terça-feira, 4 de setembro de 2012

MORTE DO DESEJO


Com o uso excessivo e indiscriminado de psicofármacos, as categorias nosológicas (diagnósticos) estão, cada vez mais, dissolvidas em prol de uma psico-normatização generalizada das sociedades.A psiquiatria passa, então,  a ocupar o lugar da Igreja, do Estado, da Escola, da Família, e de outras instituições, na produção do controle de condutas sociais inadequadas. Um nova geração de encolhedores de mentes se afirma como produção da morte (cientificamente legitimada) do desejo.


A.M.

RICARDO ANTUNES e o trabalhador atual

LOUCURA ENCARCERADA

(...) (...)De todas as vilas e arraiais vizinhos afluíam loucos à Casa Verde. Eram furiosos, eram mansos, eram monomaníacos, era toda a família dos deserdados do espírito. Ao cabo de quatro meses, a Casa Verde eram uma povoação (...) (...) O Padre Lopes confessou que não imaginara a existência de tantos doidos no mundo, e menos ainda o inexplicável de alguns casos.
(...)
Machado de Assis - da obra prima O Alienista

ILYA PRIGOGINE - fragmento de entrevista


DESEJO É PRODUÇÃO

(...) (...) A falta é distribuída, organizada na produção na produção social. Ela é contra-produzida pela instância de antiprodução que se rebate sobre as forças produtivas e se apropria delas. Não é nunca primeira; a produção não é nunca organizada em função de uma falta anterior, é a falta que vem alojar-se, vacuolizar-se, propagar-se de acordo com a organização de uma produção prévia.
(...)
G. Deleuze e F. Guattari - do livro O anti-édipo

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

ED MOTTA - Colombina

LOUCURA NÃO É DOENÇA MENTAL (OU TRANSTORNO)

(...) (...) Para  buscar uma definição da subjetividade usamos a  loucura como Realidade  e base  da  condição humana. Nosso objeto de  pesquisa torna-se a loucura  e não a doença mental. Esta  é  um produto da psiquiatria.Usá-la como objeto é girar no círculo redundante do olhar  psiquiátrico.Ora, acessar a loucura requer o uso de múltiplos  saberes.  
(...)
A.M.

KANDINSKY


domingo, 2 de setembro de 2012

TUDO PASSA

(...) (...) Se você aceita que as leis fundamentais da natureza são reversíveis e deterministas, então certamente a vida, o homem, ficam de fora. Enquanto se você pensar que o Tempo, a direção do Tempo, é o que torna nosso universo coerente porque uma rocha envelhece, um planeta envelhece, nós envelhecemos, você envelhece, eu envelheço - e envelhecemos todos na mesma direção - então a flecha do Tempo é a propriedade comum a tudo o que existe no universo. Sem isso, há a cisão, tão pungente em Jacques Monod. Monod que, aliás, não compreendeu a importância que Teilhard de Chardin e Bergson atribuíam à duração.
(...)
I. Prigogine - do livro Do ser ao devir

MPB-4 - Lamento (Pixinguinha e Vinicius)





  ÉTICA E CLÍNICA



                                    



              Diante do  paciente, é possível  operar   uma  ética não  pronta. Nada   de   manuais ou   códigos  recitados    pela   Academia. Há  uma  não pessoa na  pessoa  à nossa  frente. Tal  paradoxo encarna  um  anti-humanismo visceral. O que  está  em jogo  não  é o   indivíduo, mas   uma   vida.  A  que isso  leva?

              Isso  leva  à  busca  de um  aumento da  potência de existir, tal  como  ensinou  Espinosa.    Na prática clínica     remete a    aspectos  empíricos  e   imediatos. Quem  é  o  paciente?  Quem  sofre?  Ele  mesmo  nos  procurou?  Por  quê? Para  quê?   Ele  quer viver? O  que  é  viver?  São perguntas  elementares     para  a   formulação de uma  ética   de vida.  A  potência  de viver  ocupa um lugar de  destaque na  questão de uma  clínica  da  diferença.    Vale   para o   paciente  e  para o  psiquiatra.   Num    meio clínico   encharcado   de      psiquiatria,  reina  a  ética   médica   envelhecida.      Escapar  dela     e   propor outra  coisa...   seria   possível?  
             Talvez  uma  clínica  que   trabalhe  a   produção   de  novas  maneiras de viver...  Ora,  a  psiquiatria   está morta como  pensamento  .   Para  turbinar novas  práticas,   iniciemos   pela  ética:  o Encontro com  o paciente  traduz esse  projeto: a  materialidade   da  relação passa  a ser  constituída  por  afetos que  circulam nos  dois  sentidos. É  claro  que  pela sua  própria  definição,  há os bons e os  maus afetos.  Os  que  constroem e  os que  destroem. 
            Desse  modo,  antes   da   técnica  é  preciso  compor   linhas de  vida. Implica em  dizer que  o  trabalho  com o paciente  segue   a  arte  como  experimentação. Experimente,  não  interprete,  diz  Deleuze.   Os dados da  história pessoal  e  das contingências atuais estão baralhados  na  superfície  do Encontro. O  trabalho,  no caso do  psiquiatra,  será o de   destruir  formas sociais rígidas (por exemplo, o  afã  de  medicar,  o diagnóstico  cidológico,  o  corporativismo médico, etc) e  criar  dobras, saídas, mesmo  ínfimas  e imperceptíveis, para os  impasses  existenciais.
            Atender o paciente é encontrar  a  loucura.  Interessa,   pois,   ao   psiquiatra,  sair de si  na   direção de  um  campo vivencial   movediço, sem  garantias  prévias,  sem  receitas  ou   protocolos   técnicos. Sob  tais  condições,  torna-se  um  feiticeiro.  Carrega  o  seu balaio  de  conceitos na  espreita de mais  um  encontro em que  possa usá-los. 


A.M.


sábado, 1 de setembro de 2012

MARISA MONTE - O que se quer

O humor não tem de ser apenas uma proteção às paixões científicas.Ele pode ser condição constitutiva dessas paixões.

I.Stengers - do livro A invenção das ciências modernas

BOSCH

O jardim das delícias
SUBJETIVIDADE A-SUBJETIVA - (continuação)


(...) (...) Quando se fala em subjetividade,a tendência é  considerá-la como  algo próximo  ou  similar  à  mente, à  alma, ao  cérebro, ao eu, à  personalidade.  Ela  seria  constituída  como  uma  espécie de mundo interior naturalmente separado do mundo exterior. O que essas designações têm em comum é o fato da subjetividade ser  posta  como uma  substância,  se  possível, visível ao  pesquisador dos seus segredos. Ocorre que  ela não é algo visível, não  possui uma  forma  que  remeteria a uma substância. Ela é processo, fluxo incessante. A vida nos  mostra  isso. Concebe-se tal  qualidade na medida  em que  adotamos a  perspectiva  do  tempo  que passa  e não volta: a irreversibilidade. Assim, é possível se pensar a subjetividade segundo uma percepção não  espacial,  mas  temporal. Isso  requer  uma atitude nova. 

(...)
A.M. - do livro Trair a psiquiatria