sexta-feira, 7 de setembro de 2012

TODOS DELIRAM                                                   

(...) (...) O delírio é  um conceito-chave em psicopatologia. Uma clínica da diferença se  faz a  partir  desse dado implícito , mesmo que  o paciente  não  esteja  delirante  nem seja ou tenha sido um delirante. Sob um olhar  psiquiátrico, o delírio será  um sintoma. Ainda  que tal  concepção seja  útil em momentos pontuais, ela mutila a vivência delirante enquanto sistema de crenças estabelecido como uma verdade. Esse fato tem implicações na terapêutica farmacológica. A ação de medicar, quando imediata, pode tamponar o sintoma e impedir que  surjam possibilidades de acesso ao universo delirante do paciente. Para melhor  equacionar os casos,  partimos  do  fato de que existem múltiplas formas clínicas do delírio.  Elas demandam  atitudes terapêuticas distintas.  Buscar linhas de singularização consiste em pôr o delírio num quadro diagnóstico básico  sem perder a potência infinita de afirmar um mundo, produzir  um sentido, por mais  insignificante  que  este  seja. 
(...)
A.M. - do livro Trair a psiquiatria

ARQUITETURA - Moscou

Catedral de São Basílio
NÃO AGIR

Não demonizar a psiquiatria. Não desenvolver com ela uma relação persecutória. Não fazer uma crítica piedosa, reativa, ressentida. Não se dobrar ao poder psiquiátrico, nem tampouco  reproduzi-lo. Não personalizar a crítica, não focá-la no psiquiatra. Não cair  no jogo das identidades profissionais. Não se nivelar éticamente, políticamente, estéticamente, clinicamente, à psiquiatria.  Não falar da psiquiatria, não comentar  nem mesmo  sobre a  sua  monumental ignorância  teórica. Sobretudo, não atacá-la, mesmo que ela esteja atacando a Vida e seus devires. 
É que  temos mais o que fazer. Fazer outras coisas,  fazer a Diferença...

A. M.

BERNARD HERRMANN - Vertigo

CRIAR SIGNOS

A língua não dispõe de signos, mas adquiri-os criando-os, quando uma língua "age no interior de uma língua" para nela produzir uma língua insólita, quase estrangeira.A primeira injeta, a segunda gagueja, a terceira sobressalta. A língua tornou-se Signo, poesia, e já não se pode distinguir entre língua, fala ou palavra E a língua não está em condições de produzir em seu seio uma língua nova sem que toda a linguagem seja por sua vez conduzida a um limite. O limite da linguagem é a Coisa em sua mudez - a visão.
(...)
G. Deleuze - do livro Crítica e Clínica

BRASIL SEM PÁTRIA

TRANSTORNOS GRUPAIS

(...) (...)A equipe técnica é composta por linhas de desejo e práticas que lhe são co-extensivas. Ela  demanda uma análise político-institucional das  suas operações cotidianas.Para isso  ser  possível, usamos um método que segue as produções do desejo num meio (ou conjugação) de  determinações múltiplas. O meio é a subjetividade  como modo de produção contextualizada. O Caps tende a reproduzir o modelo biomédico autor de tantos equívocos  na história da psiquiatria. Talvez por isso, no momento, praticamente não há avanço. Ao contrário, se as pesquisas sobre o cérebro evoluem, o que há é um retrocesso na percepção da vida afetiva. Ora, falar em grupos é antes considerar a sua vida afetiva: o desejo como  foco. Os grupos se movimentam  pelo desejo. Ou melhor, o desejo é o próprio movimento,não como espaço a ser percorrido, mas como intensidade. 
(...)
A.M. - do texto Grupo e caos a ser publicado
brasil quinhentos
anus

DIA DA PÁTRIA

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

VIAGENS DE MIGUEL

Miguel tem quase 1 ano e meio. Continuo lhe acompanhando por veredas insondáveis. Por onde e para onde ele vai?  Não me avisa. Eu é que tenho que sacar, advinhar... Pois ele anda solto, ainda que preso a uma infância codificada. A sociedade comparece. Mas Miguel segue a rua. Ele  é a rua, é da rua, embora esteja comigo, com a mãe, com a irmã, seres da intimidade do dia-a-dia.  Olho a praça.  Seu olhar inquieto também encontra motivos para olhar. Ele gira. Dentro de casa, Miguel me chama para sair. Para onde, Miguel? "Sei lá, pai, para um universo de naturezas produtivas e fugidias". Nada está fechado para ele. Nada. Tudo flui e conflui em desenhos existenciais maravilhosos. Ele bem que tenta me dizer, mas não compreendo o seu  mundo, mundo  da criança. Adoecido pelo adultice,  me viro e tento chegar ao estado e ao nível da sua potência de viver. Arrisco, enquanto Miguel  lembra que meu coração bate por ele.  Gratuito.

A.M.

BADEN POWEL - Manhã De Carnaval


DEVIR-PENSAMENTO

(...) (...)Trabalhar com pacientes num Caps, por exemplo, implica  em sair  dos moldes da  Conserva  do  hospício ou dos consultórios clínicos. Explorar as multiplicidades, mesmo e principalmente no paciente identificado à  forma-doente mental. Há  outras  linhas não percebidas, talvez  invisíveis.  Pacientes registrados, cadastrados, codificados, rotulados sob o efeito de  formas sociais (instituições) como a família, a clínica, a escola, o trabalho, o direito, o estado, a polícia, o casamento, entre outras, estão  enfiados em buracos negros  onde  o devir-pensamento  foi  relegado a uma atividade cognitiva mínima, rasteira, como registram os manuais  psiquiátricos. Curso, forma, conteúdo, raciocínio, juízo, são categorias semiológicas usadas  num exercício de mortificação do devir-pensamento. Elas compõem o mundo da representação.Tornar o pensamento  visível e frear a sua velocidade  infinita, isso sempre foi assunto  dos  psiquiatras  e adquire na psiquiatria atual o requinte  das tecnologias  de ponta. Subjacente à  técnica , existe  a crença de  que  o paciente  não pensa, ou se pensa, é para  responder  que  dia é  hoje, onde  estamos, que  veio  fazer aqui, etc. Insistimos  no dado  de  que o pensamento  não é  só o que  é falado,  mas  o  que é  experimentado via sensações, intensidades, afetos, o que muitas  vezes  não  pode  ser  dito, não chega a ser  dito, não consegue  ser  dito.  
(...)
A.M.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

ESCULTURA EM AREIA



TEMPO DE ELEIÇÃO

Chega  a  hora   das  eleições, mas o tempo  não passa. Ou, pelo  menos, não salta, digamos, para um outro  universo  de  sentido, onde o homem  comum possa  dizer: “enfim, algo  novo”. O homem comum é  o da  cidade, o que  está  em contato  com a   experiência  do  cotidiano (no trabalho, nas  ruas, nos  serviços, nas  casas,  etc) e por  isso  expressão  de  um tempo  que  não  passa. Mas  que, apesar  de  tudo, passa.
Terrível  paradoxo o envolve no  cumprimento da sobrevida  para    viver   ao  invés  do  desejo de viver, ou apenas  viver, viver.
Chega  a Hora. É  a do  horário eleitoral  gratuito, pelo qual  o homem  da  cidade paga.  E  muito.  Mas  de  nada   adianta   desligar  o rádio  ou  a TV, pois  as  palavras  do candidato  ecoam para  além dos  fluxos  eletrônicos, disseminando  pela  cidade a trama  monstruosa  do invisível poder  visível. Tudo  conflui  para a   produção  íntima   de uma  subjetividade  votante. A  Publicidade  faz  a  sua parte  no negócio.
Como escolher?
Escolher um candidato  passa  a ser uma ação  que  oscila  no mercado  das  ofertas  clientelísticas   conforme  razões   de  mando e comando   do poder  econômico  em sua   face  mais risonha (todos  riem...)  e  cínica. Com os  pobres, os  inferiores, os  miseráveis, a palavra  vira  repetição automática. Ou  não  vira, não vira  (no sentido  em que  se diz “esse   carro não  vira”), permanecendo em seu  lugar   o  refrão   interminável  dos  dias  da  servidão  “consentida”.
No fim, que  é  o começo, não  só a  Cidade  é  enfeada, desfigurada com  banners e  muros  sombrios. É  toda  a  cena  da  disputa  que é   assim, onde   você  decide,  cidadão,a  não decidir.

A.M.

MENESCAL E MOSKA - Você