sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

SEXTA-FEIRA, 13

A operação deflagrada pela Polícia Federal nesta sexta-feira (13), denominada "Cui Bono", que investiga irregularidades na concessão de empréstimos feitos pela Caixa, tem como um de seus alvos o ex-vice-presidente do banco e ex-ministro da Secretaria de Governo Geddel Vieira Lima. A operação só não foi deflagrada antes porque, como ministro, Geddel tinha foro privilegiado. 
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Bárbara Lobato, Época, 13/01/2017, 14:43 hs

CELSO FONSECA - Mais Um Na Multidão


Está bem que você acredite em Deus. Mas vai armado.

Millôr Fernandes
SEM IGUAL

(...) O humor negro de Marx, a fonte do Capital, é sua fascinação por uma tal máquina: como isso pôde montar-se, sobre que fundo de descodificação e de desterritorialização, como isso funciona, cada vez mais descodificada, cada vez mais desterritorializada, como isso funciona tão solidamente através da axiomática, através da conjugação de fluxos, como isso produz a terrível classe única dos homens cinzentos que mantêm a máquina, como isso não corre o risco de morrer sozinho, mas, antes, o que faz e nos leva a morrer, suscitando até o fim investimentos de desejo que nem sequer passam por uma ideologia enganadora e subjetiva e que nos fazem gritar até o fim Viva o capital na sua realidade, na sua dissimulação objetiva! Nunca houve, a não ser na ideologia, capitalismo humano, liberal, paternal etc. O capital define-se por uma crueldade sem igual quando comparada com o sistema primitivo da crueldade, define-se por um terror sem igual quando comparado com regime despótico do terror. Os aumentos de salário, a melhoria do nível de vida são realidades, mas realidades que decorrem de tal ou qual axioma suplementar que o capitalismo é sempre capaz de acrescentar à sua axiomática em função de uma ampliação dos seus limites (façamos o New Deal, defendamos e reconheçamos sindicatos mais fortes, promovamos a participação, a classe única, venhamos a dar um passo em direção à Rússia que faz o mesmo em nossa direção etc.). Mas, na realidade ampliada que condiciona essas ilhotas, a exploração não para de endurecer, a falta é arranjada da maneira mais hábil, as soluções finais do tipo “problema judeu” são preparadas muito minuciosamente, o Terceiro Mundo é organizado como parte integrante do capitalismo.
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G. Deleuze e F. Guattari in O anti-édipo

PSIQUIATRIA BIOLÓGICA

controlar é tratar

TERCEIRO PÓS-DOUTORADO EM APUROS

RIO — O sinal vermelho é palco de malabaristas e vendedores de doce. E esta quinta-feira, em Botafogo, também de uma pesquisadora da Fiocruz. Ao contrário dos comerciantes e artistas que circulam entre os carros, Amanda Brum não queria dinheiro — pedia um emprego. Há quase três meses sem receber sua bolsa de estudos da Faperj, que é de R$ 4.100 para alunos de sua qualificação, ela está com dificuldades para terminar seu terceiro pós-doutorado e pagar as contas. A Faperj confirma que os pagamentos de novembro e dezembro de Amanda não foram depositados.

Vestindo uma camisa preta com os dizeres “Bióloga Mestre Doutora Procurando emprego”, Amanda distribuiu 100 currículos em um sinal de trânsito na Rua Visconde de Ouro Preto, em Botafogo, bairro escolhido pela localização estratégica entre o Centro e boa parte da Zona Sul. O sucesso foi muito além do esperado — o post no Facebook em que contou a iniciativa ganhou 2,8 mil curtidas e foi compartilhado 3 mil vezes em apenas quatro horas. Diversas pessoas solicitaram seu currículo na rede social.
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Renato Grandelle, O Globo,13/01/2017, 08:27 hs


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UMA ÉTICA DA IMANÊNCIA
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Toda filosofia que seja uma filosofia para a vida não pode tolerar a morte de outros para alcançar o que quer que seja. Recusar a morte implica, concomitantemente, recusar tudo que faça morrer. “Assassinato e suicídio são a mesma coisa, ou se aceitam ambos ou se rejeitam ambos” (Albert Camus, Homem Revoltado). Quando matamos alguém, mato a ideia que fazia dele, mas também o ser humano real que havia por trás. Se a filosofia rejeita o suicídio e a morte, então o filósofo não deve colocar-se nem como vítima nem como carrasco. Não há inimigos, seu lugar é ao lado dos homens.

Portanto, não poderia haver perigo maior para a revolta que o fanatismo. Por fanatismo podemos entender desde o nazismo até o marxismo, passando por interpretações religiosas extremas. Não há filosofia que justifique a morte e a opressão sem cair no mais profundo niilismo. É necessário manter-se fiel à Terra para afastar de si todo niilismo. Isto evita que a filosofia torne-se arma dos fanáticos que matam justificando uma transcendência injustificável. Não podemos jamais confundir este conceito tão caro a Camus com alguma forma de religião ou busca por transcendência. Revoltar-se significa ir contra aquilo que nega o mundo, isto é uma das mais potentes formas de afirmação: negar aquele que nega o homem, é a mais pura forma de afirmação da vida.

A revolta é uma força aqui e agora, um movimento de apropriação do real, ela acontece no devir, não é um iludir-se com um mundo melhor no futuro, trata-se de um apropriar-se das rédeas da situação, levando a tensão ao máximo: é uma condição existencial levada ao seu limite. A revolta está sempre no plano do possível, o revoltado quer na verdade manter algo que já tem. Ele diz “Basta!”, para impor um limite, que é o limite de sua constituição no mundo. Este movimento não está relacionado com o pobreza, muito pelo contrário, é o que há de mais íntimo e valioso que ele quer resguardar e manter. Também não há uma busca pela inversão de valores, não se trata do oprimido querendo tornar-se opressor (em termos nietzschianos: não há ressentimento). A revolta é a busca por um outro sentido, trata-se de uma transvaloração dos valores.

O filósofo camuseano é um revoltado porque sua filosofia amplia as possibilidades do real. Esta ética supõe um limite: uma linha existencial deve ser respeitada. O revoltado afirma um ponto extremo, uma linha que existe no encontro, uma fronteira que deve ser preservada. Daí nasce uma ética da revolta, uma maneira de ser fundamentalmente marcada pela revolta contra limites que são absolutamente invioláveis. Esta é a fórmula encontrada por Camus: afirmar e negar ao mesmo tempo, negar a condição de miséria humana afirmando algo em si que não pode ser submetido.
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Rafael Trndade, do blog Razão inadequada, 14/12/2013

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017


CONVERSA EM CURSO

por que não paro de falar contigo
és duro na queda
ficas aí no meu ouvido
e mal te ouço

culpa há sem dolo
não queria que te fosses
a ausência como nódoa
como desfeita de quem falha

só que
não tinhas que partir tão cedo
falo não sei se ouves
assim ao afastar-te devagar


Vera Pedrosa

VALE DO CAPÃO, CHAPADA


A FILA ANDA

Um dia qualquer, pode ser quarta-feira na hora do almoço, seu ex-marido telefona para contar que está namorando. Talvez ele mande uma mensagem de celular ou um e-mail. Não faz diferença. Você recebe a notícia e, instantaneamente, as imagens ao seu redor saem de foco. Você respira fundo, tenta se recompor, mas a voz da pessoa com quem está almoçando vai ficando cada vez mais longe. Por alguns segundos, você ouve apenas o seu próprio batimento cardíaco, sangue pulsando com som estereofônico nos ouvidos. Acha que vai desmaiar. É uma sensação assustadora, que, ainda bem, desaparece como veio. Então você se ajeita na cadeira, retoma a conversa, e, penosamente, começa a viver sua nova realidade.

Quanto tempo faz desde a separação – um ano, oito meses? Você já deveria estar preparada. Ele é um cara legal, bonito, afetuoso, uma hora aconteceria. Claro, vocês andaram trocando mensagens no final do ano, ele ficou com o seu cachorro durante as férias, talvez você achasse que as coisas estavam de alguma forma se ajeitando. Mas não.

Em todo esse tempo, repare, ele nunca tentou tocar em você, nunca a convidou para fazer nada romântico. Ele a procurava de vez em quando, é verdade, mas sempre para falar dos problemas que o afligiam no trabalho, na família, nas relações com os amigos. Você confundiu a intimidade que persistia entre vocês com alguma forma de romance, mas não era o caso. O romance estava guardado para outro alguém, que pelo jeito apareceu.

Não há o que censurar, você bem sabe. Durante esse tempo você também esteve tentando, procurando, se divertindo. Gostou daquele cara tatuado – lembra? -, mas ele não quis mais sair. Houve aquele outro, do beijo no meio do jantar. Você jurava que iria rolar, mas não. Antes de sentir-se vítima das circunstâncias ou das pessoas, lembre dos homens que você esnobou. Eles ligavam, procuravam, persistiam, mas com eles você não queria nada. Faltava química, vontade de rever, saudades. Senão você estaria namorando.

A verdade é que você não se apaixonou desde a separação. Ele se apaixonou. Não há injustiça.
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Ivan Martins, Época, 11/01/2017,14:54 hs

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

SEM TERRITÓRIO
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Ele (gênero da velocidade da luz) suprime, primeiro, a importância do intervalo espaço, esta extensão que fez as fronteiras, os cadastros, que dispôs as populações no mundo como no man´s land e com uma organização geográfica. Mas ele suprime também o intervalo tempo que fez a história! Os calendários, as efemérides e os relógios estiveram na base da história dos homens. Esta organização dos relógios, que permite organizar a vida dos homens em períodos diferentes e em nações diferentes, é liquidada instantaneamente pelo terceiro intervalo do gênero luz, que elimina, então, simultaneamente, os intervalos de espaço e de tempo. É um acontecimento sem referência. 
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Paul Virilio, 2000

SECOS & MOLHADOS - Sangue Latino


A verdadeira dialética

aí os caçadores chegaram
mataram o lobo e abriram a barriga
e encontraram a vovozinha
toda mastigadinha
quanto a chapeuzinho vermelho
eles comeram


Sebastião Uchoa Leite
ESPELHOS DO CRIME

Com o juiz Sergio Moro em férias e o Supremo Tribunal Federal operando em ritmo de recesso, imaginou-se que o noticiário policial poderia dar um refresco entre o Natal e o Carnaval. Mas houve apenas uma troca de personagens. Saíram momentaneamente das manchetes as facções criminosas do poder, que enfraquecem o Estado. Entraram em cena as facções barra-pesada, que aproveitam a impotência do poder público para se organizar e crescer.

As gangues de colarinho branco barbarizam a partir de gabinetes limpinhos e refrigerados. As facções de colarinho puído convertem presídios fétidos em centros decisórios da barbárie. Um grupo limpa os cofres públicos. O outro suja a paisagem de sangue. Num ou noutro caso, o Brasil mantém intacta no estrangeiro sua imagem de país exportador de descalabros.

Há algo em comum entre as facções de colarinho branco e os criminosos de colarinho puído. Os dois agrupamentos promovem a morte. A diferença é que os corruptos não portam armas. Suas vítimas morrem, por exemplo, nos corredores de hospitais sem verba. A bandidagem barra-pesada precisa ser mais explícita para virar notícia. Oferece a matança de rivais com decapitações.

Foi-se o tempo em que o brasileiro sonhava com uma solução para a criminalidade. Hoje, é preciso planejar o futuro levando em conta o insolúvel.

Blog do Josias de Souza, 10/01/2017, 19:40 hs