terça-feira, 4 de outubro de 2011

LOUCURAS DA DIFERENÇA

A "micro-política"  é tão só uma palavrinha para designar o inominável. Em termos práticos, ela não chega a  ser uma política, pelo menos  antes da   criação de novas éticas.  É que a ética precede a política. Isto não é fácil, pois se choca diretamente com os valores do capital enquanto operador semiótico. Estamos sob a  ética dos valores de troca: tudo  é vendável, até a sua alma. O  indivíduo (como eu-pensante)  é  codificado (no âmbito do CMI ) * como sujeito-consumidor. Reino do consumo porque tudo é produção, produção de consumo.  Então, como  forjar  éticas de vida, potência, alegria,  generosidade,  onde predominam  a exploração, a violência, o individualismo  e os poderes da sociedade de controle? Loucuras da diferença.

Antonio Moura

(*) Capitalismo Mundial Integrado
POESIA DO DIA

Galgai-me com vossos amores.
Doravante não sou mais dono de meu coração
Nos demais - eu sei
qualquer um o sabe
o coração tem domicílio
no peito.
Comigo
a anatomia ficou louca.
Sou todo coração -
em todas as partes palpita.
Oh! quantas são as primaveras
em vinte anos acesas nesta fornalha!
Uma tal carga 
acumulada
torna-se simplesmente insuportável.
Insuportável
não para o verso
de veras.

Maiakovski

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

VOCÊ VAI VER - Rosa Passos

LIMITES DA GENÉTICA

O fatalismo genético, ao absolutizar o poder dos genes no comando da nossa existência, cria a ditadura dos genes ou a biocracia do gene egoísta, em detrimento da realidade de que a natureza é um processo de interação continuada.
Nada mais elucidativo do que estou dizendo que as poéticas e sedutoras palavras do cancerologista brasileiro Drauzzio Varella, em defesa do fatalismo genético: "Em silêncio, um seleto grupo de homens e mulheres de línguas variadas, por uma questão de curiosidade, aprendeu como extrair do núcleo das células a estante móvel onde se acham arquivados um a um todos os nossos gens: o DNA, molécula grande, espiral de rara delicadeza estética, encarregada de armazenar as informações por tudo que somos". 
Esta é uma incompreensão de uma verdade básica: há uma interação entre o meio ambiente e a hereditariedade na determinação da existência de qualquer ser vivo, do mais simples ao mais complexo.

Fátima Oliveira (*) - do texto Os múltiplos significados e implicações do fatalismo genético,1994.

(*) Médica clínica geral. 
ÉTICA DO GUERREIRO

Você deve enfrentar essa tarefa  com toda  a seriedade que ela merece. É a sua última parada antes de o infinito engoli-lo. Na realidade, a não ser que um guerreiro-viajante esteja  em um sublime estado de ser, o infinito não o tocará por nada nesse mundo. Portanto, não se poupe e não poupe nenhum esforço. Continue impiedosamente, mas com elegância, todo o caminho até o final.

Carlos Catañeda - do livro O lado ativo do infinito
POESIA DO DIA


Pouco a pouco o campo se alarga e se doura.
A manhã extravia-se pelos irregulares da planície.
Sou alheio ao espetáculo que vejo; vejo-o,
É exterior a mim. Nenhum sentimento me liga a ele.
E é esse sentimento que me liga a manhã que aparece.


Fernando Pessoa

domingo, 2 de outubro de 2011

VITALIDADE NÃO-ORGÂNICA

A vitalidade não-orgânica é a relação do corpo com forças ou poderes imperceptíveis que dele se apossam ou dos quais ele se apossa, como a lua se apossa do corpo de uma mulher (...) (...) O bebê apresenta essa vitalidade, querer-viver obstinado, cabeçudo, indomável, diferente de qualquer vida orgânica: com uma criancinha já se tem uma relação pessoal orgânica, mas não com o bebê, que concentra em sua pequenez a energia suficiente para arrebentar os paralelepípedos (...).

G. Deleuze - do livro Crítica e Clínica

DEUS LHE PAGUE - Chico

POESIA DO DIA

Os girassóis têm dom de auroras.

Manoel de Barros
O FUTEBOL É A VIDA

O futebol é trágico. Isso não significa que o futebol seja triste. Ao contrário...  Ele é pura alegria, imprevisibilidade, magia, opaco às interpretações moralizantes.  E não se presta a racionalizações  nem a  tribunais de justiça: "Mereceu ganhar o jogo... não mereceu... "são  babaquices  de  jornalistas pífios ... Sugiro, então  ao   caro leitor desse blog que leia o comentário sobre o jogo Bahia3x2 Avaí no blog "Se você pensa". Tá perfeito.

Antonio Moura

sábado, 1 de outubro de 2011

MICRO-POLÍTICA


A micro-política é uma prática social incrustada nas  relações institucionais.  Ela não se dá como política (por ex., a política partidária) mas é visceralmente política na medida em que atravessa relações de poder. Ora, o poder, numa compreensão foucaultiana, é sobretudo uma composição de forças. Não existe o poder (uma natureza, uma essência, uma substância ) mas relações  entre forças, umas  dominantes,   outras dominadas. Nenhum dualismo nessa concepção. Ao contrário, a prática micro-política é múltipla.  Trabalha  situações em que os modos de subjetivação produzem a si mesmos,  ao invés de serem produzidos. Isso significa, entre outras coisas,o uso do disfarce como estratégia guerreira...  Adiante, voltaremos ao assunto.

Antonio Moura

MÁRTIR EM CASA E NA RUA - Grande Nélson Rodrigues

FAZER CIÊNCIA, FAZER POLÍTICA

As imagens públicas da ciência e da tecnologia ligam-se ao desemprego, não ao divertimento; às armas de destruição em massa, não à energia barata e ilimitada; à poluição, não ao aumento de saúde; e ao aumento do controle e intervenção sobre a própria vida humana, não a uma extensão da liberdade humana (...), Ao mesmo tempo, algumas das velhas certezas acerca da objetividade do conhecimento científico foram desafiadas(...). Existem controvérsias sobre os propósitos e os objetivos das teorias científicas e sobre os métodos - analítico, redutor, objetivador - com que a ciência parece contribuir para o conhecimento do mundo.

Steven Rose - do livro (vários autores) Para uma nova ciência
O HOMEM: QUEM É?

É um homem ou uma pedra ou uma árvore que vai começar o quarto  canto. Quando o pé escorrega numa rã, experimenta-se uma sensação de nojo; mas quando mal se roça o corpo humano com a mão, a pele dos dedos se fende como as escamas de um bloco de mica quebrado a marteladas; e assim como o coração do tubarão morto há uma hora ainda palpita sobre a proa com uma vitalidade tenaz, assim também nossas entranhas se revolvem de ponta  a ponta, por muito tempo, após o contato. Tamanho horror inspira o homem a seu próprio semelhante! Talvez eu engane ao afirmar isso; mas talvez eu diga a verdade. Eu conheço, eu concebo uma doença mais terrível que os olhos inchados pelas longas meditações sobre a estranha natureza do homem; mas continuo a procurá-la... e não consigo achá-la! (...)

Lautréamont- do livro Cantos  de Maldoror
POESIA DO DIA


só penso em dormir cedo
quando o dia vai clareando


Nildão