domingo, 5 de janeiro de 2020

onde anda a política
que muda?
onde  anda a muda
que floresce?


A. M.

HENRY ASENCIO


A PASSAGEM

Há um limite a partir do qual a diferença não se reconhece e não mais reconhece o mundo. Um horror tão extremo e definitivo se instala: ela, a diferença, torna-se pequena e frágil. Tudo o indica. Fala-se da história da humanidade: uma brochada cósmica. A diferença não mais reconhece aí a palavra "vida" por entre escombros da própria vida. Resta o império do medo. Internético, ele assombra o dia que nasce. Assombra todas as revoluções. Nivela os afetos. Aniquila a política. Uma melancolia compõe a paisagem dos monstros da História. E os adorna. Seguidores nutrem-se da morte camuflada. Anunciam o fim, apocalipse moderno. No entanto, algo resiste... 

A.M. 
Ser amigo de alguém é uma questão de percepção. Não é a partir de idéias em comum, mas de uma linguagem em comum. Há pessoas sobre as quais posso afirmar que não entendo nada do que dizem. E outras que falam de um assunto totalmente abstrato, que eu posso não concordar, mas compreendo. Tenho uma hipótese: cada um de nós está apto a entender um determinado tipo de charme. Ninguém consegue compreender todos ao mesmo tempo. Há uma percepção dele: um gesto, pensamento - mesmo antes que este seja significante, um pudor de alguém são fontes de charme que têm tanto a ver com a vida, que vão até as raízes vitais e imediatamente você acha que aquela pessoa é sua - não no sentido de propriedade, mas é sua e você espera ser dela. Neste momento nasce a amizade.

Gilles Deleuze

Hans Zimmer - Interstellar Theme (Live in Prague)

sábado, 4 de janeiro de 2020

OS CÚMPLICES

Nenhum autoritarismo se instala ou se mantém sem a cumplicidade da maioria. É o que a história nos ensina. Não haveria nazismo sem a conivência da maioria dos alemães, os ditos “cidadãos comuns”, nem a ditadura militar no Brasil teria durado tanto sem a conivência da maioria dos brasileiros, os ditos “cidadãos de bem”. O mesmo vale para cada grande tragédia em diferentes realidades. Os déspotas não são alimentados apenas pelo silêncio estrondoso de muitos, mas também pela pequena colaboração dos tantos que encontram maneiras de tirar vantagem da situação. Em tempos de autoritarismo, nenhum silêncio é inocente —e toda omissão é ação. Esta é a escolha posta para os brasileiros em 2020. Diante do avanço autoritário liderado pelo antidemocrata de ultradireita Jair Bolsonaro, que está corroendo a justiça, destruindo a Amazônia, estimulando o assassinato de ativistas e roubando o futuro das novas gerações, cada um terá que se haver consigo mesmo e escolher seu caminho. 2020 é o ano em que saberemos quem somos —e quem é cada um.
(...)

Eliane Brum, El País, 01/01/2020
DESDE SEMPRE EM MIM

Contente. Contente do instante
Da ressurreição, das insônias heroicas
Contente da assombrada canção
Que no meu peito agora se entrelaça.
Sabes? O fogo iluminou a casa.
E sobre a claridade do capim
Um expandir-se de asa, um trinado
Uma garganta aguda, vitoriosa.
Desde sempre em mim. Desde
Sempre estiveste. Nas arcadas do Tempo
Nas ermas biografias, neste adro solar
No meu mudo momento
Desde sempre, amor, redescoberto em mim.

Hilda Hilst
TECNOLOGIA DA IMAGEM: CLÍNICA E POLÍTICA 

Sobre a "tecnologia da imagem" e seus atravessamentos corporais vamos à análise da demanda em saúde mental. O corpo (não o corpo-organismo, mas o corpo-desejo) é atingido em cheio por imagens-de-imagens, fazendo do contato consigo mesmo uma experiência plugada aos fluxos semióticos vindos de fora, mas parecendo vir "de dentro". É que a forma das instituições sociais (cf Guattari e outros) está interiorizada, subjetivizada num inconsciente que não mais passa por categorias edipianas mas por categorias planetárias, portanto, capitalísticas. A tecnologia da imagem torna-se um território de sentido de uma verdade subjetiva. Esta é veiculada por equipamentos de poder. Daí o homem moderno encarnar uma espécie de sonambulismo coletivo que a todos arrasta. A incrível aceleração da velocidade do tempo aniquila o Sentido. Efeitos práticos: na clínica, a psicose. Na política, o fascismo.

A.M. 

A obsessão pela igualdade se converte em algo negativo quando imobiliza a possibilidade de se construir diferenças no interior dos processos sociais. Em outros termos, pode-se dizer que a igualdade é uma espécie pharmakon, “que pode se tornar veneno quando associada não a uma produção, mas um imperativo, e a um imperativo que sempre incumbe porta-vozes privilegiados."
(...)

Isabelle Stengers,  O Tempo das catástrofes, 2015
Os homens são da Terra, as mulheres são da Terra. Lidem com isso.

George Carlin

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

JOSÉ MARÍA MADRID SANZ


A MARÉ VAI E VOLTA

A morte do general iraniano Qasem Soleimani em um ataque americano em Bagdá, por ordem do presidente dos EUA, Donald Trump, é uma "escalada extremamente perigosa e imprudente", advertiu nesta sexta-feira o ministro iraniano das Relações Exteriores, Mohammad Javad Zarif.

"Soleimani se uniu a nossos irmãos mártires e nossa vingança sobre a América será terrível", tuitou Mohsen Rezai, um antigo chefe dos Guardiões da Revolução, o exército ideológico da República Islâmica.

O guia supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, se comprometeu a "vingar" a morte de Soleimani e decretou três dias de luto nacional no país.

"O martírio é a recompensa por seu trabalho incansável durante todos estes anos (...) Se Deus quiser, sua obra e seu caminho não vão parar aqui e uma vingança implacável espera os criminosos que encheram as mãos com seu sangue e a de outros mártires", afirmou o aiatolá Khamenei em sua conta no Twitter em farsi.

O presidente iraniano, Hassan Rohani, também prometeu vingança."Não há nenhuma dúvida sobre o fato de que a grande nação do Irã e as outras nações livres da região se vingarão por este horrível crime dos Estados Unidos", declarou Rohani em um comunicado.

UOL, 03/01/2019, 01:25 hs

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Clínica dos afetos - II

A clínica dos afetos poderia ser chamada "clínica da diferença" ou "clínica das multiplicidades". A opção por "afetos" deve-se à estratégica de análise da psicopatologia que sustenta (ou deveria) a psiquiatria clínica. Veja: um paciente (qualquer...) está sob influência incessante de forças que se traduzem no corpo, na alma, na conduta, na existência enquanto afetos, intuições, sentimentos, tendências, emoções, impulsos, instintos, quer sejam criadores e/ou destrutivos. Tal perspectiva metodológica busca eliminar a visão do transtorno mental como evento extra-territorial (fora do meio em torno) o que faz por encaixotá-lo em modelos enrijecidos, frios, assépticos, desnaturados, seja o da visão médica, seja o de outras metodologias como a da terapia cognitivo-comportamental (TCC), sem dúvida, um monumento ao conformismo tornado ciência. Uma clínica dos afetos começa com os afetos em jogo postos pelo próprio técnico em saúde mental. O que Freud chamava de contratransferência pode ser ampliado por uma atitude de implicação ético-estética no que acontece ao Outro, sabendo que este Outro somos nós.

A.M.

Hans Zimmer - Time (Inception - Live in Prague)