Este blog busca problematizar a Realidade mediante a expressão de linhas múltiplas e signos dispersos.
segunda-feira, 8 de outubro de 2018
domingo, 7 de outubro de 2018
UMA SÓ VOZ PARA O SER
(...) Com efeito, o essencial na univocidade não é que o Ser se diga num único sentido. É que ele se diga num único sentido de todas as suas diferenças individuantes ou modalidades intrínsecas. O Ser é o mesmo para todas estas modalidades, mas estas modalidades não são as mesmas. Ele é "igual" para todas, mas elas mesmas não são iguais. Ele se diz num só sentido de todas, mas elas mesmas não têm o mesmo sentido. É da essência do ser unívoco reportar-se a diferenças individuantes, mas estas diferenças não têm a mesma essência e não variam a essência do ser como o branco se reporta a intensidades diversas, mas permanece essencialmente o mesmo branco. Não há duas "vias", como se acreditou no poema de Parmênides, mas uma só "voz" do Ser, que se reporta a todos os seus modos, os mais diversos, os mais variados, os mais diferenciados. O Ser se diz num único sentido de tudo aquilo de que ele se diz, mas aquilo de que ele se diz difere: ele se diz da própria diferença.
(...)
G. Deleuze in Diferença e Repetição
NO FINAL, O ÓDIO
Dois sentimentos permeiam a campanha presidencial no Brasil de 2018 e poderão ser lembrados nos livros de história do futuro. A raiva e o medo forjaram a decisão de uma grande massa de eleitores que vai às urnas neste dia 7 e que, a priori, deve contar com um segundo turno se as pesquisas eleitorais estiverem certas. Se confirmadas, Jair Bolsonaro, do PSL, e Fernando Haddad, do PT, podem vir a zerar o cronômetro depois deste domingo e disputar os votos de 147 milhões de eleitores para ser o sucessor de Michel Temer no Palácio do Planalto. Bolsonaro vem com ampla vantagem, com 40% dos votos válidos, segundo a última pesquisa Datafolha. Se liquidar a fatura neste primeiro turno ou vencer o segundo, pode se tornar o primeiro presidente evangélico neopentecostal do Brasil.
Haddad, por sua vez, tem 25% dos votos válidos e se conseguir superar o candidato de extrema direita no segundo turno pode simbolizar uma doce vingança para o ex-presidente Lula, preso desde abril deste ano por corrupção e lavagem de dinheiro num julgamento que chamou a atenção do mundo. Até esta sexta, a chance de vitória em primeiro turno de Jair Bolsonaro era de 20%, de acordo com a consultoria Eurasia. Mas se passar para o segundo, a chance de ser o próximo presidente é de 70% de acordo com projeção da corretora Spinelli.
(...)
Carla Jiménez, El País, São Paulo, 07/10/2018, 09:52 hs
A fúria da beleza
(...)
Acontece às vezes e não avisa.
A coisa estarrece e abre-se um portal.
É uma dobradura do real, uma dimensão dele,
uma mágica à queima-roupa sem truque nenhum.
Porque é real.
Doeu a flor em mim tanto e com tanta força
que eu dei de soluçar!
O esplendor do que eu vi era pancada,
era baque e era bonito demais!
Penso, às vezes, que vivo para esse momento
indefinível, sagrado, material, cósmico,
quase molecular.
Posto que é mistério,
descrevê-lo exato perambula ermo
dentro da palavra impronunciável.
Sei que é desta flechada de luz
que nasce o acontecimento poético.
Poesia é quando a iluminação zureta,
bela e furiosa desse espanto
se transforma em palavra!
A florzinha distraída
existindo singela na rua paralelepípeda esta manhã,
doeu profundo como se passasse do ponto.
Como aquele ponto do gozo,
como aquele ápice do prazer
que a gente pensa que vai até morrer!
Como aquele máximo indivisível,
que, de tão bom, é bom de doer,
aquele momento em que a gente pede pára
querendo que e não podendo mais querer,
porque mais do que aquilo
não se agüenta mais,
sabe como é?
Violenta, às vezes, de tão bela, a beleza é!
Elisa Lucinda
Ela foi embora, e eu fiquei bêbado por três dias e três noites. Assim que recuperei a sobriedade, soube que meu emprego já era. Nunca voltei lá. Decidi limpar o apartamento, aspirei o chão, escovei as esquadrias das janelas, esfreguei a banheira e a pia, encerei o chão da cozinha, matei todas as aranhas e baratas, esvaziei e lavei os cinzeiros, lavei os pratos, areei a pia da cozinha, estendi toalhas limpas e coloquei um novo rolo de papel higiênico no banheiro. Devia ser a veadagem chegando, pensei. Quando ela finalmente voltou para casa acusou-me de ter trazido uma mulher aqui, pois parecia tudo limpo demais. No íntimo, eu seguia me dizendo que todas as mulheres do mundo não eram putas, somente a minha.
(...)
Charles Bukowski
QUE SÃO MICROFASCISMOS?
O fascismo, historicamente marcado pelo regime de Mussolini (Itália, 1883/1945), nos dias atuais mostra-se subjetivizado e subjetivizando o leque político direita/esquerda. Aqui não se trata de usar um viés psicológico de análise, ao contrário. É que suas formas de expressão prática englobam pessoas tanto ditas de direita quanto de esquerda. Desaba a distinção Direita/Esquerda como essência ou forma social estanque ou como referência totalizadora e totalitária do pensar político. Há muito adentramos no campo dos microfascismos, termo criado por Félix Guattari no século passado. E o que seriam eles? São modos de existência que buscam a todo custo homogeneizar a realidade, mesmo que para isso necessite barrar a diferença e substitui-la por representações do que é o Mundo. A partir daí, o Mundo é recusado como devir e no seu lugar instituída a Ordem, ou seja, a serialização e normatização do desejo. Viva a morte! é o lema (mesmo não explícito) dos fascismos e por extensão dos microfascismos. É possível exemplificar tal estado de coisas na direita (o apego à Conserva - o conservadorismo, o horror à mudança) e na esquerda (o apego à transcendência da revolução, o fundamentalismo da pobreza). Estes são padrões extremos, já que há matizes sutis no meio, clichês (imagens) que servem para exibir a possibilidade de ereção dos microfascismos. Sim, eles nos habitam como pontos de latência...
A.M.
sábado, 6 de outubro de 2018
A CORRUPÇÃO INSTITUÍDA
Corrupção existe no Brasil desde 1.500 com a chegada de Pedro Álvares Cabral. Mas a corrupção sistêmica surgiu com a tomada do poder central pelo PT em 2002. Aquele mesmo partido da redemocratização pós-ditadura e do discurso pela ética. Isso , é evidente, atravessa de ponta a ponta o fenômeno Bolsonaro.
A.M.
A subversão consiste em levar uma vida filosófica na qual as virtudes dominantes da nossa época mercantil (o dinheiro, o poder, a riqueza, a ostentação, as honras, a busca de celebridade, a futilidade, a mundanidade, a paixão pelas aparências…) sejam completamente ignoradas e substituídas sem alarde por valores reais: ser em contraste com o ter; o poder sobre si e não sobre os outros; a indiferença em relação ao dinheiro – quer o tenhamos ou não, nada se fará para o ter; a supremacia da vida interior contra o império do olhar do outro sobre si; a recusa das honras, de que se preferirá o sentido da honra; a indiferença relativamente à celebridade – tenha-se ou não, o importante é nada fazer para a ter; o desejo de se construir em profundidade longe da superficialidade mundana, ou seja, a escultura de si como ato para si e não como ficção para o outro.
(...)
Michel Onfray
sexta-feira, 5 de outubro de 2018
A BENÇÃO DE EDIR
Dias após receber o apoio do todo-poderoso bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus, o candidato Jair Bolsonaro (PSL) foi agraciado pelo religioso com uma espécie de bênção: 30 minutos de palanque na TV nesta quinta-feira. Enquanto os outros candidatos à presidência se enfrentavam no debate da TV Globo, o último antes do primeiro turno das eleições, foi ao ar na Record, que também é de propriedade de Macedo, uma entrevista exclusiva com o capitão reformado do Exército. Sentado na sala de sua casa no Rio de Janeiro, onde termina de se recuperar do atentado que sofreu em setembro, Bolsonaro se sentiu à vontade. Não teve de lidar com questionamentos duros e viu sua imagem ser suavizada. Em ao menos dois momentos o presidenciável mentiu sem ser questionado - sobre os protestos #EleNão e sobre declarações machistas, racistas e homofóbicas feitas por ele.
(...)
Gil Alessi, El País, São Paulo, 05/10/2018, 11:05 hs
garimpo
esta procura tem um nome insanidade
passei da idade de tentar fazer sonetos
eu só consigo descrever cinzas e pretos
acho que o verso não alcança claridade
pelas gavetas prateleiras escondidos
ainda agarro pelo rabo alguns cometas
quero as estrelas não encontro suas tetas
sinto a fissura dos pequenos desvalidos
a minha escrita sempre foi penosa esgrima
desde menina que não tenho paradeiro
eu caço sapo com bodoque o dia inteiro
nesta esperança de catar melhores rimas
vasculho as glebas os grotões e quem diria
bateio o sol chego a pensar que a noite é dia
Líria Porto
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