sábado, 13 de março de 2021

SER DE ESQUERDA SER DE DIREITA

Esquerda e Direita não remetem as essências. Elas são (ou deveriam ser) apenas linhas subjetivas usadas para um balizamento político. O que mudar? Por que mudar? Como mudar? Para que mudar? Mudar para quem? São questões amplas para problemas concretos. Todos (não só os políticos) falam em mudanças. Ninguém deixa de falar em mudanças, mormente num país com graves problemas. Seguindo um pensamento das multiplicidades existenciais, é possível falar em muitas esquerdas e em muitas direitas. Tudo vai depender de uma análise das instituições (formas sociais) em jogo num dado momento histórico. Seja um indivíduo: ele pode ter linhas de esquerda e de direita misturadas, entrelaçadas, ao ponto de não ser possível distingui-las. Então, será preciso obter um conceito que abranja um desejo de mudança atravessando modos de subjetivação. Não indagando "quem sou?" (uma identidade) mas, à medida em que o tempo passa, em quem me torno? Ora, se o tempo passa é porque tudo muda, queiramos ou não. Assim, o conceito de "irreversibilidade do tempo" é o que  serve para pensar a esquerda e a direita para além de essências ou formas imutáveis. Não existem essências. O cidadão que acredita encarnar em si mesmo a esquerda ou a direita alimenta-se de um imaginário narcísico e paranóico. Somos simultaneamente esquerda e direita postos sob um solo de incessante mudança, ainda que imperceptível. E para lidar com a vertigem do tempo que passa e não volta e com o dualismo grotesco esquerda~direita que busca tamponá-lo, a arte é a linha afirmativa, não a monumental ou a mercantil, mas a arte como estilo ou invenção de vida, de alegria e de possibilidades (infinitas) de criar um novo mundo. A utopia revolucionária resiste (mesmo encurralada pelo fascismo e seu cortejo mortuário) em toda a sua potência e necessidade atual. Compõe o desejo e a sociedade como o que há de mais digno para escapar do buraco ético em que nos metemos.


A.M. 

quinta-feira, 11 de março de 2021

ÉTICA E CLÍNICA EM SAÚDE MENTAL

Em saúde mental, a ética é indissociável da clínica. Não como ética idealista, ou seja, não como reflexão teórica sobre a moral. Isso é antigo. Trata-se de outra coisa, outro conceito. Está encravado na prática. A ética como aumento ou redução da força de viver. Potência dos corpos. A clínica em psicopatologia é assim a própria ética, ela em si mesma, ética crua, miolo da saúde mental. Impossível não haver uma escolha. A psiquiatria manicomial, instituição hegemônica na saúde mental (por vezes disfarçada de neurobiológica) também é ética, produz uma, ainda que possa ser de destruição e/ou amordaçamento dos afetos. Racionalmente, claro, tudo é justificável, mesmo que  irracional. É que no ato clínico a ética passa por linhas singulares da existência. Entramos e estamos no campo das escolhas finas. Não é fácil. Não há uma chave universal para resolver os dilemas éticos. Não há modelo, não há um protocolo a seguir, exceto o dos hospícios, mais ainda os que pululam à céu aberto. Ou até dentro de nós. Então a ética terá que ser inventada a cada momento num contexto sócio-institucional. Trata-se de um aprendizado dos signos da psicopatologia. Como diria um antigo (e sábio) professor: "depois de tudo que vi, assisti, escutei, estudei, pesquisei e aprendi, chegou a hora". Diante de um paciente (uma vida), o que fazer?


A.M. 

terça-feira, 9 de março de 2021

 Miguel 


1

faz pacto com a folia

no dia-a-dia 

2

a piscina?

uma vitamina

3

é amigo de Sam

sua irmã

4

gosta de viajar

e do luar

5

chegou a surpresa

com certeza

6

suas intensidades

são verdades

7

desenha cores

e amores

8

em tempo de pandemia

fabrica alegria

9

batata frita

ele não evita

10

aos 10

é dez


domingo, 7 de março de 2021

Toda a educação assenta nestes dois princípios: primeiro repelir o assalto fogoso das crianças ignorantes à verdade e depois iniciar as crianças humilhadas na mentira, de modo insensível e progressivo.

(...)

Franz Kafka

OUTROS ENCONTROS

O organismo físico-químico, visível, palpável e mensurável, é o objeto da medicina, onde ela de fato intervêm, e, caso obtenha êxito terapêutico (principalmente por isso), retira mais-valia de poder. No entanto, junto a esse organismo e fora da relação linear causa-efeito, funciona o corpo das intensidades livres. Não é visível, não é palpável, não é mensurável, nem segue os mapas fisiopatológicos vistos em exames por imagem. Distinto da consciência, a qual sempre obedece ordens, ele não obedece, é rebelde e alterna com o organismo fluxos atuais e/ou antigos de afetos nômades. São eles que impulsionam a vida, que são a vida : potência sem forma. Em face desse estado  (real) das coisas, tal corpo traz grandes dificuldades à pesquisa. Como acessar algo que não se vê, não se toca nem se mede? Na clinica psicopatológica é possível observar: há um "corpo que não aguenta mais" e que se expressa em sintomas álgicos (por exemplo, cefaléias crônicas - simbolismo do órgão?), mas também como multiplicidade de sintomas que englobamos sob o nome de angústia. Aqui não se trata de usar a psicanálise como doutrina ou método de trabalho, mas de roubar deste saber complexo a hipótese de um inconsciente para além da representação de papai-mamãe. Um inconsciente "órfão, ateu e anarquista", inconsciente-corpo. Não é fácil encontrá-lo.


A.M.

Goze.

Quem sabe essa

é a última dose?


Millôr Fernandes

Jorge Vercillo - Que Nem Maré

sábado, 6 de março de 2021

O PLANO DE PROPAGAÇÃO DO VÍRUS

A linha de tempo mais macabra da história da saúde pública do Brasil emerge da pesquisa das normas produzidas pelo Governo de Jair Messias Bolsonaro relacionadas à pandemia de covid-19. Num esforço conjunto, desde março de 2020, o Centro de Pesquisas e Estudos de Direito Sanitário (CEPEDISA) da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da Universidade de São Paulo (USP) e a Conectas Direitos Humanos, uma das mais respeitadas organizações de justiça da América Latina, se dedicam a coletar e esmiuçar as normas federais e estaduais relativas ao novo coronavírus, produzindo um boletim chamado Direitos na Pandemia – Mapeamento e Análise das Normas Jurídicas de Resposta à Covid-19 no Brasil. Nesta quinta-feira (21/1), lançam uma edição especial na qual fazem uma afirmação contundente: “Nossa pesquisa revelou a existência de uma estratégia institucional de propagação do vírus, promovida pelo Governo brasileiro sob a liderança da Presidência da República”.

Obtida com exclusividade pelo EL PAÍS, a análise da produção de portarias, medidas provisórias, resoluções, instruções normativas, leis, decisões e decretos do Governo federal, assim como o levantamento das falas públicas do presidente, desenham o mapa que fez do Brasil um dos países mais afetados pela covid-19 e, ao contrário de outras nações do mundo, ainda sem uma campanha de vacinação com cronograma confiável. Não é possível mensurar quantas das mais de 212.000 mortes de brasileiros poderiam ter sido evitadas se, sob a liderança de Bolsonaro, o Governo não tivesse executado um projeto de propagação do vírus. Mas é razoável afirmar que muitas pessoas teriam hoje suas mães, pais, irmãos e filhos vivos caso não houvesse um projeto institucional do Governo brasileiro para a disseminação da covid-19.

Há intenção, há plano e há ação sistemática nas normas do Governo e nas manifestações de Bolsonaro, segundo aponta o estudo. “Os resultados afastam a persistente interpretação de que haveria incompetência e negligência de parte do governo federal na gestão da pandemia. Bem ao contrário, a sistematização de dados, ainda que incompletos em razão da falta de espaço na publicação para tantos eventos, revela o empenho e a eficiência da atuação da União em prol da ampla disseminação do vírus no território nacional, declaradamente com o objetivo de retomar a atividade econômica o mais rápido possível e a qualquer custo”, afirma o editorial da publicação. “Esperamos que essa linha do tempo ofereça uma visão de conjunto de um processo que vivemos de forma fragmentada e muitas vezes confusa”.

A pesquisa é coordenada por Deisy Ventura, uma das juristas mais respeitadas do Brasil, pesquisadora da relação entre pandemias e direito internacional e coordenadora do doutorado em saúde global e sustentabilidade da USP; Fernando Aith, professor-titular do Departamento de Política, Gestão e Saúde da FSP e diretor do CEPEDISA/USP, centro pioneiro de pesquisa sobre o direito da saúde no Brasil; Camila Lissa Asano, coordenadora de Programas da Conectas Direitos Humanos; e Rossana Rocha Reis, professora do departamento de Ciência Política e do Instituto de Relações Internacionais da USP.

(...)

Eliane Brum, El País, 21/01/2021, 16:13 hs

O UNHUDO

Ao zombar do aumento do número de suicídios durante a pandemia, na sua live de quinta, o presidente Bolsonaro repetiu os trejeitos mal-assombrados de O homem que ri (1928). No filme de terror, Conrad Veidt faz o papel de um sujeito que teve a boca deformada para manter um sorriso macabro no rosto.

Quando faz chacota dos 260.000 mortos por covid-19, a munganga presidencial é ainda mais aterrorizante. O homem que ri da tragédia tem inclusive claque para reverberar as gargalhadas. Há sempre alguém rindo por bajulação ou perversidade enquanto mais um brasileiro é jogado em uma cova rasa —muitas vezes sem direito sequer aos sete palmos de terra do regulamento funerário.

Mas não será no horror gótico das antigas que encontraremos paralelo ao comportamento do amaldiçoado. Só uma lenda brasileira explica o “mito” que ocupa a presidência da República —a lenda do Corpo-Seco. Predominante no folclore sudestino, inclusive na sua Glicério (SP) natal, Corpo-Seco também é chamado de Bradador, Barulheiro, Berrador, Bicho Barulhento e Unhudo.

Por onde passa, o infeliz lendário atravanca os caminhos, favorece moléstias, assombra, deturpa, boicota, atrasa a vida dos viventes. Rejeitado por Deus e pelo Diabo, a criatura é incorporada por seguidores capazes de cometer as mesmas atrocidades em seu maldito nome.

Arrepiai-vos, o terror nacional, além muito além do seriado Cidade Invisível (Netflix), está apenas na metade. Temos 22 mal-assombrados meses pela frente. A não ser que apareça um Curupira e legiões de heroicos boitatás capazes de promover um sumiço desse Unhudo. No momento, parece improvável, mesmo com a destruição da floresta e seus derredores.

Corpo fechado pelo Congresso, à prova de CPI ou impeachment, o tinhoso ainda conta com a ajuda do coronavírus para deter as manifestações de rua e outras possíveis barricadas. Nem o Saci Pererê seria matreiro ao ponto de quebrar essa blindagem do cascabulho. E assim o país moribundo é obrigado a dormir, mais uma noite, sob o sonífero tarja preta da Cuca. Nana neném...

É preciso parar essa assombração. Ouvimos aqui e acolá, inclusive entre os senadores mais tarimbados em exorcismos políticos. Nada feito. O Bradador finge que vai para as catacumbas e retorna mais perverso ainda, como nas versões caipiras do Corpo-Seco de São Luiz do Paraitinga, Dois Córregos e da mineira Ituiutaba. É uma peste capaz de tirar sono, juízo e sanidade. Vade-retro.

Caso as lendas do mato não sejam suficientes para brecar o inominável, apelaremos para as urbanas. Quem sabe a Perna Cabeluda, Papa-Figo, Galeguinho do Coque, Biu do Olho Verde, Palhaço do Coqueiro do Janga, Quibungo, Morto da Governadoria, Lobisomem da RFFSA, Cão de Itaoca, Corta-Bundas, Bebê Diabo, Loira do Algodão, Chupa Cabra... Alguém lembra de outras?


Xico Sá, El País, 05/03/2021, 05:30 hs

quinta-feira, 4 de março de 2021

ALEXEY SLUSAR


 

MIL ENCONTROS

Desde tempos idos operamos o conceito de Encontro a partir de Espinosa, Moreno, Martin Buber e Deleuze-Guattari. Estes autores compuseram uma espécie de matriz teórica para pensar o encontro, considerando o próprio encontro com eles. No entanto, para além de um cais seguro, outros autores foram conectados, formando um extenso rizoma onde e por onde linhas de pesquisa se tecem. Mais ainda, além e aquém de tais conexões, o conceito de encontro passou a ser engendrado no devir da clínica em psicopatologia. Observamos: a cada processo terapêutico aparecem signos que enriquecem o conceito, tonando-o peça essencial na construção de uma prática-clínica da diferença. Alguns desse signos podem ser registrados como balizas existenciais numa aventura em plagas do novo, do indeterminado e do desconhecido. Mistério da subjetividade. Em primeiro lugar, o signo da loucura como o lugar do não-lugar das significações prévias. Deserto de valores, vazio de sentido. Em segundo, o signo da morte, da finitude, da perplexidade em face do fio tênue da vida atravessando os discursos. Em terceiro, a irreversibilidade do tempo que passa e não volta jamais, truísmo imbricado na economia psíquica, e por isso nem sempre valorizado. Em quarto, a inferência direta do fracasso monumental da estadia da humanidade na Terra e o seu pesadelo do qual não se desperta. Em quinto, a relação indissociável dos modos de subjetivação com as formas sociais expressas segundo a ordem do capitalismo aparentemente vencedor. Em sexto, mas não menos importante, o corpo como o lugar das intensidades e do brilho da existência. O corpo-a-corpo como a passagem, o nexo, a conexão, o link dos encontros. Tais são a ancoragem do pensamento do encontro com a diferença. Ele pode e deve transmutar-se em mil linhas de intervenção prática na clínica psicopatológica. Seria possível repetir e extrair a alegria de experimentar novos encontros? Sim, mas sem garantias de poder, felicidade, sucesso, dinheiro, prestígio, salvação, valores humanos, demasiado humanos, como diria o bigodudo alemão do século XIX.


A.M.

sossegue coração

ainda não é agora

a confusão prossegue

sonhos afora


calma calma

logo mais a gente goza

perto do osso

a carne é mais gostosa



Paulo Leminski