quinta-feira, 4 de setembro de 2014

A CHARGE DE ANTONIO LUCENA


O rio que fazia uma volta
atrás da nossa casa 
era a imagem de um vidro mole...

Passou um homem e disse:
Essa volta que o rio faz...
se chama enseada...

Não era mais a imagem de uma cobra de vidro
que fazia uma volta atrás da casa.
Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem.

Manoel de Barros

PINA BAUSCH - Orphée Eurydice


OMS: epidemia de ebola já matou mais de 1,9 mil pessoas

A epidemia de Ebola que assola o oeste da África já deixou mais de 1,9 mil mortos de um total de 3,5 mil casos confirmados, disse nesta quarta-feira a diretora-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Margaret Chan. "De acordo com o último relatório desta semana, temos mais de 3.500 casos confirmados em Guiné, Serra Leoa e Libéria, e mais de 1,9 mil mortos", disse Chan, acrescentando que a epidemia “está avançando”.
Este último balanço representa uma forte aceleração na mortalidade. Na semana passada, a OMS relatou 1.552 mortes de 3.069 casos confirmados. O número de mortos nesta epidemia sem precedentes, desde que o vírus apareceu em 1976, supera o total de mortes em todos os surtos anteriores.
(...)
Fonte: O Globo

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

VLADIMIR VOLEGOV


Por que Marina?

Porque o modelo do país dos últimos 20 anos se esgotou. Seus quatro pilares, que atravessaram os governos do PT e do PSDB coadjuvados pelo PMDB, entraram em fadiga.

A democracia do fisiologismo, da falta de princípios e ética, do caos partidário, já não satisfaz e o povo mostrou isso nas ruas.

A estabilidade monetária está ameaçada pelo descontrole nos gastos públicos e pela incerteza dos pacotes e da administração de preços. As transferências de renda não criaram portas de saída.

O crescimento econômico se apequenou e não mudou a cara do PIB que continua baseado em bens primários. E porque ela trás confiança e esperança.

Confiança de responsabilidade com a gestão econômica ao defender o Banco Central independente e o tripé da estabilidade fiscal. Certeza de que não haverá retrocesso nos avanços sociais, desde a transferências de renda enquanto forem necessárias, passando pelas cotas e os reajustes do salário mínimo acima da média dos salários.

Esperança de uma nova forma de diálogo com os políticos. Embora isso possa trazer riscos em um quadro onde as lideranças se acostumaram em vender apoio de forma fisiológica e corrupta, não é mais possível adiar esta nova postura na gestão pública.

Esperança na construção de mecanismos para libertar as populações pobres da necessidade de assistência. Assegurar que enquanto uma família precisar, receberá bolsas, mas o governo não descansará enquanto uma família ainda precisar delas.

Esperança na possibilidade de uma inflexão no modelo de desenvolvimento em direção não apenas à retomada do crescimento, mas também na construção de um novo perfil para o PIB, reorientado para bens e serviços modernos de alta tecnologia, e com sustentabilidade ecológica.

Convicção de que o vetor central para este novo tempo será a realização do sonho de Eduardo Campos resumido na frase que ele disse e repetia de que o Brasil só será um país como desejamos quando os filhos dos pobres estudarem nas mesmas escolas em que estudam os filhos dos ricos. 

Cristovam Buarque

LUIZ MELODIA e ELZA SOARES - Fadas


EMBRIAGUEZ DO PODER

Putin: 'Se eu quiser, tomo Kiev em duas semanas'

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, disse para um alto dirigente europeu que as forças do país podem tomar Kiev, a capital da Ucrânia, "em duas semanas" se ele assim quiser. A declaração foi dada ao presidente da Comissão Europeia, José Manuel Barroso, durante uma conversa telefônica no dia 29 de agosto.
No fim de semana, Barroso comentou o assunto com outros diplomatas europeus, vazando a informação. Barroso havia perguntando a Putin sobre a presença de tropas no leste da Ucrânia, e se elas estavam cruzando a fronteira deliberadamente. "Essa não é questão", disse Putin, "Mas se eu quiser, tomo Kiev em duas semanas", respondeu.
(...)
Fonte: Veja

terça-feira, 2 de setembro de 2014

POÉTICA DO IR

A experiência poética dissolve o chão da linguagem. Restrita às eruditas teses acadêmicas, é, em geral objeto de deleite narcísico e linha de poder. No entanto, tornada poética do cotidiano, produz um abalo sísmico que traz um universo áspero, sem pouso para transcendências.O mundo é esse., o mundo é isso.A poesia como natureza do real avança sobre sensibilidades tímidas e formais, daí fazendo o seu trabalho de rescaldo da miséria humana. Com um grito de alegria.

A.M.
ALUMBRAMENTO

(...) tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido; sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo condizia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações! 
Ergueu-se de um salto, passou rapidamente um roupão, veio levantar os transparentes da janela... Que linda manhã! Era um daqueles dias do fim de agosto em que o estio faz uma pausa; há prematuramente, no calor e na luz, uma certa tranqüilidade outonal; o sol cai largo, resplandecente, mas pousa de leve; o ar não tem o embaciado canicular, e o azul muito alto reluz com uma nitidez lavada; respira-se mais livremente; e já se não vê na gente que passa o abatimento mole da calma enfraquecedora. Veio-lhe uma alegria: sentia-se ligeira, tinha dormido a noite de um sono são, contínuo, e todas as agitações, as impaciências dos dias passados pareciam ter-se dissipado naquele repouso. Foi-se ver ao espelho.

Eça de Queiroz in O Primo Basílio

O MESMO DOS MESMOS


segunda-feira, 1 de setembro de 2014

CHOVE

A chuva cai.
Os telhados estão molhados,
Os pingos escorrem pelas vidraças.
O céu está branco,
O tempo está novo.
A cidade lavada.
A tarde entardece,
Sem o ciciar das cigarras,
Sem o jubilar dos pássaros,
Sem o sol, sem o céu.
Chove.
A chuva chove molhada,
No teto dos guarda-chuvas.
Chove.
A chuva chove ligeira,
Nos nossos olhos e molha.
O vento venta ventado,
Nos vidros que se embalançam,
Nas plantas que se desdobram.
Chove nas praias desertas,
Chove no mar que está cinza,
Chove no asfalto negro,
Chove nos corações.
Chove em cada alma,
Em cada refúgio chove;
E quando me olhaste em mim,
Com os olhos que me seguiam,
Enquanto a chuva caía
No meu coração chovia
A chuva do teu olhar.

Ana Cristina Cesar

TONI NEGRI: Entrevista - 24/01/2013


IMAGEM-TEMPO

Um clichê é uma imagem sensório-motora da coisa. Como diz Bérgson, nós não percebemos a coisa ou a imagem inteira, percebemos sempre menos, percebemos apenas o que estamos interessados em perceber, ou melhor, o que temos interesse em perceber, devido a nossos interesses econômicos, nossas crenças ideológicas, nossas exigências psicológicas. (...) (...) Civilização da imagem? Na verdade uma civilização do clichê, na qual todos os poderes têm interesse em nos encobrir as imagens, não forçosamente em nos encobrir a mesma coisa, mas em encobrir alguma coisa na imagem. Por outro lado, ao mesmo tempo, a imagem está sempre tentando atravessar o clichê, sair do clichê.
(...)
G. Deleuze in Cinema: imagem-tempo
O cinismo escorre por toda parte, como a água das paredes infiltrada.

Nelson Rodrigues