Este blog busca problematizar a Realidade mediante a expressão de linhas múltiplas e signos dispersos.
sábado, 2 de maio de 2015
VOLTA!
Amanhã faz um mês que a Senhora está longe de casa. Primeiros dias, para dizer a verdade, não senti falta, bom chegar tarde, esquecido na conversa de esquina. Não foi ausência por uma semana: o batom ainda no lenço, o prato na mesa por engano, a imagem de relance no espelho.
Com os dias, Senhora, o leite primeira vez coalhou. A notícia de sua perda veio aos poucos: a pilha de jornais ali no chão, ninguém os guardou debaixo da escada. Toda a casa era um corredor deserto, até o canário ficou mudo. Não dar parte de fraco, ah, Senhora, fui beber com os amigos. Uma hora da noite eles se iam. Ficava só, sem o perdão de sua presença, última luz na varanda, a todas as aflições do dia.
Sentia falta da pequena briga pelo sal no tomate — meu jeito de querer bem. Acaso é saudade, Senhora? Às suas violetas, na janela, não lhes poupei água e elas murcham. Não tenho botão na camisa. Calço a meia furada. Que fim levou o saca-rolha? Nenhum de nós sabe, sem a Senhora, conversar com os outros: bocas raivosas mastigando. Venha para casa, Senhora, por favor.
Dalton Trevisan
HUMANOS
Há alguma coisa em mim que não consigo controlar. Nunca dirijo meu carro por cima de uma ponte sem pensar em suicídio. Quero dizer, não fico pensando nisso. Mas passa pela minha cabeça: SUICÍDIO. Como uma luz que pisca. No escuro. Alguma coisa que faz você continuar. Saca? De outra forma, seria apenas loucura. E não é engraçado, colega. E cada vez que escrevo um bom poema, é mais uma muleta que me fazer seguir em frente. Não sei quanto às outras pessoas, mas quando me abaixo para colocar os sapatos de manhã, penso, Deus Todo-Poderoso, o que mais agora? A vida me fode, não nos damos bem. Tenho que comê-la pelas beiradas, não tudo de uma vez só. É como engolir baldes de merda. Não me surpreende que os hospícios e as cadeias estejam cheios e que as ruas estejam cheias. Gosto de olhar os meus gatos. Eles me acalmam. Eles me fazem sentir bem. Mas não me coloque em uma sala cheia de humanos. Nunca faça isso comigo. Especialmente numa festa. Não faça isso.
(...)
Charles Bukowski
MUITO VASTO
Quando eu não sei onde guardei um papel importante e a procura revela-se inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase "se eu fosse eu", que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar, diria melhor SENTIR.
E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser movida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas e mudavam inteiramente de vida.
Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua, porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei.
Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo que é meu e confiaria o futuro ao futuro.
"Se eu fosse eu" parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido.
No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teriamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos emfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando, porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais.
Clarice Lispector
sexta-feira, 1 de maio de 2015
O FIM E O FIM DO DIAGNÓSTICO PSIQUIÁTRICO IX
Na clínica, trabalhamos com síndromes psicopatológicas. Elas constituem um sistema aberto à serviço da Diferença. Não usamos o diagnóstico psiquiátrico no sentido de essência, rótulo, marca ou natureza do transtorno, da doença, do problema, da crise, etc. O real que nos chega numa consulta, por exemplo, está prenhe de significações que excedem os enunciados simples tipo"você sofre do pânico; você é depressivo, você é psicótico". Estas são verdades-trapaças (às vezes implícitas na fala técnica) que alimentam a auto-servidão do paciente. Melhor dizer: seja impaciente! No entanto, como estes mesmos diagnósticos são oficiais, legais, juridicamente instituídos, faz-se necessário reduzi-los a peças semiológicas de um agenciamento coletivo: o Encontro. Ora, se o cimento do Encontro são os afetos (desejos), os dados coletivos (onde? quando? como? quem? por que? ) mapeiam tais afetos (conhecidos ou desconhecidos) em prol de vivências ímpares, singularizações. Desse modo, diagnosticar não é conhecer mas ligar e /ou desligar elementos que fazem produzir um modo de subjetivação. Para tal acontecer, seguimos linhas do rizoma, linhas de risco. Não é isso a Vida?
A.M.
BOAS PESSOAS
A linguagem já não significa algo em que
se deva acreditar, mas indica o que vai ser feito e que os astutos ou
os competentes sabem descodificar, compreender por meias palavras.
E mais, apesar da abundância de carteiras de identidade, de
fichas e de meios de controle, o capitalismo nem sequer tem necessidade
de escrever nos livros para suprir as marcas desaparecidas
dos corpos. Não passam de sobrevivências, arcaísmos com funções
atuais. A pessoa deveio realmente “privada”, na medida em que
deriva das quantidades abstratas e devém concreta no devir-concreto
destas mesmas quantidades. Estas é que são marcadas, não mais as próprias pessoas: seu capital ou sua força de trabalho, o
resto não tem importância, você será sempre reencontrado nos
limites ampliados do sistema, ainda que seja preciso fazer um axioma
para você. Já não é necessário investir coletivamente os
órgãos, eles já estão suficientemente preenchidos pelas imagens
flutuantes que não param de ser produzidas pelo capitalismo. Essas
imagens, conforme observação de Henri Lefebvre, acarretam menos
uma publicação do privado do que uma privatização do público: o mundo inteiro se passa em família, sem que se tenha de
deixar sua televisão. Isto dá às pessoas privadas, como veremos,
um papel muito particular no sistema: um papel de aplicação, e não
mais de implicação num código. Aproxima-se a hora de Édipo.
(...)
Gilles Deleuze e F. Guattari in O Anti-Édipo
MILAGRE DO CAPITAL
À medida que a mais-valia relativa
se desenvolve no sistema especificamente capitalista e que a
produtividade social do trabalho cresce, as forças produtivas e as
conexões sociais do trabalho parecem destacar-se do processo produtivo
e passar do trabalho para o capital. Assim, o capital se
torna um ser bastante misterioso, pois todas as forças produtivas
parecem nascer no seio dele e lhe pertencer.
(...)
Karl Marx in O Capital
DE VOLTA AO FUTURO
O fracasso do pan-racionalismo socialista não pode ser explicado apenas por razões
históricas e empíricas. Sua razão profunda é ontológica: é ontologicamente que a
utopia marxiana que faz coincidir trabalho funcional e atividade pessoal é
irrealizável na escala dos grandes sistemas, pelo fato vidente de que o
funcionamento da megamáquina industrial-burocrática exige uma subdivisão das
tarefas que, uma vez instalada, perpetua-se e deve perpetuar-se por inércia, afim de
tornar fiável e calculável a funcionalidade de cada uma das engrenagens humanas.
A definição e a repartição as tarefas parciais são, portanto, determinadas pela
matriz material, transcrita no organograma, da megamáquina que se quer fazer
funcionar. É rigorosamente impossível, depois retraduzir tal funcionalização das
atividades heterodeterminadas em termos de colaboração social voluntária. Ao
contrário, a integração funcional dos indivíduos exclui sua integração social: a
predeterminação funcional e suas relações os impedirá de tecer elos recíprocos
fundados sobre a cooperação que visa a finalidades compartilhadas conforme
critérios compartilhados. Ela impedirá que vivam a execução de sua tarefa como
cooperação e pertencimento a um grupo.
(...)
André Gorz in Adeus ao proletariado
O SISTEMA CAPITALISTA
Este panfleto é um excerto do ensaio O Império Knuto-Germânico e a Revolução Social,
e está incluído em The Complete Works of Michael Bakunin [As Obras Completas de Mikhail
Bakunin] com o título de “Fragment” [“Fragmento”]. Partes do texto foram originalmente
traduzidas para o inglês por G. P. Maximoff, para sua antologia de escritos de Bakunin, e as
partes faltantes foram traduzidas por Jeff Stein, a partir da edição espanhola, que tem tradução
de Diego Abad de Santillán (Buenos Aires, 1926) vol. III, pp. 181-196.
Será necessário repetir aqui todos os argumentos irrefutáveis do socialismo, que até agora nenhum economista burguês conseguiu contestar? O que é a propriedade, o que é o capital em sua presente forma? Para o capitalista e para o detentor da propriedade, eles significam o poder e o direito, garantidos pelo Estado, de viver sem ter de trabalhar. E, uma vez que nem a propriedade, nem o capital produzem qualquer coisa se não forem fertilizados pelo trabalho, isso significa o poder e o direito de viver à custa da exploração do trabalho alheio, o direito de explorar o trabalho daqueles que não possuem propriedade ou capital e que, portanto, são forçados a vender sua força produtiva aos afortunados detentores de ambos. Note que eu não levei em consideração a seguinte questão: de que forma a propriedade e o capital foram cair nas mãos de seus atuais detentores? Essa é uma questão que, quando analisada a partir do ponto de vista da história, da lógica e da justiça, não pode ser respondida de qualquer outra forma senão como uma acusação contra os atuais proprietários. Vou deter-me aqui, então, à afirmação de que os detentores da propriedade e os capitalistas, não vivendo de seu próprio trabalho produtivo, mas da obtenção do aluguel de terras, casas, lucros sobre seu capital, da especulação sobre a terra, prédios e capitais, ou pela exploração comercial e industrial do trabalho manual do proletariado, vivem todos à custa do proletariado. (Especulação e exploração, sem dúvida, constituem também uma forma de trabalho, mas, em geral, tratam-se apenas de trabalho não-produtivo).
Eu não tenho dúvidas de que este modo de vida esteja altamente difundido em todos os países civilizados, de que ele seja expressa e fragilmente protegido por todos os Estados e que os Estados, religiões e todas as leis jurídicas, tanto criminais quanto civis, e todos os governos políticos, monarquias e repúblicas – com seus imensos aparatos judiciais e policiais e seus exércitos permanentes – não têm outra missão senão a de consagrar e proteger tais práticas. Na presença dessas autoridades poderosas e respeitáveis, eu não posso sequer permitir-me questionar se esse modo de vida é legitimo do ponto de vista da justiça, liberdade, igualdade e fraternidade humanas. Eu simplesmente me pergunto: sob tais condições, serão possíveis a fraternidade e a igualdade entre o explorador e o explorado, serão a justiça e a liberdade possíveis para o explorado?
Suponhamos ainda que, como tem sido sustentado pelos economistas burgueses, e junto com eles todos os advogados, todos os veneradores e fiéis ao direito jurídico, todos os sacerdotes dos códigos civil e criminal – suponhamos que essa relação econômica entre o explorador e o explorado seja legítima como um todo, que essa seja a conseqüência inevitável, o produto de uma eterna e indestrutível lei social e, ainda, que seja verdade que essa exploração sempre impedirá a fraternidade e a igualdade. É evidente que isso impede a igualdade econômica. Suponha que eu seja seu empregado e que você seja meu empregador. Se eu ofereço-lhe meu trabalho pelo menor preço, se eu permito que você viva do meu trabalho, isso certamente não se deve à minha devoção ou amor fraternal por você. E nenhum economista burguês atrever-se-ia dizer o contrário, não importando o quanto seu pensamento torne-se idílico e crédulo quando se trata de afeições recíprocas e relações mútuas que deveriam existir entre empregadores e empregados. Não, eu o faço porque minha família e eu morreríamos de fome se eu não trabalhasse para um empregador. Portanto, sou forçado a vender a você meu trabalho, pelo menor preço possível, e sou forçado a fazê-lo sob a ameaça da fome.
(...)
Mikail Bakunin, extraído do blog FARJ - Federação Anarquista do Rio de Janeiro
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