terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

DELEUZE E O DESEJO

CALÇAS NO PONTO

O nome dele é Manoel de Queiroz Pereira Calças. Desembargador, acaba de assumir a presidência do Tribunal de Justiça de São Paulo. Embolsa auxílio-moradia de R$ 4.377,73. “Eu acho pouco”, declarou, antes de admitir que não é, digamos, um sem-teto: “Tenho vários imóveis, não um só.” Em entrevista, reagiu como se considerasse uma falta de educação o questionamento dos repórteres sobre o tema. ''Auxílio-moradia é previsto na lei da magistratura nacional. Ponto!''.

Na administração pública, toda encrenca, no início, é um ponto. Ponto de partida, não ponto final, como deseja o desembargador Calças. Há um ponto fraco na sua argumentação. A lei da magistratura anota que, além dos vencimentos, os doutores “poderão” receber vantagens como o auxílio-moradia (quando forem transferidos para outras cidades, por exemplo). Pingando-se os pontos nos is, verifica-se que a coisa virou tunga quando uma liminar do ministro Luiz Fux, do STF, estendeu o mimo a todos os juízes e procuradores. Ponto de exclamação.

As corporações não dormiram no ponto. Rapidamente, o contribuinte começou a sentir as pontadas no bolso. Levantamento da consultoria do Senado revela a que ponto chegamos: a conta do auxílio-moradia de juízes e procuradores somou R$ 96,5 milhões entre janeiro de 2010 e setembro de 2014, quando Fux expediu sua liminar. De outubro de 2014 até novembro de 2017, o espeto saltou para R$ 1,3 bilhão.

Com pose de pontífice, o desembargador Calças pontificou: ''Na verdade, o auxílio-moradia é um salário indireto. Ele tem o nome de auxílio porque na lei orgânica da magistratura é previsto como tal. E tem uma decisão da Suprema Corte que está prevendo para todos os juízes''. Ai, ai, ai. Meu Deus… Três pontinhos.

Quando escuta um presidente de tribunal tratando uma grossa anormalidade como algo normal, o brasileiro que frequenta ponto de ônibus e ainda não fez fortuna no ponto lotérico ou no ponto do bicho fica desapontado. Mas não é hora de entregar os pontos. Ao contrário.

Se há um ponto pacífico em toda essa história é o seguinte: os privilégios pendurados nos contracheques de magistrados e procuradores empurram o Judiciário para dentro da mesma frigideira em que ardem o Executivo e o Legislativo. Com seu lero-lero, o doutor calças ficou, por assim dizer, nu. Foi às manchetes de ponta-cabeça.

Passou da hora de exigir que o Supremo Tribunal Federal retire do ponto morto a decisão liminar (provisória) do ministro Fux. De preferência ontem, não num ponto futuro.


Do Blog do Josias de Souza, 06/02/2018, 06:31 hs

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

PSICOPATOLOGIA PARA QUE?

Um meu amigo vai ensinar psicopatologia para alunos do curso de psicologia. A universidade é pública. Disse-lhe que a psicopatologia atual, a que deveria servir de instrumento teórico-clínico à psiquiatria, agoniza. A psiquiatria biológica, amante e idólatra das sinapses cansadas e dos fármacos à mão cheia, já nem precisa da psicopatologia, exceto para registrar a depressão crônica que nos assola a todos, inclusive a própria psiquiatria. Também disse que se ele conseguir divorciar, separar a psicologia da psiquiatria, terá realizado um grande trabalho no semestre letivo. Os alunos, enfim, começarão a pensar.

A.M.

EDU LOBO - A moça do sonho

PLANOS

Continuarei a fugir do verão
porque amolece meus ossos
as farpas de sua luz me cegam.
Em março vou cruzar os braços.
Contornarei as alamedas do outono
com a possível dignidade.
Com um pouco de sorte
passarei o inverno em teu peito.
Na densidade da lã.
Pele rosada, lareira, Mozart, samovar,
Lágrima, sorriso tímido, sopa de cebola.
A primavera é tola.
Não tenho planos para ela.


Eudoro Augusto

CARYBÉ


domingo, 4 de fevereiro de 2018

GEOFILOSOFIA

Os direitos do homem não dizem nada sobre os modos de existência imanentes do homem provido de direitos. E a vergonha de ser um homem, nós não a experimentamos somente nas situações extremas descritas por Primo Levi, mas nas condições insignificantes, ante a baixeza e a vulgaridade da existência que impregnam as democracias, ante a propagação desses modos de existência e de pensamento-para-o-mercado, ante os valores, os ideais e as opiniões de nossa época. A ignomínia das possibilidades de vida que nos são oferecidas aparecem de dentro. Não nos sentimos fora de nossa época, ao contrário, não cessamos de estabelecer com ela compromissos vergonhosos. Este sentimento de vergonha é um dos mais poderosos motivos da filosofia. Não somos responsáveis pelas vítimas, mas diante das vítimas. E não há outro meio senão fazer como o animal (rosnar, escavar o chão, nitrir, convulsionar-se) para escapar ao ignóbil: o pensamento mesmo está por vezes mais próximo de um animal que morre do que de um homem vivo, mesmo democrata. Se a filosofia se reterritorializa sobre o conceito, ela não encontra sua condição na forma presente do Estado democrático, ou num cogito de comunicação mais duvidoso ainda que o cogito da reflexão. Não nos falta comunicação, ao contrário, nós temos comunicação demais, falta-nos criação. Falta-nos resistência ao presente. A criação de conceitos faz apelo por si mesma a uma forma futura, invoca uma nova terra e um povo que não existe ainda. A europeização não constitui um devir, constitui somente a história do capitalismo que impede o devir dos povos sujeitados.
(...)

Gilles Deleuze e Félix Guattari in O que é a filosofia?
FOI  SEM  QUERER

Os papas não recuam voluntariamente. Pelo menos, não o fazem em público. Não estão acostumados a pedir perdão de forma explícita por suas medidas ou atitudes. Mas, na contramão de boa parte de seus 263 antecessores, o argentino Jorge Bergoglio, o papa Francisco, pediu desculpas no dia 22 de janeiro por ter exigido “provas” às vítimas dos abusos sexuais protagonizados nos anos 1980 e 1990 pelo padre Fernando Karadima e pelo encobrimento realizado pelo bispo de Osorno, Juan Barros. O papa se retratou a bordo do avião que o levava a Roma depois de uma visita ao Chile e ao Peru. “Devo pedir desculpas porque a palavra ‘prova’ feriu muitos abusados. Foi sem querer.”

Além da declaração pública, o papa deu uma guinada em sua postura de  não levar em conta essas denúncias e determinou o envio a Santiago do Chile do “007” do Vaticano, o cardeal canadense-maltês Charles Scicluna, que terá a missão de ouvir as vítimas e investigar os casos.
(...)

Ariel Palacios, El País, 04/02/2018, 10:01 hs

LOUIS ARMSTRONG - What A Wonderful World

qual política
não se afina
com a morte

qual política
não se casa
com o poder

qual?



A.M.

UM PT SEM PETISMO? (*)

Se há algo de que o Brasil não necessita para se renovar é um Partido dos Trabalhadores agressivo, com vocabulário de guerra, pedindo à sociedade desobediência civil e aos trabalhadores que incendeiem as ruas. Uma esquerda assim está mais para o sonho dos extremistas de direita, não de quem busca caminhos de diálogo. Essa esquerda beligerante é a encarnada hoje por duas figuras jovens: Gleisi Hoffmann, senadora e presidente do PT, e Lindbergh Farias, líder do partido no Senado. Uma esquerda que está encurralando as figuras e as ideias mais sensatas que haviam criado o PT democrático.

Sou dos colunistas que escreveram muitas vezes que o Partido dos Trabalhadores representou, em seus melhores momentos, um guia não só para o Brasil, mas para a esquerda da América Latina, como um incentivo contra as injustiças sociais em um continente vilipendiado pela pior das desigualdades entre ricos e pobres. Hoje, aquela esquerda se encontra, porém, desorientada, com Lula condenado por corrupção a 12 anos de prisão e, provavelmente, impossibilitado por lei de disputar as eleições. Mas não é nos momentos de maior crise interna de um partido político da envergadura do PT que seria necessário, em vez de atiçar o fogo do enfrentamento, buscar caminhos novos de superação da crise, com os nervos calmos e o cérebro lúcido?
(...)

Juan Arias, El País, 02/02/2018, 14:39 hs

(*) Título do blog

sábado, 3 de fevereiro de 2018

TV PIRATA - O mundo é falso!

TROCAR  DE  IMPRENSA

O governador Luiz Fernando Pezão descobriu uma solução revolucionária para os problemas do Rio de Janeiro. Após profundas reflexões, ele concluiu que, no quesito segurança pública, a capital do seu Estado é bem menos violenta do que se imagina. E tudo pode ficar ainda melhor com uma providência simples: trocar de imprensa. Essa que atua no Rio é de péssima qualidade.

Pressionado a pronunciar meia dúzia de palavras sobre o surto de violência que invade o noticiário, Pezão declarou: “A cidade do Rio não é a cidade mais violenta do país. Mas se a gente vir os nossos noticiários, os nossos jornais, parece que é. É uma cobertura cruel, o que a nossa área de segurança tem aqui. Infelizmente.”

Para que o Rio se torne um paraíso seguro, livrando seus moradores da violência, é imperioso que os jornalistas, depois de reciclados como lixo, façam o seu papel: de cegos. Do jeito que está, o noticiário não pode continuar. Se deixar, essa gente acaba retratando o governador como um reles impostor.

Se a imprensa não for trocada, disseminará a tese segundo a qual alguém que, em meio ao pipocar de escândalos e de tiros, depois de anos em que o Rio foi saqueado pelos esquemas que o acompanham no poder desde Sergio Cabral, continua a empunhar a bandeira da normalidade ou é um cínico ou um banana. Em nenhum dos casos é o governador que seus eleitores esperavam.
(...)

Do Blog do Josias de Souza, 02/02/2018, 02:47 hs
Para quem ama, não será a ausência a mais certa, a mais eficaz, a mais intensa, a mais indestrutível, a mais fiel das presenças?
(...)

Marcel Proust