quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Ela gostava de estar com ele, ele gostava de estar com ela. Isso era tudo.

Caio Fernando Abreu

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

LEGION - Choreography Douglas Lee - Netherlands Dance Theater 2

AS FORÇAS DO CAOS

(...)Usamos o conceito  de caos para  produzir novas leituras da clinica dos transtornos mentais. O que está em jogo é agenciar forças ativas em prol do paciente como um modo de subjetivação inscrito em multiplicidades.Trabalhar com o paciente na busca da diferença implica em percorrer uma multiplicidade. Esse é o real em si mesmo de tudo o que se chama “um doente”. As linhas de doença se misturam às linhas de não-doença num agenciamento cujo  produto é uma superposição de territórios iguais.Podemos abarcar todo o sistema nosológico  psiquiátrico para demonstrar que o paciente está de antemão submetido  à forma  psiquiátrica produzindo-o antes de tudo como massa passiva à espera de  ordens. Tal  situação é a  de  um anti-devir. Por isso, o sistema nosológico psiquiátrico na verdade é um sistema classificatório de condutas e pode ser visto como uma proteção erguida contra  o caos. 
(...)

A.M
OS JOVENS ENGOLIDORES DE FOGO
DA CIDADE DO MÉXICO

Eles enchem a boca de álcool
e sopram sobre uma vela acesa
nos sinais de trânsito. Ou em qualquer lugar
onde carros fazem fila e motoristas
irritados e frustrados procuram
alguma diversão — lá vocês vão encontrar
os jovens engolidores de fogo. Fazendo o que fazem
por alguns pesos. No melhor dos casos.
Mas depois de um ano seus lábios
estão rachados, e suas gargantas, esfoladas.
Dentro de um ano perdem a voz.
Elas não podem falar ou gritar —
essas crianças caladas que caçam
pelas ruas carregando uma vela
e uma lata de cerveja cheia de álcool.
São chamadas de milusos. O que se traduz
por “mil usos”.


Raymond Caver

terça-feira, 3 de setembro de 2019

A ARGENTINA E O ABISMO

“Saque os dólares do banco”. Essa mensagem começou a circular como pólvora de telefone em telefone na semana passada em Buenos Aires. O risco de que a Argentina volte a interromper os pagamentos reavivou o fantasma do corralito (confisco de depósitos bancários) de 2001 e, com esse medo no corpo, muitos argentinos recorrem ao bem mais valorizado nas crises: a moeda norte-americana. Nos últimos 20 dias de agosto, os depósitos em dólares se reduziram em 3,95 bilhões (16 bilhões de reais) de acordo com dados do Banco Central, e a sangria acelerou na segunda-feira, quando começou o controle de câmbios imposto pelo Governo de Mauricio Macri. Os bancos foram autorizados a estender seu horário até às 17h para atender o aumento de demanda e no começo do dia havia filas em frente a todos eles.
(...)

Mar Centenera, El País, Buenos Aires, 03/09/2019, 10:25 hs

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

ELLEN OLÉRIA - Desenho De Giz

NOTAS ANTIDEPRESSIVAS

Há pacientes que já chegam com o diagnóstico de depressão. Tal diagnóstico muitas vezes lhes foi cravado por médicos apaixonados pela prescrição do remédio químico. De certo modo, induzem os pacientes a dizerem a priori: "Eu sou a depressão". Esta se torna uma espécie de  identidade factícia que tampona um "vazio" subjetivo de causas, etiologias e linhas existenciais heterogêneas. Tal diagnóstico "autoriza" o uso indiscriminado e violento dos psicofármacos. Além disso, a crença instilada na mente do paciente é a de que o tal remédio irá curá-lo, ainda que a palavra "cura" possa não ser usada. Camuflada, circula implícita mas não menos atuante na produção da "doença" do século, a depressão. É possível saber histórias de terror clínico através dos próprios pacientes quando de relatos anamnésticos. O essencial a reter dessa linha de análise é: 1-Há vários, muitos, múltiplos tipos de depressão que não se coadunam com as categorias semiológicas da CID-10; 2-Sendo assim há depressão com indicação para psicoterapia e/ou farmacoterapia. Isso depende da percepção fina do outro. 3-A depressão grave (antiga endógena, hoje bipolar) tem indicação para farmacoterapia (mas, claro, sem a retórica mercadológica dos estabilizadores do humor) desde que haja suporte psicológico do psiquiatra, o que não significa psicoterapia no sentido usual. Quer dizer que o remédio químico, por melhor e mais "avançado", está inserido no Encontro com o paciente, e não o contrário. 4-Há pessoas não deprimidas diagnosticadas como deprimidas. Talvez, sob a palavra de ordem do psiquiatra biológico em sua cruzada medicamentosa (a intoxicação  cavalar) tornem-se, enfim, deprimidas for ever. 5-A depressão não é uma entidade clínica ou uma essência do ser-doente, mas uma síndrome psíquica produzida em meio a agenciamentos de forças (multiplicidades) que é preciso pesquisar; 6- A depressão pode estar no mundo e não no paciente...

A.M.


Obs.: texto republicado.



pôr de lua

estou naquela fase
cheia de resumo

foge-me o verso
a rima escapole-me

peço a são jorge
lave-me leve-me

love me



Líria Porto

FRANCISCO DE GOYA


MIL BATALHAS NA AMAZÔNIA

Na quente manhã de quinta-feira, 29 de agosto, cerca de 20 agentes encarregados de proteger a Amazônia, em oito veículos, cruzam num barco o rio Xingu, no Estado do Pará. Partiram da cidade de Altamira. Sua missão é descobrir pessoas que derrubam árvores numa das áreas protegidas dessa região: o território denominado Ituna Itatá, onde vive um povo indígena isolado.
Após desembarcar os veículos, os agentes seguem o trajeto lentamente por uma estrada de terra com grandes buracos, quase crateras. A viagem dura quatro horas. As pontes sobre os rios são feitas com tábuas precárias e desgastadas. A sensação é que podem se romper a qualquer momento quando o carro passa sobre elas.
A vegetação original nativa, com suas árvores enormes e centenárias, torna-se mais densa à medida que o comboio avança pelo interior das terras indígenas. Mas também há vestígios de destruição: centenas de troncos de madeira dispostos no chão e zonas inteiras com sinais de que foram queimadas para abrir clareiras. Há marcas de máquinas e tratores, indicando que a ação dos invasores é recente. Veem-se também restos de acampamentos, banheiros e caixas d’água de 5.000 litros usados pelos trabalhadores encarregados de destruir essas paragens. Após alguns minutos caminhando entre os escombros da mata, os agentes encontram, surpreendidos, uma pista de pouso em plena floresta amazônica.
(...)

Felipe Betim, El País,Altamira (Pará), 01/09/2019, 21:03 hs

domingo, 1 de setembro de 2019

NOVA CIRURGIA

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) passará por uma nova cirurgia no abdome no próximo domingo (8), segundo o médico Antônio Luiz Macedo, que o operou após a facada em 2018.

A intervenção, a quarta desde o atentado contra o presidente, é de médio porte segundo o médico, e será feita Hospital Vila Nova Star, no Itaim Bibi, Zona Sul da capital paulista.

De acordo com Macedo, Bolsonaro precisa passar por uma nova cirurgia pois uma hérnia [saliência de tecido] surgiu no lugar da incisão anterior. "Abrimos três vezes no mesmo lugar. Enfraqueceu", disse o médico.
(...)

Por Patrícia Marques e Kleber Tomaz, TV GLOBO e G1 SP, 01/09/2019, atualizado há 10 min.
ESTUDOS SOBRE O SUICÍDIO - II

O Centro de Valorização da Vida (CVV), o Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) criaram em 2015 a campanha de prevenção ao suicídio chamada "Setembro Amarelo". A ação buscava prevenir atos suicidas através o método de informar/comunicar a população sobre o tema. Tais entidades civis, a priori, consideram que sabem mais sobre o suicídio do que a sociedade em geral. Estão autorizadas (cada uma a seu modo e do seu lugar social) a orientarem as pessoas e em consequência evitar que se matem. Assim, a campanha se instala sobre a linha empírica, a do ato concreto do suicida. Tenta evitá-lo e para isso recorre à conscientização. Atitude positiva. No entanto, sem entrar no mérito de "por que se quer morrer?", é possível levantar a questão de que produzir uma campanha anti-sucídio não acaba paradoxalmente incitando a vontade  de se matar? O contágio subjetivo via fluxos de imagens lembra que estamos na era da subjetividade fabricada. Informar/comunicar é um dos seus métodos. Era setembro. Um paciente do Caps II indagou: "esse é o mês do suicídio?"

A.M.

ANJO MURITIBANO

sim, uma vez
vi um anjo

nada dos anjos
católicos
gabriéis
armados e vingativos

nada dos anjos
de Rilke
alemães terríveis

meu anjo
sem asa
e sem palavra
não foi visto num castelo
em Duíno
mas numa casa
chã e rasa
em Muritiba

era um anjo
pequenino
morto morto
placidamente morto

estava numa
caixa de sapatos


Carlos Machado
EM SEIS MESES, SÓ 21.289 

Brasil tem queda de 22% no número de mortes violentas no 1º semestre, revela Monitor da Violência

Houve 21.289 assassinatos nos primeiros seis meses deste ano. No mesmo período de 2018, foram 27.371. Nordeste é a região com a maior diminuição. Índice nacional de homicídios criado pelo G1 acompanha as mortes violentas mês a mês. Tendência de queda ocorre desde 2018.


Por G1 e GloboNews, 01/09/2019,  07h:00,  atualizado há 11 minutos