domingo, 2 de agosto de 2015

BADEN POWEL - Prelude in A minor


ORAÇÕES CAPITALISTAS


Primeira Edição: trecho do texto "A religião do capital" publicado originalmente no jornal  "Le Socialiste" de 27 de fevereiro de 1886. 
Transcrição de: Alexandre Linares.
HTML de José Braz para The Marxists Internet Archive.

I - Oração Dominical

Capital, pai nosso, que estais na terra, Deus Todo-Poderoso, que mudais o curso dos rios e ergueis montanhas, que reparais os continentes e unis as nações; criador das mercadorias e fonte de vida, que governais os reis e os servos, os patrões e os assalariados, que o vosso reino se estabeleça em toda a Terra.

Dai-nos muitos compradores para as nossas mercadorias, sejam elas más ou boas.

Dai-nos trabalhadores miseráveis que aceitem sem revolta todos os trabalhos e se contentem com o mais vil dos salários.

Dai-nos todos que acreditem nas nossas promessas.

Fazei com que os nossos devedores paguem integralmente as suas dívidas e que os bancos descontem as nossas letras.

Fazei com que a prisão de Mazas nunca se abra para nós e afastai para longe a falência.

Concedei-nos rendimentos perpétuos. Amém.

II - Credo

Creio no capital que governa a matéria e o espírito.

Creio no lucro, seu tão legítimo filho, e no crédito, o Espírito-Santo, que dele procede e com ele é adorado.

Creio no Ouro e na Prata, os quais, torturados na Casa da Moeda, fundidos nos cadinhos e martelados nas máquinas, reaparecem ao mundo como moeda legal; e que, depois de circularem por toda a terra, descem às caves do banco para ressuscitar como Papel-Moeda.

Creio no juro de cinco por cento, de quatro ou três por cento e na Cotação real dos valores.

Creio no Grande Livro da Dívida Pública, que protege o Capital dos riscos do Comércio, da Indústria e da Usura.

Creio na Propriedade individual, fruto do trabalho dos outros e na sua continuidade até o fim dos séculos.

Creio na necessidade da Miséria, fonte dos assalariados e mãe do sobretrabalho.

Creio na Eternidade do Salariato, que livra o trabalhador das preocupações da propriedade.

Creio no prolongamento do dia de trabalho e na redução dos salários e também na falsificação dos produtos.

Creio no dogma sagrado: COMPRAR BARATO E VENDER CARO. E, do mesmo modo, creio nos princípios eternos da nossa Santa Igreja, a Economia política oficial. Amém.

III - SAUDAÇÃO
(Avé Miséria)

Salvé, Miséria, que esmagais e dominais o trabalhador, que dilacerais as suas entranhas com a fome, atormentadora infatigável, que o condenais a vender a liberdade e a vida por uma côdea de pão. Vós que quebrais o espírito de revolta, que infligis no produtor, na sua mulher e nos seus filhos, os trabalhos forçados das prisões capitalistas. Salvé, Miséria, cheia de graça.

Virgem Santa, que engendrais o Lucro capitalista, deusa formidável que nos dai a classe aviltada dos assalariados, bendita sejas.

Mãe terna e fecunda do Sobretrabalho, que geras as rendas, os juros, os rendimentos, guardai-nos a nós e aos nossos.

Amém.

IV - Adoração do Ouro 

Ó Ouro, mercadoria miraculosa, que trazes em ti as outras mercadorias.

Ó Ouro mercadoria primogênita, em que se converte toda a mercadoria.

Ó Deus que tudo sabes medir.

Tu, a mais perfeita, a mais ideal materialização do Deus-Capital.

Tu, o mais nobre, o mais grandioso elemento da natureza.

Tu, que não conheces bolor, nem caruncho, nem ferrugem.

Ó Ouro, mercadoria inalterável, flor resplandecente, raio brilhante, sol reluzente. Metal sempre virgem, que, arrancado às entranhas da terra, antiga mãe das coisas, de novo te escondes, longe das luzes, nos cofres-fortes dos usurários e nas caves dos Bancos e que, do fundo dos esconderijos onde te amontoas, transmites ao papel vil e miserável a tua força que ele multiplica.

Ó Ouro inerte que removes o universo, diante da tua esplendorosa majestade os séculos ajoelham-se e adoram-te humildemente.

Concede a tua graça divina aos fiéis que te imploram e que, para te possuírem, sacrificam a honra e a virtude, a estima dos homens, o amor da mulher que amam dos filhos da carne, e que arrastam o desprezo por si próprios.

Ó Ouro, senhor soberano, sempre invencível, eternamente vitorioso, escutai as nossas preces.

Construtor de cidades e destruidor de impérios.

Estrela polar da moral.

Tu, que pesas as consciências.

Tu, que ditas as leis às nações e que fazes curvar sob o seu jugo os Papas e os Imperadores, escutai as nossas preces.

Tu, que ensinas o sábio a falsificar a ciência, que persuades a mãe a vender a virgindade da filha e que obrigas o homem livre a aceitar a escravatura na fábrica, escutai as nossas preces.

Tu, que produzes flores e frutos desconhecidos da natureza.

Que semeias os vícios e as virtudes.

Que engendras as artes e o luxo, escutai as nossas preces.

Tu, que prolongas os anos inúteis do ocioso e abrevias os dias do trabalhador, escutai as nossas preces.

Tu, que sorris ao capitalista no seu berço e que açoitas o proletário no seio da sua mãe, escutai as nossas preces.

Ó Ouro, viajante infalível, que gozas com as fraudes e as intrujices, atendie as nossas súplicas.

Intérprete de todas as línguas.

Medianeiro sutil.

Sedutor irresistível.

Padrão dos homens e das coisas, atende as nossas súplicas. Mensageiro da paz e fator da discórdia.

Distribuidor do descanso e do sobretrabalho.

Auxiliar da virtude e da corrupção, atendei as nossas súplicas.

Deus da persuasão, tu, que fazes ouvir os surdos e que soltas a língua aos mudos, atendei as nossas súplicas.

Ó Ouro, maldito e invocado por inumeráveis preces, venerado pelos capitalistas e amado pelas cortesãs, atendei as súplicas.

Distribuidor do bem e do mal.

Desgraça e alegria dos homens.

Cura das doenças e bálsamo das dores, atendei as nossas súplicas.

Tu, que seduzes o mundo e pervertes a razão humana.

Tu, que embelezas as fealdades e enfeitas as desgraças.

Pacificador universal, tu, que rendes homenagem à vergonha e à desonra, que tornas respeitáveis o roubo e a prostituição, atendei as nossas súplicas.

Tu, que cobres a covardia com as glórias devidas à coragem.

Que concedes à fealdade as homenagens devidas à beleza.

Que doas à decrepitude os amores devidos à juventude.

Mágico do mal, atendei as nossas súplicas.

Demônio que desencadeias a morte e a loucura, atendei as nossas súplicas.

Chama que alumia os caminhos da vida.

Guia, protetor e salvação dos capitalistas, atendei as nossas súplicas.

Ó Ouro, rei da glória, Sol da justiça.

Ó Ouro, força e alegria da vida. Ó Ouro, ilustre vem a nós.

Espelho dos prazeres. Tu, que dás aos que nada fazem os frutos do trabalho, vem a nós Tu, que enches os celeiros e as pipas dos que não ceifam o trigo nem podam as vinhas, vem a nós.

Tu, que alimentas de carne e peixe os que não guardam os rebanhos nem afrontam as tempestades do mar, vem a nós.

Tu, a força, a ciência e a inteligência do capitalista, vem a nós.

Tu, a virtude e a glória, a beleza e a honra do capitalista, vem a nós.

Oh! Vem a nós Ouro Sedutor, esperança suprema, começo e fim de toda ação, de todo o pensamento, de todo o sentimento capitalista.

Amém.


Paul Lafargue - 1886

ALÉM DA IMAGINAÇÃO - Nighcrawlers


sábado, 1 de agosto de 2015

PODER E CIÊNCIAS HUMANAS

(...)A filosofia está penetrada pelo projeto de tornar-se a língua oficial de um puro Estado. O exercício do pensamento se conforma, assim, com os objetivos do Estado real, com significações dominantes como com as exigências da ordem estabelecida. Nietzsche disse tudo sobre esse ponto em Schopenhauer educador. O que é esmagado e denunciado como nocivo é tudo o que pertence a um pensamento sem imagem, o nomadismo, a máquina de guerra, os devires, as núpcias contra natureza, as capturas e os roubos, os entre-dois-reinos, as línguas menores ou as gagueiras na língua etc. Certamente, outras disciplinas que não a filosofia e sua história podem desempenhar esse papel de repressor do pensamento. Pode-se até mesmo dizer, hoje, que a história da filosofia fracassou, e que "o Estado não precisa mais da sanção da filosofia". Amargos concorrentes, porém, já tomaram o lugar. A epistemologia substituiu a história da filosofia. O marxismo braniu um julgamento da história ou até mesmo um tribunal do povo que são, antes de tudo, mais inquietantes que os outros. A psicanálise ocupa-se cada vez mais da função "pensamento", e não é à toa que se casa com a lingüística. São os novos aparelhos de poder no próprio pensamento, e Marx, Freud, Saussure compõem um curioso Repressor de três cabeças, uma língua dominante maior. Interpretar, transformar, enunciar são as novas formas de idéias "justas". Até mesmo o marcador sintático de Chomsky é, antes, um marcador de poder. A lingüística triunfou ao mesmo tempo que a informação se desenvolvia como poder, e impunha sua imagem da língua e do pensamento, conforme à transmissão das palavras de ordem e à organização das redundâncias.
(...)
G. Deleuze  C. Parnet in Diálogos
AMOR

Onde agora? Onde? Tenho uma casa de campo, tenho um diamante do tamanho de um ovo de pomba... Eu pintava os olhos diante do espelho, tinha um compromisso, vivia cheia de compromissos, ia a uma boate com um banqueiro. Enrodilhada na cama, ele tocava na surdina. Meus olhos foram ficando cheios de lágrimas. Enxuguei-os na fralda do saxofone e fiquei olhando para a minha boca que achei particularmente fina. Se você me ama mesmo, eu disse, se você me ama mesmo então saia e se mate imediatamente
(...)

Lygia Fagundes Telles

GILLES DELEUZE

O que é pensar?

NOITE MORTA


Noite morta.
Junto ao poste de iluminação
Os sapos engolem mosquitos.


Ninguém passa na estrada.
Nem um bêbado.


No entanto há seguramente por ela uma procissão de sombras.
Sombras de todos os que passaram.
Os que ainda vivem e os que já morreram.


O córrego chora.
A voz da noite . . .


(Não desta noite, mas de outra maior.)


Manuel Bandeira

LUA CHEIA DE DESEJOS


RAZÃO ESGOTADA

Por toda a parte, o panorama social é o do respeito ao psiquiatra (mesmo que ele seja um canalha farmacológico) e por extensão à psiquiatria. Ora, a reverência à psiquiatria vem de longe, e nada tem a ver com o paciente, com o cuidado ao paciente, e mais, nada tem a ver com a Diferença enquanto modo de existir. Tem a ver, sim, com os valores estáveis do senso comum: ser normal é a palavra de ordem. A reverência a um poder instituído se impôs como elemento natural e banal e aqui a substituímos por uma obediência à psiquiatria, o que tem a ver, bem mais, com o medo à loucura e a tudo que ela implica de efeitos subjetivos: buracos do sentido, desorganização sócio-mental, perda de referências de valor da existência, dissolução de identidades caras ao viver, como a do eu e a do organismo físico-químico, etc. Neste emaranhado de realidades insuportavelmente suportáveis, uma pergunta ressoa sem limites e sem concessões à ciência conformista :o que fazer com o que ultrapassa o discurso rasteiro e elegante da razão capitalística?

A.M.

GRANDES ESCRITOS


O ESTRANHO

Quanto mais alta a sensibilidade, e mais sutil a capacidade de sentir, tanto mais absurdamente vibra e estremece com as pequenas coisas. É preciso uma prodigiosa inteligência para ter angústia ante um dia escuro. A humanidade, que é pouco sensível, não se angustia com o tempo, porque faz sempre tempo; não sente a chuva senão quando lhe cai em cima.
(...)

Fernando Pessoa
Costuro o infinito sobre o peito.

Hilda Hilst

JOAN MIRÓ


Um dia, o sol admitiu:
Sou apenas uma sombra,
quisera poder mostrar-te a infinita incandescência
que lançou minha imagem brilhante.
Quisera poder mostrar-te,quando você se sentir só ou na escuridão,
a surpreendente luz do seu próprio ser.

Hafiz
MICROPOLÍTICAS

É necessário guardar o suficiente do organismo para que ele se recomponha a cada aurora; pequenas provisões de significância e de interpretação, é também necessário conservar, inclusive para opô-las a seu próprio sistema, quando as circunstâncias o exigem, quando as coisas, as pessoas, inclusive as situações nos obrigam; e pequenas rações de subjetividade, é preciso conservar suficientemente para poder responder à realidade dominante. Imitem os estratos. Não se atinge o CsO * e seu plano de consistência desestratificando grosseiramente. Por isto encontrava-se desde o início o paradoxo destes corpos lúgubres e esvaziados: eles haviam se esvaziado de seus órgãos ao invés de buscar os pontos nos quais podiam paciente e momentaneamente desfazer esta organização dos órgãos que se chama organismo. Havia mesmo várias maneiras de perder seu CsO, seja por não se chegar a produzi-lo, seja produzindo-o mais ou menos, mas nada se produzindo sobre ele e as intensidades não passando ou se bloqueando. Isso porque o CsO não pára de oscilar entre as superfícies que o estratificam e o plano que o libera. Liberem-no com um gesto demasiado violento, façam saltar os estratos sem prudência e vocês mesmos se matarão, encravados num buraco negro, ou mesmo envolvidos numa catástrofe, ao invés de traçar o plano. O pior não é permanecer estratificado — organizado, significado, sujeitado — mas precipitar os estratos numa queda suicida ou demente, que os faz recair sobre nós, mais pesados do que nunca,
(...)
G. Deleuze e F. Guattari in Mil Platôs, vol 3

CsO = Corpo sem Órgãos