domingo, 17 de agosto de 2014

POÉTICA NA CABEÇA

(...) Que se passa? Ainda bem: há poesia injetada com agulhas finas. A linguagem desliza: criança, poeta, louco, vidente, artista, a tralha dos sem-eu, todos descem pelo conta-gotas da resposta aos enigmas e sintomas. Não há como se explicar aos cientistas nem aos médicos.O tecido poético cria muito antes da medição dos contornos da hipófise e/ou do hipotálamo. É matriz e argamassa das construções exatas sobre o funcionamento dos neurônios do baixo clero. Assim, precisamos de mais poesia, mais, até saturar os átomos da cabeça pensante. No entanto, o pesquisador acadêmico anuncia o veredicto das horas perdidas em conversas rasas. A Inquisição moderna dirige o condenado às labaredas do inferno das psicoses, dos retardos mentais e das demências irreversíveis. Toca o horror da patologia, limpa a mesa cirúrgica com estabilizadores do humor.Assim fica fácil destruir subjetividades em nome da ciência. Sem metáfora.
(...)
A.M.
Comovo-me em excesso, por natureza e por ofício.
Acho medonho alguém viver sem paixões.

Graciliano Ramos

CHARLIE CHAPLIN - The Kid


MUNDO GRANDE

Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.

Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.

Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem... sem que ele estale.

Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma, não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo...
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos - voltarão?

Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam.)

Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.

Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.

Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.

Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
- Ó vida futura! Nós te criaremos.

Carlos Drummond de Andrade

O MAR DA HISTÓRIA É AGITADO


ATRÁS DO GOL

A crise financeira dos clubes brasileiros proporcionou situações inusitadas nos últimos dias. O Botafogo conseguiu dinheiro para pagar parte dos salários atrasados, mas inicialmente iria deixar seis jogadores do elenco a ver navios; o Guarani pagou atletas com cheques sem fundo; o Crac ameaçou abandonar o Brasileiro da Série C por não receber a verba prometida pela prefeitura da cidade goiana de Catalão; e o Grêmio Barueri simplesmente não entrou em campo para partida da Série D em protesto contra o atraso dos salários.
Com atraso de três meses no pagamento de salários e de seis na quitação dos direitos de imagem dos jogadores, o Botafogo conseguiu, com a ajuda do Sindeclubes (sindicato dos empregados em clubes) do Rio de Janeiro, a liberação de R$ 2,5 milhões para aliviar a dívida com atletas e funcionários.
(...)
Fonte: Diego Salgado e Ronald Lincoln Jr., Estadão

sábado, 16 de agosto de 2014

O meu maior desejo sempre foi o de aumentar a noite para a conseguir encher de sonhos.

Virginia Woolf

MARINA SILVA - Entrevista de 24/04/2014


“A morte trágica de Campos fortalece a gana de mudança do eleitor”

A violenta e inesperada saída de cena de Eduardo Campos, candidato do PSB à presidência que morreu na última quarta-feira num acidente aéreo, foi penosa e chocante não só para a sua família e seus correligionários mais próximos. Eleitores e não eleitores do presidenciável se sentiram consternados e obrigados a refletir sobre a processo eleitoral e sobre quem era o político que vinha persistindo em terceiro lugar nas pesquisas com uma mensagem de mudar o modo de fazer política no país.
Por isso, a morte de Campos pode ter um alcance maior do que se supõe para o eleitor brasileiro, acredita a socióloga Fátima Pacheco Jordão. “A morte trágica de Campos reduz a distância entre a sociedade e a classe política”, avalia ela, que é diretora da D'Fatto pesquisa em Jornalismo.
(...)
Fonte: El País

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

CONFIANÇAS

Senta à mesa e escreve…

Com este poema não tomarás o poder, dizem…
Con estes versos não farás a revolução, dizem…
Nem com milhares de versos farás a revolução, dizem…

E mais…
Esses versos não vão servir a ele para que
peões, professores, lenhadores
vivam melhor, comam melhor.
Ou para que ele mesmo coma, viva melhor.
Nem para apaixonar a outros servirão.

Não ganhará dinheiro con eles.
Não entrará no cinema grátis con eles.
Não lhe darão roupa por eles.
Não conseguirá tabaco ou vinho por eles.
Nem papagaios,
Nem cachecóis,
nem barcos,
nem touros,
nem guarda-chuvas conseguirá por eles.
Se for por eles,
a chuva o molhará.
Não alcançará perdão ou graça por eles.

Com este poema não tomarás o poder, dizem…
Comn estes versos não farás a revolução, dizem…
Nem com mihares de versos farás a revolução, dize…

Senta à mesa e escreve…

Juan Gelman

CHRISTINE NGUYEN


cada dia mais
poesia

A.M.
OUTRA POLÍTICA

(...) A fronteira, isto é,a linha de variação não está entre senhores e ecravos nem ricos e pobres. Porque, entre uns e outros se tece um regime de relações e de oposições que fazem do senhor um escravo rico,do escravo um senhor pobre no seio de um mesmo sistema majoritário.A fronteira não se encontra dentro da História, nem mesmo no interior de uma estrutura estabelecida, nem dentro do "povo".Todo mundo fala em nome do povo,em nome da linguagem majoritária, mas onde está o povo?"O que falta é o povo".Na verdade,a fronteira está entre a História e o anti-historicismo, isto é, concretamente,"aqueles que a História não leva em conta".Ela está entre a estrutura e as linhas de fuga que a atravessam, entre o povo e a etnia. A etnia é o minoritário, a linha de fuga na estrutura, o elemento anti-histórico dentro da História.
(...)
Gilles Deleuze in Um manifesto de menos

CÉU - Malemolência e Lenda


A FAVOR DO VOTO CONTRA

Millôr Fernandes, que a cada dia está mais atual e inteligente, teve uma ótima ideia para democratizar o nosso sistema eleitoral, infelizmente nunca aplicada ou sequer proposta: o voto contra. O eleitor teria direito a dois votos, um no seu candidato preferido, e outro contra quem considerasse indigno de um cargo publico e nocivo à sociedade, um direito tão democrático como eleger um representante.

No final das contas, entre os prós e os contra, talvez não melhorasse muito o nível dos eleitos, mas muitos notórios malfeitores travestidos de políticos, que compram apoios e usam dinheiro sujo para fraudar as eleições, que buscam um mandato para fugir da Justiça, ficariam fora do poder. Economizaríamos tempo e dinheiro dos longos processos de cassação do TSE, sairia mais barato prevenir do que remediar.

Nos Estados Unidos, como fazem com automóveis, os eleitores têm direito a um recall de políticos que estão dando defeito. Seja por traição ao eleitorado com promessas não cumpridas, escândalos de corrupção, irresponsabilidade fiscal ou ineficiência administrativa, um recall pode ser proposto na Justiça e o elemento, democraticamente, ser cassado se assim quiser a maioria. Vários eleitos com grandes votações já foram enxotados no meio do mandato.

Em sua clarividência, Millôr talvez imaginasse o Brasil atual, onde parece haver mais vontade de votar contra do que a favor. O voto contra seria uma alternativa mais eficiente e democrática ao voto branco ou nulo — um protesto inútil que acaba beneficiando os que lideram a votação.

É triste, mas hoje no Brasil, mais do que as qualidades e propostas dos candidatos, o fator mais importante na definição das eleições pode ser a quantidade de abstenções, brancos e nulos. Entre os 70% de descontentes, a maior parte dos que vão votar em Aécio Neves quer é se livrar de Dilma e do PT. Entre os que estão descontentes, mas votam em Dilma, a maioria odeia Aécio e os tucanos mais do que gosta dela e de seu governo.

Se a ideia de Millôr estivesse em vigor, Marina Silva seria eleita no primeiro turno. Ou iria para o segundo com o Pastor Everaldo.

Nelson Motta