões, tais como nas psicoses, esquizofrenias, transtornos do humor, transtornos da personalidade, histerias, etc... todo um universo semiológico delirante. Curioso é que esse tipo de delírio não leva uma causa orgânica, como é o caso do "delirium".
Fora do círculo normativo e clínico da psiquiatria , encontramos o delírio, ou mais precisamente, a experiência delirante por toda a parte: na arte, na literatura, na política, na filosofia, no espiritualismo, nas religiões em geral e até no cotidiano das relações sociais e pessoais...
Em toda as manifestações persiste a dificuldade em avaliar o que é o delírio e qual a sua origem. Restou a psiquiatrização mais tosca. É que sob uma égide moral, o delírio é visto como " erro " . Ele escapa ao controle institucional e racional, e por conseguinte desconcerta a prática de normalização dos indivíduos levada à efeito pela "necro" psiquiatria. É que a expressão delirante, para ser compreendida nos seus elementos históricos atuais, extrapola tal enquadre psicopatológico: o delírio do capital...
Desse modo é possível arriscar a hipótese teórica de que a modernidade produziu e produz em escala planetária condições sociais, políticas, culturais e tecnológicas para o desenvolvimento de um delírio não médico e não romântico. Aí está contida uma questão intrigante sobre a verdade.
E cada vez mais, movida a velocidades internéticas, tal questão se traduz em perguntas sem resposta: isso é verdade? qual a verdade? existe a verdade? para que serve a verdade? a quem serve?
A.M.
Obs. versão revisada.
sexta-feira, 17 de julho de 2026
quarta-feira, 15 de julho de 2026
A ANTI-ESCUTA - 3
Na sociedade moderna a Escuta vira anti-escuta. Ou pelo menos são cultivadas as condições sócio-políticas para isso.
Está no ar a velocidade dos fluxos de comunicação e informação: internet. Eles são o que passa e não pára de passar: o tempo estaria fora dos eixos? Velocidades alucinatórias ...
A linguagem do sistema do capital é composta de fluxos, e não de códigos linguísticos. Ora, tudo se ajeita. O capitalismo e seu profundo analfabetismo ( Deleuze/Guattari, 1976) .Que importa se você não compreende o que se passa? Você sente.
A produção de uma realidade imagética resulta em afetos de destruição e substitui a Terra finita por um infinito de lucro. Uma forma-pessoa torna-se forma-consumidor, mesmo e principalmente o que se consuma no extermínio da alma.
Aldous Huxley disse tudo no " Admirável mundo novo" (1932). De lá para cá o aprofundamento do controle das massas segue o percurso de um suicídio coletivo induzido.
Não há retorno do fascismo, do nazismo, da ultra-direita e de todas as expressões da pulsão de morte. Elas já estavam aí.
A anti-escuta avança como Tecnologia Científica com sua verdade religiosa. Hiroshima ainda não foi o pior.
A.M.
Obs.: versão revisada.
terça-feira, 14 de julho de 2026
segunda-feira, 13 de julho de 2026
O amor de agora
O amor de agora é o mesmo amor de outrora
Em que concentro o espírito abstraído,
Um sentimento que não tem sentido,
Uma parte de mim que se evapora.
Amor que me alimenta e me devora,
E este pressentimento indefinido
Que me causa a impressão de andar perdido
Em busca de outrem pela vida afora.
Assim percorro uma existência incerta
Como quem sonha, noutro mundo acorda,
E em sua treva um ser de luz desperta.
E sinto, como o céu visto do inferno,
Na vida que contenho mas transborda,
Qualquer coisa de agora mas de eterno.
Dante Milano
domingo, 12 de julho de 2026
SEXUS de Henry Miller - fragmento de resenha
“Sexus”(1949) faz parte da trilogia “Crucificação Encarnada” – ao lado de “Plexus”(1953) e “Nexus”(1960) – que consagrou Miller como um dos grandes do século XX, depois de seu começo conturbado com o censurado“Trópico de Câncer”. O livro narra os últimos anos de Miller nos Estados Unidos, antes de largar tudo e ir vagabundear na Europa – onde se revelou como escritor.(Período brilhantemente mostrado no filme “Henry & June”). O autor explica que está se aproximando de seu trigésimo terceiro aniversário – a idade de Cristo crucificado – e uma nova vida se estende para ele. Mas este é o único motivo pelo qual a trilogia deve se chamar “Crucificação”? O leitor atento pode observar: que são os discursos verborrágicos de Henry sobre a vida, o sexo, o trabalho e a sociedade que não sermões, muitas vezes em parábolas? Assim como Cristo, nosso autor/personagem prega um novo mundo, um paraíso – desta vez na Terra – que pode ser atingido através de sua doutrina. Ele converte amigos e mulheres com sua fala inflamada, realiza milagres através de orgasmos e multiplica comida e dinheiro – que consegue pedindo aos camaradas. E qual é sua punição? A crucificação simbolizada pelo casamento, o trabalho, as contas pra pagar e a rotina humana. Muito dessa filosofia não é novidade, algo foi tomado de Nietzsche(assim com de Céline vêm as descrições cruas e de Dostoiéviski os diálogos realistas.) Mas ao contrário de Nietzsche, Miller trepa.
(...)
Fred Di Giacomo
sábado, 11 de julho de 2026
ESTÔMAGO
entre as especialidades médicas,
uma das mais elegantes na pesquisa e na clínica
é a gastroenterologia.
seu raciocínio complexo
usa conhecimentos vastos e moleculares.
são mil contatos imediatos
para além da medicina dos objetos sólidos
e inertes.
ela pulsa o alimento da terra.
chanfraduras dispostas em toda parte
migram para o trato digestivo.
boquiabertas,
atingem entranhas
da alma torturada.
especialidade que coloca
o paciente de frente
com o desejo infantil
mesmo que não saiba.
uma pena que a gastroenterologia
haja sido extinta.
no seu lugar a endoscopia
administra pólipos e dólares.
A.M.
sexta-feira, 10 de julho de 2026
quinta-feira, 9 de julho de 2026
quarta-feira, 8 de julho de 2026
O PROCESSO DE PRODUZIR MAIS VALIA
O produto, de propriedade do capitalista, é um valor-de-uso, fios, calçados etc. Mas, embora calçados sejam úteis à marcha da sociedade e nosso capitalista seja um decidido progressista, não fabrica sapatos por paixão aos sapatos. Na produção de mercadorias, nosso capitalista não é movido por puro amor aos valores-de-uso. Produz valores-de-uso apenas por serem e enquanto forem substrato material, detentores de valor-de-troca. Tem dois objetivos. Primeiro, quer produzir um valor-de-uso, que tenha um valor-de-troca, um artigo destinado à venda, uma mercadoria. E segundo, quer produzir uma mercadoria de valor mais elevado que o valor conjunto das mercadorias necessárias para produzi-la, isto é, a soma dos valores dos meios de produção e força de trabalho, pelos quais antecipou seu bom dinheiro no mercado. Além de um valor-de-uso quer produzir mercadoria, além de valor-de-uso, valor, e não só valor, mas também valor excedente (mais valia).
(...)
K. Marx
terça-feira, 7 de julho de 2026
TECNOLOGIA DA IMAGEM: CLÍNICA E POLÍTICA
A partir da "tecnologia da imagem" e seus atravessamentos corporais é possível ir à análise da demanda em saúde mental. Na atualidade o corpo (não o corpo-organismo, mas o corpo-desejo) é atingido em cheio por imagens-clichês, imagens-de-imagens que tornam o contato do eu consigo mesmo uma experiência plugada aos fluxos semióticos. Eles vêm de fora, mas parecem vir "de dentro". É que a forma das instituições sociais (cf Guattari e outros) está interiorizada, subjetivizada num inconsciente que não mais passa por categorias edipianas (tal como a psicanálise o vê) mas por categorias planetárias, portanto, capitalísticas. A tecnologia da imagem torna-se pois um território de sentido de uma verdade subjetiva. Esta é veiculada por equipamentos de poder. Daí o homem moderno encarnar uma espécie de sonambulismo coletivo que a todos arrasta. A incrível aceleração da velocidade do tempo aniquila o Sentido. Efeitos práticos: na clínica, a psicose. Na política, o fascismo.
A.M.
domingo, 5 de julho de 2026
Coração de frango
e o coração,
quanto pesa?
perguntou ela,
moça magrela
de expostas costelas,
ao homem bigodudo
detrás do balcão.
depende,
de boi ou de frango?
intrigada
não entendeu,
pois era do dela
que tratava.
sabia que pouco valia,
era carne fraca
sangue de anemia
que batia mais por inércia,
do que serventia.
na verdade,
queria fazer uma barganha,
trocar seu coração
por, quem sabe,
um naco de picanha.
o homem não estranhou a proposta
da moça de costelas expostas.
era a terceira vez
que vinham lhe oferecer
aquele estranho produto
já conhecidamente sem uso.
mas por pena ou caridade
lhe ofereceu em troca
duas asas de frango.
o que era muito,
comparado ao seu tamanho.
faminta,
aceitou sem demora.
lambuzou-se com as asas alheias,
visto que ela,
bicho terreno,
não conhecia tais atrevimentos.
até hoje não se sabe:
se foi a gordura espessa
ou a carne fibrosa
(tão desconhecidas a seu corpo de menina)
que lhe causaram alucinação.
fato é que
munida da carcaça das duas asas,
uma em cada mão,
acreditou-se ave,
ave maria,
e do parapeito da janela,
estufou o peito externo.
de um só golpe
sentiu o corpo leve.
o voo foi breve.
o baque, surdo.
a carne mole,
moída na calçada,
parecia que indagava:
e meu corpo,
quanto vale?
Luiza Romão
sexta-feira, 3 de julho de 2026
quinta-feira, 2 de julho de 2026
A MEDICALIZAÇÃO SEM FIM
Fenômeno típico da sociedade industrial capitalística "avançada", a medicalização corresponde a expressão da medicina no campo social.
Tal afirmação soa rasa e superficial se se limitar à medicina como ramo da ciência atrelado aos ideais iluministas ( a razão científica) e humanistas ( o homem como medida das coisas).
Ao contrário, a medicalização da vida social é uma instituição. E como toda instituição, só funciona em conexão com outras instituições como o Estado, a Ciência, a Mídia, a Política, a Economia, etc.
Desse modo ela desenvolve a função de ocultar (ou maquiar) a divisão de classes. Isso é constitutivo do Capitalismo Mundial Integrado (F. Guattari, 1981) e alavanca seus valores e códigos às custas de uma subjetividade-do-capital atualizada via internet.
Mas não se trata aqui de uma afirmação idealista calcada no pensamento de Marx, e sim de uma percepção do real em si mesmo, o que existe.
O que existe são imagens de imagens de imagens circulando enlouquecidas rumo a um lucro capitalístico infinito. Então, para que serve o real se ele foi "anexado" à loucura como o fim último da produção? A loucura não tem fim, só meios.
Não existe mais o "social", a socialidade. O capital abarcou tudo, engoliu tudo.
De volta à medicalização da vida social que é a "vida do capital": ela é esse "infinito" expresso na luta entre os vírus e as vacinas, entre as bactérias e os antibióticos, entre a doença e a saúde, entre a morte e a vida... tudo pela expansão metastática do lucro.
A.M.



