domingo, 3 de abril de 2016

O sexo é o alívio da tensão. O amor é a causa.

Woody Allen

LIQUIDAÇÃO


INDEFINIDO, AINDA, MAS...

Levantamento do ‘Estado’ com 442 dos 513 deputados da Câmara mostra que maioria votaria hoje pelo afastamento de Dilma; resultado mostra indefinição e resistência de parlamentares de partidos assediados pelo Planalto, como PP e PR, em defender a petista

BRASÍLIA - A menos de duas semanas da data estimada para a votação do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff no plenário da Câmara, 261 deputados afirmaram ao Estado que votariam a favor da abertura do procedimento e 117 se posicionaram contra. Nove não quiseram se manifestar, 55 disseram estar indecisos ou preferiam esperar a orientação partidária e 71 integrantes de 15 siglas não foram localizados. 

Para a abertura do processo de impeachment na Câmara são necessários 2/3 do plenário: 342 votos. Para arquivar o processo o governo precisa do apoio de 171 deputados, entre votos a favor, faltas e abstenções. Entre os que querem o impeachment já se fala em estender a sessão, que deve ocorrer até o dia 15, se não houver recurso do governo, até o domingo. O objetivo é atrair mais atenção da população para uma batalha que os números mostram estar acirrada e ainda em aberto.
(...)
Gabriela Caesar e Valmar Hupsel Filho, O Estado de São Paulo,02/04/2016,21:27 hs


sábado, 2 de abril de 2016

SONETILHO DE VERÃO

Traído pelas palavras. 
O mundo não tem conserto. 
Meu coração se agonia. 
Minha alma se escalavra. 
Meu corpo não liga não. 
A idéia resiste ao verso, 
o verso recusa a rima, 
a rima afronta a razão 
e a razão desatina. 
Desejo manda lembranças. 

O poema não deu certo. 
A vida não deu em nada. 
Não há deus. Não há esperança. 
Amanhã deve dar praia.


Paulo Henriques Britto

GRANDES ESCRITOS


Uma prece pelos rebeldes de coração enjaulados.

Tennessee Williams
FIM DA LINHA

A presidente Dilma Rousseff (PT) perdeu as condições de governar o país.

É com pesar que este jornal chega a essa conclusão. Nunca é desejável interromper, ainda que por meios legais, um mandato presidencial obtido em eleição democrática.

Depois de seu partido protagonizar os maiores escândalos de corrupção de que se tem notícia; depois de se reeleger à custa de clamoroso estelionato eleitoral; depois de seu governo provocar a pior recessão da história, Dilma colhe o que merece.

Formou-se imensa maioria favorável a seu impeachment. As maiores manifestações políticas de que se tem registro no Brasil tomaram as ruas a exigir a remoção da presidente. Sempre oportunistas, as forças dominantes no Congresso ocupam o vazio deixado pelo colapso do governo.

A administração foi posta a serviço de dois propósitos: barrar o impedimento, mediante desbragada compra de apoio parlamentar, e proteger o ex-presidente Lula e companheiros às voltas com problemas na Justiça.

Mesmo que vença a batalha na Câmara, o que parece cada vez mais improvável, não se vislumbra como ela possa voltar a governar. Os fatores que levaram à falência de sua autoridade persistirão.

Enquanto Dilma Rousseff permanecer no cargo, a nação seguirá crispada, paralisada. É forçoso reconhecer que a presidente constitui hoje o obstáculo à recuperação do país.

Esta Folha continuará empenhando-se em publicar um resumo equilibrado dos fatos e um espectro plural de opiniões, mas passa a se incluir entre os que preferem a renúncia à deposição constitucional.

(... ) (...)

Dilma Rousseff deve renunciar já, para poupar o país do trauma do impeachment e superar tanto o impasse que o mantém atolado como a calamidade sem precedentes do atual governo.


Do editorial da Folha de S. Paulo, 02/04/2016, 17: 00 hs

JOHNNY ALF & TRIO - Eu e a Brisa, 1969


ALUMBRAMENTO

A beleza basta ser bela para fazer bem. Há criatura que tem consigo a magia de fascinar tudo quanto a rodeia; às vezes nem ela mesmo o sabe, e é quando o prestígio é mais poderoso; a sua presença ilumina, o seu contato aquece; se ela passa, ficas contente; se pára, és feliz; contemplá-la é viver; é a aurora como figura humana.
(...)
Victor Hugo
O TRUQUE

Não dá para viver sem um truque. Eu me declarei morto. É uma sensação tranquila essa da gente se saber morto. Clandestino morto. Insuspeitado morto. Na tripulação do mundo já não me sinto comprometido com nada, mas continuo como testemunha do espetáculo. Não mais como cúmplice e nem vítima. Este é o meu truque.
(...)
Carlos Heitor Cony

WILLIAM TURNER


COMBATE

Nem eu posso com Deus nem pode ele comigo.
Essa peleja é vã, essa luta no escuro
entre mim e seu nome. 
Não me persegue Deus no dia claro.
Arma, à noite, emboscadas.
Enredo-me, debato-me, invectivo
e me liberto, escalavrado.
De manhã, à  hora do café, sou eu quem desafia.
Volta-me as costas, sequer me escuta,
e o dia não é creditado a nenhum dos contendores.
Deus golpeia à traição. 
Também uso para com ele táticas covardes.
E o vencedor (se vencedor houver) não sentirá prazer
pela vitória equívoca.


Carlos Drummond de Andrade

UMA NOTÍCIA SOBRE "CORDILHEIRAS NO MAR: A FÚRIA DO FOGO BÁRBARO"

ISSO NÃO MUDA

Três mil e duzentos anos atrás. Mil e duzentos anos antes do nascimento de Cristo. No Mediterrâneo, a humanidade estava na pré-história. Foi por essa época que a batalha de Troia, que deu origem a um dos mitos da civilização grega recontada por Homero, deve ter acontecido.
Nessa época, o norte da Alemanha estava em plena idade do bronze. Esse metal levou séculos para chegar ao norte da Europa. Não havia cidades ou vilas. A população, grande parte de agricultores, vivia em aglomerados familiares. A densidade populacional era extremamente baixa, menos de 4 habitantes por quilômetro quadrado. As trocas comerciais aconteciam principalmente com os habitantes do norte que habitavam a Escandinávia.
A vida, como imaginada pelos arqueólogos nesse recanto da Europa, era bucólica. Mas isso começou a mudar em 1996. Nesse ano, um arqueólogo amador achou um osso humano na beira do Rio Tollense, 300 quilômetros ao norte de Berlin. O osso era um úmero, o maior osso do braço. Na cabeça do úmero, onde ele encaixa no ombro, estava encravada uma ponta de lança feita de pedra.
Convocados, os arqueólogos começaram a escavar o local. Hoje, na sala de um pequeno castelo da região, estão guardados em caixas e estantes mais de 10 mil ossos humanos, todos coletados no mesmo local. Quando a idade desses ossos foi estimada pelo método do carbono 14, os cientistas descobriram que todos eles eram do ano de 1.250 antes de Cristo.
O que impressionou os cientistas é a quantidade de ossos e as evidências de que no local havia acontecido uma carnificina. A densidade de cadáveres é enorme. Em uma área de 12 metros quadrados foram encontrados 20 crânios e 1.478 ossos. Até agora foram estudados 3% a 4% de toda a área onde estão os ossos, e já foram encontrados 130 pessoas e 5 cavalos. Os cientistas estimam que aproximadamente 750 pessoas, quase todos homens, morreram no local. Além dos ossos foram encontradas pontas de lança e de flechas feitas de bronze e de pedra lascada, além de instrumentos semelhantes a tacos de beisebol e machados. 
O exame dos ossos mostra que grande parte das pessoas morreu instantaneamente de injúrias causadas por lanças, flechas e pancadas. Ossos com flechas e lanças encravadas e crânios partidos por machados ou afundados por pancadas abundam. Braços e pernas quebrados também foram encontrados aos montes. Os cavalos também morreram de forma violenta. Tudo indica que no local aconteceu uma grande batalha. Se imaginarmos que somente 20% dos envolvidos morreram imediatamente no local é provável que 4 mil pessoas participaram da luta.
A análise dos ossos mostra que os mortos eram guerreiros, acostumados a lutar. Além das injúrias que causaram a morte, muitos dos ossos mostram fraturas antigas consolidadas anos antes, tanto nos braços e pernas quanto em alguns crânios. Braceletes, anéis e pulseiras de bronze também foram encontrados no local.
A análise do local onde foram encontrados os ossos revelou a presença de restos de uma ponte construída sobre o Rio Tollense 500 anos antes da batalha. Muito provavelmente a luta aconteceu sobre a ponte ou na sua volta, pois grande parte dos ossos foi encontrada no pântano que atualmente ocupa as margens do rio.
Essa é a maior batalha conhecida no período pré-histórico no norte dos Alpes. Ela demonstra que a vida dos povos pré-históricos não era tão bucólica quanto se imaginava e pequenos exércitos provavelmente vagavam pela região muito antes do surgimento das cidades. Não tem jeito, o homem é mesmo um animal belicoso.

Fernando Reinach, Estadão/Ciência, 02/04/2016, 03:00 hs
ABATEDOUROS

Aos que trazem muita coragem a este mundo, o mundo quebra a cada um deles e alguns ficam mais fortes nos lugares quebrados. Mas aos que não se deixam quebrar, o mundo os mata. Mata os muito bons, os muito meigos, os muito bravos – indiferentemente.
Se não pertenceis a nenhuma dessas categorias morrereis da mesma maneira, mas então não haverá pressa alguma em matá-lo. 
(...)
Ernest Hemingway