Este blog busca problematizar a Realidade mediante a expressão de linhas múltiplas e signos dispersos.
domingo, 5 de novembro de 2017
Ao tomar uma decisão de menor importância, eu descobri que é sempre vantajoso considerar todos os prós e contras. Em assuntos vitais, no entanto, tais como a escolha de um companheiro ou profissão, a decisão deve vir do inconsciente, de algum lugar dentro de nós. Nas decisões importantes da vida pessoal, devemos ser governados, penso eu, pelas profundas necessidades íntimas da nossa natureza.
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S. Freud
5 DE NOVEMBRO DE 2015
Já se passaram dois anos daquele fim de tarde de novembro em que Keila Vardeli viu um "mundo de lama" engolir bruscamente sua casa, pertences, a rotina no campo e as conquistas de uma vida inteira. Quando foi informada por um vizinho que a barragem de Fundão, em Mariana, - cerca de três quilômetros dali - tinha se rompido, não titubeou: saiu em disparada em direção a escola dos dois filhos no vilarejo rural de Bento Rodrigues. "Só pensei em correr, mas na minha cabeça não era para salvar eles. No meu pensamento, eu ia correr para morrer com eles", conta.
Mas salvou. Conseguiu em minutos buscar os filhos, levar outras crianças e vizinhos na caçamba de uma caminhonete e resgatar a mãe de 85 anos que já estava ilhada em casa. Subiram todos para o ponto mais alto do distrito e, quando finalmente conseguiram olhar para trás, o tsunami de rejeitos de minério de ferro já tinha acabado com o povoado. O desastre matou um total de 19 pessoas e deixou um rastro de destruição ao longo de mais de 600 quilômetros da Bacia do Rio Doce, até o litoral do Espírito Santo. Hoje é considerado o maior desastre ambiental da história do Brasil.
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Heloísa Mendonça, El País, Mariana, MG,04/11/2017, 21:38 hs
SAIR DO BINARISMO
O machismo não é apenas um comportamento individualizado no chamado macho, mas uma instituição milenar cujos primórdios se perdem nas brumas do tempo. Não se sabe a sua exata origem, e talvez nem seja preciso sabê-lo. A disseminação machista por outras instituições (estado, família, escola, religião, direito etc) torna-o camuflado, enquanto o combate político migra para o terreno pré-demarcado dos gêneros, homem versus mulher. Alguns grupos feministas "atiram para matar" o macho. Em outros lugares, contudo, o machismo realiza o trabalho aí sim de abater a diferença, lá onde ela nem se atreve a dizer o próprio nome. Falamos dos "n" sexos que pululam em todas as partes e nem por isso conseguem expressar formas de existir. A máquina binária homem/mulher (anti-pênis), animada pelo combustível ressentimento, se encarrega de produzir o Mesmo como se fosse o Novo. Que nada, apenas o olho bipolar em ação.
A.M.
Somos castigados por nossas renúncias. Cada impulso que tentamos aniquilar germina em nossa mente e nos envenena. Pecando, o corpo se liberta do seu pecado, porque a ação é um meio de purificação. Nada resta então a não ser a lembrança de um prazer ou a volúpia de um remorso. O único meio de livrar-se de uma tentação é ceder a ela. Se lhe resistirmos, as nossas almas ficarão doentes, desejando coisas que se proibiram a si mesmas, e, além disso, sentirão desejo por aquilo que umas leis monstruosas fizeram monstruoso e ilegal.
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Oscar Wilde
sábado, 4 de novembro de 2017
sexta-feira, 3 de novembro de 2017
LUISLINDA E OS DIREITOS HUMANOS
Responsável pela pasta dos Direitos Humanos, a ministra Luislinda Valois não se revelou uma campeã das causas dos fracos e oprimidos. Mas assimilou rapidamente os maus hábitos dos poderosos. O Estadão conta que Luislinda escreveu 207 páginas para defender o seu direito de receber dois contracheques: o de ministra e o de desembargadora aposentada. Coisa de R$ 61 mil. Pela lei, nenhum servidor pode receber além do teto de R$ 33.700. Mas Luislinda quer furar o teto.
Filiada ao PSDB, Luislinda anotou no seu documento que “se assemelha ao trabalho escravo” o teto que limita seu salário a R$ 33.700 —noves fora o cartão coporativo, a moradia funcional, o carro oficial, o jato da FAB e outras mordomias. Ganha uma biografia de Zumbi dos Palmares quem for capaz de citar uma frase de Luislinda contra a portaria editada pelo governo para dificultar o combate ao trabalho escravo.
Alguém poderia cantarolar para Luislinda um trecho da música Maria Moita, de Carlos Lyra. Diz a letra: “Vou pedir ao meu Babalorixá / Pra fazer uma oração pra Xangô / Pra pôr pra trabalhar / Gente que nunca trabalhou.” Contaminada pelo refrão, Luislinda talvez não volte nunca mais a tentar escravizar o contribuinte brasileiro, que não merece ser acorrentado aos seus privilégios.
Do Blog do Josias de Souza, 03/11/2017, 06:12 hs
DE CORAÇÃO
Digo que é inútil desperdiçar a vida num caminho, especialmente se esse caminho não tiver coração.
- Mas como é que sabe quando o caminho não tem coração, Dom Juan?
- Antes de segui-lo, você faz a pergunta: esse caminho tem coração? Se a resposta for não, você o saberá, e então deve escolher outro caminho.
- Mas como saberei ao certo se um caminho tem ou não coração?
- Qualquer pessoa sabe isso. O problema é que ninguém faz a pergunta; e quando o homem afinal descobre que tomou um caminho sem coração, o caminho está pronto para matá-lo. Nesse ponto muito poucos homens conseguem parar para pensar e deixar o caminho.
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Carlos Castañeda
MIL ESQUERDAS
Há uma sensibilidade de "esquerda" estranha à da esquerda marxista. Nela, o pensamento marxista continua útil, porém apenas em fragmentos (enunciados) não totalizáveis e, portanto, não totalitários. Numa palavra, não-dialéticos. Ainda assim, o texto marxiano é necessário para a pesquisa de um certo entendimento da realidade (ou máquina) do capital, já que foi Marx o autor que talvez mais haja escrito sobre ela. Trata-se do "econômico", conceito bem mais amplo que "financeiro". Desejo é um conceito econômico, pelo menos no sentido deleuziano. Não é possível, pois, falar de uma esquerda, mas de muitas, mil, cem mil esquerdas. O que elas têm em comum é a afirmação das diferenças: singularizações múltiplas. Isso não é idealista. Insere-se em práticas sociais concretas, mesmo que não sejam visíveis ao olhar imediato do senso comum. A luta das minorias (não quantitativas, mas desejantes) serve como referência a tais esquerdas. É possível citar, a guisa de exemplos, algumas com a marca da opressão sob variados matizes e gravidade. Os pobres, as mulheres, as crianças, os negros, os índios, os velhos, os loucos, os homossexuais (incluindo-se os "n" sexos),os imigrantes, entre muitas outras minorias, atravessam a História.Uma sensibilidade de esquerda é afetada pelas linhas coletivas (multiplicidades) que compõem tais minorias. Não com o intuito de buscar uma identidade para elas, mas para libertar a vida, ali onde ela é esmagada.
A.M.
Obs.: texto republicado, revisado e ampliado.
HORROR AO DESEJO
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Ao mesmo tempo em que a violência de gênero está pautando novelas, estes registros não param de crescer. Ativistas feministas são perseguidas e ameaçadas. De morte, inclusive. Gabriela Manssur, promotora que atua no Ministério Público de São Paulo em defesa dos direitos das mulheres, diz que os casos de perseguições a mulheres estão aumentando. "Mas nunca foi feita esta estatística", diz ela. "Tem uma ativista que está inclusive indo embora do país por causa da perseguição".
Um dos casos mais emblemáticos é de Lola Aronovich, professora da Universidade Federal do Ceará (UFC) e autora do blog Escreva, Lola, escreva. Ela já sofreu diversas ameaças de morte e de estupro simplesmente por ser feminista. Em cinco anos, já registrou 11 boletins de ocorrência, o último, em abril deste ano."As ameaças saem de uma quadrilha organizada", diz ela. "Eles perseguem não só a mim, mas a minhas leitoras e até as minhas advogadas", conta. No ano passado, Lola conta que o reitor da universidade onde ela trabalha recebeu um e-mail com uma ameaça: se não a exonerasse, haveria um atentado na UFC. "No texto diziam que ou ele despedia esta 'porca imunda', se referindo a mim, ou passaria uma semana recolhendo corpos de 300 cadáveres", conta ela. A Polícia Federal entrou na jogada. Até o momento nada foi descoberto.
Para Gabriela Manssur, apesar das tentativas de censura, o movimento feminista não tem volta. “As mulheres não estão mais aceitando a diminuição dos direitos por elas conquistados e que são fruto de uma luta feminista de muito tempo”, diz. Ela acredita, porém, que os movimentos retrógrados e o movimento feminista se retroalimentam. “Estamos vivendo sim uma onda de retrocesso em que há um conservadorismo muito grande, talvez até em resposta a esta autonomia que as mulheres conquistaram”. Lola Aronovich concorda. "Os ataques pioraram", diz. "Depois da eleição de Trump e agora com a consolidação da candidatura de Bolsonaro, as coisas tendem a piorar ainda mais".
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Marina Rossi, El País, São Paulo, 02/11/2017, 10:48 hs
quinta-feira, 2 de novembro de 2017
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