Este blog busca problematizar a Realidade mediante a expressão de linhas múltiplas e signos dispersos.
domingo, 6 de dezembro de 2015
sábado, 5 de dezembro de 2015
NOITE MORTA
Junto ao poste de iluminação
Os sapos engolem mosquitos.
Ninguém passa na estrada.
Nem um bêbado.
No entanto há seguramente por ela uma procissão de sombras.
Sombras de todos os que passaram.
Os que ainda vivem e os que já morreram.
O córrego chora.
A voz da noite...
(Não desta noite, mas de outra maior.)
Manuel Bandeira
OUTRAS POLÍTICAS
Apesar do anacronismo dos termos "Direita" e "Esquerda", podemos utilizá-los como referências móveis para situações políticas atuais. Seja o Brasil: a onda anti-Dilma fez e faz por ocultar e nivelar diferenças políticas sob um regime de aparência imagética que a mídia produz sem cessar: subjetividades do eu consumidoras do ressentimento. Desse modo, o conservadorismo avança sorrateiro na adesão a formas sociais rígidas, por vezes beirando um fascismo reeditado. Um exemplo simples são os que querem a volta dos militares. Mas há muitos outros, não tão idiotas, mas, ao contrário, intelectualmente refinados. Estão por toda parte. Em contrapartida, não consideramos a existência de uma Esquerda "pura", mas sim, de um território socio-subjetivo sem Dono, de uma dissolução do sentido, e da análise dos fatos políticos a partir de elementos éticos postos em jogo. Segundo essa ótica, a cena política brasileira ilustra bem a necessidade de um "para além" do dualismo estéril Planalto versus Câmara dos Deputados.
A.M.
GATOS
Ele fixara em Deus aquele olhar de esmeralda diluída, uma leve poeira de ouro no fundo. E não obedeceria porque gato não obedece. Às vezes, quando a ordem coincide com sua vontade, ele atende mas sem a instintiva humildade do cachorro, o gato não é humilde, traz viva a memória da sua liberdade sem coleira. Despreza o poder porque despreza a servidão. Nem servo de Deus. Nem servo do Diabo.
(...)
Lygia Fagundes Telles
O RECUO
O governo Alckmin publicou, neste sábado (5), no Diário Oficial de São Paulo, o decreto nº 61.962, que revoga um outro que permitia a reorganização escolar no Estado de São Paulo.
"Decreto nº 61.692, de 4 de dezembro de 2015: Revoga o Decreto nº 61.672, de 30 de novembro de 2015.
Geraldo Alckmin, Governador do Estado de São Paulo, no uso de suas atribuições legais, Decreta: Artigo 1º - Fica revogado o Decreto nº 61.672, de 30 de novembro de 2015, que disciplina a transferência dos integrantes dos Quadros de Pessoal da Secretaria da Educação. Artigo 2º - Este decreto entra em vigor na data de sua publicação."
(...)
Do UOL em São Paulo, 05/12/2015, 08:21 hs
NADA PESSOAL
(...) É como na vida. Há na vida uma espécie de falta de jeito, de
fragilidade da saúde, de constituição fraca, de gagueira vital que é o charme
de alguém. O charme, fonte de vida, como o estilo, fonte de escrever. A vida
não é sua história; aqueles que não têm charme não têm vida, são como
mortos. Só que o charme não é de modo algum a pessoa. É o que faz
apreender as pessoas como combinações e chances únicas que determinada
combinação tenha sido feita. É um lance de dados necessariamente
vencedor, pois afirma suficientemente o acaso, ao invés de recortar, de
tornar provável ou de mutilar o acaso. Por isso, através de cada combinação
frágil é uma potência de vida que se afirma, com uma força, uma
obstinação, uma perseverança ímpar no ser. É curioso como os grandes
pensadores têm, a um só tempo, uma vida pessoal frágil, uma saúde
bastante incerta, ao mesmo tempo que levam a vida ao estado de potência
absoluta ou de "grande Saúde". Não são pessoas, mas a cifra de sua própria
combinação. Charme e estilo não são boas palavras, seria preciso encontrar
outras, substituí-las. É a um só tempo que o charme dá à vida uma
potência não pessoal, superior aos indivíduos, e que o estilo dá à escritura
um fim exterior que transborda o escrito.
(...)
G.Deleuze e C. Parnet in Diálogos
sexta-feira, 4 de dezembro de 2015
CÁ ENTRE NÓS
Se for verdade que todos viemos do centro de uma estrela, cada átomo em nós veio do centro de uma estrela, então somos todos a mesma coisa.
Mesmo uma máquina de refrigerante ou uma ponta de cigarro é feita de átomos que vieram das estrelas.
Todas foram reciclados milhares de vezes, como eu e você.
Portanto, o que há lá fora é simplesmente EU, não há o que temer, não há com o que se preocupar.
Então o que temer, pois tudo somos nós!
Nós fomos separados por termos nascido, recebido um nome e uma identidade.
Fomos separados da Unidade, e isso é o que a religião explora: as pessoas tem esse anseio por fazer parte da Unidade de novo, e isso é explorado, batizam-no de Deus, dizem que ele tem regras, e eu acho isso cruel. Acho que você pode fazer isso sem religiões.
George Carlin
Confesso que vi o vento — esta manhã —
passar disfarçado de janela por minha violeta
Sim, esta manhã, confesso que vi o vento
passar disfarçado de violeta por minha janela
Assinei, como vento, esta manhã, minha sentença final:
Execução por sintaxe, lavra por lavra, sinal por sinal
Estava noutra esfera esta manhã. Comovido da vida
Pensava em bigorna, ferradura, carabina, roda, espora
Minha alma quer martelo agora – amalgamar esta manhã
com a manhã de amanhã, é o que mais ela quer...
Minh’alma algemada ao caos, feérica e furtiva
Essa coisa dura de dupla naturalidade, alminha mimada
Alma desdenhada que clama, reclama, implora catarse
Adora promover tempestade a troco de nada
Agora, fervorosa, quer que todos saibam disso
Aristides Klafke
NORMALIDADE DOS SINTOMAS
Os sintomas, como tais, não são nossos inimigos, mas nossos amigos; onde há sintomas, há conflito, e conflito indica sempre que as forças da vida, que pugnam pela harmonização e pela felicidade, ainda lutam. As vítimas de doença mental realmente arruinadas encontram-se entre os que parecem mais normais. Muitos dos que são normais, são-no porque se encontram tão bem adaptados ao nosso modo de viver, porque as suas vozes humanas ficaram reduzidas ao silêncio tão cedo em suas vidas, que nem porfiam, ou sofrem, ou exibem sintomas como o neurótico. São normais, não no que se pode denominar no sentido restrito da palavra; são normais apenas em relação a uma sociedade imensamente anormal. O seu perfeito ajustamento a essa sociedade anormal dá a proporção de sua doença mental.
(...)
Aldous Huxley in Admirável Mundo Novo
NADA A TEMER
O ministro Eliseu Padilha, da Aviação Civil, pediu demissão. Não é um ministro qualquer. Entre os integrantes da Esplanada, é o mais próximo do vice-presidente Michel Temer. Já se sabia que, deflagrado o processo de impeachment, Temer tornara-se um vice a caminho do Rubicão. A saída de Padilha apressou o processo, acomodando o vice às margens do rio. Mais: indica que Temer não tomou o rumo do Rubicão para pescar. Se alguém ainda tinha dúvidas, fica agora entendido que Dilma não deve esperar do seu vice nenhum engajamento na defesa do mandato presidencial.
Padilha tinha vários pretextos para deixar o cargo. Queixava-se de não ser valorizado. Reclamava de falta de verbas para colocar planos em pé. De resto, indicou um nome para a diretoria da Agência Nacional de Aviação Civil —Juliano Noman— que foi barrado pelo Planalto. Mas ele só bateu em retirada depois de participar, na quinta-feira, de uma reunião em que Dilma discutiu com ministros as estratégias do governo para barrar o impeachment. A conversa deixou Padilha desconfortável dentro dos sapatos.
Na noite desta quinta-feira (3), o amigo de Temer procurou o ministro Jaques Wagner (Casa Civil) para entregar-lhe a carta. Não foi atendido. Decidiu, então, entregar o documento no protocolo do Planalto. Com esse gesto, Padilha como que bateu a porta ao sair. Tudo, naturalmente, combinado com Temer, agora de frente para o Rubicão, à espera do melhor momento para atravessar o rio.
Do Blog do Josias de Souza,04/12/2015,15:01 hs
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