terça-feira, 12 de março de 2019

Quando eu era pequeno, meus pais descobriram que eu tinha tendências masoquistas. Aí me passaram a me bater todo dia, para ver se eu parava com aquilo.

Woody Allen

domingo, 10 de março de 2019

SÓ  PARA  LOUCOS

A linguagem poética constitui um território de significações que escapa às coordenadas da razão. Um sentido a se produzir. Desse modo, a busca de singularidades existenciais é facilitada pela aventura de se ler um poema e implicar-se a ele. O que isso quer dizer? Quer dizer formar e firmar conexões afetivas com um ou muitos pedaços do poema ou do poema como um todo, mesmo sabendo que não há todo. Não há todo porque as multiplicidades heterogêneas do texto nunca fecham um sistema ou tamponam um devir. O processo do desejo é irreversível. Ou seja, sem volta. A poesia é isso: multiplicidades do leitor se ligando a multiplicidades do poema na busca de... uma diferença. Ler um poema não é como ler um ensaio de sociologia, por exemplo, mas sim escutar os versos como se escuta uma música ou se sente no corpo as vibrações das cores de um quadro de Emil Nolde, ou no mesmo corpo e ao mesmo tempo o ritmo de um improviso de jazz. Poesia não foi e não é feita para interpretar porque ela já é uma interpretação ou mil, cem mil interpretações da realidade. Quando se está apaixonado (isso deveria ser sempre) a poesia cobre e recobre as superfícies do mundo numa película fina de delicadeza, suavizando os pedregulhos das estradas mais longínquas e inóspitas. Tal como em "Asas do Desejo" (Wim Wenders, 1987), o Anjo amante do tempo está transfigurado por avistar a trapezista no seu camarim, não por ele ser um anjo, mas por haver entrado enfim, num devir-humano, devir-mundo, devir-risco, devir-perigo, devir-paixão. Para sempre.

A.M.


Obs.: texto revisado e republicado.

DJAVAN - Meu bem Querer

sábado, 9 de março de 2019

Nunca fui elegante. Minhas camisas eram todas desbotadas, encolhidas, surradas, e já tinham cinco ou seis anos. Minhas calças, a mesma coisa. Detestava as grandes lojas, detestava os vendedores, eles se faziam de superiores, pareciam conhecer o sentido da vida, tinham uma segurança que me faltava. Meus sapatos eram sempre velhos e estropiados, e eu detestava lojas de sapatos também. Nunca comprava nada de novo, a menos que as minhas coisas já estivessem completamente inutilizadas - automóveis inclusive. Não era questão de economia; é que eu não era nem tolerava ser um comprador na dependência dos vendedores, aqueles caras tão altivos e superiores. Além disso, eu perdia tempo, um tempo em que eu podia muito bem estar de papo pro ar, bebendo.
(...)

Charles Bukowski
A RÚSSIA HÉTERO

Vladimir Putin quer que a Rússia se torne um grande armário. E muito escuro. O presidente, que se posicionou como o grande defensor dos valores cristãos tradicionais frente a um Ocidente sem Deus nem moral, provavelmente desejaria que na Rússia não existissem gays, lésbicas, bissexuais ou transexuais. É o que revela o seu roteiro para um país em que a lei estabelece que as relações entre pessoas do mesmo sexo são “inferiores” às heterossexuais. Assim, como se fosse uma patologia contagiosa, procura escondê-las dos menores de idade. E graças à chamada lei de propaganda homossexual, que proíbe “a promoção de relações não tradicionais”, eles estão conseguindo. A norma, que estabelece multas e sanções administrativas e se tornou um modelo para países como Argélia, Indonésia e Lituânia, completará cinco anos e baniu do espaço público qualquer sinal suspeito de “criar uma imagem distorcida da equivalência” dessas relações, como diz o decreto. Isso significa que os personagens LGTBI+ se tornaram invisíveis em livros, filmes, peças de teatro e inclusive nas campanhas publicitárias destinadas ao grande público.
(...)

María R. Sahuquillo, El País,09/03/2019, 13:02 hs

IVAN MARCHUK


Xeque-mate

Quando menos se espera, já são horas.
A dama de espadas perde o gume
e o pássaro pousado vai embora. 

Quando menos se espera, o que se anuncia
não é a sorte grande, a estrela Aldebarã
ou a sagração da primavera.
São tempos de abutre
e o coração, músculo bélico, fraqueja. 

De repente, já é sábado,
há uns assuntos desagradáveis para resolver
e, sobre a pele confusa da alma,
uma densa crosta de óxido e desalento.

Quando menos se espera, o rei está em xeque,
e é dezembro.
Há uma complicação de trânsito
na avenida
uma artéria que não dá passagem.
Quando menos se espera, já é tarde.


Carlos Machado

PSIQUIATRIA BIOLÓGICA


RELATOS DA CLÍNICA

2-O advinho

Naquela manhã, fui trabalhar no Caps II com uma preocupação martelando a cabeça. É que certa notícia sobre a minha filha residente em Salvador me produziu angústia.Mas era preciso trabalhar, atender os pacientes que esperavam. Entre eles, havia um com história de cronicidade psicótica, aparência física descuidada, falando pouquíssimo, ou mesmo sem falar. Limitava-se a responder perguntas simples com monossílabos e/ou frases curtas: era evidente uma deterioração afetiva, cognitiva (sintáxica) e existencial. Devido a isso, a entrevista contava com a presença de uma tia dando a maior parte das informações. Em certo momento, essa fala foi interrompida com uma pergunta do paciente: "Doutor, o senhor tem filha?" Colhido pela pergunta inusitada, respondi, não sem certa hesitação, que sim. Ele continuou "Ela estuda?" Disse que sim, mas que já havia concluído a graduação. Ele respondeu com um silêncio num fascies apático, enquanto a tia voltou a falar, complementando as informações. Finda a consulta, o paciente levantou-se da cadeira, me estendeu a mão e disse "Doutor, cuide bem da sua filha". A associação da fala do paciente com os meus pensamentos "secretos" e a imagem da minha filha foi inevitável. Pensei muito sobre o ocorrido. Contei para alguns colegas e amigos. Ouvi opiniões assim: "Ele é um médium", "Foi Deus falando através dele". "Ele é um paranormal" ou "Foi apenas uma coincidência", ou ainda "os psicóticos, em geral, tem uma sensibilidade fina", entre outras comentários. Quanto às minhas elucubrações, extraí uma conclusão simples: Todo paciente merece ser escutado, mesmo que pareça não ter nada a dizer.

A.M.

MILTON NASCIMENTO - Um Gosto de Sol

Ofício

Constróis com empenho
teu artefato de sílabas

Enuncias a noite
alcanças o feminino 
das coisas sem gênero
vagueias no campo branco
do que não se diz.

Relojoeiro, numismata
colecionador de conchas do mar
gastas o olho
e a alma 
nesse ofício minúsculo.

Tua ração é o tempo
o tempo e seu estandarte
de sustos
paisagem sem freios
à janela do trem.

Mas sabes: 
depois de tantos incêndios
luas novas e paixões
o que se aprende é bem pouco.

Bastaria dizer:
os espinheiros florescem
na varanda.


Carlos Machado
Tenho me sentido muito mal vendo minha capacidade de amar sendo destroçada, proibida, impedida.

Caio Fernando Abreu

sexta-feira, 8 de março de 2019

ALEXANDRA LAVASSEUR

Devir-mulher

POR QUE MATAM MULHERES?

Tudo começa lançando ao vento uma pergunta quase sempre evitada, sob o rótulo de “crime machista”: Por que as matam?

Os homicídios classificados como “violência de gênero” abrangem em média 60 mortes de mulheres por ano na Espanha. Desde o caso do sujeito que um belo dia deu um golpe mortal na cabeça de sua mulher e depois a esquartejou para se livrar do cadáver até o do bom pai com o divórcio atravessado na garganta que uma noite, cheio de raiva, entra na casa dos sogros e esfaqueia toda a família. Passa também pelo bandidão da cidade que flerta com drogas, de vez em quando perde a cabeça, entra e sai da prisão e acumula mandados de afastamento que não cumpre — inclusive com o consentimento dela —, até que um dia perde a cabeça de vez e acaba matando-a.

Diante da ideia generalizada — e ensinada nas universidades — de que a violência de gênero implica uma escalada (tensões, agressões verbais, físicas, falsa lua de mel e manipulação emocional...), existe um dado novo e desconcertante: em 45% dos casos os homens que assassinaram seu par não tinham nenhum antecedente violento conhecido; entrariam num amplo grupo que pode ser classificado como de agressores “eventuais”, e, portanto, imprevisíveis.

O rótulo global de “violência de gênero” inclui todos os “homicídios de casal” e se mostra útil para fazer esta contabilidade macabra, mas inútil para detê-la, porque o número mal varia ano após ano. Na Espanha, cerca de 60 assassinatos por ano. Já no Brasil, segundo o Mapa da Violência 2015 sobre Homicídios de Mulheres, ocorrem aproximadamente 5.000 feminicídios por ano, uma taxa de 4,8 para 100.000 mulheres — a quinta maior do mundo e um aumento de 111% com relação a 1980, quando a proporção de feminicídios era de 2,3 para 100.000 mulheres, segundo o estudo.
(...)

Patricia Ortega Dorsz, El País, Madri, 09/07/2017, 14:47 hs