quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

MADE IN BRAZIL
(...)
O ano de 2016 foi duro. E 2017 ainda nos espera com grandes tensões, mas pelo menos a promessa de que as coisas serão esclarecidas finalmente. Venha o que vier, terá pelo menos o condão de nos trazer a realidade, esclarecer tudo que ainda se ignora. Será um grande momento de verdade pelo qual temos de passar no caminho da reconstrução.
A Odebrecht e o official número 1 bateram recordes de cifras, ganharam o campeonato mundial de corrupção. É uma ilusão supor que a História vá ignorar essa grande feito. Os americanos o acharam tão importante que se apressaram a divulgá-lo sinteticamente. Certos detalhes não interessam a eles, como o papel do BNDES em toda a trama, as manobras diplomáticas, os interlocutores, os discursos. No Brasil a história completa precisa vir à tona. Ela representa um capítulo independente, foi objeto de investigações em Curitiba e Brasília e está presente em alguns dos 800 depoimentos da Odebrecht.
Num momento em que todos os noves países latinos atingidos começam também a investigar, dados novos podem surgir. E estará mais completa ainda a narrativa desse episódio inédito no Brasil: a multinacional da propina combinando empresa, diplomacia presidencial e o BNDES.
(...)
Fernando Gabeira, 01/01/2017
Não, meu bem, não adianta bancar o distante: lá vem o amor nos dilacerar de novo...

Caio Fernando Abreu

O APARTAMENTO, direção de Asghar Farhadi, 2016


um rosto de mulher
desfeito em pétalas
refeito em sombras

insiste na pele
como paixão



A.M.
RUPTURAS
(...)
Eis que, na ruptura, não apenas a matéria do passado se volatizou, mas a forma do que aconteceu, de algo imperceptível que se passou em uma matéria volátil, nem mais existe. Nós mesmos nos tornamos imperceptíveis e clandestinos em uma viagem imóvel. Nada mais pode acontecer nem mesmo ter acontecido. Ninguém mais pode nada por mim nem contra mim. Meus territórios estão fora de alcance, e não porque sejam imaginários; ao contrário, porque eu os estou traçando. Terminadas as grandes ou as pequenas guerras. Terminadas as viagens, sempre a reboque de algo. Não tenho mais qualquer segredo, por ter perdido o rosto, forma e matéria. Não sou mais do que uma linha. Tornei-me capaz de amar, não de um amor universal abstrato, mas aquele que escolherei, e que me escolherá, às cegas, meu duplo, que não tem mais eu do que eu. Salvamo-nos por amor e para o amor, abandonando o amor e o eu. Não somos mais do que uma linha abstrata, como uma flecha que atravessa o vazio. Desterritorialização absoluta. Tornamo-nos como todo mundo, mas de uma maneira pela qual ninguém pode se tornar como todo mundo. Pintamos o mundo sobre nós mesmos, e não a nós mesmos sobre o mundo. Não se deve dizer que o gênio é um homem extraordinário, nem que todo mundo tem genialidade. O gênio é aquele que sabe fazer de todo-mundo um devir (talvez Ulisses, a ambição fracassada de Joyce, parcialmente bem-sucedida em Pound). Entramos em devires-animais, devires-moleculares, enfim em devires imperceptíveis. 
(...)
G. Deleuze e F. Guattari in Mil platôs, vol 3

GRACE JONES - Libertango


se é para o bem de todos
e felicidade geral da nação
diga ao povo
que o buraco é mais embaixo


Nicolas Behr
SEM PENA

Julgado culpado em dezembro do pior massacre racista da história recente nos Estados Unidos, o supremacista branco Dylann Roof declarou que não lamenta ter matado nove pessoas no ano passado, em uma nota lida em audiência nesta quarta-feira.

O jovem de 22 anos compareceu hoje à segunda fase de seu julgamento, na qual sua pena será determinada. Roof disparou 77 vezes no interior de uma igreja metodista em Charleston, na Carolina do Sul, em 17 de junho de 2015, matando nove fiéis negros.

Há três semanas, um júri de 12 pessoas considerou Roof, partidário declarado do nazismo e do Ku Klux Klan, culpado. Em duas horas de deliberação, os jurados não encontraram nenhuma circunstância atenuante para o jovem, que respondeu afirmativamente às 33 acusações federais que pesam contra ele.

“Quero deixar claro que não lamento o que fiz”, escreveu Roof em uma nota escrita na prisão e lida pela promotoria. “Não derramei uma lágrima pelas pessoas inocentes que matei”, insistiu. “Lamento pelas crianças brancas inocentes que são forçadas a viver neste país doente e lamento pelas pessoas brancas inocentes que morrem diariamente nas mãos de raças inferiores”, acrescentou.
(...)

Da Redação, Veja.com, 04/01/2017, 19:28 hs


quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

JESUS PREFEITO

Após decidir entregar a Jesus Cristo a chave de Guanambi, cidade de 86 mil habitantes no interior da Bahia, e também "cancelar todos os pactos realizados com qualquer outro Deus ou entidades espirituais", o prefeito do município, Jairo Magalhães (PSB), pediu desculpas. Em nota, disse que "não estará na contramão da sociedade brasileira" e que "a pluralidade e a diversidade religiosa será (sic) respeitada em toda a gestão".

Em seu primeiro ato à frente de Guanambi, Magalhães publicou um decreto que foi alvo de críticas por confrontar a laicidade do Estado. Na decisão, o prefeito afirmou ter sido "designado por Deus" e estabeleceu que "todos os Principados e Potestades, governadores deste mundo tenebroso, e as forças espirituais do mal, nesta cidade, estarão sujeitas (sic) ao Senhor Jesus Cristo de Nazaré".

"Declaro que esta cidade pertence a Deus e que todos os setores da prefeitura municipal estarão sobre a cobertura do Altíssimo", diz o Decreto Nº 1, publicado no Diário Oficial de Guanambi na segunda-feira, 2, que finaliza: "E a minha palavra é irrevogável!". No dia seguinte, Magalhães voltou atrás e pediu desculpas.

Na nota, o prefeito nega ter ferido o princípio de laicidade do Estado e diz que "não teve como intenção causar nenhuma dissensão ou debate de cunho religioso". "A real intenção da publicação, diante do ambiente de intolerância e assustadora violência que atormenta as famílias e a sociedade, foi de apelar a todas as crenças, suplicando a mesma proteção de Deus, que é rogado na nossa Constituição", afirma o comunicado.

Também diz que respeita "todos os credos" e que "sempre defendeu e ajudou a aprovar por meio do seu voto, parcerias e projetos de interesse social, com as mais diversas entidades religiosas, ou não". Antes de assumir a prefeitura, Magalhães foi vereador e presidente da Câmara da cidade.
(...)

Estadão conteúdo, 04/01/2016, 14:49 hs
Nada é mais falso do que uma verdade estabelecida.

Millôr Fernandes

ZDZISLAW BEKSINSKI


TEMOR AO DESEJO

(...) Os desejos edipianos não são de maneira alguma recalcados, nem têm de sê-lo. Porém, estão numa relação íntima com o recalcamento, mas de outro modo. Eles são o engodo ou a imagem desfigurada com que o recalcamento arma uma cilada ao desejo. Se o desejo é recalcado, não é por ser desejo da mãe e da morte do pai; ao contrário, ele só devém isso porque é recalcado e só aparece com essa máscara sob o recalcamento que a modela e nele a coloca. Aliás, pode-se duvidar que o incesto seja um verdadeiro obstáculo à instauração da sociedade, como dizem os partidários de uma concepção de sociedade baseada na troca. Vê-se cada coisa... O verdadeiro perigo não é este. Se o desejo é recalcado é porque toda posição de desejo, por menor que seja, pode pôr em questão a ordem estabelecida de uma sociedade: não que o desejo seja a-social, ao contrário. Mas ele é perturbador; não há posição de máquina desejante que não leve setores sociais inteiros a explodir. Apesar do que pensam certos revolucionários, o desejo é, na sua essência, revolucionário — o desejo, não a festa! — e nenhuma sociedade pode suportar uma posição de desejo verdadeiro sem que suas estruturas de exploração, de sujeição e de hierarquia sejam comprometidas. Se uma sociedade se confunde com essas estruturas (hipótese divertida), então, sim, o desejo a ameaça essencialmente. Portanto, é de importância vital para uma sociedade reprimir o desejo, e mesmo achar algo melhor do que a repressão, para que até a repressão, a hierarquia, a exploração e a sujeição sejam desejadas. É lastimável ter de dizer coisas tão rudimentares: o desejo não ameaça a sociedade por ser desejo de fazer sexo com a mãe, mas por ser revolucionário. E isto não quer dizer que o desejo seja distinto da sexualidade, mas que a sexualidade e o amor não dormem no quarto de Édipo; eles sonham, sobretudo, com outras amplidões e fazem passar estranhos fluxos que não se deixam estocar numa ordem estabelecida. O desejo não “quer” a revolução, ele é revolucionário por si mesmo, e como que involuntariamente, só por querer aquilo que quer. Desde o começo deste estudo, sustentamos, ao mesmo tempo, que a produção social e a produção desejante são uma só coisa, mas que diferem em regime, de modo que uma forma social de produção exerce uma repressão essencial sobre a produção desejante, e também que a produção desejante (um “verdadeiro” desejo) pode potencialmente explodir a forma social.
(...)
G. Deleuze e F. Guattari in O anti-édipo

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

AUTO-PRESERVAÇÃO


A FISSURA DO EU

As tecnologias da imagem, veiculadas pelos equipamentos de informação e comunicação (internet, celulares, TVs, etc) produzem formas de sentir, perceber, pensar e agir que chamamos de subjetividades contemporâneas. Este fato atualíssimo alterou profundamente a consciência, o eu, a razão, os afetos, enfim, elementos psíquicos que respondiam pelo que outrora se chamava de "pessoa". O chamado "mundo interno", então constituído como território existencial de si mesmo, espécie de autonomia individual do ser-no-mundo, se desfez e desmorona a olhos vistos. Simples: considere o aumento da morbidade dos transtornos mentais. A Fenomenologia e todas as doutrinas do pensamento calcadas no poder da consciência (inclusive o materialismo histórico) ruiram sob o efeitos da Era da tecnologia, ao que parece irreversível.  Veio para ficar. Nós não somos mais os mesmos. De toda parte as notícias e os comunicados chegam como um recheio subjetivo para fatos, situações, tragédias, acontecimentos que não nos dizem respeito e ao mesmo tempo nos dizem respeito. O tempo não é mais a temporalidade de uma vivência e sim, ao contrário, a vivência é que está no Tempo Mundial (que importam os fusos horários?) e transfigura em éter o que era tão certo como este corpo-aqui-visível-de-carne. Há uma rachadura nas certezas do eu. As crenças vacilam. Não mais existe "o tempo vivido", mas o tempo mundial descarnado, evaporado, codificado, por exemplo, em mensagens do zap, a confluir naquilo que Virilio chama de cataclísma. Trata-se de uma mudança "espiritual" muito mais profunda do que se imagina, já que as comodidades objetivas (o mundo-em-mim-sem-sair-de-casa) escondem e legitimam a vertigem da loucura do cotidiano normal. Não mais é possível a nostalgia de tempos idos (bons tempos!) sob pena de afundarmos numa depressão coletiva. O que fazer? Não se faz a mínima ideia. Em suma, as tecnologias da imagem nos fabricam à sua imagem e semelhança qual um deus profano que se expressa e se impõe pela ubiquidade, simultaneidade e pelo desaparecimento do passado e do futuro, portanto, da História. Se há um devir-revolucionário (sempre há!) ele é tragado pelas ondas gigantescas das imagens planetárias. Um novo conservadorismo sócio-político emerge; a direita se reveste de ciência triunfante. O axioma do progresso técnico se afirma como religião do capital. Todos rezam.

A.M.

PAUL VIRILIO

O pensador das tecnologias da imagem