sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Morrer de vez em quando
é a única coisa que me acalma.

Paulo Leminski
DO NOVO ÍDOLO

Estado, chamo eu, o lugar onde todos, bons ou malvados, são bebedores de veneno; Estado, o lugar onde todos, bons ou malvados, se perdem a si mesmos; Estado, o lugar onde o lento suicídio de todos chama-se – “vida”!
Olhai esses supérfluos! Roubam para si as obras dos inventores e os tesouros dos sábios; “culturas” chamam a seus furtos – e tudo se torna, neles, em doença e adversidade!
Olhai esses supérfluos! Estão sempre enfermos, vomitam fel e lhe chamam “jornal”. Devoram-se uns aos outros e não podem, sequer digerir-se.
Olhai esses supérfluos! Adquirem riquezas e, com elas, tornam-se mais pobres. Querem o poder e, para começar, a alavanca do poder, muito dinheiro – esses indigentes!
Olhai como sobem trepando, esses ágeis macacos! Sobem trepando uns por cima dos outros e atirando-se mutuamente, assim no lodo e no abismo.
Ao trono, querem todos, subir: é essa a sua loucura. Como se no trono estivesse sentada a felicidade! Muitas vezes, é o lodo que está no trono e, muitas vezes, também o trono no lodo.
Dementes, são todos eles, para mim, e macacos sobre excitados. Mau cheiro exala o seu ídolo, o monstro frio; mau cheiro exalam todos eles, esses servidores de ídolos!
Porventura, meus irmãos, quereis sufocar nas exalações de seus focinhos e de suas cobiças? Quebrai, de preferência, os vidros das janelas e pulai para o ar livre!
Fugi do mau cheiro! Fugi da idolatria dos supérfluos!
Fugi do mau cheiro! Fugi da fumaça desses sacrifícios humanos!
Também agora, ainda a terra está livre para as grandes almas. Vazios estão ainda para a solidão a um ou a dois, muitos sítios, em torno dos quais bafeja o cheiro de mares calmos.
Ainda está livre, para as grandes almas, uma vida livre. Na verdade, quem pouco possui, tanto menos pode tornar-se possuído. Louvado seja a pequena pobreza!
Onde cessa o Estado, somente ali começa o homem que não é supérfluo – ali começa o canto do necessário, essa melodia única e insubstituível.
Onde o Estado cessa – olhai para ali, meus irmãos! Não vedes o arco-íris e as pontes do super-homem?

Friedrich Nietzsche

CAMPANHA LIMPA


A PIEDADE

Eu urrava nos poliedros da Justiça meu momento
abatido na extrema paliçada
os professores falavam da vontade de dominar e da
luta pela vida
as senhoras católicas são piedosas
os comunistas são piedosos
os comerciantes são piedosos
só eu não sou piedoso
se eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria
aos sábados à noite
eu seria um bom filho meus colegas me chamariam
cu-de-ferro e me fariam perguntas: por que navio
bóia? por que prego afunda?
eu deixaria proliferar uma úlcera e admiraria as
estátuas de fortes dentaduras
iria a bailes onde eu não poderia levar meus amigos
pederastas ou barbudos
eu me universalizaria no senso comum e eles diriam
que tenho todas as virtudes
eu não sou piedoso
eu nunca poderei ser piedoso
meus olhos retinem e tingem-se de verde
Os arranha-céus de carniça se decompõem nos
pavimentos
os adolescentes nas escolas bufam como cadelas
asfixiadas
arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através
dos meus sonhos 

Roberto Piva

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

A PELE QUE HABITO de P. Almodóvar, 2011


A creditamos que a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda.Se a nossa opção é progressiva, se estamos a favor da vida e não da morte, da equidade e não da injustiça, do direito e não do arbítrio, da convivência com o diferente
e não de sua negação, não temos outro caminho se não viver a nossa opção.
Encarná-la, diminuindo, assim, a distância entre o que dizemos e o que fazemos.

Paulo Freire

MARGEM DE ERRO


quarta-feira, 1 de outubro de 2014

CONSCIÊNCIA PESADA

(...)  O conceito de CONSCIÊNCIA serve à concepção  médica baseada nas estruturas cerebrais. O que não é um erro, e sim um "recorte" dos processos subjetivos. A psiquiatria trata da mente conforme  o corpo físico-químico. Institui o cérebro como o “corpo  mental”, dando origem a um novo dualismo: cérebro/mente e corpo (organismo). Uma clínica da diferença põe em questão  essa ótica.  Quadros de dissociação  histérica  há mais  de  cem anos  foram descritos por  Freud. A consciência  se altera. Além disso, várias outras situações clínicas podem modificar o nível da consciência sem que haja lesão cerebral demonstrável. A angústia, quando muito intensa, também pode levar o paciente a alterações do nível da consciência. Em sessões de psicoterapia,  na vivência  de certas técnicas, a consciência  pode se modificar, facilitando o trabalho terapêutico na pesquisa de respostas e efeitos sobre o psiquismo.  Isso também é válido  para a clínica psicanalítica. Há momentos da transferência em que a consciência muda.No psicodrama, na catarse de integração e/ou no desempenho de certos papéis, conforme a espontaneidade criativa, algo acontece para além da consciência. Há mil outros exemplos... Extraindo consequências do pensamento  de Bergson, a consciência  não apenas  é uma  tela, mas uma tela opaca e frágil. Não explica nada, ao contrário, deve ser explicada. Ajuda a sustentar os comportamentos padronizados do cotidiano, a recitar identidades, a estabelecer pautas mínimas de comunicação interpessoal,  mas, nos termos de uma pensamento da imanência (não representativo) ela não responde pelo devir, nem pela questão da luz, da matéria e do movimento. Limita-se a nos proteger do caos, instilando opiniões para um equilíbrio mental acerca da realidade do mundo, mas esconde linhas de  vida  indizíveis e/ou que buscam se expressar. Enfim,  é  uma  espécie  de entrave operacional e conceitual a uma clínica dos processos de singularização (do Encontro), onde e quando a produtividade do desejo segue caminhos imprevisíveis. 
(...)
A.M.. in Trair a Psiquiatria

ELIS REGINA - Folhas Secas


EBOLA CHEGANDO AOS EUA

O Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC, na sigla em inglês) confirmou nesta terça-feira o primeiro caso de ebola diagnosticado em território americano. Trata-se também da primeira vez em que esta cepa da doença é diagnosticada fora da África.
O paciente está internado em uma área de isolamento no Hospital Presbiteriano de Dallas, no Texas. De acordo com o CDC, ele viajou da Libéria — um dos países mais atingidos pelo ebola — aos Estados Unidos para visitar familiares que vivem no país. O indivíduo desembarcou no dia 20 de setembro, começou a manifestar os sintomas no dia 24, procurou ajuda médica no dia 26 e foi internado no domingo (28) com suspeita de ebola. O diagnóstico, confirmado na tarde desta terça-feira, é "altamente confiável", afirmou Thomas Frieden, diretor da entidade, em entrevista coletiva.
(...)
Fonte: Veja,30/09/2014

JOSHUA WONG

Aos 17 anos, um dos principais líderes dos protestos pela democracia em Hong Kong

A FORMA-ESTADO

Entre a monarquia e a república mais democrática, só há uma diferença notável: sob a primeira, o pessoal burocrático oprime e explora o povo, em nome do rei, para o maior proveito das classes privilegiadas, assim como em seu próprio interesse; sob a república, ele oprime e explora o povo da mesma maneira, para os mesmos bolsos e as mesmas classes, mas ao contrário, em nome da vontade do povo. Sob a república, a pseudonação, o país legal, por assim dizer, representado pelo Estado, sufoca e continuará a sufocar o povo vivo e real. O povo, contudo, não terá a vida mais fácil quando o porrete que o espancar se chamar popular. [...] Assim, nenhum Estado, por mais democráticas que sejam as suas formas, mesmo a república política mais vermelha, popular apenas no sentido desta mentira conhecida sob o nome de representação do povo, está em condições de dar a este o que ele precisa, isto é, a livre organização de seus próprios interesses, de baixo para cima, sem nenhuma ingerência, tutela ou coerção de cima, porque todo Estado, mesmo o mais republicano e mais democrático, mesmo pseudopopular como o Estado imaginado pelo Sr. Marx, não é outra coisa, em sua essência, senão o governo das massas de cima para baixo, com uma minoria intelectual, e por isto mesmo privilegiada, dizendo compreender melhor os verdadeiros interesses do povo, mais do que o próprio povo. [...]

M. Bakunin
O amor romântico é como um traje, que, como não é eterno, dura tanto quanto dura; e, em breve, sob a veste do ideal que formámos, que se esfacela, surge o corpo real da pessoa humana, em que o vestimos. O amor romântico, portanto, é um caminho de desilusão. Só o não é quando a desilusão, aceite desde o princípio, decide variar de ideal constantemente, tecer constantemente, nas oficinas da alma, novos trajes, com que constantemente se renove o aspecto da criatura, por eles vestida.

Fernando Pessoa

ALEXEY SLUSAR