terça-feira, 21 de agosto de 2012


ARTE

 (...) (...) Falamos da  arte como composição de linhas  subjetivas que  buscam  expressar e criar um mundo. É possível captar essas  forças no Encontro com o paciente. A psiquiatria capta outras forças, é bem verdade, as do organismo físico-químico  adoecido pelas condições em que  vive. Isso  significa    fabricado por múltiplas determinações que escapam ao controle do eu. Escapam também ao enquadre linear  causa-efeito. Contudo, o que o paciente  diz sentir  é o que  importa. A arte, surge, então,   como resistência  às  situações existenciais adversas. Nesse sentido ela está  fora da psiquiatria, não havendo  encontro possível. A linguagem da arte é inseparável da sensação, pura sensação que constitui a  subjetividade como semiótica a-significante. Ou seja, não sendo submetida à consciência (“eu, enquanto indivíduo”), a produção da arte  é uma produção de singularidades que  retira matéria viva do caos . Na psiquiatria  atual, no lugar da produção,o produto é capturado (e  imobilizado)  por exames  de imagem. Sob controle.
(...)
A.M. - do livro Trair a psiquiatria

JOBIM E CHICO - Choro bandido

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

ESTÃO REMIXANDO O FASCISMO

o primeiro papa do século 21 
vestiu o uniforme nazista 
e atuou na retaguarda 
dos exércitos do 3º Reich 
que invadiram a pátria do papa 
que ele substituiu 
e manteve vivo às caneladas 
por mais de duas décadas 
enquanto sua maçonaria centenária 
apossava-se dos cargos-chave 
da burocracia eclesiástica 
preparando-se para enfrentar 
os exércitos do islão desembestado 
numa nova guerra fanática

estão remixando o fascismo 
como DJs remixam músicas antigas 
em suas maquininhas 
tecnológicamente corretas 
em noites de raves azougueadas 
preparadas para as quarentenas 
das futuras epidemias anunciadas 

enquanto os tribunais puritanos 
preparam a nova inquisição 
sob a aparente calmaria política 
e a total paralisia das vanguardas 
num mundo sem utopias 
e cheio de ideologias vagas 
um novo fascismo 
está sendo cultivado pelos pamonhas 
como o ôvo de uma serpente 
chocado num ninho de cegonhas

os novos infames agem nas sombras 
instalando seus exércitos de imbecis 
nos sub-escalões da administração pública 
nos meios artísticos 
nas redações dos jornais...

são batalhões de idiotas 
infiltrados em todos os lugares 
para evitar que algo fora do anunciado 
possa quebrar o protocolo 
são reacionários preparados 
para engessar processos criativos 
interromper reformas estruturais 
impedir o tráfego de informações novas 
evitar qualquer processo revolucionário

graças à segmentação do trabalho 
e ao monitoramento da informação midiatizada 
estes monstros estão camuflados na sociedade 
como camaleões esfomeados 
capazes de pequenas audácias

muitos sequer desconfiam 
que estão sendo recrutados 
ou tratados como cobaias 
e não é raro flagrar alguém de esquerda 
defendendo teses da direita 
bebericando stolichnaya

vários agentes do novo fascismo 
estão orbitando em torno de gente famosa 
paparicando pessoas endinheiradas 
como cortesãos de segunda classe 
acreditando absorver por osmose 
características dos seus senhores 
sobrevivendo numa pseudocorte 
de uma Maria Antonieta restaurada 
amealhando sobras de brioches 
e aguardando o momento exato 
para afiarem a guilhotina 
e se apossarem dos brincos 
da cabeça cortada

por conta da vaidade narcisista 
acreditam-se simpáticos 
e merecedores de atenção 
embora sejam insolentes 
e donos de princípios éticos 
de baixíssimo calão

avaliam e selecionam as pessoas 
pelo saldo na conta bancária 
pela aparência, pelo status-quo 
adoram ser porteiros de alas vips 
distribuindo pulserias seletivas 
aos acessos de áreas de exclusão 
onde empresas pagam a conta do porre 
e alugam o lazer e o ócio 
de quem não é mais capaz 
de expressar nenhuma opinião

estes vampiros laicos 
trabalham em barricadas e trincheiras 
protegendo seus escolhidos 
do assédio de quem quer que seja 
estabelecendo um feudo 
do qual são porteiros 
...e carcereiros!

quando estabelecidos em gabinetes e palácios 
filtram informações, agem como censores 
tirando proveitos pessoais 
dos segrêdos, boatos e fuxicos 
que interceptam e promovem aos cochichos

como cupins num compensado 
espalham-se para todos os lados 
rezando a missa ao contrário 
em nome do padre 
do espírito santo 
opus-dei, amém

estes pilantras disciplinados 
sentem-se à vontade 
para falar de deus 
fazendo a faxina dos demônios 
como a que, nos balcãs 
ameaçavam os seus

as celebridades que estão na moda 
não passam de sub-lideranças úteis 
manipuladas em suas vaidades fúteis 
como marionetes travestidas de artistas 
sustentadas e pagas pelos gestores do capital 
e sua máquina publicitária global 
garantindo-lhes a visibilidade 
em troca de energia vital

para passarem as tropas em revista 
e manterem sob controle 
os mal-sucedidos e os arrivistas 
nazistas batidos nas fronteiras 
ganharam a batalha 
50 anos depois da derrota capitulada 
unificando a moeda européia na marra 
com parâmetros do marco alemão 
conquistando por dentro 
todos os estados europeus 
evitando os assaltos 
das divisões armadas

posando de bem-feitores da humanidade 
novos fascistas estão indo à luta 
em meio à era da política corrupta 
aceitando provisórias lideranças farjutas 
como à Cristo, um dia, Judas aceitou 
até chegar o momento propício 
para trair seu comando fictício 
e o derrubar com escândalos políticos

estão remixando o fascismo 
como DJs de boates gays 
remixam músicas do passado 
e, desta vez, até você que era contra 
se não estiver atento e não tomar cuidado 
pode sentir-se atraído e fascinado 
pela reinvenção do estado 
num mundo cibernético 
e celibatário

mesmo os judeus mais ortodoxos 
que sobreviveram com remorsos de seus mortos 
estão com seus interesses financeiros 
comprometidos no mercado dos capitais voláteis 
e do jeito que este mundo está indo 
assimilarão o novo modelo recauchutado 
e decerto participarão dos seus resultados

estão remixando o fascismo 
na cara de todo mundo 
com um cinismo descarado 
que se sustenta às custas da apatia 
das ideologias sem doutrina 
evaporadas como éter na cirurgia 
de um passado enterrado num porre de vodka 
entre as cinzas da glasnost e da perestroika

estão remixando o fascismo 
e, desta vez, você não vai poder 
escolher o lado nem os adversários 
desta vez: a repetição da história como farsa 
trabalhada pelos publicitários 
será um excepcional conto do vigário!


Tavinho Paes 
PSIQUIATRIZAR  A  EXISTÊNCIA

 (...) (...) A subjetividade psiquiátrica se compõe de linhas existenciais traduzidas em papéis sociais diversos, a depender do contexto prático. Um técnico não psiquiatra poderá pensar, perceber, sentir e atuar tanto quanto um psiquiatra na relação com a loucura, e por extensão, com o paciente. Um técnico não-psiquiatra pode ser até “mais psiquiatra” que o psiquiatra.
(...)
A.M. - do texto Grupos e caos, a ser publicado

BOSCH

O inferno

domingo, 19 de agosto de 2012

poesia na veia - 11

loucura não é doença
mesmo que digam
(e dizem)
não acredite

faça uma prece

e um striptease


A.M.

DIANA KRALL - So Nice


NOTA CRÍTICA


Uma crítica bem fundamentada aos psicofármacos considera aspectos (não necessariamente nessa ordem): 1- sociopolíticos; 2-econômicos; 3-clínicos;4-mercadológicos; 5-epistemológicos;6-diagnósticos;  7-científicos; 8-institucionais; 9-acadêmicos; 10-éticos.  Como se nota, a questão é muito complexa.  Desse modo, considero a conexão diagnóstico-fármaco um eixo fecundo de análise já que aí estão contidos os demais aspectos citados acima. 


A.M.

THOMAS SZASZ e os psicofármacos

UMA NOVA VALORAÇÃO DAS COISAS

O que distingue o nosso século XIX não é a vitória da ciência, mas sim a vitória do método científico sobre a ciência.
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Tudo o que entra no consciência como "unidade" é já imensamente complicado: temos sempre somente uma aparência de unidade.
O fenômeno do corpo é o fenômeno mais rico, mais claro, mais compreensível: deve ser posto metodicamente em primazia, sem que descubramos algo sobre seu significado último.

F. Nietzsche - do livro Vontade de poder

CHARLIE PARKIE - Laura

poesia na veia-10

o cérebro mente
porque não é 
a mente

quem fala.


A.M.






AINDA SOBRE O MÉTODO DA DIFERENÇA

(...) (...) Como foi dito acima, o psiquiatra torna-se outra coisa, um devir, devir-feiticeiro,     estranha  metamorfose que se  atualiza num meio tecnológico saturado  de mercadorias.  No corpo a corpo com o paciente , ele age.  Sobretudo,  nada  acumula,  nada conhece, não como  estágio zero do conhecimento, mas como um ingênuo  diante do cosmos. O feiticeiro é  apenas um dos seus disfarces. Composto em meio às serializações tecno-científicas, ele traça um equilibrismo ético-político. Ao mesmo tempo, lida com a palavra e a escuta não só como condições ao atendimento, mas como o próprio atendimento. A fala provém da  espontaneidade-criativa  inscrita no ato da entrevista. A escuta está dada como sensibilidade para o novo, o heterogêneo,  o estranho.  Trata-se de uma clínica das  multiplicidades: uma prática, a se  fazer, a se  inventar.  Sem modelo.
(...)
A.M. - do livro Trair a psiquiatria

SOBRE A LÓGICA DO SENTIDO ( DELEUZE )

Renata – eu leio isso assim... como sendo o seguinte: ele foi contra tudo aquilo que sempre se fala como sendo bom que é o profundo, sempre o profundo, então se o meu amor é profundo, ele é melhor que o seu que é um amor superficial e sempre assim, essa é a nossa idéia, aí ele vem e repete isso, ele vai querer dizer: - não mas eu não quero falar do profundo, eu quero falar do superficial – então para mim vem uma imagem que é a do ponto e do plano, quanto mais você abrange alguma coisa, com um ponto ou com um plano? Com um plano né? Então para mim, a superfície é um plano e a profundidade é um ponto, assim: - eu te conheço profundamente – então você é um ponto e eu vou explorar aquele ponto e só aquele apenas... e se eu falo em superficialidade, eu estou querendo abranger esse plano todo e daí ele matou quando ele diz que tudo que está na superfície tem correspondência com o que está na profundidade, então se você – por isso eu falei do liso e do estriado – desliza na superfície, você de qualquer forma está atendendo e alcançando, abordando, de alguma maneira as profundezas dessa superfície.

Grupo Transversal - Unicamp



sábado, 18 de agosto de 2012

O poema é antes de tudo um inutensílio.

Hora de iniciar algum
convém se vestir roupa de trapo.

Há quem se jogue debaixo de carro
nos primeiros instantes.

Faz bem uma janela aberta
uma veia aberta.

Pra mim é uma coisa que serve de nada o poema
enquanto vida houver.

Ninguém  é pai de um poema sem morrer.


Manoel. de Barros