sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

ASTOR PIAZOLLA E GERRY MULLIGAN - Years of Solitude


UMA POLÍTICA DA VIDA

(...) Tornar-se um território propício ao desfile dos devires nos parece, sem dúvida, um fenômeno estético, e nos parece também que esse é um objetivo essencial da filosofia deleuziana, talvez o mais importante e notável; neste trabalho, esse objetivo é nossa linha mestra. É certo que esse objetivo, o de se tornar um território fértil, deva ser pensado como uma colocação subjetiva ou individual, talvez este seja o derradeiro ato político que aparece em Deleuze, não o ato, como se este fosse a apoteose de sua filosofia, mas uma discrição, um devir ou uma virtualidade. Sabemos que todas as partículas em velocidade, consideradas sob um desenvolvimento normal, em algum momento hão de precipitar, talvez esse seja um momento análogo àquele em que tantas possibilidades de um pensamento precipitam-se num uso dominante: a reivindicação do pensamento deleuziano pelos movimentos políticos, seja de um grupo ou de um pensador, parece corresponder exatamente ao momento precipitante. Entendemos as urgências sociais e planetárias, a calamidade que se exibe no abismo existente entre um miserável que se alimenta de papelão e um milionário que coleciona lipoaspirações; imaginamos o quanto um profissional da psicologia social não deve ter chegado até essa especialidade senão por um viés crítico e humanitário (esqueçamos qualquer sentido pejorativo desse adjetivo, pois sabemos muito bem o que sentimos diante da decrepitude humana, para o bem ou para o mal); compreendemos o sentimento de revolta que todo aquele que, por uma benção ou fatalidade, alguma vez nessa vida tomou consciência da condição e circunstâncias humanas. Como num momento delicado, no qual a gagueira precede a notícia, não sabemos muito bem por onde começarmos. Certamente não diríamos que o pensamento de Deleuze não serve à consciência insurreta, nem que essa não é o melhor acolhimento das suas idéias, mas estamos tentados a usar, pela primeira vez, um artigo definido e dizer que no (e não num dos) pico mais intenso da sua filosofia, onde ferve o afecto mais perturbador da sua arte, o presente desfere um golpe mortal no seu passado, o esquecimento consome o destino daquele que desfrutava de um rosto, o emprego, o próprio nome, a mágoa e a esperança, qualquer horizonte, a vida ordinária, tudo isso se esvai. Um brutal acontecimento. Não há restituição ulterior possível. Ele nos colocou nalgum instante na corredeira da vida. Não é possível nos tornarmos reformadores, o que nos cabe é transformar, transfigurar; não podemos mais criar um partido, mas podemos agregar amigos; não podemos mais convencer os mais fortes de sua fraqueza e tampouco os mais fracos de sua força, nos foi roubado o fundamento, o argumento, o julgamento, o ressentimento, a redenção. Desapegamos de nós mesmos e nos apaixonamos pelo que acontece, desperdiçamos nossa vontade e mergulhamos no desejo, nos matam a cada dia e no dia seguinte renascemos em todo lugar, nos tornamos a vida e a vida não morre. Eis a nossa beleza, eis a nossa alienação; ainda nos resta sentir, ainda nos resta pensar, ainda nos resta sonhar. Não temos nem habitamos alguma polis, nos falta o sujeito e a alteridade, nos falta a comunicação, somos ninguém fitando os olhos de outrem, fabulando a imagem de um mundo deserto, a espera do povo porvir... somos solidão... povoada. Morreremos sentados, mas sorrindo!
(...)
Daniel D. Trindade e Tania M.G. Fonseca, "Que política é possível com o pensamento deleuziano?" in Revista Mal Estar e Subjetividade, v. 9,n.1, Fortaleza, mar/2000

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

O NEGÓCIO DO AMOR

Jesus escolheu, para nascer, um deserto subtropical onde jamais nevou, mas a neve se converteu num símbolo universal do Natal desde que a Europa decidiu europeizar Jesus. 
O nascimento de Jesus é, hoje em dia, o negócio que mais dinheiro dá aos mercadores que Jesus tinha expulsado do templo.
(...)
Eduardo Galeano
Estamos todos ferrados. É bom lembrar disto.

George Carlin

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

HIERONYMUS BOSCH


UMA CONVERSA: PARA QUE SERVE?

A filosofia está penetrada pelo projeto de tornar-se a língua oficial de um puro Estado. O exercício do pensamento se conforma, assim, com os objetivos do Estado real, com significações dominantes como com as exigências da ordem estabelecida. Nietzsche disse tudo sobre esse ponto em Schopenhauer educador. O que é esmagado e denunciado como nocivo é tudo o que pertence a um pensamento sem imagem, o nomadismo, a máquina de guerra, os devires, as núpcias contra natureza, as capturas e os roubos, os entre-dois-reinos, as línguas menores ou as gagueiras na língua etc. Certamente, outras disciplinas que não a filosofia e sua história podem desempenhar esse papel de repressor do pensamento. Pode-se até mesmo dizer, hoje, que a história da filosofia fracassou, e que "o Estado não precisa mais da sanção da filosofia". Amargos concorrentes, porém, já tomaram o lugar. A epistemologia substituiu a história da filosofia. O marxismo braniu um julgamento da história ou até mesmo um tribunal do povo que são, antes de tudo, mais inquietantes que os outros. A psicanálise ocupa-se cada vez mais da função "pensamento", e não é à toa que se casa com a lingüística. São os novos aparelhos de poder no próprio pensamento, e Marx, Freud, Saussure compõem um curioso Repressor de três cabeças, uma língua dominante maior. Interpretar, transformar, enunciar são as novas formas de idéias "justas". Até mesmo o marcador sintático de Chomsky é, antes, um marcador de poder. A lingüística triunfou ao mesmo tempo que a informação se desenvolvia como poder, e impunha sua imagem da língua e do pensamento, conforme à transmissão das palavras de ordem e à organização das redundâncias. Não tem realmente muito sentido se perguntar se a filosofia está morta, quando muitas outras disciplinas retomam sua função. Não reclamamos direito algum à loucura, tanto a loucura passa pela psicanálise e pela lingüística reunidas, quanto está penetrada por idéias justas, por uma forte cultura ou por uma história sem devir, quanto ela tem seus palhaços, seus professores e seus pequenos chefes.
(...)
G. Deleuze e C. Parnet in Diálogos
NOVA RELAÇÃO DE FORÇAS

Convidado a optar entre Dilma Rousseff e o abismo —que muitos acreditam ser a mesma coisa—, o PT deu sua resposta nesta quarta-feira: “Dane-se Dilma.” Depois de muita hesitação, o petismo decidiu que os três deputados que o representam no Conselho de Ética da Câmara votarão a favor da continuidade do processo que pode levar à cassação do mandato de Eduardo Cunha. Com esse gesto, o partido de Dilma desafiou o presidente da Câmara a cumprir a ameaça de deflagrar o processo de impeachment. A Câmara ferve. E Dilma treme.

Desde fevereiro, quando prevaleceu na disputa pela presidência da Câmara, Cunha tem sido o poder de fato em Brasília. Como eminência parda, ele se beneficia dos privilégios do poder com uma vantagem sobre a ocupante da cadeira de presidente da República: a de ser um poder presumido, que nunca precisou de fato provar se é um mito ou se é verdade. Fraca, Dilma nunca pagou para ver.

Por via das dúvidas, Dilma havia decidido novamente não contrariar Cunha no Conselho de Ética. Mas o PT, já afundado no pântano de suas contradições morais, avaliou que já não lhe convém carregar nos ombros as culpas alheias. Cunha tem a força mágica de coagir o poder. Mesmo arrastando as correntes de uma denúncia no STF e do dinheiro escondido na Suíça, ele mete medo no Planalto. Nos próximos dias, o país saberá o quanto há de folclore e de realidade nesse poder jamais submetido a uma aferição.

Do Blog do Josias de Souza, 02/12/2015, 16:17 hs
LIMITES E DESLIMITES

Para "acessar" o paciente dito esquizofrênico, há uma dificuldade elementar que traduz a limitação clínica e o pensamento tosco da visão bio-neurológica da psiquiatria. O esquizofrênico, o qual "deveria" se achar doente, não se sente doente, "não está doente". Ora, como ajudar alguém que "não precisa" de ajuda? Neste caso, até o "sofrimento mental" poderia ser questionado, já que sofre quem delira, por exemplo, um tema de grandeza? Como disse um ex-paciente, "eu mandei Deus criar o mundo". Que sentimentos, que afetos , que sensações precedem e infundem tal vivência desconcertante? A psiquiatria clínica, de orientação cidológica, é pequena e nociva ante a vastidão dos processos singulares da subjetividade. O que fazer?

A.M.

SÍLVIA MACHETE - Gente Aberta


SOSSEGA CORAÇÃO

Sossega, coração! Não desesperes! 
Talvez um dia, para além dos dias, 
Encontres o que queres porque o queres. 
Então, livre de falsas nostalgias, 
Atingirás a perfeição de seres. 
Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo! 
Pobre esperança a de existir somente! 
Como quem passa a mão pelo cabelo 
E em si mesmo se sente diferente, 
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!
Sossega, coração, contudo! Dorme! 
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme.
A grande, universal, solene pausa 
Antes que tudo em tudo se transforme. 

Sossega coração e adormeça !


Fernando Pessoa

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Não podemos exigir que os outros sejam como queremos. Pois nem nós o somos.

Lao-Tsé

CHEGOU A HORA

Pela terceira vez, o Conselho de Ética da Câmara se reúne para decidir se o pedido de cassação do mandato de Eduardo Cunha deve prosseguir ou ser engavetado. A única salvação de Cunha hoje é a desmoralização da instituição legislativa. A esse ponto chegaram os deputados: se quiserem salvar o mandato de Cunha, uma Câmara inteira terá de cair. Só a desmoralização da Câmara salva seu presidente. Fiel da balança, o PT hesita.

O Datafolha demonstrou que, do lado de fora, o brasileiro cordial é um ser em extinção. Há uma fome de limpeza no ar: 81% dos patrícios querem ver o presidente da Câmara cassado. Repetindo: oito em cada dez brasileiros sonham com um Cunha sem mandato, ao alcance de uma ordem de prisão do juiz Sérgio Moro. O país está com um convulsivo apetite de punição.

Na semana passada, a tradição da política brasileira para o nanismo foi rompida no Senado —por 59 votos a 13, os senadores avalizaram a ordem de prisão expedida pelo STF contra o líder do governo Delcídio Amaral. Fizeram isso contra a vontade do investigado Renan Calheiros e contra a bancada do PT, que deu nove votos pelo relaxamento da cana.

Agora, os 21 deputados do Conselho de Ética precisam informar ao país quem são. Se votarem ‘sim’, pela admissibilidade do processo contra Cunha, estarão oferecendo a si mesmos uma oportunidade para elevar a própria estatura. Se prevalecer o ‘não’, os deputados estarão fazendo uma opção por rebaixar o pé direito da edificação de Niemeyer.

Do Blog do Josias de Souza, 01/12/2015, 05:22 hs
MÃE

O papel da mãe é o desejo da mãe. É capital. O desejo da mãe não é algo que se possa suportar assim, que lhes seja indiferente. Carreia sempre estragos. Um grande crocodilo em cuja boca vocês estão - a mãe é isso. Não se sabe o que lhe pode dar na telha, de estalo fechar sua bocarra. O desejo da mãe é isso.
(...)
Jacques Lacan

GERHARD RICHTER


DA BÍBLIA DO CAOS: NOVO EVANGELHO


A verdade é que os de cima realmente não trabalham. Não vamos tergiversar, trabalhar é dar duro, é suar, é fazer coisas que não são agradáveis, nem ocasionais, "faço hoje, depois faço quando me der na telha". Pois é, os de cima, que não trabalham, não produzem dinheiro. Em compensação têm todo o tempo pra bolar esquema de tomar o dinheiro dos que estão por baixo e trabalham, e dão duro, e suam, e fazem, continuadamente, coisas que não são agradáveis. E, para tomarem esse dinheiro que não lhes pertence,os de cima inventam palavras nobres, como mordomia, financia, ideologia, macroeconomia e constituinteria.


A cada dia que passa, permissividade ou não permissividade, censura ou não censura, continua sendo imoral se discutir em público, em todos os meios, o tamanho do mandato do Presidente.


Este país não pode melhorar enquanto o governo gastar todo o seu dinheiro na propaganda da rosca e a oposição colocar todo seu esforço na condenação do furo.

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Não se assuste porque no Brasil cada vez há mais desempregados, mais famintos e mais violência. Está provado que é o clima.


Não devemos odiar com fins lucrativos. O ódio perde a sua pureza.

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Não hesite quando, no caminho da sua vida, você encontrar uma bifurcação; siga em frente.


Depois de teimosa e solitária antevisão, lutando contra tudo, gastando meses de preparação, usando de alta técnica, pondo dentro de sua embarcação um membro de cada espécie existente, enfrentando quarenta dias de navegação em águas violentas, Noé conseguiu , afinal, salvar a humanidade da extinção. Sozinho, contra todos, até Deus, pois las intenciones de Dios eram bien conocidas. Imediatamente passou a ser chamado de anti-diluviano. Assim vai a ingratidão humana.


Enquanto uma verdade existe por si mesma, por aí, metafísica, pairando no ar ,incerta e viva, tudo bem. Mas, desde que é apreendida por uma cabeça humana, sofre um processo de alteração irreversível, a refração de cada cabeça nova que por via direta ou indireta, toma conhecimento dela, e a transforma e conspurca. E está poluída pra todo o sempre.


Moderno. Moderno em relação a quê? Moderno é apenas um pressuposto cronológico. Se o rádio tivesse sido inventado depois da televisão as crianças sairiam correndo, maravilhadas: "Mamãe, mamãe, inventaram uma televisão sem cara!"


Vocês têm que aprender de uma vez por todas que os "X Mandamentos" nunca pretenderam ser restrições. Eram meras sugestões.


Meninas, vocês não fiquem o tempo todo aí sentadas, limpinhas, comportadas, respeitando pai e mãe, sem nenhum excesso sexual. O que é que vocês fazem de tudo que aprenderam nos programas de televisão?


A todos os verdes: Só se controla a natureza controlando a natureza humana.

(...)

Millôr Fernandes