domingo, 10 de novembro de 2019

Minicurso "Esquizoanálise e extremismos políticos" - Parte 2

A EXTREMA POBREZA

A extrema pobreza subiu no Brasil e já soma 13,5 milhões de pessoas sobrevivendo com até 145 reais mensais. O número de miseráveis vem crescendo desde 2015, invertendo a curva descendente da miséria dos anos anteriores. De 2014 para cá 4,5 milhões de pessoas caíram para a extrema pobreza, passando a viver em condições miseráveis. O contingente é recorde em sete anos da série histórica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A alta do desemprego, os programas sociais mais enxutos e a falta de reajuste de subvenções como o Bolsa Família aumentam o fosso do mais pobres. O indicador de pobreza do Bolsa Família, por exemplo, é de 89 reais, abaixo do parâmetro de 145 reais utilizado pelo Banco Mundial.

A miséria atinge principalmente estados do Norte e Nordeste do Brasil, em especial a população preta e parda, sem instrução ou com formação fundamental incompleta. Mesmo os filhos dessas famílias que queiram superar a condição de estudos dos pais acabam paralisados pela limitação econômica familiar. A falta de renda acaba empurrando os estudantes desse estrato para a evasão escolar. Entre ir à escola ou trabalhar para evitar que a família passe fome, a segunda opção é a mais óbvia. Segundo o IBGE, 11,8% dos jovens mais pobres abandonaram a escola sem concluir o ensino médio no ano passado. Trata-se de um índice oito vezes maior que o dos jovens ricos.

O crescimento da extrema pobreza coincide com o início da recessão que começou em 2014 no Brasil e terminou em 2016. Embora tenha continuado a subir, a velocidade é bem menor. De 2017 para 2018 foram 200.000 pessoas a mais que assumiram o status de miseráveis. Um ano antes, porém, de 2016 para 2017, a alta havia sido de 1.339 milhão. Nesse período, o Brasil ajudou a inflar os dados de extrema pobreza em todo o continente, como mostrou um estudo da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL, um órgão da ONU). 
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Carla Jimenez, El País, São Paulo,09/11/2019, 06:35 hs

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Os marginais sempre nos causaram medo, e um pouco de horror. Eles não são o bastante clandestinos.
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G. Deleuze e C.Parnet  in Diálogos

SABERES ÓRFÃOS


A psicopatologia, descolada da psiquiatria, passa a ter vida própria. Uma psicopatologia órfã. Dizê-la e fazê-la requer sobretudo criar condições para o pensamento. Que é uma prática. Não fazer refletir, mas fazer pensar a saúde mental ao mesmo tempo com e sem as categorias psiquiátricas. Deixar-se levar num paradoxo enunciativo vindo do mundo das psicoses. A clínica da diferença começa com as psicoses e, daí, com a quebra das significações dominantes. O que fazer dos enunciados psiquiátricos encharcados da moral e que, ao mesmo tempo, prestam serviços ao paciente em situações-limite? diria o bom senso das instituições. Ora, já que a psicopatologia tornou-se órfã, ela se constitui como um saber menor, uma minoridade. Ou seja, um saber  sem modelo identitário, não regido pelos significantes psiquiátricos. E por isso útil ao paciente.
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A. M. - do livro Linhas da diferença em psicopatologia

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Por que há tão poucas pessoas interessantes? Em milhões, por que não há algumas? Devemos continuar a viver com esta espécie insípida e tediosa? O problema é que tenho de continuar a me relacionar com eles. Isto é, se eu quiser que as luzes continuem acesas, se eu quiser consertar este computador, se eu quiser dar descarga na privada, comprar um pneu novo, arrancar um dente ou abrir a minha barriga, tenho que continuar a me relacionar. Preciso dos desgraçados para as menores necessidades, mesmo que eles me causem horror. E horror é uma gentileza.
Charles Bukowski

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Se vai tentar
siga em frente.

Senão, nem começe!
Isso pode significar perder namoradas
esposas, família, trabalho...e talvez a cabeça.

Pode significar ficar sem comer por dias,
Pode significar congelar em um parque,
Pode significar cadeia,
Pode significar caçoadas, desolação...

A desolação é o presente
O resto é uma prova de sua paciência,
do quanto realmente quis fazer
E farei, apesar do menosprezo
E será melhor que qualquer coisa que possa imaginar.

Se vai tentar,
Vá em frente.
Não há outro sentimento como este
Ficará sozinho com os Deuses
E as noites serão quentes
Levará a vida com um sorriso perfeito
É a única coisa que vale a pena.

Charles Bukowski

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

ESTUDO SOBRE AS PSICOSES - II

Sob a ótica da diferença, a experiência psicótica substitui a entidade clínica "psicose". Para além dos sufixos de virose, micose, artrose, tuberculose etc, o modelo biomédico se desfaz em prol de uma relação de implicação com a Realidade: a diferença. Mas, de que realidade se trata? A experiência psicótica responde: da realidade do delírio. É nele que formiga a singularidade psicótica e só através da análise desse processo existencial complexo ( o louco) é que a psiquiatria poderá "compreender o incompreensível". Para isso acontecer, deve se tornar louca, não psicótica. Esta vivência, (tanto para o técnico quanto para o paciente), prenhe de afeto e crença, tem na esquizofrenia o arqui-modelo das psicoses ( a loucura) onde a dissolução do sentido faz do delírio não um sintoma, mas o próprio paciente. Assim, as psicoses remetem à experiência do não sentido expresso como sentido (regime semiótico) em múltiplos graus de recusa à Realidade. No fim das contas, se seguirmos os códigos da medicina psiquiátrica, conceituar uma psicose não só é difícil, mas impossível. Resta a diferença, transdisciplinar e não identitária, conectar com o psicótico via saberes fora da psiquiatria, mas que a atravessam e a constituem como prática clínica. É esse o caminho (método) para explorar estranhos universos. 

A.M.