quarta-feira, 10 de julho de 2019

No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava escrito:
Poesia é quando a tarde está competente para dálias.
É quando
Ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa.
É quando um trevo assume a noite
E um sapo engole as auroras.
(...)

Manoel de Barros

terça-feira, 9 de julho de 2019


A DIFERENÇA NA PSICOPATOLOGIA                      
(...)
Retornemos ao borderline: ele pode ser  considerado  como a instabilidade    em pessoa  concretizada em impulsos violentos e tão surpreendentes quanto danosos ao outro. Os afetos  parecem vir em estágio bruto e  numa corredeira  sem freios.   O encontro  é com um  chão movente.  Não há um  ou mais  problemas, mas  uma    problematização    contínua. Não se trata de um mero jogo de palavras. É toda a  inserção no mundo, e mais, o seu mundo constituído que é o da instabilidade afetiva. Ao falar de si num tom de passado e no fulcro das relações afetivas,  fica evidente  o  dado assombroso que é o da inexistência  de   um território   onde enganchar a relação pessoal, um vínculo. Um vazio brutal  lhe constitui. Um paciente afundado na solidão? Não é possível  vê-lo desse modo,  pois seria  fincar a estaca da   moldura humanista sobre uma alma em desgoverno. O encontro com a loucura não é um exame das funções psíquicas nem  do comportamento observável.  O encontro é um devir,  aquilo que tenta  captar do paciente fluxos do desejo.   O paciente não se reduz ao eu, ainda que este esteja  preservado. Ele consegue falar, dizer como está, conversar.  Seu corpo oscila entre uma inexpressão   e  uma  expressividade dramática. Contudo, a  dramaticidade não é  “fingida”.  Assume seu discurso com se fosse ele próprio levado por uma onda de emoção. Adiante, sem que se  lhe estimule,  estanca o ritmo e se faz imóvel numa atitude que suscita dúvidas.   Elas  oscilam  entre o que    diz de si e o que se esconde em dobras subjetivas opacas. O borderline  é um ser errante de difícil ajuda pelo aparelho biomédico.  Talvez   seja  usado algum remédio químico. Aí ele se curva  para além das dobras a  que aludimos. Torna-se  paciente de um cansaço  adicional  (a sedação) ante saídas difíceis da problemática. As linhas singulares estão fora das categorizações da CID-10 ou de  outras classificações.Sob a ótica da diferença, o paciente é um mundo inexplorado e ainda não humanizado. Não há pureza nessa concepção. Trata-se  de espreitá-lo  tanto quanto se conseguir  escapar do clichê médico.  Examinar o borderline é se pôr  fora  das definições do que é ou não o limite, o corte, a fronteira entre a saúde e a doença, o anormal e o anormal, a potência e a impotência. Para isso ser possível, a experiência do contato com a loucura é essencial. Não é preciso ser louco ou ficar louco, mas sim entrar  num  devir-loucura, tornar-se loucura  se o propósito é ajudar, acolher,criar. Tal disposição não costuma ser bem vinda nas organizações promotoras da fé numa racionalidade apaziguadora. Isso inclui a psiquiatria e suas agências  de apoio à  promoção de uma felicidade quimicamente induzida.  No entanto, entramos num terreno onde a química não resolve,  e pior, oferece a sedação como  simulacro da morte. Desse modo, o encontro com a loucura precede o encontro com o paciente...
(...)

A.M. in Trair a psiquiatria

segunda-feira, 8 de julho de 2019

EMIL NOLDE


    Heraclitiano



        na segunda chicotada
         você já é outro

         — não importa o lado
         do chicote


      
         Carlos Machado

domingo, 7 de julho de 2019

Universo  da   diferença

                                                                                            
Nada é  estável.  Mesmo  a natureza,  com  seu cortejo teológico (produto humano)  anexado à crença numa “maternidade”, é  mutante e fluida.  Mãe-natureza, você  nos  socorre?  Nada.Não  há garantias, salvação ou igualdade de  direitos. Quem estabelece os direitos? A natureza é em essência cruel e indeterminada, ainda que bela. Esqueça a moral. O argumento da prática é o empírico invisível e fugidio. Defensores do estado (e do mercado) se pegam em discursos intermináveis e abstratos. Eles querem mais é  controlar a natureza. Ao contrário,  o universo   da diferença não tem controle, não tem  cronos, não tem consciência.Tudo é artifício. O caos se avizinha num tom musical. Aproveite.A questão é a da vida. Encontrar quem o socius    codificou como o excluído, mesmo que, pela via da ciência, seja o incluído. As palavras iludem  e  fazem de um problema, a solução. Inverta a  frase: faça  da solução um problema. Nada a  compreender,  mas a aceitar, a conectar, a captar, a sentir. Quem  delira espaços, culturas,  povos,  cidades, políticas e a abertura do  cosmos?  Quem habita zonas produtivas e povoadas do inconsciente?  Como chegar às angústias do seu  mundo? A psiquiatria tipifica um megafracasso. A psicanálise,  arrogante,  brocha. Estamos a buscar espíritos sensíveis sem o  bom senso do cristianismo secular.  Traçar linhas da existência onde o capitalismo vacila.  Investir um risco infinito: afinal,  quem é você?  Não uma identidade, estou  certo. A hora do  sonho cedeu  lugar à exigência  de uma  tarefa clara. Foi ao banco? Pagou suas contas?  O  coração da gente é o de uma rua da metrópole. Hoje, o alimento dos deuses do capital fez de órfãs entranhas edipianas:  escravizaram-nas. Resistir, sim, resistir na medida em que nasça o inumano em nós. Estar  em carne, mesmo em espírito. Viver de paradoxos. Não estar à margem, mas ser a margem.Pertencer ao universo que deixa o tempo entoar canções sem dono. A psiquiatria não quer isso.  Ela odeia a diferença. Não combina. Tem ares de um saber espúrio.Tampouco a sociedade estabelecida. Ela se alimenta  de narcisos. Há boas intenções, sabemos. Sempre há. Afinal, o humanismo marcou nossos gens. Mas um riso sem motivo tornou-se o motivo do riso. A hora do acontecimento se aproxima. 

A.M.


ELBA RAMALHO & GERALDO AZEVEDO - Bicho de sete cabeças

O RETORNO

Frente a impossibilidade de ser psiquiatra e a de não sê-lo, surgem linhas de risco, nem sempre visíveis, às vezes mortais. Elas atravessam práticas clínicas e produzem a esquizofrenia do pensamento. Sem diálogo, retornam ao estágio zero do Encontro. E tudo recomeça.


A.M.
Como são parecidos os radicais da esquerda e da direita. Dirá alguém que as intenções são dessemelhantes. Não. Mil vezes não. Um canalha é exatamente igual a outro canalha.

Nelson Rodrigues

SOB A PELE DO LOBO - direção de Samu Fuentes, 2018

ESFINGES 

Alguns, prudentes, não falam com estranhos.
Outros, muito práticos, dizem apenas o necessário
Para o bom andamento dos negócios.

Alguns, calmos e sérios, fecham portas e janelas.
Outros, afoitos, ou filhos de um deus sem-terra,
Oferecem biscoitos, talvez flores, e longa prosa.

De todos, quem sorri com mais dentes de ouro?
quem finge? quem vê no espelho sua própria
                                                                          (esfinge?


Carlos Machado
Eu não quero pensar no que virá: quero pensar no que é agora. No que está sendo. Pensar no que ainda não veio é fugir, buscar apoio em coisas externas a mim, de cuja consistência não posso duvidar porque não a conheço. Pensar no que está sendo, ou antes, não. Pensar é ainda fuga: aprender subjetivamente a realidade de maneira a não assustar. Entrar nela significa viver.
(...)

Caio Fernando Abreu
O PACIENTE DA TESOURA, DE NOVO

Há algum tempo atendi um paciente que chamo de "o homem da tesoura no crânio". É que ele dizia ter uma tesoura encravada no crânio. Alguém (que ele não sabia quem) havia feito isso enquanto ele dormia. Trouxe para a entrevista um calhamaço de exames complementares do cérebro (EEG, Tomografia, RNM, etc). Olhei um a um os exames e em todos os laudos estava escrito"exame normal". Perguntei-lhe: se os exames estavam normais por que ele achava portar uma tesoura no crânio? Respondeu mais ou menos o seguinte: "Doutor, a tecnologia de imagem está ainda pouco evoluída. A tesoura está num canto do cérebro de difícil acesso para que possa gerar imagens; por isso dá normal". Diante de tal resposta, não insisti em tentar convencê-lo. Isso foi um grande aprendizado. Nunca mais tentei convencer algum eleitor/seguidor de Lula ou Bolsonaro. 

A.M.

ALEXEY SHALAEV