sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Poesia na veia - 4


não se trata
dores da existência
com remédios químicos


as sinapses andam cansadas
de serem enganadas


A.M.




DO RESSENTIMENTO

(...) (...)A memória dos traços é raivosa por si mesma. A ira ou a vingança se escondem. Mesmo nas lembranças mais enternecedoras e mais amorosas, vê-se os ruminantes da memória disfarçarem essa ira por uma operação sutil, que consiste em reprovar  a si mesmos tudo o que, de fato, eles reprovam no ser cuja lembrança fingem adorar. Por essa mesma razão devemos desconfiar daqueles que se acusam diante do que é bom ou belo, pretendendo não compreender, não serem dignos: sua modéstia dá medo. Que ódio do belo se oculta em suas declarações de inferioridade!
(...)
G. Deleuze - do livro Nietzsche e a filosofia

ARTHUR BISPO DO ROSÁRIO

QUEM É LOUCO?

O louco nos chega por mãos variadas. A sociedade divide seus filhos: sãos e doentes, ricos e pobres, jovens e velhos, bons e maus, etc. O  que nos  chega?  Um dualismo  esgotado. Ele finca  a verdade e exala dos poderosos o cheiro inconfundível  das cisternas. Temos que admitir: o poder público amacia os temporais do desejo inaudito. Todos se levantam quando o assunto é o bem estar dos medianos. Eles estão em toda a parte. Ah, os medianos... Odeiam a loucura e a parte que lhes cabe nesse latifúndio. No entanto, o louco, com  sua conversa diversa, incomoda a ordem, mesmo a que vem das remelas do  rei. Fala de outra coisa, coisa simples: aí vem a diferença numa via indecifrável aos medianos de plantão. Rasga os organismos de pedra. Num Brasil país de todos, o soldo é o dos monarcas. A diferença? Ela dança sobre continentes perdidos. 
(...)
A.M.

MEMÓRIA DA PELE

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Cisco, s.m.


Pessoa esbarrada em raiz de parede
Qualquer indivíduo adequado a lata
Quem ouve zoadas de brenha. Chamou-se de 
O CISCO DE DEUS a São Francisco de Assis
Diz-se também de homem numa sarjeta


M. de Barros
GRUPOS DE TRABALHO

(...) (...)Seja  o caso  da  reforma  psiquiátrica.  Há   grupos de trabalho   chamados  de  equipes  técnicas  multidisciplinares. Seriam   grupos de fato ou formações seriais  de técnicos?  Seriam  grupos assujeitados à ordem administrativa ou  a alguma  outra  ordem?  Ora, os papéis técnicos compõem um repertório deações práticas (técnicas) para com o paciente.Essas práticas correspondem a modos de subjetivação, as quais precedem  a  fundação dos  grupos. Eles vêm  de  fora, consistindo de forças que secretam sem parar o valor e o significado das  práticas. O ideário da reforma psiquiátrica cunhou o rechaço ao hospital psiquiátrico e a valorização do usuário como ser humano. No entanto, este humanismo  não  foi  suficientemente  forte  para levar a clínica (ou seja, o encontro com o usuário) para formas descoladas  dos  antigos clichês   do  hospício. Entre estes, persiste a submissão  ao poder psiquiátrico  como representante  autorizado da Ciência.  Tal submissão produz efeitos sobre o paciente, reduzindo-o a um cérebro que consome remédios químicos. É uma constatação já denunciada por segmentos sociais interessados na qualidade da assistência prestada aos portadores de transtorno mental.
(...)
A.M. 

MAHAVISHNU ORCHESTRA

começa em brasília
o julgamento do mensalão


as pizzarias estão alvoroçadas


A.M.
SEM RETORNO

(...) (...)Descobrimos que a irreversibilidade desempenha um papel construtivo na natureza, já que permite processos de organização espontânea. A ciência dos processos irreversíveis reabilitou no seio da física a concepção de uma natureza criador de estruturas ativas e proliferantes.
(...)
I. Prigogine e I. Stengers - do livro A nova aliança

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

JOÃO GILBERTO - Samba do avião

EXAME

(...) (...) Ao contrário do que se pensa, o paciente  sabe  de  si e do mundo, mesmo estando  psicótico, principalmente  por   estar  psicótico.  Ele  desvia o rosto dos  enquadres  médicos.  Um caminho em linha faz sentido  duplo. A hierarquização cede espaço. O paciente não é o   do  psiquiatra  e sim do mundo.  Sem médico ou:  não se  sente paciente. Está  fora. Não entra em  compilações clínicas, não é atendido, não precisa, não está  para isso. Um vazio toma conta da sala. Risos imotivados  tem um motivo e  uma interpretação. A psiquiatria a tira por  entre   ampolas da  sala. Quem  fala? Ouve-se um ruído de imagens heréticas. Elas  chegam ao cérebro. Vêm de longe, logo ali. São  feitas  da matéria. Esta  é  invisível.   O  paciente  é  uma imagem, tudo é imagem. Daí,  a sua  presença marcar um grito  que  extrapola   os limites da    clínica. Uma queixa, um comportamento, um sintoma-signo.   Quem fala  coisas fora dos  trilhos?  Qualquer  um pode, desde que a existência brilhe.  A irreversibilidade do fato biológico ou de qualquer  fato comprova o silêncio  que  banha a hora do desencontro.  Sem que  se perceba, é preciso inverter  a ordem.      Nada mais faz sentido senão a produção   do sentido, mesmo  o sem-sentido. O paciente  está desnorteado ante os   fluxos de verdade   da  saúde  mental.  No entanto,  seu corpo é  um projétil que  se desloca  à velocidade do pensamento:  não se dobra, mas  se desdobra em  imagens atuais. Você não sabe  do que  falo, mas  sabe  do que  sinto em relação a essas  experiências  sem  dono.
(...)
A.M.

DELEUZE e a Idéia

poesia na veia - 3

em brasília
agosto chega a gosto
de sombrias
profecias


A.M.
CRIAR É ARRISCAR


O psicofármaco - mesmo quando o seu uso for clinicamente indicado - tende a EMBOTAR as potencialidades existenciais do paciente. Nestes casos, o que fazer?


A.M.