domingo, 7 de julho de 2019

EXTERIOR

Por que a poesia tem que se confinar 
às paredes de dentro da vulva do poema? 
Por que proibir à poesia 
estourar os limites do grelo 
da greta 
da gruta 
e se espraiar em pleno grude 
além da grade 
do sol nascido quadrado?

Por que a poesia tem que se sustentar 
de pé, cartesiana milícia enfileirada, 
obediente filha da pauta?

Por que a poesia não pode ficar de quatro 
e se agachar e se esgueirar 
para gozar 
-CARPE DIEM!- 
fora da zona da página?

Por que a poesia de rabo preso 
sem poder se operar 
e, operada, 
polimórfica e perversa, 
não poder travestir-se 
com os clitóris e os balangandãs da lira?

Waly Salomão
CANTANDO BAIXINHO

Nunca tantos deveram tanto a tão poucos. Ou pouco, no singular. João Gilberto era singular, de infinitas maneiras. Sua principal singularidade teve a ver com o gênio para depurar a sua arte – de cantar e de tocar violão – em tão poucos elementos. Morto neste sábado 6, aos 88 anos, João cantou baixinho, tocou poucas notas, todas certeiras, e gravou pouco, um repertório restrito que, no entanto, se multiplicava em sutilezas de interpretação. Isso explica, em parte, por que implantou o samba no coração do jazz, um gênero musical que só se realiza plenamente no aqui e no agora, no sabor do improviso. Há mais de meio século, quase não há jazzista que não tire o chapéu para a bossa nova.
(...)

Arthur Dapieve, Época, 06/07/2019, 19:32 hs

sábado, 6 de julho de 2019

JOÃO GILBERTO - Chove Lá Fora

PARA QUE SERVE A CONSCIÊNCIA?

(...)
O conceito de consciência serve  à concepção  médica baseada  nas  estruturas cerebrais. O que  não é um erro, e sim um recorte dos processos subjetivos. A psiquiatria trata da mente conforme  o  corpo físico-químico. Institui  o cérebro  como o “corpo  mental”, dando  origem  a um novo dualismo: cérebro/mente e  corpo (organismo). Uma psicopatologia da diferença  põe em questão essa ótica. Quadros de dissociação  histérica  há mais de cem anos foram  descritos por Freud. A consciência se altera. Além disso, várias outras situações clínicas podem  modificar o nível da consciência sem que haja lesão cerebral demonstrável.  A angústia, quando muito intensa, também pode levar o paciente a alterações  do  nível da consciência.  Em  sessões  de psicoterapia, na vivência de certas técnicas, a consciência pode se modificar, facilitando o trabalho terapêutico na  pesquisa de respostas e efeitos sobre o psiquismo. Isso também é válido para a clínica psicanalítica.Há momentos da transferência em que a consciência muda.No psicodrama, na catarse de integração e/ou no desempenho de certos papéis conforme  a espontaneidade criativa, algo acontece para além da consciência.
(...)

A.M.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Eu nunca fui desde a infância jamais semelhante aos outros. Nunca vi as coisas como os outros as viam. Nunca logrei apaziguar minhas paixões na fonte comum.
Nunca tampouco extrai dela os meus sofrimentos. 
Nunca pude em conjunto com os outros despertar o meu peito para doces alegrias,
E quando eu amei o fiz sempre sozinho. 
Por isso, na aurora da minha vida borrascosa evoquei como fonte de todo o bem o todo o mal. 
O mistério que envolve, ainda e sempre, 
Por todos os lados, o meu cruel destino...

Edgar Allan Poe

PSIQUIATRIA BIOLÓGICA


ESQUIZOFRENIA

SÃO PAULO - O ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro , ironizou nesta sexta-feira mensagens divulgadas pelo site The Intercept Brasil e pela revista "Veja" em que ele estaria pedindo a procuradores da Lava-Jato a inclusão de uma prova no processo de um réu. Moro disse que os fatos narrados na reportagem, "se fossem verdade", mostrariam esquizofrenia da parte dele, e não parcialidade.
— Relativamente a esse caso houve absolvição. Eu absolvi. Vou pedir para incluir fato na denúncia e depois absolver? Não é nem questão de parcialidade. É esquizofrenia — reagiu Moro, ao falar sobre o processo envolvendo o operador de propina Zwi Skornicki.
(...)

Sílvia Amorim, O Globo, 05/07/2019, 16:17 hs

JORGE BEN - O telefone.

Uma prece pelos rebeldes de coração enjaulados.


Tennessee Williams

quarta-feira, 3 de julho de 2019

MAIS ARMAS

Representantes de empresas de armas foram recebidos na Casa Civil, no Ministério da Justiça e no Ministério da Defesa 29 vezes nos cinco primeiros meses do governo Bolsonaro — em média uma vez a cada cinco dias. 

Nesse período, Jair Bolsonaro editou três decretos armamentistas.

A lista inclui lobistas e presidentes de grandes companhias de armas: Salesio Nuhs, presidente da Taurus; Hugo de Paula, representante da empresa tcheca CZ; Franco Giaffone, presidente da Glock; Rafael Mendes de Queiroz, da controladora da Taurus; Augusto de Jesus Delgado Jr, sócio-administrador da DelFire Arms; e Misael Antônio de Sousa, lobista de empresas de armas.

Os seis foram recebidos 29 vezes nas três pastas, a uma média de uma visita a cada cinco dias.
(...)

Guilherme Amado, Época, 02/07/2019, 17:30 hs

terça-feira, 2 de julho de 2019

A Tale of Impermanence - Ihsan Rustem (NDT 2 | Up & Coming Choreographers)

O ACENDEDOR DE LAMPIÕES

Lá vem o acendedor de lampiões de rua!
Este mesmo que vem, infatigavelmente,
Parodiar o Sol e associar-se à lua
Quando a sobra da noite enegrece o poente.

Um, dois, três lampiões, acende e continua
Outros mais a acender imperturbavelmente,
À medida que a noite, aos poucos, se acentua
E a palidez da lua apenas se pressente.

Triste ironia atroz que o senso humano irrita:
Ele, que doira a noite e ilumina a cidade,
Talvez não tenha luz na choupana em que habita.

Tanta gente também nos outros insinua
Crenças, religiões, amor, felicidade
Como este acendedor de lampiões de rua!


Jorge de Lima
AFETOS E HUMOR

Não se encontra nos livros de psiquiatria um conceito de "afeto". Dito de outro modo, a pergunta "o que é a afetividade?" sequer é posta. Às vezes são encontradas aqui e ali definições nominais baseadas no pressuposto de que "afetividade" é tudo que não é consciência, pensamento, sensopercepção, memória, atenção, fala, etc. É de fazer rir. Um regime de conceituação é assim produzido ao inverso, ou seja, pelo negativo. Afeto é o que não é. Como então estabelecer uma relação de cuidado ao paciente? Dos manuais de psicopatologia (cada vez mais raros devido a progressiva extinção desse campo de pesquisa) aos tratados de psiquiatria biológica, os textos não assumem a auto-ignorância para com um tema tão essencial da clínica. Contudo, o mais grave ainda não é isso, e sim a construção de um conjunto pseudo-teórico sobre o humor sem quase nada se saber dos afetos. É que o humor decorre dos afetos e não o contrário. Ele se expressa como afetos em variados matizes. Trata-se de um dado facilmente observável no cotidiano dos indivíduos não necessariamente doentes. Deriva daí e se afirma nos dias atuais o conceito de bipolaridade como uma pérola de inconsistência teórica e clínica. Os pacientes tendem a acreditar nesse modelo abstrato que supostamente irá melhorar suas vidas psíquicas. Toneladas de psicofármacos são, então, cientificamente administradas.

A.M.

O QUE É UM RIZOMA ?

segunda-feira, 1 de julho de 2019

FANÁTICOS

“Todos os tipos de fanáticos tendem a viver em um mundo em que tudo é preto ou branco”, escreve Amós, que confirma sua definição de alguém “que só sabe contar até um”. Não existe para ele a riqueza da soma das diferenças. O verdadeiro fanático é alheio e insensível à ideia de que possa haver algo ou alguém diferente dele. Assim, acaba privado de tudo o que enriquece e enobrece o mundo como é a diversidade. O fanático nunca entenderá valores como a amizade com alguém que possa levantar uma bandeira diferente da sua, como o diálogo, a política de gênero, a riqueza de compartilhar ideias e pensamentos que não sejam os seus.

O fanático de hoje é incapaz de desfrutar da luminosidade produzida pela mistura das cores. Para isso, teria de aprender a somar e multiplicar a luz em um grande caleidoscópio que reflita a riqueza da vida e de seus contrastes. Infelizmente, “só sabe contar até um”. Todo o resto não existe para ele, ou só lhe interessa domesticado ou morto.
(..)

Juan Arias, El País, 28/06/2019, 14:45 hs