quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Eu não só não sei o que está acontecendo, mas também não saberia o que fazer se soubesse.

George Carlin

PINA BAUSCH - Café Muller


O RIO DE JANEIRO CONTINUA LINDO

O cenário atual vivido pelos servidores do Estado é de dívidas e preocupação. O Natal, segundo eles, será de tristeza. Nas redes sociais, os funcionários já estão apelidando a celebração deste ano de “Ceia da Miséria”. O drama deixa muitos com saudade das bonificações recebidas no passado.
— Há três anos, não tinha crise. A gente ficava na esperança de receber a famosa cesta de Natal da Polícia Militar e isso acontecia normalmente. A crise nos tirou até isso. Temos saudades da Cesta. No ano passado recebemos R$ 100. Hoje não recebemos nada — disse o tenente reformado Nilton da Silva, de 55 anos.
Nilton enfrenta dificuldades com as contas mensais. A nova dor de cabeça será lidar com as constantes crises respiratórias da esposa, Elizabeth Medeiros, de 67 anos.
— Passamos pelo hospital da PM que é um auxílio ao servidor. Ela está com problemas respiratórios. Agora teremos mais uma preocupação em meio a essa crise toda - — disse ele.

Do Extra, Rio,21/12/2016, 05:00hs



terça-feira, 20 de dezembro de 2016

O QUE É DELIRAR - I

O "delírio" é um elemento importantíssimo da clínica psicopatológica. Por que? Porque ele diz respeito à questão da verdade, no caso, a verdade do paciente. A pergunta "isso é verdade?" se insinua, mesmo que por meios enviesados, estranhos, imperceptíveis. De acordo com o modelo organicista da psiquiatria tradicional (ressuscitado, hoje, sob o nome de psiquiatria biológica), o delírio é um sintoma, assim como a cefaléia, a tontura, a náusea, etc. Ora, na prática clínica, tal enfoque não só é insuficiente, como muitas vezes torna-se nocivo ao paciente ( via intoxicação com fármacos, efeitos adversos e colaterais), já que o objetivo a obter é apenas a remissão ou melhora do sintoma, nada mais do que o sintoma. No entanto, desde a invenção da psicanálise (faz tempo...) é sabido que o sintoma psíquico remete a outra coisa (daí a sua utilização como material na psicoterapia), ou por outra, ele pode até mesmo ser "necessário", pois ajuda a viver. Pensar dessa forma, dispensando o senso comum da razão médica, implica em trabalhar a subjetividade como modo de produção de um processo existencial, e não como coisa, mesmo a mais valiosa. 

A.M.

TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL

controlar as mentes, supliciar os corpos, ou o contrário

O GÊNERO LUZ

Ele (gênero da velocidade da luz) suprime, primeiro, a importância do intervalo espaço, esta extensão que fez as fronteiras, os cadastros, que dispôs as populações no mundo como no man´s land e com uma organização geográfica. Mas ele suprime também o intervalo tempo que fez a história! Os calendários, as efemérides e os relógios estiveram na base da história dos homens. Esta organização dos relógios, que permite organizar a vida dos homens em períodos diferentes e em nações diferentes, é liquidada instantaneamente pelo terceiro intervalo do gênero luz, que elimina, então, simultaneamente, os intervalos de espaço e de tempo. É um acontecimento sem referência. 

Paul Virilio, 2000
Coordenadas


Conheço 
os começos 

— o chegar as chuvas 
as migrações, o mugir 
de parelhas atreladas 
aos varais da madrugada. 

Conheço onde começa 
o medo o estupor o soco! 
Onde o homem no ar 
parado, rodopia 

      — e tomba 

quando assoma 
o zinabre ao gesto 
e a lâmina se limpa 
de espessa fúria. 

Também conheço 
antiga promessa 
de urtiga às costas, 
premissa de colheita 
proposta pelos caules. 

E mais conheço 
onde a terra exaure 
o corpo que nela deita, 

onde o íntimo de nosso 
ser em pó começa a ser 
sopro de ossos. 

Mas desconheço 
o remanso das tréguas 
o descanso dos remos 
o ponto de equilíbrio 

       onde estou 



Carlos Saldanha Legendre

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

GOVERNO TEMER


O AMOR E A MULTIPLICIDADE

(...)
Essa é uma intuição que ainda não desenvolvemos completamente. Seria possível articular uma série de terrenos que o tema do amor pode abrir no campo da ciência política: amor como livre expressão dos corpos, como inteligência somada ao afeto, como geração contra a corrupção. Mas há um peso cultural que dificulta o desenvolvimento de uma concepção política do amor. Precisamos livrar o conceito dos limites do casal romântico e despojá-lo de sentimentalismo. Precisamos de uma concepção inteiramente materialista do amor, ou de uma concepção verdadeiramente ontológica: o amor como poder da constituição da existência.

Sim, como vocês mesmos sugerem, o Cristianismo (bem como o Judaísmo e provavelmente também as outras religiões) realmente oferece uma concepção política do amor. Pensamos em nossa própria concepção de amor como uma concepção primordialmente espinosana, mas vocês sabem, é claro, o quão profundamente enraizado ele está nas tradições cristãs e judaicas. O amor, para Espinosa, está baseado num reconhecimento duplo: reconhecimento do outro como diferente e reconhecimento de que a relação com esse outro aumenta nosso próprio poder. Assim, para Espinosa, o amor é o aumento de nosso próprio poder acompanhado do reconhecimento de uma causa externa. Notem que isso não é uma noção de amor na qual toda a diferença se perde ao abraçar uma unidade que amarra seus movimentos – uma noção comum para a maior parte dos teólogos cristãos. Não. Esse é um amor baseado na multiplicidade. E isso é exatamente como concebemos a multidão: singularidade somada a cooperação, reconhecimento da diferença e do benefício de uma relação comum. É nesse sentido que dizemos que o projeto da multidão é um projeto do amor.

Michael Hardt e Antonio Negri, trecho de entrevista sobre  o livro "Império",  concedida a Nicholas Broww e Imre Szeman, 2006

domingo, 18 de dezembro de 2016

LAVA-JATO NÃO É "MÃOS LIMPAS"

Renan Calheiros ou Berlusconi? Eduardo Cunha ou Berlusconi? Lula da Silva ou Berlusconi? Paulo Maluf ou Berlusconi? Não tem para ninguém. Silvio Berlusconi ganha de todos. É o mais ardiloso, endiabrado e corrupto político na história recente em todo o mundo – ou, pelo menos, em países democráticos. O mais paradoxal é que sua ascensão na Itália, onde foi eleito três vezes primeiro-ministro, só se tornou possível graças à maior devassa anticorrupção no país: a Operação Mãos Limpas, nos anos 1990. Estudioso da Mãos Limpas, o juiz Sergio Moro se inspirou no exemplo italiano para levar adiante a Operação Lava Jato. A dúvida óbvia diante do brasileiro hoje é: terá a Lava Jato o mesmo destino da Mãos Limpas? Que fazer para evitar fracasso semelhante? Como impedir que a reação da classe política enfraqueça nossas instituições e, como na Itália, torne o Estado uma presa ainda mais vulnerável?

A Mãos Limpas guarda inúmeras semelhanças com a Lava Jato, mas também há diferenças importantes.
(..)

Helio Gurovitz,Época, 18/12/2016,10:00 hs

IVAN DODOV


Uma prece pelos rebeldes de coração enjaulados.

Tennessee Williams
UMA ÉTICA DA REVOLTA

(...)
Toda filosofia que seja uma filosofia para a vida não pode tolerar a morte de outros para alcançar o que quer que seja. Recusar a morte implica, concomitantemente, recusar tudo que faça morrer. “Assassinato e suicídio são a mesma coisa, ou se aceitam ambos ou se rejeitam ambos” (Albert Camus, Homem Revoltado). Quando matamos alguém, mato a ideia que fazia dele, mas também o ser humano real que havia por trás. Se a filosofia rejeita o suicídio e a morte, então o filósofo não deve colocar-se nem como vítima nem como carrasco. Não há inimigos, seu lugar é ao lado dos homens.

Portanto, não poderia haver perigo maior para a revolta que o fanatismo. Por fanatismo podemos entender desde o nazismo até o marxismo, passando por interpretações religiosas extremas. Não há filosofia que justifique a morte e a opressão sem cair no mais profundo niilismo. É necessário manter-se fiel à Terra para afastar de si todo niilismo. Isto evita que a filosofia torne-se arma dos fanáticos que matam justificando uma transcendência injustificável. Não podemos jamais confundir este conceito tão caro a Camus com alguma forma de religião ou busca por transcendência. Revoltar-se significa ir contra aquilo que nega o mundo, isto é uma das mais potentes formas de afirmação: negar aquele que nega o homem, é a mais pura forma de afirmação da vida.
(...)

Rafael Trindade, do blog "Razão inadequada", 14/12/2013
Quando se deseja realmente dizer alguma coisa, as palavras são inúteis. Remexo o cérebro e elas vêm, não raras, mas toneladas. Deixam sempre um gosto de poeira na boca - a poeira do que se tentava expressar, e elas dissolveram. Quanto mais palavras ocorrem para vestir uma ideia, mais essa ideia resiste a ser identificada. As sucessivas roupas sufocam a sua nudez. E todas as palavras são uma grande bolha de sabão, às vezes brilhante, mas circundando o vazio.
Ah, se eu pudesse escrever com os olhos, com as mãos, com os cabelos - com todos esses arrepios estranhos que um entardecer de outono, como o de hoje, provoca na gente.

Caio Fernando Abreu

VINTAGE CAFE LOUNGE AND JAZZ BLENDS - Tainted Love (DjoleeVedit)