sábado, 17 de agosto de 2019

REVOLTRIL

Revoltril é o nome comercial do princípio ativo 68- dimetil revoltricina, medicamento com ação poderosa de anti-revolta sobre todas as modalidades de expressão clínica da revoltite infecciosa ou de causa  idiopática : ansiedade, depressão, delírio, alucinação, insônia, pânico, anorexia e somatoses em geral. O Revoltril foi sintetizado nos laboratórios de Bruxelas em meados dos anos 40 do século XX.  O segredo da sua fórmula permanece sem ser revelado à comunidade científica em função das profundas implicações éticas contidas na busca da felicidade humana na Terra. Testado secretamente em algumas situações de grande sofrimento psicológico, preveniu a eclosão epidêmica da revoltite. Foi, por exemplo, o caso dos campos de concentração nazista, quando e onde os prisioneiros judeus experimentaram essa nova droga e puderam morrer com tranqüilidade nas câmeras de gás. Sem revolta. Animados com tal sucesso, os fabricantes resolveram avançar e aperfeiçoar as pesquisas. Nos anos seguintes, precisamente 1952, apesar da  chegada da clorpromazina,  droga concorrente ao mercado (o nosso amplicitil), a 68-dimetil revoltricina tornou-se a droga de escolha para todos os casos de revoltite, principalmente os quadros graves com evolução crônica, situações dramáticas em que o portador da patologia torna-se um revoltado serial e incurável. Contudo, há registros na literatura médica de que casos assim tiveram que ser tratados com psicocirurgia, o que acerretou na obtenção de efeitos adversos em substituição aos terapêuticos. O paciente virava uma espécie de zumbi. Tal não é o caso do Revoltril. Tudo porque ele age diretamente nos neurônios aflitos, entidades celulares conflituadas entre a entrada dendrítica e saída axônica.  Enfim, Revoltril remove as angústias mais recônditas do sistema cérebro-mente humano. Trata-se de um esforço científico orquestrado por organizações mundiais interessadas no bem-estar da humanidade. O nosso Laboratório, o Bio-Humana-Visa, é apenas a ponta avançada de um programa mais amplo (há outros) e planetário, daí com grande força para dar certo. Revoltril está à venda nas melhores farmácias, desde que seja apresentada receita médica.


A.M., 2013

SEM DESTINO - direção de Dennis Hooper, 1969

descobrimento

a infância é um barquinho
a transportar nossos sonhos
da enxurrada até o rio

a juventude um caiaque
a descer a correnteza
sem pensar em desembarque

a velhice é caravela
terra à vista


Líria Porto

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

SITUAÇÃO-LIMITE

Depois de 14 dias em alto-mar e um em frente à costa da ilha italiana de Lampedusa, vendo uma terra que não estão autorizados a tocar, os 134 imigrantes que permanecem no navio Open Arms chegam ao limite de suas forças, físicas e psicológicas. O psicólogo a bordo da embarcação espanhola, Alessandro di Benedetto, voluntário da organização Emergency, afirmou ao EL PAÍS que as últimas retiradas “a conta-gotas” —nove pessoas na quinta-feira à tarde e outras quatro na madrugada desta sexta— causaram um efeito devastador nos ânimos à bordo. “Nas últimas horas a situação, que por si só já era dramática, ficou insustentável e corremos o risco de viver uma tragédia”, assinalou por telefone do navio.
Di Benedetto, que elaborou o relatório médico que permitiu a retirada de cinco pessoas com seus familiares na quinta-feira à tarde por sofrimento psicológico extremo, contou que à medida que o tempo passa a situação se torna mais crítica: nas últimas horas, registrou “comportamentos agressivos” entre alguns passageiros, tomados pelo desespero. “Houve uma tentativa de suicídio e um pequeno grupo de passageiros tentou se jogar no mar”, afirmou. Ele apontou que “as retiradas em pequenos grupos agravaram a raiva e a frustração dos que continuam a bordo, que pedem constantemente para ser evacuados”. E alertou: “Já é hora de que todos desçam”.
(...)

Lorena Pacho, El País, Lampedusa, 16/08/2019, 18:19 hs
Eu não quero pensar no que virá: quero pensar no que é agora. No que está sendo. Pensar no que ainda não veio é fugir, buscar apoio em coisas externas a mim, de cuja consistência não posso duvidar porque não a conheço. Pensar no que está sendo, ou antes, não. Pensar é ainda fuga: aprender subjetivamente a realidade de maneira a não assustar. Entrar nela significa viver.
(...)

Caio Fernando Abreu

HENRY ASENCIO


ONDE ESTÁ O MOVIMENTO

O teatro é o movimento real e extrai o movimento real de todas as artes que utiliza.
Eis o que nos é dito: este movimento, a essência e a interioridade do movimento, é a
repetição, não a oposição, não a mediação. Hegel é denunciado como aquele que propõe
um movimento do conceito abstrato em vez do movimento da Physis e da Psiquê. Hegel
substitui a verdadeira relação do singular e do universal na Ideia pela relação abstrata do
particular com o conceito em geral. Ele permanece, pois, no elemento refletido da
"representação", na simples generalidade. Ele representa conceitos em vez de dramatizar
Idéias: faz um falso teatro, um falso drama, um falso movimento. É preciso ver como
Hegel trai e desnatura o imediato para fundar sua dialética sobre esta incompreensão e
para introduzir a mediação num movimento que é apenas o movimento de seu próprio
pensamento e das generalidades deste pensamento. As sucessões especulativas
substituem as coexistências; as oposições vêm recobrir e ocultar as repetições. Quando,
ao contrário, se diz que o movimento é a repetição e que é este nosso verdadeiro teatro,
não se está falando do esforço do ator que "ensaia repetidas vezes" enquanto a peça ainda
não está pronta. Pensa-se no espaço cênico, no vazio deste espaço, na maneira como ele é
preenchido, determinado por signos e máscaras através dos quais o ator desempenha um
papel que desempenha outros papéis; pensa-se como a repetição se tece de um ponto
relevante a um outro, compreendendo em si as diferenças. (Quando Marx também critica
o falso movimento abstrato ou a mediação dos hegelianos, ele próprio é levado a uma
idéia essencialmente "teatral", idéia que ele mais indica que desenvolve: na medida em
que a história é um teatro, a repetição, o trágico e o cômico na repetição formam uma
condição do movimento sob a qual os "atores" ou os "heróis" produzem na história algo
efetivamente novo.) O teatro da repetição opõe-se ao teatro da representação, como o
movimento opõe-se ao conceito e à representação que o relaciona ao conceito. No teatro
da repetição, experimentamos forças puras, traçados dinâmicos no espaço que, sem
intermediário, agem sobre o espírito, unindo-o diretamente à natureza e à história;
experimentamos uma linguagem que fala antes das palavras, gestos que se elaboram
antes dos corpos organizados, máscaras antes das faces, espectros e fantasmas antes dos
personagens  todo o aparelho da repetição como "potência terrível". 
(...)

G. Deleuze in Diferença e Repetição, 1968

MISÉRIA É MISÉRIA EM QUALQUER CANTO


olhos cor de mostarda

À porta um sobressalto
por aquele homem eu não esperava
ao fitar-lhe os olhos percebi
vai querer ser dono
de minha alma

em legítima defesa eu lhe disse
a mulher que em mim procuras
não existe

nunca mais o vi
mas para assegurar-me comprei cruz
balas de prata cabeças d´alho
estaca


Líria Porto

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

O ABANDONO DO HOSPITAL

O hospital psiquiátrico mais importante da Venezuela não está passando pelo melhor momento. A instituição, fundada há 126 anos, tornou-se uma "superlotação de seres humanos", nas palavras de enfermeiras que diariamente enfrentam condições de trabalho deploráveis. O Hospital Psiquiátrico de Caracas entra em colapso em meio à escassez de medicamentos e serviços básicos como a luz em meio ao silêncio das vozes do governo sobre uma solução para a crise da saúde pública.
(...)

El País, 12/08/2019, 11:06 hs

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

MUITO CUIDADO

Estranho, sim. As pessoas ficam desconfiadas, ambíguas diante dos apaixonados. Aproximam-se deles, dizem coisas amáveis, mas guardam certa distância, não invadem o casulo imantado que envolve os amantes e que pode explodir como um terreno minado, muita cautela ao pisar nesse terreno. Com sua disciplina indisciplinada, os amantes são seres diferentes e o ser diferente é excluído porque vira desafio, ameaça.Se o amor na sua doação absoluta os faz mais frágeis, ao mesmo tempo os protege como uma armadura. Os apaixonados voltaram ao Jardim do Paraíso, provaram da Árvore do Conhecimento e agora sabem.
(...)

Lygia Fagundes Telles

terça-feira, 13 de agosto de 2019

CIDA MOREIRA - A Última Sessão de Música

SEM EU

Ao final do expediente no Caps, o psiquiatra se prepara para sair quando um barulho forte invade a sua sala. Veio do lado. Ao avistar um paciente em estado de desespero, choro, agonia e delírio, o psiquiatra viaja nas planícies acinzentadas do seu próprio pensamento, apesar de estar contido nas teias da razão médica. Em torno de si e para si ele se encurva num movimento dolorosamente imperceptível. Pensa em silêncio o próprio silêncio da morte em vida. De há muito sabe (e compreendeu) que não existe a esquizofrenia como entidade clínica, a que é formatada pela ciência biomédica. Isso (evidente) é uma fraude neurofabricada ao longo da história da psiquiatria. No entanto, existe, existe sim a experiência esquizofrênica, a qual se expressa fora dos enquadres normais da convivência humana. Mas ela não está fora da normalidade. Ela, a experiência, é o próprio fora como território afetivo órfão, um traste psíquico (não explícito, claro) de acordo com o código internacional dos transtornos mentais, o CID. A desrazão assombra e desconcerta o senso comum, preciosa linha subjetiva que naturalmente costuma organizar a pessoa e sua conduta civilizada. No universo da loucura a experiência esquizofrênica dilacera o próprio eu, não só cindindo-o, estilhaçando-o, mas fazendo dele um mero joguete das intensidades mais destrutivas. Quem sou senão o produto de mil forças que escapam ao controle? Ao contrário, me controlam, me compõem, me impõem, me levam, me determinam, fazendo do mundo (mesmo um Caps) um lugar onde não mais me reconheço. É essa alma errante que configura o choro convulso no aniquilamento da subjetividade humilhada diante dos homens saudáveis. Que fazer diante de tanto desamparo existencial, psiquico, social, linguístico, ontológico e espiritual? Do outro lado da rua, do outro lado do muro chega a notícia de que não podem ajudá-lo porque ele tem um transtorno da personalidade. Um estigma científico. O horror de tal notícia ecoa nos tímpanos estourados de uma psiquiatria que já "não ouve vozes", pelo menos não mais a voz dos seus pacientes. Um pouco mais tarde o psiquiatra fica sabendo que aquele era o seu dia, o dia do psiquiatra...

A.M.
Glória morta

Tanto rumor de falsa glória, 
Só o silêncio é musical,
Só o silêncio,
A grave solidão individual,
O exílio de si mesmo,
O sonho que não está em parte alguma.

De tão lúcido, sinto-me irreal.


Dante Milano

PAVEL MITKOV