Este blog busca problematizar a Realidade mediante a expressão de linhas múltiplas e signos dispersos.
terça-feira, 19 de julho de 2011
A dobra subjetiva
A experiência de ensinar é,antes, a experiência de aprender com os signos.Antecedendo a partição significante-significado, o signo procede a uma violência constitutiva dessa experiência. Forçar a pensar, como diz Deleuze, é criar um campo tanto mais rico na emissão de signos. A função de professor dobra-se e desdobra-se na sua presença-ausência, descolando-se dos conteúdos e fazendo destes o móvel das práticas do pensar.
Antonio Moura - do livro Linhas da diferença em psicopatologia
O PAPEL CRIATIVO DO TEMPO
Parece que o sistema neurofisiológico é um sistema altamente instável que continua a funcionar no sono como um sistema dinâmico muito complexo. É ainda Valéry que escreve: "O cérebro é a própria instabilidade".mas que acontece quando se passa do estado de sono para o de vigília? (..) (..) Não sou neurofisiólogo, mas fiquei fascinado ao encontrar no cérebro uma atividade de base altamente instável, como no caso do clima. O mundo exterior permite polarizar esta atividade de base numa direção ou noutra e chegar às atividades cognitivas.
Ilya Prigogine - do livro O nascimento do tempo
PESSOA
Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma
(...)
Fernando Pessoa - Ficções do interlúdio -poemas de A. Caieiro
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma
(...)
Fernando Pessoa - Ficções do interlúdio -poemas de A. Caieiro
segunda-feira, 18 de julho de 2011
Pensamento da diferença
O pensamento da diferença é um pensamento-corpo. Ele fabrica a realidade do corpo, preparando-o para o combate das intensidades semi-ocultas. Não é, claro, a realidade do organismo, do qual a medicina retira mais valia, mas sim a do corpo das vibrações insanas. Uma página em branco é um corpo onde regurgitam palavras, mesmo antes de serem escritas. Um blog pode criar campos super-aquecidos como se o sol fosse visto bem de perto. Como sabemos, o sol é infinitamente generoso na doação de energia à terra. Essa é a linha nômade que nos carregará para além do cais.
Antonio Moura
NOMES DE DEUSES
Se você aceita que as leis fundamentais da natureza são reversíveis, então certamente a vida, o homem ficam de fora. Enquanto se você pensar que o Tempo, a direção do Tempo, é o que torna nosso universo coerente porque uma rocha envelhece, um planeta envelhece, nós envelhecemos, você envelhece, eu envelheço - e envelhecemos todos na mesma direção - então a flecha do Tempo é a propriedade comum a tudo o que existe no universo. Sem isso, há a cisão, tão pungente em Jacques Monod. Monod que aliás, não compreendeu a importância que Bergson atribuía à duração.
Ilya Prigogine - do livro Do ser ao devir
É PRECISO ACABAR COM AS OBRAS PRIMAS
Uma das razões da atmosfera asfixiante na qual vivemos sem escapatória possível e sem remédio - e pela qual somos todos um pouco culpados, mesmo os mais revolucionários dentre nós - é o respeito pelo que é escrito, formulado ou pintado e que assumiu uma certa forma, mesmo se toda expressão já não estivesse exaurida e não tivesse chegado ao ponto em que é preciso que as coisas estourem para que se recomeçasse tudo de novo.
É preciso acabar com essa idéia das obras primas reservadas a uma auto-intitulada elite e que a massa não entende, e reconhecer que não existe, no espírito, uma zona exclusiva como aquela reservada para as ligações sexuais clandestinas.
A. Artaud - do livro O teatro e seu duplo
A existência nômade tem por "afetos" as armas de uma máquina de guerra
As armas são afetos, e os afetos, armas. Desse ponto de vista, a imobilidade a mais absoluta, a pura catatonia, fazem parte do vetor velocidade, apóiam-se nesse vetor que reúne a petrificação do gesto à precipitação do movimento.O cavaleiro dorme sobre sua montaria, e parte como uma flecha.
Deleuze-Guattari , do livro Mil platôs
domingo, 17 de julho de 2011
Sobre o tempo e a vida
Outro livro que me influenciou, poderá talvez espantar, é o de Jacques Monod, O acaso e a necessidade. De fato, não estava de acordo com Monod, porque colocava a vida fora da matéria, como um epifenômeno devido ao acaso, mas de qualquer modo estranho às grandes leis.
Aquilo que aprendi da termodinâmica permitia-me ter uma concepção completamente diferente. De acordo com o meu ponto de vista, a vida exprime melhor do que qualquer outro fenômeno físicos algumas leis essenciais da natureza. A vida é o reino do não-linear, a vida é o reino da autonomia do tempo, é o reino da multiplicidade das estruturas. E isso não se vê facilmente no universo não vivo. No universo não vivo existem sim estruturas, existe o não-linear, mas os tempos da evolução são muitos mais longos, enquanto a vida se caracteriza por esta instabilidade que faz que vejamos nascer e desaparecer estruturas em tempos geológicos.
I. Prigogine - O nascimento do tempo
CONVERSA ENTRE PSIQUIATRAS
Psiquiatra 1- A psiquiatria mudou após os avanços da neurociência.
Psiquiatra 2- Concordo.
P1- E por que você fala tão mal da psiquiatria atual?
P2-Eu não falo mal. Ela é que se expõe...
P1-Como assim?
P2-A psiquiatria se expõe num discurso neuro-simplório.
P1-Mas você admitiu que são avanços.
P2-Sim, avanços, mas não respostas.
P1- Mais uma vez, peço que você se explique.
P2-Simples, eu explico pra você que nada tem explicação.
P1- Não entendi.
P2-Pois é. Nada a entender. Tudo a criar.
Psiquiatra 2- Concordo.
P1- E por que você fala tão mal da psiquiatria atual?
P2-Eu não falo mal. Ela é que se expõe...
P1-Como assim?
P2-A psiquiatria se expõe num discurso neuro-simplório.
P1-Mas você admitiu que são avanços.
P2-Sim, avanços, mas não respostas.
P1- Mais uma vez, peço que você se explique.
P2-Simples, eu explico pra você que nada tem explicação.
P1- Não entendi.
P2-Pois é. Nada a entender. Tudo a criar.
O TEMPO EM QUESTÃO
O tempo hoje reencontrado é também o tempo que não fala mais de solidão e sim da aliança do homem com a natureza que ele descreve. Chegou o tempo de novas alianças, que sempre existiram, por muito tempo desconhecidas, entre a história dos homens, de sua sociedade, de seu saber, e a abertura exploradora da natureza.
Isabelle Stengers
A literatura e a vida
Todo delírio é histórico-mundial, "deslocamento de raças e continentes". A literatura é delírio e, a esse título, seu destino se decide entre dois polos do delírio. O delírio é uma doença, a doença por excelência a cada vez que erige uma raça pretensamente pura e dominante.Mas ele é a medida da saúde quando invoca essa raça bastarda oprimida que não pára de agitar-se sob as denominações de resistir a tudo o que esmaga e aprisiona e de, como processo, abrir um sulco para si na literatura.
G. Deleuze - do livro Crítica e clínica
Assinar:
Postagens (Atom)