sábado, 3 de fevereiro de 2018

O homem solitário

Tem uma cicatriz na testa e senta-se sempre na ponta,
mesmo quando é grande o homem solitário é pequeno.

Junta ervas ou talha com a tesoura das recordações,
se não tem nada a fazer - e arrasta a sua manta gasta.

Uma cabeça de cavalo ilumina os campos e
o  homem solitário vai apenas olhá-la - não quer que tenha uma crina.

Enquanto os outros gritam ou falam da arte
à mesa, o homem solitário apanha as moscas e deixa-as voar.

Mas se escreve versos deixará sem dúvida
uma lágrima nos olhos ou um arranhão na vossa memória.

Tem um lar e sopa quente, mas está tão só;
a sua vida - abandonada como uma arca no fundo do corredor.

Que a sua casa se desmorone,
comerá cinzas, mas não se ajoelhará perante ninguém.

Em que fogo ardeu? E sob que ferro de passar?
Para o saber ter-se-á de beber com ele muito vinho.

Enquanto caminha com uma mancha na camisa limpa,
o homem solitário desaparece na multidão como átomo.

Com uma das mãos leva um livro para a sua alma doente,
com a outra o homem solitário segura a pequena corda que traz no bolso.


Boris Hristov
PSIQUIATRIA DA DIFERENÇA

Reproduzir a realidade, decalcá-la na busca de um modelo estável, não é pensar. Diferente disso, pensar é sair da cognição do mundo em prol da criação de mundos. Por motivos diversos, " pensar é um exercício perigoso". Citemos dois: 1-o despedaçamento de categorias teóricas sustentadas pelo conceito de identidade, e por extensão, do verbo ser, já que é impossível  estancar o devir. 2- pelo efeito direto do ato de pensar sobre as instituições que balizam a subjetividade moderna e o funcionamento do eu, gerando uma perda (irreversível) das referências de sentido. Ora, o pensamento, numa acepção deleuziana, compreende a ciência, a arte e a filosofia, não havendo qualquer superioridade de uma forma sobre a outra. No caso de uma psiquiatria da diferença, ele arrisca-se a sair do circuito fechado das neurociências e adentra à filosofia e à arte como prática social de experimentação: a clínica.

A.M.

HENRY ASCENCIO


No momento em que (o homem) compreende, absoluta e finalmente, que a vida não pode ser capturada, ele a solta, percebendo num átimo de segundo que tolo ele tem sido ao tentar retê-la como se fosse sua. Assim, nesse momento, ele alcança a liberdade do espírito, pois compreende o sofrimento inerente à tentativa humana de guardar o vento numa caixa, de manter viva a vida sem deixar que ela viva.
(...)

Alan Watts

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

BOA VIAGEM, LULA!

Após duas semanas de derrotas na Justiça, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva finalmente recebeu uma decisão judicial para celebrar. O petista não conseguiu viajar para a Etiópia na sexta-feira passada, por conta da apreensão de seu passaporte, mas, a partir desta sexta-feira, está liberado para deixar o país quando desejar. Minutos depois da decisão, a defesa do ex-presidente entrou com um pedido de habeas corpus preventivo no Supremo Tribunal Federal (STF) para tentar evitar sua prisão. O pedido é o mesmo negado nesta semana pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ).
No caso do passaporte, o juiz Bruno Apolinário, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), reverteu a decisão do juiz Ricardo Leite, da 10ª Vara do Distrito Federal, e determinou a devolução do documento a Lula. Onde Leite viu "risco de fuga" Apolinário enxergou "um grande exercício de imaginação". "Percebe-se na conduta do paciente [Lula] o cuidado de demonstrar, sobretudo ao Poder Judiciário, que sua saída do país estava justificada por compromisso profissional previamente agendado, seria de curta duração, com retorno predeterminado, e que não causaria nenhum transtorno às ações penais às quais responde perante nossa justiça", escreve o juiz na decisão tomada nesta sexta-feira.
(...)

Rodolfo Borges, El País, São Paulo, 02/02/2017, 21:04 hs

CARLOS LYRA - Primavera

Interrogação

Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.

Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
Como a esposa sensual do Cântico dos Cânticos.

Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno...
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de Inverno.

Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro o olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.

Eu não sei se é amor. Será talvez começo...
Eu não sei que mudança a minha alma pressente...
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.


Camilo Pessanha

A FORMA DA ÁGUA, direção de Guillermo Del Toro, 2018

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Quando eu me apresento a alguém, pouco me importa que seja branco, negro ou amarelo, capitalista, comunista, cristão, ateu, judeu, muçulmano, hindu ou budista. pobre, rico. Para mim me basta e me sobra com que seja um ser humano, pior coisa não poderia ser.

Mark Twain
IMAGENS HEDIONDAS

A Conmebol decidiu abrir uma investigação para analisar a conduta de parte da torcida do Nacional no jogo de ida da segunda fase da Libertadores, na última quarta-feira, contra a Chapecoense, na Arena Condá. Na ocasião, alguns uruguaios imitaram aviões e fizeram gestos em alusão à queda do vôo que transportava o time brasileiro para a final da Copa Sul-Americana de 2016.

A entidade fará analise das imagens do jogo e também das que circulam em redes sociais para estudar se cabe penalização ao Nacional por conta dos atos de seus torcedores. O caso está nas mãos da assessoria jurídica do órgão.
(...)

Eduardo Florão e Matin Fernandez, Globo.com, Chapecó e Rio de Janeiro, 01/02/2018, 20:00 hs

ALEXI ZAITSEV


NÃO ME VENHAM COM METAFÍSICAS

o corpo e a matéria em prosa
aqui e agora
nada de primeiros motores
nada de supremos valores
isso fica para os filhos da pátria
nem francisco de assis nem santa teresinha
amai-vos uns sobre os outros
nada de temores e tremores
nem de noite escura da alma
a prosa é preferível
"sei de um estilo penetrante
como a ponta de um estilete". flaubert
é só isso


Sebastião Uchoa Leite
PENSAR A CLÍNICA

Há uma questão crucial no pensamento de Gilles Deleuze. Está contida na pergunta "O que é pensar?". Isso se mostra útil no trabalho da clínica em psicopatologia se se parte de duas perguntas-chave. 1- do que se trata? 2- o que fazer? A primeira refere-se ao meio onde as coisas acontecem; a segunda à terapêutica. São momentos clínicos ligados numa condição de disponibilidade à prática. É que os dois personagens (paciente e técnico) costumam se encontrar numa linha de risco encoberta pela burocracia das instituições (ambulatórios, caps, consultórios, etc). Tal "encobrimento" é um elemento inconsciente do drama da saúde mental, qual seja o de que o paciente necessita de um remédio para aplacar o seu sofrimento. Ora, se há sofrimento (e há) não é um remédio, seja químico, psíquico, moral, ou de outra natureza, que irá salvá-lo, até porque não há salvação mas a anti-salvação como contato direto de si mesmo com o mundo considerado possível. Assim, num trabalho clínico há que fazer pensar o paciente e quem o atende, não como cognição da realidade, não como repetição cega da mesma, não como dose de conformismo açucarado, mas como invenção de realidades, mesmo as menores, as minúsculas, as invisíveis, as desprezadas pelo senso comum.

A.M.

BRAZIL