sábado, 8 de fevereiro de 2020

ENTONAÇÃO

São tantas mudanças que noto
quanto ao que sinto e ao que vejo,
que se eu me lembro de tragédias
pessoais acendo meu cigarro
e saio do poema


Joan Brossa
A DIFERENÇA NA SAÚDE MENTAL - V

Sob o peso e as palavras-de-ordem do diagnóstico psiquiátrico, como trabalhar em saúde mental? É bom lembrar que esse diagnóstico conta com respaldo jurídico, o que faz da clínica psicopatológica um território existencial vazado por forças de toda ordem: coletivas, morais, familiares, pedagógicas, religiosas, estatais, etc. Desse modo, uma clínica que utilize um determinado referencial teórico como verdade inquestionável (axioma) acabará por engessar os processos criativos tanto no paciente quanto no técnico em saúde mental. A diferença, como conceito, é a linha de cuidado que norteará ações práticas múltiplas. Não estamos falando de uma clínica restrita às paredes do consultório, mas da clínica como um sistema aberto aos dados (signos) com que o real se mostra.Tudo é linguagem, mas uma linguagem a-significante que servirá de trampolim para a ação. Voltando ao diagnóstico psiquiátrico, ele é útil em pedaços para a construção dos dispositivos de acesso às subjetividades oprimidas. Frente a um paciente que vive na rua, por exemplo, a quem serve ou para que serve o diagnóstico fechado da psiquiatria e ainda por cima por baixo e por dentro encharcado de moral?

A.M.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

CASABLANCA - direção de Michael Curtiz,1942

MANIFESTO CONTRA O GOVERNO BOLSONARO

Artistas, intelectuais e políticos do Brasil e de diversos países lançam nesta sexta-feira um manifesto contra o cerceamento de instituições culturais, científicas e educacionais, além da imprensa, pelo Governo Jair Bolsonaro (sem partido). No texto, que inclui até o momento cerca de 1.900 assinaturas, os manifestantes convocam a comunidade internacional a se manifestar publicamente contra a censura no país.
Nomes da cultura brasileira como Caetano Veloso e Chico Buarque, estrelas internacionais como Sting e Willem Dafoe e escritores consagrados como o moçambicano Mia Couto e o português Valter Hugo Mãe assinam a carta. Entre os intelectuais estão o linguista Noam Chomky, o cientista político Steven Levitsky —autor do livro Como as democracias morrem— e os historiadores Lilia Schwarcz e Boris Fausto.
Entre os exemplos do que os autores chamam de “escalada autoritária” o texto cita nomeações, tentativas de mudanças em livros didáticos e no conteúdo de filmes e restrição ao acesso a bolsas de pesquisa em universidades. “A administração Bolsonaro deixou claro que não tolerará qualquer desvio de sua política ultraconservadora”, afirma o manifesto. “A partir de um programa moralista e ideológico fechado e compactuado, essa administração busca mudar o conteúdo dos livros escolares, dos filmes nacionais, restringir o acesso a bolsas de estudo e de pesquisa, intimidar o corpo docente, os jornalistas e os cientistas."
(...)

El País, São Paulo, 07/02/2020, 15:01 hs
O tempo

Este verso é o presente.

O verso que você leu é o passado
– já envelheceu depois da leitura.
O que resta do poema é o futuro,
que existe fora da sua
percepção.

As palavras
estão aqui, se você as leu
ou não. E todo o poder terrestre
não pode mudar isso.


Joan Brossa

VÍRUS ANTIGO


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

LIBERDADE SOB COERÇÃO

(...)
Desde o nascimento do capitalismo, os dois caminhos encontrados para modificar a distribuição de incentivos foram a ação dos movimentos sociais e do Estado, essa última frequentemente vindo estabilizar, para bem ou para mal, as conquistas dos primeiros. Isso significa, por exemplo, impor limites à concentração de renda e de propriedade, de modo a manter sob controle a capacidade de alguns poucos atores influírem nas escolhas de todos os outros; um exemplo seria algo comum durante boa parte do século 20, a legislação antimonopólio. Mas significa, sobretudo, diminuir a coerção a que os indivíduos estão expostos, aumentando sua liberdade de escolha e, com isso, diminuindo o poder do capital sobre suas vidas. A construção de um estado de bem-estar social não era outra coisa se não um projeto para realizar isso.

Se o capitalismo tem o poder de nos fazer escolher coisas danosas para nós, é porque ele tem por fundamento uma coerção: ou você trabalha —e quem decide as condições em que se trabalha é o mercado—, ou você não come. Todas nossas escolhas “livres” acontecem sobre o pano de fundo deste mecanismo coercitivo e mais uma série de condições que não escolhemos. Esse é o segredo da “liberdade” propalada pelos liberais. Liberais inteligentes, é claro, entendem perfeitamente bem que, quando falam de escolha racional, estão falando de uma pequena zona de autonomia no topo de uma pirâmide de constrangimentos heteronômicos. É por isto que, para alguém como John Rawls, a defesa da liberdade e de certos tipos de intervenção estatal não só não eram mutuamente contraditórias, mas se implicavam logicamente. Infelizmente, a maioria dos liberais que populam nosso debate público parece tomar isto como desculpa para fazer de conta que o topo da pirâmide flutua no ar. É assim que se acaba discutindo o direito de vender os próprios órgãos sem qualquer questionamento sobre o mundo em que alguém optaria por vender o rim para sobreviver.
(...)

Rodrigo Nunes, El País, 30/01/2020, 18:25 hs

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

ISSO É ANTIGO -The Platters - Only You - 1955

CLÍNICA E TECNOLOGIA DA IMAGEM - II

Continuando a discutir sobre a "tecnologia da imagem" e seus atravessamentos corporais, chegamos à análise da demanda em saúde mental. O corpo (não o corpo-organismo, mas o corpo-desejo) é atingido em cheio por imagens-de-imagens, fazendo da experiência de si uma experiência plugada aos fluxos semióticos vindos "de fora"mas parecendo vir "de dentro". É que a forma das instituições sociais (cf Guattari e outros demonstraram) está interiorizada, subjetivizada num inconsciente que não mais passa por categorias edipianas. A tecnologia da imagem não é, pois, um mal em si, mas território de sentido de uma verdade subjetiva veiculada por equipamentos de poder. Daí o homem moderno encarnar um tipo de sonambulismo coletivo que a todos arrasta. A incrível aceleração da velocidade do tempo aniquila o Sentido. Efeitos práticos: na clínica, a psicose. Na política, o fascismo.

A.M. 
INSTANTÂNEO #5

Só mesmo uma foto
para nos flagrar
no auge
de um quase


Ana Elisa Ribeiro

ANNA RAZUMOVSKAYA


ISSO NÃO PÁRA


Uma jovem de 29 anos foi baleada no rosto e no tórax pelo ex-namorado neste sábado (1º) em Nova Xavantina, a 651 km de Cuiabá, depois de se recusar a reatar o relacionamento, segundo a Polícia Civil.

Até a última atualização desta reportagem, Karina Souto estava internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital e Pronto Socorro Municipal Milton Pessoa Morbeck, em Barra do Garças (MT), a 516 km da capital mato-grossense.

Ainda de acordo com a polícia, Baltazar Augusto de Menezes, de 58 anos, atirou duas vezes na ex-namorada e, em seguida, disparou contra a própria cabeça. Ele morreu. O caso foi registrado como tentativa de homicídio e suicídio.

Karina estava com um grupo de amigos nos fundos de uma casa de uma amiga, no bairro Santa Mônica, em Nova Xavantina.

Testemunhas contaram à polícia que Baltazar foi até a residência e começou uma discussão com a ex-namorada a respeito do fim do relacionamento. O homem queria que ela voltasse a namorar com ele.

Ao ter o pedido negado, Baltazar pediu a Karina devolvesse um colar que ele havia dado de presente. A jovem entregou o objeto, e então o homem foi até o carro para guardá-lo. Ao retornar, estava com uma arma e cometeu o crime.

Por Denise Soares, G1, MT,04/02/2020, atualizado há uma hora

domingo, 2 de fevereiro de 2020

ENTÃO ELE ME  DISSE: "EU MANDEI DEUS CRIAR O MUNDO"

O mundo caminha para se tornar um grande hospício de portas abertas. Há uma generalização social do que é chamado de transtorno mental. A psiquiatria cumpre a função de tratar para adoecer ainda mais.Chegaremos a um ponto onde cada um de nós tratará do outro e vice versa.A mercantilização da alma já não precisará dos valores de troca do mercado.Ela, a alma, será o próprio mercado intimo da angústia por viver. Grandeza de Marx.

A.M.

Víkingur Ólafsson - Glass: Études, No. 2 | Yellow Lounge

sábado, 1 de fevereiro de 2020

Borboletas

Borboletas me convidaram a elas.
O privilégio insetal de ser uma borboleta me atraiu.
Por certo eu iria ter uma visão diferente dos homens e das coisas.
Eu imaginava que o mundo visto de uma borboleta seria, com certeza,
um mundo livre aos poemas.
Daquele ponto de vista:
Vi que as árvores são mais competentes em auroras do que os homens.
Vi que as tardes são mais aproveitadas pelas garças do que pelos homens.
Vi que as águas têm mais qualidade para a paz do que os homens.
Vi que as andorinhas sabem mais das chuvas do que os cientistas.
Poderia narrar muitas coisas ainda que pude ver do ponto de vista de
uma borboleta.
Ali até o meu fascínio era azul.


Manoel de Barros