sábado, 2 de julho de 2016

A Obsessão do Sangue

Acordou, vendo sangue… – Horrível! O osso
Frontal em fogo… Ia talvez morrer,
Disse. Olhou-se no espelho. Era tão moço,
Ah! certamente não podia ser!

Levantou-se. E eis que viu, antes do almoço,
Na mão dos açougueiros, a escorrer
Fita rubra de sangue muito grosso,
A carne que ele havia de comer!

No inferno da visão alucinada,
Viu montanhas de sangue enchendo a estrada,
Viu vísceras vermelhas pelo chão …

E amou, com um berro bárbaro de gozo,
O monocromatismo monstruoso
Daquela universal vermelhidão!


Augusto dos Anjos 

KAREN MARGULIS


SALEEM HADDAD - Trecho de entrevista

ÉPOCA – Em um artigo publicado pelo site Daily Beast o senhor escreveu “Queers árabes enfrentam uma luta dupla: enquanto nós lutamos contra as forças opressivas dentro de nossas próprias comunidades, nós também estamos resistindo à narrativa global que tenta usar nossa ‘opressão’ para atingir objetivos militares e políticos”. Pode explicar em que sentido?

Haddad – Não é segredo que em muitos países do Oriente Médio e em países árabes, como em todo o mundo, nós temos problemas com homofobia, misoginia e o patriarcado. Nós, queers [termo oriundo do inglês e antes considerado um xingamento dirigido a gays. Hoje, serve para designar pessoas cuja orientação sexual ou identidade de gênero não corresponde ao padrão heterossexual ou a seu sexo biológico – o conceito busca abarcar gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros] árabes, e as mulheres também, estamos lutando contra essas estruturas patriarcais e homofóbicas em nossos países. O desafio é que, para jovens árabes com minha idade, com seus 20, 30 anos, os ataques de 11 de setembro de 2001 se tornaram um grande marco em nossas vidas e tudo o que veio depois disso nos abalou. Depois do 11 setembro, quando teve início a invasão americana do Afeganistão, uma grande parte do objetivo declarado foi a libertação das mulheres afegãs. Havia essa ideia de que os Estados Unidos iriam até lá para salvar as  mulheres do Oriente dos homens do Oriente. Tornou-se muito difícil para as mulheres ativistas se colocarem contra o patriarcado em sociedades árabes e muçulmanas, mas ao mesmo tempo elas não queriam que sua luta fosse cooptada em prol dos objetivos militares do governo dos Estados Unidos. Agora, mais recentemente,  tem havido uma lenta instrumentalização do mesmo tipo,  em relação aos homossexuais no Oriente Médio. A mídia ocidental passou a destacar como o Estado Islâmico atira homens gays do alto de prédios. É o mesmo padrão. Nos ataques de Orlando, por exemplo, os muçulmanos e árabes LGBTQ foram de repente convocados para tentar explicar a homofobia em sociedades muçulmanas ou falar sobre as dificuldades que enfrentam em nossas comunidades. Isso endossa uma narrativa de “barbarismo islâmico”, de que as comunidades islâmicas são bárbaras, quando a realidade é muito mais complexa que isso.
(..)
Teresa Peroca, Época, 01/07/2016, 23:28 hs

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Não entendo o porque das pessoas pensarem sempre no pior e não no mais provável que é pior ainda.

George Carlin

ERIK SATIE - Gnossienne Nº1


SEM EXPLICAÇÕES

A beleza é uma forma da genialidade, aliás, é superior à genialidade na medida em que não precisa de comentário. Ela é um dos grandes fatos do mundo, assim como a luz do Sol, ou a primavera, ou a miragem na água escura daquela concha de prata que chamamos de lua. Não pode ser interrogada, é soberana por direito divino.
(...)
Oscar Wilde
O JOGO DA DEMOCRACIA BURGUESA

O êxito (ou sobrevivência...) do governo Michel Temer depende de um complexo equilíbrio num tripé, especialmente enquanto o impeachment definitivo de Dilma Rousseff não vem: opinião pública, Congresso Nacional e o chamado “mercado”. Quando ele joga excessivamente o peso numa dessas pernas, as outras duas se ressentem. Quando joga em duas, a terceira ameaça ruir.
Para não assombrar ainda mais a opinião pública, Temer tem de repetir, dia sim, dia não, que não quer, não pretende e não pode ameaçar a Lava Jato e, além disso, precisa gastar lábia e recursos para neutralizar o discurso de Dilma e do PT de que ele vai enxugar os programas sociais e acabar com a Bolsa Família.
Foi por isso que Temer anunciou um reajuste médio de 12,5% no Bolsa Família, pegando carona numa solenidade de liberação de R$ 742, 8 milhões para a educação básica de Estados e municípios. É o primeiro reajuste do programa central da era petista em dois anos, com um porcentual maior, inclusive, do que os 9% que Dilma prometeu em maio, mas ainda não tinham sido aplicados. Logo, os 12,5% são mais políticos do que econômicos ou sociais.
Ainda em sintonia com a “opinião pública”, Temer achou muito mais prudente levar adiante o aumento salarial do Judiciário e do Ministério Público do que alegar a imensidão da crise para adiar a medida. Em público, ele argumenta que Dilma já tinha assumido o compromisso, a tramitação já estava avançada no Congresso e, afinal, o valor já fora “precificado” no rombo de R$ 170 bilhões. Em privado, admitiu: é melhor pagar o preço do que amanhecer com o Judiciário e o MP detonando uma temporada de greves no serviço público.
Se contemplada a opinião pública, que não quer nem ouvir falar na volta de Dilma, mas também não morre de amores por Temer, ele cede em todas no Congresso e não titubeou um minuto antes de atender à novíssima pressão dos senadores, que ameaçaram não aprovar a medida provisória que dá fôlego financeiro à Infraero se ele não se comprometesse a vetar a cláusula que abre 100% das empresas aéreas brasileiras ao capital estrangeiro. O Senado estava, evidentemente, atendendo ao lobby do setor, apesar de a Latam ter um pé no Chile e a Avianca, na Colômbia. E quem é mesmo dono da Azul? Mas o Planalto fechou os olhos para esses “detalhes” e topou o veto.
É também com um olho na real crise dos Estados e com o outro na influência dos governadores em suas bancadas em Brasília que Temer, camarada, abriu mão de receber boa parte do pagamento da dívida dos Estados que não fizeram o dever de casa e estão devendo até salário de funcionários, aposentados e pensionistas. Como se apenas os Estados estivessem endividados e a União estivesse nadando em dinheiro...
Somando os R$ 50 bilhões que o governo federal deixará de receber dos Estados endividados nestes três anos aos R$ 25 bilhões estimados com o aumento do Judiciário até 2019 e aos R$ 2,1 bilhões ao ano com o reajuste do Bolsa Família, o resultado é: o governo Temer anda muito perdulário para quem chora tanto a falta de dinheiro e o tamanho do rombo fiscal. Sem contar que a prioridade do País é criar emprego para quem não tem, não aumentar o salário dos que já têm.
É aí que entra a terceira ponta do tripé. O tal “mercado” dá de ombros para a Lava Jato e para escândalos e só pensa naquilo: a recomposição da economia brasileira. Mas, se Temer abre tanto a guarda para agradar a opinião pública e o Congresso, no que ele conseguirá se distinguir de Dilma na sobriedade com as contas públicas? Dilma torrou o que tinha e o que não tinha na eleição de 2014. Temer pode estar torrando a confiança do empresariado na transição de 2016 – e, com ela, suas chances. A perna do tripé que mais torce e trabalha pelo sucesso de Temer é justamente o setor produtivo, no campo e nas cidades.

Eliane Cantañhede, Estadão, 01/07/2016, 03:16 hs

NÃO ESQUEÇA!!


DIAGNÓSTICOS LUCRATIVOS

A psicopatologia é uma ferramenta importante da psiquiatria clínica.Ou, pelo menos, deveria ser. No entanto, em neurotempos atuais ocorre o inverso. Não se fala e não se pesquisa psicopatologia. Só há transtornos mentais orgânicos, mesmo não sendo, e suas descrições encaixotadas e encaixotantes. A psicopatologia tornou-se a neuromania dos crâneos. Olhe em torno: o vazio epistemológico deixado é preenchido pela vontade de controle da psiquiatria cido-biológica. Tal vontade opera no cadastramento dos desvios de conduta, do mau comportamento social, do irracionalismo do eu-individual e se traduz como diagnóstico-verdade. Quem duvida? Em tal contexto, a loucura se alastra por toda parte, não como experiência de abertura a novas semióticas, a novas terras aqui-mesmo, ao novo, mas como esvaziamento do sentido da existência, fim de mundo, apocalipse, noite eterna. Confira a alta cotação das religiões no mercado espiritual do medo. A ideação suicida, o próprio suicídio, ou a auto-flagelação de jovens é apenas um dos sintomas da angústia inominável do tecido social em decomposição. Uma psiquiatria sem pesquisa psicopatológica não só cauciona o sofrimento psíquico como o produz e dele retira lucro, poder, prestígio, reverência e status social.

A.M.

GRANDES ESCRITOS


Abrindo um antigo caderno
foi que eu descobri:
Antigamente eu era eterno.


Paulo Leminski 
POR QUE HÁ POBREZA NO BRASIL?

A Polícia Federal investiga um esquema de desvios de dinheiro do FGTS que pode passar de R$ 30 milhões em propina ao deputado afastado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), segundo o delator Fábio Cleto, ex-vice-presidente da Caixa. Nesta sexta-feira (1), policiais realizam buscas nos endereços de grandes empresas acusadas por Cleto de pagar propina. Entre eles, a Eldorado Celulose, do grupo J&F, mais conhecido pela marca JBS e o frigorífico Friboi.. Cleto, segundo sua delação, operava na Caixa a mando de Cunha e do doleiro Lúcio Funaro _ este último preso na operação desta sexta.

No papel, Fábio Cleto, vice-presidente da Caixa Econômica Federal entre 2011 e 2015, era subordinado à cúpula do banco e, por extensão, à área econômica do governo Dilma Rousseff. Entre suas atribuições, ele participava das reuniões do Fundo de Investimentos do FGTS, o FI-FGTS, que injetou algo como R$ 11,7 bilhões em empresas no país no período. Esses encontros, contudo, não eram sua principal tarefa em Brasília. Toda terça-feira, às 7h30 da manhã, Fábio Cleto tinha um compromisso inadiável e secreto, em um apartamento espaçoso na 311 Sul, em Brasília. O objetivo do encontro era vazar informações das reuniões internas da Caixa e antecipar operações financeiras sigilosas de empresas com fundo. Cleto tinha um chefe, na verdade, o chefe, fora da Caixa: Eduardo Cunha. Primeiro, os encontros ocorriam no apartamento funcional de Cunha. Depois, o parlamentar tornou-se presidente da Câmara e ambos passaram a ser ver na própria residência oficial. Era a ele que Cleto tinha lealdade e recebia ordens para dificultar -- ou facilitar -- a vida das empresas interessadas nos investimentos do FI-FGTS. Seu papel era dar o verniz técnico às ordens de Eduardo Cunha e repassar uma espécie de mapa do achaque. Agora delator, Fábio Cleto contou aos procuradores que vazava informações com duas semanas de antecedência e, para isso, tinha de ignorar todos os termos de confidencialidade que assinava dentro da Caixa.

Os projetos citados na delação premiada passam de R$ 6 bilhões, com uma propina estimada em mais de R$ 30 milhões para Eduardo Cunha, de acordo com o cálculo explicado por Cleto aos investigadores. Como chefe do esquema e responsável pela indicação de Cleto na Caixa, Cunha tinha direito à maior parte do valor arrecadado: 80%. Cleto relatou que, da propina levantada, ele ficava com a menor parte, 4%. Aos procuradores, ele admitiu que ganhou pelo menos R$ 1,8 milhão com o esquema. Pela distribuição rascunhada por Cleto, Cunha ficaria então com mais de R$ 36 milhões.
(...)

Felipe Coutinho, Época,01/07/2016, 15:40 hs

ALDEMIR MARTINS


LAVA JATO NAS RUAS

Uma nova fase da Lava-Jato está nas ruas. É decorrente da delação premiada de Fabio Cleto, ex-vice presidente da Caixa e apadrinhado de Eduardo Cunha. e da delação do ex-presidente da Hypermarcas, Nelson Mello.

A PF accaba de prender o operador de Eduardo Cunha, Lucio Funaro, conhecido no mercado como o "menino Maluquinho", dado o seu grau de aiudácia.

Está também cumprindo um mandado de busca e apreensão na JBS, a maior empresa de alimentos do Brasil.

Eduardo Cunha acordou um pouco mais intranquilo hoje.

Lauro Jardim, O Globo,01/07/2016, 06:57 hs
Faço análise há trinta anos e a única frase inteligente que já ouvi do meu analista é a de que preciso de tratamento.

Woody Allen