quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

o paciente não é escutado,
o que  inclui  ser escutado
atrás de uma grade prisional.

tanto faz a psiquiatria, a psicanálise,
a cognitivo-superficial.
qualquer teoria é  a  tal.

dá  no mesmo
se  tudo  conspira
contra o desejo.

SIMONAL - Aqui é o país do futebol

ver 
é dor
ouvir
é dor
ter
é dor
perder
é dor

só doer
não é dor
delícia
de experimentador

P. Leminski
O CORVO

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais
E já quase a dormir, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais

É só isso e nada mais"
(...)

Edgar Allan Poe - início do poema O corvo (tradução de Fernando Pessoa)

EDGAR ALLAN POE

O PODER DOS FÁRMACOS

Um  grupo de turistas preparando-se  para uma viagem. Sabia-se  que o roteiro incluía uma região muito fria da Europa. Quase todos se preveniram contra o efeito  frio "gerador de melancolia", levando em suas bagagens a fluoxetina ou similares. Essa  "história" é  rigorosamente verdadeira e  me foi contada por alguém que não levou a fluoxetina. Lembrou que o vinho e o calor dos corpos são os  reais ""anti-depressivos". Me pergunto:   até   onde e até que ponto  irá  a psiquiatrização da existência nos tempos que correm? 

DESEJAR

QUEM TEM MEDO DA PSIQUIATRIA  BIOLÓGICA?


Enfocando    o grupo técnico  em  saúde  mental, teríamos: 1-Trata-se de  fato  de  um grupo? 2-  A  que  interesses  atende? 3-Que concepções sobre a loucura norteiam  o seu  trabalho?  4-Como se dá a comunicação entre os segmentos técnicos  em relação ao paciente? 5-Qual o lugar da ética e da política nas ações práticas?  Tentaremos   desenvolver   cada  um dos  itens, tendo como hipótese de base: apesar da  reforma psiquiátrica, a psiquiatria  é  um modo de subjetivação que ainda domina e controla os que lidam com o paciente. Existe, pois,  o grupo técnico  trabalhando   sob uma transcendência psiquiátrica. Isso não é  um mal em si, desde que  a psiquiatria oferece um arsenal de medicamentos  contra os transtornos mentais. E há que  usá-los, sem dúvida. A questão é que  esse dado surge  como primeiro  na avaliação clínica. Medicar e depois diagnosticar   (*), se possível. Desse modo, o transtorno mental surge na e da psiquiatria como seu objeto  legítimo. Cabe aos demais  técnicos  acompanharem    o carro-chefe. Ou nada. Esse  fato  compromete  o trabalho de grupo  como um trabalho coletivo. Mais: de que  objeto se trata? Transtorno mental já não seria alguma coisa fabricada pela própria psiquiatria? Ora,  se  é objeto da psiquiatria,  não pode ser objeto da psicologia ou de outros saberes. Então, partir da psiquiatria como  proprietária do paciente é admitir que tudo, em termos de equipe e tratamento, gira   em torno do significante hegemônico “psiquiatria”  como centro de significação clínica. E por extensão o seu objeto, o paciente. Parece  que estamos girando num círculo de redundâncias. Como então constituir um grupo se um  sujeito (a psiquiatria) instituiu  há muito o seu objeto (o paciente) ? A grupalidade só pode ser tentada se houver  uma    des-hierarquização   das relações intra-grupais. Um mesmo plano de trabalho e de afetos. Fora disso,  cria-se uma farsa.   Então, esta é  a primeira condição para um grupo de trabalho em saúde  mental. Todos são iguais em suas  diferenças. Em   segundo   lugar, a que interesses  atende  o  grupo? Pode  ser  o interesse do estado, querendo   suas  aps para justificar a assistência. O  que  mais? O interesse  da  sociedade como um todo e o seu  senso comum para  saber como andam  (e  o que  fazem ) seus  loucos. Ao contrário, acreditamos que o  grupo deve  atender  aos  interesses  da loucura. Entendemos  essa como a conduta libertária avessa aos domínios do estado e  dos  seus aparelhos  conexos. A loucura, na verdade, não tem e não  vive de interesses. Ela vive do desejo, é o puro desejo espraiando-se em produções ao acaso dos encontros. Tal definição alcança o campo do impessoal. Portanto, não falamos do louco, mas da loucura que poderá se encarnar, aí sim, num suposto louco. Em terceiro lugar,  o desejo está em toda a parte onde se trabalha com o louco. Ressoa a questão: que linhas o desejo percorre ou, ao contrário,  estagna  quando  o louco se diz  (ou dizem) que  ele  é louco? Por fim, em quarto lugar, a análise de um grupo técnico compreende  as linhas e as práticas que o desejo percorre. A equipe técnica é composta por linhas de desejo e práticas  que lhe são  co-extensivas. Ela  demanda uma análise político-institucional das  suas operações cotidianas.Para  isso  ser  possível, usamos  um método que  traça a cartografia das produções do desejo num  meio  (ou conjugação)  de  determinações múltiplas. O meio é a subjetividade  como modo de produção contextualizada. O Caps tende a reproduzir o modelo biomédico autor de tantos equívocos  na história da psiquiatria. Talvez por isso, no momento, praticamente não há avanço. Ao contrário, se as pesquisas sobre o cérebro evoluem, o que há é um retrocesso na percepção da vida afetiva. Ora, falar  em grupos é antes   considerar  a sua vida  afetiva: o desejo  como  foco. Os  grupos  se movimentam   pelo desejo. Ou melhor, o desejo é o próprio movimento, não como espaço a ser percorrido, mas  como intensidade. Desse modo, a pergunta : o que move o trabalho dos Caps? O que move  as  suas equipes  (...)

Antonio Moura  

LOUIS ARMSTRONG

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

grande  carlos 
castañeda

ao alcance  das  mãos
mais  delicadas

trouxe  o infinito

ROBERTA SÁ - MAIS ALGUÉM

CONTÁGIO

Sabemos que entre um homem e  uma mulher passam muitos seres, que vêm de outros mundos, trazidos pelo  vento, que fazem rizoma em torno das raízes, e não se deixam compreender em termos de produção, mas apenas de devir. O Universo não funciona por filiação. Nós só dizemos, portanto, que os animais são matilha, e que as matilhas se formam, se desenvolvem e se transformam por contágio (...)

G. Deleuze e F. Guattari do livro Mil platôs

NOITE DOS MASCARADOS

AFETOS E CRENÇAS

                                                       Antonio Moura 



Usamos o conceito de vivência articulado aos problemas da clínica psicopatológica. Esta  se compõe de linhas do desejo (afetos) e linhas do pensamento (crenças). Assim, o paciente, antes  de tudo,  sente e   acredita. Sua  vivência observada na clínica não é  A vivência, mas uma vivência ou vivências que  se expressam em signos  nem sempre significantes. Tal perspectiva faz do exame  psíquico um Encontro, podendo este ser  bom ou mau  a depender dos afetos e das crenças postos  em jogo. Isso  requer  do técnico entrar em contato muitas  vezes com um mundo que  compreende algo incompreensível à consciência. Afeto e pensamento, desejos e crenças são territórios existenciais que  fazem viver. As vivências  são singularidades. O Incompreensível (“por que  ele  quer morrer”? ou “ele acredita nisso?”, etc) não remete  a uma doença ou transtorno (o  que dá no mesmo), mas antes  a   processos de vida que se expandem em linhas  arriscadas  e concretas. Considerar desse modo as vivências implica  em situar o paciente para  além do eu e  substitui-lo pela vivência não médica, não psicológica, não humanizada. Ele  vive o acaso, o desconhecido e o indeterminado, ainda  que em pedaços e  fora  da consciência. Tudo isso pode  ser intuído na expressão plural dos sintomas. Não há  quadro psicopatológico estável, essencial, natural ou definitivo.Os afetos preenchem as crenças e as crenças  expressam os afetos. Muitos  afetos, bem como muitas  crenças, não são classificáveis, não remetem a um código. Outros prevalecem no perfil de determinada síndrome, até  parecendo ser  exclusivos, como nos caso das depressões. Ora,  o exame  do paciente costuma ser mediado por  subjetivações  psiquiátricas e psicológicas encardidas em seu organismo... A tarefa do Encontro passa  a ser  então trair a semiologia instituída (...)                             

CRONICAMENTE INVIÁVEL - de Sérgio Bianchi