Este blog busca problematizar a Realidade mediante a expressão de linhas múltiplas e signos dispersos.
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
POLÍTICAS
O cérebro mente porque ele, o cérebro, é preparado por formações de poder desejosas do prestígio e do dinheiro. Na verdade, poder-se-ia dizer, fazem o cérebro mentir. Isso é fácil .Montam-se imagens coloridas em computador para evidenciar que a doença está no cérebro, como no caso dos transtornos mentais orgânicos. No entanto, tudo não não passa de uma empulhação "criminosa": o Cérebro mente porque o Coletivo ( o conjunto das relações sociais e cósmicas) não é considerado. Deste modo prevalece o indivíduo CEREBRAL respondendo pelas misérias do mundo, ou, ao contrário, assumindo as conquistas da modernidade: progressos. Ah, os progressos...! Nem uma coisa nem outra. O cérebro, ao invés de uma unidade anatômica, é o rei da modernidade técnica que controla os atos mais minúsculos. A questão não é científica , mas política. Estamos à postos.
Antonio Moura
Antonio Moura
ESTILO
O sol já estava querendo fazer coisas em cima da cerração, e isso era fácil de ver, era só olhar pra carne porosa e fria da massa que cobria a granja e notar que um brilho pulverizado estava tentando entrar nela, e eu me lembrei que q dona mariana, de olhos baixos mas contentes com seu jeito de falar, tinha dito minutos antes que "o calor de ontem foi só um aperitivo", e eu sentado ali no terraço via bem o que estava se passando, e percorria com os olhos as árvores e os arbustos do terreno, sem esquecer as coisas menores do meu jardim (...)
Raduan Nassar - do livro Um copo de cólera
QUEM SUPORTA?
A psiquiatria é tributária de uma ótica do "humano" (ou do humanismo) oriunda da medicina. A isso se soma a mercantilização das relações humanas e profissionais decretada pelo capitalismo "natural" e aparentemente vencedor. Consulte Marx. O que resta são doenças fictícias fundando territórios existenciais (sofridos?) para o homem atual. Afinal, é necessário um significado convincente para que os processos subjetivos se mantenham de pé. Do contrário, desaba o eu, desabam as crenças e os valores. Quem quer isso? Quem suporta isso?
Antonio Moura
ENCONTRAR É AMAR
ILCA e ISAC estão, mais do que nunca, presentes nesse Blog: o dia hoje acontece: o GRANDE ENCONTRO no Capão. Estou por eles e para eles com o que melhor disponho para dar. Um beijo e um abraço com admiração e carinho.
Antonio
A NÁUSEA
Aconteceu-me qualquer coisa; já não posso duvidar. Qualquer coisa que veio à maneira duma doença, não como uma vulgar certeza, não como uma evidência; que se instalou sorrateiramente, pouco a pouco. A dada altura senti-me um tanto esquisito, algo incomodado, mais nada. Tomado o seu lugar, essa coisa não mexeu mais, ficou como estava, e pude assim convencer-me de que não tinha nada, que tinha sido um rebate falso. Mas eis que o mal começa a propagar-se.
Jean Paul Sartre
O COMBATE É ANTIGO
Barão Jaromir Mundy - (1822-1894) - médico, psiquiatra (antipsiquiatra) e benfeitor austríaco. Nasceu a 3 de outubro de 1822 em Veberf, Morávia. Morreu a 23 de agosto de 1894, em Prater, próximo a Viena. Doutor em medicina pela Universidade de Viena, este nobre e excêntrico barão oriundo da Morávia passou a despender toda a sua fortuna em atividades beneméritas dedicadas aos alienados mentais de baixo poder aquisitivo. Falando sete idiomas, peregrinou por toda a Europa no que anunciava como "cruzada antiasilo", propondo liberdade e vida ao ar livre aos doentes mentais, para os quais tornara-se apologista das teses apontadas pelo modelo belga das chamadas Comunas Gheel. (...)
J. Toledo - verbete do livro Dicionário de suicidas ilustres
POESIA DO DIA - 8
As condições de um pássaro solitário são cinco:
Primeiro, que ele voe ao ponto mais alto;
Segundo, que não anseie por companhia, nem a de
sua própria espécie;
Terceiro, que dirija seu bico para os céus;
Quarto, que não tenha uma cor definida;
Quinto, que tenha um canto muito suave.
San Juan de la Cruz
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
LEMBRANÇAS DE UMA MOLÉCULA
Saber envelhecer não é permanecer jovem, é extrair de sua idade as partículas, as velocidades e lentidões, os fluxos que constituem a juventude desta idade. Saber amar não é permanecer homem ou mulher, é extrair de seu sexo as partículas, as velocidades e lentidões, os fluxos, os n sexos que constituem a moça desta sexualidade. É a própria Idade que é um devir-criança, como a Sexualidade, qualquer sexualidade, um devir-mulher, isto é, uma moça.
Deleuze/Guattari - do livro Mil platôs
ATENDIMENTO PRAGMÀTICO
Psiquiatra - o que você tem?
Paciente- não sei . vim aqui para saber. o sr. não é o doutor?
Psiquiatra - atrevido, hein?
Paciente- não fale assim do seu paciente.
Psiquiatra - desculpe; quis dizer que você é esperto.
Paciente- ah, sim. o que lhe angustia, doutor?
Psiquiatra- não saber fazer mais nada.
Paciente-como assim?
Psiquiatra-só sei passar remédio.
Paciente- mas essa é a sua profissão, não é?
Psiquiatra- é, mas é que eu não acredito nela.
Paciente- e quer que eu acredite?
Psiquiatra- não quero que você acredite; só tome as pílulas...
Paciente-tá bom.; essa eu aprendi... .
Paciente- não sei . vim aqui para saber. o sr. não é o doutor?
Psiquiatra - atrevido, hein?
Paciente- não fale assim do seu paciente.
Psiquiatra - desculpe; quis dizer que você é esperto.
Paciente- ah, sim. o que lhe angustia, doutor?
Psiquiatra- não saber fazer mais nada.
Paciente-como assim?
Psiquiatra-só sei passar remédio.
Paciente- mas essa é a sua profissão, não é?
Psiquiatra- é, mas é que eu não acredito nela.
Paciente- e quer que eu acredite?
Psiquiatra- não quero que você acredite; só tome as pílulas...
Paciente-tá bom.; essa eu aprendi... .
MINORIAS
A Hora se aproxima com hálito forte. De pé, ante as correntes, o rio não volta. Fale para ela, Hora, que os signos batem à porta. Quanto aos meus limites, não são mais. Estou solto. Ouvi conversas à beira do cais. O abismo aprofundou casas de pau à pique. Escutei um coro de metais. Entrementes, putas rasgaram a noite. Avisei aos neurônios: andem em matilhas. Nem ligaram. Por isso, as ordens acabaram saindo do útero da terra. Ah! e novo? Vítimas choram os horrores do capital. O capital é o tal. Abriram a boca, roçaram a língua nos lábios de uma câmera de TV. E desceram mais e mais na busca dos prazeres curvos. Mas tudo mudou. Um óleo branco esparramou-se pela calçada. Bruxas no pedaço. Boa noite, lua, pode entrar. Lhe conto as desventuras dos rebanhos humanos. Me redimi. Já que chegaste, menina, encolha os ombros sobre a fronte-gelo. Me seduza. Você é o rosto e o andar esgueirado das mulheres do pântano. Fragmentos do sexo, um santo remédio. Meu negócio é, pois, escutar quem não me escuta. Por isso escolhi como líder a convicção do ínfimo. O jeito dos sem jeito. Hoje já nem sei dizer quem eu era . Alguém exibiu a cédula de identidade. Fui aceito? A hora se afinou num segundo de brincadeira. Jogou com as estações do corpo. Afinal, minorias chegam sempre alegres. Como não ser decepcionante para a maioria? Tempere a gosma da saliva ácida. Misture os nomes pérfidos. Diga que os ama. Penetre os dogmas da interioridade mais preciosa. Finja que está nas esporas dos cavalos selvagens. Só para assustar os néscios, dirija para a amada tudo que você sempre sonhou. A condição é a de que não exista amada, mas amadas. Vista-se de você mesmo, contanto que seja você o primeiro a se despir. Saia de si. Vá para outros cantos, entoe cantigas de parto prematuro no meio da mata. Jogue a metáfora no lixo da linguagem douta. Isso basta.
Antonio Moura
POESIA DO DIA - 7
O SOLITÁRIO
Entrou num bar
e permaneceu
três horas
conversando apenas
com a boca de um copo.
Depois
com as bocas de algumas garrafas.
E aqueles objetos
entendiam tudo perfeitamente
-o que é mais grave.
Luis Sérgio dos Santos
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