Este blog busca problematizar a Realidade mediante a expressão de linhas múltiplas e signos dispersos.
quinta-feira, 11 de julho de 2019
quarta-feira, 10 de julho de 2019
terça-feira, 9 de julho de 2019
A DIFERENÇA NA PSICOPATOLOGIA
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Retornemos ao borderline: ele pode ser considerado como a instabilidade em pessoa concretizada em impulsos violentos e tão surpreendentes quanto danosos ao outro. Os afetos parecem vir em estágio bruto e numa corredeira sem freios. O encontro é com um chão movente. Não há um ou mais problemas, mas uma problematização contínua. Não se trata de um mero jogo de palavras. É toda a inserção no mundo, e mais, o seu mundo constituído que é o da instabilidade afetiva. Ao falar de si num tom de passado e no fulcro das relações afetivas, fica evidente o dado assombroso que é o da inexistência de um território onde enganchar a relação pessoal, um vínculo. Um vazio brutal lhe constitui. Um paciente afundado na solidão? Não é possível vê-lo desse modo, pois seria fincar a estaca da moldura humanista sobre uma alma em desgoverno. O encontro com a loucura não é um exame das funções psíquicas nem do comportamento observável. O encontro é um devir, aquilo que tenta captar do paciente fluxos do desejo. O paciente não se reduz ao eu, ainda que este esteja preservado. Ele consegue falar, dizer como está, conversar. Seu corpo oscila entre uma inexpressão e uma expressividade dramática. Contudo, a dramaticidade não é “fingida”. Assume seu discurso com se fosse ele próprio levado por uma onda de emoção. Adiante, sem que se lhe estimule, estanca o ritmo e se faz imóvel numa atitude que suscita dúvidas. Elas oscilam entre o que diz de si e o que se esconde em dobras subjetivas opacas. O borderline é um ser errante de difícil ajuda pelo aparelho biomédico. Talvez seja usado algum remédio químico. Aí ele se curva para além das dobras a que aludimos. Torna-se paciente de um cansaço adicional (a sedação) ante saídas difíceis da problemática. As linhas singulares estão fora das categorizações da CID-10 ou de outras classificações.Sob a ótica da diferença, o paciente é um mundo inexplorado e ainda não humanizado. Não há pureza nessa concepção. Trata-se de espreitá-lo tanto quanto se conseguir escapar do clichê médico. Examinar o borderline é se pôr fora das definições do que é ou não o limite, o corte, a fronteira entre a saúde e a doença, o anormal e o anormal, a potência e a impotência. Para isso ser possível, a experiência do contato com a loucura é essencial. Não é preciso ser louco ou ficar louco, mas sim entrar num devir-loucura, tornar-se loucura se o propósito é ajudar, acolher,criar. Tal disposição não costuma ser bem vinda nas organizações promotoras da fé numa racionalidade apaziguadora. Isso inclui a psiquiatria e suas agências de apoio à promoção de uma felicidade quimicamente induzida. No entanto, entramos num terreno onde a química não resolve, e pior, oferece a sedação como simulacro da morte. Desse modo, o encontro com a loucura precede o encontro com o paciente...
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A.M. in Trair a psiquiatria
segunda-feira, 8 de julho de 2019
domingo, 7 de julho de 2019
Universo da diferença
Nada é estável. Mesmo a natureza, com seu cortejo teológico (produto humano) anexado à crença numa “maternidade”, é mutante e fluida. Mãe-natureza, você nos socorre? Nada.Não há garantias, salvação ou igualdade de direitos. Quem estabelece os direitos? A natureza é em essência cruel e indeterminada, ainda que bela. Esqueça a moral. O argumento da prática é o empírico invisível e fugidio. Defensores do estado (e do mercado) se pegam em discursos intermináveis e abstratos. Eles querem mais é controlar a natureza. Ao contrário, o universo da diferença não tem controle, não tem cronos, não tem consciência.Tudo é artifício. O caos se avizinha num tom musical. Aproveite.A questão é a da vida. Encontrar quem o socius codificou como o excluído, mesmo que, pela via da ciência, seja o incluído. As palavras iludem e fazem de um problema, a solução. Inverta a frase: faça da solução um problema. Nada a compreender, mas a aceitar, a conectar, a captar, a sentir. Quem delira espaços, culturas, povos, cidades, políticas e a abertura do cosmos? Quem habita zonas produtivas e povoadas do inconsciente? Como chegar às angústias do seu mundo? A psiquiatria tipifica um megafracasso. A psicanálise, arrogante, brocha. Estamos a buscar espíritos sensíveis sem o bom senso do cristianismo secular. Traçar linhas da existência onde o capitalismo vacila. Investir um risco infinito: afinal, quem é você? Não uma identidade, estou certo. A hora do sonho cedeu lugar à exigência de uma tarefa clara. Foi ao banco? Pagou suas contas? O coração da gente é o de uma rua da metrópole. Hoje, o alimento dos deuses do capital fez de órfãs entranhas edipianas: escravizaram-nas. Resistir, sim, resistir na medida em que nasça o inumano em nós. Estar em carne, mesmo em espírito. Viver de paradoxos. Não estar à margem, mas ser a margem.Pertencer ao universo que deixa o tempo entoar canções sem dono. A psiquiatria não quer isso. Ela odeia a diferença. Não combina. Tem ares de um saber espúrio.Tampouco a sociedade estabelecida. Ela se alimenta de narcisos. Há boas intenções, sabemos. Sempre há. Afinal, o humanismo marcou nossos gens. Mas um riso sem motivo tornou-se o motivo do riso. A hora do acontecimento se aproxima.
A.M.
ESFINGES
Alguns, prudentes, não falam com estranhos.
Outros, muito práticos, dizem apenas o necessário
Para o bom andamento dos negócios.
Alguns, calmos e sérios, fecham portas e janelas.
Outros, afoitos, ou filhos de um deus sem-terra,
Oferecem biscoitos, talvez flores, e longa prosa.
De todos, quem sorri com mais dentes de ouro?
quem finge? quem vê no espelho sua própria
(esfinge?
Carlos Machado
Eu não quero pensar no que virá: quero pensar no que é agora. No que está sendo. Pensar no que ainda não veio é fugir, buscar apoio em coisas externas a mim, de cuja consistência não posso duvidar porque não a conheço. Pensar no que está sendo, ou antes, não. Pensar é ainda fuga: aprender subjetivamente a realidade de maneira a não assustar. Entrar nela significa viver.
(...)
Caio Fernando Abreu
O PACIENTE DA TESOURA, DE NOVO
Há algum tempo atendi um paciente que chamo de "o homem da tesoura no crânio". É que ele dizia ter uma tesoura encravada no crânio. Alguém (que ele não sabia quem) havia feito isso enquanto ele dormia. Trouxe para a entrevista um calhamaço de exames complementares do cérebro (EEG, Tomografia, RNM, etc). Olhei um a um os exames e em todos os laudos estava escrito"exame normal". Perguntei-lhe: se os exames estavam normais por que ele achava portar uma tesoura no crânio? Respondeu mais ou menos o seguinte: "Doutor, a tecnologia de imagem está ainda pouco evoluída. A tesoura está num canto do cérebro de difícil acesso para que possa gerar imagens; por isso dá normal". Diante de tal resposta, não insisti em tentar convencê-lo. Isso foi um grande aprendizado. Nunca mais tentei convencer algum eleitor/seguidor de Lula ou Bolsonaro.
A.M.
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