segunda-feira, 13 de julho de 2020

O CORPO INVISÍVEL - II

A existência do corpo invisível nos leva a uma opção ética. Ao contrário da ética idealista que reflete sobre a moral, teoriza sobre a moral, trabalhamos todo o tempo com a ética como linha pratica no aumento da força de existir ou na redução desta mesma força. Neste limiar da ação  o pensamento como força inumana faz por dissolver personalidades estanques demasiado humanas em prol de linhas imperceptíveis do espirito. A ética do pensamento, ao contrário do que parece, é uma ética do corpo. E se este espirito é invisível por sua própria natureza, seguindo as "pegadas" de um Deus não hieraquizado, a ética traça linhas de potência misturadas às da impotência. O que irá "dissecar" e triar esse nó de opções  existenciais é a força de um espirito que na falta de uma palavra menos gasta, chama-se Deus. Isso autentica um nivelamento absoluto entre os humanos como força de existir no cruzamento opaco entre as linhas do infinito espaço/tempo. A ética , qualquer que seja ela, está atrelada a esses infinitos, pelo que não há uma ética pura nem tampouco uma ética única e verdadeira que abarque todas as demais. De novo, o corpo-espírito aprofunda-se no pensamento-Deus como o que não tem nome, forma, rosto ou identidade. E ao mesmo tempo está dentro de nós. Pensar (não refletir) é um exercício perigoso porque lida com terremotos da alma, com a loucura, e portanto está na beira de uma linha sem fim chamada Deus. Este não estrutura nem referencia nada, ao contrário, ele é já a Força dos processos de vida que se expressam como fluxo espiritual multiplicado e multiplicante pelos quatro cantos do mundo. Deus está no mundo. Não pensar assim é afundar numa ética do eterno adiamento de uma revolução sem guerra. E por que seria preciso a guerra?

A.M.

domingo, 12 de julho de 2020

Teresa Cristina feat. Criolo - O Mundo e um Moinho

Mapa

De certo, apenas a incerteza.
O copo branco sobre a mesa
e esta aspiração de domingos.
De certo, a morte e seus respingos.

O menino azul quer um mapa,
carta de agir, segura e exata.
Quer seguir rijo, reto e justo
para justíssimo lugar.

O que, então, responder? Desiste,
esse lugar não há e — triste! —
não há mapa, nem portulano,
nem porto lhano onde ancorar.

Como dizer? Menino, os mapas
não são roteiros de achamento,
mas tênues direções de vento
para quem só busca o buscar.


Carlos Machado

sábado, 11 de julho de 2020

O CORPO INVISÍVEL

A figura de Deus tomada como uma pessoa, ou mais precisamente, como uma Forma, nos remete a uma discussão infértil e rebaixada a um pensamento da representação, ou seja, do previamente designado, manifestado, significado em algo, no caso, um Ser Supremo. No entanto, o exercício do pensar sem limites prévios, o pensar-aventura, " seguindo sempre a linha de fuga do vôo da bruxa" implica em assumir o processo de pensar vindo de fora do sujeito. Este não pensa. Algo (invisível) é que o força a pensar: pode ser qualquer coisa, ou seja, um signo. Pensar, portanto, é uma atividade mental que ultrapassa as coordenadas de um eu ou de uma consciência, em prol da exposição dos mesmos aos signos que compõem a realidade. Esta é feita de signos e há sempre exposição a eles. Mesmo na solidão mais extrema, o pensamento é extraído das imagens-signos que rodopiam em torno da experiência de si consigo mesmo, Neste sentido, a concepção de Deus ou de um Deus, para ser inteligente (leia-se: criativa) compõe-se de uma aura invisível dotada de uma velocidade infinita ao ponto de que para pensar é preciso enlouquecer (não como psicose ou outro transtorno, mas como singularização) sob os efeitos de um espírito que nos constitui como corpo. Esse corpo não é o corpo "encarnado" de que falam os espíritas, mas o espírito como o corpo (não o organismo) em si mesmo, o corpo espiritual ou o espirito corporal, aquilo que move os processos enigmáticos e expansivos da vida. Resumindo,o conceito de Deus abrange um complexo de forças que se multiplica como espírito que se multiplica como corpo que se expressa como o sem-forma. O corpo é Deus.

A.M.

EMIL NOLDE


sexta-feira, 10 de julho de 2020

BUTLER DE NOVO

Julio Cortázar encarna uma tradição de imaginação literária e ativismo político extraordinários. Tenho em mente aquela advertência que Pablo Neruda fez há alguns anos: “Quem não lê Cortázar está condenado”. Cortázar acreditava que devemos estar conscientes da linguagem que usamos ao descrever o mundo, pois está repleta de significados inconscientes, histórias sociais, um legado de luta e submissão. É possível que a linguagem que seja mais clara para nós acabe se revelando a mais opaca e até enganosa quando começamos a nos aprofundar na história de seu uso.

Em uma aula de literatura que deu em 1980 na Universidade da Califórnia, em Berkeley, universidade onde sou professora, Cortázar disse a seus alunos: “A linguagem está aí e é uma grande maravilha e é o que faz de nós seres humanos, mas cuidado! Antes de utilizá-la é preciso ter em conta a possibilidade de que ela nos engane, ou seja, de que estejamos convencidos de que estamos pensando por conta própria e, na realidade, a linguagem está um pouco pensando por nós, usando estereótipos e fórmulas que vêm do fundo do tempo e podem estar completamente podres.”

E, no entanto, Cortázar nunca virou as costas à linguagem, nem à política, nem à esperança. Devemos questionar criticamente a maneira como reproduzimos em nossa linguagem as formas de poder às quais nos opomos e também devemos nos esforçar para usar a linguagem de um modo novo que abra uma possibilidade de esperança para o mundo. Utopia não é uma palavra fácil de usar, mas Cortázar não a rejeitou: Cortázar proclamou, como sabem, que Cuba era uma utopia alcançável. E com isso deu esperança à possibilidade de materializar uma igualdade radical de caráter político neste mundo. Ele não sabia se isso iria acontecer, nem embarcou em previsões, mas estava disposto, no entanto, a proclamar, a mobilizar o ato de falar como uma forma de combater o ceticismo e o niilismo de seu tempo. De fato, como é sabido, como membro do Tribunal Russell II, uniu forças com outros para condenar publicamente os crimes cometidos pelos regimes ditatoriais da América Latina. Ele não era juiz e o Tribunal Russell II não era um tribunal de justiça, mas quando os tribunais não cumprem seu trabalho ou quando a fé na lei vacila, existe ainda a possibilidade de fazer julgamentos públicos contundentes; particularmente quando as pessoas concordam em revisar em público as evidências.

Como escritor, Cortázar conquistou o direito de falar em público e escolheu fazê-lo em nome dos subordinados, dos censurados, dos criminalizados por fazer parte da resistência contra as ditaduras, mas também dos torturados e dos desaparecidos, daqueles cuja morte continua desconhecida e sem o reconhecimento dos governos responsáveis por seu desaparecimento. O Tribunal Russell era uma aliança transnacional composta por pessoas que se arrogaram o direito e o poder de julgar ali onde os tribunais fracassaram ou onde o sistema jurídico demonstrou inclusive ser cúmplice dos crimes.
(...)

Judith Butler, El País, 10/07/2020, 13:32 hs
SEM SIRKIS


O ambientalista, político, jornalista e escritor Alfredo Sirkis morreu por volta das 13h50 desta sexta-feira (10), em um acidente de carro no no Arco Metropolitano (BR-493), na Baixada Fluminense. Sirkis morreu no local, aos 69 anos.

A informação foi confirmada pela TV Globo, no local do acidente, e ao G1 por bombeiros, por telefone.

Segundo a Polícia Rodoviária Federal, Sirkis estava sozinho no veículo, um Volkswagem Polo, e seguia em direção à Via Dutra. Na altura do km 74, saiu da pista, bateu em um poste e capotou.

De acordo com pessoas ligadas à família, Sirkis estava indo para um sítio perto de Vassouras, onde iria encontrar a mãe dele e um filho.

Por Gabriela Moreira e Larissa Caetano*, TV Globo e G1 Rio,10/07/2020 17h12  atualizado há 18 minutos

quarta-feira, 8 de julho de 2020

O Suicídio É Uma Solução?

Não, o suicídio ainda é uma hipótese. Quero ter o direito de duvidar do suicídio assim como de todo o restante da realidade. É preciso, por enquanto e até segunda ordem, duvidar atrozmente, não propriamente da existência, que está ao alcance de qualquer um, mas da agitação interior e da profunda sensibilidade das coisas, dos atos, da realidade. Não acredito em coisa alguma à qual eu não esteja ligado pela sensibilidade de um cordão pensante, como que meteórico e ainda assim sinto falta de mais meteoros em ação. A existência construída e sensível de qualquer homem me aflige e decididamente abomino toda realidade. O suicídio nada mais é que a conquista fabulosa e remota dos homens bem-pensantes, mas o estado propriamente dito do suicídio me é incompreensível. O suicídio de um neurastênico não tem qualquer valor de representação, mas sim o estado de espírito de um homem que tiver determinado seu suicídio, suas circunstâncias materiais e o momento do seu desfecho maravilhoso. Desconheço o que sejam as coisas, ignoro todo o estado humano, nada no mundo se volta para mim, dá voltas em mim. Tolero terrivelmente mal a vida. Não existe estado que eu possa atingir. E certamente já morri faz tempo, já me suicidei. Me suicidaram, quero dizer. Mas que achariam de um suicídio anterior, de um suicídio que nos fizesse dar a volta, porém para o outro lado da existência, não para o lado da morte? Só este teria valor para mim. Não sinto apetite da morte, sinto apetite de não ser, de jamais ter caído neste torvelinho de imbecilidades, de abdicações, de renúncias e de encontros obtusos que é o eu de Antonin Artaud, bem mais frágil que ele. O eu deste enfermo errante que de vez em quando vem oferecer sua sombra sobre a qual ele já cuspiu faz muito tempo, este eu capenga, apoiado em muletas, que se arrasta; este eu virtual, impossível e que todavia se encontra na realidade. Ninguém como ele sentiu a fraqueza que é a fraqueza principal, essencial da humanidade. A de ser destruída, de não existir.

A. Artaud (1925)

(tradução: Cláudio Willer)

terça-feira, 7 de julho de 2020

Modo de amar – I

Lambe-me as seios
desmancha-me a loucura

usa-me as coxas
devasta-me o umbigo

abre-me as pernas
põe-nas nos teus ombros

e lentamente faz o que te digo:


Maria Teresa Horta

BEST OF ENNIO MORRICONE - MAN WITH A HARMONICA HQ

O SISTEMA DO DELÍRIO

(...)
o delírio crônico é uma forma clínica  em que a organização subjetiva se mantém sem déficit cognitivo. São os casos, antes discutidos pela psiquiatria  francesa,  chamados  de  “delírios  passionais ou de reivindicação” e “delírios de interpretação”. Funcionam como um território existencial de sentido.Na CID-10 compõem o item “transtornos delirantes persistentes”, capítulo da esquizofrenia.A ideação delirante se desenvolve ao longo de meses ou  anos, e até por uma vida  inteira. A gravidade psicopatológica  varia com as contextualização histórico-vital  de cada caso.Por exemplo, há pacientes  cuja integração social ainda é possível enquanto  outros apresentam dificuldades. Isolam-se. De todo modo, a manutenção da capacidade cognitiva faz por colocar esses pacientes  em situações peculiares, insólitas, constrangedoras no dia-a-dia,  já que,  conforme o senso  comum, à primeira vista "parecem que  não são  loucos mas o são”. Não aceitam tratamento porque não se sentem doentes e/ou com necessidade de ajuda.Essa é uma marca semiológica distintiva em relação aos quadros esquizofrênicos, cujos pacientes acabam por não produzir socialmente, mesmo sem sentimento de doença. 
(...)

A.M. in Trair a psiquiatria

segunda-feira, 6 de julho de 2020

De alguma forma, nunca consegui me ajustar na sociedade. Não gosto da humanidade. Não tenho o menor desejo de me ajustar, nenhum senso de lealdade, nenhum objetivo de fato.

Charles Bukowski
    

domingo, 5 de julho de 2020

Sou voraz
não me apego
ao abrigo da alma
Sou o corpo
o incêndio
só o fogo
me acalma

Maria Teresa Horta