quarta-feira, 2 de maio de 2018

QUIETUDE

Imerso neste novo amor, a morte.
O teu caminho começa do outro lado.
Torna-te o céu.
Pega um machado e vai até a parede da prisão.
Foge.
Sai caminhando como se fosses apenas nascido nas cores.
Agora.
Estás coberto por uma espessa nuvem.
Desliza para o lado. Morre,
e fica quieto. A quietude é o sinal mais seguro
de que estás morto.
A tua antiga vida era um correr desvairado
do silêncio.

A silente lua cheia despontou agora.



Rumi

HÁ CINQUENTA ANOS

maio/68

AS BARRICADAS DO DESEJO

Há 50 anos, em um mês de maio como este, enquanto o Brasil estava aprisionado pela ditadura, na França irrompia a maior revolta estudantil do século, uma explosão em favor da liberdade, chamada também de “a revolução da alegria”. Desde aquele maio chegou-se a escrever que depois dele nada mais foi igual em boa parte do mundo. O poder mudou de domicílio e foi entregue à imaginação.
O Brasil já na democracia chega ao aniversário de meio século do maio francês confuso e alarmado, enquanto tocam os sinos de alerta ante a presença de nostalgias autoritárias e belicosas tanto por parte da direita como da esquerda. Seria preciso se perguntar se o Brasil de hoje que derrotou a ditadura militar deveria se espelhar naquele maio francês que despertou a sociedade conservadora, classista e tediosa, com o desafio da “imaginação no poder” e o lema “destruam as engrenagens”, dois dos grafites dos muros de Paris que percorreram o mundo com o “sejam realistas, peçam o impossível”.
(...)

Juan Arias, El País, 30/04/2018, 19:58 hs
O VAMPIRO NÃO NEM IMAGEM

(...)
Todo pensamento é já uma tribo, o contrário de um Estado. E uma tal forma de exterioridade para o pensamento não é em absoluto simétrica à forma de interioridade. A rigor, a simetria só poderia existir entre pólos e focos diferentes de interioridade. Mas a forma de exterioridade do pensamento — a força sempre exterior a si ou a última força, a enésima potência — não é de modo algum uma outra imagem que se oporia à imagem inspirada no aparelho de Estado. Ao contrário, é a força que destrói a imagem e suas cópias, o modelo e suas reproduções, toda possibilidade de subordinar o pensamento a um modelo do Verdadeiro, do Justo ou do Direito (o verdadeiro cartesiano, o justo kantiano, o direito hegeliano, etc). Um "método" é o espaço estriado da cogitatio universali, e traça um caminho que deve ser seguido de um ponto a outro. Mas a forma de exterioridade situa o pensamento num espaço liso que ele deve ocupar sem poder medi-lo, e para o qual não há método possível, reprodução concebível, mas somente revezamentos, intermezzi, relances. O pensamento é como o Vampiro, não tem imagem, nem para constituir modelo, nem para fazer cópia. No espaço liso do Zen, a flecha já não vai de um ponto a outro, mas será recolhida num ponto qualquer, para ser relançada a um ponto qualquer, e tende a permutar com o atirador e o alvo. O problema da máquina de guerra é o dos revezamentos, mesmo com meios parcos, e não o problema arquitetônico do modelo ou do monumento. Um povo ambulante de revezadores, em lugar de uma cidade modelo. "A natureza envia o filósofo à humanidade como uma flecha; ela não mira, mas confia que a flecha ficará cravada em algum lugar. Ao fazê-lo, ela se engana uma infinidade de vezes e se desaponta. (...) Os artistas e os filósofos são um argumento contra a finalidade da natureza em seus meios, ainda que eles constituam uma excelente prova da sabedoria de seus fins. Eles jamais atingem mais do que uma minoria, quando deveriam atingir todo mundo, e a maneira pela qual essa minoria é atingida não responde à força que colocam os filósofos e os artistas em atirar sua artilharia"...
(...) 

G. Deleuze e F. Guattari in Mil Platôs, vol 5

MARISA MONTE - O Que Se Quer

isso é antigo
tão antigo
que da tua boca
nasceu a minha
e a nossa
saudade do futuro

A.M.

QUINZE SEGUNDOS DE BOULOS

A sorte foi malvada com Michel Temer quando ele escolheu dar ouvidos aos assessores que enxergaram no desabamento de um prédio ocupado por famílias pobres uma oportunidade a ser aproveitada politicamente. A pretexto de oferecer um ombro presidencial aos desabrigados, Temer foi ao encontro da tragédia. Saiu enxotado, com a impopularidade de 70% entre as pernas. O presidente mal teve tempo de balbuciar meia dúzia de frases para os jornalistas.

Inconformado com as pesquisas que expõem o estilhaçamento de sua imagem, Temer realiza um esforço para restaurar as aparências. Há mais desespero do que método na estratégia do presidente.

Na noite da véspera, Temer ocupara uma rede nacional de rádio e TV para anunciar, no alvorecer de maio, um reajuste do Bolsa Família que só chegará ao bolso das pessoas em julho. Num pronunciamento concebido para celebrar o Dia do Trabalhador, Temer pediu “paciência” aos 13,7 milhões de desempregados.

Depois de adular a clientela do Bolsa Família, Temer foi dormir na noite de segunda-feira imaginando que havia adocicado os sonhos do eleitorado do presidiário Lula. E acordou na terça-feira achando que poderia viver seus 15 segundos de Guilherme Boulos, o líder das ocupações urbanas. O presidente cutucou a pobreza com o pé. E descobriu que ela morde.


Do Blog do Josias de Souza, 02/05/2018, 02:54 hs

ANA MARIA DIAS


terça-feira, 1 de maio de 2018

Eu era um homem que se fortalecia na solidão; ela era para mim a comida e a água dos outros homens. Cada dia sem solidão me enfraquecia. Não que me orgulhasse dela, mas dela eu dependia. A escuridão do quarto era como um dia ensolarado para mim.
(...)

Charles Bukowski

BARRY WHITE - Love ´s Theme

Na verdade, somos uma só alma, tu e eu.
Nos mostramos e nos escondemos tu em mim, eu em ti.
Eis aqui o sentido profundo de minha relação contigo,
Porque não existe, entre tu e eu, nem eu, nem tu.


Rumi
MIL ESQUERDAS

Há uma sensibilidade de esquerda completamente estranha à da esquerda marxista. Esta, em sua versão ortodoxa, contribuiu historicamente para esmagar a voz da diferença. O estalinismo e suas máquinas assassinas, marcaram... Ao contrário, no pensamento da multiplicidade o texto de Marx é utilizado apenas em pedaços nunca totalizáveis, jamais remetendo a um significante despótico. Trata-se da busca de um certo entendimento (não burguês) da realidade do capital, já que foi Marx o autor que talvez mais haja escrito sobre ela. Assim, é possível falar do econômico como um conceito bem mais amplo que financeiro. A propósito, "desejo" é um conceito econômico e não sexual, pelo menos numa acepção deleuziana. Não há uma esquerda, mas mil, cem mil esquerdas. O que têm em comum é a afirmação das diferenças: singularizações múltiplas. Nenhuma abstração aqui e sim práticas sociais concretas, mesmo invisíveis ao olhar imediato do senso comum. A luta das minorias (não quantitativas, mas desejantes) serve como referência a tais esquerdas. É possível citar, a guisa de exemplos, algumas minorias que suportam a marca da opressão sob variados matizes e gravidade. Os pobres, os operários, as mulheres, as crianças, os negros, os índios, os velhos, os loucos, os homossexuais (incluindo-se os "n" sexos),os imigrantes, entre outras, atravessam a História e o seu pesadelo, como diria Joyce.Uma sensibilidade de esquerda é afetada pelas linhas coletivas que compõem tais minorias. Não para buscar uma identidade, mas para libertar a vida, ali onde ela foi esmagada.

A.M.


Obs. - Texto revisado, ampliado e republicado.

SALVADOR, MEU AMOR

praia da Pituba

AUTOCRÍTICA OU AUTÓPSIA 


O grande problema das autocríticas é que elas sempre chegam tarde. No caso do Partido dos Trabalhadores, a demora foi tão grande que a providência tornou-se desnecessária. Ao reagir contra a mais nova denúncia da procuradora-geral Raquel Dodge, o PT deixou claro que seu caso não é mais de autoanálise, mas de autópsia.

Dodge acusou de corrupção e lavagem de dinheiro Lula, a presidente do PT Gleisi Hoffmann, os ex-ministros petistas Antonio Palocci e Paulo Bernardo, o empreiteiro Marcelo Odebrecht e um um ex-assessor de Gleisi: Leones Dall'Agnol. De acordo com a denúncia, a Odebrecht trocou vantagens empresariais por propinas. Coisa de US$ 40 milhões. Ou R$ 64 milhões, em moeda nacional. Parte da verba foi passada a sujo em campanhas eleitorais, entre elas a de Gleisi.

A Executiva nacional do PT soltou uma nota. O conteúdo não é original. Um redator qualquer limitou-se a apertar o botão da perseguição política. E a resposta fluiu: “Mais uma vez a Procuradoria Geral da República, de maneira irresponsável, formaliza denúncias sem provas a partir de delações negociadas com criminosos em troca de benefícios penais e financeiros. […] Mais uma vez o Ministério Público tenta criminalizar ações de governo citando fatos sem conexão e de forma a atingir o PT e seus dirigentes.”

A nota reforça a sensação de que os petistas dividiram-se em três grupos: há os presos, os que aguardam na fila e os que se comportam à maneira do avestruz, enfiando a cabeça no silêncio. E a Executiva mantém o PT no seu labirinto: “A denúncia irresponsável da Procuradoria vem no momento em que o ex-presidente Lula, mesmo preso ilegalmente, lidera todas as pesquisas para ser eleito o próximo presidente pela vontade do povo brasileiro.”

Mais um pouco e até a autópsia será desnecessária. Bastará emitir o atestado de óbito, anotando no espaço dedicado à causa mortis: “Cinismo crônico.”


Do Blog do Josias de Souza, 01/04/2018, 05:37 hs

FERIADÃO