domingo, 6 de outubro de 2019

UMA SÓ VOZ PARA O SER

(...) Com efeito, o essencial na univocidade não é que o Ser se diga num único sentido. É que ele se diga num único sentido de todas as suas diferenças individuantes ou modalidades intrínsecas. O Ser é o mesmo para todas estas modalidades, mas estas modalidades não são as mesmas. Ele é "igual" para todas, mas elas mesmas não são iguais. Ele se diz num só sentido de todas, mas elas mesmas não têm o mesmo sentido. É da essência do ser unívoco reportar-se a diferenças individuantes, mas estas diferenças não têm a mesma essência e não variam a essência do ser  como o branco se reporta a intensidades diversas, mas permanece essencialmente o mesmo branco. Não há duas "vias", como se acreditou no poema de Parmênides, mas uma só "voz" do Ser, que se reporta a todos os seus modos, os mais diversos, os mais variados, os mais diferenciados. O Ser se diz num único sentido de tudo aquilo de que ele se diz, mas aquilo de que ele se diz difere: ele se diz da própria diferença.
(...)

G. Deleuze in Diferença e Repetição 
QUASE NADA

A psiquiatria é uma especialidade médica híbrida. Funciona na zona de fronteira entre as ciências humanas e as biológicas. Contudo, mais importante para a prática clínica é ser ela uma forma social que se nutre dos códigos sociais estabelecidos. Exemplo simples é o da moral. A psiquiatria guia-se pela moral como pressuposto implícito dos seus enunciados diagnósticos, os quais inscrevem-se no fenômeno mais amplo de medicalização da sociedade. Para esse empreendimento "dar certo", conta com a reverência das pessoas em geral a uma neurocientificidade reducionista ( a mídia colabora) e à figura do psiquiatra como ponto de subjetivação mantenedor da ordem. São linhas semiológicas injetadas na mente dos técnicos em saúde mental. Isso produz uma naturalização a-histórica da medicina e por extensão da psiquiatria. A capacidade de reação crítica (técnicos e pacientes) fica reduzida a estágios vizinhos do zero. Quase nada.  

A.M.
  

FERNANDO PESSOA - Pedro Lamares

Reinvenção

A vida só é possível
reinventada.

Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas…
Ah! tudo bolhas
que vem de fundas piscinas
de ilusionismo… – mais nada.

Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.

Não te encontro, não te alcanço…
Só – no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só – na treva,
fico: recebida e dada.

Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.


Cecília Meireles

VICTOR BAUER


sábado, 5 de outubro de 2019

O REDENTOR QUE HORROR QUE LINDO

RIO — Seis pessoas foram vítimas de balas perdidas na última sexta-feira (4) no Rio. Um idoso morreu, duas crianças, um adolescente e duas mulheres ficaram feridas. Só este ano, 153 pessoas foram atingidas por balas perdidas no estado. Dessas, 43 morreram segundo a plataforma Fogo Cruzado.
(...)

Extra,05/10/2019, 05:54 hs

MADRIGAL

Desista: não vai dar certo.
O mundo é o mesmo de sempre,
desejo é uma coisa cega.
Desista, enquanto é tempo.

As mãos não sabem o que pegam,
os pés vão aonde não sabem.
As cartas estão marcadas:
vai dar desgraça na certa.

O mundo é sempre a esmo,
desejo é uma porta aberta.
Desista, que a vida é incerta.
Ou insista. Dá no mesmo.


Paulo Henriques Britto

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

O MÉTODO DA DIFERENÇA

Um   exame  do  humor pode explicitar o roteiro da diferença.  Os afetos  precedem  o  humor. Este   é  um  tipo  de afeto    resultante de  forças múltiplas :  bioquímicas, psíquicas,  sociais, coletivas, etc.  O  pesquisador (obtuso)  da mente prioriza  a primeira  força  em nome do  ideal  asséptico da ciência positivista. Tudo é cérebro como origem. Trata-se de  um reducionismo  fabricado em nome  da  razão médica. Ao inverso, buscamos detectar  afetos sutis que só se expressam (grosseiramente) como  depressão, e  daí se  inscrevem num rebaixamento da vitalidade. Isso pode  ser a  depressão como  “doença”  ou  tão apenas uma  síndrome ou  uma  reação depressiva  às circunstâncias sócio-metafísicas. De todo  modo, o encontro com  os  afetos busca a intensidade dos mesmos a partir das condições  subjetivas do  paciente. Qualquer um pode  deprimir à  medida em  que  vivencia a cultura  da culpa inscrita  na  carne. Somos todos  cristãos e deprimidos.  O paciente traz o humor como  um dado que muitas vezes lhe foi  inculcado: “sou  bipolar”. Trata-se  de  um  processo de  subjetivação  psiquiátrica que se impõe como verdade diagnóstica. Devires são cortados. O humor hipotímico“evolui” para um grau de vitalidade compatível  com  a doença psiquiátrica: ausência da vontade de viver.  Como recusar o grito desesperado do paciente? Claro que  há outras  depressões,  talvez  não  tão graves, mas necessitadas de atenção e acolhimento. No ato do encontro é possível  diferenciá-las  em função da demanda por  ajuda. O  humor  não  é como  a “glicose”, portanto  a sua medição não  é  a  “glicemia”. O humor é o desejo em uma de suas  expressões traduzidas num  contexto. 

A.M.
O homem explora o homem e por vezes é o contrário.

Woody Allen

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

LOUCURA DO CAPS

Trabalhar num caps: isso implica em  pensar, antes de tudo, a clínica psicopatológica. Quem é o paciente?  Tudo nos leva a esse lugar. Ora, “pensar”não é uma reflexão (mesmo crítica) sobre o que foi vivenciado, mas o ato de construir propostas clínicas usando elementos heterogêneos extraídos do  próprio contexto onde as coisas se passam. Neste sentido, há uma tal diversidade de elementos em curso, que é necessário  trabalhar os conteúdos numa lógica rizomática (sem centro, cf Deleuze-Guattari). Tal percurso abre textos (como esse)  para linhas temáticas que se cruzam e se ampliam na perspectiva da multiplicidade. Um caps é uma forma social que traz  sua história ligada ao antigo hospital psiquiátrico, o qual também é uma forma social que mantém linhas de funcionamento atualizadas no interior do próprio serviço, mas nem sempre perceptíveis à observação do cotidiano. A vida institucional é naturalizada coletivamente como um território de sentido e por extensão, de modos de subjetivação. Todos são afetados. O discurso da luta antimanicomial opera uma produção incessante de verdade: uma ideologia em oposição a outra ideologia, a psiquiátrica. Isso é coisa de um esquerdismo moribundo. Para além de um dualismo estéril, pensamos outra coisa. É que a forma social caps também é uma multiplicidade, onde mil discursos e saberes se interpenetram. Funciona, ainda que em pequena margem, com a suspensão e/ou suspeição do valor-verdade sobre o que se chama transtorno mental, ou, numa visão não médica, sobre a experiência da loucura. Temos um serviço que se acha numa linha de fronteira técnico-institucional entre a forma-hospício (a matriz que veio do século XIX) e a forma-caps, a qual adquire variados tons clínico-políticos, inclusive os da psiquiatria biológica. A questão a ser debatida não é, pois, a de uma suposta busca de identidade técnica para o caps ou uma crítica ao projeto do caps, ou mesmo uma crítica (tão óbvia) à psiquiatria fascista, mas a de explorar a potência da equipe técnica nas mil possibilidades de encontro com o paciente, e por extensão, com a loucura dos tempos que correm.

A.M.

DENIS CHERNOV


terça-feira, 1 de outubro de 2019

AINDA NÃO VIMOS NADA

Um deputado estadual do PSL quer obrigar todo professor do estado do Rio a testar uso de drogas a cada 90 dias. Alexandre Knoploch protocolou o projeto de lei na última quarta-feira. O texto prevê docentes da rede pública e privada deverão passar por exame toxicológico "específico para substâncias psicoativas ilícitas que causem dependência ou, comprovadamente, comprometam a capacidade intelectual e de raciocínio".

Para passar a valer, o projeto ainda precisa passar pelas comissões da Alerj, ser aprovado pelos deputados e depois sancionado pelo governador. Opositores ainda consideram o texto inconstitucional.

O projeto de lei ainda define que a Secretaria de Estado de Educação deverá concentrar o resultado dos exames, os tornando públicos para consulta em seu sítio eletrônico oficial. Além disso, "os docentes cujo os exames apontarem o uso de entorpecentes e substâncias psicoativas ficarão impedidos de lecionar até a realização de próximo exame que ateste a ausência destas mesmas substâncias".

Os professores afastados na rede pública teriam os salários descontados. "O docente da rede pública de ensino que possuir quatro exames toxicológicos que apontem o uso de substâncias psicoativas ilícitas será exonerado", prevê o projeto de lei.
(...)

Extra, 01/10/2019, 04:30 hs