Hoje é muito difícil não ser canalha. Todas as pressões trabalham para o nosso aviltamento pessoal e coletivo.
Este blog busca problematizar a Realidade mediante a expressão de linhas múltiplas e signos dispersos.
segunda-feira, 2 de janeiro de 2017
Abaixo da linha de pobreza
Ora vejo a linha de pobreza no contorno irregular
dos prédios, altos, baixos, ou das pequenas casas de
autoconstrução na encosta dos morros.
A linha que mais me atinge é a reta, que vai de
um ponto a outro sem desvio. Sei que nela há
números. Quais, não sei. Ainda que não tenha cor,
peso, e tangencie o invisível, é forte. Li a propósito.
Considero a linha do horizonte a que mais se
aproxima do que imagino ser a linha de pobreza.
Da cidade, ver o horizonte é difícil, ou se apresenta
com defeito. Rememoro-o distante, no fim do mar.
Deve ser de lá que a retiram, a linha de pobreza,
com régua e compasso: para raciocínio e ação.
Pois impossível que não exista primeiro na paisagem,
material, resistente. Tem de existir, como certas
fibras arrancadas à natureza para com elas se fazer
feixes, relhos, assim como servem de enfeite as
penas de belas aves.
Verdade que ao longo da vida passaram-me diante
dos olhos gráficos estampados em folhas de
jornal. Alguns diziam respeito à linha de pobreza.
Neles, seu traçado não remetia ao limite que se
tem do mar, longe, e por vezes mesmo delineou
o contorno de ondas crespas e próximas ou, além,
de escarpas, promontórios. Puras formas da
física terrestre, impetuosas, dramáticas, tocando
o interior dos homens de modo diverso ao da
linha do horizonte - que os acalenta com o sono,
a tranquilidade ou a morte.
Abaixo da linha de pobreza não me chegam ideias.
Zulmira Ribeiro Tavares
Precisamos resolver nossos monstros secretos, nossas feridas clandestinas, nossa insanidade oculta. Não podemos nunca esquecer que os sonhos, a motivação, o desejo de ser livre nos ajudam a superar esses monstros, vencê-los e utilizá-los como servos da nossa inteligência. Não tenha medo da dor, tenha medo de não enfrentá-la, criticá-la, usá-la.
(...)
Michel Foucault
2017 PROSSEGUE...
REBELIÃO DOS DETENTOS
O juiz titular da Vara de Execução Penal do TJ (Tribunal de Justiça) do Amazonas, Luís Carlos Valois, disse que ficou chocado com o que viu no Compaj (Complexo Penitenciário Anísio Jobim), em Manaus, onde uma rebelião deixou ao menos 60 detentos mortos. "Nunca vi nada igual na minha vida, aqueles corpos, o sangue...fiquem com Deus!", escreveu Valois em sua página no Facebook.
A rebelião, que durou durou cerca de 17 horas, foi iniciada na tarde de domingo (1º) e só se encerrou às 7h --hora local-- desta segunda-feira (2).
De acordo com Valois, sua presença no local foi requisitada pela Secretaria de Segurança Pública do Estado. "Chegando lá os presos tinha tomado todo o regime fechado e o semiaberto. Tinham feito um buraco e passavam de um lado para o outro".
O juiz diz que liderou as negociações com os detentos. "(Eles pediram) apenas que nos comprometêssemos a não fazer transferências, a manter a integridade física e o direito de visitas".
De acordo com Valois, não há como precisar o número de mortos. "Muitos estavam esquartejados. Difícil afirmar".
(...)
Do UOL em São Paulo, 02/01/2017,13:30 hs
AS DEPRESSÕES, AINDA
A abordagem psiquiátrica (atual) das depressões costuma reduzir a complexidade da vivência depressiva ao nexo causa-efeito. Isso não é um erro, mas uma questão de método. Atrelada à visão médica dos organismos enfermos, a clínica psicopatológica dos quadros depressivos estanca suas pesquisas no funcionamento bioquímico (daí a opção por fármacos) e no funcionamento psíquico (daí a opção - geralmente secundária- pela psicoterapia). É de notar que em ambas as linhas etiológicas, o erro básico é o de conceber a depressão com uma doença orgânica e/ou como erro em relação ao senso comum (psicológico) da sociedade onde se insere o paciente. A pergunta que circula - mesmo e principalmente entre os familiares do deprimido- é regida por 2 ítens: 1- se você está doente do organismo, tome remédio químico; 2-se o problema é psíquico, não se justifica que alguém que "tem tudo" (saúde física, juventude, consciência de si, etc, a depender), fique deprimido. Tanto num caso como no outro, a vivência depressiva escapa a uma apreensão real do que está acontecendo subjetivamente com o outro, bem como reduz os fatores etiológicos a um binarismo (corpo/mente) estéril. Isso explica -em parte - a cronificação mortificante de muitas síndromes depressivas, na medida em que o paciente não é de fato escutado em sua dor, como não consegue vislumbrar uma saída, ou pelo menos uma melhora importante dos sintomas anti-vida. Em resumo, ao não considerar as depressões como um fenômeno subjetivo que ultrapassa a visão médica mecanicista e reificante, a psiquiatria atual participa de um empreendimento mais amplo, sócio-clínico-institucional e epistemológico de produzir mais ainda deprimidos, muitos deles atolados numa relação de dependência abjeta aos tratamentos, químicos ou não.
A.M.
DEVIR-ESCRITOR
Há um momento em que o escritor entra em devir-escritor. Já falamos tanto de devires, por que falar de mais um? Qual seria a importância de se falar de um devir escritor? O mundo é tão prático, as notícias de internet estão sempre nos informado rapidamente do que precisamos saber. O devir-escritor é um dos modos de resistência criativa (dentre os vários outros devires), mas com uma diferença: trata-se de uma viagem imóvel.
Não existe devir-sedentário, claro, então precisamos considerar a importante possibilidade de compreender o leitor como um viajante. Há na leitura e na escrita um processo tão intenso que podemos falar de um devir-leitor e devir-escritor. Jorge Amado falava de quando seus dedos digitavam mais rápido que sua mente, os personagens como que se moviam pelo papel antes dele conseguir planejar o que fariam; Henry Miller era um ótimo datilógrafo, digitava muito bem, e podia escrever muitas páginas de seu romance em um só dia; Kerouac também nos conta deste frenesi da escrita, quase um estado zen, meditativo, suspenso. Seu corpo era mais rápido que sua mente, seus dedos, mais rápidos que os olhos. Uma Razão Inadequada, razão corporal.
Um Corpo sem Órgãos nasce da escrita e da leitura, um processo intenso que pode ser obtido no sofá da sala. Lembremos de Deleuze, é preciso sempre se perguntar: “isso funciona?”. Se não, pare de escrever ou para de ler! Em seus livros, o desejo pode alçar voo e encontrar outros territórios. Uma frase, uma lembrança, um lugar, é difícil saber onde o desejo encontrará um campo livre para povoar de multiplicidades.
A escrita é uma ferramenta de criação de intensidades. Não se escreve para fugir da vida, por falta de vida, como fuga. A escrita é uma arma, uma vitamina que potencializa, ensina e torna mais capaz de viver. O escritor monta uma máquina de guerra que opera na realidade, livros são armas!, pensamentos são um modo de resistir e atuar na realidade concreta. O escritor nômade entra em contato com os fluxos, seu corpo se torna um canal, ele abre os poros buscando por algo que se passe em sua superfície. Uma escrita experimental, que não procura interpretar; nômade é aquele que abandona a si mesmo no processo, volta, e já é outro!
(...)
Rafael Trindade, do blog Razão inadequada
domingo, 1 de janeiro de 2017
A CONSCIÊNCIA, O EU E A RAZÃO: QUEM ACREDITA NISSO?
Sidnei Ramis de Araújo, 46, que matou 12 pessoas na festa de Réveillon de uma família em Campinas, no interior de São Paulo, carregava consigo 10 bombas caseiras. Ele se suicidou após a chacina na madrugada deste domingo (1). Os explosivos foram encontrados junto ao corpo do homem, segundo a PM (Polícia Militar). O boletim de ocorrência não especifica se estavam em bolsos, mochila ou amarrados ao corpo. O Gate (Grupo de Ações Táticas Especiais) foi chamado ao local e recolheu os explosivos.
O autor do crime utilizou uma pistola de 9 mm com dois carregadores para fazer os disparos contra as vítimas. Entre elas estão sua ex-mulher e seu filho, de 10 anos. Relatos dão conta de que o homem, de 46 anos, estaria inconformado com o recente processo de separação da que era sua companheira e disputava a guarda do filho na Justiça.
O atirador também portava um canivete. Em seu carro, foi encontrado um gravador com um áudio em que Sidnei se desculpa por "algo que poderia acontecer", sem mencionar a chacina, além de insultar a ex-mulher.
Pouco antes da meia-noite do dia 31, ele teria pulado o muro da residência onde as pessoas estavam. Segundo a polícia, o homem primeiro matou dez pessoas que estavam em um mesmo cômodo. Depois disso, se dirigiu até um cômodo da casa onde estava o seu filho, um menino de 10 anos, deitado em uma cama, e uma mulher. Ele atirou contra os dois e se matou com um tiro na cabeça.
Duas pessoas sobreviveram ao ataque e foram levadas para o hospital Ouro Verde e para o hospital da Unicamp. Dois adolescentes conseguiram se esconder em banheiros da casa e não se feriram.
A lista com os nomes das vítimas não foi divulgada pela polícia. De acordo com o boletim de ocorrência, entre elas estão seis mulheres, seis homens (um deles, o atirador) e uma criança de 10 anos.
A casa onde ocorreu a chacina fica na rua Pompílio Morandi, no Jardim Aurélia, bairro de classe média de Campinas, nas proximidades do shopping Unimart.
A ocorrência foi registrada no 4º Distrito Policial da cidade. Os corpos das vítimas foram levados ao IML (Instituto Médico Legal) de Campinas.
(...)Do UOL, em São Paulo,01/01/2017, 12:01 hs
DEUS TRISTE
Deus é triste.
Domingo descobri que Deus é triste
pela semana afora e além do tempo.
A solidão de Deus é incomparável.
Deus não está diante de Deus.
Está sempre em si mesmo e cobre tudo
tristinfinitamente.
A tristeza de Deus é como Deus: eterna.
Deus criou triste.
Outra fonte não tem a tristeza do homem.
Carlos Drummond de Andrade
Assinar:
Postagens (Atom)


